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E o resto é história.

É apenas pomba!

Do incêndio em Coimbra, ainda na zona dos teatros. Quer transformar este país numa ditadura. Entende?

Não, não.

Com João Miguel Tavares e Rui Ramos.

Olá, seja bem-vindo a mais um episódio de "E o Resto é História" com João Miguel Tavares e com Rui Ramos. Há não muito tempo nós tivemos uma polêmica em Portugal por causa dos cartazes do Chega que diziam: "Isto não é o Bangladesh". E muito naturalmente os nossos espertíssimos ouvintes interrogaram-se: "Bom, se isto não é o Bangladesh, então o que é o Bangladesh?". Houve realmente gente que nos enviou perguntas sobre isso. No caso do ouvinte João Alves, ele diz que gostava mesmo que fizessemos um programa sobre o Bangladesh e a sua relação com Portugal, de maneira objetiva e sem conotações ideológicas. O João Alves afirma que há uma relação histórica de Portugal com a região e que ainda hoje existe uma comunidade de descendentes dos exploradores portugueses que assentaram na região no século XVI. Bom, eu já te vou perguntar se será mesmo assim, Rui, mas realmente estamos a falar de um país especial, com uma densidade populacional estratosférica, tendo em conta a sua dimensão. É de longe o mais populoso dos países de média dimensão. E só para os nossos ouvintes terem uma ideia do que estamos a falar, em termos de área, o Bangladesh tem o tamanho de um Portugal e meio, ou seja, é apenas 50% maior. Mas em termos de população, estima-se que o Bangladesh tenha atualmente cerca de 175 milhões de habitantes, o que dá 1200 pessoas por quilômetro quadrado, e só mesmo microestados ou pequenas ilhas como Mônaco, Cingapura, o Vaticano, é que estão acima disso em termos de densidade populacional. Rui, como é que isto se explica e que país é este, o famoso Bangladesh que nós ficamos a conhecer naqueles cartazes?

O Bangladesh, em termos de Estado independente, é recente. Tornou-se independente em 1971, depois de uma guerra entre a Índia e o Paquistão. Mas para compreender o Bangladesh, acho que temos de falar da região onde o Bangladesh fica, que é a região de Bengala.

Sim, o país é novo, mas a região tem muita história.

É uma história muito antiga e há três coisas para dizer sobre esta região, em termos geográficos, culturais e de história. Primeiro, geografia. É basicamente um delta, onde desaguam uma série de rios na baía de Bengala, incluindo o Ganges. Portanto, isso quer dizer que em tempo de cheias, a terra habitada parece um arquipélago. 6% da área, aliás, é água. Por exemplo, Portugal é 1%. Em média, no Bangladesh, a terra está a apenas 12 metros acima do nível do mar. Em 1998, houve umas grandes cheias e dois terços do Bangladesh ficaram submersos. Dois terços do país ficaram submersos. Eu quando estive no Nepal, lembro-me de falar com uma pessoa originária do Bangladesh, que de vez em quando referia que visitava o seu país de origem e referia-se a esse país como a ilha. "Eu vou à ilha." Eu não estava a perceber, mas basta ver um mapa para perceber que aquilo é uma espécie de arquipélago. As pessoas devem ter a ideia de que a povoação onde vivem fica numa ilha. Os rios rodeiam completamente todos os pedaços de terra onde aquela imensa população vive.

Tu estiveste no Nepal para subir o Everest, não é?

Não subi o Everest. Não fui desse tipo de alpinismo que se vai fazer no Nepal.

Um dia nós vamos ter um "O Resto é História" para o Rui Ramos explicar a sua aventura no Nepal.

Muito bem. Não é uma coisa tão espantosa como isso. Mas enfim, o reverso positivo desta imagem do país alagado é que as planícies aluviais são muito férteis. Os rios são também grandes vias de transporte e de comunicação e por isso desde a antiguidade que há muita população, há cidades importantes nesta região. Era também um ponto de escala importante das rotas marítimas entre o Médio Oriente e a China, portanto é um grande centro de civilização, esta zona de Bengala. Por exemplo, é provável que os números, os algarismos que usamos hoje tenham sido inventados lá. Tal como o xadrez, em Bengala. O Bangladesh é uma parte de Bengala, é a Bengala Oriental. Porque há a Bengala Ocidental, que faz parte da Índia. Já vamos falar disso, porque esta é a observação cultural sobre esta região de Bengala. A região tinha uma cultura hindu, que ainda é, aliás, a cultura da maioria da população no subcontinente indiano. Tem uma língua própria, o bengali, que é uma língua indo-europeia. Só pra lembrar, já falamos aqui disso, o indo-europeu é uma família de línguas aparentadas. As línguas indo-europeias são uma família de línguas aparentadas entre si, provavelmente descendentes de uma língua pré-histórica que vai da Europa ao norte do subcontinente indiano. Por isso, indo-europeu refere-se à sua expansão geográfica, inclui o grego, o latim, o alemão, o russo, o armênio, o persa, o sânscrito e o bengali. São tudo línguas aparentadas. O bengali é aparentado com o português.

Eu não sei o que é que aparentado significa.

Aparentado tem uma estrutura. Percebe-se, ao comparar as suas estruturas gramaticais e o seu vocabulário, que têm origens comuns. A estrutura gramatical deriva de uma estrutura gramatical comum e uma parte do vocabulário também. Aliás, já falamos aqui disso. Foram os viajantes europeus que quando chegaram ao século XVI e XVII na Índia, começaram a reparar uma série de palavras locais Lembravam palavras de línguas europeias e como é que isso era possível. E depois, no fim do século XVIII, princípio do século XIX, começou-se a estudar a gramática e perceberam que as gramáticas eram parecidas das línguas faladas no subcontinente indiano. Eram mais do que pontos de contacto, via-se que vinham da mesma estrutura de uma língua desaparecida. Mas isso quer dizer que o bengali hoje é falado por 242 milhões de falantes, não apenas no Bangladesh, mas na Índia. É a sexta língua mais falada do mundo, depois do português, que está em quinto lugar.

Tantos pontos de contacto então.

O português tem 250 milhões de falantes.

Dependendo da idade da carruagem, eles talvez nos apanhem.

Muito provavelmente. E talvez não. Vamos falar depois do fim. Ainda em relação à cultura, no século XIV, a região de Bengala tornou-se uma zona de conquista e de colonização muçulmana. Já tinha sido uma zona de infiltração muçulmana, mas agora há um poder muçulmano que tenta mesmo a conquista. Entre o século XIV e o século XVI, há em Bengala um sultanato islâmico independente. O poder político em Bengala é muçulmano, mas a população é na maioria hindu, como na maior parte, como no resto da Índia. Agora, a pressão do poder político e de uma espécie de missionários muçulmanos, faz com que uma parte da população de Bengala se vá convertendo ao islão, o que quer dizer que passou a ser uma das regiões do subcontinente indiano onde havia mais muçulmanos, com o Punjab, a ocidente. O oriente, esta Bengala, é uma das regiões onde de repente há uma grande massa de convertidos ao islão. Isto é importante para compreender a história depois do Bangladesh. Terceira observação em relação à história. Eu disse até ao século XVI há um sultanato independente em Bengala, mas no século XVI esse sultanado é conquistado e anexado pelos mugalves ou mogóis. Não são os mongóis, é um poder político muçulmano cujo líder reivindica ser descendente do Genghis Khan. O líder vem do Uzbequistão, Babur, que é este líder, ele vem do Uzbequistão, mas diz que é descendente do Genghis Khan e há aquela associação aos mongóis. Desde o século XVI, o que é que acontece a Bengala? Bengala faz sempre parte de grandes impérios ou de outros Estados. O Império Mughal ou Mogol entre o século XVI e meados do século XVIII, 1765, depois o Império Britânico da Índia.

Mais de 200 anos.

Até 1947, desde meados do século XVIII até meados do século XX. E depois a Bengala Oriental ainda faz parte do Paquistão entre 1947 e 1971. Vamos falar depois um pouco da história de como é que foi junto ao Paquistão e depois como é que se separou. Os portugueses chegam à Índia no fim do século XV. Bengala é nessa altura um sultanato muçulmano independente ainda. Os portugueses enviam uma primeira embaixada, a partir de Goa, de quatro navios em 1518, para tentar manter uma relação com este sultanato. A região interessava-lhes por quê? Basicamente porque era a região mais rica da Índia. Bengala era a região mais rica da Índia, tinha uma grande indústria têxtil de seda e de algodão, e os produtos têxteis de Bengala eram consumidos em toda a Ásia, eram muito procurados e tinham também uma grande produção de alimentos, sobretudo arroz, naquelas planícies extraordinariamente férteis. Os portugueses conseguem convencer o sultão.

Os portugueses são bons a convencer pessoas.

São muçulmanos. Às vezes persuasão, outras vezes com um pouquinho mais força, mas conseguem e são autorizados a estabelecerem-se naquela que é a maior cidade portuária da baía de Bengala, que é Chittagong. Chittagong é um dos primeiros enclaves europeus. Os portugueses conhecem-no como o Porto Grande de Bengala, é assim que eles lhe chamam. Ou às vezes até o Porto Grande. Dizem: "Vamos para o Porto Grande". O Porto Grande de Bengala é esta cidade. Eles vão se estabelecer lá. Há comerciantes, há missionários, há soldados e há também muitos piratas portugueses que também se estabelecem naquela região. São umas centenas, provavelmente dois milhares, não se sabe ao certo. Tem um forte, aparecem lá representantes das autoridades de Goa, que começam também a cobrar impostos à navegação localmente. Aquilo é um foco de poder português. Tem um lado oficial, de representação do Rei de Portugal, mas tem um lado também muito de centro de empresários privados, isto é, de portugueses que foram para o Oriente e que ficaram lá por conta própria e que se dedicam a comerciar lá. Às vezes eles, às vezes os seus descendentes, isto é, mestiços, até, resultados dos casamentos entre portugueses e famílias e pessoas locais e que também são Ditos portugueses, até por serem católicos e por manterem a tradição.

Nós temos aquela ideia que todos os portugueses que estavam no Oriente eram súbditos e estavam a serviço de um rei de Portugal, porque tu estás a dizer que não é assim.

Não é nada disso. Há uma presença do Estado, mas uma grande parte da presença portuguesa na Ásia no século XVI e no século XVII é de portugueses que por conta própria, empresários portugueses, piratas portugueses também, bandidos portugueses, que entram nos circuitos de comércio local, instalam-se em portos conhecidos e como disse, muitos destes portugueses não são nascidos em Portugal, já são portugueses da Ásia. Isto é gente local que são portugueses por serem cristãos, falarem português. O seu poder não resultou sempre de uma imposição de força europeia, mas às vezes de alianças com poderes locais, através de uma diplomacia extremamente complexa. Eles são bons diplomatas. No caso, por exemplo, do porto grande de Bengala, eles começam por ter a permissão do sultão, mas depois encontram um aliado num rei budista da cidade de Maruk-U. Espero estar a pronunciar bem.

O que é Maruk-U?

É uma cidade na atual Birmânia. Provavelmente a pronúncia não é nada destas. Esta cidade dominava a região da costa que incluía aquele porto grande de Bengala, é uma zona conhecida por Arakan e às vezes as fontes portuguesas falam do rei de Arakan. No princípio do século XVI, este rei budista era um vassalo do sultão de Bengala, mas os portugueses ajudaram a tornar-se independente em 1531. A força dos portugueses no Golfo de Bengala pendiam desta aliança com o rei budista. Portanto, dependiam de alianças com os reis, os poderes locais que tinham interesse em ter uma potência que tinham, na altura, no século XVI, uma grande força marítima e portanto tê-los do seu lado. E os portugueses basicamente o que estavam a tentar não era conquistar territórios, era dominar o comércio e interessava-lhes ter estes contactos com estes poderes locais.

Mas depois vieram os mongóis que não eram mongóis.

Os mogul, a ideia de descendentes dos mongóis. No século XVII, são eles que vão expulsar os portugueses de Chittagong, aliás, com o apoio dos holandeses. Estão aliados aos holandeses e portanto expulsam os portugueses. E ficaram muitos portugueses locais, convertidos ao catolicismo também, contam como portugueses. Eles não são conhecidos como portugueses, são conhecidos como franceses, quer dizer, são farangs ou firingues, quer dizer, francos, que é o nome que os árabes e os persas davam aos europeus desde as Cruzadas. As Cruzadas no Médio Oriente tinham sido sobretudo feitas por cavaleiros francos, da França, e portanto eles dão o nome de francos a todos os europeus. Quando os portugueses chegam à Índia, são conhecidos também como francos.

Mas quando dizes que ficaram, ficaram até quando?

Até hoje, há portugueses. Em Daca, viviam num bairro chamado Portogola.

Curioso nome.

Há nomes portugueses, há ainda figuras importantes da vida do Bangladesh com nomes portugueses, descendentes portugueses, por exemplo, um ator de televisão, o Tony Dias.

Tony Dias.

Ou um cantor de uma banda de heavy metal, George Lincoln da Costa, que é aparentemente uma figura extremamente conhecida.

Isto não é o Bangladesh, mas aquilo lá é um bocado de Portugal.

Têm ali descendentes cristãos. São descendentes cristãos, são descendentes de católicos. O cristianismo representa apenas 0,3% da população do Bangladesh, são cerca de meio milhão de pessoas. Claro, tendo o Bangladesh tanta gente, qualquer percentagem é muita gente. A maior parte são convertidos das missões protestantes no tempo da Índia britânica, mas há estes católicos que continuam a ter essa tradição da presença portuguesa nos séculos XVI e XVII, onde os mogóis nos expulsaram violentamente.

Nós temos que ir para intervalo, mas um abraço pro Tony Dias se ele nos estiver ouvindo em Bangladesh. Voltamos já a seguir. Olá, seja bem-vindo de volta a esta segunda parte de "E o Resto é História". Nós estamos a falar do Bangladesh e tínhamos ficado ali por volta do século XVII.

Sim, quando os mogóis expulsaram os portugueses em meados do século XVII de Chittagong, que era o grande porto de Bengala em que os portugueses tiveram presença durante muito tempo.

Mas não os antepassados de Tony Dias.

Não todos. A semente que foi lá deixada.

A semente ficou lá.

Bengala é a grande base da expansão da Companhia das Índias Orientais Britânica, é a base do Império Britânico na Índia. Em 1657, a Companhia das Índias instaurou a chamada Presidência de Bengala, com capital em Calcutá, que hoje fica na Índia, mas Calcutá vai se tornar a cidade mais importante de Bengala e vai ser a capital da Índia britânica até 1911. É ali naquele delta, naquele Golfo de Bengala, que está a grande base do Império Britânico. Em 1947, os britânicos dividem Com vista à sua independência, dividem o seu império na Índia de acordo com as religiões. Criam um Estado para cada uma das religiões, um Estado para os hindus, um Estado para os muçulmanos e um Estado para os budistas.

Ou seja, a Índia, o Paquistão e a Birmânia.

Os hindus, a Índia, os muçulmanos ficam com o Paquistão e os budistas com a Birmânia, que agora é Mianmar, entretanto mudou de nome. Nós já falamos aqui da independência da Índia em 1947, da grande tragédia que foi essa separação, com deportações, limpezas étnicas, grandes massacres. Ora bem, os muçulmanos no subcontinente indiano eram maioria em duas regiões relativamente afastadas uma da outra. Relativamente ou bastante afastadas uma da outra, aliás, mais de 1000 km separavam uma da outra. Uma a ocidente é o Punjab e o Sindh, e outra Bengala, oriente. Em Bengala, 70% dos 41 milhões de habitantes em 1947, eram muçulmanos. O Paquistão quando é formado em 1947, fica a ser composto de dois territórios separados pela Índia, que é o Paquistão Ocidental, que corresponde ao Sindh, ao Punjab e a outras regiões, e o Paquistão Oriental, que corresponde a uma parte de Bengala. Bengala não ficou toda para o Paquistão, porque só ficou a parte em que os muçulmanos eram a maioria, que é o Paquistão Oriental. Por exemplo, Calcutá ficou na Índia e Daca, que é outra grande cidade de Bengala Oriental, é que ficou no Paquistão Oriental.

O que tu estás a dizer é que a Bengala dos tempos antigos hoje em dia está dividida por três países.

Sim. Está dividida entre a Índia, o Bangladesh e um bocadinho, talvez, Birmânia. Uma parte da costa que hoje é da Birmânia e que em tempos também fazia parte de potentados que tinham a base na baía de Bengala. Qual foi o problema desta divisão religiosa? Isto é, é o facto de ser uma divisão religiosa. Isto é, a única coisa a que os britânicos e os seus interlocutores locais consideraram como critério para a divisão, para a constituição de Estados independentes, foi a religião. Mas a religião não era a única base identitária no subcontinente indiano. E por exemplo, o Paquistão Ocidental usa, sobretudo, a língua urdu e também o panjabi, mas sobretudo a língua urdu, que se tornou a língua oficial do Paquistão, enquanto o Paquistão Oriental tem a língua bengali. Ora bem, a língua bengali correspondia a um grande movimento intelectual que tinha começado no século XVIII, centrado em Calcutá, com editoras, com revistas, teatros, concertos. Há muitos escritores, muitos intelectuais de língua bengali, muito influenciados pela presença dos britânicos e da cultura britânica. Esta chamada Renascença, que é assim que se chama, Renascença Bengali, vem culminar em 1913 com a atribuição do Prêmio Nobel da Literatura a um escritor bengali, Rabindranath Tagore, aliás, um dos grandes escritores do fim do século XIX, princípio do século XX, até Prêmio Nobel da Literatura em 1913.

E escrevendo em bengali.

Escrevendo em bengali. Às vezes traduzia para inglês alguns dos seus romances e contos, mas era um escritor de bengali, a língua em que escrevia era bengali, e tudo isso contribuiu para no, agora Paquistão Oriental, haver uma forte identidade bengali, para além da muçulmana, haver uma forte identidade bengali na elite letrada local, e que vai se sentir secundarizada pela elite urdu do Paquistão Ocidental. Repito, mais de 1000 km separavam o Paquistão Ocidental do Paquistão Oriental. Não havia entre eles nem comunidade linguística, nem cultura comum, a não ser a religião muçulmana. Eram muçulmanos, mas à parte disso, não tinham mais nada em comum.

E o poder, a elite do poder.

A elite do poder era, sobretudo, do Paquistão Ocidental, do Punjab e do Sindh. Era, aliás, onde estava a capital, onde estava a elite administrativa e, sobretudo, a elite militar. A maior parte do exército do Paquistão era de recrutamento no Paquistão Ocidental. Isto, paradoxalmente, embora o Paquistão Oriental nesta época tivesse mais povoação do que o Paquistão Ocidental. 58% dos habitantes do Paquistão viviam no Paquistão Ocidental, mas o Paquistão Ocidental estava secundarizado em termos de representação no Estado e nas Forças Armadas. O Paquistão Ocidental era visto pelos bengalis como uma sociedade mais rural, mais feudal, mais fanática em termos religiosos, mesmo a relação com o Islão era diferente no Paquistão Oriental do que no Paquistão Ocidental. E, aliás, as diferenças ainda são visíveis hoje. Agora vou falar do Bangladesh, que corresponde ao Paquistão Oriental. O Bangladesh é mais rico do que o Paquistão Em termos de dólares per capita ou PIB per capita, em paridade do poder de compra e em dólares, estamos a falar Bangladesh 10.260 dólares, Paquistão 6950.

10.700. Ainda é significativo.

O Bangladesh é 30% mais rico do que o Paquistão hoje em dia. O Bangladesh tem uma riqueza mais ou menos ao nível médio da Índia. Hoje tem a segunda maior indústria têxtil do mundo, que está no Bangladesh, embora a maior parte da população ainda esteja ocupada na agricultura. É verdade que 91% da população do Bangladesh hoje é muçulmana, portanto, mais do que em 1947, precisamente porque os não muçulmanos fugiram do Bangladesh para a Índia durante a partilha em 1947. É uma população muçulmana sunita, mas quando o Bangladesh se tornou independente em 1971, o Bangladesh declarou-se um Estado secular como a Turquia, portanto, ao contrário do Paquistão, que é uma república islâmica. É verdade que depois em 1988, há uma revisão da Constituição e o Islão torna-se a religião oficial do Bangladesh, mas a Constituição diz também que as outras religiões têm um estatuto igual. Na prática, acaba por ser um Estado secular. Não tem o mesmo fervor islâmico do Paquistão, e nessa altura do Paquistão Ocidental. As diferenças de hoje refletem diferenças que já eram estruturais em meados do século XX. Estas diferenças deram origem a um movimento bengali que inicialmente começou por reivindicar a igualdade entre os dois Paquistão, isto é, entre o Paquistão Ocidental e o Paquistão Oriental. Por exemplo, reivindicou o reconhecimento do bengali como língua oficial do Paquistão, porque a única língua oficial do Paquistão era o urdu, deixando a maior parte da população que falava bengali no Paquistão Oriental a sentir-se secundarizada. Esse movimento a reivindicar uma maior autonomia foi sempre reprimido pelas autoridades do Paquistão Ocidental, que consideraram sempre que era um atentado contra a unidade do Estado, e que viram sempre nesse movimento uma espécie de uma quinta coluna da Índia, porque o Paquistão começou imediatamente a ter um conflito com a Índia e acusava este movimento bengali no Paquistão Oriental de estar ao serviço da Índia para separar o país. E de facto, as diferenças eram muito grandes. A comunidade bengali muçulmana estava muito mais próxima da comunidade bengali hindu do que da comunidade muçulmana do Paquistão Oriental, que tem muito maior influência persa e árabe. São duas áreas culturais verdadeiramente distintas e a religião não servia para ultrapassar essas diferenças. Além disso, o Paquistão está repetidamente sob ditadura militar desde quase as suas origens. Ou ditadura militar ou lei marcial, vai dar mais ou menos à mesma coisa. Por exemplo, entre 1958 e 1969, o Paquistão está sob uma ditadura militar. Há ali uns interlúdios de democracia ou de tentativa de regresso à democracia, e um deles é em dezembro de 1970, onde há as primeiras eleições gerais diretas no Paquistão. Até então tinham sido indiretas, primeiro elegia-se representantes, esses representantes elegiam os deputados, mas agora os deputados são eleitos diretamente. E o que acontece nestas eleições? São eleições no Paquistão Ocidental e no Paquistão Oriental. O que acontece é que o partido bengali, que é a Liga Awami, liderada pelo Sheik Mujibur Rahman, do Paquistão Oriental, ganha as eleições. Isto é, ganha as eleições no Paquistão Oriental, mas ganha as eleições no Paquistão Oriental de tal maneira que ganha as eleições em todo o Paquistão. E devia formar governo. As autoridades do Paquistão Ocidental recusam-se a aceitar, isto é, o presidente e o primeiro-ministro em funções recusam-se a dar o poder ao partido bengali, a entregar o poder àquele partido que tinha ganho as eleições no Paquistão Oriental. E em março de 1971, as eleições foram em dezembro, enviam um exército do Paquistão Ocidental para o Paquistão Oriental para reprimir aquilo que já era uma revolta armada com uma declaração de independência, porque os partidários do Sheik Mujibur Rahman sentiram que tinham ganho as eleições, eles é que deviam formar governo, não podem formar governo, é o reconhecimento que não estão em pé de igualdade com o resto dos paquistaneses e dizem: "Então vamos separar-nos", e declaram a independência daquilo que eles chamam o Bangladesh.

Temos que admitir que tinham bons argumentos.

Tinham alguns bons argumentos. O Bangladesh quer dizer, basicamente, o país de Bengala. Bangladesh, é isso que quer dizer. O Paquistão Ocidental inicia uma enorme repressão no Bangladesh, com massacres enormes. Há quem fale em 300 mil mortos, no máximo. No Bangladesh fala-se mesmo de um genocídio dos bengali, nesta altura, que começam a ser mortos em quantidades enormes pelas tropas do Paquistão Ocidental. Há 10 milhões que fogem pra Índia, 10 milhões de refugiados bengalis. E a situação chega ao ponto de, em dezembro de 1971, a Índia invade O Bangladesh para ajudar os revoltosos bengalis, porque obviamente a comunidade bengali na Índia, apesar de ser hindu, sente-se irmanada com aqueles que falam a mesma língua, apesar de serem muçulmanos no Bangladesh. E o exército indiano consegue derrotar o exército paquistanês no Bangladesh e assim nasce o Bangladesh independente.

Isso é um final feliz?

Não, a história depois não acaba totalmente bem. Não tem uma história completamente feliz. Primeiro, começa logo por ter uma história muito acidentada em termos de fomes e desastres naturais. Em 1974, há uma grande fome causada por grandes cheias e também por má administração. Não se sabe, mais uma vez, isso é tudo estimativas, os números divergem. Também tem um grande impacto nesta fome as grandes destruições causadas pelo exército paquistanês no Bangladesh em 1971. Fazem uma espécie de política terra queimada quando percebem que não vão conseguir manter o Bangladesh, destroem o que podem. E há estimativas que possa ter causado talvez 1,5 milhões de mortos esta fome de 1974. Não só pela fome, mas pelas doenças, cólera, que estão associadas à fome. Não tinha sido a única fome nesta região de Bengala. No século XVIII, em 1775 a 1770, há uma fome que se calcula que tenha matado um terço da população, talvez 10 milhões de pessoas que tenham morrido nesta zona de Bengala com uma enorme fome. É uma zona que também está muito sujeita a intempéries tremendas, a ciclones. Num século sofreu 50 ciclones, a cada dois anos cai ali um ciclone. O ciclone de 1970 matou meio milhão de pessoas. O ciclone de 1991 matou 140 mil pessoas. É uma zona com cheias, ciclones.

Em 105 anos, 140 mil pessoas.

140 mil pessoas, menos que o meio milhão que tinha matado o ciclone de 1970, mas é uma mortalidade causada por desastres naturais absolutamente impressionantes. É uma zona que tem a vantagem dos rios como vias de comunicação, das planícies férteis, mas depois o contrário, que é a suscetibilidade às cheias e a estes intempéries no Golfo de Bengala. Mas além dos desastres naturais, há os desastres políticos, porque os políticos também se tornam uma parte das calamidades desta zona. E o fundador do Bangladesh, o Sheikh Mujibur Rahman, depois de tornar o país independente, decidiu torná-lo também um Estado socialista. E em 1975 estatiza quase tudo, impõe um partido único, o seu partido, censura a imprensa, etc. Faz basicamente uma ditadura socialista ali. Essa ditadura não é recebida bem por toda a gente. Em agosto de 1975, há um golpe de Estado, o Mujibur Rahman é assassinado. E a partir daí, o que é que temos no Bangladesh? Temos governos militares, ditaduras militares. E quando há regimes parlamentares, apesar de tudo, há desde os anos 90, o que temos é duas dinastias políticas, descendentes do Sheikh Mujibur Rahman e de outro líder da independência. Num caso, uma é mulher, no outro caso é a filha, que se vão revezando no poder e, portanto, é uma democracia dinástica. São duas famílias que dominam a filha do Sheikh Mujibur Rahman, a Sheikh Hasina, deixou de ser primeiro-ministro em 2024, há dois anos que ela deixou. Houve uma revolução e foi expulsa, finalmente, do poder. O poder destas grandes famílias continua e por isso também a representação de mulheres à frente do governo, que é uma característica do Bangladesh. Por quê? Porque elas são representantes do poder de uma família. É uma política dinástica, a filha, a mulher, tornam-se as herdeiras do marido ou do pai na política. Não é o resultado de uma emancipação feminina, mas desta política dinástica que faz das pessoas representantes destas famílias que dominam a política. Agora falta falar de um aspecto da história do Bangladesh que tem a ver diretamente com a nossa relação atual com o Bangladesh, que é a imigração bengali. Há uma estimativa que diz que há cerca de nove milhões de imigrantes do Bangladesh no mundo. A maior parte deles está no Médio Oriente, quase todos na Arábia Saudita. Há também muitos na Índia, talvez equivalente. Quatro milhões no Médio Oriente, talvez quatro milhões na Índia, mas na Índia podem ser muitos mais. Por quê? Porque são bengalis, eles só se distinguem na Índia quando são muçulmanos, quando, por exemplo, são cidadãos do Bangladesh hindus, basicamente passam despercebidos na Índia de maioria hindu. Só quando são muçulmanos é que se repara. E há quem fale em 12 milhões de imigrantes, mas podem ser números exagerados de bangladeshis que vivem na Índia. Na Europa, a maior parte vive no Reino Unido, 600 mil. Depois há 80 mil na Grécia, 50 mil na Espanha, 50 mil em Portugal é o número, uma estimativa oficial. Isto é uma imigração legal, presumo, não imigração ilegal. Nos Estados Unidos há 300 mil. Onde há mais problemas com esta imigração é na Índia Porque há uma grande reação na Índia contra a imigração muçulmana, contra imigrantes muçulmanos. Houve, por exemplo, um massacre de bengalis em 1983 no Assam, 3000 foram mortos, mas por causa do islão, quer dizer, é um ataque ao islão. Agora, esta imigração é importante para o Bangladesh em termos financeiros, representa cerca de 30 mil milhões de dólares em remessas, é muita gente, mas em termos de população não é decididamente significativa quando estamos a falar de 172, 175 milhões de habitantes, nove, 10 milhões de imigrantes. A imigração é muito menos importante em relação ao Bangladesh do que a imigração portuguesa em relação a Portugal, que é mais significativa. Agora, esta imigração vai continuar, vai crescer? Talvez não, porque o Bangladesh duplicou a população entre 1970 e hoje, ou mais do que duplicou, de 70 milhões a 171 milhões. Portanto, em cerca de 50 anos. Tem ainda uma população extraordinariamente jovem, uma média de idades é de 28 anos, um quarto da população tem menos de 14 anos, era como Portugal há 100 ou 70 anos. Mas a taxa de fertilidade, isto é, o número de nascimentos por mulher, está a cair no Bangladesh dramaticamente também. Era 5,5 em 1985 e agora é 1,9.

1,9 é abaixo da taxa de regeneração.

Abaixo da taxa de regeneração, quer dizer que a população do Bangladesh eventualmente vai começar a diminuir dentro de algum tempo. A retração demográfica que se notou nos países ocidentais desde os anos 70, 80, que se tornou notória, está agora também a atingir dramaticamente a Ásia, já atingiu de uma maneira dramática o Japão, a Coreia.

A China.

A China, e está também a começar a atingir o subcontinente indiano. Esta ideia dessas regiões do mundo como uma espécie de fonte de população, isto é, de nascimentos, vai mudar e muito provavelmente a população do Bangladesh vai também começar a diminuir num horizonte próximo, digamos assim.

Muito obrigado, Rui. Isto foi o Bangladesh e nós encontramo-nos para a semana para mais um episódio de "O Resto é História". Até lá.

E o resto é história. É apenas pomba arte. Do incêntrico Laura ainda na zona do Chiado. Que quer transformar este país numa ditadura. Com João Miguel Tavares e Rui Ramos.