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Maria, a roupa que tens hoje fica-te mesmo bem.
Margarida, eu acredito em ti porque somos amigas, mas essa é capaz de ser uma das maiores mentirinhas do mundo da moda.
Ou pelo menos do mundo do atendimento ao público.
"Do Avesso", um podcast sobre moda com Margarida Brito Pais e Maria Ramos Silva. A verdade é que a moda vive de ilusão, vive também de ilusões, mente-nos e ajuda-nos a mentir com a ajuda de simples peças de roupa. E até hoje nos lembramos do poder de um sapato perdido, mesmo que não seja nosso.
Sim, a Cinderela mal passou da meia-noite, mas ainda bem que pensou na roupa, porque senão ainda teria tido menos tempo para conhecer o príncipe.
É um facto. É um exemplo clássico de como um look ajuda a elaborar uma fantasia, a vender uma história que pode não corresponder bem à verdade e ainda assim durar para sempre.
Bem, só não sabemos se o vestido trazia etiquetas sobre composição e método de lavagem, que hoje são essenciais para não sermos enganados quando consumimos roupa.
Ajuda, sim. Olha, há outro mito quase tão profundo como a Cinderela, que é o da intemporalidade. Tu achas que nós podemos acreditar que há peças que fazem sempre sentido?
Eu acho que uma boa t-shirt ou uma camisa branca fazem sempre sentido. Já com os príncipes, não meto as minhas mãos no fogo. A história pode não ser bem assim. Mas umas calças de ganga, por exemplo, também duvido que sejam destronadas.
Também há quem chame bom marketing, Margarida, nestas coisas, não é?
Essa também é uma grande verdade. Sabes o que é que não é verdade? É que uma coisa é melhor só por ser cara.
É outro mito.
É, outro mito. Sobretudo nos dias de hoje, em que muitas vezes pagas sobretudo pelo nome que tens na etiqueta. Uma boa peça é uma mistura de vários aspetos.
É muita coisa.
Tens a qualidade dos materiais, o nível de saber fazer com que é executada, o design, o valor criativo que acarreta, a herança histórica que traduz, em alguns casos, até o potencial de valorização económica. Portanto, está bom de ver que juntar isto tudo não é fácil e que há por aí muitas mentirinhas penduradas em cabides.
Pois é, entre a verdade e a mentira, na moda como na vida, há imensas zonas cinzentas. Temos, por exemplo, aqueles nomes que ficaram para sempre associados a alguma grande inovação, mas se formos ver bem, até já existiam antes. O famoso vestido preto impulsionado por Coco Chanel, na verdade, já vinha um pouco atrás. Mas acaba por receber ali o selo, quase de aprovação, ficar associado.
Aliás, é um símbolo da marca.
É um símbolo da marca.
E por falar em preto, aí está uma cor que, quer gostemos ou não, ajuda-nos sempre a mentir no peso. Por regra. Mas também nos pode fazer parecer doentes. Portanto, é preciso ter cuidado. E atenção também às calças pretas, porque às vezes usamos calças pretas a achar que vão fazer a perna mais fininha. Mas a verdade é que se forem opacas, engrossam as pernas, em vez de adelgaçar.
Então, umas pernas perfeitas, como é que é?
O que é mesmo bom são meias de rede nude.
Isso é muito arriscado.
É verdade.
Isso é uma coisa muito fora. Mas isso funciona?
Hás de reparar nas fotografias de concertos da J.Lo ou da Beyoncé, dá uma olhadela mais atenta.
Eles usam esses truques.
Por baixo daqueles bodies incríveis, estão sempre umas meias de rede nude.
Eu não sei se é uma coisa que depois vai dar-me jeito para usar na rua, mas é uma boa dica.
Pelo longe não se vê.
Não se vê. O que é pa é que nem as grandes estrelas resistem às ilusões de ótica criadas pela moda e não tem mal nenhum, porque se há poder que a moda tem de facto, é o de modelar o corpo. Quer parecer mais alta, escolha calças de cintura subida e corte direito ou à boca de sino. Isto também é um daqueles clássicos que vale sempre a pena repetir. E também podemos sempre optar pelas riscas verticais ou por macacões que geralmente também ajudam a tornar a figura mais alongada.
E depois tens sempre a opção mais óbvia, que eu confesso que usei muito nos meus 20, quando saía à noite, agora essa vida acabou-se, que eram uns belos saltos altos com umas calças que chegavam quase ao chão, tapavam os saltos e ninguém desconfiava que eu só tenho 1,63 m.
Pronto, aquilo ajudava. Olha, quem também abusava dos saltos era o senhor Nicolas Sarkozy, antigo presidente francês, que tinha uns sapatos com umas solas mais grossas que o normal e compensação por dentro e que dava um ar de que era mais alto que na verdade era. Também para parecer mais alto, sobretudo quando aparecia, não só ao lado das figuras femininas, o grande Humphrey Bogart, que já tinha feito a coisa com imenso sucesso.
É verdade. Olha, outros bons truques, desta vez para quem não tem a cintura muito marcada, são, por exemplo, um cinto a apertar a cintura por cima de uma blusa mais fluida ou então um blazer que tenha um jogo de cores que crie a ilusão de uma linha mais curva na parte da cintura. Curva para dentro. Ou até em casos de ocasiões mais formais, mas festivas, casamentos, festas, pode-se escolher um corpete como parte de cima de um vestido ou até conjugar um corpete com umas calças. Até porque é uma coisa que anda aí na moda.
Olha, os ombros largos, que também estão na moda, também ajudam. Porque uns bons enchumaços permitem adelgaçar um pouco a cintura, criam esse efeito mais triângulo. E a pessoa só tem que se preocupar em equilibrar a silhueta na parte de baixo.
É verdade, que é uma preocupação que há que ter em conta para resultar. A medida das saias e dos vestidos também é importante nisto que toca a ilusões, tanto em termos de altura como elegância das pernas. E para quem tem uma anca um bocadinho mais larga e quer disfarçar, a medida dos blazers e coletes é fundamental. Nada de versões curtas, se faz favor.
A não ser que a pessoa queira muito. Nós deixamos sempre isso ao gosto de cada um, obviamente. Mas já agora, que é uma daquelas grandes questões existenciais e tu penso que podes ajudar: e para disfarçar a barriguinha?
Nisso eu estou uma expert, sobretudo graças ao pós-parto. Ora bem, devo dizer que os drapeados são os nossos melhores amigos nessas andanças. Aqueles franzidos ligeiros também podem ajudar. Folhos sobrepostos também é um ótimo truque, cruzados, mas convém é que tenham entre meio palmo e um palmo de largura, porque se forem muito fininhos acabam por fazer mais volume e não disfarçar. Costuras laterais franzidas, cortes cruzados ajudam muito. E se estivermos na praia, há que agradecer a todos os santos esta moda das cuecas de bikini mais subidas.
São mais práticas.
Porque eles fazem milagres, ajuda muito.
A roupa pode ajudar-nos a iludir, de facto, como já têm percebido ao longo deste episódio, até na construção de género, ao longo dos anos também. Tu já viste a quantidade de mulheres que adotaram códigos masculinos do vestuário, fosse por subversão pura ou para tentarem conseguir os seus objetivos. Nós temos sempre a Vita Sackville-West, o seu estilo fluído, ou nomes como a Sarah Edmonds. Imagina, uma senhora que se disfarçou de Franklin Thompson, foi esse o nome masculino que adotou, para servir na Guerra Civil Americana. E há imensos casos destes na história, muito semelhantes. Podemos ir mais longe. No final do século XVII, uma irlandesa chamada Kit Cavanaugh vestiu-se de homem, juntou-se ao exército britânico. Para quê? Para ver se encontrava o marido.
Isso é que é amor.
Não sei se era amor, se ele tinha feito alguma coisa. Não sei bem a história.
Ou amor ou raiva.
Ou amor ou raiva. Não só encontrou o marido, como ainda lhe pediu segredo, porque queria continuar a servir no campo de batalha, e lá conseguiu, coisa que fez até na Guerra da Sucessão Espanhola, imagina.
Impressionante.
Sempre vestida de homem.
E por cá temos algumas histórias parecidas, também contadas na ficção, mas inspiradas em factos reais. É, por exemplo, o caso que conta a série "A Generala".
"A Generala", pois é.
E temos até quem tenha usado este tipo de estratagema para fugir a casamentos arranjados. A nossa Antónia Rodrigues, que no século XVI embarcou rumo a Marrocos e viveu por lá muitos anos como oficial cavaleiro.
Era a versão de uma Joana d'Arc portuguesa. De certeza que nessa altura não tinha era tantos problemas com uma coisa que atualmente me aborrece muito, e que eu acho que também entra aqui no jogo da mentira, que é esta dança de tamanhos. De marca para marca, as medidas da roupa vão variando. Nós nunca sabemos muito bem se estamos num tamanho mais acima, num tamanho mais abaixo. Numas alturas vestimos uma coisa, noutras parece que já estamos a vestir outra. O nosso peso é o mesmo. A estratégia deixa-nos muito perdidos, pelo menos para mim. O que é que tu achas?
Tens toda a razão.
É muito confuso.
É. Mas muitas vezes o que nós nos esquecemos é que a tabela de medidas muda de acordo com a geografia.
Também é verdade.
Isto nota-se muito, por exemplo, nas calças de ganga. Se tu pensares numa marca americana de jeans, o corte vai ser completamente diferente de uma marca latina de jeans, porque as mulheres da América e as mulheres latinas têm corpos completamente diferentes.
Isso lembra-me de outra grande mentira da moda, que são os corpos que são usados como modelo padrão para apresentar as roupas. De facto, há uma percentagem muito baixa da população com aquelas medidas ditas perfeitas ou ideais. E como é lógico, somos levados a crer que a roupa irá assentar no nosso corpo de uma forma que é impossível. O que cria enormes frustrações em casos extremos, até problemas sérios de autoestima, porque nós olhamos sobretudo para as manequins a desfilar aquelas roupas e achamos que aquilo nos vai assentar como assenta ali.
Causa muitos desgostos.
Há um desfasamento grande.
De facto, as maiores fraudes da moda estão realmente ligadas a esta coisa dos ideais de beleza e dos corpos escultóricos. Mas há outras. Sabes qual é a mentira provavelmente mais rentável da história da moda e que mudou completamente a forma como compramos?
Deixa adivinhar. Estamos a falar da fast fashion?
Exatamente. A roupa muito barata permite-nos comprar em quantidade, o que nos dá a sensação ilusória de que temos mais dinheiro na carteira do que na realidade temos, além de uma sensação de satisfação imediata que é viciante, é uma coisa que nos vicia mesmo. De facto, usar uma peça nova de roupa numa ocasião especial dá-nos uma confiança extra. Acho que já todos experienciamos esta sensação.
É aquela euforia de ter algo novo. Cria essa ilusão e cria outra, que é a de que estamos muito mais próximos das marcas de luxo, de um estilo de vida aspiracional. Isto porque temos acesso a uma série de versões mais baratas do que vimos nas grandes casas, do que vimos nos desfiles, e conseguimos ter uma imagem muito parecida ao que vemos no Instagram das marcas que quisermos e até das próprias influencers, daquilo que as vemos a usar.
Por outro lado, a curadoria de um estilo próprio ajuda-nos também a passar a ideia de que somos um pouco mais únicos. Já agora, também é preciso ter cuidado com o fake vintage, que é outra armadilha dos tempos que correm.
Às vezes pensamos que estamos a fazer melhor e, na verdade, estamos a consumir mal de outra maneira. Também há detalhes preciosos que ficam na sombra demasiado tempo. Não vamos chamar-lhe propriamente mentiras, mas uma das omissões mais flagrantes da história da moda envolve o primeiro vestido de noiva da Jacqueline Kennedy. Aquela maravilha de tafetá foi feita em 1953 pela designer Anne Lowe, uma designer de moda negra em tempos de segregação. O casamento foi dos mais mediáticos da história, mas a verdade é que só muitos anos mais tarde é que se associou a criação ao nome da autora.
É verdade. E o vestido esse que foi refeito em 10 dias, porque a primeira versão arruinou-se por um cano que rebentou.
Foi uma tragédia, aquilo teve que ser todo refeito. Depois tem os vestidos e outro tipo de roupa que são mentirosos por si mesmos, mas para contar às vezes grandes verdades. Temos o efeito romplê na roupa e num caso bem recente, até com o vestido nu da Constança Intrud, uma designer nossa, nacional, que já foi incluído até na coleção do Costume Institute do Museu Metropolitan, pelo seu valor cultural, claro, e que bebe ali de outras referências como em Margiela, que também usou muito este recurso. Margarida, e para algo mais viral, temos sempre aqueles desafios de internet, tu lembras-te disto de certeza, o vestido fenômeno de 2015, em que se perguntava às pessoas: está a ver o vestido azul, dourado, preto? Porque aquilo, de facto, enganava a vista desarmada, mas brincava também com estas ilusões óticas todas.
E depois até havia teorias de que se visses de uma cor tinhas personalidades distintas.
Precisamente. Eu já não me lembro o que aquilo me deu.
E não só, até esta tendência de materiais também que criam a ilusão de ser outro tecido. Também temos essa parte aqui. Vejamos o exemplo daquele coordenado de ganga transparente da coleção de alta costura da Chanel. Na verdade, aquilo de ganga não tinha nada. Era um musseline ou chiffon muito bem trabalhados, de forma a criar a ilusão da textura da ganga. E também podemos falar aqui de, imagine-se, casca de ananás, pele uva, que criam alternativas ao couro, ou de seda criada através de fibras de laranja e algas também, redes de pesca. Todos estes materiais andam por aí a criar têxteis absolutamente inovadores.
Ilusões, há novas ilusões. Isso são aquelas mentiras a que chamamos mentirinhas brancas ou boas, porque na verdade fazem todo o sentido. E dão outro episódio, porque isto da inovação têxtil é de facto um mundo fascinante.
Aí está uma coisa que de mentira não tem nada. Até para a semana.
Até para a semana.