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E o vencedor é na Rádio Observador. À Judite França juntam-se hoje a Raquel Abecasis e o Alexandre Borges. Bem-vindos.
Olá.
Raquel, hoje tivemos o regresso dos debates quinzenais depois das férias e claramente quem teve a sorte de poder assistir a mais de duas horas de debate no Parlamento esta tarde.
É o nosso caso.
Exatamente, tivemos essa grande sorte. Claramente, o maior embate foi entre Luís Montenegro e André Ventura, remetendo o PS para um lugar a que estamos pouco habituados. Quase que foi um ator secundário José Luís Carneiro neste debate.
É, estamos pouco habituados, porque este ainda é só o segundo debate quinzenal desde que houve as últimas eleições. Mas vai passar a ser a tradição, vai passar a ser o hábito nestes debates quinzenais e não só, nos principais debates que tiverem lugar no Parlamento, entre outras coisas porque André Ventura será sempre o primeiro a intervir neste tipo de debates e toma logo um papel principal, e depois o seu estilo e a sua agenda não deixam que essa vantagem fique em campo incerto e eu diria que é um tom de debate a que nos vamos habituar nos próximos tempos, assim esta legislatura dure mais do que alguns meses, porque infelizmente também nos últimos tempos o que nos temos habituado é a legislaturas tão curtinhas.
A convicção é que pelo menos mais um aninho aguenta.
Mas também não é por acaso que o primeiro-ministro escolheu como um dos tópicos principais para trazer no seu discurso logo na abertura a questão do orçamento. Mas já lá vamos. André Ventura, de facto, tomou aqui a dianteira e foi o mais contundente, sobretudo trazendo a questão das alterações feitas à lei de imigração, para as quais ele não foi consultado. Isso marcou logo o tom do debate, deixando para segundo plano aquelas medidas que Luís Montenegro trazia na manga e que trazia para anunciar neste debate. Eu diria que, para irmos só ainda primeiro ao frente a frente entre André Ventura e Luís Montenegro, que apesar de tudo, parece-me que o primeiro-ministro marcou um ponto com a questão do respeito pelas regras democráticas e com aquela estocada final de dizer ao líder do Chega, que agora também é candidato presidencial, que Marcelo Rebelo de Sousa tem mais legitimidade democrática e teve sempre mais votos do que André Ventura teve até aqui. Vamos ver durante quanto mais tempo, mas efetivamente assim é. Mas explicando de uma forma que me parece muito clara aos portugueses que ouvem agora os extratos do debate, que não havia outra alternativa senão alterar a lei tal como ela foi apresentada, para que ela possa estar em conformidade com aquilo que o Tribunal Constitucional e o Presidente da República disseram, porque caso contrário, se a lei não fosse alterada, ela não passaria. E finalmente, deixando claro que quem obstaculizar a lei, que é uma possibilidade neste momento, André Ventura trouxe esta questão para já, só disse que não tinha sido consultado e que o governo tinha sido arrogante em alterar a lei sem o consultar.
Quase a deixar assim um sinal: "Tu vais ver ainda o que é que vai acontecer."
Exatamente, mas eu acho que Luís Montenegro atalhou bem o caminho, explicando que votar contra é deixar tudo na mesma e atrasar tudo, porque não há possibilidade de a lei passar. Eu acho que ele marcou pontos. Depois, muito rapidamente também para passarmos aos restantes. Em relação ao frente a frente com José Luís Carneiro, que tem, tal como o seu antecessor, uma posição ainda mais difícil do que a que tinha Pedro Nuno Santos, porque não só perdeu as eleições e ainda é herdeiro dos longos anos de governação socialista, mas passou para terceiro lugar e isso coloca-o ainda em mais desvantagem. Eu acho que aquilo que se passou foi já um pré-debate autárquico e Luís Montenegro esteve muito mais assertivo e agressivo com o líder do Partido Socialista, com quem tem tentado marcar um tom mais cordial, exatamente porque vêm aí as eleições autárquicas e o grande adversário é de facto o Partido Socialista, não convém neste momento fazer cerimónias. Luís Montenegro acabou quase por se assemelhar aos tempos em que António Costa, dirigindo-se ao líder do Partido Social-Democrata, na altura Rui Rio, o remetia para segundo plano, comparativamente com o líder do Chega.
Alexandre Borges, que leitura fazes do debate desta tarde? Marca o tom para os próximos tempos, definitivamente? Achas que é uma das conclusões que podemos retirar desta tarde?
Acho que marca pelo menos para os próximos três, quatro meses. Não só porque é impossível prever, e se caso eu estou a ser otimista. Espera lá, vamos lá ver onde é que estamos em janeiro.
Cuidado.
Exato, é verdade. Mas arriscando assim muito.
A Janete está nas eleições presidenciais.
Era isso que eu queria dizer.
Viver no limite.
Vamos lá.
Exatamente, era isso que eu queria dizer. O que eu acho é que se Ventura teve uns primeiros meses a passar alguma imagem de moderação enquanto líder da oposição e agora para ir conquistar terreno aos moderados, tem parecido nos últimos dias e neste debate quinzenal, neste primeiro pós-férias em particular, muito agressivo, isto é, com a mesma agressividade com que veio desde as últimas semanas, que não era a que tinha antes do verão Porque acho que está em campanha para as presidenciais. Portanto, monotemático, mais do que antes, é imigração. Vai bater nisto a propósito de todo o assunto e mais algum, como fez hoje quando falou da saúde, quando falou da educação. Ou melhor, acho que ele nem sequer conseguiu estabelecer um elo entre a educação e a imigração, por isso saltou simplesmente de uma frase pra outra, mudou de assunto e depois recostou à imigração. Mas no caso da saúde, ligou-os explicitamente. Ligou os nascimentos em ambulâncias com o facto, segundo ele, de os serviços estarem sobrecarregados com imigrantes. Portanto, vai tentar, parece-me, fazer isto alegremente e todas as vezes que puder até às presidenciais. Se calhar mais do que o tema da corrupção, porque já deve ter percebido que lhe granjeia mais reação imediata. Portanto, não sei bem se vai marcar o tom pra depois de janeiro. Acho que seguramente até janeiro estaremos nisto. Não sei se queres que eu desenvolva.
Não, já volto a ti. Deixa-me ouvir também a Josefa.
Força. Queres falar sobre o debate?
Primeiro, vamos a uma análise geral sobre o debate.
Eu concordo com os meus colegas de painel, mas fiquei muito surpreendida com aquilo que o primeiro-ministro trouxe sobre habitação, que vai amanhã a Conselho de Ministros, porque confesso que parece uma primeira tentativa de encontrar aquilo que se chama renda moderada ou preço acessível, que nós não sabemos ainda qual é. Foi falado que haverá um valor que é considerado uma renda moderada, que ainda não sabemos qual é e que vai haver um cálculo pra determinar, imagino.
Mas sendo a reunião do Conselho de Ministros amanhã, não era suposto o primeiro-ministro apresentar algo de mais concreto?
Acho que não, acho que a ideia é mesmo guardar pra amanhã como surpresa pra amanhã.
O que é uma renda moderada, não é?
Não sei. E estou muito interessada em saber, porque se objetivamente os senhorios tiverem uma redução de 25% para 10% de IRS, eu acredito que haja muito senhorio com vontade de aderir a esta-
De cobrarem uma renda moderada.
De cobrarem uma renda moderada. E, portanto, isso pode, de facto, fazer com que o mercado tenha aqui uma tentativa mínima de queda, o que seria já absolutamente espetacular, tendo em conta os tempos que temos vivido. E, portanto, fiquei surpreendida com esta medida. Não estava a contar que o governo trouxesse neste momento nada pra habitação, mas enfim, não estava a contar porque não tinha passado nisso. Mas acho que pode ser uma boa ideia essa e o investimento das mais-valias.
Também não é alheio ao facto de estarmos em vésperas de eleições autárquicas.
Claro, é evidente.
E está prometido pra amanhã a segunda reunião do Conselho de Ministros especial dedicada à habitação.
Mas olhando para o contexto geral do debate, acho que Luís Montenegro foi muito duro com José Luís Carneiro, dizendo que o PS corre o risco de se transformar numa força irrelevante para resolver os problemas de Portugal. Isso é uma frase duríssima pro José Luís Carneiro. E em relação a esta quezília entre André Ventura e Montenegro, isto vai se transformar mais ou menos normal. Sócrates também tinha assim umas quezílias particulares e eu acho que entre os dois isto vai se tornar mais ou menos habitual neste tom, o que não quer dizer que depois não haja negociações à parte e à porta fechada. Aqui, aquilo que me pareceu em relação à lei dos estrangeiros, é que Ventura está zangado por não lhe terem dito nada antes de submeterem a proposta.
Sem querer antecipar o que tu queres dizer sobre a lei dos estrangeiros, porque é um dos temas que traz esta edição do "E o Vencedor É", do ponto de vista político, haverá saída para André Ventura ou pra o Chega que não seja viabilizar esta proposta do governo?
Dizendo que é um mal menor, ou seja, antes esta proposta do governo do que umas coisas como estão agora, porque essa é a alternativa. Quer dizer, a alternativa não é a proposta anterior do governo, porque essa chapéu, já foi. Portanto, ou é esta agora e passa no Tribunal Constitucional, porque esta coisa que André Ventura gritou, não se pode voltar pra trás, é só uma tolice. Foi chumbada pelo Tribunal Constitucional, portanto, sim, pode-se voltar pra trás várias vezes.
Tem de se voltar pra trás.
Tem de se voltar pra trás às vezes que o Tribunal Constitucional decidir. Portanto, enfim, dito isto, eu acho que André Ventura vai ter que dizer que este é um mal menor em relação à situação que nós temos atualmente.
Raquel, por regra, nestes debates quinzenais, nós fazemos sempre grandes análises de antecipação destes debates, dizendo que a oposição tem isto, tem aquilo, tem aqueloutro, mas por regra, o primeiro-ministro até se sai sempre bem, este e outros, nestes debates quinzenais. Luís Montenegro conseguiu dominar o debate, conseguiu sair vencedor deste debate, se tivermos de encontrar um vencedor?
Quer dizer, eu acho que cada líder vai pra estes debates com a sua agenda e, portanto, eu pra dizer que ele saiu vencedor, teria que dizer que André Ventura saiu perdedor e não me parece. Acho que os dois marcaram os seus pontos. Acho que quem saiu derrotado foi José Luís Carneiro, pela forma como o primeiro-ministro lhe respondeu e pelas críticas que fez, porque ouviu a resposta de Luís Montenegro que tinha que ouvir, que é no fundo culpar a governação socialista por tudo aquilo que ainda não se conseguiu mudar, sobretudo na questão das políticas públicas, na habitação, na saúde e na educação.
E ainda teve que ouvir o Carneiro
Dizer que já tinham nascido bebés na rua, coisa que o José Luís Carneiro dizia que tinha sido a primeira vez a acontecer.
O Partido Socialista tem sempre aqui um papel difícil, porque as pessoas ainda têm muito viva na memória aquilo que foram os últimos tempos da governação socialista e aquilo que começou a ficar à mostra nesses tempos. Sobre o Luís Montenegro, eu acho que ele fez bem em trazer uma novidade para o debate, uma novidade nesta área, em tempo de eleições autárquicas e com a crise da habitação que estamos a viver. Estou de acordo com a Judite, acho que é uma boa surpresa e acho que independentemente de não sabermos ainda o que significa uma renda acessível, as medidas percebemo-las. E percebemos que há uma redução de IRS para os senhorios, percebemos que há um aumento nas deduções para quem arrenda e percebemos que há, e eu acho que é uma questão tão importante como as outras, a questão das mais-valias.
Muito importante.
Porque qualquer um de nós que já vendeu alguma coisa, percebe o que lhe dói ter que pagar mais-valias na hora de as pagar.
Só para quem não ouviu, a ideia é: não há pagamento de mais-valias se o reinvestimento for feito numa casa para arrendar a preços acessíveis.
E portanto, definindo-se agora o que são preços acessíveis, não são rendas sociais, são preços acessíveis.
Certo. Para a classe média.
Pronto, são as tais casas para a classe média.
Vamos ver se essas rendas modestas ou acessíveis são exequíveis dentro dos preços do mercado.
Sim, vamos ver. Mas o que eu queria dizer é que acho que o primeiro-ministro marca a agenda no debate trazendo estas medidas e marca a agenda por dois dias, porque hoje disse metade e amanhã dirá a segunda metade e portanto amanhã já ninguém se lembra de eventuais problemas que ele tivesse tido hoje. E em segundo lugar, prova-se que deixar passar as grandes questões, deixar passar o tempo sobre as grandes questões diminui-as. E portanto, aquelas grandes questões dos incêndios, da saúde, e eu não diria da educação, porque acho que este foi um início de ano letivo sem grandes questões, pelo menos do ponto de vista da opinião pública, não trouxeram o incômodo que os partidos da oposição traziam para o primeiro-ministro, já não está no mindset das pessoas.
Vamos à tua nota.
A minha nota, eu daria um 14 a Luís Montenegro e um 14 a André Ventura.
Alexandre, tens uma nota?
Tenho 14 para Montenegro e 12 para Ventura.
Judite Sousa?
Eu tinha um 14 para Luís Montenegro e um 13 para André Ventura.
Judite, achas que ficam resolvidos os problemas que foram levantados pelo Tribunal Constitucional?
Acho que o governo fez uma tentativa nesse sentido. Não sei se o Tribunal Constitucional vai considerar que o prazo inferior a dois anos, e esse era o aspeto mais relevante, a principal objeção que havia aqui, em que o requerente tinha que esperar dois anos para chamar o cônjuge, agora só tem que esperar um ano se conseguir provar que vivia com essa pessoa anteriormente, antes de vir para Portugal, antes de vir para território nacional. E atenção, antes só o poderia fazer depois de estar há dois anos no país, ou seja, só poderia pedir depois de estar há dois anos no país, por isso significava o tempo que demorava a resolver. Esse tempo também foi encurtado e passou de 18 meses para nove meses. E depois há a questão que eu acho que é aqui mais primordial, que é quem tem menores a cargo, se houver filhos, então não há prazo. E eu acho que isso eram as duas questões mais fundamentais que o Tribunal Constitucional apontava. Portanto, com isto feito, eu diria que a questão das medidas de integração passam a não ter objeção, pelo menos clara do Tribunal Constitucional.
Até porque, Alexandre Borges, esta decisão do Tribunal Constitucional não foi unânime, não foi tomada por unanimidade, portanto, achas que agora com essas alterações que foram conhecidas hoje, de resto, notícia avançada aqui pelo Observador, estão reunidas as condições para que agora passe no Tribunal Constitucional ou não?
Acredito que sim e espero que sim, porque acho que o Tribunal Constitucional também tem que ter a sensibilidade política de perceber, não pode ficar a fazer um braço de ferro com o Parlamento. Percebe-se perfeitamente que neste momento o sentido majoritário do Parlamento não seria esse. E porque me parece, de facto, que as questões fundamentais foram atendidas e que é uma proposta equilibrada, humana, na atenção que dá, particularmente às questões de que a Judite falava, com os menores a cargo, outros dependentes, e enfim, da reunião das famílias em geral, desde que observem a lei portuguesa. Portanto, parece uma coisa perfeitamente equilibrada.
Sim, por exemplo, as crianças têm que obrigatoriamente ir à escola.
Exatamente.
Ou seja, há uma série de regras que é preciso cumprir.
Os casamentos, obviamente, têm que ser com maiores de idade, não poligâmicos, essas coisas, que para nós parecem muito evidentes, mas que não são evidentes em outros sítios do mundo. Agora, parece-me muito importante que o governo atue rapidamente nesta matéria, justamente porque é um tema de que o Chega adora apropriar-se. E portanto, deve fazê-lo e deve preocupar-se em comunicá-lo muito bem. E eu, se fosse ao governo, não largaria o assunto. Por mais propostas interessantes que tivesse sobre a habitação, e parece-me que são interessantes, não largaria este assunto até ele estar resolvido, porque do ponto de vista do governo, precisa de tirar discurso ao Chega.
O que o Chega fez hoje já foi ficar um bocadinho sem isso, mas é pouco para o dano que habitualmente consegue causar. Para já, voltou a usar a palavra frouxo. Voltou a dizer: "O governo é tão frouxo neste assunto como o PS." Que é aquela coisa que lembra sempre que um belo dia aqui, há uns poucos meses, Aguiar Branco disse ao PS que não devia usar a palavra fanfarrão. Mas frouxo, ok.
Mas frouxo pode ser.
Exatamente. Para mim, acho que o melhor momento do Montenegro no debate, há uma coisa que os últimos primeiros-ministros em Portugal têm tido, que é uma calma olímpica. Eu não sei se eles vão ao mesmo terapeuta.
Tomam o mesmo comprimido.
Era isso, eu também pensei nisso.
Deve ser meditação.
Depois decidi: "Vá, eu vou ser impressionante."
Xanax que está com muita saída.
Talvez. Vou acreditar que é uma coisa conseguida só com muita meditação, de facto, e disciplina mental.
Ali nos Jardins de São Bento.
Ora bem, talvez seja disso, dos jacarandás. O Luís Montenegro mantém, eu acho que isso lhe fica muito bem televisivamente falando, daquilo que chega lá à casa, na calma que mantém quando Ventura passa uma enorme exaltação. Mas fora isso, que é a forma, acho que no conteúdo esteve muito bem no momento em que diz: "Os senhores se calhar não querem mudar nada. E se calhar as pessoas precisam de perceber isso, porque se diz que nós não devíamos ter mudado por causa do Presidente da República, porque poderíamos contornar o veto presidencial, sabe que não podemos contornar o Tribunal Constitucional." Portanto, talvez esteja só a pedir uma lei impossível, a pedir coisas impossíveis, porque justamente sabe que elas não vão ter efeito nenhum, porque no fundo é só manobra, é só estardalhaço, para usar um termo plebeu. E parece-me que é isso. Esse argumento é bom e acho que essa argumentação é boa porque esvazia aquilo que parece uma coisa muito eficaz do ponto de vista do discurso do Chega. E é o que tenho a dizer sobre este assunto.
E Raquel, o que é que fará agora Marcelo Rebelo de Sousa? Vai, de certeza, enviar para o Tribunal Constitucional. E se passar no Tribunal Constitucional, Marcelo poderá vetar para dar um sinal político em relação a esta lei?
Eu acho que Marcelo Rebelo de Sousa é constitucionalista e teve, pelo menos durante algum tempo nos seus mandatos, bastantes reservas em enviar leis para o Tribunal Constitucional quando achava que o Tribunal Constitucional não lhe iria dar razão. E portanto, não me parece que o vá fazer pelas mesmas razões que a Judite disse, porque acho que as alterações que foram feitas agora à lei tiveram, de facto, foco. Aliás, o ministro hoje quando as apresentou acabou por dizer que preferia a lei antiga, mas que fez estas alterações para responder às dúvidas do Tribunal Constitucional. E portanto, não me parece que o Presidente da República vá enviar para o Tribunal Constitucional. Agora, não tenho claro que o Presidente da República, se a lei for aprovada no Parlamento, se o Chega fizer como dizíamos há pouco, aquele número do: "É a lei possível, não a que nós gostamos." Mas isso também já fez a Leitão Amaro hoje. Portanto, até aí, desse ponto de vista, eu acho que houve um destrunfamento dos argumentos, não sei se existe esta palavra, mas foram destrunfados os argumentos do Chega.
Para os jogadores de sueca acho que pode usar.
E para os ouvintes do "Fora do Baralho" também acho que é um argumento que resulta, mas acho que quer Luís Montenegro no Parlamento com os argumentos que deu, quer o próprio Leitão Amaro naquilo que disse, já destrunfou aquilo que é a indignação do Chega. E portanto, se o Chega deixar passar a lei, ou o Partido Socialista, não tenho claro que o Presidente da República, mesmo assim, para marcar um ponto, que eu acho que não é um ponto qualquer para o Presidente da República, que está de saída, que tem sempre uma grande atenção àquilo que é o respeito pelos direitos humanos, o respeito pelos imigrantes, no fundo, a ideia da integração, tudo isso são valores com que eu acho que Marcelo Rebelo de Sousa quer sair de Belém. Mesmo que venha a ser derrotado pela repetição de uma votação que faça passar a lei, eu acho que ele neste momento já não tem nada a perder, se isso acontecer, e prefere deixar para a posteridade esta ideia de que é um defensor indefetível do reagrupamento familiar.
Está em linha com os valores que defende também.
Exato. E portanto, também ele sabe que isso não tem grandes consequências, porque isso depois é confirmado no Parlamento.
Judite, vamos à tua nota. Eu dou a esta lei de estrangeiros um 13, porque percebo as alterações que foram feitas. Tenho muita dificuldade em entender que Leitão Amaro diga que preferia a lei antiga.
Por falar em antigo e novo, vou aqui fazer uma provocação ao Sandro Borges, uma pergunta.
Eu sou novo.
Carregada de ironia, porque queres falar da 80ª sessão da Assembleia Geral da ONU. Gostaste mais da 80ª ou da edição 79? Exato. Não, acho que sim. As primeiras foram muito boas.
Olha que a 77 não foi nada má.
É os anos ímpares. Os anos ímpares dão sempre melhores colheitas. São os 80 anos da ONU. E infelizmente, em vez de Assembleia Geral, pareceu mais aqueles jantares de Natal das famílias que já não se dão. E das famílias que ainda se encontram ali à mesa para respeitarem o avô ou qualquer coisa assim, ou para fazerem boa figura, mas no fundo, estão todas a dizer mal umas das outras. Pais e filhos, irmãos, maridos e mulheres, e quanto mais os cunhados, então cunhados. Esses que são só parentes por afinidade. E que ao saírem dali volta tudo à mesma ou pior. E isto é para não dizer que podia ser um funeral, porque todos os dias nós assistimos à irrelevância da ONU, lamentavelmente. Lamentavelmente, porque vivemos tempos, todos nós aqui, lá está, que estamos algures entre o antigo e o novo, e vivemos tempos mais felizes do ponto de vista da cooperação internacional.
Depositamos esperança numa organização que deve unir as nações e ser um símbolo de união entre as nações para o progresso de todo o planeta.
Tal qual. Ou seja, que não responda apenas pelos seus interesses próprios, que é o que cada país naturalmente faz em qualquer circunstância. Mas o que tivemos foi mais um discurso de António Guterres, que infelizmente também me lembra que, se calhar ainda é cedo, too soon para avaliar o novo papa. Isto metido a talho de foice, mas parece que funciona um pouquinho como os discursos do novo papa, que também têm muito pouca eficácia, falam poucas vezes, falam baixo, repetem-se nas palavras com muito pouco impacto. Mas pior do que isso é ouvir o discurso de Trump, que é o suposto líder do mundo livre, que discursa durante uma hora, que é três vezes mais do que é permitido, só para começar por aqui. Três vezes mais do que é permitido aos chefes de Estado nestas ocasiões. Mas pelos vistos a Trump tudo é permitido.
Menos andar nas escadas rolantes.
Senão ele vai-se embora.
Exato. Até porque está na cidade dele, é só atravessar a rua, há um hotel Trump, se bem me lembro, mesmo do outro lado. E que usa essa hora para arrasar a ONU, para tentar desclassificar, desqualificar totalmente a ONU, para falar dele, nem fala dos Estados Unidos, já não estamos a falar de alguém que tem os Estados Unidos.
Até fala das obras que podia ter feito no edifício e não fez.
Exatamente. Porque ele, de facto, no limite, acho que olha para aquilo como olha para Gaza, que isto é só um edifício na Primeira Avenida, que quando acabar a ONU, isto vende-se por um dinheirão. E que compara o que eu fiz, ele diz: "O que eu fiz e que a ONU não fez, as guerras que eu resolvi e que a ONU não teve um telefonema." As guerras, por exemplo, viram a lista das sete guerras.
Uma delas nunca existiu na vida.
Exato, outras nunca começaram. Outra é a guerra do Kosovo e da Sérvia, que ele aparentemente resolveu, uma guerra que nós achávamos que tinha terminado em 2008, mas aparentemente foi ele. E portanto, esse líder do mundo livre, em que a nossa primeira preocupação após o discurso dele é ir ver daquilo tudo que ele disse, o que é verdade, o que é mentira. Porque depois há mais uma série de inverdades no seu discurso. E depois, quando naturalmente temos os Estados Unidos a bombardearem o Irão, a meterem-se em guerras com a Venezuela, para as quais obviamente não têm nenhuma carta branca da ONU, quando temos Israel que desqualifica todos os relatórios da ONU na guerra com a Palestina e que já terá vitimado mais de 300 funcionários da própria ONU desde outubro de 2023, quando temos a Rússia no Conselho de Segurança, naturalmente, que não sei como é que se diz nas tintas em russo, mas qualquer coisa neste sentido para tudo o que a ONU pudesse ou tenha dito desde o início da invasão da Ucrânia. Portanto, é tudo um bocadinho triste e volto à ideia inicial, isto parece um jantar de uma família que já não se dá e que quando o avô morrer, já ninguém volta a ali.
E que nota dás para este sinal de falência da ONU?
Para ainda dar uma nota, lá está, e não dar os meus sentimentos, vou do 80 ao oito, dos 80 anos para a nota oito.
Fica um oito. Raquel, Zito, querem dar uma nota à ONU também? Não?
Olha, eu dou um quatro, ainda dou uma nota mais baixa, porque acho que o avô António Guterres, coitado, teve azar na altura em que chegou à ONU e não tem sabido gerir a situação em que as Nações Unidas se encontram.
Obrigado a todos. O Vencedor é regressa amanhã, depois das 08h30 da manhã, nas manhãs 360 da Rádio Observador.