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"Ivens Torres" na Rádio Observador, também em vídeo no YouTube e nas redes sociais do Observador. Hoje com a Judite França, o Anselmo Crespo e o Alexandre Borges. Eu sou o Ricardo Conceição e hoje vamos ao discurso de Luís Montenegro desta manhã no Parlamento Europeu, também à prestação dos eurodeputados portugueses e ainda regressamos ao discurso do Presidente da República no 5 de outubro. E ainda vamos falar sobre o chamado turismo de saúde. Mas, Judite França, começamos pelo discurso de Luís Montenegro no Parlamento Europeu em Estrasburgo. O discurso foi um bom discurso?
Eu acho que sim.
Foi bem lido? Eu achei que tinha sido bem lido.
Foi um bom discurso, até porque nas últimas décadas, quando um primeiro-ministro português vai a Bruxelas, vai normalmente de chapéu estendido, de chapéu na mão. E nós cumpríamos esse papel, o país periférico, pequeno e muito agradecido. E eu acho que esta terça-feira Luís Montenegro rasgou definitivamente esse guião. Disse que Portugal não encara o quadro financeiro plurianual como um concurso de pedinchice, que é uma boa frase, mas não ficou por aí, porque voltou a calculadora contra os frugais, os holandeses, os suecos, os dinamarqueses, aqueles que olham para o sul como o país que é aquele primo que vem pedir dinheiro emprestado. Olham para nós nestes termos.
O bom viver.
Sim, aliás, havia o ex-ministro.
De copos e mulheres bonitas.
Foi o senhor Edissell Blum, não foi?
Foi o Edissell Blum.
Não foi o senhor Chabel, foi o senhor Edissell Blum.
Foi o Edissell Blum. E Montenegro lembrou que em proporção do PIB, Portugal contribui para o orçamento europeu, mais, com exceção da Áustria. E portanto, se os frugais passam a vida a falar de justiça contributiva, acho que Montenegro respondeu bem. Houve ali uma parte sobre o período traumático que vivemos no tempo da troika. Acho que foi bom dizer que passou a ser uma história de superação. É bom recordar que passamos por isso e conseguimos superar. E depois dirigiu-se para os temas mais importantes: a questão dos combustíveis, e acha que deve haver uma decisão concertada, a questão da habitação, pede respostas complementares à Europa. E fechou o círculo com o argumento de fundo que é: se a Europa não resolve os problemas concretos das pessoas, abre espaço à demagogia, ao populismo e ao extremismo. Portanto, dito isto, acho que foi um bom discurso, até Manfred Weber, o líder alemão do PPE, disse-se um bocadinho invejoso enquanto alemão.
Desse é suspeito.
Sim, mas quando um alemão se sente invejoso de Portugal, alguma coisa mudou, nomeadamente na Alemanha. Não em Portugal, mas nomeadamente na Alemanha. E depois, só para concluir, respondeu a José Luís Carneiro, que não é muito habitual quando está fora do país, evita-se. Havia sempre aquele truque, que tanto o primeiro-ministro como o presidente faziam, que era: só falo de questões internacionais em solo internacional e, portanto, não falo nada que seja problemas nacionais. Mas respondeu a José Luís Carneiro, dizendo que uma coisa é o arrendamento, outra coisa é o orçamento. E portanto, agora que o orçamento está aprovado, com o beneplácito de José Luís Carneiro, já não dá para voltar atrás e pedir para ligar as duas coisas, nomeadamente ligar à lei do arrendamento.
Queres deixar uma nota já?
Quero deixar uma nota. Eu acho que Luís Montenegro merece um 14.
Alexandre, eu gosto muito da palavra frugal. Não gosto de almoços frugais.
Não gostas de almoços frugais?
Assusta-me sempre.
Onde é que te calha bem o frugal, então?
Gosto da palavra.
É musical.
Sim, agora quando vejo almoço frugal, digo: "Bom, lá vou eu ficar cheio de fome."
Exatamente, concordo contigo, mas é uma palavra bonita. Pedisse o nome de um rum.
Sim.
Frugal. Acho que vamos propor isto. Sim, brevemente, até porque acho que o tema é proposto pelo Anselmo e parece-me que tem muito mais a dizer, certamente, do que eu diria só dois pontos ou três.
Estou a guardar o fio à minha meada.
Vai. Dois ou três pontos só para concordar com a Judite. Gostei do tom, e por lembrar isto, depois fui ver com a ajuda de um desses amigos da IA, tentar perceber um bocadinho as contas do comparativo entre as contribuições de Portugal e as dos outros frugais e, de facto, nem sempre é fácil fazê-las, dependendo do critério, se é só PIB, se são recursos em geral do país, mas, por exemplo, para termos uma ideia em termos de contributo per capita de PIB, Portugal contribui com 0,75% e a Alemanha com 0,65%, a Suécia com 0,52%. Portanto, isto de facto ajuda-nos a mudar um bocadinho a perspectiva que às vezes temos nisto. É evidente que somos beneficiários líquidos, ao contrário destes países, mas pelo menos muda a lógica. Agora, Montenegro, por exemplo, propõe que não se toque em nada do que já existe: política agrícola comum, apoios à coesão, apoios às outras periferias, mas também Que sabe e quer que aumente o investimento em defesa, aumente o investimento na inovação e na AI, aumente o investimento ou outra política energética, que é a grande razão do mal em que estamos. E onde é que se vai buscar dinheiro para isso? Os ditos frugais não estão dispostos a aumentar impostos, nem a encontrar mais dívida. Por exemplo, Montenegro propõe a criação de mais impostos, um deles sobre criptoativos, à partida parece um território em que se possa entrar, depois propõe mais impostos sobre o carbono, o que é bastante contraditório com a ideia de que precisamos de uma diferença aqui na política energética que estamos a seguir, onde, como sabemos, um dos principais males são as metas exigentíssimas da transição para a descarbonização num continente que se recusou a usar mais petróleo ou carvão e vai comprá-lo a países que o produzem de forma muito mais poluente. Nota final só para isto, não tem a ver com Montenegro, tem a ver com o debate que acho que tem que ser trazido para cá, entre outras coisas, a propósito desta discussão agora do próximo quadro plurianual, que é perceber como é que o Chega, por exemplo, apoia a AFD ou outros partidos que são totalmente contra continuar a dar apoios ao Sul. Gostava de perceber isto, onde é que cabe a lógica aqui, particularmente de partidos que nos pequenos Estados, como Portugal, os populistas tipicamente ainda solicitam mais apoios ao Estado e à Europa.
Queres ou não queres-
Um barato para Montenegro, um doce.
Um doce. Anselmo.
Olha, começando pela-
Tu queres acrescentar também a prestação dos eurodeputados portugueses. Isso é que eu te guardei para o fim.
Pronto, e portanto, despacho já Montenegro dizendo que concordo genericamente com o que disse a Judite e com o que disse o Alexandre. Acho que o Luís Montenegro fez um bom discurso e sobretudo, mais do que a forma do discurso, acho que ele fez um discurso europeu. E eu acho que estava no sítio certo para fazer, e acho que independentemente de eu não concordar com tudo o que Luís Montenegro disse, acho que o discurso foi bom. O que me leva ao contraste com as prestações dos eurodeputados, e nomeadamente de uma eurodeputada, Marta Temido. Cada eurodeputado só tinha cinco minutos, portanto, é verdade que eles não tinham o mesmo tempo que Montenegro para intervir. Mas eu vou vos dizer, eu ouvi Marta Temido e ao fim dos cinco minutos dela, eu pensei: "Se era para isto, mais valia estar calada, mais valia não ter feito uma intervenção." Marta Temido começa a intervenção a dizer: "Bom, não vou chateá-lo", não foi assim que ela disse, "não vou aqui aborrecê-lo com questões nacionais", para depois só falar de questões nacionais e tentar fazer ali um bocadinho de politicazinha. E eu estou a pôr assim, porque foi isso que ela tentou fazer, fez ali um bocadinho de politiquice de oposição, o que não tem problema nenhum, não fosse o facto de ter dado dois tiros no pé, que eu acho que eram desnecessários. Marta Temido, é verdade que ela foi ministra da Saúde, mas a Marta Temido vai falar de habitação? A sério? Ela que pertenceu a um governo que esteve oito anos no poder e que não tocou no assunto. É que não foi teve medidas erradas, não tocou no assunto, tocou no fim do mandato. O programa Mais Habitação do governo socialista é um programa que aparece no último ano de mandato de António Costa, que depois caiu, como toda a gente sabe. Marta Temido acha que é inteligente e que tem moral para ir falar do tema da habitação e para apontar ali uma contradição ao Luís Montenegro, que quando estava na oposição achava que a resposta era nacional e agora a resposta é europeia. Eu por acaso também discordo de Montenegro. Eu acho que a União Europeia, podendo pensar no assunto, eu até agora ainda não vi onde é que a Comissão Europeia pode, de facto, ter uma política europeia para a habitação que faça baixar os preços. Aliás, viu-se o conjunto de propostas que o comissário com a pasta da Habitação apresentou, era uma mão cheia de nada. Ele próprio reconhecia que não havia muito para fazer. Mas se era para isto, Marta Temido podia ter dado a vez a outro. Não acrescentou rigorosamente nada e sobretudo acho que foi um desperdício aquela intervenção. Tanger Correia não surpreende. Ninguém está à espera que Tanger Correia vá lá fazer um grande discurso europeu. A esquerda, o que achou que era mesmo pertinente falar? Sobre a Base das Lajes. Não é extraordinário? Portanto, França está como está, Alemanha está como está, a Europa está como está, e a esquerda acha que o que as pessoas andam na rua a manifestar-se é contra, provavelmente, a utilização da Base das Lajes. Portanto, eu estava a ouvir as intervenções dos eurodeputados. Eu primeiro comecei a ver o minuto a minuto ou o liveblog do Observador e depois pensei: "Se calhar, escapou-me aqui qualquer coisa". E fui mesmo ver o vídeo. Foi mesmo aquilo. O contributo da maior parte dos eurodeputados da oposição foi isto. E portanto, eu acho que isto também resume um bocadinho o estado a que chegou a política. Nós às vezes queixamo-nos da qualidade dos nossos deputados cá. Dos eurodeputados não é muito melhor, aparentemente. Não posso generalizar. Ainda agora ouvi aqui Francisco Assis numa entrevista à Rádio Observador. É uma diferença brutal. Uma pessoa ouve Francisco Assis e depois ouve Marta Temido, e é a estrada da beira, beira da estrada. São do mesmo partido. Ambos pertencem ao grupo do Partido Socialista, mas não têm rigorosamente nada a ver. Portanto, eu acho de uma miséria, de uma pobreza franciscana, e queria assinalar isso.
Mas não deixa de espantar, não me vou pronunciar, obviamente, sobre o que acabaste de dizer, mas do ponto de vista mais geral. Quem tem a oportunidade e paciência para ver os debates do Parlamento Europeu, por vezes são muito fracos São muito fracos. A mesma qualidade das intervenções dos deputados quando deveríamos estar a discutir assuntos realmente importantíssimos para o futuro comum da União Europeia e da Europa, são muito fracos.
Isso é muito curioso o que tu acabaste de dizer por dois motivos. Primeiro, porque eu acho que a maior parte dos europeus, a começar pelos eleitores portugueses, já tem muitas dúvidas sobre a utilidade do Parlamento Europeu e dos eurodeputados em geral. E eu acho que têm dúvidas legitimamente. Mas isso é outro debate. Eu acho que a arquitetura democrática da União Europeia devia ser repensada em algum momento. Agora estamos num momento de crise, também estamos sempre de crise em crise, nunca é o timing certo, mas em algum momento se devia repensar esta arquitetura, porque eu acho que ela é completamente anacrônica e não tem vindo a aproximar os eleitores. Pelo contrário, tem vindo a afastar eleitores. Mas tu depois disseste uma outra palavra que para mim é chave, que é discutir, de facto, uma política comum. Se há coisa que a União Europeu tem neste momento é um deslaçar de uma política comum. Neste momento está cada um por si. Aliás, todo este debate sobre o próximo quadro comunitário é exatamente isso. Por que ninguém quer mais impostos e por que os frugais querem contribuir menos? Historicamente sempre quiseram, mas agora está mais difícil, porque França está como está, porque Alemanha está como está, porque Itália está como está e porque todos eles têm problemas. Neste momento, está toda a gente muito mais autocentrada nos seus problemas internos e a tentar sobreviver politicamente do que preocupado em dizer ao eleitorado: "Sim, vamos aqui continuar a contribuir para o orçamento europeu." E portanto, numa altura em que exatamente o papel dos eurodeputados, com as diferenças que têm que assinalar, naturalmente, face entre partidos, devia ser lutar por uma coesão e por uma reforma, se quiserem, das instituições europeias e da forma como a União Europeia responde ao problema das pessoas. Não, eles acham que é mais divertido continuar a fazer esta politiquice que não interessa a ninguém e que ninguém tem pachorra para ouvir.
Esqueceste-te de dar alguma nota?
Não, mas posso dar um cinco à prestação dos eurodeputados em geral e posso subir aqui um bocadinho um 13 para a intervenção de Luís Montenegro, que me pareceu muito apropriado.
E, Judite, regressamos ainda ao discurso do Presidente da República de 5 de outubro. Estiveste particularmente atenta na manhã de feriado de segunda-feira, não foi?
Estive atenta. Confesso que estive atenta para ouvir o discurso do Presidente da República, sobretudo. E eu acho que há, de facto, discursos que se esquecem no momento em que acabam.
Este discurso vai autodestruir-se em 30 segundos.
E eu acho, sinceramente-
Desconfio, então, que não achaste marcante.
Não achei marcante. A República tem de chegar a todos, o Estado tem de merecer a confiança, há sempre algo a fazer. Há uma série de coisas que o Presidente da República disse que não há nenhum português que discorde, não há. Nem nenhum governo que se sinta visado. Eu achei que foi um discurso morno e a única altura em que deu para acordar foi quando disse explicitamente que saúda o governo e o PS pelo caminho de aproximação que têm vindo a fazer, tendo em vista a aprovação do orçamento, e juntou: "Oxalá outros possam juntar-se." Portanto, politicamente, houve aqui algo a que a gente se pode agarrar na altura em que faz o comentário do discurso, porque tirando esta bênção da convergência, acho que não há mais nada que se possa acrescentar, porque de facto as reações, aliás, dos partidos, o PSD gostou muito, claro, não se sentiu minimamente visado. O PS também gostou, mas aproveitou para cobrar o acordo com o Chega. E o Chega viu ali a montagem de um bloco central, portanto o "oxalá outros se juntem", o Chega não ouviu. Mas enfim, este caminho da convergência é uma marca do Presidente da República. O Presidente da República é de consensos e de convergências, e portanto eu acho que Seguro fez aquilo que se estaria à espera. Eu não estava à espera de nenhum discurso que me galvanizasse.
Porém tu decidiste acordar cedo. Acordar cedo, não, dez e tal. Mas conhecendo-te, Judite.
Exato. Eu que tenho essa hipótese. Eu acho que, de facto, é um discurso banal, mas às vezes não é preciso mais do que banal. Banal aqui serve o propósito de elogiar essa convergência entre o PS e o governo, mas eu acho que sabe a pouco. Também acho que já ninguém liga ao 5 de Outubro, confesso. As pessoas não ligam ao 5 de Outubro, não é um discurso que marque.
Mas é um momento solene em que o presidente tem uma boa oportunidade para falar ao país.
Pois, sim, é verdade. Eu acho que foi uma oportunidade perdida nesse caso.
Alexandre, sentiste-te galvanizado?
Não. Digamos que a originalidade também foi frugal aqui, também se conteve bastante. O lado mais preocupante para mim destes acontecimentos é um que depois seria destacado, acho que inadvertidamente, no discurso de Carlos Moedas, que é um pouco melhor do que o do presidente, não muito, diga-se, mas que é o perigo da indiferença. O que me incomoda, de facto, nestes acontecimentos, como no 10 de Junho, por exemplo, é ver o absoluto desinteresse que inspira à volta.
Ainda assim menos no 10 de Junho. No 10 de Junho tens pessoas que vão para a rua.
Tens algumas.
Mas não tinhas ninguém na rua.
Mas aqui não tens, exato. E há uma boa razão para estes momentos não acontecerem dentro dos palácios, para acontecerem na rua. É suposto serem momentos de alguma celebração popular em torno destes acontecimentos.
Deixa-me pôr o argumento ao contrário. Isso não é sinal de consolidação da República? Ou seja, já é tão normal e natural que já ninguém liga.
É uma perspectiva bonita da tua parte, bem-intencionada, mas perante os tempos que atravessamos, não vejo isso aí. Não é como se depois não houvesse uma imensa contestação ao sistema, não a sentisses quer no voto, quer na formação de novas forças políticas, quer em geral na expressão das pessoas, da opinião pública nas redes sociais, etc. Portanto, eu julgo que tem mais a ver, de facto, com o desinteresse, com o divórcio.
Desculpa, Alexandre, desde logo, há quase um quarto dos eleitores que acha que deve haver uma nova república.
Exato.
Ou votar num partido que quer uma nova república.
Exatamente. Tal e qual. É isso mesmo.
É só quase um quarto dos eleitores.
É isso mesmo, sem dúvida. E no discurso de Carlos Moedas, que para mim é enfermo de um problema que é ele ter tentado falar de tudo. Ele foi do Império Romano ao 25 de Abril, passando por estes títulos todos em 10 segundos e aquilo era sobre o 5 de Outubro de 1910.
Foi quase um TikTok.
Completamente. Mas teve esse bom ponto, acho eu, de tocar na questão do perigo silencioso, da indiferença, do encolher de ombros, do desinteresse, da abstenção, de como as repúblicas morrem assim.
Então deixa-me ir ao Anselmo, que é para depois ainda termos tempo para o turismo.
Ok, boa.
Eu sobre o discurso de António José Seguro, acho que desde logo havia um problema de expectativa, porque foi criada uma expectativa em relação a este discurso, na sequência da polémica em torno de Luís Neves, expectativa que foi criada não pelo próprio António José Seguro, mas por pessoas próximas dele, de que o 5 de Outubro seria um bom momento para António José Seguro dar um sinal sobre o que seria a ética republicana, até tendo em conta o histórico e o passado de António José Seguro ligado a estes temas. Ora, eu acho que António José Seguro fez de propósito, porque ele sabia que havia essa expectativa e se repararem, esse foi exatamente o tema que ele não tocou. De todo.
Eu acho que ele toca.
Não tocou. Há muito de leve, uma frase.
É, ele fala na questão, no prestígio das instituições. Volta a dizer que o presidente não se pode substituir.
É preciso decodificar aquilo.
É preciso ler.
E houve um momento em que eu pensei aqui no nosso Ricardo, que gosta muito da palavra galera também, que é quando ele cita Jorge Palma. Também tinha razão a Raquel Bacis, que há uns dias dizia que era o cantor mais citado neste podcast. Mas ele cita Jorge Palma para ir buscar este verso, dizer: "Ai, Portugal, Portugal, tens um pé numa galera e outro no fundo do mar." Talzée. Eu sei, eu vi. Eu percebi o que fizeste aqui.
Estava ali o Luís Neves.
Galera.
Portanto, eu acho que havia, desde logo, um problema de expectativa. Depois, António José Seguro, tirando este fator, foi António José Seguro a ser António José Seguro. Ele nunca foi outra coisa que não fosse isto, do ponto de vista discursivo. Mas eu senti, ouvi o discurso e pensei exatamente o mesmo que o Judite, que aquilo espremido não dá nada. Mas eu juro que a minha análise foi: eu acho que ele não quis. Ele não quis fazer um discurso marcante o suficiente para se ficar a ler nas entrelinhas e os recados e a quem é que ele estava a dirigir o recado A ou B ou C. Por um lado, uma das leituras possíveis é estamos na véspera do Orçamento de Estado. Apesar do Orçamento estar resolvido. E aliás, esse é o tema onde ele vai, que é dar os parabéns ao Partido Socialista e ao governo por terem chegado aqui a um princípio de entendimento.
E se calhar só queria que essa mensagem passasse e que não fosse ofuscada por mais nada.
Sim. Agora, de facto, eu acho que ele podia ter, na minha modesta opinião, acho que ele podia, sem ter um discurso polémico, digamos assim, como já foram alguns discursos do 25 de Abril, no passado, de presidentes da República, podia ter aproveitado precisamente a data e o pretexto da data para tentar criar alguma coesão em torno daquilo que é a República, porque o Ricardo chamava a atenção para isso e o Ricardo tentava ver o copo meio cheio. E eu pensava: bom, eu acho que houve uma fase em que as pessoas deram isto tudo por adquirido. A República, a democracia. Eu acho que já passámos essa fase. Eu acho que as pessoas já não estão na fase do dar por adquirido. Já estão na fase de acharem irrelevante, ao ponto de procurarem, de facto, por isso é que eu lembrava, há quase um quarto dos eleitores que concorda com o partido que quer refundar, quer uma nova república, não quer esta, que é antissistema. Portanto, eu acho que as pessoas já passaram a fase do: "Ah, não, isto é democracia, pode haver aqui muitas polémicas." Não, já estão no outro lado da barricada. E é aí que eu acho que o papel do Presidente da República pode ser importante e ele tem que ter, pelo menos, o cuidado de conseguir chegar com a sua palavra aos eleitores. Até porque, vamos recordar uma outra banalidade que se diz relativamente aos presidentes da República, mas que é verdade, essa é a arma mais forte que ele tem
A arma mais forte que ele tem não é dissolver a Assembleia da República, não é vetar diplomas. A arma mais forte que ele tem é ser um fator de coesão nacional naquilo que diz e na forma como chega às pessoas. Ora, se o discurso que António José Seguro fez no 5 de outubro de 2026 podia tê-lo feito no 5 de outubro há 30 anos, então verdadeiramente eu acho que ele não está a conseguir chegar a ninguém, nem arrebatar ninguém, que é, na verdade, o que eu acho que as pessoas procuram. As pessoas procuram líderes, eles estão a escassear e quando as pessoas não encontram líderes, tipicamente vão à procura de salvadores. E é isso que está a acontecer aqui, é isso que está a acontecer pela Europa toda, é isso que aconteceu nos Estados Unidos, é isso que está a acontecer no Brasil. As pessoas andam à procura de líderes. Como não os encontram, procuram salvadores.
E a tua nota, Anselmo?
O pH neutro é 7,4, não é?
Sete.
7,4?
Já não sei.
7,4.
Quem é especialista em físico-química aí diz.
Eu achava que era sete.
Não é sete?
7,4.
Que vergonha.
Pode ser sete.
Espero que nessa altura as crianças nos carros não estejam a ouvir.
Ou que os pais já vão responder, era o ideal.
Exatamente. Nós somos todos de Letras.
É verdade.
Sabemos muito sobre poesia obscura, mas pouco sobre pH.
Nos atiramos para fora de pé quando começamos a falar de pH.
Exato, mas eu já vou confirmar. Tu queres falar, Alexandre, sobre o turismo de saúde.
Sim. Ontem havia mais uma reportagem grande do Tiago Caeiro, jornalista d'O Observador, especialista em saúde. Não o conheço, devo dizer, mas tenho aprendido imenso com o Tiago. Nos últimos tempos tem trazido muitas destas peças que, entre outros assuntos, tocam neste tema do turismo da saúde, desde logo a entrevista à presidente da Unidade Local de Saúde Amadora-Sintra.
Deixa só confirmar que o pH neutro é sete. Estamos bem.
Bem. Isso. Podemos continuar.
Meninos, pH neutro, sete.
Sete. Qual é a nota do Anselmo para o presidente? Acho que é isto. Nomeadamente esta entrevista da Sandra Cavaca, presidente do Amadora-Sintra, que voltou a colocar este tema no topo da discussão política quando, com o conhecimento de causa que se imagina, disse que, entre outras coisas, muita gente chega diretamente a Lisboa, aterra no aeroporto e vai direto para o Amadora-Sintra, particularmente mulheres grávidas já em cima do momento do nascimento, etc. A peça que o Tiago traz ontem refere mais uma quantidade de fontes e eu destaco aqui dois ou três dados e duas ou três declarações. João Gameiras, que foi durante anos diretor clínico da Unidade Local de Saúde Lisboa Ocidental, diz que toda a gente sabe disto, das grávidas que vêm no fim da gravidez, com gravidezes não vigiadas para terem as crianças cá. Fala de uma descoberta recente, por exemplo, de uma equipa do INEM que encontrou no centro de Lisboa uma casa com mais de 20 grávidas a viver, tudo pessoas não cá residentes e que vinham apenas cá para terem os filhos e que chegavam naturalmente. Isto não é provavelmente uma casualidade, nem um grupo de amigas. É evidente que há aqui redes de tráfico humano especificamente destinadas a esta questão. E depois acrescentava que há casas de mulheres destas que já não são encontradas na consulta do quinto dia. Portanto, após o nascimento ao quinto dia já não estão cá, simplesmente. Outros médicos, nomeadamente de hospitais da margem sul, o presidente do Santa Maria, Carlos Martins, a dizer que o hospital chegou a ter desequilíbrios nas contas devido ao montante de utentes não residentes que depois não conseguiam ser encontrados ou faturados. Portanto, são pessoas que chegam, a maior parte delas sem nenhuma espécie de seguro ou acordo ao protocolo. Algumas têm números de saúde, ninguém sabe muito bem como, também é acrescentado por Fernando Leal da Costa, antigo ministro da Saúde.
Isso leva-te a que conclusão, Alexandre?
Isto leva-me a duas ou três conclusões que me parecem relevantes. Ponto um: não percebo muito bem por que estamos há dois anos para voltar a legislar sobre este assunto. Isto é, a AD no final de 2024 conseguiu fazer aprovar na Assembleia um conjunto de medidas, com o apoio do Chega e depois de muita polêmica com a esquerda. Como caiu esse governo, isto ficou assim em águas de bacalhau e só agora, quase dois anos depois, com estas polêmicas, é que voltam a falar em voltar a apresentá-las. Ponto dois: a grande demagogia que há em torno destes assuntos, sobre a história de ter que atender toda a gente e que confunde bondade com ingenuidade, com o aproveitamento de um conjunto de redes que faz isto e que ganha dinheiro a fazer isto, quer dizer, com um sistema que não tem como sustentar, não tem obviamente como atender toda a gente. Depois, o disparar imenso nos últimos anos disto. Nós temos também um relatório específico da IGAS sobre o São José, em que só em 2024 este número tinha disparado 60% e o número de partos de mulheres estrangeiras de um ano para o outro tinha aumentado mais de 120%. Portanto, este é um fenômeno, como há tantas é dito também por médicos nesta peça de ontem do Observador, que pode estar sem controle. Importância de atuar já sobre isto: não só aquilo que devemos às pessoas, e já agora voltando às discussões da Assembleia da República, é isto que nós também devemos às pessoas, àqueles que são os cidadãos e os contribuintes. Ponto dois, o enorme risco político aqui associado e como isto serve, de facto, de combustível a populismos, nestes casos com razão, evidentemente as pessoas sentem-se injustiçadas. A minha nota vai, neste caso, para as peças do Tiago Caeiro, que nos têm informado sobre isto, tenho 16.
Bom, bem dado, 16. E amanhã há mais, e o vencedor é, nas manhãs 360, o Miguel Santos Carrapato junta-se ao José Manuel Fernandes, ao Paulo Ferreira e ao Bruno Vieira Amaral.