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E o resto é história. É apenas fumaça. Do incêndio de Pedrógão Grande, ainda na zona do Chiado. Quer transformar este país numa ditadura. Tu entendes? Não, não. Com João Miguel Tavares e Rui Ramos.
Olá, seja bem-vindo a este episódio 246 de "E o Resto é História", com Rui Ramos e João Miguel Tavares. A propósito das últimas eleições legislativas e dos resultados obtidos pelo Chega, têm sido feitas muitas comparações com o PRD, o Partido Renovador Democrático, que foi formado para concorrer às eleições legislativas de 1985 e que obteve então quase 18% dos votos, uma votação muito próxima da do partido de André Ventura. Os nossos ouvintes já conhecem de cor uma das regras de ouro deste programa, mas nós insistimos em recordá-la. Tanto eu como Rui temos o privilégio de ter espaços na comunicação social onde podemos partilhar com o mundo as nossas opiniões sobre a política atual e, portanto, pra aqui fazemos outra coisa, não fazemos isso. Este é um programa sobre história, só que lá está. Estamos a falar de 1985 e ao fim de quase 40 anos, o PRD é definitivamente história. Por isso, pareceu-nos proveitoso recordar neste programa o que é que foi exatamente o PRD, esse partido nascido à sombra do general Ramalho Eanes, que em 1985 obteve os tais 18% de votos e 45 deputados sob a liderança de Hermínio Martinho, pra apenas dois anos depois, em 1987, quando Cavaco Silva obteve a sua primeira maioria absoluta, cair estrondosamente para os 4,9% e sete deputados, curiosamente, aí já sob a liderança do próprio Ramalho Eanes, que é uma coisa que muita gente acho que não se lembra. Depois disso, o PRD foi se extinguindo lentamente, sendo que em 1991, na segunda maioria absoluta de Cavaco Silva, ele já obteve uns ridículos 0,6% e perdeu qualquer representação parlamentar. Rui, por que é que em 1985, um general, em final de mandato como presidente da República, decidiu patrocinar a fundação de um partido político? É que hoje, cerca de 40 anos depois, parece uma ideia bastante bizarra.
Uma ideia de que depois muita gente se arrependeu, daqueles que fizeram o PRD, mas que na altura pareceu muito lógica. E pra percebemos isso, pra percebemos o sentido que fazia o Partido Renovador Democrático em 1985, acho que vamos ter de lembrar quem foi o general Eanes e para isso recuar. Como é inevitável a história, recuamos sempre. Os historiadores andam sempre pra trás.
Às recuas, como as caganeiras.
Recuar dez anos, até 1976. O general Eanes tinha sido o comandante das operações que em 25 de novembro de 1975 haviam começado a desarmar os grupos militares alinhados com o PCP e com a extrema-esquerda. Esses grupos tinham dominado o país em 1974, 1975, durante a revolução. Portanto, é em 25 de novembro de 1975 que eles são contidos, desmantelados.
Olha, e no 25 de abril, muitas vezes nós não recordamos. Ou seja, fala-se sempre do general Eanes a propósito do 25 de novembro de 75, mas ele já teve algum papel em abril de 74.
Ele tinha tido um papel na origem do movimento que vai dar origem ao MFA.
Sim, mas não esteve envolvido nas operações.
Creio que não estava em Portugal nessa altura. E, portanto, não esteve envolvido nas operações, mas depois teve uma participação a seguir.
Certo.
Foi presidente do Conselho de Administração da RTP em 1974, 75, por exemplo. Ele é um oficial visto como próximo do general Spínola, em 74, 75, e por isso mesmo é que em 1975, no 25 de novembro, o 25 de novembro é feito com base numa espécie de uma, não vou dizer uma aliança, mas uma sintonia entre o chamado Grupo dos Nove do Conselho da Revolução, que representava o MFA moderado, portanto, os moderados da esquerda militar, e aquilo que se chamava a direita militar, os oficiais conservadores. E o general Eanes, basicamente, é um mediador entre estas duas correntes ou duas dimensões do esforço militar do 25 de novembro. Portanto, no dia 25 de novembro, ele está no lugar que, por exemplo, Otelo Saraiva de Carvalho esteve no 25 de abril, é o comandante operacional, é quem está a comandar as operações. E depois do 25 de novembro, ele é nomeado chefe do Estado-Maior do Exército, e enquanto chefe do Estado-Maior do Exército, é ele, basicamente, que põe termo ao ambiente revolucionário nas Forças Armadas, isto é, ao MFA. Repõe a hierarquia, repõe a ordem nos quartéis, dá um aspecto outra vez militar às Forças Armadas, que tinham perdido isso em 1974.
Mandou fazer a barba, é isso?
E cortar o cabelo e por aí fora. Eanes torna-se uma figura central na passagem do ano de 1975 pra o ano de 1976. É uma figura muito característica, muito diferente daquelas a que o país se tinha habituado durante a revolução. Portanto, é um militar austero, quase nunca sorri, não fala muito, com aspecto muito sério, portanto, ao contrário daqueles militares.
Um anti-Otelo.
É, que fala imenso, extrovertido. Eanes parece o contrário disso tudo, representa o contrário disso tudo. Ele também não tinha estado envolvido nos choques públicos da revolução, que tinham incompatibilizado militares entre si, portanto, ele não tinha feito parte disso. E é assim que ele é escolhido pelo Grupo dos Nove do Conselho da Revolução para ser candidato à Presidência da República em 1976.
Quando tu dizes escolhido, foi mesmo escolhido por eles, não foi ele que se esgoela?
Não, ele é escolhido. Aliás, ele resiste. As pessoas dizem sempre que não querem, mas depois acabam por ser atraídas para um lugar.
Mas não parece que tenha havido muita proatividade.
Não, mas não foi ele Que quis ser ou que tentou ser. De facto, há uma espécie de consenso em relação àquela figura presidencial, é a pessoa que as pessoas veem como Presidente da República, ao contrário de outros, que têm outras características que os tornam menos plausíveis como candidatos à Presidência da República. Ele tem imediatamente o apoio do Partido Socialista, do PSD, do CDS, isto é, de todos os partidos que se tinham oposto ao PCP em 1975, que apoiam o general Eanes.
As eleições são quando?
As eleições presidenciais são em junho de 1975, depois das eleições legislativas que são em abril de 1975, antes das eleições autárquicas que são em dezembro. O ano de 1976 é o ano de eleições. Nessa altura, não há qualquer dúvida que o Presidente da República, apesar de ir ser eleito por sufrágio universal, teria de ser um militar, como acontecera durante o Estado Novo. O Estado Novo tinha tido sempre presidentes militares, desde o Marechal Carmona até ao almirante Américo Tomás. Porque embora o movimento das Forças Armadas tivesse chegado ao fim, julgava-se que as Forças Armadas iriam ter de cumprir um papel de garantia do novo regime democrático numa época que ainda se admitia que fosse, depois de 1976, uma época de transição. E é por isso que se mantém o Conselho da Revolução, que tinha sido o principal órgão revolucionário, mantém-se depois de 1976, um órgão composto por militares e que funciona como um Tribunal Constitucional. Aliás, tem uma comissão constitucional de apoio, com juristas que apoiam os militares. Ao contrário do que acontece hoje, que são os juízes do Tribunal Constitucional que o fazem, são militares que examinam e discutem a constitucionalidade da legislação que vai sendo aprovada no Parlamento. O Presidente da República estava suposto ser também o presidente do Conselho da Revolução e também o chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas. Não é apenas o comandante supremo das Forças Armadas como hoje, é alguém que tem um papel na direção das Forças Armadas.
E os principais partidos políticos concordavam com essa visão do MFA?
Concordam com esta visão, de tal maneira que aceitam, no segundo pacto MFA-Partidos de fevereiro de 1976, salvo erro, aceitam esta situação. O que se pensa deste Presidente da República? No Presidente da República, está-se a tentar fazer coincidir a legitimidade democrática, porque ele é eleito pelos cidadãos, com a força militar, chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas, e com o poder revolucionário, presidente do Conselho da Revolução. Está-se a tentar fazer coincidir todas as legitimidades e quase todos os poderes no Presidente da República. E a situação é diferente da atual, o governo depende da confiança do Parlamento, mas depende também da confiança do Presidente da República, que pode demitir o governo quando acha que o deve demitir.
Como agora ou com mais poderes do que agora?
Não, com muito mais poderes. Atualmente, o presidente só pode demitir o governo quando está em causa o regular funcionamento das instituições democráticas. Aqui não, o presidente pode demitir o governo porque deixou de ter confiança no governo, porque o governo precisa da confiança do Presidente da República. Isto é, o governo, em 1976, precisa da confiança do Parlamento como hoje em dia, mas precisa também da confiança do Presidente da República. Se o Presidente da República não confiar no governo, pode demiti-lo independentemente de estarem em causa as instituições. Ou seja, em 1976, aquilo que a Assembleia Constituinte faz é elaborar um sistema político com uma espécie de super presidente e que por isso muitos compararam ao chamado regime semipresidencialista francês, isto é, em que o presidente não é o chefe do governo, como acontece nos Estados Unidos da América, mas o chefe do governo depende do Presidente da República.
Como hoje em dia em França, ainda.
Como hoje em dia em França, ainda, o regime da Quinta República Francesa. É este Presidente da República que o general Eanes vai ser. E ele ganha as eleições presidenciais de 27 de junho de 1976, ganha-as muito à vontade, com 61,5% dos votos, umas eleições muito participadas, ele tem uma enorme votação.
E ele está a concorrer contra quem, já agora?
Ele está a concorrer contra militares, curiosamente. Sobretudo contra o Otelo Saraiva de Carvalho, que também é candidato, contra o almirante Pinheiro de Azevedo, que também é candidato. E depois há o candidato do Partido Comunista, que é o Octávio Pato.
Que esse não é militar.
Não, esse não é militar e tem uma votação pequenina. As eleições de 1976 são uma espécie de tira-teimas entre os representantes das correntes militares que tinham saído do PREC de 1975, e o eleitorado divide-se entre estas figuras militares. O que se passou nos anos seguintes é que o presidente, que obviamente pela Constituição já era suposto ir ter um grande papel, ainda tem um papel maior devido às circunstâncias do país. Primeiro, por causa da situação financeira do Estado e da situação da economia portuguesa. Estão-se a ressentir imenso, depois de 1976, quer ainda dos efeitos do choque do petróleo de 1973, que só por si já tinham mudado todas as condições de funcionamento da economia portuguesa, ao aumentar os preços da energia e ao trazer a inflação. Mas depois a economia portuguesa também se está a ressentir daquilo que foi, em 1975, o ataque revolucionário à economia de mercado, ou seja, nacionalizações, depois, através da própria Constituição, a proibição de haver iniciativa privada em vários setores da economia, em que os empresários privados não podiam ter Não podiam investir, por exemplo, a banca, não podia haver bancos privados. Tudo isso cria esta época de grande inflação, queda de investimento, desemprego, que era uma coisa que os portugueses não tinham conhecido na década de 60, nem no princípio da década de 70. É a partir de 1975 que se conhece, de repente, o desemprego em Portugal. O Estado tem grandes dificuldades em equilibrar as suas contas, porque assumiu imensos compromissos com salários e com pensões em 1974, 75. E para resolver isso, e também para tornar a economia mais competitiva, adota-se em Portugal um regime de desvalorização. Isto é, começa-se a importar da desvalorização do escudo, da moeda, o que faz com que haja uma perda de poder de compra. Portanto, esta desvalorização, esta importação de inflação, é o equivalente mesmo de cortes de salários e de pensões, disfarçados monetariamente. Isto é, as pessoas continuam a ter aumentos de pensões, mas esses aumentos de pensões são cada vez menos significativos. Há uma queda do poder de compra quase constante, tirando o ano 1980, graças ao professor Cavaco Silva, ministro das Finanças nessa altura, mas há uma queda do poder de compra entre 1976 e 1986.
Vida muito difícil para os governos.
Sim, as pessoas em 1985 estão mais pobres do que em 1973 ou 1974. E claro, há também uma sensação de impasse, toda a gente tem a noção de que é necessário fazer reformas, isto é, que aquele regime de nacionalizações, ocupações de terras no Alentejo, nada daquilo funciona bem, é preciso mudar, mas ninguém tem coragem para o fazer. Por quê? Porque também, e esta é a segunda coordenada, temos na Assembleia da República, eleita em abril de 1976, não temos uma maioria absoluta de um partido. O maior partido é o Partido Socialista.
Nas primeiras legislativas.
É, nas primeiras legislativas, em 25 de abril de 1976, o Partido Socialista tinha 34,8%. Vai para o governo, mas é um governo minoritário. É um governo que não permite ao Partido Socialista e a Mário Soares, que é o primeiro-ministro, ganhar popularidade, porque governar é conter despesas, é baixar expectativas, é uma coisa um pouquinho deprimente. O primeiro governo de Mário Soares, que tomou posse em julho de 1976, cai no fim de 1977, dura mais ou menos um ano e meio. Depois, em janeiro de 1978, Mário Soares faz um acordo com o CDS para alargar a base de apoio do governo na Assembleia da República e para aplicar também o primeiro programa de ajustamento com o Fundo Monetário Internacional. É nesta altura que só se fala de austeridade e mesmo da expressão austeridade. Austeridade, é preciso austeridade, etc. E este novo governo, que agora já tinha uma maioria absoluta no Parlamento, no entanto, não dura. Dura seis meses, cai no verão de 1978. E nesse verão de 1978, basicamente tudo cai nas mãos do presidente. Os partidos políticos na Assembleia da República não são capazes de se entender para formar um governo estável e o presidente Eanes avança, a partir de meados de 1978, com a indicação de chefes do governo, os chamados governos de iniciativa presidencial, isto é, em que é o Presidente da República que escolhe o primeiro-ministro, são governos de independentes ou de pessoas que tinham pertencido a partidos, mas na altura já estão desligados dos partidos, e são basicamente três entre meados de 1978 e dezembro de 1979, durante ano e meio. São três, é o governo de Nobre da Costa, depois é o governo de Mota Pinto e depois o governo de Lourdes Pintasilgo.
Deixa só esclarecer isso que acho que vale a pena. Primeiro, é verdade que o presidente continua a ter poderes de ter governos de iniciativa presidencial, mas nunca mais se usou, a não ser nesta altura, mas também para as pessoas perceberem lá em casa, as primeiras eleições legislativas foram em 1976, mas as segundas só foram em 1979. E portanto, nesse intervalo de três anos, aquilo que houve foi primeiro um governo que saiu do Parlamento, o primeiro governo de Mário Soares, liderado por Mário Soares, e depois três governos de iniciativa presidencial até outra vez às eleições de 79.
Há dois governos de Mário Soares e depois três governos, há cinco governos.
Há cinco governos, depois Mário Soares teve dois.
Quando chegamos a 1979, estamos no quinto governo constitucional. Agora, o mais interessante em relação a estes governos de iniciativa presidencial é que eles não correspondem todos à mesma orientação política. Os governos de Nobre da Costa e Mota Pinto, que são os dois primeiros, representam o que podemos chamar uma espécie de reformismo tecnocrático ou até liberal, sobretudo o governo de Mota Pinto, que é, aliás, aquele que dura mais tempo. E o governo de Lourdes Pintasilgo, ela é uma líder, uma referência dos católicos de esquerda, o governo de Lourdes Pintasilgo é nitidamente um governo de esquerda. Portanto, o Presidente da República, nestes governos constitucionais Não experimenta só diferentes primeiros-ministros, mas diferentes orientações políticas. Isso tem a ver com o que o general Eanes enquanto presidente da República é, também esta figura que não está muito bem definida politicamente.
Certo. Explica só uma coisa, mais uma vez, porque isto é muito diferente daquilo que as pessoas estão habituadas a ver hoje em dia, que é: cai um governo, a seguir há eleições. A pergunta que provavelmente as pessoas que nos estão a ouvir estão a fazer é: mas por que é que na altura caía um governo sem anunciar outra vez para eleições?
Quando cai o primeiro governo de Mário Soares, arranja-se uma nova solução no Parlamento. Mário Soares faz um acordo com o CDS, dura seis meses. E depois há os governos de iniciativa presidencial, isto é, como o governo depende do Presidente da República, não é necessário o Parlamento ter a iniciativa do governo sair de uma iniciativa parlamentar, dos partidos parlamentares. O Presidente da República tem esta possibilidade de escolher alguém que depois vai ao Parlamento ver se tem apoio ou não tem apoio. Agora, claro, o governo de Nobre da Costa não passou, o governo do Mota Pinto acaba por cair. O presidente vai tentando outras fórmulas para ver se arranja apoio no Parlamento e as eleições legislativas intercalares.
As segundas legislativas chamam-se intercalares.
São intercalares. Não são antecipadas porque depois há eleições legislativas em dezembro de 1979. É o resultado do presidente, mesmo com os seus governos de iniciativa presidencial, não ter conseguido arranjar uma maioria para esses governos na Assembleia da República.
Certo. Um bocadinho como hoje em dia acontece, pense nas câmaras municipais. Ou seja, que há intercalares, se por acaso o governo cair e depois voltam a haver eleições. Muito bem, funcionava assim na altura. Certo. Estão aqui a ver o tempo. Nós já nos entusiasmámos com esta primeira parte. Estávamos aqui a discutir o funcionamento partidário em Portugal e entretanto o nosso tempo passou. Já voltamos. Olá, seja bem-vindo de volta a esta segunda parte de "E o Resto é História". Estamos a falar do PRD, mas entretanto, para isso é preciso conhecer o passado do General Eanes e ficámos ainda na segunda metade da década de 70.
Sim, e eu estávamos a falar dos governos de iniciativa presidencial e como eles representaram, entre meados de 1978 e o fim do ano de 1979, diferentes orientações políticas. Isso tem a ver um bocadinho com aquilo que o general Eanes também representa, o que é que ele representa. Ele não representa uma orientação partidária, doutrinária. Ele representa, em primeiro lugar, a força militar, que num país que saiu recentemente de uma revolução, ainda um país muito dividido, conta muito, é a principal base de apoio do regime, digamos assim. Ele aliás representa também, em termos dessa força militar, os compromissos do 25 de Novembro, aqueles acordos que foram feitos no 25 de Novembro entre a esquerda moderada e, por exemplo, o Partido Comunista, para ninguém ser eliminado da vida pública da nova democracia. E depois ele representa esta figura austera, honesta, escrupulosa, que não é de Lisboa. Ele é da região de Castelo Branco.
Isso é importante?
É muito importante, porque ele ainda mantém algum sotaque. Sim, porque o afasta da Lisboa política. Ele é um outsider, quer dizer, é uma pessoa que vem de fora, que representa aquele Portugal que está para além de Lisboa, para além dos salões, para além das discussões da capital, aquilo que se chamava, um bocadinho imitando as expressões francesas, o país real, o país profundo.
De certa forma, como Cavaco em 85.
Sim, o general Eanes, por exemplo, é alguém que refere frequentemente poetas como Miguel Torga, que também é associado às serras e às montanhas, etc. É este país que está para além daquele mundo mais efêmero, mais fugidio da Lisboa política. Ele é extremamente popular, quer à direita, quer à esquerda.
Mesmo com qualquer dos governos.
Ainda não havia tantas sondagens como há hoje, mas há já algumas no fim da década de 70. Ele é sistematicamente a figura mais popular do regime, e até de longe, a figura mais popular do regime, aquele em quem mais os portugueses confiam, com quem mais se identifica. Agora, o que é que ele para além disso, para onde é que ele quer levar o país? Às vezes há dúvidas. Ele só fala lendo discursos escritos, não dá entrevistas, não faz comentários na rua.
Não tira selfies.
Nada. Esses discursos escritos só são lidos nas grandes ocasiões, 5 de outubro, 25 de abril. Depois são muito analisados. Um presidente que fala pouco, tudo aquilo que ele diz, os jornais passam para aí 15 dias a ler, a traduzir, ler as entrelinhas, etc. E a partir de meados de 1978, quando Começam os governos de iniciativa presidencial, aparecem também muitos comentadores e alguns políticos a prever uma presidencialização do regime. Isto é, a pensar: "O General Eanes vai ainda mandar mais do que manda."
À De Gaulle.
E isso é o começo daquilo que se chama o eanismo, que isto é muito importante pra perceber as origens do-
Do PRD
...PRD. Muitos consideram uma espécie de bonapartismo ou de gaullismo, o que é que tinha sido o bonapartismo? Já falamos aqui várias vezes disso. Isto é, depois de uma revolução em que uma comunidade, uma sociedade fica muito dividida politicamente, aparece este chefe militar apoiado na força do exército, que está acima dos partidos e que consegue, ele próprio, na pessoa dele, formar consensos que a classe política dividida não consegue formar. É este chefe militar que consegue formar consensos e nitidamente o General Eanes é visto como alguém que pode, para além dos partidos, fazer estes consensos políticos. E a partir de meados de 1978, começa-se a perceber que este eanismo tem um efeito, e o efeito que tem é muito curioso, e é muito importante também pra perceber a história do PRD. É um efeito desagregador sobre os dois principais partidos, o PS e o PSD. O que acontece no PS e no PSD? No PS e no PSD, cada um dos partidos tem os seus líderes de referência, no PS é Mário Soares, no PSD é Francisco Sá Carneiro, mas há muita gente nos dois partidos, são partidos grandes, são os dois partidos maiores, que não estão satisfeitas com a liderança de quer de Mário Soares, quer de Sá Carneiro. E em cada um desses partidos, aqueles que não estão satisfeitos com a liderança dos presidentes, dos chefes, do secretário-geral, no caso do Mário Soares, presidente do partido, no caso de Francisco Sá Carneiro, tendem a identificar-se com o General Eanes. Isto é, de repente, o eanismo no PS e no PSD é a bandeira da oposição contra Mário Soares no PS e contra Francisco Sá Carneiro no PSD. O General Eanes começa a ter um efeito de criar oposições nos dois principais partidos. E depois também tem um outro efeito curioso, que é no Partido Comunista Português. O Partido Comunista tinha sido, entre os grandes partidos, aquele que não tinha apoiado o General Eanes em 1976. Mas o Partido Comunista, a partir de 1977, 78, torna-se o partido mais respeitador do General Eanes, quase sintonizado com o General Eanes, embora faça referência dizendo que não está de acordo com a orientação de alguns dos governos de iniciativa presidencial, nomeadamente o de Mota Pinto, mas é aquele que mais respeito, mais consideração tem pelo General Eanes.
Mas por quê?
Porque basicamente Álvaro Cunhal começa a tratar o General Eanes como tinha tratado o MFA em 1974. Isto é, um elemento militar no sistema político, a partir do qual o Partido Comunista possa ter uma maior influência do que aquela que os votos lhe dão. Ele começa-se a aproximar do General Eanes, tal como se tinha aproximado do MFA em 1974. Começa a tratar o General Eanes como uma força militar, e uma força militar que se o Partido Comunista estiver próximo dessa força militar, terá uma influência que não teria se baseasse apenas naquilo que é o jogo democrático, que é ter votos, fazer alianças com outros partidos, etc. Portanto, o PC não faz isso, começa a aproximar-se do General Eanes. Quando chegamos a 1979, temos esta situação bizarra, que é os líderes dos partidos que apoiaram o General Eanes em 1976 estão agora contra ele, porque a figura dele, o eanismo, fomenta rebeldias dentro dos partidos.
Estás a falar essencialmente de Soares e Sá Carneiro.
Sim, no caso do PS e no PSD, e no caso do PCP, que era o único partido que não tinha apoiado o General Eanes, é aquele que é mais respeitador do General Eanes. E isso permite compreender as circunstâncias extraordinárias em que o General Eanes é reeleito em 1980, nas segundas eleições presidenciais. Ele tem contra si o governo da Aliança Democrática, PSD-CDS, que apresenta um candidato alternativo, o general Soares Carneiro, embora apresenta o general Soares Carneiro com resistências internas no PSD, porque há, de facto, eanistas no PSD. Ainda nesta altura, apesar de ter havido uma cisão no PSD, tinha saído uma imensa quantidade de gente em divergência com Francisco Sá Carneiro, mas ainda tinham ficado alguns que voltam a ter outra vez esta atitude de não se devia confrontar o general Eanes. Sá Carneiro é pelo confronto com o general Eanes. E o general Eanes conta com o apoio do Partido Socialista pra sua reeleição, mas não conta com o apoio de Mário Soares. Mário Soares faz uma declaração-
Suspende, não é?
...a dizer que não pode apoiar o general Eanes, mas como o Partido Socialista apoia o general Eanes, ele suspende o seu mandato como secretário-geral do Partido Socialista, abandona a liderança do PS, porque não é capaz de apoiar o general Eanes, o general Eanes que tem o apoio, isto é muito curioso dizer, de Salgueiro Maia, de Vítor Constâncio, de Jorge Sampaio e de António Guterres. Estamos a falar dos três sucessores de Mário Soares à frente do Partido Socialista depois de 1986. Vítor Constâncio, Jorge Sampaio, António Guterres. Eles separam-se de Mário Soares nesta altura porque apoiam o general Eanes contra Mário Soares. O único partido que apoia o general Eanes sem divisões e a sua reeleição é o PCP, que lança um candidato e depois esse candidato suspende a sua candidatura e o PCP declara o apoio ao general Eanes. Agora, só uma nota interessante: por que Mário Soares não apoia Ou retira o seu apoio ao general Lannes. Esse incidente é provocado por um comentário do general Lannes em que ele diz que a sua conceção da sociedade é igual à da Aliança Democrática. Isto é, ele está apoiado pelo Partido Socialista, e depois até vai ser apoiado pelo Partido Comunista, mas diz que a conceção que ele tem da sociedade é igual à do PSD e do CDS. E claro, Mário Soares diz: "Não posso apoiar alguém que me está a dizer que tem uma conceção da sociedade igual aos meus principais adversários políticos." Isto é curioso. Eis um candidato presidencial que diz que tem uma visão de direita, basicamente, mas que é apoiado pela esquerda, incluindo o PCP e os antigos oficiais do MFA, o Melo Antunes e companhia, que também estão próximos do general Lannes e apoiam o general Lannes. Como é que o general Lannes faz esta quadratura do círculo? Ele diz que tem a mesma visão de sociedade de Francisco Sá Carneiro, mas ao contrário de Sá Carneiro, ele acha que esse modelo de sociedade deve ser realizado em Portugal gradualmente, e não através do confronto e da rutura como queria Francisco Sá Carneiro. Sá Carneiro, em 1980, quer uma revisão da Constituição feita através de referendo, isto é, quer uma divisão do país.
Uma clarificação.
Sim, exato, quer a clarificação, como ele diz, quer que o país decida para onde é que quer ir naquele momento. E o general Lannes acha que não, acha que isso deve ser feito gradualmente, durante bastante mais tempo, e não através do confronto. Mas isto permite-nos perceber como é difícil, em termos parlamentares, classificar o lannismo. Esquerda, direita. O chefe é de direita, a maior parte das pessoas que apoiam o chefe são de esquerda. Agora, isto define precisamente o bonapartismo. Os bonapartismos são isto: são figuras que apelam tanto à direita como à esquerda, e a sua força vem precisamente daquilo que nós podemos chamar, em termos parlamentares, de uma ambiguidade, uma coisa que não faz sentido em termos de um partido parlamentar, e já estou a antecipar porque é que o PRD não corre bem, mas faz sentido em termos desta figura que está acima dos partidos, como era um presidente da República, com os poderes que o presidente da República tinha pela Constituição de 1976.
Precisas sempre de uma força carismática.
Que ele também tinha, esta figura austera, esta figura muito séria. Não sorri em público, embora ele tenha um grande sentido de humor, como toda a gente refere, e é verdade, ele tem um grande sentido de humor, mas não o manifestava publicamente.
Ficas a saber que uma das histórias políticas mais antigas da minha vida é que, segundo os meus pais, eu levei um beijinho do general Ramalho Eanes. Eu penso que quando foi em Portalegre, porque foi lá o Dia de Portugal em 1978. Eu devia ter uns cinco ou seis anos.
E foste acarinhado pelo presidente da República.
Fui acarinhado pelo presidente da República, general Eanes, de forma muito simpática, só para ir ao encontro daquilo que tu estás a dizer. Os meus pais diziam que ele tinha sido muito simpático.
E é verdade que é. Bem, em 1980, o general Lannes é eleito à primeira volta, com 56,5% dos votos, numas eleições também muito participadas. Ele tem uma enorme votação, uma das maiores votações de um presidente da República. Mas os líderes do PSD e do PS, e no PS Mário Soares volta à chefia do partido, não se conformam com o lannismo. Os governos da AD presididos por Francisco Pinto Balsemão entre 1981 e 1983 são governos de divisões internas no PSD e no CDS, mas também de choques constantes com o presidente da República, incluindo a famosa história dos gravadores, isto é, das reuniões entre o general Lannes e o primeiro-ministro, que era Francisco Pinto Balsemão, a partir de determinada altura passam a ser gravadas, porque nenhum deles confia, aparentemente, no que o outro irá dizer depois que foi combinado na reunião.
Que é estranho, porque hoje em dia olhas para a figura de Sá Carneiro e de Ramalho Eanes, parecem duas pessoas com uma diferença enorme.
Isto é Francisco Pinto Balsemão. No caso do Francisco Sá Carneiro, Sá Carneiro recusava-se a reunir com o general Lannes, era tudo por carta. Não se reunia.
Sim, porque tu aí já estás a falar depois das segundas eleições, 1980. Em 1979 já tinha sido o governo AD.
O primeiro governo AD que estamos a falar.
Aí, na verdade, já estávamos num momento de uma estabilidade parlamentar maior. Quer havia uma maioria absoluta.
Sim, até certo ponto, mas o governo continuava.
Já não houve governos de iniciativa presidencial.
Sim, mas o governo continuava a depender da confiança do presidente da República e continuava a estar sujeito aos vetos do Conselho da Revolução. Era um governo bastante limitado, era um governo parlamentar, mas muito limitado, que fazia com que Sá Carneiro falasse de Portugal como uma semidemocracia. Era uma semidemocracia. O governo conseguia no Parlamento a aprovação de uma lei, essa lei depois era chumbada pelos militares do Conselho da Revolução. E o governo estava sempre sujeito a ser demitido pelo presidente da República.
Mesmo com uma maioria absoluta.
Repara, a questão aqui é que ele não precisa dissolver a Assembleia da República, demite o governo. O governo depende da confiança do presidente. Ora bem, é isto basicamente que os líderes do PS e da Aliança Democrática se propõem mudar em 1982. Os líderes do PS e da Aliança Democrática, portanto PSD e CDS, estão muito divididos sobre o sistema económico. Aliás, o sistema económico tinha sido o mais discutido Mas não vai ser o sistema económico da Constituição que vai ser o objeto da revisão constitucional, vai ser o sistema político, que ninguém tinha discutido até então. E por quê? Porque o objetivo, basicamente, é diminuir os poderes do Presidente da República.
E aí havia consenso entre o PSD e o PS.
E aí havia consenso, não entre o PS e o PSD, entre Mário Soares e o PSD, que é uma coisa diferente, porque há uma parte do Partido Socialista que está contra a revisão constitucional, todas aquelas figuras do ex-secretariado, Jorge Sampaio, António Guterres, Vítor Constâncio, mas Mário Soares impõe esta revisão constitucional.
E nessa altura o Salgado Zenha também ainda estava no PS.
E Salgado Zenha. O que acontece nesta revisão constitucional? Bem, fica marcada pelo fim da tutela militar revolucionária sobre a vida democrática, a extinção do Conselho da Revolução, que então é substituído por um Tribunal Constitucional, mas isso de alguma maneira já estava previsto, já se sabia que o Conselho da Revolução iria acabar ao fim do período da transição. O ponto mais controverso desta revisão constitucional está na alteração dos poderes do Presidente da República. O governo deixa de depender da confiança do presidente e passa a depender apenas da confiança do Parlamento. É óbvio, o Presidente da República continua a poder dissolver a Assembleia da República, mas deixa de poder demitir o governo a não ser em circunstâncias muito extraordinárias, como aquelas que depois ficaram descritas na Constituição como irregular funcionamento das instituições democráticas, portanto, levanta a fasquia imenso. Já não basta o Presidente da República dizer: "Não confio nas políticas do governo, não confio neste governo, vou demiti-lo." Não é preciso isso, é preciso um argumento de que o governo está quase a subverter a democracia para ele o demitir.
Muito bem, Rui, eu tenho que te interromper aqui, nós chegamos ao fim do nosso tempo. Para quem nos está a ouvir em FM, já sabem, esta conversa vai continuar em podcast. Até lá, para quem nos está a ouvir em direto. O Eanes, portanto?
O Eanes fica imensamente revoltado com esta revisão constitucional de 1982. Ele acha que a Assembleia da República e os dois partidos, o CDS também, os partidos principais, puseram em causa os poderes com que ele tinha sido eleito. Isto é, mudaram as regras do jogo a meio do jogo.
O argumento não é totalmente absurdo.
Não.
Mas ele não tinha poder, com todos os seus poderes, para impedir que isso acontecesse?
Não, neste caso não tinha. A revisão constitucional é da competência da Assembleia da República. Ele pensa mesmo em demitir-se. Mas a partir de 1982 aparece algo que, aliás, já tinha sido mencionado algumas vezes nos anos anteriores, que é a ideia de surgir um partido político para apoiar o Presidente da República, para apoiar o general Eanes. E a ideia é esta, a partir de 1982: uma vez que o sistema político, agora, depois da revisão constitucional, está centrado na Assembleia da República, e na Assembleia da República são os partidos que operam, o general Eanes, para continuar a ter influência política, precisa de um apoio na Assembleia da República e precisa, portanto, ter um partido próprio na Assembleia da República para o apoiar, ou enquanto presidente, ou sobretudo depois dele deixar de ser presidente em 1986, quando terminar o seu segundo mandato, ele depois não se pode recandidatar à Presidência da República depois de ter cumprido dois mandatos. E está-se a pensar: bem, nessa altura, ele precisa de um partido político para continuar a ter influência. E para percebermos isto, temos que pensar em duas coisas. Uma é a enorme estima que o presidente da República, general Eanes, suscita no país. Ele, de facto, é a pessoa mais considerada politicamente. Quando vai em visitas, as pessoas vêm todas ter com ele, "Salve-me, senhor presidente.", é uma espécie de bombeiro do regime, toda a gente olha pra ele. E depois há outra coisa que ainda não mencionamos, mas que é também fundamental. O general Eanes tinha 41 anos quando foi eleito presidente da República em 1976. E em 1986, quando se previa que ele ia deixar a Presidência da República ao fim do seu segundo mandato, ia ter 51.
Era uma pessoa muito nova.
Uma pessoa incrivelmente nova. Nós, de repente, temos um homem extraordinariamente novo, com esta influência toda, com esta aura toda de popularidade que existe à volta dele, e é óbvio que ninguém diz: "Bem, isto vai desaparecer tudo, ele agora vai se retirar, vai tratar da sua coleção de relógios e coisas assim." Não. Além disso, sondagens que estavam a ser feitas, por exemplo, uma sondagem de 1979, sondagem da opinião, pergunta aos portugueses, aos inquiridos, se votariam num partido do Presidente da República. Se o Presidente da República formasse um partido, quantos é que votariam? 49% disseram que votariam no partido do Presidente da República. Há aqui gente à volta do presidente que faz as contas. Nós temos este homem novo ainda, que arrasta a população desta maneira, que isso obviamente não pode acabar em 1986, nem pode acabar em 1982 com a revisão constitucional. O partido começa a ser pensado como um veículo político pessoal do general. Repare, este é um partido um pouco diferente dos outros partidos. Os outros partidos, embora estejam também às vezes muito pessoalizados, o Partido Socialista é Mário Soares, o PSD até 1980 é Francisco Sá Carneiro, mas representam uma ideologia, uma doutrina, estão situados no espectro político-parlamentar, à esquerda, à direita. O Partido Socialista não é pura e simplesmente o soarismo. Aliás, até tem dentro do Partido Socialista muita gente que se opõe, que contraria Mário Soares, tal como acontecia no PSD. Havia muita gente em 1974, 75, 76, 77, 78, que contraria Francisco Sá Carneiro. O PSD tem duas grandes cisões em dezembro de 1975, em 1979, de pessoas, muita gente mesmo, muitos deputados, que saem do PSD em discordância com Francisco Sá Carneiro, e que concebem o PSD como um partido com uma doutrina, uma ideologia, uma corrente com uma certa base social de apoio, e não como um partido pessoal. Ora bem, este partido que está a ser pensado para o general Eanes não está a ser pensado a partir de ideologias, nem de apoios sociais. Está a ser pensado a partir da pessoa do general Eanes, é um veículo partidário para o general Eanes continuar depois de sair da Presidência da República, ou mesmo estando na Presidência da República, mas precisando ter um instrumento para ter influência na Assembleia da República, haver um partido que apoia o presidente da República, independentemente do seu bilhete de identidade ideológico. Quem é que está a fazer isto? Quem é que começa a montar o partido a partir de 1982, 83?
Não era óbvio que ele na Presidência da República tivesse homens políticos de confiança, não é? Quem que é essa pessoa?
Ele tem na Presidência da República gente de confiança, próxima dele. Estas pessoas são as pessoas que tinham estado na campanha presidencial-
De 1980?
...de 1980, de reeleição, que tinham estado na chamada CNARP, Comissão Nacional de Apoio à Reeleição do Presidente Eanes. E basicamente esses núcleos da CNARP no país, havia núcleos da candidatura em vários países, mantêm-se ativos depois de 1980, isto é, continuam a se reunir, a fazer almoços, jantares, e é nesses grupos, nesse circuito, que começa a pensar-se: "Não, o presidente da República deve ter um movimento de apoio." É isso, é o princípio.
Mas era gente que não pertencia nem ao PS nem ao PSD?
Não, havia muita gente ali que pertencia aos partidos e que estava na CNARP. Há muita gente independente, mas há muita gente que é do Partido Socialista e do PSD, e sobretudo do Partido Socialista. Reparem, é o Partido Socialista o principal apoiante da recandidatura do general Eanes em 1980. Temos aqui muita gente do Partido Socialista que está aqui na CNARP. Ora bem, o ambiente em Portugal que se vive a partir do princípio da década de 80 é também propício a este partido presidencial, a este movimento presidencial. Em 1979, há um segundo choque do petróleo com a guerra Irã-Iraque. Sente-se em Portugal, sobretudo a partir de 1981, subida de preços, enfim, provocada pelos preços altos da energia.
Mais uma intervenção do FMI.
Inflação e dificuldades de pagamento no exterior, por causa do aumento dos preços. É preciso pedir novamente ajuda ao Fundo Monetário Internacional, pela segunda vez em cinco anos, portanto, dois programas de ajustamento em cinco anos. No fim de 1982, a AD desfaz-se, o PSD e o CDS separam-se. Há eleições em 1983 e o Mário Soares forma o chamado Governo do Bloco Central, já falamos aqui uma vez desse governo, precisamente com o PSD, que é então liderado por Carlos da Mota Pinto, e o principal trabalho do Bloco Central é executar o programa de ajustamento negociado com o Fundo Monetário Internacional. Não torna o governo do Bloco Central muito popular no país, como imaginam. Quer dizer, cortar coisas, aumentar impostos, desvalorizar ainda mais o escudo, etc.
E o Eanes no meio disso.
E o governo do Bloco Central tem uma péssima relação com o presidente da República.
Mas então isso é uma constante, não é? Sempre se deram mal com o presidente da República.
Sim.
Todos os governos se deram mal com o Ramalho Eanes.
E reparem, eu estou a falar aqui de, no caso do governo do Bloco Central, a segunda figura é Carlos da Mota Pinto, que tinha sido escolhido pelo general Eanes em 1978 para um governo iniciativa presidencial, e neste momento é um inimigo do general Eanes. As pessoas rodam à volta do general Eanes, zangam-se, reconciliam-se, etc. O país vai acompanhando os atos desta zanga, desta querela. Por exemplo, em 1985, cerimônia de adesão de Portugal à CEE, o governo não convida o presidente da República ostensivamente. Nos Jerônimos, não está o presidente da República. Há uma mesma acrimônia enorme. Agora, vamos voltar a uma história que já aqui falámos, tanto no PSD, mas sobretudo no Partido Socialista, de Mário Soares, há uma grande insatisfação com as lideranças dos partidos O compromisso do Bloco Central. Nem no PSD, nem no PS toda a gente está satisfeita com o governo do Bloco Central e sobretudo no Partido Socialista, onde o chamado ex-secretariado, aqueles que tinham ficado no Partido Socialista em 1980 para continuarem a apoiar o general Lannes, são aqueles que estão menos satisfeitos com o Bloco Central. E aqueles também que tinham estado contra a revisão constitucional de 1982. E a principal figura dessa insatisfação no Partido Socialista é Francisco Salgado Zenha, que em 1974, 75 tinha sido o número dois do PS, o número dois do Partido Socialista com Mário Soares.
Era verdadeiramente a segunda grande figura do PS.
Era a segunda grande figura do Partido Socialista. É neste ambiente, o país todo descontente com o programa de ajustamento e com a austeridade. O Partido Socialista e o PSD todos descontentes com o acordo que tinham do Bloco Central. É neste ambiente que se desenvolve finalmente o partido, aquilo que vai ser o partido do presidente, o Partido Renovador Democrático. E não há propriamente qualquer homogeneidade ideológica. Há gente muito variada, dar alguns nomes daqueles que aparecem na direção ou com destaque neste PRD. Medeiros Ferreira, que tinha sido ministro dos Negócios Estrangeiros de Mário Soares em 1977. Magalhães Mota, que tinha sido um dos fundadores do PSD, também aparece no PRD, já estão a ver, gente do PS, gente do PSD. E depois Melo Antunes e Vítor Alves, do MFA, também apoiam. Zenha, não. Isto não é visto como um problema para o PRD, pelo contrário, é visto como precisamente a natureza do partido do presidente, que junta gente muito variada, unidos pelo presidente, pelo general Lannes, para salvarem o país.
Sem esquerda nem direita?
Sem esquerda nem direita, ou com esquerda e com direita. Gente do PS, gente do PSD, gente mais à esquerda ainda, como Melo Antunes, no caso do coronel Melo Antunes, que vinha do Movimento das Forças Armadas. Eles unem-se, e esta é a mensagem do partido, atraídos por aquilo que o general Lannes representa, ou queria representar, que era honestidade, competência. Uma espécie de mistura de moralismo e de tecnocracia. Para além dos partidos, para além das lutas políticas, para além das divisões ideológicas, para além das querelas parlamentares, deixar isso tudo para trás e os portugueses unirem-se todos à volta desta figura escrupulosa, honesta do general Lannes, independentemente das suas origens, esquerda, direita, sociais-democratas, socialistas, liberais, coletivistas, toda a gente unida à volta do general Lannes.
Mas estamos em 1985, certo?
Estamos em 1985.
Em 1985, o presidente da República é o general Ramalho Eanes.
O general Lannes. É este partido com o qual o general Lannes não tem-
Mas com o qual ele também mantém uma ambiguidade.
Não, ele mantém-se distante enquanto é presidente da República, não quer que a presidência da República faça qualquer apoio ao PRD. Eles vão escolher um outro presidente para o partido, Irminio Martinho, um lavrador de Santarém.
Desconhecido, certo?
Desconhecido, totalmente, para representar precisamente este Portugal profundo, alguém ligado à agricultura. Ainda há muito essa ideia de que isso é que era o verdadeiro Portugal. Agora, claro, onde é que está a base política, o nervo político deste PRD? Bem, a maior parte são dissidentes do Partido Socialista. Isto é, gente zangada com Mário Soares, zangada com as políticas de direita de Mário Soares, como se dizia, como o PCP gostava de dizer, a aliança com o CDS e depois a aliança com a AD para fazer a revisão constitucional de 1982 e finalmente a aliança com o PSD para conduzirem o programa de ajustamento. Há este descontentamento com o Mário Soares e o PRD acaba por se tornar-
O canal por onde essas pessoas acabam por seguir, ou o albergue.
Digamos, a alternativa para se manter uma atividade política é à volta do presidente da República.
Mas explica uma coisa, estamos em 1985, vão haver eleições legislativas, as primeiras de 85, em que Cavaco Silva é eleito com uma maioria relativa. O PRD foi criado para concorrer a essas eleições?
Não, não foi. O PRD, aliás, diz que essas eleições até foram os outros partidos, o PSD e o PCP, que as improvisaram para impedir o PRD de se organizar antes das eleições. É essa a visão oficial. É Cavaco Silva que faz cair o governo do Bloco Central, ele torna-se líder do PSD e rompe o Bloco Central em julho. As eleições legislativas são marcadas para 6 de outubro de 1985. O general Lannes ainda é presidente da República, até março de 1986, e não é ele que vai estar à frente da campanha do PRD, é a sua mulher, a doutora Manuela Lannes, que dá a cara pelo PRD, e o resultado é espetacular. De repente, o sistema político português tem mais um partido, além dos quatro partidos grandes, o PS, o PSD, o CDS e o PCP, de repente aparece o PRD com 1 milhão de votos, 17,9% do total, 45 deputados
O terceiro partido mais votado nessas eleições.
O terceiro partido mais votado. E à primeira vista, quando se olhava para onde é que isto vem, o PRD parece ter um resultado alcançado à custa do Partido Socialista. A votação do PS cai imenso, de 36,1% para 20,8%, portanto façam as contas, como diria o engenheiro Guterres, é que praticamente os pontos percentuais. As coisas são mais complicadas do que isso, mas parece uma transferência de voto, parece um voto de socialistas zangados com Mário Soares, com o chefe do governo do Bloco Central. O PRD é um partido que tem uma grande amplitude de variação da sua votação, tem um distrito em que tem 24%, Castelo Branco. O que é que tem de característico Castelo Branco? É o distrito de naturalidade do general Lannes.
Mas também é um distrito onde o PS é historicamente muito forte.
E onde está o general Lannes. E depois tem 6,9%, por exemplo, em Bragança. Ele não elege em todos os distritos, não elege nos distritos do interior norte, Bragança, Vila Real, Guarda, não elege no Alentejo, não elege em Portalegre, Évora, Beja.
Onde o PCP também era muito forte.
Era muito forte. Não elege na Madeira. Onde é que ele elege? Lisboa, Porto, Santarém, Castelo Branco. Santarém também está ligado ao PRD, porque é o distrito de naturalidade do seu presidente Hermínio Martinho. De repente, o PRD tem esta enchente. Eles dizem, como eles próprios confessam depois, que não estavam à espera disto e portanto foram eleitos deputados, gente que até era gente simpática, que tinha dado o nome para as listas só para eles terem as listas completas e de repente são eleitos deputados.
Isso às vezes é um problema.
É um bocadinho. E começa-se logo a perceber que nem tudo está garantido para correr bem. E isso nota-se imediatamente em 1985, nas eleições locais, nas eleições autárquicas de 15 de dezembro. O PRD nessas eleições autárquicas só tem 4,6% dos votos, cerca de 224 mil votos.
Porque ainda não tem uma estrutura.
Nitidamente não tem estrutura partidária, consegue três presidências de câmara em pequenos concelhos, em Santarém, Castelo Branco mais uma vez e em Viseu, coisas pequenas. Tem 49 vereadores, muito menos do que os outros partidos, nitidamente não é um partido organizado, não tem estruturas locais para se candidatar à câmara. E sobretudo não tem força para enfrentar os presidentes de câmara instalados. Não o consegue. Mas o teste maior é em janeiro de 1986, nas eleições presidenciais.
Quando Ramalho Eanes sai finalmente.
O primeiro verdadeiro teste é essas eleições presidenciais, é aí que o PRD vai jogar. É aí que o general Eanes vai jogar a sua influência. Mário Soares é candidato. Cavaco Silva consegue impor no PSD o apoio a Freitas do Amaral, o antigo líder do CDS, que representa uma espécie de candidato, uma aliança democrática PSD-CDS, e toda a gente fica à espera que o candidato do ianismo seja Maria de Lourdes Pintasilgo, que tinha sido a última chefe de governo de um governo de iniciativa presidencial em 1979. As pessoas estão à espera. Ela é bastante popular, é bastante simpática e está-se à espera que ela seja, e creio que ela própria também está à espera de ser a candidata apoiada pelo general Eanes. Mas não é isso que acontece. Para escândalo de alguma gente e para surpresa de outros, o PRD vai buscar para candidato às eleições presidenciais Salgado Zenha, o antigo número dois de Mário Soares no Partido Socialista.
Mas que não tinha estado na fundação do PRD.
Não, não está e vai ser convidado a ser o candidato presidencial do PRD. Salgado Zenha agora está em conflito com Mário Soares. E o que é que isto dá a entender? Dá a entender que o próprio PRD e o próprio general Eanes, têm noção que o PRD vive dos votos do Partido Socialista e portanto tem de continuar a apostar na divisão do Partido Socialista, continuar a apostar nessa erosão do apoio a Mário Soares no Partido Socialista e até numa tentativa quase de substituir o Partido Socialista como o grande partido da esquerda. Surpresa, não é nenhuma, o PCP apoia Salgado Zenha, junta-se logo ao general Eanes, como tinha andado a fazer há anos. O PCP Álvaro Cunhal ainda apoia Salgado Zenha. E acontece aqui o primeiro percalço. Lourdes Pintasilgo não desiste.
Avança.
Avança à mesma e com isto divide o voto ianista o suficiente para Mário Soares passar à segunda volta das eleições presidenciais com Freitas do Amaral. E depois Mário Soares vem a ganhar nessa segunda volta. E isso é a primeira grande derrota do PRD e também do general Eanes.
Qual foi a posição do PRD na segunda volta, de qualquer forma?
Como o PCP, eles estão pela esquerda, portanto vão ter de apoiar o Mário Soares. É uma grande derrota, tal como é para o PCP.
O PCP, o famoso engolir os sapos.
Os sapos, fechem os olhos, tapem os olhos, ponham a coisinha. É o primeiro grande fracasso Do PRD. O que o PRD faz agora a seguir? A partir de outubro de 1985, nós temos um governo minoritário do PSD, presidido por Aníbal Cavaco Silva. E o PRD, na Assembleia da República, apoia o governo minoritário do PSD. Dá-lhe apoio, permite ao governo minoritário do PSD durar com o apoio do PRD. Basicamente, vai deixando passar com abstenção. Aliás, como faz o CDS. O CDS e o PRD são os apoios abstenccionistas de Cavaco Silva. Cavaco Silva só tinha tido 29,8% dos votos nas eleições de 1985. Ele tinha se dado bastante bem com o general Eanes naquele período, naqueles meses em que ele tinha sido primeiro-ministro e o general Eanes ainda era presidente da República, portanto, tinham se dado bastante bem. Muita gente chamava a atenção que eles são muito parecidos, dois homens vindos da província, muito honestos, muito escrupulosos, também muito fechados.
Muito circunspectos.
Exatamente, tinham características que pareciam que eles são muito parecidos. E estamos nessa situação durante o ano de 1986, e em outubro de 1986, o general Eanes, finalmente — ele tinha deixado de ser presidente da República em março — vai pra presidência do PRD. Assume a liderança do PRD ele próprio, que é uma coisa que é discutida lá dentro. Havia gente no PRD que achava que o general Ramalho Eanes devia se manter como uma referência do PRD, mas nunca envolver-se politicamente na liderança.
Na luta partidária.
Na luta partidária. Bem, ele aqui vai pra essa luta partidária, e a vinda dele coincide com uma manobra que surpreende muita gente no fim de 86, princípio de 87, que é o PRD, de repente, afasta-se do apoio que tinha dado até então ao PSD e aproxima-se do PS, em grande medida porque à frente do PS está Vítor Constâncio, que tinha sido um eanista do PS em 1980 e em 1982.
Foi a cumplicidade entre Eanes e Constâncio.
Mário Soares está presidente da República e o PS estão os sucessores de Mário Soares, que tinham sido aqueles que tinham estado ao lado do general Eanes contra Mário Soares no Partido Socialista. E talvez isso permita aquilo que vai acontecer na primavera de 1987, que é o PRD votar contra o governo de Cavaco Silva, portanto, provocar a queda do governo de Cavaco Silva, e aparecer ao lado do PS de Vítor Constâncio e do PCP a proporem uma espécie de geringonça, um governo de geringonça PS, PRD, PCP, apoio do PCP, talvez. Não, o PCP não entra.
Ficariam com uma maioria absoluta no Parlamento. E foram fazer essa proposta a Mário Soares.
E Mário Soares, pra quem o inimigo número um é o general Eanes, diz imediatamente: "Vocês façam isso, mas eu vou ficar em cima disso e à primeira dissolvo imediatamente a Assembleia da República se vocês fizerem uma coisa dessas". Portanto, ele diz que não apoia essa solução.
Entenderia que tinha falta de legitimidade.
Não, ele entende que aquilo pode dar força ao general Eanes, e o grande objetivo de Mário Soares em 86, 87, é destruir o PRD, é destruir politicamente o general Eanes.
Sempre se coloca Mário Soares como um grande opositor de Cavaco Silva, mas o que tu dizes é que naquela altura, ele gostava mais de Cavaco Silva do que do general Eanes.
Muito mais. Eu acho que isso foi mais ou menos quase sempre, mas naquele momento era muito mais nítido. Ele via o general Eanes, que tinha influência dentro do PS, nas bases socialistas, como uma ameaça maior do que Cavaco Silva. E avança para a dissolução da Assembleia da República. Há eleições legislativas em 19 de julho de 1987, e é aí que o PRD cai dos quase 18% que tinha tido dois anos antes para 4,9% e para sete deputados.
38 deputados.
O general Eanes sai então da liderança do PRD. E o que tinha comprometido o PRD?
Teve o que? Meses? Pouco mais, não é?
Sim, poucos meses. Esteve poucos meses à frente do PRD. O que, na prática, compromete o PRD? Primeiro, temos esta figura suprapartidária do general Eanes, que funcionou muito bem como presidente, mas não funciona como chefe de partido. Não é um chefe de partido plausível. O general Eanes não tem as características de um chefe de partido para o eleitorado. As pessoas veem de outra maneira. E é muito provável que ele próprio também estivesse a sentir isso. Por exemplo, uma das coisas que toda gente se queixou dele no PRD, nas eleições legislativas de 19 de julho de 1987, é que ele não apela ao voto no PRD. Ele diz às pessoas: "Votem em consciência." Como se fosse ainda o presidente da República e não o presidente do PRD. Há esse lado. E depois, claro, o PRD, que tinha apoiado o governo minoritário de Cavaco Silva, de repente derruba o governo minoritário de Cavaco Silva numa manobra pra se apoiar no PS e no PCP. É uma coisa muito confusa. Aquela ambiguidade, vamos chamar-lhe assim, que era uma parte da força do general Eanes enquanto presidente da República, torna-se Uma parte da sua fraqueza enquanto líder de um partido que ninguém percebe onde está. Agora está a apoiar o Cavaco Silva e de repente está a derrubar Cavaco Silva, agora está com o PSD, agora de repente está com o PRD. Onde é que está este partido? Obviamente, ninguém sabia onde é que estavam os General Lannes, mas isso era uma força do General Lannes, estava com todos. Mas enquanto partido, um partido tem que estar situado algures e era óbvio que o PRD não estava situado em coisa nenhuma. Tinha eleitores socialistas, um líder cuja visão da sociedade era igual à do PSD, mas com eleitores do PS. Há aqui uma confusão ou uma indefinição que é sustentável na Presidência da República, não é sustentável na Assembleia da República à frente de um partido. E depois, o contexto também tinha mudado imenso. Entre 1985 e 1987, o país em 1985 está a sair do ajustamento do segundo acordo com o Fundo Monetário Internacional, zangado, frustrado, 10 anos depois da revolução, as coisas não parecem estar estabilizadas. E em dois anos, o país muda completamente nestes dois primeiros anos de Portugal na Comunidade Económica Europeia. Há imenso investimento externo. Depois de 1985 é como se tivessem passado 20 anos. Em 1987, o país está num ambiente completamente diferente. A revolução de 1974 já parece que aconteceu há 20 ou 30 anos.
E embora Ramalho Eanes só tenha 50 e poucos anos, na verdade, já parecia ali um velho.
Não, ele representa o 25 de novembro de 1975, o MFA, as Forças Armadas, o Conselho da Revolução, tudo aquilo. E tudo isso em 1987, ao fim de dois anos de uma prosperidade a que o país não estava habituado desde a década de 60. A economia portuguesa cresce imenso, há imenso investimento externo. O Cavaco Silva tem uma visão muito otimista, de grande "vamos fazer coisas, o país vai mudar, o futuro é agora." Muda tudo. E de repente o general Eanes torna-se uma figura do passado. E portanto, aquilo que ele também representava o 25 de novembro, os compromissos do 25 de novembro, a garantia militar da democracia portuguesa, tudo isso já parece uma coisa desnecessária. Não tem a mesma força, a mesma relevância política que tinha. Eu acho que ele é o primeiro a perceber estas coisas, e a afastar-se. Portanto, em 1987 ele afasta-se e quando ele se afasta, obviamente, o PRD não faz sentido. O PRD já faz pouco sentido da última fase em que ele está. E portanto, o PRD não é nada e desvanece-se completamente. Mais uma vez, as pessoas em 1987 fazem aquelas contas simples de para onde é que foram os 18% do PRD e parece que foram todos para Cavaco Silva, porque ele aumenta de 29% para 50% a votação do PSD. Como alguém diz na altura, o PRD é o veículo a partir do qual os votos socialistas foram para a direita, uma parte do eleitorado socialista passa a votar na direita com Cavaco Silva em 1987, depois em 1991. Mais uma vez não deve ser exatamente assim, mas era assim que parecia. E o general Eanes sai e volta a ser uma figura muito respeitada à esquerda, à direita, que umas vezes aparece à esquerda, outras vezes aparece à direita, como um presidente da República extraordinariamente importante na fase da transição e da consolidação da democracia em Portugal entre 1976 e 1986, além do seu papel fundamental no 25 de novembro de 1975 como comandante operacional das forças que resistiam à esquerda militar. Portanto, as pessoas fazem-lhe essa justiça histórica, mas não propriamente como líder de partido, como líder do PRD. Mas o PRD fez o seu sentido naquele momento. Repito, entre 1982 e 1985, quando com a revisão constitucional e com a previsão do fim do mandato do General Eanes, se pensou que o General Eanes podia continuar a ter um papel político direto e para o qual precisava de um veículo partidário. Foi isso que o PRD era suposto ser e não resultou.
E quando Ramalho Eanes saiu, nesse caso, saiu de vez, não é?
Sim, saiu de vez, nunca mais. Sim, tem apoiado candidatos à Presidência da República, etc. De vez em quando fala, mas com uma grande contenção. Voltou ao seu papel presidencial e não líder do partido. Aliás, ele considera hoje que foi um erro o PRD.
Muito bem. Bom, e com esta longa história do PRD termina este episódio de "E o Resto é História." Nós voltamos para a semana. Até lá. E o resto é história.
Quer transformar este país numa ditadura.
Com João Miguel Tavares e Rui Ramos.