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Todos os dias avaliamos e pontuamos os protagonistas da atualidade de 0 a 20. Pode acompanhar esta edição de "E o Vencedor É?" também com vídeo nas nossas redes sociais. Luiz Soares, recebemos hoje a Ana Sanles aqui para as escolhas de "E o Vencedor É?" e também o José Manuel Fernandes.

Exatamente. E hoje temos a espionagem debaixo d'terra. Fazemos também contas ao processo orçamental, mas começamos com uma nega. José Manuel Fernandes, como é que avalias a recusa do PCP em participar na cerimônia evocativa do 25 de novembro, marcada para a próxima segunda-feira?

Bom dia novamente. Eu tenho alguma ambivalência na forma de avaliação, porque, por um lado, eu prefiro a transparência, prefiro a claridade, prefiro a frontalidade e desse ponto de vista, o PCP não está cá pra enganar ninguém. Portanto, ele não gosta do 25 de novembro, acha que o 25 de novembro foi uma traição ao 25 de abril e não o resgatar do espírito original do 25 de abril, que era um espírito de liberdade pra todos e não apenas pra alguns. Não era construir outro tipo de regime autoritário. E o PCP, pra todos os efeitos, continua a não gostar disso, acha que tudo se estragou a partir daí. E portanto, não vai estar presente. Mas do ponto de vista institucional, para um partido que costuma ser fiel às instituições, digamos, o PCP tem as suas ideias, mas depois é um partido que, regra geral, é bem comportado, não deixará de ser significativo. Eu creio que o PCP não vai estar sozinho nesta ausência. Pelo que li nas notícias, o bloco também deverá sair do plenário e não sei ainda o que vai fazer o Livre. Eu acho que no caso do Livre será, porventura, de todos estes partidos, o mais interessante de perceber, porque o Livre passa a vida a dizer que não é propriamente um partido revolucionário como o Bloco e o PCP, que são partidos revolucionários. Estão adaptados à nossa democracia, mas têm objetivos de mudança do sistema. Eu acho que quando há cerimônias destes gêneros, sair do Hemiciclo é sempre um momento de perturbação e de desrespeito pra com a assembleia. Desse ponto de vista, eu avaliaria com uma nota bastante negativa o comportamento do PCP, mas, por outro lado, eu aprecio a frontalidade. Eu prefiro partidos que dizem ao que vêm do que partidos que mascaram aquilo ao que vêm. E portanto, ontem a intervenção do PCP foi clara, foi muito transparente. Sim, Raimundo. Foi muito transparente, o líder do PCP não esteve com meias-palavras, não arranjou desculpas, disse claramente aquilo que pretendia. E por isso nós podemos debater a dimensão da cerimônia do 25 de novembro. Devemos debater também tudo aquilo que esta data representou ou não. Na minha perspectiva, é importante este debate, não apenas a cerimônia, mas o debate, porque até para a educação e para a formação de todos aqueles que não viveram estes tempos e que têm às vezes uma visão um bocado mítica do que foi aquele período da revolução portuguesa. Eu vivi, portanto, tenho memória muito por dentro do que se passou e por isso hesito se devo dar uma nota positiva ao PCP pela frontalidade, e uma nota negativa por falhar às instituições, pra todos os efeitos, foi eleito democraticamente e tem eleitores e está lá representado. Portanto, por muito que o PCP sustente regimes em que não há eleições democráticas. Como hesito, vou dar aquela nota que fica assim a meio caminho e que dá pra ir ao ar alto. Vai depender um pouquinho da maneira como tudo acontecer na próxima segunda-feira, na forma que isto tomar, porque pode ser mais brilhante, menos brilhante, mais acintosa, menos acintosa, mas isso também não dependerá só do PCP, pode depender de outros partidos e não só dos partidos na ala mais à esquerda do Parlamento, porventura também de partidos mais na ala mais à direita. Para já, pago pra ver, vou a jogo e dou aquele nove que permite ir ao ar alto.

Bruno, também partilhas desta ambivalência do José Manuel Fernandes em relação a este tema?

Um bocadinho. Esta ambivalência em relação ao PCP é antiga e esta postura, que às vezes roça até um bocadinho a condescendência em relação ao PCP, também já é antiga. Por exemplo, Álvaro Cunhal sempre foi elogiado pela sua coerência, mesmo quando as pessoas estavam nos antípodas políticos de Álvaro Cunhal e das suas ideias. Defendia-se sempre ou elogiava-se sempre a coerência. E esse hábito mantém-se. As ideias podem ser péssimas, a postura pode ser errada, mas encontramos sempre forma de valorizar A previsibilidade do PCP, e creio que o José Manuel também estava a falar um pouco disso, o PCP é um partido de alguma forma previsível.

Sabemos o que é que sai dali.

Sabemos com o que é que se pode contar e tem mantido, de facto, essa linha de previsibilidade e também de frontalidade. Mas eu tenho que dar uma nota mais negativa, porque eu acho que a ausência do PCP desta sessão, neste momento, ausentar-se da Assembleia da República neste momento, revela uma grande dificuldade em conviver com a ideia de democracia. E quando o PCP, para justificar a ausência da sessão solene das comemorações do 25 de Novembro, vai buscar esta ideia de traição aos valores de Abril, também é preciso interpretarmos bem o que está a dizer. O PCP não está a dizer que é uma traição à democracia, é ao 25 de Abril, tal como o PCP o entendia. E eu acho que há um consenso na sociedade portuguesa da importância do 25 de Novembro para a implementação de uma democracia moderna europeia. É um consenso, obviamente, que é quebrado, não só pelo PCP, mas sobretudo pelo PCP, porque é uma afronta ao que o PCP vê como relevante no 25 de Abril. Para o PCP, o 25 de Novembro é uma negação, não é um degrau no processo de democratização, é uma negação, é um retrocesso em relação ao 25 de Abril e isso não vai mudar nunca. Mas já estaríamos no momento, na hora, de aceitar que sem o 25 de Novembro não teríamos a democracia que temos hoje. Eu sei que isso não vai acontecer por parte do PCP, mas não me impede de ver nessa postura uma atitude errada. Pode-se dizer que é coerente com a história do PCP, que é coerente com a visão que o PCP tem sobre os acontecimentos históricos, mas para mim está errada. E também revela uma falta de fair play democrático, que também não é esperável, não é expectável do PCP, pelo menos eu não esperava, mas revela essa falta de convívio ou pelo menos de aceitação de que a narrativa não pode ser controlada eternamente pelo PCP. O PCP nunca teve o apoio do povo na sua generalidade, mas teve durante algum tempo o domínio deste património simbólico e de uma narrativa acerca dos acontecimentos revolucionários e pós-revolucionários. Entretanto, isso mudou. O PCP perdeu essa capacidade de controlar a narrativa. A única forma que tem de responder é através desta postura, destas ausências, que para mim, por muito enquadramento que façamos, não tem desculpa, eu vou dar um quatro.

Portanto, desta nota do João Fernandes que dá nove, dá quatro a esta decisão do PCP. Ana Salés, o Metro de Lisboa, ao que parece, anda muito atento ao que se diz sobre as obras de alargamento da rede.

Sim, podia ser uma notícia também do tempo do PREC ou antes do 25 de Abril, mantendo aqui o tema. E eu queria começar por dizer que eu corro riscos ao estar aqui a fazer este programa, porque eu sou utilizadora do metro, eu vim de metro para o Observador, como venho sempre.

Estava a funcionar hoje de manhã.

Vai de metro.

Por acaso hoje sim, já soubemos que no dia 3 e no dia 10 haverá nova greve, mas hoje por acaso estava a funcionar. Vim de metro e agora vou criticar o metro, portanto acho que me arrisco a ter o meu nome numa lista negra pública.

E as tuas redes sociais piradas.

E as minhas redes sociais, que os senhores do metro podem ir lá ver o que eu ando a escrever. A notícia é precisamente essa, acho que nos fez ontem a todos tremer um bocadinho enquanto cidadãos e utilizadores de serviços públicos e utilizadores das redes sociais, saber que o Metro de Lisboa anda não a vigiar, mas a monitorizar as redes sociais dos cidadãos que considera que representam ameaças ao plano de expansão do metro. E acho que já falámos bastante disso, Miguel Pinheiro também no Bom e Mau e Vilão, sobre o ridículo e o que isto representa para as pessoas, porque além das associações nomeadas, são nomeadas três cidadãs que, segundo o metro, serão mais vocais no seu ativismo cidadão e que farão mais posts nas redes sociais, não sei, não acompanho propriamente o tema, mas eu confesso que o que me chamou a atenção foi os nomes das pessoas e das associações que estão numa lista de um plano de comunicação que está em consulta pública e o metro identifica as oportunidades da rede de expansão, que são várias, a sustentabilidade, os próprios investimentos em si, etc. E depois tem uma lista Bastante extensa de ameaças, inclusive a crise política nacional, que aconteceu no passado, os confrontos internacionais, portanto, estamos a falar de guerras, o risco de perda do dinheiro que vem dos fundos do PRR e o eventual incumprimento da conclusão dos trabalhos nos prazos previstos. Aqui está uma ameaça que me parece que está a acontecer. Todos os prazos já traparam, os orçamentos já traparam.

Eu acho fantástico o Meto, o ano passado, se não erro, executou 1%.

Exatamente.

Uma empresa absolutamente incompetente a gastar dinheiro que tem, ainda por cima, e que vem de fora, absolutamente incompetente a fazer aquilo que lhe compete, depois preocupa-se muito com este tipo de coisas.

Exato. É que na mesma lista em que estão estes riscos, que são riscos verdadeiros, em que ainda se fala do aumento dos preços, da falta de mão de obra, na mesma lista aparece as pessoas que falam mal do Metro nas redes sociais, nomeadamente aquelas associações e estas três cidadãs. Além do ridículo disto tudo e da ausência de responsabilização, porque parece não haver ninguém no Metro que ache isto grave, parece que toda a gente acha isto normal.

A própria empresa desvaloriza, de certa forma.

Desvalorizou completamente, acha que é normal, tendo em conta o movimento que estas pessoas criaram contra a estação do Metro no Jardim da Parada, em Campo de Ourique, acham que é normal o Metro andar a ver, a espiolhar o que elas escrevem nas redes sociais. Eu não acho, e por isso a minha nota para o Metro é negativa, não só pelas constantes greves e atrasos, mas por mais esta ameaça à vida normal dos cidadãos. Vai um quatro.

Um quatro também. Notas muito baixas hoje neste "O Vencedor é". Vamos ver se subimos um bocadinho. Paulo, começam na sexta-feira as votações do orçamento na especialidade. Os deputados vão ter muito trabalho pela frente?

Vão, e vão ter mais do que o ano passado, que por sua vez já tiveram mais do que o anterior e por aí fora. Estamos cada vez com mais propostas de alteração, já vai nas 2150.

Posso dar-te o número exato que tenho aqui à frente, mas há de andar aí.

Por aí. O ano passado foram cerca de 1900. O problema é conhecido. Não é novo, obviamente, agrava-se cada vez mais. É reconhecido pelos próprios deputados. Ainda ontem tivemos aqui no Explicador Alexandra Leitão e Hugo Soares de acordo sobre o que isto representa de problemas. A qualidade legislativa não pode ser boa quando os deputados têm cinco dias úteis para discutir duas mil e tal propostas de alteração, que têm um enquadramento, que têm ou deviam ter, pelo menos, um impacto orçamental e portanto, não pode haver qualidade legislativa desta maneira. Agora, o que fazer com o problema? Que se faça qualquer coisa de alguma maneira. Eu estive aqui a ver o próprio site da Assembleia da República, tem vários artigos de especialistas nestas matérias, a discutirem até os contornos jurídicos e constitucionais da possibilidade de limitar o âmbito das propostas de alteração feitas pelos deputados. É sempre um terreno pantanoso, diria eu, porque os deputados obviamente estão na sua liberdade e as bancadas parlamentares de apresentar as propostas de alteração que bem entendem, como é evidente, mas criou-se esta perversidade de achar que o único momento legislativo do ano é precisamente no Orçamento de Estado e então transforma-se o Orçamento de Estado numa espécie de barriga de aluguer para qualquer tema que algum deputado ou que algum parlamentar tenha. Cabe lá tudo, vou lembrar de coisas do passado, defesa do mirandês. Eu acho muito bem que o mirandês deve ser defendido, mas por que tem que estar no Orçamento de Estado, naquela lei concreta? Neste caso, também dou o exemplo da própria AD, que querem reforçar os cuidados continuados e a Rede Nacional de Cuidados Paliativos. Muito bem, é uma política da área social e da saúde. Por que tem que estar no Orçamento de Estado? Não faz sentido. Há mais 10 meses ao longo do ano em que estes temas podem e devem ser trazidos, discutidos e ter eventualmente até mais destaque para não estarem neste caldeirão onde cabe tudo.

Eu ressalvo a reativação da equipe acrobática Asas de Portugal. É uma das propostas que está no nosso trabalho sobre as propostas do orçamento, que foi publicado ontem.

Quem é que propôs?

É o Chega.

Nem consegui ir à procura dos caricatos, como este. Tudo bem com as Asas de Portugal, mas lá está.

Davam grandes espetáculos.

Pois davam, cheguei a vê-los algumas vezes. Lá está, por que isto tem que estar no Orçamento de Estado? Não tem de estar no Orçamento de Estado. E aqui, como noutras matérias, é assim: toda a gente, de alguma forma, está de acordo que isto é um problema. Toda a gente conhece duas ou três soluções para isso. Só falta uma coisa: fazer, implementá-las. PS e PSD estão de acordo com isto, se querem defender, de facto, a qualidade, antes de mais, do processo orçamental, mas do processo legislativo também, no fundo, melhorar as leis.

Também se calhar vem fazer isso à margem do orçamento.

Sem dúvida. E o orçamento em si, como reflexo daquilo que há de ser a vida financeira do Estado e do país, de alguma maneira, com impostos e por aí fora, no próximo ano também ficava mais transparente e discutia-se mais aquilo que é essencial no Orçamento de Estado. Então, se estão de acordo, acham que é um problema, façam.

São 2161 registos que estão no SÁR.

2161. E tens alguma nota para este?

Eu acho que a maior parte dos deputados não vão saber o que é que estão a votar, porque têm o guia de votação, obviamente, e vão alinhar de acordo com as bancadas.

Vão ser muitas horas de votação.

Muitas horas de votação, uma forma indecifrável. Depois também muita coisa fica pelo caminho, mas pelo meio fica ruído. Queres uma nota?

Nota, sim, para fecharmos.

Dou um seis a este arrastar de pés. Só falta fazer e resolver.

Notas muito negativas neste "O Vencedor É". Estamos de regresso amanhã.