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Está no ar o "E o Vencedor É?" das manhãs 360. Nos próximos minutos damos notas de 0 a 20 aos principais protagonistas da atualidade e pra isso junta-se a nós e ao José Manuel Fernandes, a Helena Matos.
Carla.
E esta manhã falamos de equilíbrios, das contas, da linguagem e também da comunicação ao país que fez ontem o primeiro-ministro. José Manuel, vamos começar por ti. Fez sentido aquela comunicação às 20h?
O André Ventura deve ter agradecido. Eu acho que André Ventura é o grande vencedor do dia de ontem. Teve um bônus dado pelo Livre, que resolveu criar uma espécie de inventona, e uma inventona ainda por cima retardadora, porque a intervenção de 25 de novembro já foi há uns dias.
De facto, dois dias depois.
Dois dias depois, não deram por nada e agora acham que houve crimes contra a humanidade e ameaças de morte. Mas permitiram que André Ventura viesse responder com o ar mais cândido do mundo e, neste caso concreto, com razão. E o primeiro-ministro aproveitou uma situação que, de alguma forma, é favorável. Nos últimos dias houve uma série de sucessos das nossas forças de segurança. Dois dos fugitivos foram recapturados. Há sinais de que nossa Polícia Judiciária está a atuar com efetividade. Houve também uma ação policial ontem que permitiu deter alguns dos vândalos que tinham assaltado e incendiado aquele autocarro em Loures. Não sei se pensou cavalgar isso, se a reunião já estava marcada antes. Tudo apareceu de surpresa. Ontem ficamos a saber que havia uma reunião com os ministros da Justiça e da Administração Interna. Depois percebemos que a reunião era também com todos os chefes das forças de segurança e depois que havia uma comunicação às 20h. Luís Montenegro tem-se distinguido até agora por ser parco nas suas palavras. Ele não está a falar todo o tempo. Fala muitíssimo menos do que o nosso presidente da República, fala bastante menos do que o anterior primeiro-ministro, António Costa. António Costa com muita facilidade aparecia nas televisões. Houve períodos em que estava todos os dias nas televisões a fazer comentários. Não é este o registro do Montenegro e ele tinha estado bem com ele. Agora, vir chamar a atenção pra um problema que basicamente é dizer: "Isto continua a ser um país seguro, mas há uma sensação de insegurança". Depois não diz e que está a ser explorada pelo Chega, mas diz: "Eu estou a tratar disso". O vencedor é o Chega. Naturalmente, o vencedor é André Ventura, consegue dominar a agenda política e midiática com os temas que ele coloca na agenda e com a centralidade que outros partidos lhe dão, porque sempre que alguma coisa acontece, alguém diz: "Isto é feito por causa do Chega". Eu sou daqueles, já disse aqui muitas vezes, que não se pode minimizar sentimentos de insegurança. É importante ter isso, porque muitas vezes nós que vivemos no mundo midiático e político, vivemos numa bolha mais segura do que vivem as pessoas que vivem em certos bairros e ambientes menos protegidos. Não se pode minimizar essas situações e tem que se dar atenção a isso. Entre isso e o que aconteceu ontem, vai uma grande distância. Eu não costumo dar notas positivas ao Chega, mas tenho que dar hoje. André Ventura ganhou em dois carrinhos sem praticamente precisar de jogar. Leva um 14, nota generosa.
Leva um generoso 14.
Foi-lhe posta uma passadeira vermelha à frente por outros políticos. Ele só tem a ganhar com isso.
Um 14 então para André Ventura, que acaba por ganhar esta centralidade. Helena, o que achaste desta comunicação ao país?
Eu quero que o André Ventura vá à fava. Estou absolutamente farta de não se poder falar de determinados assuntos porque isso favorece o André Ventura. Isso acho que nos levou a um disparate absoluto, mas um despropósito. Por outro lado, acho que nós, comentadores, jornalistas, não percebemos nada, isso nota-se exatamente, até por expressivos votos, em quem fala das questões de segurança e por algumas coisas que têm acontecido. É óbvio que a forma como nós olhamos para as coisas não é certamente a forma como olham as pessoas que têm problemas com a segurança. O que eu penso da comunicação do Luís Montenegro ontem é politicamente, há ali uma mensagem que teve com a Ministra da Administração Interna. A Ministra da Justiça não me parece neste momento esteja a precisar, mas Margarida Blasco é óbvio que sim. E houve ali uma necessidade de dizer, do ponto de vista do executivo, que Margarida Blasco não está de saída. Às vezes, quando se diz que não está de saída, é porque as pessoas estão mesmo de saída, mas acho que houve ali uma intenção. Agora, vamos ver. Portugal tem, de facto, problemas de segurança, como todos os países têm, todos os países normais têm problemas de segurança. Uns terão mais, outros terão menos. Nós tínhamos os problemas de sempre e temos agora problemas novos. Não estou referindo-me àquelas coisas que aconteceram nos Ambojal. Estou referindo, por exemplo, aos avisos que temos tido, por parte da Polícia Judiciária e também das autoridades brasileiras, por exemplo, da detenção em Portugal, e esta notícia é muito recente, de 20 operacionais do Primeiro Comando da Capital, ou seja, estamos a falar de grupos criminosos brasileiros muitíssimo violentos, muitíssimo organizados.
O mais forte da América Latina, dizem.
Sim, e também do Comando Vermelho, e que estão a usar Portugal não propriamente para virem fazer assaltos e aquelas coisas que os caracterizam noutras latitudes, mas para lavar dinheiro usarem empresas de fachada. Isto são outros níveis de criminalidade, são coisas muito complicadas para as quais temos de prestar muita atenção. Agora, se me perguntarem se eu acho que o primeiro-ministro fez bem ou mal falar às 20h, ainda por cima acho que jogava o Benfica, por esses horários.
E a Maria João Vilas apresentava um livro.
E a Maria João Vilas apresentava um livro. Isso eu já não sei. Agora, eu acho que talvez tenhamos tido, pela primeira vez, passados tempos muito excepcionais, uma comunicação de um primeiro-ministro para falar sobre segurança. A única coisa que há a lastimar nisto é que antes nenhum primeiro-ministro o tenha feito, ou seja, que se tenha deixado ficar esse assunto para quem queria falar dele. Agora, se eu estivesse a viver na Reboleira, na Venda Nova, talvez numa urbanização de classe média que acabou por ficar muito próxima do Zambujal, talvez tivesse querido ouvir o primeiro-ministro.
Às 8 da noite. A questão é que se cria uma expectativa muito grande.
Esse ponto é importante. Eu acho que o tema não é o conteúdo da comunicação, porque é uma intervenção normal de um político fazer um balanço com estatísticas, dizer que vai investir aqui e ali. Isso acontece quase todos os dias em várias áreas da governação. A questão, de facto, é às 20h, porque a comunicação em política tem simbolismos.
E às 20h é um tiro excepcional.
Exatamente. Comunicação ao país, não é uma conferência de imprensa. Hoje, de certeza, vão repetir o tema no briefing do Conselho de Ministros, que provavelmente até era o sítio indicado para falar destas coisas. O governo decidiu, vai comprar mais não sei quantas viaturas, investir isto e aquilo. E até podia estar lá a secretária de Estado da pasta, muitas vezes vão os ministros setoriais ao Conselho de Ministros. É, de facto, de emergência, a meio da tarde começa-se a receber no telemóvel: "O primeiro-ministro faz uma comunicação ao país às 20h." Paramos. O que é que se passa? Qual é o tema? Portanto, é este simbolismo, basicamente.
Mas já vimos comunicações ao país às 8 horas da noite por outros assuntos.
Sem dúvida.
Sem dúvida. E, portanto, o que eu acho é que se calhar demoramos algum tempo, e esse vazio pesou muito na desproporção eleitoral que hoje temos e que vivemos em Portugal, no crescimento do Chega, sem dúvida, porque provavelmente devíamos ter feito uma conferência às 8 da noite sobre questões de segurança há alguns anos, e não fizemos.
Ou se calhar há um mês, quando os desacatos estavam a acontecer na zona da Grande Lisboa.
Como é óbvio.
Muito mais pertinente aí, diria.
Sim.
Vais dar nota ao primeiro-ministro?
Vou dar nota ao primeiro-ministro, que eu não sei que nota é que hei de dar, porque aqui acho mesmo que a perceção... Mas vou dar nota. Vou lhe dar um 10, porque eu não sei. Ou seja, eu não sei como é que as pessoas que têm problemas sérios de segurança olharam para esta comunicação ontem às 8 da noite. E duvido que tenhamos todos olhado da mesma forma. Portanto, sim, há aqui uma capitalização política, eu acho que quis reforçar Margarida Blasco, acho que quis cavalgar as boas notícias da PJ, que estavam a chegar das detenções. Agora, eu detesto aquelas expressões daquelas imagens das bananeiras, mas acho que temos de perceber que o país está a confrontar, nós estamos todos muito preocupados com isto, isto é tudo muito grave, autocarros, não sei quantos, tumultos, mas nós estamos certamente a caminhar neste momento para nos confrontarmos com um outro tipo de criminalidade, para a qual eu não sei qual é que é o apetrechamento do Estado português. Portanto, eu dou 10 na medida em que quero esperar para ver.
Muito bem, e hoje há um Conselho de Ministros, vamos ver como é que o assunto será abordado. Depois, Bruno, há a questão do livro, já foi aqui referenciada pelo José Manuel Fernandes também, Ventura no centro.
Ventura no centro, ele tem essa capacidade, e não será tanto por mérito dele, mas por demérito de quem o ataca, de aproveitar muito bem os ataques de que é alvo. Consegue capitalizar isto a seu favor, consegue transformar isto em ganhos políticos. Não acontece só com André Ventura, isso tem acontecido com estes políticos de direita, desde Trump a Bolsonaro, e outros que beneficiam muito dos ataques de que são alvo por parte dos seus rivais políticos. Vimos isto acontecer com Augusto Santos Silva, que agora está desaparecido, perdeu claramente essa guerra com o Chega. Aliás, muitas vezes foram ataques feitos pelo anterior presidente da Assembleia da República, que não se percebia muito bem o porquê. Por que é que Augusto Santos Silva o fazia naqueles termos? Aliás, percebia-se qual era a intenção, era ganhar politicamente o seu espaço, agradar à esquerda, porque gosta sempre muito dos ataques ao Chega, mas acabou por perder precisamente por isso. Porque chega uma altura, e por falar agora em banalização, estávamos a falar da banalização da comunicação, chega uma altura em que esses ataques se tornam banais e ficam desprovidos de valor. Só pergunta-se: "Mas, afinal de contas, qual é que é o objetivo? Onde é que se quer chegar?" E o LIVRE ontem fez o mesmo em relação às declarações de André Ventura no 25 de novembro, na cerimônia, que tinham passado completamente ao lado. Acho que ninguém tinha reparado naquilo que André Ventura tinha dito. E depois pode-se discutir se tem mais importância ou menos importância, mas o LIVRE, quanto a mim, amplifica essas declarações, dá-lhes uma importância que não têm e faz uma leitura que eu acho que é claramente distorcida
Exagera a intenção de André Ventura para fazer quase das declarações de André Ventura, as próprias declarações, um crime contra a humanidade. Dizer que aquilo faz a apologia dos crimes de guerra. E André Ventura é sempre muito rápido a aproveitar os erros dos adversários. Vou lembrar-me aqui também do livro, por acaso, daquela entrada no debate entre Rui Tavares e André Ventura, em que Rui Tavares vai buscar um caso pessoal, de um ataque pessoal nas redes sociais acerca do colégio que era frequentado pelos filhos, e André Ventura consegue virar imediatamente isso a seu favor. Ou seja, André Ventura é muito hábil a aproveitar os erros dos adversários.
Desculpa interromper, aliás, o discurso dele são os erros dos adversários, porque ele propriamente discurso, não tem. O discurso dele são mesmo os erros dos adversários.
Ele ganha mais, ou tem ganhado mais com os erros dos adversários. Agora, uma coisa, os adversários têm cometido esses erros. E aqui o LIVRE voltou a cometer um erro. Eu acho que o presidente da Assembleia da República esteve bem ao desvalorizar o assunto, mas aquela indignação, que eu acredito que seja genuína, no caso de Augusto Santos Silva, acho que havia ali um pouco de estratégia. Mas neste caso do LIVRE, eu acho que é uma indignação até genuína com o que André Ventura disse. Só que deviam perceber que isso não funciona a favor do LIVRE, funciona a favor do Chega, de André Ventura, e a nota negativa vai para o LIVRE, porque ao fim deste tempo todo ainda não perceberam que isso funciona contra, e não a favor das suas intenções.
Qual é a nota, Bruno?
É um cinco.
Um cinco para o LIVRE. E como é que estão as empresas públicas, o setor empresarial do Estado, Paulo?
Estão mal. Aqui não há novidades. O Conselho de Finanças Públicas fez mais um relatório, um ponto de situação, e importa dar aqui meia dúzia de números. Nós temos quase 150 empresas no Estado, portanto, somos empresários nós todos. Em 150 empresas, somos todos uns grandes capitalistas, nós contribuintes. E a somatória do capital social dessas empresas é 13% do PIB nacional. Isso é assim só para arrancar. O Conselho de Finanças Públicas foi olhar para o final de 2023, para este universo, e concluiu o quê? 29 empresas não financeiras, estamos a falar sempre de empresas públicas do Estado, não financeiras, têm capitais próprios negativos. O que isso significa? Significa que estão em falência técnica, a maior parte delas continuadamente, ao longo de décadas, anos, em permanente falência técnica. O Conselho de Finanças Públicas regista também os atrasos na falta de informação. Apenas 75 dos 147 relatórios e contas, ou seja, metade, números redondos, foram aprovados pela tutela, o que evidencia, diz a entidade, que uma parte significativa não é aprovada de forma atempada. Estamos aqui a falar da prestação de contas das empresas do Estado, deste universo. Além de continuarem a demonstrar um desequilíbrio econômico permanente, o resultado líquido negativo acumulado foi, no ano passado, segurem-se todos, 790 milhões de euros. Foi quanto perderam totalmente as empresas públicas num só ano. Nós podemos arranjar aqui vários comparativos para estes 790 milhões de euros, até à luz daquilo que vai sendo discutido e gera muita polêmica no Orçamento de Estado. Agora, por exemplo, o aumento extra das pensões proposto pelo PS custa 270, 280 milhões. É uma gota d'água no universo daquilo que perdem as empresas públicas todos os anos. E depois há sempre o facto de todo este setor viver na sombra. Isto é, o Conselho de Finanças Públicas tem acesso, está preparado e tem meios para recolher esta informação. Mesmo assim, queixa-se ele próprio da falta de disponibilização e divulgação centralizada e oportuna desta informação relevante. Há atrasos constantes na prestação de informação sobre empresas do Estado, e isso é logo o primeiro passo para as coisas serem mal geridas. Por exemplo, não estão publicados os contratos de gestão entre as administrações das empresas públicas e o Estado. O contrato de gestão é basicamente o mandato, ou seja, vocês estão aqui e a vossa tarefa, os vossos objetivos e as balizas da vossa atuação são estes. E portanto, nunca se sabe muito bem o que é que os governos pedem aos conselheiros de administração, porque esses contratos, esses documentos não são publicados, basicamente.
Quando há um escândalo, sabe-se qualquer coisinha. Estou a pensar o caso das indústrias da defesa. Lembras quando até pôr tijolos no hospital estava ao abrigo do segredo de Estado.
Exatamente, pelo ministro. E portanto, estamos aqui a falar de uma zona absolutamente cinzenta, um verdadeiro buraco negro, um sorvedouro de dinheiro dos contribuintes, como nós vamos vendo. Agora, parece que também não há ninguém que queira pôr ordem nisto. A começar pela prestação de informação, transparência, porque a transparência vai obviamente revelar cada vez mais este tipo de problemas, de ineficiências, etc.
Precisamos de uma comunicação às 20h, não é?
Olha, uma comunicação às 20h para isto é que era bom.
Isso é que era.
Mas não temos comunicação às 20h, vamos tendo estes relatórios do Conselho de Finanças Públicas, dirigido por Nazaré Costa Cabral, que Deus os guarde durante muitos anos, pelo trabalho que eles vão fazendo e pela transparência, já que os governos não o fazem, as próprias empresas públicas vão vivendo nesta sombra muitas vezes. Há exceções, obviamente, não é tudo assim. Mas pelo menos que haja alguém no Estado, de forma independente, não a prevenir, mas pelo menos a fazer autópsia depois do acidente.
Sim, os alertas têm sido sucessivos e estão presentes e acessíveis a quem os quiser consultar. Portanto, depreendo que hoje haja mesmo um vencedor, embora nós não o dizemos.
Sim, pode ser o Conselho de Finanças Públicas. E um 16, porque bem precisamos destes trabalhos recorrentes que nos façam pensar um pouquinho.
Sai então um 16 para o Conselho de Finanças Públicas, no final deste "O Vencedor É", que regressa, como sempre, amanhã. Até lá.