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E o vencedor é agora uma versão alargada, a partir de hoje, sempre nas tardes políticas, a partir das 18h10. Durante a semana vão juntar-se a este espaço nomes como Anselmo Crespo, Pedro Benevides, Alexandre Borges, muitos nomes que vão marcar regularmente presença na tarde política da Rádio Observador. E hoje também estamos muito bem acompanhados. Contamos com a análise da Raquel Cassis, do António Costa e do Nuno Gonçalo Poças. Junta-se também a nós, como convidado, Luís Aguiar Conraria, membro do painel do programa Fora do Baralho, aqui na Rádio Observador, e é presidente da Escola de Economia e Gestão da Universidade Domingo. Bem-vindos. Sendo que, Miguel Vitor Dias, hoje vamos começar com uma das notícias do dia.

É o tema trazido pelo António Costa. Boa tarde e obrigado-

Olá, boa tarde, vivá

...por te juntares a nós, que é esta prova prática do impacto das tarifas norte-americanas em Portugal. Os CTT vão suspender o envio de encomendas para os Estados Unidos da América. Acaba por ser um primeiro exemplo de como as tarifas podem ter uma amplitude de aplicação muito grande.

Sim, há várias notas a reter sobre isto. Desde logo, que as tarifas que às vezes apresentamos journalisticamente, as notícias com grandes números, aos milhares de milhões, afetam mesmo a vida das pessoas. E neste caso estamos a falar de exportação, envio de encomendas, de pequenas encomendas de valor até 800 dólares. Os CTT, alinhando de resto com a esmagadora maioria dos operadores de correios europeus, estão a suspender o envio de encomendas até 800 dólares. Por quê? Porque estas encomendas estavam isentas de taxas alfandegárias. E no âmbito das decisões de tarifas impostas pela administração americana, estas embalagens com valor até 800 dólares deixam de ser isentas e passam a pagar taxa aduaneira antes de serem enviadas. Isto parece uma coisa de somenos, mas tem várias implicações. Vamos ver. Implicações do ponto de vista empresarial para os CTT e para empresas de correios que obviamente passarão a ter as encomendas como um negócio muito relevante. Suspender, e o que se trata é de uma suspensão, se espera que estas empresas adaptem e ajustem o seu modelo de negócio, e não só, e mesmo a sua infraestrutura junto do mercado tão importante como o mercado dos Estados Unidos, estas novas regras. E são novas regras que são difíceis. Vou dar um exemplo muito rápido. A facilidade e a desburocratização de enviar pequenas encomendas sem estas exigências alfandegárias tornava a exportação e o envio destas encomendas muito simples. Agora, cada envio de cada encomenda com estes valores baixos exige um processo, uma tramitação, uma avaliação das autoridades americanas alfandegárias e um processo de comunicação das empresas que são responsáveis por este envio, prévio à chegada da mercadoria aos Estados Unidos. Isto exige, como é fácil de imaginar, uma infraestrutura logística, tecnológica, de avaliação, muito superior àquela que existia.

Ou seja, não foi só ficar mais caro.

Não é só ficar mais caro.

É também mais complicado.

É muito mais complicado para quem importa. Já lá vamos a ficar mais caro, porque ficará. E os efeitos até perversos e até regressivos de uma medida destas, nomeadamente para os consumidores americanos. Mas do ponto de vista das empresas, o mercado americano é muito importante. Os CTT tinham feito uma parceria há pouco tempo com o DHL, precisamente para ganhar fôlego para um mercado tão importante como os Estados Unidos. São obrigados, como outras empresas, a suspender estas encomendas por período ainda não definido. Nenhuma das grandes empresas internacionais definiu. Por quê? Porque também estão a tentar perceber qual é o mecanismo, porque o mecanismo de taxas entra em vigor no dia 29, mas ainda não é claro para as próprias empresas de que forma é que isto vai ser feito. Do ponto de vista empresarial, isto é muito importante e para uma empresa como os CTT, que viviam até há poucos anos das cartas e que as cartas obviamente deixaram de ser o ponto principal de negócio.

Passou a ser as encomendas.

As encomendas perderam o negócio deste. Ter um impacto com um negócio destes é muito importante e portanto vamos ver como é que as empresas e as empresas que reagem mais rapidamente a isto, porque obviamente, estar um mês, dois meses ou três meses sem enviar este tipo de encomendas, baixas encomendas, para um mercado como o americano, pode ser perda de negócio estrutural, porque as empresas que querem importar e os consumidores que querem comprar vão escolher tão rapidamente quanto puderem as empresas que mais rapidamente têm estes produtos. Para os exportadores, para as empresas e para a economia portuguesa, também não é irrelevante. Pequenas empresas, e isto também é regressivo desse ponto de vista, pequenas empresas que utilizam os CTT para pequenas encomendas na exportação. Para já, há uma disrupção. Durante algum tempo, não vão poder exportar por esta via. Se exportarem por outra, é mais difícil e também mais cara. Recuperar esse mercado também não é irrelevante o tempo que demora esta paragem nestas exportações via CTT. Do ponto de vista dos consumidores também é interessante porque os CTT, por exemplo, e as empresas, mais uma vez alinhado com as empresas internacionais. Para nos perceberem os nossos ouvintes, vou utilizar esta expressão, sistema privado, o private business, em que o consumidor que compra está disposto a pagar uma taxa superior para ter a entrega, vai continuar a ter acesso a este produto. Ora, isto é regressivo no sentido em que, obviamente Os com maior capacidade financeira vão continuar a poder comprar, seja dos CTT, seja via CTT ou de outra empresa qualquer, pagam a taxa respectiva e estão disponíveis a receber porque querem o produto a tempo e horas.

O consumidor, aquilo que lhe importa menos é quem é que vai fazer a entrega. O importante é receber a encomenda.

E quem está em condições económicas está disponível, é menos sensível ao preço e está disponível a pagar para ter aquele produto 24 horas, 48 horas, três dias depois. Ora, no mercado em que a exportação deste produto, em que o fator preço é decisivo, esse tema já não se coloca, porque obviamente vai ficar mais caro se quiserem importar pagando este preço. Finalmente, terceira nota: como se percebe, no mercado de correio global, em que há uma certa estabilidade e havia para embalagens de baixo valor, isto cria uma disrupção muito grande que vai demorar semanas, à semelhança do que acontece com outros produtos. No caso americano, nós temos percebido isto, há setores que ainda estamos a discutir, a tentar perceber se as tarifas europeias para os Estados Unidos apanham determinados setores, não apanham determinados setores. Neste caso, também acontece o mesmo. É comunicada uma decisão muito em cima da entrada em vigor dessa decisão, com as consequências de incerteza do negócio para todas as partes. O livre comércio e a livre concorrência, neste aspecto, sofrem mais uma machadada e daí eu dou um quatro a Trump por mais esta medida que cria tanta incerteza no comércio global e que impacta o consumidor americano, desde logo, mas também, neste caso, as empresas portuguesas que utilizam os CTT para fazer chegar as suas encomendas e as suas exportações de baixo valor a um mercado tão importante como o americano.

Luís, juntas-te a nós para falar do acesso ao ensino superior e vamos dedicar-nos a isso na segunda parte, mas sobre essa questão das tarifas, não sei se queres deixar alguma achega a esta notícia também de hoje.

A este pesadelo burocrático, que é criar tarifas onde não existem, acrescenta-se outro, mas isto é uma coisa que vai afetar os Estados Unidos e depois, na verdade, também afeta quem exporta para os Estados Unidos, claro, que é o fato de haver tarifas tão diferentes de país para país. Isto já é um pesadelo burocrático quando se diz que as importações pagam uma tarifa de 20% ou 30%. Agora, quando é 15% para a União Europeia, 20% para outro país qualquer, 45 para a China e depois quando é de Portugal, se for de cortiça, pelos vistos a cortiça já não paga tarifas. Outros produtos pagarão. Isto vai criar um pesadelo burocrático que eu acho que a solução vai ser simplificar. Eu acho que é o que vai acontecer e, na prática, espero eu, se calhar passar aqui a confundir os meus desejos com a realidade. Eu acho que na prática, tudo isto nos próximos meses vai ser muito simplificado e vai-se ganhar algum bom senso nos próximos tempos.

Tu tens razão, Luís, porque de facto, mesmo para a máquina americana alfandegária, isto vai ser um pesadelo.

Trabalhar na alfândega norte-americana não será propriamente fácil por estes dias.

Até agora, houve vários adiamentos, que era por causa daquelas maluqueiras do Trump. Um dia antes dizia: "Afinal já não vou aumentar as tarifas para este país." Houve vários adiamentos, mas houve um adiamento de uma semana da entrada em vigor das tarifas, do aumento generalizado das tarifas, porque os serviços alfandegários dos Estados Unidos não se entendiam. E de facto não conseguiam aplicar as tarifas. Havia várias coisas que eram contraditórias umas com as outras, não conseguiam montar um sistema para distinguir o que é que vinha de uns países, o que é que vinha dos outros. Houve até um adiamento que já não foi devido ao Trump ser tão errático, que foi aqueles a que nós nos habituamos a ver na televisão e ouvir na rádio, mas sim um que foi verdadeiramente pelo pesadelo burocrático que estava a ser criado. Eu espero que algum bom senso venha no futuro, mas veremos. Agora, na sequência destas coisas, começam a aparecer nas redes sociais alguns vídeos do Trump dos anos 80, 90. 80 não sei, mas pelo menos dos anos 90, a dar entrevistas para a Oprah e por aí fora. E, na verdade, o homem sempre defendeu isto.

Sempre.

Sempre defendeu isto, ele é muito coerente. Aparecem entrevistas dele há 30 e 40 anos a dizer: "Os americanos estão a ser aldrabados pelo resto do mundo, que temos aqui um déficit, temos de nos impor e temos de impor tarifas." E, de facto, isto é o pensamento económico dele. Mas vamos ver.

Vamos mudar de tema. Raquel Cassis, no teu caso, queres falar das competências das polícias municipais, sobretudo em Lisboa, e essa polêmica, depois dos pareceres pedidos pelo governo não terem dado razão a Carlos Moedas. Há quem tenha razão nesta polêmica, Raquel?

Para pegar aqui, não no tema anterior, mas na expressão que estava a ser utilizada a propósito de como lidar com as novas tarifas e com a burocracia, eu acho que isto é um tema de burocracia constitucional. Carlos Moedas, de facto, tentou ultrapassar aquilo que são as funções atribuídas constitucionalmente às polícias municipais e esbarrou com esse muro de umas normas constitucionais que eu acho que neste momento fazem pouco ou nenhum sentido, porque em cidades grandes como Lisboa e Porto, onde as polícias municipais são constituídas apenas por elementos vindos da Polícia de Segurança Pública, e portanto não há aqui nenhum elemento que não venha da Polícia de Segurança Pública, faz pouco sentido que haja, com as dificuldades que hoje em dia admitimos todos que existem nas cidades, em termos de segurança, de fiscalização, até de polícia de proximidade, que se esteja aqui a criar um muro do que este polícia pode fazer e aquele polícia não pode fazer, sendo que são os dois polícias. Aqui o tema é que as polícias municipais são chamadas de polícia administrativa e basicamente têm que tratar do trânsito, da fiscalização das obras e pouco mais. E se se passar alguma coisa de estranho em termos de segurança ao seu lado, não é sua função acudir a essas emergências ou a bairros na cidade de Lisboa que precisam claramente da chamada polícia de proximidade para evitar que o clima de insegurança aumente. E para tudo isto há 400 efetivos, são atualmente o número de PSPs que fazem parte da Polícia Municipal de Lisboa, que não podem exercer certo tipo de funções. É um bocadinho como aquela história da recolha do lixo nas cidades também, que ninguém percebe quem é que apanha qual o lixo, nem os próprios pessoas que têm essa função e portanto temos o lixo na rua. Aqui temos problemas de segurança com um dispositivo policial, que é policial, mas que está constitucionalmente impedido de exercer algumas tarefas que tem aptidão para exercer. Eu acho que, de facto, não se pode atropelar a Constituição e portanto, nesse sentido, Carlos Moedas está a tentar dar o passo à frente da perna, digamos assim, está a querer avançar para terrenos que constitucionalmente não pode avançar, mas eu acho que está mais do que na hora de colocar esta questão e de se ponderar se não é de fazer uma alteração constitucional, nem que seja pontual, para permitir que uma polícia com o dispositivo que a Polícia Municipal tem em Lisboa, em termos de equipamentos, em termos de meios de transporte, em termos de efetivos, possa efetivamente cumprir a sua função na cidade numa altura em que há falta de policiamento e há problemas de segurança que a isso exigiriam. Só para dizer que isto também não é nenhuma extravagância, nós temos uma empresa municipal, a EMEL, que cumpre funções policiais na cidade de Lisboa, porque assim foi decidido pelo executivo municipal, e essas pessoas, sim, não são polícias, não tiveram formação nessa área, mas cumprem certas funções policiais, nomeadamente algumas das que estão também atribuídas à Polícia Municipal de Lisboa, como rebocar carros, estejam ou não estacionados em estacionamento da EML. E portanto, tendo sido dada esta possibilidade a uma empresa municipal, eu francamente não entendo como é que se continua com umas baias ou umas palas nos olhos a evitar que uma polícia que deveria ter toda a amplitude das suas funções em cidades que começam a ter problemas sérios de segurança, como é que nós desperdiçamos centenas de efetivos que só podem exercer determinadas funções e não aquelas para que foram formados.

E para isso a tua nota vai para quem e qual é?

A minha nota vai um 10 para Carlos Moedas, porque levantou o tema, e não vai uma nota mais alta porque pôr o tema em cima da mesa é mesmo colocar a questão de se rever a Constituição neste ponto, pelo menos nas Polícias Municipais de Lisboa e do Porto, que são constituídas por elementos da Polícia de Segurança Pública.

Nuno Gonçalo Poças, na rentrée queres nos trazer os problemas da demora na justiça, à boleia da notícia do Observador que dá conta de que o julgamento do caso EDP só deve arrancar em 2026 ou 2027. A justiça portuguesa vai continuando a afirmar-se como kafkiana?

Olá a todos. É bastante kafkiano. O tema da justiça normalmente não é um tema muito sexy.

Entende.

Não apela especialmente às emoções das massas, não é uma coisa que mobilize as pessoas excecionalmente, não é um tema que nos ocupe por aí além. Normalmente quando ocupa, no fundo, é para nos queixarmos sem que haja propriamente aqui uma grande notícia. E depois politicamente, normalmente o que serve é para anunciarem uns pactos para a justiça, qualquer coisa assim, umas grandes reformas, umas grandes alterações. Está aí há 40 anos que se fala dos atrasos, da lentidão, da morosidade, do tempo que estas coisas todas demoram. Eu ia pegar neste tema só por uma razão. Não devem faltar aqui muitas semanas para aqueles discursos habituais da cerimónia da abertura do novo ano judicial. Provavelmente teremos discursos que são praticamente copiados de discursos de anos anteriores. As pessoas do costume queixar-se-ão das coisas do costume, ficarão muitas coisas no ar e o assunto vai morrer, porque outras coisas aparecem na atualidade e não vão mudar grandes coisas. Quando foi no início das férias judiciais, eu soube que havia juízes do Tribunal Administrativo, por exemplo, que estavam a ter, e era esse o planeamento para as férias judiciais, cerca de 300 conclusões diárias, ou seja, significa 300 processos por dia aos quais tinham que dar decisão, só relativamente aos processos que tinham sido intentados contra a AIMA, a propósito dos processos migratórios e da lentidão do processo administrativo propriamente dito que ali tinha coído. Portanto, 300 processos por dia acho que nos dá aqui mais ou menos uma ideia, já para não falar tudo aquilo que corre nos tribunais administrativos e fiscais, e já não falando, obviamente, dos tribunais cíveis. Normalmente, nós falamos um bocadinho mais da morosidade da justiça por causa destes grandes processos mediáticos de natureza mais criminal, e queixamo-nos todos bastante disso, etc. Eu, apesar de tudo, consigo compreender que estes megaprocessos, estes processos mais complicados, que implicam investigações mais complexas do âmbito financeiro, é mais compreensível que estes processos sejam mais morosos do que propriamente aquilo que depois passa no dia a dia nos tribunais e que nos vai escapando aqui um bocadinho isto. Não há funcionários suficientes, não há material suficiente. Neste momento, há muitos tribunais espalhados pelo país onde são os juízes a levar resmas de papel e canetas para o próprio tribunal, porque não há material. Os funcionários dos juízes chegam a levar o próprio papel higiênico para os tribunais, porque também não há. Não há manutenção, os tribunais estão, muitos deles, em situações de operação quotidiana muito difícil. Os processos vão-se avolumando. Há muitas comarcas que estão com problemas gravíssimos, porque basta imaginarmos, isto não é um cenário que seja hipotético, são coisas que acontecem mesmo. Nalgumas comarcas onde há um juiz que, por alguma razão, teve que tirar uma baixa, uma licença de paternidade, maternidade, seja o que for, e que de repente está uma série de meses fora do serviço, os processos são distribuídos aos juízes da comarca mais próxima, que não consegue pegar naquilo e, portanto, são processos que estão meses parados sem que alguma coisa aconteça. Isto, de facto, tem um grande impacto na vida das pessoas, na vida pessoal das pessoas, na vida das empresas e da economia, naturalmente. De facto, as coisas não estão famosas, não estão famosas há muito tempo, mas a sensação que se tem tido, para quem trabalha nesta área, é que de há uns anos para cá que as coisas de facto têm piorado. Os processos estão mais lentos, há cada vez mais falta de pessoas. Vou dar aqui até um exemplo prático, se calhar, que é mais fácil de perceber. Há uns anos, não foi há muitos, talvez há dois, três anos, uma pessoa, por alguma razão, fez uma queixa-crime contra mim. Eu fiquei com termo de identidade e residência e fiquei obrigado a uma série de tempos. Fiz a minha defesa no processo do inquérito, fui lá explicar, de facto, o que se tinha passado e o que não tinha. Fiquei à espera, foram ouvidas testemunhas, etc. Passaram dois ou três anos, e eu a dada altura, porque estava um bocadinho cansado e de férias e de me poder movimentar durante mais cinco dias sem ter que avisar o Ministério Público, eu achava até uma coisa um bocadinho humilhante, mas que às tantas se tornava um bocadinho divertida, mas às tantas cansei-me daquilo e ligo para o tribunal e perguntei: "Olhe, eu quero saber o que é que se passa, se vou ser acusado, se não vou, se isto está arquivado, se não está, quero saber o que é que se passa". E a resposta que tive foi: "Não, o seu processo está despachado porque foi arquivado há seis meses, só que nós ainda não o notificámos porque não temos papel". E portanto, as coisas estão mais ou menos neste estado. E eu hoje, de facto, olhei para aquela notícia do julgamento do caso da EDP, que a notícia dizia que provavelmente ele não se vai iniciar antes de 2026, talvez até 2027. É um caso mediático, eu compreendo-o de outra maneira, mas acho que este é um tema que tem que estar um bocadinho mais na agenda, e agora que o novo ano judicial aí vem, acho que se calhar era tempo para nós podermos um bocadinho mais discutir isto e tentar falar sobre isto de outra maneira. Até porque acho que é uma coisa que não gera propriamente grandes desentendimentos ideológicos. Não há aqui grandes clivagens políticas sobre isto. Parece-me uma questão não é de fácil resolução, como é óbvio, mas é pelo menos um tema onde há um consenso mais ou menos generalizado que, de facto, é preciso fazer alguma coisa.

Sim, as soluções é que não têm propriamente consenso. Cada partido acaba por ter soluções diferentes, mas há esse consenso de que há muita coisa para resolver na Justiça.

Sim, mas mesmo as soluções que cada partido tem são muito consensualizadas ou são consensualizáveis. Não é uma coisa impossível. O PS e o PSD nos últimos anos eu não sei quantos pacotes para a Justiça fizeram. Às tantas aquilo-

Ou propuseram.

Ou propuseram e quantas reformas é que se anunciaram. É um bocadinho como aquelas reformas da floresta e não sei o quê, que parece que vem a maior reforma do tempo de D. Dinis. E na Justiça acontece sempre a mesma coisa. A partir de agora é que fica tudo resolvido, e depois afinal não fica resolvido coisa nenhuma. Eu gostava de deixar aqui, não tenho uma nota propriamente dita, mas se calhar vou deixar aqui um 10, uma questão só para ter alguma expectativa de haver alguma coisa que agora no início deste ano, que de facto, com tantos partidos no Parlamento, que haja algum que possa começar a colocar um bocadinho isto em cima das coisas.

A vida das pessoas está em causa, é da economia que nós estamos a falar, de produtividade também.

Sim. Fica esta nota para fechar a primeira parte desta edição de "E o Vencedor É". Vamos fazer uma curta pausa, atualizamos toda a informação e já voltamos. Na segunda parte vamos falar do acesso ao ensino superior. Segunda parte para analisar a atualidade em Portugal e vamos, nesta segunda parte do "E o Vencedor É", falar essencialmente sobre o acesso ao ensino superior. Luís Aguiar Conraria, és atualmente presidente da Escola de Economia e Gestão da Universidade do Minho. Há pouco, o António Costa aqui em estúdio alertava que foi a terceira faculdade com média mais alta no curso de Economia e Gestão.

Muitos parabéns.

Muitos parabéns por isso, claro. Mas ainda assim, o número de estudantes, a nível nacional, colocados em Portugal, foi o mais baixo da última década. Isto deve acender algum alarme.

Deixa-me começar por responder a esse cumprimento. Claro que agradeço, mas eu, de facto, tenho alguma dificuldade em lidar com isso, porque as médias serem altas quer dizer que houve muitos alunos que quiseram entrar e que não conseguiram entrar, e portanto eu não acho que quando isso acontece, estamos a cumprir a nossa função social. Apesar de tudo, somos uma universidade pública. Mas eu percebo, nestes rankings, essas coisas contam. E a minha escola também faz a divulgação nas redes sociais a dizer: "Fomos o número um em Marketing, em Negócios Internacionais e no top três de Economia e Gestão." Também fazemos essas coisas. Mas de qualquer forma, em relação a estes números, e mais do que isso, eu queria falar do debate que tem havido. Deixem-me dar-vos alguns factos. Antes de 2020, o número de alunos que entrava na universidade, nesta primeira fase, estou a usar números comparáveis, andavam ali na roda dos 44 mil. Mais 100, menos 100, mais 200, menos 200, era isto. Andava ali à volta dos 44 mil. E este ano, em 2025, foi 43900, ou seja, está exatamente na linha do que havia antes de 2020. Em 2020, por causa do Covid, foram flexibilizadas as regras, e então em 2020 entraram 51 mil estudantes e nos anos seguintes, entre 2021 e 2024, portanto até ao ano passado, os números ficaram todos entre os 49 mil e os 50 mil. Estáveis. Mais 100 num ano, menos 100 no ano a seguir. Aliás, em 2024 até subiu um bocadinho em relação a 2023. E este ano caiu abruptamente, destes 50 mil que houve no ano passado para cerca de 44 mil este ano. São os tais 6 mil de queda que se lê nas notícias. É natural que seja necessário explicar isto. E podemos discutir muita coisa. Agora, quando os valores estão estáveis durante cinco anos, entre 2020 e 2024 os valores estabilizaram, e em 2025 caem abruptamente, a explicação tem de estar nalguma mudança que aconteceu abruptamente. E o debate público não pode servir para as pessoas encaixarem as suas agendas. Portanto, quais são as principais explicações que ouvi até agora? Já ouvi falar na demografia, que há cada vez menos jovens. Não, a demografia não caiu abruptamente de 2024 para 2025. Pelo contrário, o número de estudantes que existe no 12º ano é estável, é o mesmo que havia nos anos anteriores. Portanto, obviamente, a demografia não é a explicação para isto. Desinteresse dos jovens, porque os ordenados a seguir às licenciaturas são baixos. Mais uma vez, nós podemos achar que deviam ter ordenados mais altos, perfeitamente válido. Agora, obviamente que não é essa a explicação, porque os salários não caíram abruptamente de 2024 para 2025. E aquela que tem sido a explicação preferida de muita gente é a questão da habitação, das rendas serem caras e do custo de frequentar o ensino superior ser muito elevado. Mais uma vez, a habitação tem vindo a aumentar de preço, seja a compra das casas, seja o arrendamento, mas não foi de 2024 para 2025 que isso aconteceu. Isso tem sido uma tendência. Portanto, uma tendência nunca explicaria uma queda tão abrupta. E mais, até diria que essa explicação em si mesma choca diretamente com o facto que é a maioria das vagas por preencher, a grande queda na quantidade de estudantes que estão no ensino superior, verifica-se nas zonas do interior do país, onde precisamente as rendas são mais baixas. Tem de haver um mínimo de lógica no comentário público. Nós não podemos culpar as rendas de Lisboa, do Porto, de Coimbra e de Braga pela queda do número de estudantes do ensino superior, quando as universidades destes sítios basicamente encheram os seus cursos, com uma ou outra exceção. Portanto, obviamente que não foi pelo preço da habitação que houve agora esta quebra. A explicação, por muito que custe às pessoas que gostam de explicações e gostam de teorias de conspiração, é muito simples: é que mudaram as regras de acesso ao ensino superior e voltaram às regras que havia no pré-Covid. E por isso os números voltaram ao pré-Covid. Podemos discutir tudo o resto, a questão da demografia é importante, a questão da habitação é importante, a questão de termos residências universitárias é importante, tudo isso é importante, mas não é essa a explicação para esta quebra A explicação é essa. Na verdade, as regras até são um pouco mais restritivas do que havia na época pré-covid. Houve uma reversão para as regras, depois houve umas alterações que as tornaram mais restritivas. Já agora, isso não tem nada a ver com este governo, portanto também não vale a pena culpar este governo, que esta mudança das regras vem de 2023.

Mas queres partilhar um ou outro exemplo concreto, Luís? Que regras em que houve essa reversão? Faz todo sentido, claro.

Não, a questão das regras tem a ver com as condições que são necessárias pra terminar o ensino secundário. Tem a ver com os exames que se era obrigado a fazer pra terminar o ensino secundário, e durante o tempo de covid isso foi flexibilizado, deixou de ser necessário fazer tantos exames. Temos aqui um pool muito inferior de estudantes a acabar o secundário verdadeiramente.

Agora aumenta o número de provas de ingresso, não é? São necessárias duas.

Essa já é a parte onde agrava comparativamente com o pré-covid, que é uma situação também interessante. Aliás, também mostra que a nossa administração pública é um pouco marada. Isso aí já é uma parte em que, mesmo em relação ao pré-covid, aumentaram as restrições. E este governo apercebeu-se disso. Isto tinha sido decidido pelo governo anterior, em 2023, pelo PS. Em 2025, o governo apercebeu-se de que passaram a ser necessárias duas provas e tentaram flexibilizar. E há um decreto-lei a permitir às universidades mudar as regras de acesso em 2025. A minha escola, mas imagino que muitas outras, tentou aproveitar esse regime excepcional que era dado por esse decreto-lei, porque geralmente as alterações, quando são feitas, só podem ser feitas pra daqui a três anos, que é pra quando um aluno que entra no 10º ano, saber e escolher as áreas com base nas suas expectativas pra entrar na universidade, a partir daí espera-se que as regras sejam estáveis por três anos. Esta mudança legislativa em 2025 a permitir alterações pra 2025, de fato, é excepcional e não deve ser a regra. Mas de fato, esse decreto-lei saiu e várias instituições, entre as quais a minha escola, tentou mudar algumas regras nalguns cursos, mas depois a Direção Geral do Ensino Superior, apesar do decreto-lei, não autorizou. E na verdade, só autorizou para o próximo ano. Vocês vão ver que em 2026, como as regras de 2026 vão ser um pouco mais flexíveis que as de 2025, que as médias vão subir ligeiramente.

Luís, eu acho que é interessante, porque de fato instalou-se a ideia de que a habitação era o ponto, isto é, imediatamente pros grandes centros, que não só não havia professores, como agora também não havia alunos. Porque não há professores a dar aulas em Lisboa, não exatamente no ensino superior, mas no secundário, mas também agora alunos. Mas eu acho que é um ponto que fazes que é importante. Há uma espécie de uma cristalização da ideia de que ter notas elevadas é menos serviço público. Há menos alunos a aceder e, de alguma maneira, isso pode não configurar a prestação de serviço público nos termos em que gostaríamos, que é todos que entendem, querem seguir a universidade, podem segui-la. Mas a avaliação que eu acho que é uma reflexão que ainda não foi feita, é saber se ter 50 mil alunos ou 44 mil alunos é assim tão mau.

Essa é a discussão que eu acho que se deve ter, exatamente. Nós podemos decidir e discutir se as regras devem ser estas ou não. Nós podemos nos dar ao luxo de prescindir de 6 mil alunos do ensino superior, o que é melhor pro país? Eu acho que essa é uma discussão. Ou seja, é melhor que estes alunos nem sequer entrem no ensino superior ou que entrassem em cursos com médias mais baixas, cursos em que obviamente nenhum desses 6 mil iria entrar em Engenharia Aeroespacial, mas se calhar entrar noutros cursos com médias mais baixas. Essa é uma discussão que podemos ter e que eu acho que é interessante.

E até o tema dos politécnicos.

E até o tema dos politécnicos, exatamente. Mas eu, por acaso, aqui vou falar um pouco ironicamente, mas eu acho que isto está alinhado com os atuais tempos. Neste momento, parece que se tornou um consenso nacional de que nós temos imigração a mais e que temos de restringir a imigração. E temos especialmente de restringir a imigração não qualificada. Ora, se nós não temos portugueses para fazer os trabalhos dos imigrantes não qualificados, se calhar a solução é mesmo impedir que eles cheguem ao ensino superior e que tenham grandes sonhos, porque assim eles poderão ocupar os cargos, fazer os trabalhos que estão a ser ocupados pelos imigrantes não qualificados. Até acho que isto está coerente com os ares dos tempos agora, mas vê se de fato os portugueses gostam disto.

É uma visão daquilo que vai acontecendo. Luís Aguiar e Correria, António Costa, Gonçalo Paz e Raquel Cacis, hoje chegamos ao final do nosso tempo. É uma edição de "O Vencedor É" a partir de hoje alargada nas tardes políticas, sempre entre as 18h10 e as 18h50. Amanhã há uma nova edição.