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Começa agora mais um E o Pensou É da Rádio Observador. Já sabe que para além de nos ouvir na rádio, também nos pode ver, é só acompanhar-nos em direto através das nossas redes sociais ou do nosso site. E Carla, esta segunda-feira está também conosco a Sara Antunes de Oliveira. E a semana começa movida a eletricidade com o combate à corrupção e novos protocandidatos a Belém. E também, Sara, explica-nos com a relação de André Ventura com a verdade, o que se passa?
Uma relação um bocadinho difícil, acho eu. Porque encontrei um tweet de André Ventura que já tem três dias, vai para quatro, e continua lá, e esse é um dos meus pontos, que é um tweet em que André Ventura partilha um vídeo onde se veem muitas pessoas, muitas delas com um lenço, portanto, supõe-se, e supõe também André Ventura, que aquelas pessoas são muçulmanas, a subir a uma árvore de Natal, uma árvore de Natal muito enfeitada, presume-se também olhando para as imagens, que será num centro comercial, até porque tem uma loja de roupa muito conhecida à direita. Portanto, será num centro comercial. As pessoas estão a subir, a trepar por essa árvore de Natal gigantesca e estão a retirar coisas. E há muita gente cá embaixo, muita animação à volta. E esse vídeo tem escrito por cima "Islâmicos humilham cristãos". E André Ventura escreve: "É assim que esta imigração se quer integrar? Ou respeitam a nossa cultura ou podem regressar para o país de onde saíram". Dizendo que o que está a acontecer ali é que uma data de cidadãos muçulmanos estão a destruir uma árvore de Natal para humilhar cristãos. Não diz quando é que isto aconteceu, não diz onde é que isto aconteceu, que é uma coisa que dá muito jeito, mas diz o que é que está a acontecer. São os islâmicos a humilhar cristãos. O problema é que estas imagens, e já há essa nota posta pela comunidade embaixo do tweet de André Ventura, que não serviu de vergonha para André Ventura tirar o tweet, mas enfim, estas imagens aconteceram no Cairo, um país que será insuspeito de ser cristão, e retratam uma tradição, aparentemente, em que depois do Natal, em janeiro, isto aconteceu em janeiro de 2016, depois do Natal, as pessoas vão a estas árvores de Natal, que têm uns presentes escondidos, trepam pela árvore de Natal e retiram esses presentes. E portanto, aquilo que está a acontecer ali não é uma humilhação dos cristãos, que aliás são uma minoria no Egito. São pessoas a cumprir uma tradição num ambiente de festa, promovido, aliás, pelo próprio centro comercial. Por que eu sei isto? Sei isto porque esta publicação já se tornou viral várias vezes ao longo destes anos, desde 2016. Foi alvo de fact-checking por parte de sites de fact-checking e está lá a informação de que isto não é nada daquilo que as pessoas querem retratar. Sabemos que André Ventura tem uma relação muito próxima com o que é mentira e o que é verdade, está sempre a falar disso. Só para dar dois exemplos mais recentes, em setembro, André Ventura dizia que Montenegro tinha uma atitude permanente de mentira a propósito das negociações entre o PSD e o PS para o orçamento. E depois em outubro, dizia que o primeiro-ministro tinha mentido ao país e que podia provar que tinha sido oferecido um lugar no governo ao Chega, que eu saiba, essas provas nunca apareceram. Portanto, nós já sabemos que André Ventura vê mentira em todo lado, mas das duas, uma: ou acredita em tudo o que lhe aparece no Twitter, ou então quer que muitos acreditem nas mentiras que lhe dão mais jeito. E vai ter de escolher.
Posto isto, a tua nota vai obviamente para André Ventura e para o tweet que envelhece muito mal. Antes de ser colocado, já era velho.
Envelhece muito mal. E como é das duas uma, olha, um, dois.
Um, dois então.
Eu acho agora que é para o lado que ele dorme melhor.
Eu sei que sim, mas nós não podemos é desistir de dizer.
Claro, sem dúvida. O borrifador, ele se calhar, já sabe que aquilo é mentira, mas entre a publicação, os milhares que vão vendo aquilo, que formam a sua opinião com base numa informação errada e depois as denúncias, quer dizer, há sempre ganhos ali para a causa dele. Para quem não tem um código ético muito rigoroso.
Um outro vídeo muito recente de André Ventura no Twitter é com um gato, com uma cena do Padrinho, nem percebi muito bem de onde apareceu.
Mas o gato existe?
O gato existe, o gato está lá. Mas é o gato, não sei se em casa dele, e há uma figura, eu presumo que seja da Virgem Maria, que está em cima dessa mesa. E, portanto, o catolicismo e o cristianismo de André Ventura ali muito vincado. E a mentira é pecado. Portanto, André Ventura, eu fico sempre, confesso, muito surpreendida, muitíssimo surpreendida e mais do que surpreendida, muito triste com o apoio que André Ventura tem junto de alguns setores católicos e junto de alguns setores evangélicos protestantes, muito conservadores, que preferem olhar para coisas de André Ventura, para umas e não para outras. Mas a Bíblia não nos deixou escolher. Nós não podemos escolher aquilo que podemos fazer e aquilo que não podemos fazer. Quer dizer, podemos, mas isso tem consequências. E André Ventura, este cristão que bate no peito para dizer que Deus lhe disse que ele ia liderar Portugal, é a pessoa que não se importa de violar consistentemente um dos mandamentos, que é não mentirás.
Mas se estivesse preocupado com o bem-estar dos cristãos em todo o mundo, poderia até partilhar notícias que são verdadeiras sobre a perseguição a minorias cristãs. Aliás, isso tem sido relatado, tem sido alvo de relatórios internacionais. Só que isso provavelmente não tem o mesmo impacto que pessoas a trepar uma árvore de Natal.
E não interessa. E depois ele diz: "É assim que esta imigração se quer integrar? Ou respeitam a nossa cultura ou podem regressar para o país de onde saíram". Ora, isto aconteceu no Cairo
Integrados já estão, o país é deles, vão pra onde? O país onde saíram, não saíram, estão lá.
É um dois. É assim. Tudo isto é um dois. Um tema muito caro de todos os partidos é a questão da corrupção. Paulo, hoje a Ministra da Justiça escreve um artigo no Observador com algumas ideias e algumas medidas para combater o fenômeno.
É verdade, e parece que este é daqueles temas em que governo que é governo e Ministro da Justiça, ou neste caso, Ministra da Justiça que é Ministra da Justiça, tem que fazer declarações sobre o combate à corrupção, como é evidente, e tem que dizer que é uma prioridade e avançar três ou quatro ideias sobre isso. A corrupção é daqueles fenômenos em que não se consegue medir com exatidão, como é evidente, porque é, à partida, um fenômeno ilegal e como todas as atividades ilegais não entregam declarações do IRS e não se consegue medir aquilo ao cêntimo. E nós não temos muita percepção se a corrupção, aquela que acontece, está a aumentar, se está a diminuir. Depois, a corrupção tem outro problema, que é: quanto mais se combate eficazmente, isto é, quanto mais se descobrem indícios, se investigam e se eventualmente levam ao tribunal e condenam pessoas por crimes de corrupção, mais se tem uma noção de que o fenômeno está a aumentar e provavelmente até nem está a aumentar, pode estar a diminuir ou pelo menos a ser combatido com mais eficácia. Há aqui estas duas questões que nos levam às vezes a ter percepções erradas sobre a corrupção. Eu acho que ninguém consegue perceber se nos últimos anos ela aumentou, se diminuiu, se mudou de perfil. E há uma questão aqui fundamental para isto, das medidas preventivas, que é a transparência. Quanto mais transparente for o Estado e os negócios que o Estado faz, maior será a probabilidade de evitar a corrupção. Por isso a ministra faz bem em avançar com a regulamentação do lobby, que é daqueles temas tão falados há tantas décadas, mas que até agora ninguém avançou. Está nas prioridades do governo e da bancada da AD. Penso que o PS também está de acordo, pelo menos com o princípio, e vamos ver se se entendem depois em relação aos detalhes da regulamentação.
No princípio estão sempre todos de acordo.
Depois se chega aos detalhes e a coisa não avança. Mas a regulamentação do lobby, de facto, é essencial para se perceber quem é que fala com quem, em que circunstâncias, porque o que nós vamos vendo, caso após caso, é a absoluta informalidade com que os governantes, os dirigentes políticos, seja quem for, vão falando, vão tendo reuniões. O caso das gêmeas, por exemplo, que não tem nada a ver com corrupção, atenção, percebe-se que ninguém tem notas de e-mails, nem de registos de reuniões, nem nada disso, coisa que é obrigatória noutros países. Depois, o Portal Base é antigo, isto é, já tem uns bons anos e que também é uma boa experiência, embora com limitações, mas é a forma de muitos casos que vêm a público também, sobretudo pelas redações, têm por base, passo aqui a redundância da palavra, o Portal Base, isto é, são os dados dos contratos que são feitos pela administração pública. Agora há aqui uma pergunta a fazer em relação à Base: o que acontece às entidades e aos gestores públicos que não colocam ali os contratos que são obrigados a colocar? Possivelmente não acontece nada. Provavelmente devia acontecer, como é evidente, senão é um incentivo para a falta de transparência. Depois, nós temos também, se quiserem, como exemplo ao contrário, a Entidade da Transparência, recém-criada depois de uma saga de cinco anos, que é suposto receber e tornar públicas as declarações de rendimentos e de patrimônio dos gestores públicos e detentores de cargos públicos, mas que funciona com aquela falta de transparência típica de quem acha que a informação é deles e, portanto, é preciso, mesmo para as redações, para os jornalistas, é preciso justificações para consultar este e aquele. Aqui está uma coisa a rever. Há aqui boas intenções da ministra, depende da forma como isto depois há mudanças nos mecanismos e nos regulamentos. Agora, é importante é depois fazer coisas que sejam mais cirúrgicas e que promovam mais a transparência, porque a ideia que dá, e eu acho que a ministra faz bem em estar ciente disso. A ministra começa o artigo a citar um diálogo de um filme, filme siriano de 2005, com George Clooney e Matt Damon, sobre corrupção nos negócios do Médio Oriente, em que há um dos protagonistas que diz: "Temos leis contra a corrupção precisamente para que possamos escapar impunes". Muitas vezes há a ideia de isso, porque as regras e as leis em Portugal em algumas matérias são feitas precisamente para proteger aqueles que as violam de alguma maneira.
As famosas vírgulas. Paulo, a tua nota.
Exatamente. Dou um 12, há aqui boas ideias. Agora vamos ver como é que tudo isto é concretizado, sobretudo como é que é medido no final.
Sim, um 12 para a Ministra da Justiça. José Manuel, queres trazer aqui a questão da rede de carregadores para carros elétricos? Em Portugal parece que está a correr bem.
Mas não está.
Então.
Queria dizer. Há, de facto, um artigo no Público hoje, daqueles artigos que parece que está tudo a correr bem, que temos comédias melhores que a Europa. Só que é falso, não é bem isso que se está a passar, porque Portugal começou, em alguns aspectos, antes de outros países, criou uma empresa pública chamada Mobi.E, mas essa empresa pública transformou-se num empecilho, como é tradicional em Portugal. Só para te dar um exemplo, atualmente nós temos, basta andar pelas ruas, um parque de Teslas muito significativo, é a marca de automóveis elétricos que mais vende em Portugal, de longe, relativamente às outras. A Tesla tem um sistema de carregamentos super-rápidos, e toda a gente sabe que uma das grandes limitações à aquisição de um carro elétrico é o tempo de recarregar as baterias. Como é da Tesla e como não é da Mobi-E, desde 2021 que, a princípio, um dos anteriores governos arranjou algumas exceções para a Tesla conseguir instalar, apesar de tudo, alguns desses parques. Depois houve alguns que estavam já construídos, não sei ainda sequer se já foram abertos, não consegui tratar a limpo se já foram abertos alguns que já deviam estar abertos. E entre licenças camarárias, problemas de regulamentação a mais e, por fim, tem que se estar inscrito na Mobi-E, que é uma espécie de monopólio público, mas que no fundo, na prática, complica. A Mobi-E tem aquela conversa que é: nós queremos que todos cumpram a lei. Qual é a diferença? A diferença é que nestes supercarregadores é possível carregar um automóvel elétrico em 20 minutos, enquanto nos carregadores rápidos normais, estou a falar 20 minutos até a carga razoável. A última percentagem de carga leva sempre mais tempo.
Em comparação com? Sim.
Em comparação com, às vezes, pelo menos duas a três vezes mais tempo nos carregadores rápidos, nos chamados carregadores rápidos, e perante, às vezes, uma noite ou um dia inteiro, se for num carregador dos primeiros que a Mobi-E instalou em Portugal.
Aqueles que não têm um cabo sequer. É preciso o cabo.
Não, e esses, há imensos desses que não têm cabo. E depois acham que ter imensos desses é suficiente. Mais ainda, a notícia é: nós temos um terço da rede são carregadores rápidos. Acontece que esse não é um terço da rede, é um sexto, porque a maior parte dos carregadores rápidos têm duas tomadas. Só que uma tomada é para um modelo japonês de carregador que em Portugal praticamente não existe e que na Europa já não se instala. Há nisso problemas estruturais. Para instalar mais carregadores é preciso, e as estimativas são de uma entrevista que Nuno Ribeiro da Silva deu este fim de semana ao Expresso, é que é necessário um investimento na infraestrutura de 300 a 400 milhões de euros por ano. E isto até pode encarecer o preço da eletricidade nas nossas casas para garantir que conseguimos abastecer os nossos carros. Mas esse é um custo da transição, se se quer fazer a transição. Agora, dizer que está tudo bem quando não está, porque falta infraestrutura e não falta nem só burocracia, com poderes dominantes, como é o caso da Mobi-E, é deitar areia para os olhos. E sobretudo, para esta maneira portuguesa de achar que tudo tem que passar por uma empresa pública e tudo tem que passar por regulamentos que na prática bloqueiam os que são mais inovadores, e todos sabemos que a Tesla é mais inovadora do que as outras marcas, é uma forma de bloquear o progresso, bloquear a inovação, bloquear uma transformação que sem dinheiro público, atenção, a Tesla não está a pedir dinheiro a ninguém, sem dinheiro público poderia estar a andar mais depressa. Para este sistema português de arrastar os pés, fingindo que se é muito moderno, vai um sete, com a esperança que isto mude rapidamente, que este governo, apesar de tudo, talvez uns toques na lei permitam tornar isto mais fácil.
Um sete aqui adequado às temperaturas mínimas que se esperam para esta semana. Está assim friozinho. Bruno, entretanto-
Casaquinhos.
Casaquinhos. Entretanto, Paulo Portas estará a pensar se é ou não candidato à presidência.
Sim, vem também no artigo do Público. Mas eu até queria olhar para essa possível candidatura do ponto de vista do CDS. O CDS está condenado a fazer sempre prova de vida, porque desde que saiu da Assembleia da República e voltou acoplado ao PSD, tem que fazer prova de vida sempre em todas as eleições. As autárquicas vão ser muito importantes, mas as presidenciais também. Se o CDS apoiar, por exemplo, o almirante Gouveia e Melo, pode arranjar um embaraço na coligação, na AD, mas também pode afirmar a sua autonomia, porque o PSD é que se precipitou, de certa forma, ao definir-
A definir o militante do PSD como-
E aí é verdade que também limita um pouco o CDS, mas ao mesmo tempo abre aqui alguma margem para a criatividade do partido. O almirante é uma hipótese, Paulo Portas será outra, mas o CDS também não pode ficar aqui indeterminadamente à espera de um ou de outro, tem de ter a sua própria agenda. Todos dizem que as candidaturas são individuais, são pessoais e depois os partidos apoiam ou não. Mas o CDS sabe bem que as coisas não funcionam exatamente assim, e pode ter aqui a possibilidade de apostar no cavalo vencedor, se se antecipar aos outros. Já percebemos também que Gouveia e Melo não estará muito recetivo ao apoio do Chega. O Chega também parece que tem agora dúvidas sobre o eventual apoio ao almirante e o CDS pode ter aqui uma boa oportunidade, por um lado, para apostar antecipadamente numa candidatura forte ou então também para conquistar a sua autonomia estratégica, apoiando um candidato que não o candidato apoiado pelo PSD. Portanto, há aqui uma boa oportunidade para o CDS. Vamos ver se consegue aproveitá-la.
E como é que fica a coligação.
E como é que fica a coligação. Mas aqui é importante para o CDS, porque o PSD ao fazer isto, ao determinar aquele perfil, também de alguma forma subalternizou e condicionou o CDS. E o CDS tem de aproveitar todos os momentos para tentar afirmar-se nestas condições. Tem aqui uma boa oportunidade, se aproveita ou não, se é capaz de aproveitar ou não, vamos ver. Mas para já, pela oportunidade que tem aqui, vou dar um 12.
Um 12 para o CDS e a estratégia para as presidenciais. Voltamos amanhã. Até lá.