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E o ouvinte das manhãs 360 já sabe que para além de nos ouvir na rádio, também nos pode ver. É só acompanhar-nos em direto através das nossas redes sociais ou pelo site do Observador. Carla, esta terça-feira está conosco a Helena Matos.
Faltam médicos, não faltam nãos para a nova SDE e houve quem criticasse a falta de informação do governo sobre a utilização da base das Lajes. Bruno, já está tudo sanado?
Está, mais ou menos, mas creio que houve uma falha por parte do governo português de não esclarecer imediatamente as condições de utilização da base, se tinha havido ou não um pedido de autorização.
Se havia ou não necessidade, porque primeiro Paulo Rangel disse que não era necessário.
Pois, e parece que é nestas circunstâncias, porque são circunstâncias diferentes do acordo para o uso normal da Base das Lajes. Estamos a falar aqui entra na questão do acordo bilateral com os Estados Unidos e poderia ter sido esclarecido, mas parece-me que houve da parte do governo algum embaraço, porque o pedido de autorização não terá sido assim tão atempado quanto isso, e deixou o ministro dos Negócios Estrangeiros e o governo português numa situação de embaraço. Depois, há outra questão mais ampla, a ser de saber se Portugal devia ou não ter autorizado. Parece que autorizou já depois dos ataques. Quando deu a autorização, o ataque já tinha sido realizado. Paulo Rangel disse que não partiram da Base das Lajes aviões para atacar diretamente o Irã, mas seja como for, a questão aqui mais ampla, e que eu acho que deve ser discutida, é se Portugal deve ou não autorizar este tipo de utilização, mesmo com o pedido de autorização dos Estados Unidos. Eu acho que deve. Acho que é uma das responsabilidades de Portugal, independentemente de estarmos a falar de Trump, porque a Base das Lajes e as intervenções dos Estados Unidos, não com esta magnitude, são normais, com outros presidentes e presidentes democratas, com Barack Obama, com Joe Biden. Essas intervenções e o papel de polícia dos Estados Unidos, isso é o habitual. Nós não podemos ignorar que é isso que existe, que é essa a função dos Estados Unidos. Não podemos ser ingênuos quanto à utilização que os Estados Unidos fazem da base. Ou então podemos optar simplesmente por acabar com o acordo. É uma possibilidade.
É isso, mas vamos lá ver. Qual é o interesse dos Estados Unidos em manter uma base nas Lajes, se não for no limite para este tipo de circunstâncias?
Porque fica a meio caminho.
Não quando não há conflitos. Aqui há uma gestão corrente que mantém a base preparada para quando há conflito.
Naquele período em que se achou que podia não haver conflito, o que preocupava Portugal, nomeadamente a esquerda portuguesa andava preocupadíssima com a possibilidade dos Estados Unidos saírem da Base das Lajes. Chegou a equacionar-se, e António Costa fez isso. Eu acho que pode ter feito para fazer mais bluff e pressionar os Estados Unidos, dizendo que a China estava muito interessada na Base das Lajes e que, pelo menos, se podia instalar nas Lajes, numa parte da base, uma unidade chinesa que, segundo declarou António Costa, se podia dedicar ao estudo das águas profundas e das alterações climáticas. Um mundo em que as Lajes estejam sob controle chinês, mesmo para estudo das águas profundas e das alterações climáticas, ou sobretudo para estudo das águas profundas, parece-me ser um mundo que não é bem o nosso. E eu, por razões daquilo que escrevi este fim de semana, estive a ver o acordo técnico, o que regula aquilo que os americanos têm de informar Portugal. Efetivamente, há um ponto quatro, no artigo um do acordo técnico, em que aquilo que lá está é comunicação.
Autorização prévia.
E depois tem que se discutir a questão da autorização. Mas vamos ter a noçãozinha. Os Estados Unidos, vocês estão a ver o nosso tamanho, a nossa relevância internacional. A ideia de que nós vamos sancionar a política externa dos Estados Unidos parece-me absolutamente improvável. Eu sei que a megalomania é uma coisa que acontece, mas temos de perceber o que é que se passa. Para Portugal é vital a relação atlântica. Nós, no sítio onde estamos, não nos sobra mais nada.
Claro, mas isso tem que ser assumido com clareza.
Claro, com clareza.
Eu acho que esse é o ponto.
Exatamente.
É andarmos aqui às vezes com... Sim, assumir de uma forma clara qual é que é a nossa posição em relação aos Estados Unidos.
E que as administrações passam, mas as Lajes ficam.
Ficam, e a relação com os Estados Unidos fica, e Portugal, de facto, isto é realpolitik.
Claro.
Nós não estamos em condições de impedir isso. Não estamos.
Aliás, só têm saído das Lajes aviões para reabastecimento. Tanto quanto se sabe até agora. Aconteceram coisas nas Lajes muito mais complicadas, quer dizer, o xá da Pérsia, o pai daquele que agora se pode tornar ou pode voltar ao Irã, não se sabe. Ele quer, mas não se sabe se voltará numa posição de mediar uma transição. A verdade é que a administração Carter teve o xá da Pérsia parado na Base das Lajes porque estava a negociar
Com os aiatolas, nomeadamente no tempo do Khomeini, se entregavam o Xá da Pérsia, com o aviãozinho parado na base das Lajes, alegadamente numa escala técnica, em troca dos reféns norte-americanos. E nós alguma vez íamos sancionar a entrega do Xá da Pérsia?
A dada altura, parece que estou a ouvir e a ler críticas que lembram a intervenção americana no Iraque em 2004.
E a Cimeira dos Açores.
E a Cimeira dos Açores. E parece que estamos aqui a discutir que as administrações norte-americanas escolheram o momento em que Portugal tinha governos de direita para lançar este ataque. Parece que estamos a inverter as coisas. É a pulga em cima do elefante.
É não ter a noção.
Agora, dá-se o exemplo de Espanha, que proibiu a utilização das bases. O próprio Paulo Rangel chamou a atenção para a diferença estruturante da relação que existe entre Portugal, os Estados Unidos e a Espanha.
Que é outra opção.
Que é outra opção e que está a ser defendida, e que em Espanha tem-se apontado esta decisão de Trump, não só em Espanha, mas como uma tentativa não só de desviar atenções para o caso Epstein, mas também por causa das eleições intercalares que vão haver nos Estados Unidos. Ora, eu também vejo a posição de Pedro Sánchez como claramente algo mais relacionado com a política interna espanhola.
E é preciso dizer que Portugal é um país fundador da NATO.
Da NATO, ao contrário de Espanha.
A Espanha entrou tarde e a más horas. E é preciso também não partir para estas coisas do governo espanhol com a candura do costume. A Espanha é um grande vendedor de armamento. Sim, não quer gastar na defesa, nestes tais 5%, mas é um grande vendedor de armamento. Entrou em transe porque não queria comprar armamento a Israel, depois descobriu-se que estava a comprar armamento a Israel. E em relação à NATO, é o óbvio que nós não estamos ao nível da Espanha, estamos acima. É preciso sermos muito claros. Na relação com os Estados Unidos, a nossa relação com a NATO é diferente.
E a Espanha entrou muito mais tardiamente. Isabel, nestas matérias e questões diplomáticas de alianças, eu acho que devem ser das coisas mais estáveis que os estados devem preservar. Isto é, cada vez que muda o governo, de direita para esquerda, ou a administração americana, nós revermos posição.
Sim, a nossa relação é com os Estados Unidos, não é com os democratas nem com os republicanos.
A revisão de posições. Agora é o Trump e então a utilização das Lajes já devia ser diferente. Ou o Sánchez agora, que é um governo de esquerda, está em Espanha, também a política externa de Espanha já muda, depois amanhã volta o PP ao governo. Isso não pode ser assim, tem que haver uma estabilidade e só motivos de força muito grande é que devem levar os países a rever este tipo de alianças.
Os espanhóis continuem em frente, têm um belo caminho. Agora nós, que somos um país pequeno e ultraperiférico, temos ter a noção do que é que nos deu garantia. A política externa portuguesa é constante. Temos a monarquia, temos a República, temos o Estado Novo, temos o pós 25 de Abril e a política externa portuguesa tem sido sempre uma constante, que é ter a noção que temos um vizinho muito grande, precisamos de estar em organizações internacionais para termos segurança e a nossa relação atlântica, Estados Unidos, Brasil, é fundamental.
E preservar essa relação com os Estados Unidos, até para depois poder ser mais exigente quando, no caso da administração Trump, tenta deixar de representar o papel que sempre representou no apoio e na proteção da Europa. Eu acho que esse é um trunfo que Portugal tem se mantiver esta política, mas eu acho que deveria ter havido da parte do governo, mais clareza inicialmente.
As administrações norte-americanas, democratas e republicanas, parecem às vezes completamente parvas, tudo isso já se sabe, mas têm memória. E em geral, não esquecem quem é que esteve e quem é que não esteve.
E quem não esteve. Helena, a tua nota, então, vamos avançar para o outro tema? Vais dar nota a quê?
Para as Lajes, que tendo ou não tendo estado no plano Marshall, apesar do que Salazar fez correr, recebemos ajuda significativa. Para as Lajes, que não são um parque de estacionamento de aviões para os americanos, eu dou um 20, porque nós sem as Lajes teríamos mesmo um outro peso um bocadinho mais abaixo daquele que já temos.
E tu?
Eu vou dar à falta de clareza do governo num primeiro momento, acho que era necessário essa clareza e clarificar a posição. Aí dou uma nota mais elevada ao governo de Pedro Sánchez, porque concordando-se ou não, é muito claro na sua posição e Portugal e o Ministério dos Negócios Estrangeiros não foi tão claro, vou dar um oito.
Um oito então, para essa falta de clareza. Mudamos de assunto, o Paulo devo dizer-te agora and the winner is?
And the winner is ou and the loser is. Vamos à polêmica da Nova e do inglês. E a propósito uma entrevista que o reitor da Nova, que é o grande protagonista desta polêmica, Paulo Pereira, dá hoje ao Eco. A polêmica dura aí há várias semanas, atenção. Já por uma vez ou outra tive para falar dela aqui, mas por uma razão ou por outra também, porque se meteram outros assuntos à frente, acabei por não falar. Resumindo, Paulo Pereira é reitor da Universidade Nova desde outubro. A Universidade Nova tem várias faculdades, há várias escolas, tem faculdade de Direito, de Ciências Médicas, de Economia, de Ciência e Tecnologia, e por aí fora, que têm a sua autonomia, e algumas destas faculdades, escolas, ao longo dos últimos anos, desenvolveram estratégias de internacionalização, porque o ensino superior e sobretudo O pós-ensino superior, os mestrados, as formações, sobretudo em algumas áreas da gestão e da economia, são mercados verdadeiramente internacionais, desenvolveram estratégias de marca e de posicionamento de internacionalização. Isso levou-os a adotar designações em inglês. A Faculdade de Economia é conhecida como Nova SBE, o SBE é School of Business and Economics, portanto, Escola de Negócios e Economia, mas o Nova está lá sempre. E o Nova não é traduzido. Reparem, o Instituto Superior de Estatísticas e Gestão de Informação, vocês colocariam um filho ou um neto no Instituto Superior de Estatísticas e Gestão de Informação, é o nome oficial da Nova IMS. IMS é Information Management School. Mesmo a expressão Information Management já é uma coisa muito datada nos anos 80. Já ninguém diz gestão de informação numa empresa. Hoje diz-se ciência de dados. Portanto, a Nova IMS hoje em dia é uma data school, se quisermos. Para as gerações atuais entenderem, é uma data school, e eles ficam logo a perceber de que é que se trata. A Faculdade de Direito é Nova School of Law, a Faculdade de Ciências Médicas é a Nova Medical School e por aí fora. Estas escolas, sobretudo a Nova SBE e a Nova IMS, investiram muito dinheiro, muitos milhões na construção da marca, a atrair professores de fora para darem aulas, a atrair alunos de fora, tanto que no caso da Nova SBE, para lá de metade das frequências do mestrado, já são pessoas que vêm de fora, sobretudo da Alemanha. Na Nova IMS também há uma porcentagem muito grande de pessoas que vêm de fora, porque também é uma das mais conceituadas na sua área em termos europeus. Chegou o novo reitor em outubro e no dia 30 de janeiro, Paulo Pereira fez um despacho, ele como reitor da Nova, portanto, no fundo, a holding disso tudo, invocando o artigo décimo do regime jurídico das instituições de ensino superior, que impõe que as escolas têm que ter a sua identificação inequívoca em língua inglesa e a dar um prazo de 90 dias a estas escolas todas para mudarem as suas designações oficiais em Portugal para a língua portuguesa. Portanto, ele diz que a denominação oficial de cada unidade orgânica da universidade, as escolas, devem ser sempre utilizadas em língua portuguesa em documentos, plataformas digitais, suportes físicos, atos e procedimentos administrativos. E portanto, nós tínhamos a Nova IMS, compreendo isto, a ser internacionalmente o Instituto Superior de Estatísticas e Gestão da Informação. Eu gostava de saber quem é que vinha para cá.
Isso é fácil dizer.
É muito fácil dizer, e eu gostava de saber quem é que vinha para cá estudar ou dar aulas. A polêmica está aí, muitas críticas a esta decisão de Paulo Pereira, que invoca a lei a seu favor. E de fato, a lei é inequívoca nisto. Ele invoca o artigo décimo desta lei, mas há um problema, esta lei é de 2007. 2007 foi o ano em que apareceu o primeiro iPhone, o Facebook se tornou global, em que nasceu o Twitter. 2007. Parece que foi há pouco tempo, mas não, já foi há 20 anos, praticamente. E em que a Netflix lançou o streaming. Ou seja, esta lei de 2007 é uma coisa das cavernas para hoje em dia, que é para a comunicação dessas instituições.
Está a ver, os espanhóis também chamam pica-pedras aos Flintstones.
Exatamente. E pedras rolantes.
Aos Rolling Stones.
Aos Rolling Stones.
É tudo traduzido em espanhol.
Paulo Pereira dá uma entrevista hoje ao "Eco". E eu fico a pensar que as boas intenções dele podem ser inequívocas de cumprir a lei, mas ele está defasado do tempo. Quando ele diz que quando as faculdades estiverem a falar para dentro do país, a designação deve ser em português. E ele até diz no despacho dele, diz ele que quando a comunicação é feita para fora do país, pode ser usada apenas na língua inglesa. Desculpem, e nas plataformas eletrônicas? É comunicação para onde? Quando o site de uma universidade é comunicação para quê? Para Portugal, para Espanha, para os Estados Unidos, para a Conchinchina. Isto é surreal. Seguramente que é uma pessoa muito competente, pode dar em outras áreas um bom reitor, ele vem de ciências médicas, mas é uma pessoa que claramente não pensa no mundo em que estamos. O que é comunicar para Portugal hoje em dia, uma escola? E portanto, eu gostava de saber, antes de mais, que ele aprimorasse esse conceito, se o site deve estar em português ou inglês, provavelmente está nas duas. Por default, o que é que deve aparecer no site da Nova SBE, na Nova IMS, e por aí fora. Eu acho que as leis devem ser cumpridas, mas quando uma lei é tão aberrante e ultrapassada como esta, o melhor que Paulo Pereira, querendo sanar esta divergência entre aquilo que a lei diz e aquilo que a prática de algumas escolas devia ter feito, era pedir ao governo e ao Parlamento para mudarem a lei e deixarem cair aquele artigo que está claramente em desuso. E ou queremos um ensino superior competitivo internacionalmente. No ensino superior, aquilo que estas escolas fizeram foi o melhor que se fez em décadas em Portugal, isso que não haja a mínima dúvida. Entrar em rankings internacionais com os melhores da Europa e muitas vezes do mundo. E quando há uma coisa que corre bem, isto é muito português, que é: vamos arranjar uma maneira aqui de pôr estes senhores a cumprir uma lei de 1900 e troca o passo, medieval, e marimbando-se basicamente para aquilo que é uma base importante da sua comunicação. Diz Paulo Pereira nesta entrevista: "Eu estou convencido que não prejudica, porque muitas escolas são mais facilmente reconhecíveis internacionalmente pela sua sigla". Mas está convencido, mas ele agora obriga as escolas a fazer uma mudança destas, onde se investiu milhões, porque está convencido que isto não tem impacto. Então e se vier a ter impacto? E depois de se mudar tudo aquilo que são papéis, sites, tudo que é elétrons, é surreal.
Isto merece uma nota.
Uma negativa, já que o reitor da Nova prefere cumprir a lei, então o Parlamento ou o Ministro da Educação, o governo, que mudem a lei antes de deixar este disparate ser feito e ter impacto.
Mas dá notas em letras, está bem? Um F.
Vai um F, porque o F é para aí o quê? Um seis ou um cinco, talvez.
É, deve ser.
Ou mais baixo ainda.
Ou o mais baixo. Pode ser o mais baixo.
Sim, por muito boas que sejam as intenções, lamento, mas estamos em 2026 e não no início do século.
E por isso uma nota negativa.
Pode ser um seis.
Um seis. Faltou falarmos dos médicos, mas Bruno, se calhar temos tempo.
Não vai mudar.
Não vai mudar até à próxima oportunidade e o vencedor regressa mais logo na tarde política.
Numa versão alargada que começa a seguir ao jornal das 18h. Esta terça-feira dou notas a Judite de França, à Raquel Cassis e o Alexandre Borges. Depois, há ideias feitas com Alberto Gonçalves e logo a seguir ao jornal das 19h, não perca o segundo de cinco episódios de A História do Irã, com o Bruno Cardoso Reis e o João Miguel Santos.