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É certo que a moção de censura apresentada pelo PCP ao Governo foi ontem chumbada. Não deixa de ser verdade que foi durante a discussão da iniciativa comunista que o primeiro-ministro anunciou a apresentação de uma moção de confiança que tem chumbo garantido, tendo em conta o voto contra já anunciado por PS e Chega. E assim, o país vai mesmo para eleições. Paulo Raimundo, bem-vindo e obrigado por ter aceitado o nosso convite. À luz dos factos que acabei de referir, valeu a pena apresentar a moção de censura?

Sim, ela valeu a pena porque ela tinha dois objetivos fundamentais. Desde logo, denunciar a política do Governo com o qual estamos em profundo desacordo. Não é inédito, não foi de hoje, não foi de ontem. E também não passou ao lado daquilo que foram as declarações do que foi dito no passado sábado pelo senhor primeiro-ministro e daquilo que não foi dito pelo senhor primeiro-ministro. Portanto, perante aquilo que foi dito e que não foi dito, a única coisa a fazer era tomar uma iniciativa. E tomámos a iniciativa, apresentámos uma moção de censura, censurando a política, censurando todo o conjunto destes acontecimentos, identificando que o senhor primeiro-ministro não tinha condições face àquilo que é conhecido. Não é esperar por aquilo que se venha a conhecer. Aquilo que é conhecido é suficiente e é bastante para que não se reúnam condições para o senhor primeiro-ministro se manter em funções. E na sequência dessa nossa decisão, que muitos desvalorizaram, sabemos bem, que muitos acharam que era um frete ao Governo. Ora, aquilo que ela evidenciou é que foi a nossa iniciativa que forçou que o próprio Governo tivesse que reagir. E reagiu da forma como entendeu. Pelos vistos, vamos ser confrontados com uma moção de confiança na próxima semana.

E já agora, para essa reação contribuiu a moção de censura do PCP ou a comissão parlamentar de inquérito lançada pelo Partido Socialista?

Vamos lá ver. Eu não tenho nenhuma dúvida que a proposta que avançámos, em si mesma, foi um despoletar de todo o processo. E não tenho nenhuma dúvida sobre isso. Ela foi essencial para todo este processo. A moção de censura, porque ela atacava os elementos fundamentais do confronto político, não passava ao lado da situação e dos factos em concreto que envolvem o senhor primeiro-ministro e outros membros do Governo, e foi ela que despoletou todo o resto dos acontecimentos. Se quiser, ponho as coisas de outra maneira. Se o PCP não tem de forma rápida tomado a iniciativa, se calhar hoje estávamos a falar de tudo, menos de moção de confiança, menos de comissão de inquérito, menos disto tudo. Continuávamos a falar da família do senhor primeiro-ministro. Ora, não é bem isso que nós precisamos, não é bem isso que o nosso povo precisa e não é assim que se vai responder aos graves problemas do país.

Sobre a comissão parlamentar de inquérito, o PS já disse que vai insistir na CPI na próxima legislatura. O PCP vai acompanhar esta iniciativa? Acha que faz sentido?

Olha, é como eu digo, tudo aquilo que seja possível esclarecer, que se esclareça, tudo aquilo que seja necessário perguntar, que tenha resposta, isso não há nenhuma dúvida e todos os instrumentos são válidos para isso. Esse instrumento é um instrumento em concreto para esse efeito. E, portanto, isso nós não inviabilizaremos. O que nós achamos é que o PS não devia ter inviabilizado a nossa proposta de comissão de inquérito sobre a ANA. Esse é um escândalo financeiro e económico de um prejuízo enormíssimo para o país. Mas pronto, passemos adiante sobre isso. Não será por nós que essa iniciativa não avançará. Agora, pode-se esclarecer muita coisa que há para esclarecer. Pode-se procurar novas informações e são sempre úteis conhecer. Aquilo que é conhecido é suficiente e é bastante para chegar à conclusão de que o senhor primeiro-ministro desenvolveu a sua responsabilidade enquanto primeiro-ministro em profunda incompatibilidade. Portanto, isso está claro. E sobre isso são factos, não vale a pena estarmos a procurar mais nada.

Portanto, por si só, o caso, à luz daquilo que é conhecido agora, ditaria a queda do governo?

Sim, na nossa opinião, sim. Aliás, na nossa opinião, sim.

Há aqui argumento que há alguma desproporcionalidade, tendo em conta que, a partir e à luz daquilo que se conhece, o primeiro-ministro não cometeu, pelo menos não há indicação disso, qualquer ilícito criminal.

Não, mas da minha parte, nenhum membro do PCP, pelo menos que eu conheça, alguma vez identificou sequer essa possibilidade de um indício criminal.

Sim, claro que sim.

Nós não estamos a falar do ponto de vista criminal. Isso os tribunais decidirão o que entenderem, se houver matéria para isso. Não é isso que estamos a falar. A gente está a falar do ponto de vista ético, do ponto de vista do exemplo, do ponto de vista da incompatibilidade política. Nós estamos a tratar das questões políticas, não estamos a tratar das questões judiciais. É nesse campo que estamos. E, portanto, eu compreendo, e afirmei isso ontem no debate da moção de censura, que o senhor primeiro-ministro tenha afirmado no sábado passado que não falaria mais sobre este assunto. Percebe-se por quê? Porque não há nada que consiga esclarecer aquilo que não tem esclarecimento possível. Pronto, e portanto, para nós é uma evidência. Para nós, é como lhe digo, voltando à pergunta inicial, que se encontre os instrumentos todos, que se desenvolva todos os mecanismos de esclarecimento e de fazer as perguntas e com as respostas necessárias. O que conhecemos até agora era mais que suficiente, suficientemente bastante para que não estivessem reunidas as condições para o senhor primeiro-ministro continuar a exercer os cargos. Já agora, se me permite. O problema não é aquilo que o primeiro-ministro ou que o governo vão fazer daqui para frente. O problema está naquilo que foi feito até hoje ou até ontem, se quiser. E o que foi feito até ontem não podia ter sido feito.

Se o primeiro-ministro tivesse desde logo cedido a cota que tinha na empresa aos filhos, o problema não se colocava? Qual é que deve ser a regra?

É assim, não é uma questão de regra, é uma questão de princípios, é uma questão de forma de estar, porque nem truques de linguagem, já agora nem de manobras, porque foi isso que nós assistimos no sábado passado na declaração do senhor primeiro-ministro. O senhor primeiro-ministro fez uma declaração onde se vitimizou Falou de tudo menos daquilo que estava em cima da mesa para explicar ou que merecia explicação, e depois utilizou aquele discurso ao país. Soubemos ontem que estava a fazer um discurso ao país num quadro já de propaganda e campanha eleitoral. Ora, não era disso. Aquilo que o senhor primeiro-ministro devia ter feito no sábado passado era, perante o que se conhecia, perante a instabilidade e a crise política e governativa que está em cima da mesa, a atitude que devia ter tomado era ter-se demitido, ter apresentado a sua demissão ao senhor Presidente da República e ter-se demitido. Isso sim, era a medida que devia ter feito. E depois os acontecimentos decorreriam no seguimento dessa sua atitude. Assim não. Uma das afirmações que utilizei durante a moção de censura é que o nosso povo, aqueles que põem o país a funcionar todos os dias, os que trabalham, os que põem a economia a funcionar, merecem tudo, menos que se brinque com as suas vidas. E nós ao brincar com a política, estamos a brincar com a vida das pessoas.

Mas acha que as pessoas querem voltar às urnas?

Não, essa ideia de que as pessoas não querem eleições, dirão muitos essa questão, não há dúvida. Agora eu pergunto assim: e as pessoas estão disponíveis para continuar numa vida muito difícil, na maioria do nosso povo, muito difícil, muito exigente, com aquele mês demasiado comprido para o salário que têm, para aquelas rendas insuportáveis que sabemos e para aquelas casas que não se conseguem pagar? As pessoas estão disponíveis para um aumento do custo de vida imparável? Todos nós sentimos isso cada vez que vamos às compras, desde logo na alimentação e na energia. Esta é a questão que tem que se colocar.

Para o Raimundo, esse diagnóstico vai mudar com as eleições?

Não, talvez até a questão fundamental é: qual era a discussão que nós íamos ter a partir de hoje nos próximos meses? O que ia ser a discussão política no nosso país? Era sobre a família do senhor primeiro-ministro? Era sobre este ou aquele negócio que fez em 2021, 2020, etc.? Ia ser esta a discussão política no nosso país? Eu percebo a ideia de que as pessoas não querem eleições, mas também certamente não querem que a discussão política se baseie fundamentalmente nestas questões.

Ia fazer uma pergunta e eu interrompi. Peço desculpa.

A questão agora, já que estamos a falar da questão eleitoral, é: o PCP quer ir a eleições? É uma boa altura para o partido ir a eleições?

Então, escutem. Vamos lá ver. Há pouco, quando eu disse que nós não brincamos à política. Nós não apresentámos uma moção de censura para fazer de conta. Nós apresentámos uma moção de censura com o objetivo de derrubar o governo e derrubar a sua política. E portanto, quem faz isto, das duas, três: ou está a brincar, que não é o nosso caso, ou quando avança com uma coisa destas, é a sério. E portanto, eu até diria mais, se ontem tivesse sido confirmada a nossa moção de censura, nós tínhamos poupado uma semana ao país. E uma semana ao país nesta instabilidade político-governativa, uma semana conta. E portanto, nós quando apresentámos a moção de censura foi para derrubar o governo. Ora, derrubando o governo, a probabilidade da assembleia ser dissolvida e haver eleições é muito grande. E portanto, é nisso que nós estamos. Se há coisa que não temos é medo do contacto com o povo e de que o povo julgue como entender.

Ontem, durante o debate da moção de censura, alguém vaticinava que o PCP vai deixar de ter representação no Parlamento, não vai eleger deputados. A verdade é que o partido tem vindo a perder deputados desde 2015. Teme esse cenário, a saída do PCP no Parlamento?

Talvez alguns vão ter que morder a língua, mas isso é outra questão. Aliás, da mesma forma que morderam a língua certamente ontem, quando perceberam exatamente que tudo aquilo que andaram a dizer desde sábado até ontem era completamente ao contrário. Eu ouvi bem, li bem toda a teoria do que é um frete ao governo, o PCP está a fazer um frete ao governo. Ontem tiveram que morder a língua e vão morder a língua também. Desculpem a expressão um bocadinho popularucha, não é apreciativa.

Também há lugar para isso nesta antena.

Não é apreciativa, é nesta conversa solta. Vão ter que certamente morder a língua, porque um partido que teve o confronto que teve com este governo, do ponto de vista político e ideológico, talvez o partido com maior combate político e ideológico a este governo, que apresentou uma moção de rejeição ao programa do governo alertando as consequências daquele programa, que votou contra o orçamento de Estado, alertando para as consequências daquele orçamento. Um partido que faz uma coisa destas tem toda a autoridade para o combate político, ideológico, que o temos feito, e também para o esclarecimento e pedir ao povo e aos trabalhadores que deem mais força. Porque se há uma coisa que o nosso povo conhece bem por experiência própria, é que cada vez que o PCP tem mais força, também do ponto de vista da Assembleia da República, a sua vida melhora. Ora, e é isto que se vai colocar nos próximos meses. Tudo indica que se vai colocar nos próximos meses.

Parte para estas eleições antecipadas com alguma meta na cabeça?

Não. Nós ainda estamos na fase em que há até um próprio calendário. O presidente da República ontem deu-nos o calendário todo. Naquelas entrevistas que deu, apresentou-nos um calendário. Mas claro, há aqui um conjunto ainda de aspetos que se precisam clarificar. E portanto, é como lhe digo, o que nós precisávamos, o que o nosso povo precisa, o que os trabalhadores precisam é que o PCP tenha mais força, para ser esta força de resistência, mas também de proposta e de soluções para o país.

Portanto, eleger mais do que os quatro deputados que têm agora.

Claro, porque esta força sendo muito importante e estes quatro deputados sendo muito importantes, são manifestamente insuficientes para aquilo que é preciso fazer. E portanto, esse é naturalmente um objetivo do PCP, da CDU, mas eu diria até dos trabalhadores e do povo.

Admite coligações pré-eleitorais à esquerda?

Acho que isso não há Acho que não há nenhum espaço para isso. E digo isto sem nenhuma precipitação, porque precipitações já basta aquelas que nós ouvimos no sábado à noite no seguimento da declaração do primeiro-ministro. Digo isto sem nenhuma precipitação, porque acho que não há condições nenhumas para isso, porque que tipo de coligações nós estamos a falar? Que tipo de projetos? Que tipo de conteúdos? Acho que não há nenhum espaço para isso. Aliás, como demonstrou este quase não chegou a um ano ou eventualmente não chegará a um ano, este ano demonstrou que há opções de fundo que se manifestaram inconciliáveis.

E isso invalida também qualquer tipo de coligação ou acordo eleitorais pós, uma reedição da geringonça que seria possível? Se necessária.

Sabe que acusam o PCP muitas vezes de quadrado, de sectário, fechado e atrasado, tudo isso. Mas nos momentos decisivos da nossa vida política nacional, foi sempre o PCP que tomou a iniciativa. E até repescando essa questão que estava a colocar, em 2015 quem tomou a iniciativa foi o PCP. E curiosamente, em 2025, quem tomou a iniciativa foi o PCP. E portanto, olhando para a realidade, para a questão em concreto, nós nunca faltaremos às soluções. Sempre foi assim. Contam sempre conosco para as soluções. Não contam conosco é para a manipulação, não contam conosco para a hipocrisia, para o cinismo e para uma política que não corresponde aos interesses da maioria. Para isso não contam conosco.

Se o PCP for necessário para garantir uma solução de esquerda, então o Partido Comunista dirá presente.

Eu digo assim: se o PCP for necessário para garantir uma solução de uma política que de uma vez por todas deixe de estar ao serviço dos grupos económicos e se ponha ao serviço das pessoas, o PCP não faltará. Agora, essa é a questão central. Podemos chamar esquerda, direita, centro, isso conta muito e não conta nada. Porque aquilo que é necessário é uma alteração política, com uma política que corresponda aos interesses da maioria e não aos interesses de uma pequena minoria que se vai concentrando, acumulando riqueza enquanto a maioria está apertadíssima, como há pouco descrevia. Descrevi e quem está a ouvir sabe bem por experiência própria.

E era também esse um dos fundamentos da moção de censura que ontem foi discutida na Assembleia da República. Paulo Raimundo, muito obrigado pela sua presença na antena da Rádio Observador e neste direto ao assunto aqui a explorar o Partido Comunista e a abordar o momento político que vivemos, momento de crise.