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E o resto é história.
É a terra a fumar. Dominando em palavra, ainda na zona do Chiado. Quer transformar este país numa ditadura. Não, não.
Com João Miguel Tavares e Rui Ramos.
Olá, sejam bem-vindos ao episódio número 87 de "E o Resto é História", com Rui Ramos e com João Miguel Tavares. Na manhã do dia 15 de março de 1961, faz agora 60 anos, um elevado número de guerrilheiros da UPA, a União das Populações de Angola, um grupo anticolonial liderado por Holden Roberto e precursor da mais famosa FNLA, Frente Nacional de Libertação de Angola. Essa UPA massacrou cerca de oito centenas de brancos e de negros nas fazendas de café isoladas do norte de Angola, aos gritos de "mata, mata, UPA, UPA", numa ação de violência brutal com homens, mulheres, crianças violadas, mortas à catanada. E nesse mesmo dia, Salazar ordenou o envio de tropas para Angola e embora na altura não existissem sondagens, penso que é consensual dizer que a decisão de Salazar foi apoiada pela generalidade da população portuguesa, absolutamente chocada com a dimensão do massacre de 15 de março. A minha pergunta, Rui, é esta: por que é que o massacre de 15 de março de 1961 ocorreu naquela altura e por que é que foi utilizado aquele nível de violência tão brutal e desmesurado?
O dia 15 de março de 1961 foi escolhido por uma razão. Ia ser, de qualquer maneira, um dia importante para a história da presença portuguesa em África. Nesse dia 15 de março, estava marcada uma votação no Conselho de Segurança das Nações Unidas. A Libéria, que era membro do Conselho de Segurança, daqueles membros transitórios, rotativos, tinha apresentado uma moção sobre as chamadas províncias ultramarinas portuguesas. Isso não era em si a novidade. A novidade era que se esperava, já se sabia, que muito provavelmente os Estados Unidos iam votar contra Portugal pela primeira vez. Até aí, todas as resoluções e moções das Nações Unidas em relação aos territórios ultramarinos portugueses tinham sido ou vetadas ou não tinham tido o apoio, pelo menos, das potências ocidentais, Estados Unidos, França, Inglaterra. E pela primeira vez os Estados Unidos iriam votar contra Portugal, apoiando a moção da Libéria. Portugal tinha aderido às Nações Unidas seis anos antes, em 1955. Tinha entrado finalmente, aliás, tinha tido a adesão muito antes, mas só em 1955 é que entrou.
Desde essa altura que é fustigada com a questão colonial.
E desde essa altura que o Comitê de Descolonização das Nações Unidas perguntava a Portugal o que é que se passava com os territórios não autônomos que o governo português administrava em África. E a resposta do governo de Salazar era sempre a mesma: não tinha territórios não autônomos. Aquilo que o mundo inteiro via como colônias portuguesas em África eram províncias portuguesas que por acaso ficavam em África, mas podiam ter ficado na Europa e, portanto, eram tão portuguesas como outra parte qualquer do território português na Europa. E Portugal não tinha que prestar contas às Nações Unidas por Angola e Moçambique, tal como não tinha de prestar contas pelo Minho e pelo Algarve às Nações Unidas. Aliás, em 1951, o nome de colônias, que tinha sido atribuído a estes territórios portugueses no século XX, tinha sido mudado em Portugal para províncias ultramarinas, deve-se dizer que de acordo com a antiga tradição portuguesa. Colônias é que era a novidade. Era uma novidade de origem francesa. Portanto, durante este tempo, Portugal é criticado pelas ditaduras comunistas, que estão sempre contra Portugal nesta altura, pelas novas ditaduras dos países que iam acedendo à independência no chamado então Terceiro Mundo, mas como disse, as potências ocidentais e também a Espanha e o Brasil apoiavam geralmente Portugal. Portanto, a grande mudança aqui tinha sido a presidência de John Kennedy.
Que tinha acabado de ser eleito no início de 1961.
John Kennedy tinha sido eleito em novembro de 1960, tinha tomado posse em janeiro, como é tradição dos presidentes americanos. E Kennedy era um presidente democrata, portanto, ia substituir um presidente republicano, Eisenhower, mas Kennedy tinha feito uma campanha contra o vice-presidente de Eisenhower, Richard Nixon, contra o candidato republicano, acusando a administração republicana de ter sido mole em relação aos comunistas, isto é, em relação ao comunismo no mundo. Kennedy, sendo um presidente democrata, vinha para relançar a luta dos Estados Unidos contra o comunismo no mundo. Agora de uma maneira diferente. Ele pensava que a melhor maneira de combater o comunismo, por exemplo, uma das melhores maneiras, era não o deixar ficar com a bandeira dos nacionalismos independentistas nas antigas colônias europeias. Isto é, não deixar a União Soviética apropriar-se desta causa. E portanto, vinha muito decidido, Kennedy, a apoiar, como já tinha apoiado em 1957, tinha feito uma declaração sobre a guerra da Argélia a apoiar a Argélia, já tinha tido contactos com independentistas das colônias portuguesas, e portanto, ele estava convencido que a era colonial estava a chegar ao fim e que os Estados Unidos Para impedir que esses novos países que se iam tornar independentes caíssem na esfera de Moscovo, na esfera soviética, na esfera comunista, o melhor era ser os Estados Unidos a promover, a apoiar a independência desses países. Vinha com esta nova atitude e o voto que tinha sido decidido no dia 15 de março de 1961 vinha nesta direção, isto é, iam votar contra uma potência colonial europeia que por acaso até era aliada dos Estados Unidos na NATO, mas eles iam ignorar isso. Isto fazia parte também de um plano ou de uma intenção deste novo governo americano para aumentar a pressão sobre Lisboa. Eles estavam à espera de aumentar a pressão sobre o governo de Salazar para haver mudanças da política portuguesa em relação à África e em relação às colónias portuguesas. O novo governo americano, através do seu embaixador em Lisboa, tinha ideia de que nos altos comandos das Forças Armadas portuguesas havia alguma disponibilidade para considerar outro tipo de políticas para a África que não aquelas que Salazar estava a seguir. Nomeadamente, o embaixador americano tinha contactado neste princípio do ano de 1961, o ministro da Defesa, o general Botelho Moniz, de que falaremos daqui a umas semanas, porque a história não acabou aqui.
Na altura, ele era ministro da Defesa ainda.
Era ministro da Defesa. E o Botelho Moniz teria mostrado abertura, de acordo com o relato do embaixador americano, para uma mudança da política africana portuguesa, com descentralização administrativa, isto é, devolvendo meios de governo ao ultramar.
Mas isso era por iniciativa dele ou correspondia realmente ao pensamento de Salazar?
Não, isto era ideia de Botelho Moniz. Botelho Moniz mostrou-se recetivo à proposta americana que os americanos definiram como uma autodeterminação dentro de um prazo realista. Os americanos não queriam que Portugal saísse imediatamente, mas queriam que dissesse: "Daqui a seis ou sete anos, ou daqui a 10 anos vamos sair e vamos começar a dar uma autonomia progressiva, vamos aumentar os investimentos em África, vamos desenvolver e num determinado momento vamos dar independência". O ministro da Defesa ter-se-á mostrado recetivo, mas quando o embaixador americano terá falado com Salazar no mesmo sentido, Salazar ter-se-á mostrado imediatamente muito pouco recetivo a esta ideia. Portanto, é neste contexto, isto é, no contexto em que há esta atitude dos Estados Unidos nas Nações Unidas e, por outro lado, há estas manobras diplomáticas em Lisboa para tentar criar divisões no governo português e tentar obrigar Salazar de alguma maneira, quer por pressão diplomática externa, quer por uma pressão militar interna, a mudar a sua política africana. É neste ambiente que se percebe o ataque, isto é, o facto de a UPA, Holden Roberto, ter decidido escolher o dia 15 de março para o início de uma ofensiva no norte de Angola. Holden Roberto foi sempre um personagem um bocado misterioso. Ele tinha nascido em Angola, tinha sido educado numa missão protestante, mas vivia há muito tempo no Congo belga, nesta altura, em 1961, já o Congo ex-belga. Ele é de etnia bakongo, que é a mesma etnia que compõe a maior parte da população do norte de Angola e a maior parte da população do Congo. Portanto, digamos que é uma população dividida por uma fronteira colonial entre a Bélgica e o Congo. Isto quer dizer que Holden Roberto tem um grande apoio no Congo, agora independente, e tem um acesso, por causa da sua etnia e das suas relações com essa população bakongo, uma certa influência no norte de Angola. Holden Roberto tem dois lados, que podem parecer contraditórios hoje. Por um lado, ele conheceu, como eu disse, John Kennedy, ainda senador, quando Kennedy era senador. Conversou com ele durante duas horas, diz ele, em 1959, durante uma visita aos Estados Unidos, e convenceu Kennedy da vantagem da independência de Angola. Holden Roberto é também antissoviético, profundamente anticomunista e portanto isto agradava também aos Estados Unidos. Isto é, uma independência com um indivíduo que desse garantias de que não ia pôr Angola na esfera de influência soviética. Ele em março de 1961 volta a estar nos Estados Unidos e aparentemente terá estabelecido até boas relações com o irmão de Kennedy, que também fazia parte do governo americano agora, que é o Robert Kennedy. Este é um dos lados de Holden Roberto. E depois há um outro lado. E esse outro lado é o do amigo do Frantz Fanon, que é um intelectual da Martinica.
Tem-se falado na atualidade portuguesa, ultimamente.
Tem-se falado na atualidade, que advoga o uso da máxima força contra os colonos. Isto é mesmo aquela ideia de "é preciso matar o homem branco". E ele não dizia isso num sentido metafórico, dizia isso num sentido literal, ao contrário do que é costume agora dizer para branquear o seu pensamento. Ele achava mesmo que a violência era necessária para introduzir um corte, isto é, impedir qualquer compromisso entre as populações colonizadas e os colonizadores. Isso só podia ser obtido através de um ato de violência com a maior barbaridade que se pudesse imaginar para estabelecer esse corte Aldeno Roberto também tem essa ideologia. Portanto, tem duas faces: uma face que o faz aceitável por John Kennedy e por Robert Kennedy, e tem uma outra face, que é esta face da extrema violência.
Aldeno Roberto tem ainda outra característica, que é o fato de ter sobrevivido. Ele morreu em 2007, não é?
Sim.
Ou seja, deve ser das poucas figuras iniciais da guerra colonial que de fato sobreviveram ao longo destes tempos todos. O que é muito impressionante.
Com uma grande idade, ele depois continuou exilado no Congo e depois na França. Portanto, a ideia de Aldeno Roberto é provocar, através deste ataque, uma desordem, um caos, um pânico enorme no norte, em Angola, de maneira a fazer Portugal perder o controle do território e levar a uma espécie de fuga em massa de europeus e talvez até levar a uma intervenção internacional, por exemplo, das Nações Unidas. E por que Aldeno Roberto podia pensar isso? Porque isto tinha sido o que tinha acontecido no Congo Belga. No Congo Belga, em janeiro de 1959, as autoridades belgas tinham aceito conceder a independência, mas em 1964, cinco anos depois, o que tinha acontecido? Os independentistas tinham iniciado uma campanha de ataques violentos contra os europeus. E, aliás, ataques violentos até entre eles, porque havia vários partidos independentistas. Isso tinha levado a uma fuga maciça dos europeus, dos belgas e também de muitos portugueses que tinham fugido para Angola, e acabado por levar ao abandono do território por parte do governo belga em junho de 1960, portanto, quatro anos antes da prevista independência. Era o que Aldeno Roberto esperava para Angola, isto é, causar a fuga dos portugueses através de atos de violência extrema. A UPA tem cerca de 5 mil militantes organizados no Congo, ex-belga, depois veio a chamar-se Zaire, agora chama-se outra vez Congo, e parece ter arregimentado mais uns 20 mil indivíduos, um bocado à força, na população do norte de Angola. E de fato, no dia 15 de março, nessa manhã, a violência é extrema. Esta zona afetada é apenas uma parte muito pequena do território de Angola, mas é um território relativamente grande, é mais ou menos do tamanho de Portugal. Isto é, este norte de Angola de que estamos a falar correspondia aos distritos do Zaire e do Uíge, que ficam na fronteira com o Congo Belga, e depois também um outro distrito, um distrito montanhoso, o Cuanza Norte, que é os antigos Dembos, que tinha sido, aliás, uma zona muito difícil de ocupação colonial portuguesa no princípio do século XX. Tinha demorado a ocupar, precisamente pelas características do território. Portanto, é a partir daí que vêm estas vagas de militantes armados com catanas, sobretudo, mas também com armas de fogo.
E era também uma zona de fazendas de café isoladas, não é?
Isto é um território onde vivem cerca de 10 mil brancos portugueses, sobretudo em fazendas isoladas, centenas de fazendas isoladas. E são essas fazendas que são atacadas. E em três dias, mais de 800 portugueses europeus são assassinados e milhares de indígenas angolanos da etnia bailundo, que era uma etnia do sul de Angola, mas que tinha uma tradição de migração para o norte, para estas zonas das fazendas de café, para trabalhar. E essa etnia bailundo, a maior parte pôs-se ao lado dos portugueses, isto é, esteve do lado dos portugueses. Portanto, foi atacada com uma violência tão grande como foram atacados os portugueses. Mais de 6 mil bailundos também foram massacrados neste grande massacre. Devo te dizer que os massacres não impediram Robert Kennedy de continuar a financiar secretamente a UPA até 1979. Portanto, isto não impressionou, aparentemente, os Estados Unidos, mas a verdade é que os massacres não resultaram, não tiveram o resultado que Aldeno Roberto pensava. E por quê?
Ele também se afastou um pouco, não é? Disse que ficou surpreendido.
Sim, isso é depois. Quer dizer, fez mais ou menos a história de que não tinha previsto e que não era bem assim.
Não era para aquele nível de violência.
Mas há duas razões pelas quais os massacres não resultaram. A primeira é que a população portuguesa no norte de Angola, nestas fazendas de café, é muito diferente da população europeia que estava no Congo Belga. No Congo Belga estavam sobretudo quadros, gestores, técnicos, gente de passagem, que quando começou a haver violência, foi-se embora. Ora bem, no norte de Angola estavam colonos portugueses, e que eram proprietários das suas fazendas, alguns deles já desde o século XIX, princípio do século XX. Portanto, estavam há muitos anos ali. A sua tendência foi para ficarem, para defenderem as suas propriedades. Como pequenos proprietários, digamos assim. Por vezes, as mulheres e as crianças foram evacradas, mas os homens quiseram ficar e quiseram defender as suas propriedades. Portanto, isto foi uma razão para não haver aquela debandada total. E a segunda foi porque os massacres, de fato, causaram uma impressão enorme em Portugal. Aliás, a ditadura de Salazar espalhou imenso as fotografias das pessoas cortadas à catanada, etc. Quer dizer, não houve aí pudor nenhum em mostrar aquilo tudo. Por quê? Porque, obviamente, criou um enorme horror em relação ao que se tinha passado e um grande apoio para uma reação militar de defesa das populações, quer portuguesas, quer daqueles que estavam com os portugueses, quer dizer, naturais de Angola que estavam com os portugueses. Aquilo torna-se mais ou menos consensual. E, portanto, o que aconteceu foi não a fuga dos portugueses, mas sim o reforço da presença militar portuguesa em África. Em Angola não havia muitas tropas em março de 1961, 6500 tropas. Ao longo dos meses seguintes, haverá vagas de envio de tropas para Angola que fará chegar o contingente militar português em Angola a mais de 30 mil soldados. A reconquista do norte de Angola é lenta precisamente por causa do envio das tropas. O primeiro grupo segue logo no dia 16 de março, é um grupo de tropas paraquedistas, vai por via aérea, mas a maior parte do corpo expedicionário vai por via marítima. É uma viagem relativamente longa e depois a sua deslocação até às frentes de guerra. Mas é eficaz. Em setembro, outubro, praticamente a guerra tinha acabado no norte de Angola, o norte de Angola tinha sido recuperado. Só haverá voltar a haver atividades de guerrilha por volta do fim de dezembro de 1961. E mais, uma força de 33 mil homens, que Portugal tem nesse momento em Angola, efetuaram esta operação de recuperação, de reocupação, com 167 mortos, relativamente baixo. Isto foi uma surpresa enorme pra toda a gente. Os Estados Unidos ficaram em estado de choque. Os Estados Unidos não acreditavam, ninguém acreditava que Portugal tivesse meios para recuperar Angola depois de um ataque destes. Toda gente tinha pensado: "Bem, eles perderam Angola. Em março, abril, acabou". A opinião internacional era: "Desistam, já chega, não vale a pena". E a verdade é que isto causou um choque internacional quando Portugal subitamente provou que era capaz de reocupar Angola. Claro, o resultado foram 13 anos de guerra.
Certo. Já voltaremos a falar mais disso, exatamente, na segunda parte de "E o Resto é História". Até lá. Olá, sejam bem-vindos a esta segunda parte de "E o Resto é História", programa número 87. Na primeira parte, estivemos a falar dos ataques de 15 de março de 1961. Alguns historiadores encontram uma justificação pra esses ataques da UPA no norte de Angola, na repressão de que foram alvo os grevistas da Companhia Geral dos Algodões de Angola, conhecida como Cottonang, dois meses antes. No dia 4 de janeiro de 1961, houve uma primeira revolta contra o regime colonial português, devido à obrigatoriedade de produzir algodão na zona da Baixa do Cassange. As populações dessas terras, consideradas pelo Estado português como indígenas e que viviam das suas pequenas produções agrícolas, foram obrigadas a dedicarem-se ao cultivo de algodão, o que provocou grande descontentamento e greves ao longo de janeiro de 61. Essas greves terão sido reprimidas pelo regime com recurso a meios aéreos, que provocaram numerosas vítimas e por isso há até historiadores que consideram que o início da guerra colonial deveria ser o 4 de janeiro de 1961 e não o 15 de março. Parece que o argumento faz sentido, Rui?
Não acho que faça sentido, porque aquilo que nós chamamos a guerra colonial, as guerras em África nos anos 60, são guerras dirigidas por partidos independentistas com o objetivo de atingir a independência. Estes protestos em janeiro de 1961 na Baixa do Cassange, são protestos contra o sistema colonial, alguns aspetos do sistema colonial, como por exemplo, as chamadas culturas obrigatórias. Isto é, a maneira como as populações eram obrigadas a cultivar produtos que depois podiam ser comercializados. Como era o caso do algodão ou noutras regiões, o café, açúcar e outras coisas assim.
E as populações eram obrigadas a abandonar o seu modo de vida tradicional.
Sim, e às vezes sentiam que o negócio não era justo.
Claro. Depois há alguns problemas por aí ainda.
Por vezes, há uma tentativa de fazer entroncar as campanhas dos partidos independentistas nos anos 60, nestas resistências das populações rurais às autoridades coloniais. Isto é uma forma de legitimar socialmente o independentismo e de o fazer legal, digamos, a uma contestação popular. E por que havia esta necessidade? Basicamente, porque o independentismo nos anos 60 não vem desta contestação, destas revoltas populares, tem outras origens. Estas revoltas e estas resistências das populações rurais, primeiro tinham sido muito maiores no início da colonização, no fim do século XIX e no princípio do século XX. Eu estou a dizer o início da colonização e estou a dizer corretamente.
Certo, nós já falamos disso aqui.
Já falamos disso aqui. A colonização, isto é, a ocupação destes grandes territórios, é um acontecimento do fim do século XIX, princípio do século XX, em Angola, em Moçambique, na Guiné, em Timor. É no fim do século XIX, no princípio do século XX que estes territórios são ocupados. Não foi no século XVI, não foi o Vasco da Gama que ocupou estes territórios. Ora, nessa época, as populações resistiram à imposição daquilo que na altura era a necessidade de reconhecer a soberania portuguesa e de pagar tributos. Portanto, resistiram, mas resistiram atrás, dirigidas pelas suas autoridades tradicionais, os seus chefes, os seus reis, os seus réguos, foram esses que dirigiram estas resistências. Portanto, não tem a ver com a luta nos anos 60, a luta pela independência nos anos 60, que não tem origem nas populações rurais, mas tem origem em populações urbanas Quer daquilo que eram chamados, vou usar os termos coloniais, mestiços ou os chamados assimilados, os nativos assimilados, isto é, aqueles que tinham adotado um modo de vida europeu. Muitos que tinham sido educados em missões protestantes, muitos que tinham sido educados em missões católicas e que até tinham ido estudar pra Portugal. Muitos dos independentistas são estudantes da Casa do Império, os estudantes que vêm para estudar na universidade em Portugal e que depois se tornam militantes da independência, Amílcar Cabral, Agostinho Neto, ou então são produto destas missões protestantes como Holden Roberto, Jonas Savimbi, Eduardo Mondlane, em Moçambique. Portanto, essas são as origens deles. E o que eles verdadeiramente pretendem? Eles pretendem não um regresso destes territórios africanos ao estado em que estavam antes da colonização europeia, mas sim a transformação desses territórios em estados de tipo europeu. E além disso, querem fazer uma revolução social nesses países. Querem transformar aquelas sociedades rurais ainda submetidas, portanto, populações que, sobretudo no caso português, ainda vivem muito a sua vida tradicional, longe dos europeus. O Amílcar Cabral até tem um discurso em que diz isso, ele diz: "Mesmo na Guiné, a maior parte da população da Guiné nunca viu um branco". Isto em 1960.
Paradoxalmente, o que tu estás a dizer é que a própria independência, o tipo de luta de independência, é uma derivada do próprio colonialismo.
Aquilo que se pode dizer é que, de uma certa maneira, nós podemos conceber estes independentistas como agentes de uma nova fase da colonização europeia, isto é, ou da transformação europeia destas sociedades. Eles querem implantar um Estado com o mesmo tipo de administração da administração colonial, querem substituir a administração colonial, querem tornar o Estado colonial um Estado independente.
Mas com a mesma estrutura.
E querem com uma estrutura europeia, com escolas europeias, e nalguns casos inspirado também por ideologias comunistas, ideologias marxistas e, portanto, abolição da propriedade privada, coletivização dos meios de produção, etc.
E toda a arquitetura jurídica, a própria arquitetura jurídica dos Estados.
Exatamente. Portanto, na prática, querem fazer uma revolução, aliás, que para algumas dessas populações era também absolutamente abominável. E não é por acaso que muitos destes partidos independentistas, por exemplo, em Angola, fazem uma campanha contra os chefes tradicionais, até de assassinato dos chefes tradicionais dessas populações, porque os veem como obstáculos a esta revolução.
E é uma certa ideia de progresso.
Isto são revoluções que vêm de fora pra dentro. O grande apoio destes partidos independentistas está, por um lado, nos novos Estados independentes, sobretudo nos novos Estados independentes que são vizinhos dos territórios coloniais portugueses, e está naquelas potências mundiais que querem pôr termo à influência europeia em África, como sejam a União Soviética, por exemplo, muito apostada nisso, mas também, neste caso, em 1960, 61, os Estados Unidos. Portanto, os independentistas não querem apenas a independência, querem fazer muito mais, querem uma revolução política e social e, portanto, aquilo que eles querem fazer não vem na sequência da resistência da população local às estruturas de exploração colonial. Aliás, essas estruturas de exploração colonial são rapidamente desmanteladas pelo próprio governo português em 1961.
Uma forma de conquistar as populações.
Exatamente. O novo ministro do Ultramar, o Adriano Moreira, vai abolir as culturas obrigatórias, enfim, uma das causas do descontentamento na Baixa do Cassange, 24 de agosto, fim das culturas obrigatórias, as populações deixam de estar obrigadas a cultivar isto ou aquilo. Depois vai abolir o Estatuto do Indigenato, isto é, vai, na prática, reconhecer que toda aquela população tem direito à cidadania portuguesa. Não são indígenas, são cidadãos portugueses. E dois ou três anos depois, por exemplo, em Angola, já há meio milhão de africanos com o bilhete de identidade português. Não foi apenas uma reforma no papel, as pessoas começaram a adotar.
Depois o Pentagon, depois do 25 de Abril, como nós explicámos na guia.
E vai acabar também com outro tipo de estruturas de exploração, como ao trabalho forçado em 1962. E é curioso, não mais há o tipo de revoltas e de protestos como o da Baixa do Cassange, não voltam a acontecer. Isto é, acaba com isso. O independentismo continua, não é por causa desse descontentamento da população por essas estruturas, mas porque tem uma base ideológica e tem apoio externo para prosseguir e para iniciar uma campanha armada. Portanto, a guerra começa quando esses partidos independentistas começam a guerra, e não antes. No caso Angola, é a UPA em 15 de março. Aliás, há os acontecimentos também do 4 de fevereiro, que também não têm a ver com os partidos independentistas e que são depois falsamente reivindicados, por exemplo, pelo MPLA, pra fingir que foi o MPLA que organizou aquilo. Para quê? Para dizer que foi o MPLA que tinha começado a luta armada antes da UPA, porque é preciso não esquecer que há vários partidos independentistas em todos estes territórios, não só em Angola, também na Guiné e também em Moçambique. Também há muita concorrência e claro, todos eles querem ter a prioridade sobre quem é que começou primeiro a lutar contra o colonialismo português. Então inventam-se coisas, falsifica-se a história, etc, com esse objetivo.
Uma das críticas recorrentes que se faz a Salazar e à sua política colonial é esta: em 1961 era totalmente absurdo estar a lutar por colônias em África, quando todas as grandes potências, a Alemanha e a Itália na década de 40 e depois ao longo da década de 50, a Inglaterra e a França, já tinham abandonado o continente africano. A minha pergunta é muito simples: era mesmo totalmente absurdo alimentar uma guerra colonial em África nos anos 60 do século XX?
Absurdo não era e espero conseguir explicar o que quero dizer com isto. Era discutível. Discutível era, mas não era absurdo. Era discutível porque, de facto, a moda na Europa no começo dos anos 60 parecia ser o abandono, os tais ventos de mudança de que falava o primeiro-ministro britânico Harold Macmillan. Havia ventos de mudança em África. E isso refletia-se, aliás, na quantidade de novos estados na Organização das Nações Unidas. Em 1945, a ONU tinha começado com 51 estados, em 1965 tem 117, mais do dobro, uma grande parte destes estados são estados em 20 anos, que se tornaram independentes quer na Ásia, quer, sobretudo, em África. Agora, a maior parte das potências coloniais europeias, ao contrário do que às vezes se diz para tornar a posição portuguesa absurda, a maior parte das potências coloniais europeias, que não eram todos os países europeus, nem todos os países europeus tinham colónias. A maior parte das potências coloniais europeias só deixaram as suas colónias depois de muita resistência. Isto é, ninguém deixou imediatamente. Em África, o Reino Unido fez uma guerra no Quénia entre 1952 e 1960 contra os independentistas. Portanto, durante oito anos, uma guerra que fez mais de 2000 mortos, a campanha contra os Mau Mau, essa famosa campanha. A França fez uma guerra na Argélia, no norte de África, entre 1954 e 1962, seis anos, chegou a ter um corpo expedicionário na Argélia de 500 mil homens, meio milhão de homens, um exército de meio milhão de homens. E teve 25 mil soldados mortos. Foi uma guerra violentíssima, muito mais violenta do que a guerra portuguesa. Mesmo a Bélgica, como já aqui foi dito, em 1959 disse que ia dar independência ao Congo, mas quis ficar lá, queria ficar até 1964. Não ficou, não pôde. Isto para não falar depois na Ásia. Na Ásia, a Holanda tentou ficar na Indonésia entre 1945 e 1949, mandou para lá um exército de 180 mil homens. Uma guerra duríssima, uma guerra de uma extrema violência. 5000 soldados holandeses morreram em quatro anos de guerra. Portanto, a Holanda também não abandonou. Não, foi depois de uma guerra violentíssima que desistiu. A mesma coisa fez a Inglaterra na Malásia entre 1948 e 1960, e a França no Vietname entre 1946 e 1954. E na Malásia e no Vietname tem esta característica: eram territórios a que quer o Reino Unido, quer a França já tinham dado a independência, mas ficaram lá a combater aquilo que eles diziam que eram insurgências comunistas. Isto é, mesmo quando as potências europeias, por vezes, saíam, esforçavam-se por manter uma ascendência, por manter uma influência e estavam dispostas a fazer guerra e a investir, como a França fez no Vietname, um exército de 150 mil homens, que teve 20 mil mortos em combate. Isto é, aliás, porque o exército francês no Vietname conheceu desastres gigantes, como o de Dien Bien Phu, etc., em que perdeu milhares de homens. Mas fez-se esse esforço para manter a influência num território em que a questão da independência não estava em causa. Mas estava em causa manter-se lá um governo que a França achava que era o governo certo para lá estar.
Certo, mas essa tua descrição também vale como argumento para dizer que Portugal podia ter aprendido alguma coisa.
E Portugal aprendeu imenso, e por isso é que fez uma guerra muito eficaz, porque os militares portugueses estudaram as técnicas que os ingleses tinham usado na Malásia para derrotar as forças de insurreição comunista e estudaram ainda com maior detalhe, até no terreno, aquilo que os franceses estavam a fazer na Argélia. Portanto, estas guerras ajudaram a guerra portuguesa. Quando começou a guerra em África, o exército português está muito preparado para não cometer os erros dos outros exércitos europeus e para manter a guerra exatamente como queria e para a fazer como devia ser feita. Portanto, foi uma guerra muito mais eficaz, a guerra portuguesa, precisamente porque os militares portugueses tiveram acesso a todos os manuais de contraguerrilha que tinham sido produzidos por ingleses e franceses. E outra coisa óbvia, estamos a falar Holanda, França, Reino Unido, Bélgica, não estamos a falar de ditaduras, estamos a falar de democracias e o governo que fez a guerra da Argélia em França, esse governo era um governo de esquerda. Era um governo em que um dos ministros era o senhor Mitterrand, o líder do Partido Socialista. Foram eles que fizeram. Por quê? Porque consideravam que a Argélia era parte da França. E o que acontecia em Portugal em 1960 é que há toda uma tradição de considerar que Portugal só faz sentido com o seu império ultramarino, com as suas colónias, e portanto, há toda uma parte da oposição que também defende o ultramar de acordo com a tradição republicana. Em 1916, Portugal tinha entrado na Primeira Guerra Mundial para defender as suas colónias. Grandes figuras da oposição ao salazarismo eram grandes figuras do colonialismo, como o general Norton de Matos, em Angola, aliás, também um grande opositor de Salazar, mas homenageado pelo regime salazarista depois em Angola, com estátuas.
E o PCP.
E mesmo o PCP, só em 1957, estamos a falar quatro anos antes destes acontecimentos de 1961, é que tinha admitido pela primeira vez, em público, a hipótese da independência das colónias. Até então não o tinha feito. Alvaro Cunhal nos anos 40 considera que as colónias não constituem nações e, portanto, não podem ser independentes de Portugal.
Com o aprofundar da Guerra Fria.
É só nos anos 50, com a orientação da União Soviética para tentar criar uma nova frente contra as potências ocidentais em África, que o PC muda de orientação, e é o único, e muito discreto. É mais a extrema-esquerda depois, nos anos 60, que vai tornar a questão da independência das chamadas colónias como uma causa da esquerda. É mais a extrema-esquerda. E claro, nos anos 50 ainda havia uma razão para as potências europeias não estarem muito disponíveis para sair de ânimo leve destes seus territórios ultramarinos: é a Guerra Fria. Por exemplo, há muita gente na Europa que está convencida que a África é fundamental como uma retaguarda da Europa numa eventual guerra com a União Soviética, tal como tinha sido na guerra contra a Alemanha nazista. Isto é, o primeiro desembarque de tropas americanas faz-se no norte de África, é a partir do norte de África que se inicia a reconquista da Europa, da Sília e do sul de Itália.
A própria França Livre foi construída também.
A França Livre, portanto, também está baseada na África. E depois há todos os produtos e as matérias-primas de África que são consideradas essenciais para uma resistência da Europa à influência comunista. Ora bem, estive aqui a dar várias razões para eles não saírem embora, mas eles foram-se embora. E por quê? Basicamente, porque há um momento em que os proventos de manter a administração europeia nestes países não conseguem compensar os gastos. Isso tornou-se claro. A primeira potência que percebeu isso é o Reino Unido, no caso da Índia. Em 1947, o Reino Unido concede a independência à União Indiana e fá-lo pura e simplesmente porque era impossível manter a administração da Índia, como foi explicado então ao governo britânico, sem que todo o exército que o Reino Unido tinha na Europa no fim da Segunda Guerra Mundial fosse imediatamente transferido para a Índia para manter o controle, para impedir a insurreição do Partido do Congresso. Isto praticamente acabou. Era impossível um governo britânico dizer a todas aquelas centenas de milhares de soldados que só queriam ir para casa, que estavam na Alemanha, em França e que só queriam ir para casa: "Não, agora vamos para a Índia para manter este domínio britânico". Não. Portanto, aí foi o fim basicamente do império indiano. E a mesma razão se aplicou noutras partes, mas não em todas, nem imediatamente. E vamos explicar porquê.
Exato. Nem imediatamente é um bom gancho para nós terminarmos aqui o "E o Resto é História" em FM. Quem quiser continuar a seguir-nos, ainda há alguma coisa para dizer sobre este assunto, já sabe, tem o podcast de "E o Resto é História". Nós paramos por aqui. Para os outros ouvintes, despedimo-nos aqui e até para a semana. Rui, onde é que nós estávamos então?
Descrevemos uma das razões pelas quais as potências europeias saíram dos seus territórios fora da Europa, abandonaram a administração desses territórios na Ásia, no Médio Oriente, em África, que era onde nessa altura havia. E íamos dizer que embora houvesse razões para sair, e as razões eram quando havia grandes contestações à presença europeia e muito pouca vontade de recorrer a meios repressivos para manter lá a presença europeia, já não valia a pena. O caso da Índia é o mais notório. Em 1947, o Reino Unido admite que não é capaz de controlar aquilo que hoje é a Índia, a Germânia e o Paquistão. Esse é o império britânico nessa região da Ásia e basicamente era impossível continuar a manter-se aí uma presença militar para a qual não havia disposição, já não havia disponibilidade para manter essa presença militar. Agora, houve várias razões para atrasar esta saída noutras regiões. Três grandes razões: uma, por vezes havia grandes interesses económicos e havia os respectivos grupos de lobby a dizer: "Não nos vamos embora, temos cultura de borracha", imensas empresas que se dedicam a isso e querem manter a administração europeia como uma garantia para continuarem a operar, embora por vezes a independência não implicasse o fim da sua presença, mas por vezes faziam lobby para manter essa presença. Mais sério do que isso era quando havia uma massa de população europeia ou de origem europeia que não estava disposta a abandonar o território e receava ficar sob autoridades de maioria indígena. O caso da Argélia, por exemplo. A Argélia no norte de África tem mais de 1 milhão de franceses que vivem na Argélia. E esses franceses são uma grande resistência à retirada da França. E quando o governo francês, já com o general de Gaulle, depois de 1958, dá a entender que está disponível para entregar o país aos independentistas, essa população revolta-se e em 1961 apoia mesmo as Forças Armadas Francesas na Argélia, quando tentam dar um golpe de Estado contra o general de Gaulle para manter a presença francesa na Argélia. Há casos ainda mais dramáticos Ao caso da Rodésia, uma colônia britânica, também com uma população branca, cerca de 258 mil europeus vivem naquilo que vai ser chamado a Rodésia. Quando se apercebem que o Reino Unido está disponível para conceder a independência, revoltam-se e eles próprios tornam a Rodésia um Estado independente em 1965, a chamada independência branca. As chamadas independências brancas, isto é, as das minorias brancas serem eles próprios a promoverem a separação e a independência destes territórios, era um horizonte que também esteve, por exemplo, no caso português. Em Angola, em 1962, há problemas com o governador-geral, o general Venâncio dos Santos, e há um receio mesmo no governo português que o general Dos Santos possa promover e liderar uma separação de Angola de Portugal e, portanto, uma independência, a chamada independência branca.
Seguindo a situação da África do Sul.
E da Rodésia, e daquilo que vai ser a Rodésia em 1965. Aliás, em 1974, esse era também um dos grandes receios que havia, era que perante a revolução em Portugal, estes territórios pudessem tornar independentes. E depois, uma terceira razão é que, como já dissemos na primeira parte do programa, em muitos casos, já não estava apenas em causa a independência destes territórios, mas o estabelecimento de governos apoiados pela União Soviética, com as respectivas ditaduras e partidos únicos e planos de estatização da economia, como era o caso da Argélia. Portanto, havia um medo maior ainda do que significaria a independência. E isso até levava uma parte das populações locais, ditas naturais, a oporem-se também aos movimentos independentistas quando percebiam que eles representavam esta ideologia, uma ideologia comunista, e portanto, o estabelecimento de uma ditadura de partido único e às vezes até uma ditadura de uma determinada tribo dentro das tribos que compunham aquele território. E que para os europeus isso significava bem, os europeus às vezes tinham uma visão eurocêntrica, eles são todos iguais ali. Não, aquelas populações não eram todas iguais, tinham grandes diferenças culturais, linguísticas, estavam apenas aprisionadas dentro de fronteiras que eram as fronteiras desenhadas pelos poderes coloniais e não estavam dispostas a deixar a submissão aos europeus para se submeterem a uma outra tribo, que por vezes até eram de inimigos tradicionais. Portanto, havia às vezes essas resistências grandes. Só pra dar mais um exemplo, no caso da Índia, por exemplo, um dos grandes problemas da independência da Índia era o fato de haver muçulmanos, hindus e budistas, e portanto, de a independência implicar uma divisão, uma partilha dos territórios entre estas, neste caso, grandes comunidades religiosas. E como se sabe, a partilha em 1947, 48 é uma calamidade gigantesca. Há massacres enormes, grandes transferências de população, um horror. O que deu ideia também da descolonização como uma coisa horrível. Isto é, se a colonização já tinha uma má reputação nos anos 40, 50 e 60, sabia-se como é que tinha sido a colonização belga do Congo, muito violenta, e noutras partes, enfim, e noutros territórios, a descolonização depois também começa a assustar muitas pessoas. Isto é, com o caso da Índia, o horror que é a descolonização, aquela separação daquelas populações que só tinham estado unidas pela presença europeia e que de repente têm de se dividir entre si através de guerras e de massacres e de coisas tremendas, como tinha acontecido na Índia e como vai acontecer, por exemplo, no Congo também em 1960, 61. Agora, no caso português, há uma outra razão pela qual a ditadura de Salazar resiste. E não é apenas porque quer, é porque pode. Portugal pode resistir, ao contrário da Bélgica no Congo, ao contrário do Reino Unido na Índia, ao contrário da França na Argélia, Portugal, em Angola, Moçambique e na Guiné, pode resistir e resistiu, aliás, durante 13 anos.
Como é que pode, tendo muito menos meios, muito menos gente?
Um país mais pobre consegue resistir. Agora, claro, no país mais pobre está a chave. É que as suas colônias também eram mais pobres por ser um país mais pobre. Isto é, as colônias portuguesas em África eram as mais subdesenvolvidas da África. Aliás, eram também as menos povoadas, porque as outras potências europeias só tinham deixado a Portugal aquilo que era menos povoado, claro, como é óbvio, não tinham deixado o melhor.
Não, porque a mão de obra era muito importante.
Exato, era o mais importante tudo. Não valia a pena ter grandes riquezas naturais se não houvesse população para depois explorar. E portanto, quer a França, quer a Inglaterra ficaram imediatamente com as grandes zonas de povoamento em África, por exemplo, a Inglaterra com a Nigéria, que é uma grande zona superpovuada, foi essa que ocuparam. Portanto, quer a costa oriental da África, que veio a ser Moçambique, era uma coisa muito menos interessante do que o interior da África, que foi ocupado pela Inglaterra. Estes territórios são territórios dos menos povoados, dos menos desenvolvidos, e portanto, Portugal não tem grandes cidades cheias de população indígena, já até educada e digamos, ocupada noutros empregos e portanto, decidida a reivindicar a independência. Não, há menos população e a maior parte dessa população, nestes territórios portugueses, vive nos campos, sob as suas autoridades tradicionais e, portanto, a independência não é uma das prioridades destas populações, como repito aquilo que disse, o caso do Amílcar Cabral, uma grande parte da população da Guiné nunca tinha visto um branco em 1960, antes da guerra. Nunca tinha visto um branco. Estes territórios permitem uma resistência que, por exemplo, a Nigéria não permitiria. Na Nigéria, os britânicos para ficar lá teriam de enfrentar uma população urbanizada enorme, que iria contestar a sua presença.
O poupadinho de Salazar, ainda assim, conseguiu pôr umas moedas de lado para fazer a guerra, mas não precisou de se desgraçar. É o que tu estás a dizer.
Nada. Em 1961, o general Botelho Moniz, conta-se isso, foi ter com Salazar e disse-lhe que para defender Angola ele precisava de 1.500.000 contos. E Salazar disse logo: "Ai é? Então vamos já embora. Assim não dá." E deu-lhe 100.000 contos. Ele disse: "Ou isto é barato ou a gente vai-se embora."
15 vezes menos.
E o ponto é que a guerra em Angola a partir de 1961, a guerra na Guiné a partir de 1963, a guerra em Moçambique a partir de 1964, mantêm-se como uma guerra de fronteiras de baixa intensidade. E portanto, uma guerra relativamente barata para Portugal, quer barata em termos financeiros, quer barata em termos de não ser muito penalizadora em termos de baixas em combate.
Isto às vezes pode ser chocante. Qualquer pessoa que nos ouve olha para a guerra colonial como um cortejo de horrores onde uma nova geração estava a ser enviada e é a principal justificação para o 25 de Abril, não é? Como é que tu justificas este aumento da baixa intensidade?
O esforço militar português é muito grande. É o maior esforço militar de um país ocidental depois de 1945. Cerca de 800 mil homens passaram por África, 800 mil europeus, jovens portugueses europeus passaram por África, e em 1968, 36% das despesas públicas eram direcionadas para o esforço militar em África. Há um esforço muito grande, mas é um esforço sustentável. Militarmente, as baixas são baixas relativamente moderadas em relação a outros esforços militares que outras potências ocidentais fizeram nesta época. Por exemplo, por mil combatentes, a mortalidade do exército português é 2,23 por mil combatentes. O exército americano no Vietname, entre 1965 e 1968, essa mortalidade foi de 14,7. Sete vezes mais americanos morreram por mil combatentes no Vietname do que nas guerras portuguesas. Portanto, as guerras portuguesas não implicavam como implicou no Vietname. No Vietname, basicamente os Estados Unidos estavam a enfrentar o exército do Vietname do Norte em combates frontais. Não era apenas uma guerra de guerrilhas, era uma guerra frontal, com artilharia pesada do outro lado, etc. A guerra portuguesa é uma guerra de emboscadas e de minas, e nas fronteiras. É uma guerra nas fronteiras. Quem estava em Luanda e Lourenço Marques estava bem, e por isso mesmo é que a população europeia, quer em Angola, quer em Moçambique, subiu nos anos 60 durante a guerra. Por exemplo, em Angola viviam 172 mil europeus em 1960, e em 1974 estavam 335 mil.
Isso é o dobro.
O dobro. A razão para isto era que a guerra não os afetava. Quem vivia em Angola, em Benguela, em Nova Lisboa, não estava afetado pela guerra. A guerra era uma coisa do norte, do leste, uma coisa a milhares de quilómetros de distância. E portanto as pessoas não sentiam a guerra. Em Moçambique, havia guerra em Cabo Delgado, havia uma guerra no norte. Aliás, o quartel-general das Forças Armadas Portuguesas não estava em Lourenço Marques, estava em Nampula, precisamente para estar mais perto da zona de conflito. E depois, em termos dos custos, Portugal e até as suas colónias iniciam um grande processo de crescimento económico nesta época, o que absorveu os custos da guerra. Isto é, os custos da guerra mantiveram-se constantes em termos de percentagem do orçamento, porque obviamente o orçamento aumentou, as receitas aumentaram, uma economia portuguesa que estava a crescer a taxas de 5,7% nos anos 60. E mesmo a economia de Angola entre 1963 e 1973 cresceu a uma taxa média de 107% durante a guerra. As despesas militares ao princípio aumentaram e fizeram as contas públicas desequilibrar-se em 1961, mas mesmo assim, para défices que hoje parecem irrisórios, 2,4 em 1961, 2,7 em 1964. Isto em termos do PIB. Em 1970, já houve um superávit. Isto é, em plena guerra, em pleno esforço militar, havia um excesso de receitas sobre despesas. A despesa militar manteve-se para um exército de 149 mil homens, um exército bastante grande, nas três frentes de combate, Guiné, Angola e Moçambique, manteve-se a uma espécie de taxa. Aliás, até baixou um bocadinho nos anos 70. Isto permitiu também fazer essa guerra. E depois, além disso, Portugal, apesar das condenações nas Nações Unidas, tinha muito mais apoio internacional do que parecia. Os Estados Unidos, em 1961, estiveram contra Portugal, mas depois mudaram de opinião, aliás, por causa da resistência portuguesa, e depois também porque os Estados Unidos, a própria administração Kennedy e depois Johnson, se envolveu no Vietname em 1975. E portanto, os portugueses podiam ter uma-
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Em 1965, exato. Se estão a combater no Vietname contra a presença comunista, nós também estamos a combater em Angola, em Moçambique e na Guiné contra uma tomada do poder daqueles territórios pelos comunistas O PAIGC, o MPLA e a FRELIMO são de inspiração soviético-chinesa. Portanto, nós também estamos a fazer a mesma guerra. O que estamos a fazer a mais do que vocês? E este encaixe das guerras portuguesas na Guerra Fria legitimou-as de alguma maneira perante muitas potências ocidentais. E depois ainda houve outra coisa que ajudou Portugal, foi que as independências africanas correram muito mal, logo nos anos 60. O Congo, por exemplo, tornou-se imediatamente uma zona de guerra civil e continua até hoje. Em 1960, 61, há alguma intervenção das Nações Unidas que não resulta, há massacres. Há muitas potências coloniais, ex-potências coloniais europeias que dizem: "Se calhar é melhor os portugueses continuarem Angola e Moçambique, em vez de darem independência, porque o destino das independências são guerras civis ou ditaduras ainda mais sangrentas do que os europeus." E depois há também a rivalidade entre as potências europeias, por exemplo, a Alemanha e a França, sobretudo a França, apoia muito, imediatamente Portugal, porque são profundamente, sobretudo a França, muito anti-americanos. E o general de Gaulle chamou logo o embaixador português em maio de 1961 e disse: "Resistam, não liguem aos Estados Unidos, a França vai vos ajudar." E de facto, depois a França e a Alemanha tornaram-se grandes fornecedores de material de guerra aos portugueses. E depois, claro, no caso da África Austral, de Angola e Moçambique, também temos a Rodésia e a África do Sul com regimes brancos a amparar as colónias portuguesas e as colónias portuguesas a ampará-los também a eles. Há ali uma aliança que nunca foi muito explícita, mas que funcionou, de apoios mútuos. E depois, claro, há uma coisa que nós não nos podemos esquecer. A guerra colonial para nós parece um assunto tremendo, enorme, muito grande para Portugal, mas experimentem a desfolhar um jornal qualquer ou imprensa americana, britânica ou francesa nos anos 60, 70. Não existe. Isto é, a guerra colonial portuguesa não interessa. Não interessa a ninguém. Interessou em 1961, quando começou em março, abril de 1961, Angola, isso chamou muito a atenção. E depois desapareceu até 1974. Por quê? Interessou mais a guerra civil na Nigéria, interessou mais a guerra do Vietname, interessou mais as guerras no Médio Oriente e até mesmo para a União Soviética e para a China comunista, que apoiam os partidos independentistas que lutam contra os portugueses, interessa mais, obviamente, apoiar o Vietname do que apoiar os independentistas. Até mesmo Che Guevara, que chegou a estar no Congo e a pensar iniciar uma guerra contra o imperialismo em África, andou lá a falar com aquela gente toda no princípio dos anos 60 e acabou por decidir ir fazer a guerra para a Bolívia, onde aliás morreu em 1966, 67. Portanto, a África era uma coisa desinteressante. As descolonizações tinham corrido mal, os novos regimes independentistas eram todos ditaduras, todos tinham iniciado guerras civis, coisas sangrentas, histórias horríveis e portanto as pessoas desviaram o olhar e não estavam muito interessadas no caso português. Isso permitiu obviamente a Portugal também, à ditadura de Salazar, escapar a grandes sanções. Não sofreu sanções económicas, não houve bloqueios a Portugal. Os países do terceiro mundo, o chamado movimento dos não aliados, romperam relações com Portugal, mas os Estados Unidos, o Reino Unido, a França, a Alemanha mantiveram relações. Em 1973, Marcelo Caetano fez uma visita oficial ao Reino Unido, onde foi recebido com todas as honras. Uns poucos anos antes, tinha havido uma cimeira nos Açores de Nixon e de Pompidou, o presidente francês. Portugal não era um pária, não era um Estado pária, era um Estado aceito, fazia parte das Nações Unidas, havia umas votações de vez em quando, mas isto obviamente também permitiu que se mantivesse esta guerra e uma guerra que não tinha grandes notícias. Isto é, não havia grandes batalhas como no Vietname, não havia grandes territórios ocupados, libertados, digamos assim, pelos partidos independentistas, era tudo coisas de fronteira. Portanto, não havia noticiário, não havia notícias, não havia nada. E havia uma grande prosperidade económica. Isto permitiu à ditadura salazarista, obviamente a ditadura é também uma condição para a continuação da guerra. Não há debate público sobre o Ultramar. Se Portugal fosse uma democracia, eu acho que em 1961, provavelmente, teria havido um esforço militar em Angola para proteger as populações, mas é provável que em 63 ou 64 começasse a haver discussão sobre: "Mas vamos continuar este esforço militar em África?" E provavelmente haveria movimentos, partidos, personalidades políticas a discordar e dizer que não, como acontece com a contestação à guerra do Vietname nos Estados Unidos. Agora, claro, com a censura, que também não deixava as notícias passarem, e com a PIDE e com um especial cuidado em não deixar passar coisas que pusessem em causa a presença portuguesa em África, foi possível manter o esforço de guerra durante muito mais tempo.
Muito bem. E assim acaba este episódio número 87 de "E o Resto é História". Uma longa história da guerra colonial. Ficamos a saber porque é que ela durou durante tanto tempo e tal como esta guerra colonial também durou mais do que o costume o nosso programa, mas acho que valeu bem a pena. Até para a semana.
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