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Este é um podcast da Rádio Observador. Pode ouvir a rádio também em 98.7, na Grande Lisboa, e 98.4, no Grande Porto. No Direto ao Assunto desta terça-feira, é nosso convidado o presidente da Cruz Vermelha Portuguesa, Francisco Georges. Bom dia, muito obrigada por ter aceitado o nosso convite.

O gosto é meu.

O que falta para a concretização da venda do Hospital da Cruz Vermelha à Santa Casa?

Bom dia, antes de mais nada, já disse que tenho o prazer em estar aos microfones da Observador. Em relação ao Hospital da Cruz Vermelha, é preciso notar que há, de facto, um movimento que visa mudar a administração da sociedade gestora do hospital. E é preciso distinguir, antes de mais nada, o Hospital da Cruz Vermelha, que não está à venda, mas distinguir esta entidade da sociedade de gestão, que é uma sociedade anônima.

Mas vendendo a sociedade de gestão, o hospital-

Não. São completamente distintos. Vamos lá ver. Este ponto é bom esclarecer. A Cruz Vermelha Portuguesa detém, como um ativo, que não está à venda, o Hospital da Cruz Vermelha, que é constituído por cerca de três hectares, como se sabe, em Lisboa, e um edifício com equipamentos. Uma obra que foi edificada há muitos anos pelo arquiteto Formosinho Sanchez, que o desenhou e é, diria, um pequeno grande hospital. Pequeno porque tem uma dimensão humana, grande porque tem muita qualidade. A produção tem uma indiscutível qualidade em todas as disciplinas. Acontece, porém, que para fazer funcionar este hospital, há uma sociedade anônima, uma sociedade de gestão, que se chama Sociedade de Gestão do Hospital da Cruz Vermelha Portuguesa. E é esta sociedade de gestão, ao contrário da propriedade do Hospital da Cruz Vermelha, esta sociedade, dizia eu, tem 55% como acionistas a própria Cruz Vermelha e 45% o Estado.

A Parque Pública.

Portanto, a Parque Pública. O que quer dizer que estamos a falar quando se diz vender negociações, cálculos, tudo isto diz respeito à sociedade de gestão, que é uma sociedade anônima, e não ao hospital.

Só para deixar bem claro, Francisco Georges, quando fala do hospital, fala do imóvel e do terreno onde está.

Do imóvel e de toda a edificação, mas também o seu perímetro de artigos urbanos que constituem os 30 mil metros do hospital, que não está à venda.

Isso não está à venda. Portanto, o patrimônio imobiliário não está à venda.

Não está à venda.

Mas a operação do hospital, aquilo que o faz funcionar e a sua gestão é que são feitas através da sociedade anônima e isso é que pode ser vendida.

Formada em 1998, essa agora poderá estar à venda.

De quem partiu a iniciativa de eventualmente fazer este negócio, então da sociedade gestora do Hospital da Cruz Vermelha? Foi da Cruz Vermelha?

Foi da Cruz Vermelha.

Por quê?

Esta formação da sociedade com estas duas grandes parcelas, que são formadas, por um lado, pela própria Cruz Vermelha e, por outro lado, pela Parque Pública, portanto, pelo Estado, nesta fase, revela algumas fragilidades. E, sobretudo, porque, reparemos, a Cruz Vermelha, detentora de 55%, é do setor social. E o Estado, que devia ser neutro, ao associar-se, em termos de acionista, à Cruz Vermelha Portuguesa, fez resultar uma sociedade anônima que entra no mundo do privado, no mercado privado, em saúde, em prestações hospitalares. O que não faz grande sentido, porque a Cruz Vermelha é majoritária, é do setor social, e o Estado, sendo o Estado, devia dar a marca também de âmbito social. E o resultado, como sociedade anônima, tem implicações de, sobretudo, concorrência com o outro, com o verdadeiro setor privado, e isso constitui, como imaginam, um problema.

Então tem constituído um obstáculo. O senhor diz que poderá estar à venda. Depende de quê a venda? Do valor?

Como sabe, a venda depende de quem vende e de quem compra.

Portanto, está em negociações com a Santa Casa da Misericórdia.

Estão a decorrer negociações com uma grande organização do setor social. E por quê? Repare, setor social mais setor social igual a setor social. E portanto, o que nós queremos é que a Cruz Vermelha Portuguesa e o seu hospital seja explorado em termos do seu funcionamento, assegurado o funcionamento, pelo setor social.

Portanto, só venderá à Santa Casa, se houver um entendimento em valores.

Neste caso, é a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, que como se sabe, é uma importante organização do setor social e robusta. É o parceiro natural Para a Cruz Vermelha Portuguesa.

Se a ParPública se mantiver no capital, e não sei em que termos é que está a ser vendida esta sociedade, a ParPública também sai ou pode ficar?

Naturalmente que a ParPública, essa componente de 45%, terá também que essas ações serem colocadas no mercado em termos de venda.

Portanto, a Santa Casa poderia comprar a totalidade do capital da sociedade.

Julgo saber que há esse interesse, mas como lhe disse, decorrem em primeiro lugar diligências no sentido de perceber qual é a situação exata no plano financeiro da tesouraria, quais os ativos, os passivos, os balanços, e esses trabalhos estão neste momento a decorrer.

Isto é negócio para que tipo de montantes? Estamos a falar de milhões, dezenas de milhões? Uma grandeza de valor. Sem querer, obviamente, porque está numa negociação em curso, sem querer, obviamente, dar trunfos ao comprador, ao potencial comprador.

Bem, nós não podemos estar a falar em questão de montantes, porque nesse problema, não é um problema, naquilo que vier a resultar, porque como lhe disse, estão hoje mesmo a decorrer trabalhos que visam perceber com todo o rigor o valor dos ativos da sociedade de gestão. Portanto, há aqui um tempo necessário, mas não estamos, isso posso desde já avançar, a falar de transições de milhões e milhões e milhões. Não estamos a falar de milhões de euros neste processo. Estamos a falar de um processo que está a decorrer com inteira confiança, quer por parte de quem vende, quer por parte de quem compra, na perspectiva de reforçar o setor social das prestações dos cuidados hospitalares na Grande Lisboa.

E na ótica da Cruz Vermelha Portuguesa, este negócio, que vai ser uma receita, seguramente vai ser importante para ajudar as contas da instituição?

Sim, mas reparemos, o mais importante tem a ver com a renda que a sociedade de gestão pagará à Cruz Vermelha, porque como lhe disse, no fundo, há aqui um proprietário, que é a Cruz Vermelha Portuguesa, e depois, diria, um inquilino, que ocupa os espaços e que utiliza esses espaços. E pela utilização, naturalmente, terá que pagar uma renda mensal, anual, aquilo que for estipulado, à Cruz Vermelha Portuguesa. E essa renda é importante para a Cruz Vermelha Portuguesa, porque é também um sinal de distinção em relação ao mercado hospitalar no âmbito da saúde privada. Porque reparemos, o que é que pretende um hospital privado? Pretende ter resultados positivos e depois distribuir os dividendos pelos seus acionistas. É o que qualquer hospital privado pretende. Estes investimentos privados na saúde, no setor hospitalar, na perspectiva desses investidores, os resultados positivos são para distribuir dividendos. Bem, no caso do setor social, e nomeadamente da Cruz Vermelha Portuguesa, não é assim. Nada de mais distinto. Os resultados positivos são importantes, são sempre muito importantes, mas não são para distribuir por acionistas os dividendos, são para investir na atividade humanitária. E esta é a diferença. É a atividade hospitalar do setor privado que pretende fazer render os investimentos aos privados e, pelo contrário, o setor social que visa a obtenção de resultados positivos para investir na atividade humanitária.

Voltar a investir. Isso implica também-

Não é voltar a investir, é investir na atividade humanitária.

Voltar a investir no mesmo tipo de atividades.

Sim, mas é muito importante perceber esta diferença, porque estamos a falar de organizações humanitárias que visam melhorar o bem-estar, a prosperidade da população e não o bem-estar e a prosperidade de acionistas.

Claro, e que devem também ser geridas segundo princípios de transparência. E a este nível, há um ano foram noticiadas buscas da PJ à Cruz Vermelha Portuguesa, à Inspeção-Geral de Finanças e ao Ministério da Defesa. No fundo, as suspeitas são de ter havido um encobrimento por parte da IGF ao facto da Cruz Vermelha Portuguesa não fazer declarações contabilísticas devidas, nem divulgar a origem dos apoios públicos. Em que ponto é que está este processo?

Ainda bem que fala nisso, porque essa é uma afirmação sem fundamento. Acabamos, parece que é de propósito, na Cruz Vermelha Portuguesa, de receber o verdadeiro relatório, porque esse relatório que foi citado pela imprensa não tinha fundamento em termos de veracidade.

Está a falar do relatório da Inspeção-Geral de Finanças.

Era um falso relatório.

Como assim?

Era um falso relatório.

O relatório não existia?

Era um falso relatório.

Não existia.

Tenho aqui no meu computador o relatório 2016/1462.

O que tem aí no seu computador é o projeto de um relatório, que para ser relatório, teria que ter contraditório, e não teve contraditório.

Teve, entretanto.

Teve, entretanto, e foi todo anulado o primeiro.

Já é público esse novo relatório, ou a versão final, quer dizer?

É público dentro de poucas horas, porque acabamos de receber há cerca de uma semana, pouco mais, a versão pré-definitiva desse relatório, que anula o outro.

E diz que tinha contraditório. Foi o Francisco Georges que foi ouvido?

Sim, naturalmente. Não só o presidente nacional, como também os responsáveis pelos diferentes serviços. Mas é preciso notar que o ano de incidência, o foco desse relatório, não coincide com o mandato do atual presidente.

Sem dúvida, 2016. Este projeto é de 2016.

Estamos a falar do mandato do meu antecessor, mas posso assegurar que o relatório, e estou a dizer isto pela primeira vez, foi recebido agora.

Este projeto é de outubro de 2016, este projeto de relatório. Demora três anos a chegar e a ter o contraditório da Cruz Vermelha Portuguesa?

Não, mas isso tem que perguntar aos serviços da Inspeção-Geral de Finanças. Eu aqui tenho uma posição passiva.

Porque os factos a que reporta o relatório não são da sua responsabilidade, porque só chegou depois. Mas este projeto de relatório de outubro de 2016 dizia, por exemplo, que a Cruz Vermelha Portuguesa vive a insólita situação de não prestar contas a nenhuma entidade externa.

É falso. Isso foi tudo anulado e é falso.

Não encontrou a Cruz Vermelha Portuguesa dessa maneira.

Aqui eu sou daqueles que consideram, isto como introdução, a liberdade de imprensa, este exercício que estamos a fazer aqui, é indispensável. E é indispensável para o país, até como controle da própria democracia no país. E por isso sou daqueles que estão sempre prontos a aplaudir tudo o que é liberdade de imprensa. Mas a liberdade de imprensa tem que estar associada à responsabilidade. E se é verdade que há largas semanas atrás, um falso relatório foi divulgado pela imprensa.

Deixe-me só corrigir, Francisco Georges, não é falso, pelo menos era um projeto de relatório sem contraditório, mas o documento existe.

Mas que não tinha sido aceito pelo inspetor-geral. Existe, mas é um falso documento, é um non-paper, é um não documento.

Não falso no sentido em que não exista. Existe, mas não é o relatório final.

Se o senhor fizer um relatório em casa esta noite e redigir e depois uma estação de televisão ou de rádio o difundir, esse documento existe. Não é o relatório. Vamos lá ver se a gente se entende.

Não é o relatório final.

Nem final, nem se é final, porque estava mal documentado, erradamente escrito, com princípios que não são válidos e a tal ponto que os advogados da Cruz Vermelha Portuguesa estão a equacionar se valerá a pena ou não ao relator antigo, que aliás já não é funcionário da Inspeção-Geral de Finanças, ser colocada uma queixa por afirmações que foram feitas que são imprecisas. Sobre isso que está a dizer. Uma das afirmações nesse fake, sublinho, nesse falso relatório. Eu cheguei a ir falar com os principais responsáveis, o editor de uma das estações de televisão de referência e dizer: "Vocês estão a falar sobre este assunto e depois também no jornal semanário, ligado a essa estação, vão pôr esta notícia, que é uma notícia baseada num documento que não existe e que é falso."

Não vinculava à IGF, é isso?

Diga?

Não vinculava à IGF.

Vamos lá falar pra todos perceberem. A Inspeção-Geral de Finanças. Não só não vinculava à Inspeção-Geral de Finanças, como o próprio relator tinha sido expulso por problemas de competência ou falta dela, incompetência da própria Inspeção-Geral de Finanças. E depois ele próprio colocou em estações de televisão, à boa maneira, agora que todos fazem, difundiu um documento que não era um relatório de inspeção.

Portanto, o senhor quando chega à instituição não se revê em nada dessas críticas que saíram cá para fora sobre falta de transparência, falta de prestação de contas, o senhor encontra a casa arrumada, para simplificar.

Não é isso que eu estou a dizer. Eu, durante estes dois anos, ocupei grande parte do meu tempo de gestor. Como sabem, sou presidente nacional da Cruz Vermelha Portuguesa há dois anos. E também como saberão, eu nada recebo em termos de remuneração para fazer um trabalho de gestão complexo, porque o presidente nacional da Cruz Vermelha não tem salário, não recebe senhas de presença, não usa telemóvel, não tem cartão de crédito e não tem lugar ao pagamento per diem, que são os pagamentos de deslocações. Portanto, é inteiramente voluntário, de acordo com as normas internacionais da Cruz Vermelha. E apesar disto, dedica grande parte do seu tempo, mais de 12 horas do tempo ativamente, à gestão da Cruz Vermelha. E faz este trabalho com entusiasmo, como se percebe por estar aqui. Com todo o entusiasmo. Isto para dizer que encontrei problemas de falta de transparência e que foram repostos. Por exemplo, se forem consultar o site da transparência da Cruz Vermelha Portuguesa, ele hoje é um modelo. É um modelo que devia ser seguido por todos, incluindo pela vossa estação, que não sei se tem este nível de exigência de transparência.

Diz que foram repostos os níveis de transparência e foram reportados. Encontrou alguma situação que merecesse a investigação de autoridades?

Não, autoridades não. Encontrei muitas situações que precisavam de correção e essas correções foram introduzidas e houve pessoas que aí trabalhavam, que perderam privilégios.

Mas havia abusos em gastos, por exemplo?

Havia alguns abusos, não lhe vou dizer que não, claro que sim.

Portanto, os cartões que o senhor não tem ou as ajudas de custo havia noutras situações na instituição.

Sim, mas isso foram naturalmente cancelados, anulados em nome dos princípios que devem reger a Cruz Vermelha Portuguesa. E esse trabalho não só foi conduzido logo de começo, como continua, ainda não acabou. Não há lugar aqui a privilégios, ninguém. Nós trabalhamos na perspectiva da redução de sofrimento humano e dar contributos para o desenvolvimento, a prosperidade daqueles que mais precisam.

Mas de tudo isso que encontrou, nada lhe mereceu, de facto, o cuidado de eventualmente pedir uma avaliação das entidades?

Não, por quê?

Estou a perguntar.

Não.

Depende do tipo de problemas que encontrou.

Não encontrei ilícitos no sentido com dignidade criminal, até porque foram depois repostos. Aquilo que foi encontrado foi corrigido. E foi corrigido e tem sido discutido nos órgãos reguladores, nomeadamente na Direção Nacional, no Conselho Fiscal, na Assembleia Geral, no Conselho Supremo. Agora é pena que a imagem da Cruz Vermelha Portuguesa tenha sido beliscada pelo atrevimento de algumas pessoas que não cuidaram de fundamentar as suas afirmações e que por vezes são difundidas em microfones que não deviam ser, porque não se baseiam em fundamentos.

O presidente nacional da Cruz Vermelha Portuguesa, Francisco George, no direto ao assunto das manhãs 360. Muito obrigada por ter vindo à Rádio Observador.

Adeus.

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