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Começa agora a nova edição do "Youvençora", que também pode acompanhar com imagem através das nossas redes sociais. Carla, esta sexta-feira está também conosco a Filomena Martins. Numa semana que termina com o caso das falsificações, os resultados pobres e preocupantes das provas de aferição, mas também com os atrasos no atendimento do INEM, com consequências dramáticas. Filomena, estamos aqui a falar de consequências dramáticas que envolvem, se calhar, mortes. É preciso apurar a relação entre uma coisa e outra, mas parece que sim.

Sim, ainda é preciso apurar essas responsabilidades e é preciso ver isso tudo, mas o que me está aqui a incomodar, e muito, é este populismo à volta destas consequências que estão a ser atribuídas à greve como consequência das mortes, mas sobretudo ao facto de não ter sido travada a greve por parte do governo, por parte da ministra, e por isso houve greve e tendo havido greve, houve mortes. Quando o caso do INEM é um caso muito mais grave. Eu para não vos deixar já com pesadelos, podia vos ter contado a minha experiência com o INEM e a Saúde 24 e o SNS no seu todo, que tive no Algarve, nas minhas férias, mas como é a véspera de fim de semana e até vai estar bom tempo, posso antecipar isso. É Avró de São Martinho. Não vos queria deixar com essa má experiência, porque me bastou a mim. Vamos a factos. Houve uma greve. Essa greve sabia-se que ia existir e durante essa greve houve mais atrasos nas respostas, mas esses atrasos não são de agora. Muito pelo contrário, vêm de muito tempo para cá. E é verdade que havendo atrasos, e ainda por cima sendo uma greve que estava planeada, o que aconteceu foi que agravou uma realidade que já era dramática. Nós temos um trabalho do Tiago Caeiro, que está no site do Observador e que vocês estão a dar bastante relevo, que o INEM está com os piores tempos de espera dos últimos cinco anos e os nossos tempos de espera já são o dobro dos da Europa. E há uma década que não havia tantos veículos do INEM parados. Foram 6 mil horas que estiveram parados estes veículos até outubro. O público acrescenta que nos últimos cinco anos o INEM perdeu um terço dos seus técnicos. Estamos a falar de tempos de cinco anos, de 10 anos. Portanto, é um problema que se agrava. De facto, haver uma greve não podia melhorar isto. Durante esta greve houve mais atrasos nas respostas. E esses atrasos nas respostas, não sabemos se todos relacionados com eles, terão provocado sete mortes. É verdade, aconteceu uma morte logo no segundo dia de greve, uma mulher que esteve mais de uma hora sem ser atendida, com o marido em paragem cardíaca, e a ambulância, pelos vistos, até estava só a dois minutos do sítio onde a senhora estava com o marido. E nestes casos nós sabemos que minutos salvam vidas. Durante o fim de semana prolongado, o próprio sindicato falou em mais duas mortes, mais outras cinco na passada segunda-feira, o dia em que o INEM registou o número mais baixo de chamadas atendidas em mais de uma década. Aliás, há um caso surreal em Almada, em que a senhora se sentiu mal na sala de audiências e foi a própria PSP que a levou ao hospital de Almada, onde ela acabaria por morrer. Há uma auditoria aberta pelo próprio INEM. O IGAS vai investigar. Neste último caso que eu estava a falar, o de Almada, a própria PGR já abriu inquérito-crime, mas a própria ministra já tinha dito que a situação já era crítica devido ao número insuficiente de técnicos e por isso a greve já sabíamos, ia complicar o sistema. Houve, de facto, dezenas de chamadas para o 112 acumuladas em linha, com tempos de espera que em alguns casos foram superiores a meia hora. Mas não é o dinheiro dado aos técnicos, não é uma negociação com os técnicos ou com os sindicatos ou com quem quer que seja, e dar dinheiro e resolver logo as negociações, que se resolve tudo e que impede mortes. Nem vamos ser aqui populistas ao ponto de fazer isto assim. Tudo isto é inadmissível. É verdade que tudo isto é inadmissível, mas o que é preciso é de uma vez por todas agarrar numa folha em branco, esquecer ideologias e continuar a pensar que este modelo bonito e maravilhoso, que já foi muito funcional, mas que foi criado há 50 anos, está obsoleto. É pensar tudo de novo, o SNS no seu todo. Não funcionem, por favor.

E precisam de mais pessoas, certamente, Filomena.

Precisa de mais pessoas.

Porque esta greve é às horas extraordinárias, o que significa que o bom funcionamento daquele serviço depende de horas extraordinárias.

Está baseado em horas extraordinárias.

Em pessoas que fazem mais horas do que aquilo que é o regular. Portanto, é que precisam de mais pessoas.

Precisa de ser redesenhado, tal e qual como os médicos.

E provavelmente aqui também a tecnologia nos serviços destes também é fundamental.

Sim, claro que é. Eu já disse, não te conto a experiência que tive, Paulo. Como é que foi ligar para o 112, como é que foi ligar para a Saúde 24, que não foi, não existiu. Nada. É verdade, qualquer uma destas pessoas, que não sabemos quem são ainda, é pai, mãe de alguém, todas estas pessoas estão neste momento a sofrer e a sofrer imenso e a nossa empatia é para com elas.

Mas tudo isto não funciona. Façam de novo, redesenhem de novo, criem de novo, está tudo mal.

Mas além disso, eu continuo sempre a espantar-me cada vez que paramos e temos a noção clara de que há mais uma área do Estado que não consegue prestar o seu serviço.

E a precisar de pessoas também.

E a precisar de pessoas. Agora é o INEM, que é uma área crítica, como é evidente, porque aqui, de facto, isto tem custos para a saúde de algumas pessoas e custos de vida ou de morte. Portanto, aqui não estamos a falar da greve do transporte fluvial em Lisboa, que deixa as pessoas sem o dia de trabalho ou terem que passar três ou quatro horas em transportes alternativos. Não estamos a falar de uma greve do notariado, dos serviços de registo e notariado, que nos vai atrasar a vida mais não sei quantas horas e não sei quantos dias nos processos burocráticos. Aqui estamos a falar, de facto, de questões críticas. Como a Filomena já disse, temos um artigo no Observador que diz que os tempos de resposta vêm a crescer há muito tempo e estão agora no máximo de cinco anos.

De 10 anos em muitas das situações.

De 10 anos. O Público diz-nos também que nos últimos cinco anos, houve uma diminuição de 37% das pessoas que trabalham no INEM.

É um terço.

É um terço, exatamente. Portanto, neste momento trabalham menos 84 técnicos de emergência do que trabalhavam em 2019, que eram 229 profissionais. Não se diz aqui, obviamente, ninguém está a sugerir que houve cortes premeditados no serviço. Aliás, nos últimos anos não houve cortes premeditados em serviço nenhum da administração pública.

Até entraram mais pessoas.

Claro.

Há uma erosão.

Há uma erosão, porque as pessoas vão saindo ou porque se vão reformando, ou porque saem para outras áreas e não são substituídas. Agora, expliquem mais uma vez, eu trago aqui mais este assunto.

Ó Paulo, não são substituídas. É preciso apresentar também porque isso não acontece. Em parte, por exemplo, no caso do INEM, pelo que eu leio no nosso trabalho, até houve concursos, até houve pessoas que tiveram formação e alguns a meio foram-se embora.

Questões das condições que são oferecidas ou funcionamento de serviços, claro.

E muitas vezes tem mais a ver com o funcionamento dos serviços.

Do que o dinheiro.

Do que só com o dinheiro. Pensa-se que atirando dinheiro resolve o problema.

Mas reparem, a questão do dinheiro também...

O funcionamento é muito importante.

Obviamente.

Quer dizer, o dinheiro tem que ser bem aplicado.

Também é importante. Ó José Manuel, mas eu olho para as estatísticas e vejo que nos últimos 10 anos o país tem mais 103 mil pessoas a trabalhar no Estado.

Eu estava a pensar precisamente nisso.

Onde é que eu estou de 647 mil? Pois não as puseram no sítio certo. Agora, mais uma vez, e cada vez que se fala disto, falta de pessoas, desculpem, estas pessoas estão no Estado, estão a receber o seu ordenado. Certamente estarão a desempenhar as funções que lhes pediram. Agora, são as funções certas? Admitiram-se para o sítio certo ou não?

Podemos admitir que também faziam falta, as que entraram para outras áreas também faziam falta nessas áreas. Mas a verdade é que estamos a falar do INEM, falamos de professores, falamos de médicos e há falta de profissionais em todas estas áreas.

Na justiça, no serviço de notariado, em todo lado. Agora, estas pessoas faziam falta. É que os serviços há 10 anos, 2014, estávamos a sair ainda mergulhados, mas já em fase ascendente, se quisermos, da crise da troika, da intervenção da troika. Os serviços públicos não funcionavam pior na altura do que funcionam agora. Não tínhamos estes temas com a saúde, com a educação, com todas as áreas do Estado. Agora, ninguém estuda isto, ninguém olha agora com base nos dados, onde é que estão estas pessoas, o que é que elas foram fazer, porque eu acho que andamos a gastar dinheiro na mesma, o Estado gasta na mesma, e não é por acaso que a carga fiscal tem vindo a aumentar. Pois é preciso pagar uma estrutura, mas é uma estrutura cada vez mais ineficiente. Se nós metemos 100 mil pessoas em áreas que não melhoram a prestação do serviço público numa série de áreas, é porque nós estamos a ser ineficientes no sítio onde metemos as pessoas e nas funções para as que admitimos, basicamente.

Vamos atribuir notas, Paulo, a quem dás no meio disto?

No meio disto, dou um seis, de facto, e não tem a ver com este governo. Estudem o assunto, vejam o que se passa, onde é que estão estas pessoas. Isto dá aspecto de uma certa bandalheira que ninguém sabe o que é que o outro lado está a fazer. Vejam isso, o país está a gastar dinheiro, ponham pessoas é nos sítios certos, de alguma maneira.

O Paulo dá um seis, isto na escala Filomena Martins, para onde vamos?

Vamos muito para baixo. Vamos ter de olhar para isso tudo. E eu continuo a dizer, tem de ser uma folha em branco e redesenhar todo este modelo.

Partir do zero.

Partir do zero. Mas ando a dizer isto há tantos anos que já começo a ficar cansada, porque de facto há aqui sempre a parte da ideologia que conta muito. „Ai, porque isto está tudo bem, ai, porque temos um modelo tão bonito.” E de facto, tivemos um modelo muito bonito, só que já não está funcional e é preciso, mesmo sendo este modelo, redesenhá-lo a esquadra e papel, para que ele fique funcional, porque nós só estamos a fazer remendos e cada remendo nós sabemos o que é que acontece. É como aqueles carros velhos em que a gente atira dinheiro para cima dele, atiramos dinheiro, mas aqueles já sabemos que nunca vai funcionar. Portanto, para quem redesenhe esse modelo, eu daria um 20. Enquanto ele não for redesenhado, eu continuo a dar zeros.

Sim, fica esse zero. Há uma outra avaliação que está a ser feita, José Manuel, que é as aprendizagens, as provas de aferição, os resultados foram conhecidos ontem e não foram famosos também, antes pelo contrário.

Eu acho que foram mesmo catastróficos. Quer dizer, o trabalho deve estar hoje no Público, com detalhe, com os gráficos, como nós dizemos, infografias, tecnicamente. E não é só a evolução que é trágica, é o grau, a dificuldade em realizar, por exemplo, operações matemáticas o mais simples possível.

Falamos do quinto e oitavo ano, não é?

De quinto e oitavo ano, exatamente. A dificuldade na oralidade. Enfim, aí eu até poderia encontrar uma explicação no sentido de termos hoje em dia escolas onde há cada vez mais filhos de pessoas que não nasceram em Portugal e, portanto, a oralidade poder ser um problema, e seguramente que é, mas quando olhamos para outras áreas, vemos que os problemas-- sabes qual é a única área que está melhor? Educação física. Não creio que o futuro do país seja formar Ronaldos. Eles todos podem ser Ronaldos. Mas eu não acredito muito nestas avaliações, nunca acreditei. Acho que é um dos legados pesados do anterior ministro da Educação, que foi o papa de todas essas mudanças em 2016. Acabou com o sistema de avaliação que existia, quebrou, mudou os anos em que ele era feito, introduziu métodos novos. Este sistema de provas de aferição nunca foi levado a sério pelas escolas, nunca foi levado a sério pelos pais. Chegou ao ponto do tipo das perguntas serem enviadas antes para as escolas para preparar os alunos, que é uma coisa inimaginável, e mesmo assim é uma catástrofe. Felizmente, o atual governo vai mudar a forma como isto é feito, vai recolocar provas que não contam para a avaliação final, mas que têm outro nome e, sobretudo, só no fim do ciclo de avaliação. Isto é, no quarto e no sexto ano, e não a meio de ciclos de avaliação, porque aí não servem rigorosamente para nada. A ideia peregrina de que fazendo uma prova destas a que os alunos não ligam e a permitir que um génio, antigamente na 5 de Outubro, atualmente na 24 de Julho, são ruas de Lisboa, onde ficam prédios muito grandes que pertencem ao Ministério da Educação. Um desses génios ia dizer: "O professor da escola de Freixo de Espada à Cinta não está a ensinar aritmética como devia ser. Nós é que sabemos como é que se ensina aritmética." Não é assim que as coisas se fazem. Esta ideia peregrina das provas de aferição, que um dos princípios era este, era ir explicar aos professores que estão no terreno. Um burocrata do ministério explicar aos professores que estão no terreno, em vez de ser o diretor, em vez de ser a comunidade local, em vez de ser a proximidade, ser a distância a resolver os problemas. Tudo isto correu catastroficamente, está a correr catastroficamente em todas as áreas. Felizmente, vai acabar, mas para o estado em que infelizmente a nossa escola está e as dificuldades que tem, vão faltar professores. Vamos ter cada vez escolas, sobretudo a partir do básico, neste momento já no básico, nos primeiros anos do básico, com quatro, cinco, seis nacionalidades lá dentro, que para os professores é muito difícil, para os alunos, porventura, ainda é mais difícil, a não ser quando estiverem no pátio uns com os outros, onde eu espero que festejem para que no futuro tudo seja melhor. Com tudo o que sabemos que tem acontecido neste sistema educativo português, esta informação de hoje é muito deprimente. E eu nem sei bem que nota quero dar, porque aquilo não é por notas, é por cumpriu, não cumpriu. Tudo aquilo é uma trapalhada e se calhar vou dar um 1, porque é 1%, penso eu. Me queria enganar no número exato. Foram aqueles que tiveram bom aproveitamento em matemática. Portanto, bom aproveitamento, 1,6. Matemática e Ciências Naturais, no quinto ano, foram 1,6 aqueles que conseguiram resultados nos domínios testados.

Fica 1 então.

1,6. Arredonda para dois. Eu vou ser generoso porque é sexta-feira.

É sexta-feira.

Outro minuto para redesenhar.

É isso. E o Bruno quer dar nota a Tiago Maiã Gonçalves.

E é uma nota baixa, podemos já despachar aqui e tirar do caminho a questão da nota. É uma nota baixa, vou dar um 2 a Tiago Maiã Gonçalves, que se demitiu da presidência da União de Freguesias de Aldoar, Foz do Douro e Nevogilde, por razões que são um bocado incompreensíveis, revelam um amadorismo, uma falta de atenção, de cuidado, que é verdadeiramente inadmissível para alguém que tem aspirações políticas, apresentou-se como candidato à liderança da Iniciativa Liberal. E isto também é grave, acaba por ser grave para a própria Iniciativa Liberal, porque a principal alternativa à atual liderança do Rui Rocha fica muito debilitada. Provavelmente está a pensar se concorre ou não. O que é que aconteceu aqui?

Rapidamente, Bruno.

Muito rapidamente. As associações e coletividades da freguesia têm direito a apoios, têm de apresentar candidaturas a esses apoios, depois a freguesia constitui um júri para definir quais são as associações apoiadas e tem de enviar um relatório para a autarquia, para o município do Porto, para que esses valores sejam aprovados. Ora, esta freguesia, presidida por Tiago Maiã Gonçalves, falhou todos os prazos para o envio do relatório para a autarquia, pondo em risco o financiamento, os apoios a estas coletividades e associações. E depois aparece um relatório com assinaturas falsas. Tiago Maiã Gonçalves só não leva um zero porque veio assumir a responsabilidade. Eu não sei se a responsabilidade foi mesmo dele, mas assumiu a responsabilidade como lhe competia também. Mas tudo isto é revelador de um amadorismo. E quando estamos a falar de dinheiros públicos, algo a que a Iniciativa Liberal é tão sensível, de um amadorismo verdadeiramente inadmissível, incompreensível. Eu percebo que ele assuma a responsabilidade e esteja, e bem, a ponderar desistir da corrida à presidência, à liderança da Iniciativa Liberal. Mas é um caso estranho e revelador ao mesmo tempo. Revelador de grande incompetência e amadorismo. Um 2, a nota negativa para Tiago Maiã Gonçalves.

Isto hoje está muito miserável, vocês merecem um fim de semana. Merecem o fim de semana, sábado e domingo, e o vencedor é sempre depois da síntese das 10:30 da manhã. Nós voltamos na segunda-feira, mais inspirados e mais generosos. Até lá.