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Bem-vindos de regresso a mais um "E o Resto é Ciência". Eu sou o José Manuel Fernandes, comigo está o Miguel Miranda, geofísico, antigo presidente do IPMA, antigo professor universitário. Hoje vamos falar de um tema que tem preocupado as pessoas na sequência das tempestades que vivemos. Não teve o mesmo destaque nos órgãos de informação, mas quem anda pelas redes sociais ou quem vê partilhas de imagens, percebe que há pelo menos duas perguntas que estão a ser feitas. Primeiro, é se vamos ter areia nas praias este verão, porque houve praias que ficaram praticamente sem areia e as pessoas deram por isso. Já vamos ver se isso é normal, se não é normal, o que é que isso pode significar. Por outro lado, houve algumas zonas, isso sim, já foi notícia, onde houve galgamentos. O galgamento é quando as barreiras litorais são ultrapassadas pela água do mar e há zonas litorais que são inundadas. Isso aconteceu parcialmente na Costa da Caparica, aconteceu também na zona de Esmoriz, lá para cima, litoral de Aveiro e Ílhavo. Portanto, em algumas dessas zonas aconteceu isso. São dois fenômenos que podem parecer idênticos, podem parecer ambos resultantes de termos o mar particularmente agitado durante alguns dias, portanto, tempestades, muitos alertas vermelhos dados pelo IPMA, a pedir às pessoas para não se aproximarem da água. Talvez fosse bom perceber que isto são dois problemas diferentes. O primeiro tem a ver com aquilo que nós podemos considerar a evolução da linha de costa. A linha de costa tem evoluído historicamente e nós temos muitas demonstrações disso, desde os registros que vêm, no nosso caso, desde Dom Afonso Henriques, mas até mais recentes. E um outro fenômeno, que é um fenômeno de como é que se comportam as praias que temos, já que para a maior parte das pessoas que não vivem junto ao litoral, as praias são os locais que nós só visitamos no verão, quando o mar está tranquilo, a areia está quente e há muito sol. E isso, de facto, é um ambiente muito diferente do ambiente de inverno. Talvez podemos começar pela outra parte, pela parte mais histórica. Nós temos uma evolução da nossa linha de costa, que nós já referimos aqui em programas anteriores, mais que uma vez, que durante o período das glaciações, portanto, um período que teve o seu auge há 10 mil anos, a quantidade de água que estava acumulada em cima dos continentes, nomeadamente em cima da Europa, em cima dos pólos, fez baixar de forma muito significativa o nível da água do mar. O nível da água do mar chegou a estar mais de 100 metros abaixo do que é hoje, que é uma coisa que faz um bocado de impressão. Só imaginar que de repente tínhamos a nossa plataforma continental seca, os nossos rios a terem a foz bastante lá mais pra diante, alguns que até antes de chegarem à foz se juntavam, como por exemplo, o Cávado, o Ave e o Minho, antes de desaguarem. Essa situação foi evoluindo, mas nós vamos deixar essa parte e temos que ver o que se passou nos tempos históricos. E o que se passou nos tempos históricos, nós temos alguns registros, que são registros interessantes. Primeiro: durante muito tempo, a Ria de Aveiro não existiu como a conhecemos hoje, como uma restinga de areia, onde hoje temos muita ocupação, povoações, e onde temos a própria cidade de Aveiro, numa zona que não é interior, mas é quase interior. Quem conhece a zona de Óbidos, a zona de Alfazeirão, não imagina que Alfazeirão, que fica hoje bem pro interior, era um local onde se faziam barcos, se construíam barcos, era um porto de mar. E podíamos continuar aí com outros exemplos, alguns no Algarve, outros noutros pontos da costa. O que nos leva à questão de saber o que é que aconteceu para, de repente, depois da água já ter chegado a um nível mais ou menos, quer dizer, a água foi subindo, há sensivelmente 3 mil anos ficou com pequenas oscilações pelo nível a que está hoje. O que é que aconteceu? Como é que isso funciona? O que é que aconteceu para, de repente, termos essas alterações tão profundas?
Do ponto de vista da escala geológica, eu penso que já falaste as questões mais importantes. Nós temos um planeta que tem tido, ao longo da sua história, oscilação entre períodos em que o efeito estufa é muito importante, e quando o efeito estufa é muito importante, significa que a água praticamente só existe no estado líquido, e períodos em que o efeito estufa é muito menos importante, o que significa que a água existe no estado líquido e no estado sólido. No estado sólido, essencialmente nas regiões polares. Se bem que existiram fases da história da Terra em que toda a Terra estava gelada, é chamada a Terra Bola de Neve, pelos geólogos, que foi descoberto por um grande geofísico, Paul Hoffman. No ciclo do quaternário, ou seja, da época geológica mais recente, nós entramos no regime das chamadas glaciações. E hoje em dia, quando comparamos a situação atual com a situação passada, por exemplo, dos últimos 100 mil anos, nós vemos que há cerca de 20 mil nós estávamos no mínimo da temperatura, portanto estávamos no máximo da glaciação, e agora estamos perto do mínimo da glaciação, no mínimo glaciar.
O que isso significa é que, por exemplo, nós temos noção que os glaciares dos Alpes, os glaciares dos países nórdicos, os glaciares da Groenlândia, os glaciares da Antártida, estão a recuar Portanto, não há qualquer dúvida sobre essa matéria, porque temos registros históricos recentes de que a frente glaciar, aquela parede de gelo que está à frente do glaciar, hoje em dia está bastante mais para trás.
E temos uma medida física ainda mais simples, que é dada por GPS, pura e simplesmente. A Escandinávia está a subir vários centímetros por década.
Isso é uma das coisas mais interessantes. Está a subir porque tem menos peso em cima.
Tem menos peso em cima, a carga do gelo está a reduzir. E esta ideia de que nós estamos num sistema em que o continente move e o mar também, é o que torna às vezes as questões difíceis de compreender de algumas situações críticas. Portanto, nós temos neste momento uma situação que teoricamente pode-se dizer assim: o que é normal agora é nós entrarmos num período, outra vez, de glaciação. Nós estamos num período em que estamos perto do mínimo da cobertura em gelo da Terra, pode ainda diminuir mais um pouco, e que depois o que estamos à espera é que ela vá aumentar. Quando se fala do problema dos gases de efeito estufa, o problema que estamos a falar do ponto de vista físico, é não chegarmos a esse ponto.
Mas há flutuações, por exemplo.
Mas há flutuações.
Só no nosso tempo histórico, estamos a falar dos 900 anos de Portugal, nós tivemos no princípio aquilo que habitualmente é designado como o pequeno óptimo climático, foi um período mais quente, um período onde até se supõe que, porventura, a temperatura do ar seria para dois graus centígrados acima do atual. Estamos a falar em Portugal, não estamos a falar a nível global. Depois tivemos uma pequenidade do gelo, uma coisa que apanhou ali o Renascimento, o período que vem até aproximadamente o século XIX, e agora temos um novo período de aquecimento, com razões que não são exatamente as mesmas.
Se somam as razões geológicas às razões antropogênicas, e esse, aliás, é o grande problema. Mas é interessante que as pessoas percebam que quando os nossos antepassados de Foz Côa andavam a fazer os seus desenhos, que hoje em dia são tão admirados, há cerca de 20 mil anos, nós estávamos numa situação em que a frente polar estava por cima de Portugal e em que passariam, provavelmente, icebergs à frente dos nossos antepassados.
Não diria de Lisboa, mas digamos de um Tejo que não é igual ao que a gente conhece hoje, mas desaguaria bastante mais longe. Não seria em Cascais.
E o mundo dessa altura era muito diferente do mundo de hoje. O tempo avançou, a parte geológica tem tido subsidências, ou seja, descidas e subidas. O mar tem tido uma subida desde há 10 mil anos, praticamente monótona, tem subido. Valores que são, na escala da nossa vida humana, reduzidos, tem que se compreender isso, valores que não são perceptíveis na maioria dos casos. Estamos a falar de milímetros. Se bem que na escala local pode ser muito importante quando se soma uma subida do mar a uma descida da parte continental. Mas aí estamos a falar da parte sólida da Terra. Ora, essa parte sólida da Terra é erodida continuamente por agentes externos, pelo vento e pela água, no essencial. E essa erosão faz com que grandes quantidades de areia sejam transportadas para os rios, os rios transportam para o mar. Ao transportar para o mar, ela é razoavelmente distribuída ao longo da costa pela aquilo que se chama deriva litoral.
Que é uma espécie de rio de areia, não é?
Exatamente, aquilo é um rio de areia. Aliás, quem se lembra das histórias do sismo de 1531 e quem se lembra do que foi falado aqui por nós dois sobre a chamada o Novo Tejo. O Novo Tejo foi construído, em particular, porque os agricultores reclamavam que havia demasiada areia transportada pelos rios. E essa areia não era boa para a agricultura, porque a agricultura gosta muito de nutrir, mas é de um certo tipo, não é propriamente grandes quantidades de areia. Só que a partir do momento em que a ocupação humana se tornou muito densa, não foi possível conviver com rios selvagens. Isso pode ser, do ponto de vista ambiental, bastante interessante. A natureza é um valor, mas nós não temos capacidade de viver em cidades ou viver da agricultura numa situação em que os rios são selvagens. E, portanto, nós construímos barragens, nós construímos barreiras ao comportamento dos rios. E essas barreiras fizeram, em particular, reduzir a velocidade do rio e, portanto, a erosão. Fizeram também aumentar algum armazenamento de areias nas barragens que foram construídas e reduziram bastante o aporte sedimentar à costa.
Pois, aquilo que nós podemos dizer é que as areias que temos, há vários fatores. As areias são móveis, que é uma coisa que as pessoas têm que ter noção. Se nós estivermos numa praia e se virmos, basta às vezes pôr um patinho dentro d'água pra ver o que lhe acontece, ele não fica sempre no mesmo sítio, vai andando, às vezes pra norte, outras vezes pra sul, outras vezes pro oeste, outras vezes pra leste. Se ela anda cá em cima, a areia também anda lá embaixo. E, portanto, o que nós temos é um sistema dinâmico. Pra esse sistema se manter em equilíbrio, digamos assim, é preciso que a areia que chegue compense a areia que sai. E a areia que chega, chega de onde? Chega dos rios, chega de alguma deriva litoral, no caso da nossa costa, pode vir do norte, de Espanha, por aí abaixo, ao longo da costa, a chamada deriva litoral. Depois há uma parte que até pode vir de terra levada pelos ventos. Outra que vem pra terra também trazida pelos ventos. Quem, por exemplo, conhece a zona do Guincho, sabe que por trás da praia do Guincho e da praia da Casimina, há um conjunto de dunas Sim, quem frequentar aquilo com mais regularidade. Estão sempre a mexer-se, e a Câmara de Cascais passa a vida a ter que construir uns passadiços novos, porque os passadiços estão sempre a ficar debaixo de areia, e a areia muda de sítio, e as dunas mudam de sítio e às vezes também ficam no ar. Portanto, é um sistema móvel. E depois ainda podemos ter algo que talvez seja um problema para aquilo que acontece quando há estes grandes temporais, que é: nós temos os antigos vales dos rios do tempo em que a água estava lá mais abaixo, os canhões submarinos, e quando a areia cai num canhão submarino, já não volta.
O canhão submarino é mesmo um rio oceânico, chamemos assim. É um processo hidrodinâmico. Normalmente existe um bocadinho a ideia de que estamos a falar de uma falha geológica, e não é necessariamente isso. É um processo hidrodinâmico, e que tem a ver com a interação entre o continente e o oceano.
O canhão submarino mais conhecido de Portugal é o da Nazaré, por causa das ondas, não é?
Exatamente.
Mas esse não é diretamente associado com o rio.
Não é, mas também tem um grande efeito de transportar material pro fundo do oceano. Mas conhecemos aqui o Canhão de Lisboa e o Canhão de Cascais, que aliás corresponde às duas antigas posições da foz do rio Tejo. Não sei dizer o plural de foz, como já perceberam. O que é importante perceber-se é que a praia, vista por um geólogo litoral, e eu trabalho como geólogo litoral todos os dias, portanto, sou infernizado continuamente por este processo, é um sistema dinâmico em que durante o inverno e o verão há um ciclo.
Miguel, já vamos a isso, mas primeiro acabar a parte do que aconteceu ao nosso litoral. Nós tivemos uma fase em que houve acumulação. Aparentemente, nós tínhamos, por exemplo, uma baía grande na zona de Aveiro. Aveiro chegou a ser uma povoação com porto de mar aberto, no século XV, XVI, ser muito povoada, 16 mil habitantes, e depois, de repente, começou a fechar. Houve uma altura que quase fechou, portanto, teve que haver obras de engenharia para permitir que o porto de Aveiro voltasse a funcionar. Houve uma fase em que perdeu quase todos os seus habitantes. Fizeram-se as obras, e agora o que está a acontecer, e nós notamos isso na zona norte, na zona de Esmoriz, na zona do Furadouro, e também a sul, Costa Nova, até Mira, notamos que as praias estão a recuar e esse movimento, algum dele, começou até antes de haver barragens. As barragens acentuaram este movimento de recuo, porque a partir do momento que deixou de haver areia a chegar, a areia continua a sair, porque a água vai levando a areia. Por exemplo, nós temos uma povoação perto de Peniche chamada Togia da Baleia. O nome é um pouco estranho, porque é uma povoação no interior. Aquela povoação tem esse nome, porque houve uma altura em que as baleias, uma baleia qualquer terá ficado ali. Peniche era uma ilha, hoje em dia é uma península. Temos aqui movimentos que durante um período histórico vieram num sentido, e aparentemente durante o período histórico, sobretudo durante esse tal período ótimo climático, um pouco mais quente, com mais agricultura, a agricultura provoca mais erosão, mais partículas a serem levadas para o mar, e esse período foi de alguma forma revertido aqui para trás. E aqui há dois fatores. Tu falaste das barragens. Além das barragens, quero te fazer outro desafio, que é: nós temos uma coisa que não há muitas no mundo com essas características, que é o marégrafo de Cascais. E o marégrafo de Cascais mede o nível do mar, numa zona que não é estuarina já, é mar mesmo. E aí sabemos que a água do mar está a subir. O ritmo de subida, inicialmente, num período longo que vem, era relativamente tranquilo, 2 mm por ano, e agora nos últimos 15 anos, passou pro dobro disso. Portanto, a água do mar também está a subir.
A água do mar está a subir. Vamos lá, deixa eu começar do princípio. O marégrafo de Cascais não é assim também muito em mar aberto, porque ele agora foi apanhado pela marina de Cascais. Mas é o nosso marégrafo mais antigo com lagos desde o final do século XIX. E portanto, são medidas inquestionáveis, mas o que eles estão a medir é a variação relativa, ou seja, como é que o mar está a subir em relação à posição do marégrafo. Claro que se a parte onde ele está instalado subsidir um bocadinho, ele some isso ao que está acontecendo no mar. Mas é verdade que o mar está a subir por duas razões que são muito simples de compreender. A primeira é devido à temperatura. O mar está um pouco mais quente. Claro que não está todo muito mais quente, mas está muito mais na parte dos primeiros 700 metros.
E todos sabemos que um objeto mais quente dilata.
Quando eu era jovem, falava-se numa experiência que era o anel de Gravanz, já ninguém se lembra, mas que era uma espécie de um anel e uma esfera que se aquecia com uma lamparina de álcool e verificava-se que uma vez quente já não conseguia passar o anel.
Todos nós sabemos, eu pelo menos sei, quando tenho que abrir um frasco e o frasco está muito perro, uma das formas de abrir é pôr a tampa de metal debaixo d'água quente, pra ela dilatar um bocadinho e a gente conseguir.
E o mar dilata. E o que vai fazendo a elevação da água faz com que isso seja um fenômeno global. E portanto, claro que depois o mar, como não é homogêneo e tem alguma estratificação vertical, as contas não são tão simples de fazer. Mas é evidente que nós temos mais ou menos um grau e meio mais quente que há um século, quente do período industrial, e portanto, obviamente, que o mar está um bocadinho mais alto. E vai continuar a subir, porque o mar tem uma grande, como se chama agora socialmente, resiliência. Os processos são lentos no oceano, e portanto, mesmo que agora deixássemos de fazer emissões de gases de efeito estufa, o mar continuaria, pelo menos uns bons séculos, a continuar a subir. Essa subida é uma subida lenta É uma subida lenta que pode acelerar, é verdade, a partir do momento em que o gelo que está em terra se funda e se junte também à água do mar. Nessa altura, podemos ter uma subida mais importante. Enquanto isso for razoavelmente moderado, nós vamos ter sempre o oceano cada vez mais em cima, que se vai somar ao efeito das tempestades e aos efeitos mais temporários no aumento do nível do mar.
Já vamos aos efeitos das tempestades. Acabamos aqui a primeira parte. Estamos de regresso dentro de alguns minutos. Estamos de regresso ao "E o Resto é Ciência". Estamos a falar de praias, de mar, de litoral. Miguel, estavas a falar precisamente do efeito das tempestades. Isso é uma coisa que se notou muito agora. E se notou muito porque, por exemplo, uma das coisas que circulou é que de repente o Guincho não tinha areia.
Exatamente.
Mas acontece muitas vezes, não é?
Exatamente. A primeira pessoa com quem eu tive a sorte de falar sobre estes assuntos foi o Alberino Dias, o professor Alberino Dias da Universidade do Algarve, que me disse uma coisa que na altura eu achei bastante estranha, que é: nós nunca sabemos quando é que se forma o degrau da maré baixa durante o inverno numa praia, mas ele forma-se sempre. Ou seja, há processos que nós podemos não ser capazes de prever em que dia que vão ocorrer, nós sabemos que eles têm a ver com este ciclo de verão e de inverno e com o diferente sistema de correntes e de ondulação que atinge a praia. E quando nós temos uma ondulação muito forte, que é típica de inverno em Portugal, essa ondulação primeiro estimula a deriva litoral e a segunda questão é que ela vai retirar areia à praia.
E a ideia que há muitas vezes, para quem não conhece isto, eu vi agora muitas coisas escritas, por exemplo, sobre a costa da Caparica, que já vamos ver que a costa tem características diferentes do Guincho. E quem diz diferentes do Guincho, a gente pode ir pelo litoral acima e apanhar outras situações. Eu recordo-me, e recordo-me muito bem, porque agora como moro perto de uma praia, não vou à praia só no verão, também passo pela praia no inverno. E quando foi a grande tempestade Hércules, portanto, em 2014, a praia que eu costumo ir desapareceu, literalmente. Desapareceu, não ficou lá areia nenhuma. Estou a falar de uma das praias do litoral de Sintra.
Sim, estás a falar da Praia Aérea. Porque há duas praias.
Exatamente. Eu achei aquilo uma coisa muito bizarra, mas tu já vais explicar porque é que o senhor tinha razão. Na altura, aquilo haviam umas obras físicas lá, há um restaurante na praia e o senhor do restaurante disse: "Epá, vocês não voltem a construir esta coisa aqui, esta espécie de esplanada, porque isto há um inverno destes, vai outra vez tudo pelo mar" e "Ah, está bem, pronto, então a gente vai trazer areia". E ele disse: "Não tragam areia, que a areia está lá adiante", e ele apontava para o mar, "e, portanto, ela há de voltar". E eu, na altura, achei isto: como é que ele sabe isto? Além da experiência feita. Mas isto tem uma explicação.
A parte mais espantosa é que, na verdade, há duas praias. Há a praia aérea, que é aquela que nós vemos. Eu não, que não sou grande amigo da praia, mas quem é muito amigo da praia, por exemplo, tu. E há a parte chamada praia submarina, ou seja, a praia prolonga-se por baixo do mar até uma certa profundidade. O grupo do Rui Taborda, que é outro investigador muito conhecido desta área, calculou que existe uma profundidade chamada profundidade de fecho, que é cerca de 11 metros na costa oeste e seis metros na costa do Algarve. São valores empíricos, mas são razoavelmente bem estabelecidos. A areia circula entre a praia aérea e a praia submarina e, portanto, durante o inverno, há transporte da praia aérea para a praia submarina e durante o verão, ou pelo menos quando as condições de tempo são melhores, há transporte no sentido inverso.
E há uma coisa que ajuda as pessoas a perceber isso, pelo que eu também percebi. Quando a areia é transportada para a praia submersa, forma uma espécie de duna submarina.
É uma barra.
Uma barra.
É o que se chama uma barra.
E essa duna é onde se formam as ondas de que gostam os surfistas.
É verdade.
E os surfistas vão à praia todo o ano também.
E no inverno, muitas vezes. Exatamente, também por causa disso, porque a surfabilidade aumenta em muitas regiões. E o que é interessante é que desde que a praia esteja naturalizada, este ciclo é razoavelmente reversível. Quando é que ele se torna não reversível? Quando esprememos a praia. O que é que é espremer a praia? Quando nós ocupamos demasiado com construção do lado de terra, nós começamos logo por impedir uma questão, que é a reposição das dunas. Porque reparem, não só a areia circula da parte aérea para a parte submarina, como circula da parte submarina para a parte aérea e depois da parte aérea para as dunas, para o sistema dunar. Mas se nós esprememos a praia, não há aquilo que se chama em engenharia hidráulica, fetch. O fetch é, digamos, a praia é tão curta que o vento não consegue ter capacidade de transportar areia.
Antigamente, quem tinha uma experiência de viver com estes ambientes, sabia como é que se fazia. Porque se nós virmos, por exemplo, os famosos palheiros dos pescadores litorais na zona de Mira, por exemplo, ali na zona norte da Figueira da Foz, esses palheiros eram construídos em cima de estacas, e eram construídos em cima de estacas para a areia andar por baixo.
Mesmo os passadiços, que se tornaram, felizmente, um hábito nos últimos anos, são uma solução muito interessante. Também é verdade que, por vezes, é preciso pôr cobertura biológica para ajudar a solidificar as dunas. Mas reparem, a grande vantagem do Guincho é que o Guincho tem sempre fetch. O Guincho tem espaço para que o vento desenvolva a energia necessária para transportar de volta à duna a areia que veio da praia submarina Nós temos algumas situações no norte em que a praia está cada vez mais estreita e já não há capacidade de reposição da região dunar. E este problema não é português, é problema da Europa toda. A Europa toda está a perder areia.
A situação da costa de Caprica é parecida. As obras litorais são parecidas à Costa Nova, são parecidas a Espinho, à Torreira.
O problema é que nós, durante o século XX, para proteger zonas balneares.
Que é uma invenção do século XX.
Que é uma invenção do século XX. E para inventarmos, como sabes, portos de abrigo, fizemos muitas obras de engenharia que eram necessárias para proteger essas regiões. E essas obras que interrompem a deriva litoral têm um grave problema: é que elas, a montante da deriva, acumulam sedimentos ou areia e, a jusante, depleta ou retiram a areia.
Acho que todas as pessoas, talvez os mais novos não tenham memória disso, mas vão ver uma fotografia da praia da Figueira da Foz antes da construção do molhe do porto, e a praia da Figueira da Foz, que era uma praia litoral normal, com 100, 150 m de largura, hoje em dia tem 1 km.
E, portanto, nós começamos a ter um problema que é como é que vamos repor aquela circulação que estamos a interromper.
Quer dizer, tem 1 km a norte da coisa. A sul, não tem nada, desapareceu a praia.
Basta abrir o Google Earth e olhar para todos os pontões e os esporões que estão construídos na costa portuguesa pra se ver este efeito. E, portanto, para nós conseguirmos repor a circulação sedimentar, só há duas formas. Aliás, só há uma forma, que é transportar a areia de um lado para o outro, fazer aquilo que se chama um bypass. Os bypasses deram, como sabes, não sei se se referem a isto numa notícia daqui há pra um mês e pouco, também são problemas, porque ao colocarmos areia, mesmo antes da profundidade de fecho, ou seja, antes dos tais 11 metros pra que ela volte pra praia, nós também criamos uma barra, e por vezes a circulação marítima não fica muito feliz com essas barras quando criam alterações de morfologia.
Estás a falar do que aconteceu com aquele cargueiro.
Não sei se será exatamente isso.
Pode ter uma relação.
Pode ter alguma coisa a ver. E, portanto, o que significa aqui é que começaram-se a pensar assim: se nós não podemos pôr obras de engenharia dura, se nós queremos, na verdade, defender as nossas zonas de lazer e defender as nossas praias e até as dunas e todo esse sistema, vamos tentar arranjar aquilo que se chamou engenharia suave. E a engenharia suave é então dizer assim: se realmente a areia circula essencialmente entre a praia aérea e a praia submarina, quando a praia está curta e os banhistas não estão suficientemente satisfeitos, ou há riscos, por exemplo, de a construção ser destruída, vamos colocar areia nesse sistema pra que ela volte lá. Isso é uma estratégia que funcionou na Holanda, essencialmente, numa operação que eles chamam o motor de areia, Zandmotor, em que essencialmente coloca a areia que vai derivando outra vez no sistema pra que ela volte a recircular. O grande problema é que esse circuito tem percas, e esse circuito não é eterno. E, na verdade, há sempre uma parte que se perde e ao longo do tempo, alguma da areia que nós colocamos vai pro mar profundo.
E não havendo alimentação vinda dos rios. E na alimentação não vem dos rios, tu falaste há pouco das barragens, mas ainda há as dragagens, não é?
Ainda há as dragagens, mas o problema tem tudo a ver um pouquinho com o mesmo. A areia, esta é a parte mais fantástica, é um recurso finito. Nós sempre imaginamos que a areia é um recurso infinito, porque achamos que podemos, e assim estar a arranjar uma grande falha turística.
Não conseguimos ir buscá-la de avião à Sara.
Exatamente. Mas é um recurso finito, ela é muito utilizada pra construção. E nós temos os nossos concidadãos que vivem na Madeira ou nos Açores, sabem a meia dificuldade que é arranjar areia pra construção civil, pra fazer cimento. E por que é que as obras são mais complicadas de fazer e mais difíceis. E sendo um recurso finito, nós temos que tratar como tal, porque ele tem um valor e tem um custo. E depois isto é um balanço que deve haver. Nós temos praias extensas, nós temos uma parte da indústria turística que vive criticamente desse fator. Temos uma estratégia que não pode ser apenas hard, também tem que ser soft, não pode ser apenas fazer pontões, porque já sabemos que isso resolve de um lado e piora do outro. Apesar de resolver, às vezes, algumas situações.
Não pode só fazer muralhas pra proteger as casas que ficam por trás, porque há casas demasiado perto, às vezes, da linha d'água.
Temos que reforçar com areia. Eu devo dizer que eu, quando fui confrontado com este problema, devo lhes dizer que foi na questão das obras do Porto de Setúbal, fazia-me bastante confusão por que nós estávamos a apostar em investimentos que eram muito significativos, pra uma coisa que sabíamos que ia durar uns anos. E um colega, aliás, mais exatamente, o Rui Taborda, disse uma expressão que na altura me ficou na cabeça e que foi assim: "Temos que ver isto como a pintura de uma casa. Nós pintamos a escada, sabemos que ela vai durar cinco anos, ou seis anos, ou sete anos, até que fique destruída. E pormos areia num sistema deste tipo é como pintarmos uma casa. Temos que ver este ponto de vista. Mas se é como pintarmos uma casa, nós temos que ver os custos da pintura."
E os custos da pintura, quem é que os suporta, no fundo? Nós podemos considerar que há uma parte disto, faz sentido pensar em renaturalizar algumas zonas, algumas dessas povoações. Por exemplo, uma terra que temos falado muito, que é Espinho Espinho, a terra do nosso primeiro-ministro. Espinho, no final do século XIX, havia outra Espinho, uma antiga aldeia de pescadores, ou uma vila de pescadores, que ficava a 100, 200 ou 300 metros à frente daquela frente do mar hoje, onde está o cassino. Tudo isso desapareceu, porque o mar aí avançou ainda no século XIX. Ainda não havia barragens, ainda não havia nada disso, mas havia variações. Na altura, como provavelmente era gente pobre, ninguém se incomodou muito, mas agora é diferente.
Sim, mas nós temos tudo nessa região. Por exemplo, no segmento Esmoriz-Torreira, que é considerado o segmento mais crítico, temos recuos de 1 metro por ano, praticamente. Noventa centímetros por ano é um recuo grande. Ao fim de 100 anos, são 90 metros. Desculpa, 90 metros. Estou a exagerar. Mas 90 metros é uma distância muito grande numa zona, em particular, que é do domínio público marítimo. E foram feitos muitos estudos em Portugal sobre este assunto. Houve uma comissão que trabalhou seriamente nesta área e o que está publicado na literatura é que o custo médio anual pra esta região, que é a pior, estamos a falar de um valor que não é longe dos € 100.
Tu estás a falar em 100 metros, eu acho que pode ser mais. Eu tenho aqui uma referência que, por exemplo, na Costa Nova, também por causa do efeito dos molhes, entre 47 e 58, 10, 11 anos, o recuo foi de 200 metros.
Sim, mas isso é o efeito molhe. Isto aqui foi 300, isto aqui é um efeito praticamente persistente.
Sim, claro.
E este custo já é tão elevado, que a conclusão da comissão, e eu tive o prazer de os ouvir, é que provavelmente vamos ter que misturar retirada controlada de habitações e de construção que está perto da costa com fornecimento de areia, que tem um valor muito elevado. Portanto, isso tornou-se essencialmente um problema que também tem que ser visto como um problema económico. O recuo organizado das construções é socialmente complicado de ser feito. Levanta problemas de propriedade.
Eu fiz reportagens na altura disso, há muitos anos, uma cobertura muito controversa e que se conseguiu fazer, que foi nas dunas da Ria Formosa. Havia muita construção ilegal, tinha essa vantagem, quer dizer, havia a vantagem em termos de intervenção pública. Aquilo era ocupação do domínio público, era abuso. Gente tinha construído onde não podia. Mas conseguiram se tirar lá as casas. Apesar de tudo. E estamos a falar de muitas casas que saíram dessas zonas. Mas estamos a falar de anos 80, e eu dou apenas um exemplo que eu acho que as pessoas têm de imaginar. Numa das vezes em que eu vou lá essa operação, que começou às 7 da manhã, 6 da manhã, eu estava lá, na altura eu trabalhava no Expresso, eu estava lá com um repórter do Expresso, e éramos os únicos notícias presentes. Eu acho que hoje teria 100 jornalistas e 20 câmaras de televisão se aquilo acontecesse. Não sei se nessas circunstâncias, os bulldozers tinham avançado.
Hoje teria 100 jornalistas e apenas dois operários.
Provavelmente.
Porque também não há operários, há mais jornalistas que operários. Mas repare, essa situação, hoje em dia, é muito difícil de existir. E basta ver que é a mesma coisa que se prende com as chamadas construções em leito de cheia. Nós estamos numa fase de reconstrução da área que foi destruída pelas cheias do mês passado, e é óbvio que não há soluções boas pra um problema deste gênero, porque é fácil pra quem está num gabinete, numa universidade, peço desculpa para os colegas universitários, dizer: "Tire-se daí as pessoas, tirem-se as construções do local". Mas nós temos questões sociais, culturais, históricas, familiares, que são muito difíceis de ser geridas de uma forma justa. E o mesmo se passa aqui com a proteção da costa. Eu diria, se me permite, eu sou físico e portanto eu acredito em tecnologia e na ciência, e diria que a engenharia costeira vai ter que passar de uma fase primitiva, de fazer construir obstáculos, a uma fase mais sofisticada, que seja capaz de construir proteção pra energia do mar, que seja capaz de não reter sedimentos da forma como acontece hoje.
Quem talvez tenha feito bom trabalho nessa área, tu já citaste os holandeses. Os holandeses têm boa parte do país a um nível abaixo do nível do mar, portanto, por trás de diques. Nós temos realmente a aprender com eles?
Temos que aprender com eles, mas as condições oceânicas não são iguais.
É um bocadinho mais tranquilo, mais protegido.
Isto aqui é muito mais energético. A relação que eles têm com o mar faz com que os custos, pra termos uma ideia, os custos calculados para Portugal são 25 vezes superiores aos custos da Holanda, por habitante.
Bem, e eles são muito mais ricos que nós.
Eles são muito mais ricos que nós. E portanto, eu tenho mais confiança que eles sejam capazes de desenvolver tecnologia pra ter molhes transparentes ao sedimento. Eu imagino sempre coisas que são impossíveis, mas sabes que a ciência também evolui. Sim, nós precisamos de barragens que não impeçam a passagem das espécies de peixes que precisam de migrar pra cima e pra baixo nos rios.
Bem, já existem eclusas pra isso.
Já começam a haver eclusas pra isso, e não havia no passado. Precisamos de barragens que retenham menos sedimentos, ou pelo menos menos sedimentos que sejam necessários pro litoral, e precisamos de obras litorais que sejam capazes de ser mais inteligentes do que o que são hoje. Porque nalgumas destas áreas, e esta é a parte que eu diria que é mais interessante, é que nós progredimos do ponto de vista tecnológico em coisas fantásticas. Vamos à Lua, queremos ir a Marte, somos capazes de desenvolver coisas fantásticas. E, por vezes, há certas áreas em que nós continuamos exatamente com a tecnologia dos romanos, e a água é uma dessas áreas. Eu fiz parte de vários painéis de avaliação e não me posso esquecer de um grande hidrologista francês, que dizia que a hidrologia ainda está ao nível do fim do século XIX, da Lei de Darcy. Nós não temos progredido significativamente. É uma área que nós temos é que fazer muito mais do que nós estamos a fazer neste momento As soluções foram encontradas há vários milênios.
Sim, os aquedutos e as barragens romanas estão por aí.
E daqui até agora, nós temos muito poucos passos e é preciso mais capacidade de alterar a nossa relação com a água. O nível do mar vai continuar a subir. Vai subir lentamente, mas vai subir inexoravelmente. Se por acaso não houver uma mudança significativa das emissões.
Sim, mas, por exemplo, há aqui uma previsão, das coisas que eu vi, que no marégrafo de Cascais, com o ritmo que está, podemos ter um metro mais alto no final deste século. Achas essa previsão razoável?
Se a previsão é aquela que foi feita polinomial, pelo professor Carlos Antunes, não me parece que ela tenha base científica suficiente. Aliás, na altura exprimi-o, e posso repeti-la outra vez.
Eu creio que é essa.
Exatamente. Nós quando usamos o mesmo método para prever a evolução do Covid e a evolução do nível do mar, temos que ter cuidado com essa questão. Não quer dizer que as pessoas não façam com a melhor das boas vontades e não tenham capacidade científica pra o fazer. Quer dizer que a fenomenologia de cada um destes elementos é normalmente diferente. E nós ou conhecemos bem a fenomenologia que estamos a trabalhar, ou então arriscamo-nos a ter, digamos, tiros no pé, porque o nível do mar vai realmente subir. A estratégia que pode ser obtida é tocar, claro, o pior dos mundos possíveis, que é o contrário do Pangloss, que era o melhor dos mundos possíveis. E claro que se no pior dos mundos possíveis tiveres a maior subida possível do mar, mais a maior tempestade possível, mais a maior maré possível, mais etc, mais um tsunami, claro que temos aí uma situação catastrófica, mas a grande vantagem da humanidade é que sempre viveu, como sabes, à beira da catástrofe.
Mas há uma coisa que sabemos: as pessoas que vão pra praia e que agora andam muito aflitas, que têm futurifios das suas praias e só veem lá rochas, ou então veem areia negra, porque é aquela areia que fica por baixo da areia dourada cá de cima, podem estar descansadas, porque em princípio, no verão, se comparando até com 2014, isto vai ser mais tranquilo.
Exatamente.
Porque o mar vai trazer naturalmente. Pode não trazer tudo este ano, se as tempestades forem maiores, pode trazer só em dois anos, mas vai trazer.
E há casos estudados de 2014, penso eu, em que a recuperação foi muito significativa e nós esperamos que ela também vá ser muito significativa.
A tal praia que eu te falei, não foi nesse verão, ainda houve muita pedra, mas depois recuperou tudo.
E claro, não quer dizer que não seja necessário que a Agência Portuguesa do Ambiente faça novas intervenções e replique a alimentação artificial pra repor, pra ajudar o ciclo de vida da praia a ficar mais confortável. O que é preciso perceber-se é que isto são custos. São custos que a gente tem que incorrer pra proteger o ambiente litoral, mas que têm que ter compensação de uma qualquer receita, porque a vida exige sempre o equilíbrio entre a despesa e a receita.
Bem, isso é um tema pra outra discussão. Nós acabamos o nosso tempo, estaremos de regresso dentro de uma semana.