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"Júlio Vestore" na Rádio Observador, em vídeo, no YouTube e nas redes sociais do Observador, com Judite França, Alexandre Borges e Eunice Lourenço. Eu sou o Ricardo Conceição e hoje vamos falar da forma como o governo arrumou o estudo da Segurança Social. Eu ia dizer que pôs numa gaveta, não, enterrou mesmo num baú bem fundo. Também temos-

Por enquanto.

Sim, se calhar até se vai esquecer do sítio onde enterrou o baú.

Meteu o estudo na gaveta.

Também as críticas da presidente da Comissão para a Igualdade e contra a Discriminação Racial, que acusa o PSD de travar o funcionamento deste organismo criado há dois anos e que ainda não funciona. Mas começamos por um novo episódio da novela Luís Neves, que usa o mesmo carro que usava na Judiciária, um carro apreendido, tudo normal, que foi pedido pelo Ministério e à Judiciária para que Luís Neves o continuasse a usar. Um ministro que dispensa segurança. Alexandre Borges, há algo neste novo episódio que te prenda mais a atenção?

Há várias-

Qual é a tua parte favorita deste novo episódio?

A minha parte favorita é verdade. A minha parte favorita ainda é lembrar-me sempre do Ford Focus, com que ficamos todos fascinados.

15 anos.

15 anos, que era o único carro que Luís Neves tinha, e que disse sem ninguém lhe perguntar. Foi daqueles coisas que disse naquela conferência de imprensa e todos retivemos como um daqueles momentos embaraçosos. Eu não sei, diferentes pessoas têm diferentes reações a Luís Neves. Eu, durante a maior parte deste processo, ficava embaraçado, verdadeiramente, sentia que estávamos a saber demasiado sobre a vida de uma pessoa, garantidamente sem o querer.

Quando as pessoas dizem demais.

Exatamente. E se numa primeira fase parecia que eram terceiros a espiar essa vida, às tantas começou o striptease de Luís Neves. Com esse pormenor lateral e absurdo durante aquela conferência de imprensa, e que agora volta imediatamente à nossa memória quando vemos isto. Mas de facto há várias partes nesta história que em si, por um lado, parece a mais inofensiva de todas as histórias que já saíram sobre Luís Neves, mas que, por outro lado, acho que pode tocar num ponto importante. Por exemplo, entre os dois grandes casos que preocupavam o governo durante o último mês, mês e meio, Fernando Alexandre e Luís Neves, não há nenhuma dúvida que o processo dos exames com Fernando Alexandre afeta muito mais os portugueses. É uma questão que diretamente pode prejudicar muito mais pessoas. O problema nos casos de Luís Neves tem a ver com o caráter. E esta história, sendo a mais lateral, é uma que cava um pouco mais fundo as nossas dúvidas.

Eu não acho que esta história seja lateral.

Pronto, muito bem.

Não pelo carro em si, sendo que o carro não está equiparado a carro pessoal, é carro de serviço, mas o ministro da Administração Interna ter um outro carro para se deslocar pode implicar, em princípio implica, pelo aquilo que sabemos neste momento, que ele não cumpra as regras de segurança que um ministro da Administração Interna deve cumprir. Eu acho que são cinco ministros que têm de ter segurança permanente e o ministro da Administração Interna é um deles.

Que tem o nível três de segurança.

Ao deslocar-se, ao que ele justifica ao "Nascer do Sol", num carro que ele pediu para se deslocar mais rapidamente, cumpre as normas de segurança ou não cumpre as normas de segurança? Isto vai dar a outra coisa, que é o fundamental, do meu ponto de vista, em todos os casos Luís Neves, e que José Luís Carneiro disse em duas frases muito bem na quarta-feira em entrevista à SIC, e eu não percebo como é que José Luís Carneiro não cavalga isto, que é: aquilo que vamos sabendo do ministro da Administração Interna, diminui a sua autoridade. E um ministro da Administração Interna não pode ter a autoridade diminuída, porque é ele o garante das forças que fazem cumprir a autoridade do Estado. Por isso é que a história do carro, que até pode ter justificações e pode não ser uma ilegalidade por si só, tem, a meu ver, pelo que sabemos neste momento, uma coisa mais profunda, que é, mais uma vez, colocar em causa a autoridade do Estado e a autoridade do ministro.

Mas, Eunice, se me permites, concordando totalmente contigo, eu quando digo que é lateral, é porque não é um caso que à partida tenha pra mim a gravidade dos produtos tóxicos que um tribunal manda destruir e que ele pede a um amigo pra levar não sei pra onde. Mas em vários pontos, depois, sobre o caráter do ministro levanta mais dúvidas junto a tudo aquilo que já conhecemos. À questão, que não é uma ilegalidade, mas desta violação das normas de segurança, que é complicada, mas confesso que não é o mais grave. O que eu acho mais grave é a reincidência de pormenores que de repente já não parecem pormenores. Isto é, Luís Neves usa sucessivamente a desculpa do "eu poupei dinheiro ao erário público". A luz é esta para as suas questões com a PSP.

Sai mais barato e resolve-se mais depressa.

Também sai mais barato não fazer cumprir a lei, não ter forças de autoridade.

Exato, o que em si seria profundamente duvidoso. Que isso fosse critério pra alguma coisa. Agora, segundo a reportagem da TVI, CNN e Nascer do Sol, que o seguiu durante imenso tempo, o ministro já foi visto a circular em mais três viaturas de serviço. Dois BMWs e um Mercedes. Só em si mesmo o Mercedes tem um renting de 26 mil euros anuais.

Os carros do ministério.

Acho normal, mas não estás a poupar dinheiro nenhum ao Estado Não estás a poupar dinheiro nenhum ao Estado quando tens três carros para circular, um dos quais custa 6 mil € por ano, e tu ainda pedes mais um. Outro pormenor que é dito na reportagem é que há um dia em que também o acompanham e veem que um destes carros oficiais o foi deixar à sua residência e mais tarde, nesse mesmo dia, foi visto um elemento da segurança do ministro a levar o dito Volkswagen Golf à porta do ministro. Aparentemente para seu uso pessoal ou o que quer que fosse. Sendo que o ministro também diz: "Isto não é nada habitual, porque normalmente sou eu que conduzo o próprio carro". Onde é que está a poupança? Não há poupança nenhuma. E o facto de ele usar sucessivamente o argumento da poupança, que em si mesmo, como vemos, não é critério e aparentemente nem sequer é válido, faz-me duvidar muito porquê sacar sempre deste argumento.

Judite.

E há ainda uma outra coisa nas histórias que o Sol, a TVI e a CNN divulgam, que é, aparentemente, também pelo que sabemos neste momento, o ministro não foi inteiramente verdadeiro nos valores que divulgou sobre a destruição do tal material que acabou na Construbarcelos, porque os valores que ele apresentou não eram só para aquele material, era para tudo o que tinha sido apreendido no âmbito daquela operação, o que também coloca, mais uma vez, em causa a palavra e a autoridade de Luís Neves.

Judite.

Eu acho que há aqui um modus operandi comum a tudo isto, que é este facilitismo com que se lida com o Estado, com as coisas do Estado e com a coisa pública. Há um pormenor que eu achei curiosíssimo na resposta que Luís Neves dá ao Nascer do Sol e à TVI, que é: precisava ter um carro com maior resposta operacional. E eu fiquei na dúvida sobre o que isto queria dizer. E então fui ver o que era um Golf GTD.

Também fui ver. Acho que vai ser das coisas mais procuradas do ano.

Exato.

É o carro que anda bem.

É um carro que anda muito bem. Uma maior resposta operacional quer dizer ter um carro veloz.

Dá para fazer corridas na Vasco Gama.

E aposto que está artilhado.

Com turbo, não sei o quê.

E não ser identificado para não poder ser identificado o telemóvel que vai lá dentro, coisas do gênero.

Pronto, é de facto um veículo com uma resposta operacional fora de série e eu acho que o grande vencedor deste caso é o automóvel, que eu fui ver que tem 200 cavalos de potência. Não fazia ideia. Para um Volkswagen é uma coisa...

Pesaste o peso do veículo?

Não pesei o peso do veículo.

Fui ver para vermos a relação.

É que eu achava que era um GTI, que já tinha ouvido, mas não, é um GTD.

Aparentemente é o herdeiro do mítico GTI.

Mas mais veloz.

Porque é diesel, é da UD.

Lá, turbo.

É a versão turbo diesel.

Não percebo nada de carros.

GTI, não sei. É mais ágil.

Está bem.

Podemos terminar esta conversa com a canção dos Klán.

Exatamente. Era uma bela canção. Eu acho que no meio da parte que tem alguma graça disto, porque estamos todos a discutir um carro, mas estamos a discutir mais do que isto. Eu acho que estamos a discutir esta forma de Luís Neves lidar com a coisa pública e essa é que eu acho que é mais grave, porque tudo é fácil. "Fiz isto porque era mais barato, fiz isto porque era mais fácil."

E com boa intenção.

Sim, mas eu sou um fazedor. Estou aqui para resolver problemas. O problema disto é que não há nenhum argumento de contenção de custos que resista a tudo o resto. O facto de estar a poupar eventualmente dinheiro quando anda sozinho no seu carro, também Marcelo Rebelo de Sousa andava sozinho no seu carro.

Era isso, eu não queria dizer isso, mas quando a Inês levantava a questão dos espetáculos, Marcelo infringia quase todos.

Mas fugia à segurança.

Mas isso não quer dizer que daí vão ser infringidos.

Não, não deve. Mas acho que não é isso que por si só deveria deitar abaixo o ministro em tudo o que rodeia. Mas é verdade, sim, não devia fazer.

Mas a verdade é que deixa o senhor ministro a reboque de mais uma crise.

A reboque? Estás bem, Judite?

Vai a trolado.

Vai a trolado. É mais uma crise. E de facto, a Eunice tem razão quando diz: tirar a autoridade a quem manda nas forças de segurança é demasiado grave para o Estado. E para mim, há duas coisas que são complicadas. Uma delas é hoje José Luís Carneiro ter voltado a falar do tema, mas ainda assim não exigir a demissão do ministro, resiste bravamente a pedir a demissão do ministro. Já foi um bocadinho mais longe do que costuma ir. Às vezes é só um carro, mas pode ser a gota d'água num copo que se foi enchendo com coisas bem mais graves, como tu dizias, Alexandre, antes disso.

José Luís Carneiro só fala do assunto quando é instigado a falar.

Instigado a falar do assunto, sim. E hoje aconteceu o mesmo. E depois temos o papel do Presidente da República. O Presidente da República está demasiado calado sobre este assunto, e este assunto é um assunto demasiado importante.

Nós, no Expresso desta semana, lembramos várias intervenções.

Product placement outra vez.

6:26.

Lembramos.

Hoje foi mais tarde. No Expresso, é Expresso.

Lembramos várias intervenções sobre ética de António José Seguro como candidato presidencial, antes de ser candidato presidencial. Ele na campanha chegou a dizer que a ética e o combate à corrupção e pela transparência na política era a causa da vida dele. E por aquilo que António José Seguro disse antes de ser presidente O caso Luís Neves já tinha de ter uma demissão.

Sim, e logo no início, logo quando souberam as primeiras notícias. Não falo do monte, porque acho que a questão do monte é também lateral, mas a questão da forma como foi tratada, com mais facilitismo, a questão da galera e dos produtos tóxicos. "Enviei isto pra casa de um amigo, que fica em Barcelos." Toda esta história prova como Luís Neves trata a coisa pública e isso é que eu acho que está em causa aqui e que António José Seguro espero que tenha dito alguma coisa ao primeiro-ministro. Não sabemos se estará. Sim, seguramente, mas uma das coisas que pode ter ficado combinada entre ambos é a história de vamos deixar passar o verão e os incêndios e tratamos disso depois. Vamos ver se é assim, se não é, vamos ter que esperar por isso, mas eu acho que continua a ser muito estranho que António José Seguro, por mais discreto que goste de ser e que é, sem dúvida, não tenha uma palavra pública sobre o assunto. Quanto mais não seja, para empurrar o primeiro-ministro também a dizer alguma coisa sobre o assunto, porque parece normal que o primeiro-ministro esteja calado sobre isto, mas não é normal.

Vamos deixar as notas pro Luís Neves para a segunda parte do "You Vent, Eu Leio".

Eu tenho nota pro carro.

Sim, vamos encostar.

Eu não vou abrir princípio de benefícios.

Eu tenho aqui uma dúvida. Tive uma ideia um pouco estapafúrdia, que é: imagina que a Europa está em guerra. Imagina que há uns serviços secretos de um país opressor, belicista, que percebe que há um ministro da Administração Interna de um país da União Europeia que sai de casa, vai à bica, leva o seu Golf até à bica, bebe a bica e volta pra casa sozinho, sem segurança. Imagina que isto era possível. E deixamos aqui as notas para o caso Luís Neves, para um novo episódio do caso Luís Neves, deixamos as notas encostadas em quatro piscas. Judite, queres dar uma nota? Ou mesmo em cima da berma, como vimos estacionados. Também ali não há passeios.

Ali não há passeios.

Nem lugares pra estacionar.

Sim, porque isso é outra, agora toda mundo sabe onde mora o ministro. Mas eu ia dar uma nota ao Golf GTD. E vou dar um 20, porque ele é 2.0, tem 200 cv.

2.0, 200 cv.

Que é tudo coisas que eu aprendi hoje.

Quanto gasta? Deve gastar bem esse carro.

Não, você faz perguntas que eu nunca-

Segundo li, consumos baixos, binário elevado. Não sabia.

Binário elevado.

Depende se estás numa condução mista.

Ou numa condução eco.

Isto é cidade. Deve gastar mais.

Parece que gasta mais.

É capaz de gastar um bocadinho. Com essa cavalagem toda. Queres uma nota da minha parte?

Quero.

Estás a olhar pra mim com ar de quem quer uma nota. Vou ter mais ou menos ao raciocínio da Judite, que queria só acrescentar estas duas coisas, que são: por um lado, há isto, que são as razões de segurança, que Luís Neves já alegou várias vezes pra, em determinados momentos, não ter partilhado informação, nomeadamente com a Entidade para a Transparência.

Exatamente.

E logo no dia em que ele referiu o Ford Focus, eu pensei: "Só falta ele dizer a matrícula". Portanto, ele tinha uma série de preocupações com a segurança, mas depois nem disse isso do Ford Focus.

E uma das razões para contratar aquele empreiteiro é que era um empreiteiro que tem-

Era também a segurança. Pelos vistos, ele foi seguido durante semanas pela TVI e não percebeu. Isto preocupa-me um pouco. Outra questão que me preocupa muito.

Não sei se foram semanas, mas o que é fato é que-

Foram vários dias.

Pelo menos vários dias

...foi vigiado por uma equipe, gravado em vídeo.

Tanto que o viram circular em pelo menos quatro carros diferentes.

Aparentemente, ninguém viu pela equipe.

Nem os próprios seguranças.

Sim, isso.

Outra questão, e esta é a questão, pra mim, fundamental.

Isto prova, como ele diz, que Portugal é um país seguro. Isto num filme não era credível.

Não.

Haveria algum alfa, Charlie ou beta beta.

Exato, alguns a dar o toque.

Estão os indivíduos aí parados.

A dar o toque. A última questão é a que me preocupa mais nisso tudo, e acho que um fim isto vai ter aqui, não importa que eu dê mais explicações sobre este caso do automóvel, porque já as deu à reportagem, é ir vê-las, é por que o Luís Neves nunca diz a verdade toda? Nunca. Porque, outra vez, na história do Ford Focus, e a reportagem de ontem da TVI diz este assunto, pelos vistos ele tem mais um carro, que é um Nissan Qashqai, e a resposta do ministro à reportagem é dizer: "A referência na conferência de imprensa a um carro familiar identificava a viatura habitualmente utilizada pelo agregado e não pretendia constituir uma enumeração do patrimônio automóvel. Não existiu qualquer omissão ou intenção de ocultar informação, tanto mais que o valor reduzido destes bens dispensa a sua inclusão nas declarações de rendimentos." E é isto que eu não consigo já perceber. Por que Luís Neves nunca diz a verdade toda, nem quando é ele que escolhe dar informações que ninguém lhe pediu. E, portanto, também andei a ler a ficha técnica do carro pra escolher que nota dar, e como descobri, aliás, não era preciso dizer que tem quatro cilindros turbodiesel, é um quatro.

Quatro cilindros.

É um nisso. Olha, eu vou aqui dar mão à palmatória. Na segunda-feira estive aqui a dizer que Luís Neves era o vencedor da rentrée, e dei-lhe pra aí um 10, ainda assim. E de fato parecia que estava a conseguir diminuir a pressão. E aliás, assina um texto nos precursores que aconteceu-nos a todos na vida, envelheceu mal, com PSD e governo a acharem que podia de fato estar aqui a aliviar a pressão. Mas o que é fato é que também com cada pessoa que a gente fala sobre Luís Neves Quase todos dizem: "Isto se não aparecer mais nada."

Essa é a dúvida agora.

Por isso é que eu dou um sim, por esta razão que o Alexandre também estava a falar. Eu achava que o Luís Neves era mais esperto e que teria comunicado melhor, que teria dito logo tudo, que era aquilo que a situação aconselhava.

Desculpa juntar isto, Eunice, há um texto de António José Vilela na CNN, já há umas semanas, em que diz que durante o tempo da direção nacional do PJ, o Luís Neves circulava num Porsche também de uma apreensão. Vai haver mais coisas destas que nós vamos saber. E o Porsche era por razões de segurança, imagino eu, se o que António José Vilela diz é verdade, não tenho razão para duvidar.

Para situações de emergência pode ser mais rápido.

É a questão operacional, mais uma vez.

E passa despercebido em Lisboa, um Porsche. No meio de tanto Porsche.

Não deve é poupar dinheiro ao Estado.

Não, esse também gasta mais um bocadinho. Os elétricos agora não gastam assim tanto. Vamos também, Eunice, às críticas da presidente da Comissão para a Igualdade e contra a Discriminação Racial, uma notícia do Público.

Que é para não dizer que eu só falo de esporte.

Exato, esta é do Público, que diz que o PSD está a travar o funcionamento deste organismo. É um organismo para a discriminação racial. Foi criado há dois anos, mas não tem ninguém ainda a trabalhar. Foi atribuída uma morada que a presidente da comissão diz que o apartamento que lhes atribuíram não serve para instalar este serviço.

Nem lhes permite ter porta aberta ao público.

Exatamente, que é num prédio residencial.

Eu escolhi trazer aqui esta história porque me parece muito significativa e ilustrativa de como é possível criar, aparentemente, coisas boas e que melhorem a qualidade das instituições, que melhorem a nossa vida em sociedade, que deem resposta a problemas, e depois é muito fácil não as pôr a funcionar. É um exemplo de como é possível emperrar as instituições. E de facto, esta comissão existe, mas não existe. Recebeu 39 queixas em 2025, oito este ano. Ainda não apreciou nenhuma, porque não tem quadro de pessoal.

Não pode ter quadro porque não tem onde pôr.

Não pode ter quadro porque não foi regulamentada.

E não tem onde pôr as pessoas a trabalhar.

E porque para lançar um concurso, entretanto, a Secretaria-Geral do Parlamento já disse que podiam lançar um concurso para tentar contratar pessoas, mas não podem pôr a morada do sítio onde vão funcionar, porque ainda não sabem bem onde é que vão funcionar. Portanto, é emperrar tudo.

É encanar a perna à rã.

É encanar a perna à rã, para não dizer pior. E o PSD parece estar aqui, de facto, a bloquear este funcionamento. E se assim continuar, será sempre fácil dizer que não há queixas provadas de racismo em Portugal, porque não há maneira de as apreciar.

Judite.

Eu também li a notícia do Público, fiquei bastante espantada, devo dizer, porque não fazia ideia de quantos engulhos era possível pôr a um determinado organismo para ele não funcionar. Aparentemente, são muitos, nomeadamente porque não podem fazer contratos a termo indefinido, só podem fazer contratos a prazo, que também é uma coisa que não se entende porquê. Ou seja, pelo que deu para perceber pela notícia é que alega a presidente desta comissão, o PSD quer que a comissão seja integrada na Comissão de Igualdade e Direitos Humanos.

Cidadania.

Cidadania.

Esta também é de igualdade.

Esta também é de igualdade.

Mas é para a discriminação.

Para a discriminação racial. E que é essa a razão por que o sistema está a emperrar o funcionamento da comissão. O PSD não quis reagir a esta declaração, foi questionado pelo Público, não quis reagir, o que não é muito bom sinal, porque aparentemente, perante uma denúncia destas, deveriam ter algo a dizer. Se não dizem nada, é porque se calhar é verdade. E é mais uma daquelas rábulas do Estado português que só cria engulhos para criar uma coisa que tinha toda a razão de ser e toda a legitimidade. Algumas das queixas são queixas que aliás são conhecidas, mas que não podem ter nenhuma apreciação. Isso não faz sentido nenhum.

Alexandre.

Se me permitem, vinha aqui por outro lado.

Então não permito.

Enfim, conhecia a história só pela peça do Público e depois, como todos nós, fui procurar um bocadinho mais e o que me saltou à vista foi que há um lado disto que é uma história portuguesa, com certeza, porque a entidade foi criada no fim de 2023, a presidente só foi escolhida em junho de 24 e só tomou posse em dezembro de 24. Isso é uma história nossa. Depois com o que se segue, os engulhos que a Eunice e a Judite referiram. Mas estranhei um bocadinho mais as desculpas da presidente, porque aparentemente ela não pode ter contratos sem termo, ou não pode ter efetivos, porque falta a regulamentação. Isto estará atrasado. Então, diz a senhora presidente Isabel Almeida Rodrigues: "Se queremos fazer as coisas bem feitas, temos que contratar com vínculo de quadro. Eu pensei: "bem, eu convidava a senhora presidenta a ver como no setor privado há pessoas com contrato."

Não é o setor privado, isto funciona na-

Se queremos as coisas bem feitas, temos que ter pessoas com vínculo. Eu conheci imensa gente que não tem vínculo e que faz as coisas bem feitas em imensos sítios.

Eu percebo o que estás a dizer, mas estamos a falar de uma comissão que funciona na esfera da Assembleia da República.

Muito bem.

Vamos lá fazer as coisas bem feitas, por que é que havemos de ter precários a funcionar?

Certo, mas se não temos pessoas com vínculo efetivas, por que eu não as posso fazer pessoas com contrato a termo? Enquanto não tem o resto, por que eu vou esperar? Eu tenho aqui uma comissão, por que eu vou rejeitar um espaço, que é nas imediações da Assembleia da República, uma zona que me parece bastante nobre . Diz a senhora presidente também que isto é um segundo andar, eu pensei: "bom, em princípio isto não é um dentista."

Com uma escada estreita.

Um segundo andar sem elevador. Diz ela com uma escada estreita. Isto, em princípio, não é um dentista. As pessoas não precisam de ir lá bater à porta da dentista.

Não, mas podem ir.

Estas pessoas deviam ir por e-mail.

Não, mas podem ir pessoalmente. Só que assim não podem.

Mais uma vez, é isso que me impede de analisar as queixas que eu recebo, apesar de tudo chegarem queixas.

Isso é não ter funcionários.

Ela disse: "Não tenho funcionários, eu não tenho serviços, portanto, como é que eu vou fazer isto?" A gente depois encontra, sem dificuldade, uma notícia da Lusa do fim de outubro, portanto há 10 meses, em que a senhora presidente se queixava já basicamente as mesmas coisas e dizia assim: "Não, eu nunca aceitei, eu recusei-me liminarmente quando me deram estas instalações, não reuniam as mínimas condições." Então diz ela: "Eram duas salas, mais um cubículo que deve ter uns três metros quadrados." Era a declaração da senhora presidente. "Insuficiente para acomodar a Unidade de Direitos e Sanções, a Unidade de Relações Públicas Internacionais, instalar os assistentes técnicos e operacionais, incluir um gabinete para a presidente e a comissão restrita, albergar o arquivo que ainda se encontra nas instalações da AIMA ou prever uma sala para a audição das testemunhas." Portanto, eu não percebo, há serviços ou não há serviços? Há gente para acomodar ou não há gente para acomodar? Ela está sozinha ou não está? Se não tem serviços, não pode fazer o seu trabalho. Mas se não tem, ao menos devia poder caber numas instalações que têm duas salas e um cubículo de três metros quadrados. E como ela aponta imediatamente e diz: "Isto é o PSD que quer fundir esta comissão com a de cidadania." Que o PSD possa querer, não faço ideia se quer ou não quer, mas se quer, continuo a perguntar: isso é razão para não avaliar as queixas que recebe? Se for fundir com outra entidade, há de se fundir com outra entidade. Mas continuarão a fazer o seu trabalho. Terminaria dizendo isto, que é uma coisa que muitas vezes o PS gosta de fazer. Se tivermos tempo, iremos lá à questão do relatório sobre a Segurança Social. O PS rapidamente diz assim: "O governo encomendou isto a uma pessoa que trabalha para as seguradoras e a uma ex-deputada da IL." Pois, eu fui ver quem é a Isabel Almeida Rodrigues, a presidente desta comissão. Era militante do PS, foi deputada do PS na Assembleia Regional dos Açores, foi deputada do PS na Assembleia da República, foi Secretária de Estado da Igualdade e das Migrações no último governo de António Costa. E foi também secretária regional adjunta no caso dos Açores. Portanto, é o que tenho a juntar.

Queres dar uma nota?

A este caso todo da comissão, não sei, dou-lhe um oito.

Oito. Ana, queres mandar esta nota?

Eu quero dar ainda assim um 12 à Isabel Rodrigues por vir denunciar como é possível não funcionar.

Judite.

Eu tenho notas para outras coisas.

É?

É.

Preferes dar as tuas notas a outras matérias.

Sim, não tinha pensado numa nota para isto.

Está bem. Então pensaste na nota para?

Pensei numa nota para a REN.

Então vá.

Pronto. Eu queria falar da REN, por quê? Nós ontem tivemos o Conselho de Ministros à tarde, que nós já não conseguimos apanhar porque entramos para o estúdio, portanto, não conseguimos ouvir. Mas eu estava com alguma curiosidade para perceber o que António Leitão Amaro tinha para dizer sobre a REN. E fiquei com uma ideia muito clara da questão da REN, que é: nada do que foi dito no Conselho de Ministros serve para nos esclarecer. Aliás, há uma pergunta feita pela Ana Suspiro, da secção de economia, que não tem resposta.

Do Observador.

Do Observador. E há um António Leitão Amaro que mostra algum desconforto, não sei se posso dizer assim, porque há uma empresa estatal chinesa que tem a maioria do capital, o que também não deixa de ser curioso, porque eu não fazia ideia que havia algum desconforto por haver empresas chinesas que estão no capital de empresas portuguesas, que aliás, temos uma que tem bastante capital chinês. Depois tivemos o ministro a dizer que não ia entrar em detalhes sobre as operações, portanto, nem percebemos se com isto dos chineses tentou comprar a State Grid ou se não tentou comprar, não sabemos. Também não dizem quanto é que o Estado pagou, qual é o prémio que foi pago. Enfim, eu já tinha dito isto aqui, eu entendo que por uma questão de soberania, e tendo em conta que Portugal era o único país da União com operador de rede 100% privado, na maioria dos países europeus estas redes ou são públicas ou têm capital misto, eu entendo que o governo diga: "o Estado deve estar."

Tens simpatia.

Tenho simpatia. Só não entendo é Que isto seja um argumento racional, porque não é um argumento racional. A promessa do preço da energia não colhe, porque já sabemos, para já, não é a REN que decide fixar as tarifas, as tarifas são fixadas pela ERSE e não são fixadas pelos acionistas da REN. E depois, para quem diz que quer reduzir a receita da REN para baixar tarifas, a ideia do sucesso financeiro do investimento estatal cai por terra.

A tua nota é?

A minha nota para António Leitão Amaro, que não conseguiu todo explicar, é um cinco, porque eu acho que isto é uma questão de transparência com os portugueses. Acho que isto devia ser transparente.

Estou a acelerar porque a Eunice Lourenço ainda quer dar uma nota à gaveta.

À gaveta. Sim, quero dar uma nota à gaveta, ou melhor, à estratégia do governo sobre o relatório da Segurança Social, porque eu acho que o governo montou bem a sua estratégia e tem conseguido mantê-la e respeitá-la, o que nem sempre acontece. Este relatório foi encomendado ainda no primeiro governo de Luís Montenegro, que, como dizia uma fonte ao Expresso num texto que sai na edição desta semana, era um tempo em que havia outras-

É incrível, senhoras e senhores. Incrível.

Era um tempo em que havia outras expectativas.

Expectativas de uma maioria absoluta.

Expectativa de uma maioria absoluta. E agora isto vem numa altura que não dá assim muito jeito. E também o governo não conseguia exatamente dizer a Jorge Bravo: "Olha, põe aí na gaveta e qualquer dia a gente volta a falar."

Aqueles convites que fazemos para um jantar e temos a certeza que a pessoa não vai e depois ela aparece.

E depois não te dá jeito.

Tens uma história para contar.

E então o governo adota uma estratégia preventiva, quer dizer, desde maio, pelo menos, que a ministra e o primeiro-ministro andam a dizer que não farão qualquer reforma da Segurança Social nesta legislatura. No dia da apresentação do relatório, também houve logo fontes do governo a passar a informação de que isto é só um contributo. E é só um contributo porque neste momento também interessa fechar-lhe a porta ou fechá-lo na gaveta para não causar mais tensão no debate orçamental, no qual estamos a entrar. Isso não quer dizer que o governo exclua por completo medidas que estão no relatório. Jorge Bravo diz que o relatório vale como um todo e não vale por bocados, mas obviamente é possível pegar em algumas sugestões, mas nem isso o governo discute neste momento. O governo não quer mesmo entrar na discussão sobre o relatório. Eu acho mal, porque quem encomenda um relatório, obviamente, devia fomentar a sua discussão.

Porque é um assunto fundamental para todos.

Mas dou uma nota positiva, porque é uma estratégia do governo que me parece resultar para o próprio governo.

Deixa-me só acrescentar aqui um trecho, porque estava a ler no Expresso. Parece uma piada, mas não é.

Mas isto pega-se.

A entrevista ao Jorge Bravo, o coordenador do grupo de trabalho para a reforma da Segurança Social.

Que esteve aqui no Contracorrente durante duas horas.

Que esteve aqui no Contracorrente durante duas horas, mas não disse isto especificamente que eu queria pegar, porque acho que é, não sei se é uma boca ao governo, ou se é mais do que uma boca, é uma crítica direta, que foi desaconselhar o governo a distribuir bónus nas pensões.

Eu achei uma bela boca ao primeiro-ministro.

Tendo em conta que o Luís Montenegro disse no Pontal exatamente o contrário. Quer dizer, que se houver condições, haverá-

Haverá um cheque extra

...um cheque extra. Aliás, Jorge Bravo diz a dada altura que o método não é a forma correta de gerir o sistema e até diz, de forma recorrente, é usado para fins eleitoralistas. Portanto, é de facto uma boca ao governo que lhe encomendou o relatório.

Alexandre, como ainda não citaste o Expresso, tens aqui a oportunidade para citar o Expresso e para encerrar este.

Não tenho nada a acrescentar. Acho que devíamos ter uma trilha sonora cada vez que usássemos a palavra Expresso.

O Hugo já tentou.

E ficar pub no ecrã.

Um alerta para os menores. Não queres dar uma nota à gaveta?

À gaveta. Não, enfim, concordo inteiramente com a Eunice e com a Judite, e já temos falado um pouco do assunto aqui. A única coisa que eu lamentaria era que o governo talvez no momento da apresentação não tivesse logo rodeado isto desta explicação que depois veio mais tarde dar, porque de facto tendeu a desvalorizar, a imediatamente desmerecer o relatório que tinha encomendado. Mas no fim, compreendo perfeitamente que só por um impulso suicida é que o governo se iria atravessar a ir avançar com isto agora. Particularmente a ministra responsável pela pasta depois da história do dossiê da lei laboral.

Imagina lá quem é que vai estar amanhã de manhã no Vencedor é.

Quem é que vai?

Da Rádio Observador.

Da Rádio Observador.

Então vou te dizer.

Onde é que está?

O jornalista do Expresso, Vítor Matos.

Olha o Expresso.

A editora de política do Expresso, Eunice Lourenço.

E prometo que com temas diferentes dos de hoje.

Se isto não é sã convivência e concorrência, não sei o que é.

É, sim, é de saudar.

Amanhã há mais "O Vencedor É" nas manhãs da Rádio Observador.