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A educação para as artes, antes de ser elitista, pode ser formadora e deve ser formadora. Acaba por criar melhores seres humanos no sentido de explorar o sensível.
É pianista e também compositor e orquestrador. As músicas por ele criadas podem ser ouvidas em discos, em filmes, em espetáculos. Até já tocou ao vivo a acompanhar filmes mudos. No capítulo dos discos, é autor de uma trilogia sobre cores, o ocre, o branco e obsidiana. Licenciou-se em Composição na Escola Superior de Música de Lisboa, depois rumou a Estocolmo, na Suécia, para um mestrado em performance em piano jazz. É o autor da banda sonora do mais recente podcast plus do Observador, as Sombras de Duarte Lima. Queremos luz, muita luz sobre o nosso convidado. Em 40 minutos esta semana, Filipe Raposo. Bem-vindo, Filipe.
Muito obrigado, João. Estou contente.
Filipe, estudaste jazz. Os teus primeiros discos eram muito jazzísticos, mas hoje já não são. Por quê? Viraste as costas ao improviso?
Não. Antes de começar com o jazz, comecei com a chamada música erudita, o ensino clássico do piano.
Gostaste?
Gostei e gosto.
Olá!
Todos os dias toco. Posso dizer que tenho sempre uma partitura de Bach em cima do piano e pratico todos os dias, como se fosse uma espécie de leitura obrigatória. Bach. Se calhar, já iremos falar um pouco mais adiante, mas é, de facto, um percurso obrigatório. É um percurso também que em idade jovem cativa os pianistas futuros, através de uma passagem pelos mestres. E esses mestres, eu diria, se não todos, todos eles improvisavam. Um compositor, a sua matriz, o seu métier é também a improvisação.
Explorar. Explorar o teclado, não é?
Exatamente, ou o seu instrumento.
A escala?
As muitas escalas. Explorar a dimensão harmônica, a dimensão formal. Portanto, há um início que é mais formal e mais tarde ou simultaneamente, a improvisação sempre esteve presente.
Ok.
Portanto, o jazz propriamente dito enquanto linguagem surge um pouco mais tarde, mas a improvisação sempre esteve presente, desde a primeira vez em que me aproximei de um piano e comecei a explorá-lo.
Muito bem. Olha, como é que decidiste ser músico, Filipe? Ou não decidiste? Foi acontecendo.
Foi acontecendo até que há um dia em que nós percebemos essa urgência e as coisas já estão encaminhadas nesse sentido. A música sempre esteve presente na minha vida e na casa dos meus pais. A minha primeira memória da música acontece, não diria, se calhar, ainda dentro da minha mãe, uma dimensão uterina, mas ao colo dela num coro.
A tua mãe cantava num coro?
Cantava num coro de igreja. E esse coro tinha sempre um piano a acompanhar, portanto, o coro, a voz e o piano sempre estiveram presentes. Esse primeiro impacto foi de facto ao colo da minha mãe, a assistir a esses ensaios. E no final do ensaio, sempre ia brincar ao piano com o pianista que acompanhava esses ensaios. Portanto, começou muito cedo.
Portanto, nasceu primeiro o ouvinte e depois foi germinando ali a vontade de nascer um intérprete também, foi?
Sim. Por exemplo, a Antena 2 era uma rádio que estava presente em casa e nas tardes, quando eu vinha da escola, ficava muito tempo a brincar e ouvir a Antena 2. Portanto, essa música erudita também foi entrando. E a partir do momento que eu entro no ensino mais formal e saio do piano enquanto brinquedo, que também pode ser, aí nasce um gosto e uma vontade, uma espécie de me ultrapassar em cada lição. E cada semana havia essa necessidade de preparação e ultrapassar-me, como eu disse há pouco. Portanto, a partir de uma certa altura, entro no conservatório e há um ambiente acadêmico e artístico que me cativa e que me leva a uma espécie de canal de rio, que é inevitável.
E portanto, fizeste toda a tua formação em torno da música, até ao mestrado no Royal College of Music em Estocolmo. O método de ensino e de aprendizagem da música lá fora é muito diferente do método aqui em Portugal, Filipe?
Eu diria que hoje em dia, menos, mas tendo a concordar contigo. Quanto a este episódio recente.
Eu não disse, eu só perguntei.
Sim.
Era diferente e agora é mais homogêneo, é isso?
É, eu lembro-me do conservatório por vezes ser criticado, quando se ouvia uma improvisação mais jazzística, isto numa escola conservadora como é o conservatório. Um ou outro professor muitas vezes tendia a olhar para aquele gênero musical com um olhar de desdém. Curiosamente, a partilhar esta história com o meu professor sueco, com o Uwe Lundin, ele contou-me exatamente a mesma história, mas 30 anos antes. Portanto, precisamente na mesma faixa etária com que eu teria, à volta dos 15, 16 anos.
Portanto, nós estamos atrasados 30 anos.
Eu acho que agora estamos menos, mas seguramente estivemos bastante tempo atrasados. Aliás, só no ano 2000 ou 2001 é que abre a primeira escola superior de música com o departamento de jazz. Melhor, o departamento de jazz abre em 2001 no Porto e depois mais tarde em Lisboa. Houve bastante atraso durante este tempo. Claro que agora está minimizado com a quantidade de pessoas que fizeram a sua formação fora e as escolas superiores atuais, que formam músicos de excelência todos os anos cá em Portugal.
Falta-nos massa crítica, não é? No ponto de vista musical ou não, Filipe?
Menos também.
Menos. Há pouco falavas do teu dia a dia, do teu cotidiano enquanto criança, que a tua mãe te punha a ouvir a Antena 2 em casa à tarde. Isso conta muito, não conta?
Conta muito. Sem querer puxar a brasa à minha sardinha, eu acho que a educação para as artes, antes de ser elitista, pode ser formadora e deve ser formadora. Acaba por criar melhores seres humanos no sentido de explorar o sensível.
Disseste antes de ser elitista, por quê em Portugal é elitista?
Acaba por ser elitista, porque acaba por pertencer apenas a um nicho, mas não tem de ser de um nicho. Eu dava-te o exemplo da música erudita na Alemanha ou na Suécia, em que a formação musical vai até ao 12º ano, onde todos cantam num coro, a maioria canta num coro, e isso forçosamente acaba por formar ouvintes com refinamento.
Nada acontece por acaso, não é?
Nada acontece por acaso.
Se queremos adultos educados, temos que os trabalhar muito antes.
É verdade. Estava agora a pensar naquilo que foi o trabalho da RTP2 durante décadas. Uma espécie de janela para as artes, desde o cinema, à música, à ópera, etc. E ao mesmo tempo, simultaneamente, uma espécie de educação paralela. Infelizmente, eu vou dizer isto, porque acho que todos nós reparamos nisto. Aquilo que são os programas da manhã nos canais, em que existe uma espécie de formatação geral que vai no sentido inverso a esta sensibilização. Pelo contrário, deseduca até. Acredito, porque vejo isto e nós vemos diariamente pessoas formatadas pra uma insensibilidade que cada vez é mais presente.
É ignorância. As pessoas não conhecem. Há muito preconceito em relação à música dita clássica. Achas isso, Filipe?
Há algum preconceito. Acredito também que algumas instituições promoveram durante algum tempo esta décalage. A música só pode ser entendida por aqueles que a compreendem. Para isso é preciso uma espécie de formação, mas não, qualquer música pode ser usufruída. Até a música contemporânea, que parece que à partida necessita de requisitos para que a possamos entender, regras, para que possamos compreender as regras do jogo. Mas não, a música pode ser entendida, ou melhor, podemos usufruir da música, seja ela qual for.
Qual for. Muito bem, tenho aqui um desafio público para te lançar. Faz de ti pedagogo musical num desses canais de televisão nos programas da manhã. Quem sabe, tenhas sucesso. Gostarias de fazer isso?
Faria com muito prazer.
Pronto, já tentei.
Aliás, dei aulas alguns anos.
Não, eu vou dizer por quê. Vejo-te tão empolgado a falar da necessidade de formar públicos, que estava a imaginar-te no papel de pessoa que ensina os segredos da música clássica, por exemplo.
Mais do que ensinar, partilhar.
Partilhar.
Eu gosto muito desta palavra, a partilha, e acredito nela também. Quando ensinei, ensinei alguns anos, mais do que pedagogo, via-me como alguém que está a partilhar uma experiência anteriormente absorvida. E acredito nisto. Ambos somos progenitores e sabemos a importância da partilha com os nossos filhos.
Exato.
Portanto, mais do que ensinar, de facto, é esta coisa que é: eu vejo a vida desta perspectiva, poderás ver de outra, mas repara nisto. Repara naquilo que fomos conquistando ao longo da vida e fomos guardando também.
Muito bem. És pianista, compositor e orquestrador. O que gostas mais de fazer, Filipe Raposo?
Gosto das três. Sim, as três. O piano, digamos, é a parte performativa de palco.
Um músico profissional como tu toca todos os dias?
Toca todos os dias, sim. Deve tocar todos os dias.
É uma espécie de um atleta de alta competição da música.
É. Tens de manter todos os músculos, todo o refinamento ativo. Portanto, todos os dias deves praticar um pouco. Mas respondendo à tua pergunta, o palco, de facto, é uma das vertentes, mas também a parte da composição e da orquestração. Para os ouvintes que não conhecem este trabalho, o orquestrador é uma espécie de costureiro de alta costura, passo a redundância, e que veste uma canção, que anteriormente foi feita para uma formação mais pequena, veste essa canção para uma grande orquestra. Define novas linhas melódicas, pode reharmonizar, transforma essa canção num grande vestido, num grande fato para ser tocado com grandes orquestras.
Portanto, tens aí frases musicais na ponta da língua que possas entoar de músicas que orquestraste?
Sim, há muitas.
Ou assobiar? Os músicos assoviam ou não assoviam? Tu assobias?
Assobio.
Para criar música?
Normalmente trabalho ao piano.
Ok.
Ao piano, sim. Já trabalhei trio de fado. Uma canção, um fado tradicional, de repente, pode ser tocada por uma orquestra. E isso é o trabalho de orquestração. Passar esses três instrumentos para um formato grande, grande orquestra.
É um grande desafio.
É um trabalho que gosto muito de fazer. Permite também levar esse ou outros géneros musicais a outros palcos e a outros músicos também.
Muito bem. Os músicos andam sempre a trautear músicas ou não, Filipe? No teu caso, quando andas pela rua, tens vozes imaginárias dentro de ti que vão criando?
Pode acontecer.
Isto é um grande disparate que eu estou a dizer, não é?
Não é.
A tua cara de espanto: "O que ele está a dizer?"
Estava a tentar associar outra coisa.
Ok.
A imagem pra mim é algo que está muito presente e associável, muitas vezes de forma sinestésica, com a música. Às vezes uma imagem, uma fotografia, o cinema, e podemos falar disso daqui a nada, pode provocar também uma ideia musical. O passar por alguém, passar por uma determinada cena, de facto pode promover paisagens.
Sinapses musicais.
Paisagens sonoras, sim. É verdade.
Paisagens sonoras é um bom eufemismo esse.
Sim.
Já nasceram músicas dentro de ti, em caminhadas na rua, actividades profundamente banais?
Músicas inteiras não, mas ideias, motivos. Chamo a isso motivos. Podem ser motivos rítmicos, podem ser motivos melódicos. Já surgiram, mas também já surgiram de outras imagens e do cinema, neste caso concreto. Eu trabalho regularmente com cinema também, não só cinema contemporâneo, mas também com o chamado cinema primitivo ou cinema mudo, vulgarmente designado por cinema mudo.
Tu acompanhavas filmes mudos na Cinemateca, não é?
E ainda acompanho.
Ainda acompanhas?
Ainda acompanho. É um trabalho que faço desde 2004 e que me tem dado muito.
Com pauta ou improviso?
As duas coisas. Uma imagem, e neste caso a imagem associada ao movimento, a imagem em movimento que é o cinema, tem me devolvido muita coisa, porque o cinema enquanto sétima arte surge em 1895 e não é por acaso que é designada como sétima arte. Nela estão contidas também todas as anteriores: a fotografia, o teatro, a própria ópera, neste caso, como uma espécie de música e teatro juntamente. De repente, dei por mim a pensar que a minha formação pianística e enquanto músico, também derivou muito daquilo que é esse cinema. E a forma de pensar a música deriva também da forma de eu ver o cinema e de analisar também o cinema.
Enquanto compões para um filme mudo, música para acompanhar um filme mudo, tens mais em conta o conteúdo do filme, a velocidade do filme ou tudo à mistura?
Tudo à mistura. Temos de estar a fazer várias leituras simultaneamente. Uma delas é uma leitura, obviamente, formal. Princípio, meio e fim, perceber a narrativa e perceber também, às vezes isto acontece, podes achar estranho, mas é necessário fazer um diálogo com alguém que já não está vivo, que é o realizador.
Ok.
Eu não posso impor a minha música a um filme que está formalmente fechado.
Mas fazes isso como? Em casa?
Preparo o filme em casa. Neste caso, eu faço sessões de cinema mudo na Cinemateca e fora da Cinemateca, em espetáculos dedicados a cineconcertos. Tenho de pensar o que é que melhor veste também aquela imagem, sem nunca sobrepor o meu ego a um filme que, enquanto obra de arte, está fechado. Eu tenho que perceber onde é que posso estar. Como é que a música pode caber ali naquele espaço. E isso é um trabalho que eu considero também importante, um exercício de ego, que é controlar, perceber até onde é que a música cabe ali. Como personagem também. E a música aqui, rapidamente, João, pode ter três espaços: o background, o middle ground e o foreground, ou seja, a superfície, o meio e o fundo. Muitas vezes a música pode ganhar esse papel predominante, que está na superfície e se mostra, como muitas vezes está ao fundo. Como no podcast que agora está a passar.
"As Sombras de Duarte Lima".
Exato. Parece despercebido, mas atua de alguma forma, até de forma subconsciente. Vai ficando, vai instalando também um determinado mood necessário para o filme.
Muito bem, vamos falar sobre essas técnicas que tu usas para compor ou se existem técnicas para compor música, para discos e também para podcasts e filmes. Estamos à conversa esta semana no "Em 40 Minutos" com o músico Filipe Raposo, autor da banda sonora do mais recente podcast+ do Observador, "As Sombras de Duarte Lima". Curta pausa, regressamos a seguir. Até já. Estamos de regresso para o "Em 40 Minutos" desta semana com o pianista Filipe Raposo, pianista, compositor e também orquestrador. O Filipe já teve a oportunidade de nos dizer que gosta de tocar, gosta de compor e também gosta de orquestrar. Sente que este trabalho enquanto orquestrador é uma espécie de trabalho de costureiro da alta costura? Porque também há costureiros de baixa costura. Há muita má música por aí, não há, Filipe? Ou isso não existe, má música?
Eu diria que existe a boa e a má música. É uma questão também de ética enquanto profissional da música, eu acho que distingo estas duas áreas.
E o que é uma boa música e uma má música?
Uma boa música é algo que é feito com esse princípio ético, ou seja, existe uma verdade naquilo que está ali, que escutamos. É como uma obra de arte.
Sim.
Quando o ego se sobrepõe à própria obra de arte, eu acho que a obra de arte começa a ficar deteriorada. Enfim, este é o meu conceito e este é o meu princípio também de trabalho. Quando eu estou a compor, penso sempre: o que é necessário? Até que ponto? Qual é o ponto certo? É como um cozinhado. Existe ali um ponto em que começamos a misturar as diferentes especiarias, o ponto de cozedura, etc. Mas chegamos a um ponto em que chegamos à conclusão: está feito.
Ok. Na música é mais difícil de avaliar porque mexe muito com a subjetividade.
Ah, a subjetividade-
Na cozinha, não. Sabemos que não se mistura açúcar com sal.
Pode ser misturado.
Também pode, certo. Por exemplo, o caramelo salgado. É ótimo. Bem, mas por exemplo, na música há coisas que não se conjugam ou tudo é possível na música, Filipe?
Eu acho que depende de muita coisa. Isto é um grande tema.
Eu estou a ver.
Como falaste, e bem, que se prende com a subjetividade. Podemos falar em gêneros.
Sim.
E dentro de cada gênero, nós sabemos que existem diferentes níveis de gostos dentro de cada gênero. Portanto, é por isso que, por exemplo, dentro do fado, existem diferentes intérpretes e cada um deles traz uma voz. Eu acho que é essencial, por exemplo, transpondo isso para o mundo literário ou até para o cinema. Nós sabemos que cada realizador tem uma espécie de voz e esta voz deve ser, na minha opinião, a mais verdadeira possível. E dentro disso, eu acho que chegamos ali a um ponto de equilíbrio entre a obra de arte e o seu criador.
Olha, Filipe, por que Portugal nunca produziu uma grande escola de música como há noutros países? A escola austríaca ou a escola alemã, ou a escola até russa, soviética. Parece que andamos sempre um pouquinho atrás do tempo.
É uma boa pergunta e essa pergunta automaticamente tende para-
Sem tirar mérito, aliás, a todos os compositores que existem e existiram no passado, mas de facto não há uma grande escola musical ou há em Portugal?
Há uma escola, eu diria, até bastante sedimentada atualmente. E tem havido. Obviamente que no passado, se calhar, agora dentro da música erudita, esses compositores teriam de estudar fora do país para terem contato com os grandes compositores que estavam em determinadas correntes. Mas, por exemplo, o fator periferia pode condicionar, naturalmente, se calhar, o facto de não estarmos no centro da Europa e existir, de facto, uma hegemonia político-econômica no centro da Europa. Não é por acaso que em 86 viramos costas a este sul mediterrânico e nos posicionamos nesse centro da Europa com a entrada na CEE. Portanto, é como se houvesse ali, de certa forma, uma mina de ouro que procurávamos, que é esse lado também econômico. Mas nos dias de hoje, existem vários estudos. Os compositores mais tocados nas salas de concerto no mundo são compositores alemães e franceses. Pelo menos um estudo que li há pouco tempo falava sobre isso. Portanto, existe uma hegemonia germânica que continua nos nossos dias. Até em Portugal tocam-se mais compositores estrangeiros nas salas de concerto do que propriamente compositores portugueses. É aquela questão da lei da música portuguesa que passava na rádio também, e que foi uma questão polêmica também. Passavam muito mais músicos e bandas estrangeiras do que bandas portuguesas no próprio país. Portanto, isso também é um reflexo daquilo que é muitas vezes visto, que é o que vem de fora é melhor do que é nacional. E eu acho que tem havido também aqui um trabalho.
Sim, de transformação de mentalidades.
Isso.
E também de afirmação de algum orgulho em ser português. Em doses que bem não tem mal nenhum.
Nada, naturalmente. Aliás, há uma consciência também daquilo que é uma voz.
Há uma voz musical portuguesa?
Existe.
É o fado?
Eu acho que é mais do que o fado. O fado pode ser também uma dessas vozes, mas existe esse conjunto de influências que vai desde a música tradicional. Antes de chegarmos a uma erudição, já existia uma tradição, aquilo que é o patrimônio cultural e imaterial. E isso, de facto, cada vez mais tende a existir uma consciência desse patrimônio e assimilamos essa diferença. Quando queremos distinguir aquilo que eu falava há pouco, como é que chegamos a uma voz pessoal, uma voz que é nossa? É através dessa herança, que não tem que ficar circunscrita a um território, mas pode partir desse território também. E, portanto, acredito que essa voz parte desse patrimônio cultural e imaterial que vem desse passado longínquo e chega até nós.
És um conservador, portanto.
Não sou conservador, não.
Não?
Aliás, o acreditar numa tradição, a tradição está constantemente a ser renovada e inovada. Acredito, sim, para mim, quando eu falo tradição Encontro sempre esta metáfora do seixo rolado dos rios, que começou num ponto que nós desconhecemos e quando chega às nossas mãos, já perto da foz ou numa praia, pegamos naquele seixo perfeito. Há uma sensação de conforto. Sem nos apercebermos que esse seixo começou muito lá atrás a rolar e chega até os nossos dias. Portanto, eu gosto da ideia da tradição. Ou seja, a contemporaneidade pode assentar numa tradição e essa tradição é renovada e pode ser renovada em cada geração. Portanto, não está estanque.
É uma rolling stone.
Sim, pode ser visto assim.
Filipe, no teu currículo há imensas obras. Já compuseste imensas peças comissionadas, ou seja, há gente que paga para tu fazeres música. Isso contraria todas as ideias preconcebidas sobre o panorama musical português, ainda mais quando falamos de música clássica. É isso?
É bom que isso aconteça.
Claro.
E de facto é um privilégio poder escrever para encomendas. Há outras obras.
Ou seja, há quem pague para te ouvir e quer ouvir-te, e quer que tu produzas música. Isso é bom.
E vão às salas de concerto. Isso é bom também. E para além do mais, também temos um Estado, temos um Ministério da Cultura, consciente e que promove também a criação. O Estado enquanto promotor desta cultura. Agora refiro-me também à DGARTES, Direção-Geral das Artes, que de facto também pode ser, e é, um promotor de cultura e de alta cultura. Isso é essencial para que a música se renove e possam surgir também novas gerações de artistas, não me refiro apenas à música, falo às artes em geral, com voz e que vão fazendo uma carreira bem solidificada.
Muitos músicos profissionais não conseguem viver apenas e só da música que compõem, têm de recorrer a outros trabalhos, como por exemplo, dar aulas. É o teu caso também, Filipe Raposo?
Dei aulas durante alguns anos. Neste momento não dou aulas.
Não precisas.
A minha actividade profissional não permite. Por vezes passo alguns períodos fora, o que do ponto de vista ético não seria correcto estar a comprometer alunos e impedi-los de ter uma formação constante. Portanto, optei por não dar aulas precisamente por causa disso.
Muito bem. Vamos falar da composição da música para o podcast Plus do Observador, "As Sombras de Duarte Lima". Explica-me lá como é que foi criar aquela música que tem uma vibe muito assustadora. Não tem?
Tem um bocadinho.
Pedia, não pedia o caso?
Eu acho que pedia. Trabalhar para este podcast foi algo parecido a trabalhar para um filme. Aliás, eu acho que poderia ser um bom argumento para um filme do Hitchcock, até. Tem este lado bastante sombrio. O que acontece, o que leva alguém, como é que alguém morre daquela forma?
Sim.
Por que motivos é que uma pessoa é assassinada daquela forma? Tem um lado que eu tentei tocar relativamente ao facto de se passar no Rio de Janeiro e há um lado de música percutiva que vem também dessa relação com a música afro-brasileira. E depois tem um lado também ligado à música erudita, curiosamente, que está disfarçado, mas tem a ver com um arpejo invertido que o leitmotif, o motivo principal tem.
O que é um arpejo invertido? Tens que me explicar.
Um arpejo é, imaginemos, três notas num acorde, são três notas ou podem ser mais.
Portanto, é quando tu com três dedos martelas três teclas no piano.
Neste caso alternadamente, isso é um arpejo. Exatamente. E há um prelúdio de Bach que começa precisamente com essas três notas. Curiosamente, o Duarte Lima também tocava órgão. E há aqui uma referência também a essa ligação ao instrumento que quis trazer para este podcast.
É curioso como esta história, tendo todos os ingredientes para uma boa história de cinema, nunca tenha dado um filme.
Se calhar ainda não deu.
Ainda não deu.
Mas poderá vir a dar.
Filipe, há pouco falavas na referência ao Brasil, e isto puxando aqui um bocadinho a conversa que nós estávamos a ter em off antes de começarmos a gravar esta conversa. As músicas são muito determinadas pelas circunstâncias em que são criadas.
Podemos afirmar até um certo ponto. Estava a pensar, por exemplo, na bossa nova. Parece que a bossa nova só poderia ter sido feita ou criada no Rio de Janeiro. Neste caso até podemos condicionar, de certa forma, a geografia, a latitude ao clima. Parece que o clima também pode influenciar. Obviamente, se passarmos para uma latitude mais a norte, imaginemos na Alemanha, onde os invernos são longos, os dias são curtos, passamos muito tempo em casa, parece que a música de Bach necessariamente teria de ser criada num país com estas condições. Enquanto que, por exemplo, a bossa nova no Brasil ou o samba, parece que é uma música de rua, é uma música que convida a sair ou estar, usufruir desse tempo também. Portanto, há quase aqui uma relação climatérica, podemos dizer, quanto mais nos aproximamos do equador Do Equador há um estar, há um viver a rua e o espaço exterior diferente. Eu estava a pensar aqui numa citação que eu gosto muito do Fernando Bordel a propósito do Mediterrâneo. Já vais perceber porque digo isto. Ele define que o espaço mediterrânico, também ele influenciado pelo clima, existe entre os últimos palmares a norte do deserto do Saara até à última oliveira na Europa. Portanto, isto é um espaço geográfico condicionado pelo clima. Esse espaço geográfico também é um espaço cultural.
É a terceira vez que falas no Mediterrâneo, és um mediterranista.
Convicto.
És?
Sim.
Isso quer dizer o quê, concretamente, Filipe Raposo?
Quer dizer que existe uma base cultural que está nesta bacia mediterrânica. O Orlando Ribeiro fala da influência atlântica e fala da influência mediterrânica do nosso país. E isso promoveu um encontro único, que é um encontro também cultural. Encontro cultural esse, por um lado, neste caso, ligado ao Mediterrânico e esta bacia mediterrânica, com todas estas culturas que nos influenciaram ao longo de milênios. Refiro-me às influências fenícias antes do Império Romano aqui chegar. Refiro-me à Al-Andaluz, que esteve neste território durante 500 anos. São referências marcantes que estão em nós. Já que falamos desta questão, não é por acaso que o português tem cerca de 20 mil palavras, 10% de palavras de origem árabe. Isto significa alguma coisa, significa uma cultura enraizada. Basta abrir qualquer livro de receitas em Portugal pra perceber que grande parte dessas receitas vem também deste universo cultural que aqui está.
Somos o tal seixo rolante, não é?
Somos. Sim.
Que tu falavas há pouco.
Esquecemos muitas vezes que um país não começa no dia em que é decretado. Essa referência cultural começou muito antes. Existem muitas outras influências. Aliás, só que nós não temos esta capacidade de visionar o futuro. Nós não sabemos o que é que acontece daqui a 1000, 2000, 3000 anos.
Muito bem. Filipe, o que é que gostarias que acontecesse ao país nos próximos anos?
Eu acho que um país igualitário, um país que se respeita, que entende o outro da mesma forma como desejamos que nos entendam fora, eu acho que é desejável, com menos contrastes, naturalmente, um país equilibrado socioculturalmente e com menos ódios. Vivemos num período com esta grande discrepância, onde estes ódios são acirrados diariamente. E aqui, mais uma vez, a cultura pode também servir de impulsionador para o diálogo. O Mediterrâneo também nos ensina a isto, a encontrarmos este espaço de diálogo.
És autor então dessa trilogia musical em torno de cores. Tens o "Variações do Branco", o "Ocre" e o "Obsidiana". As músicas têm cores, Filipe?
As músicas podem ter cor.
E qual é a música mais colorida que tu conheces?
Vou dar o exemplo dos concertos brandenburgueses de Bach, que estão cheios de ornamento.
Já vi que és um grande fã de Bach.
Sou. Estão cheios de ornamento, ornamentação, portanto, tem muita cor. Mas aqui e na minha trilogia, a cor funciona de forma simbólica também. É uma espécie de motivo que dá origem a um ensaio sonoro sobre a influência da cor no nosso dia a dia. E a questão é que nos dias que correm, se calhar, já não pensamos na cor com influência simbólica, mas a cor tem muitos símbolos. Se pensarmos, por exemplo, na fábula da raposa, do corvo e do queijo, que existem aqui princípios básicos, até educacionais e até éticos, que a maioria destas fábulas e histórias tradicionais têm e que fazem parte desse patrimônio cultural, estão aqui presentes três cores. O preto do corvo, a raposa vermelha, o queijo branco e a lua, ou a lua que é refletida no lago. Portanto, as cores ao longo da história foram ganhando diferentes símbolos. Estou a pensar, por exemplo, no preto, que é a cor do luto no mundo ocidental, mas no Japão é o branco, por exemplo. Tem aqui uma outra leitura. O preto, que já foi uma cor de pobreza, na Reforma Protestante, era uma cor austera. Era uma cor que representava esse lado austero da sociedade. Enfim, existem "n" leituras simbólicas que as cores foram tendo ao longo dos tempos e que foram mudando também na sociedade.
Muito bem. E hoje vivemos tempos de que cor?
Não são cores muito claras.
Não?
Não são cores muito claras, e isso é o reflexo daquilo que está a acontecer na rua. Nós assistimos a manifestações diárias. Significa que não há contentamento, há descontentamento e eu quero acreditar que chegaremos também a um ponto de equilíbrio em breve, com cores mais luminosas. Significa que, socialmente, as pessoas estarão mais contentes também com aquilo que são as necessidades de cada um.
Muito bem. Filipe Raposo, foi um gosto conversar contigo.
O gosto foi todo meu.
Filipe Raposo, autor da banda sonora do podcast Plus, o novo recente podcast Plus do Observador, "As Sombras de Duarte Lima", que podes ouvir nas plataformas podcast e também em observador.pt. Filipe, uma vez mais, foi um gosto. Muito obrigado.
Muito obrigado.
Até à próxima.