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E o Vencedor é na Rádio Observador, com a Judite França, Anselmo Crespo e o Nuno Gonçalo Poças. Hoje sentados à frente da lareira de São Bento, em duas poltronas. Foi mesmo no Palacete de São Bento, não foi na Sala Oval na Casa Branca, mas parecia. Marcelo Rebelo de Sousa e Luís Montenegro despediram-se numa conversa informal com os jornalistas. O presidente em exercício até referiu que também foi feliz com este primeiro-ministro. Este é um tema a que vamos voltar já daqui a pouco. Temos também o desafio de Luís Montenegro, que quer antecipar as eleições internas no PSD e desafia quem quiser a avançar nestas eleições. Anselmo, isto é caso para citar o Major Valentão do Contrainformação: "Quantos são? Quantos são? Quantos são?"

Olha, é caso para nos rirmos, de facto, porque chorar não vale a pena. Eu acho que Luís Montenegro tinha dois caminhos perante a intervenção pública de Pedro Passos Coelho, sobretudo esta das últimas semanas, que foi mais intensa e mais acutilante. O primeiro caminho era ignorar, ou pelo menos atirar lá como fez o Soares para a frente e depois deixar passar. E o segundo caminho era este, que é, na minha opinião, o mais parvo de todos. E por quê? Porque ao fazer o que fez, o que Luís Montenegro está a dizer é que o elefante que está lá no meio da sala é de facto muito grande. E portanto, por que eu acho que é parvo? Primeiro, porque não é uma questão de atribuir importância, ele está a dar dimensão a um problema que ele tem, de facto, dentro do partido, e não me parece que isso seja muito sensato quando ele ocupa o cargo de primeiro-ministro e quando me parece que tem problemas mais graves com que se preocupar. E o segundo problema desta reação é que é uma coisa quase infantil, eu não tenho outra expressão. É uma reação quase infantil, que não pode ser para levar a sério e que me parece, não falo em nome de Pedro Passos Coelho, talvez aqui no estúdio haja quem possa fazê-lo melhor do que eu.

Não, seguramente.

Mas me parece que por parte de Pedro Passos Coelho-

Está sempre a provocar.

Sempre.

Sempre a provocar o rapaz.

O Nuno não tem um minuto de descanso.

Um dia que ele venha ao Vencedor que não se queixe.

Parece-me que por parte de Pedro Passos Coelho não pode ter outra resposta que não seja a de ignorar esta espécie de desafio. Até porque não entrando outra vez aqui naquela velha tentativa de interpretação do que Pedro Passos Coelho quer, quer avançar, não quer avançar. Acho que isso está mais ou menos resolvido na cabeça de toda a gente, pelo menos a minha está. Acho que o mais relevante daquilo que Pedro Passos Coelho tem dito não é necessariamente se avança ou não avança e em que timing é que acha que deve avançar. Acho que o mais relevante do que o Pedro Passos Coelho diz tem a ver com a forma como ele olha para o país e o desgosto que ele mostra por estarmos a desperdiçar, de alguma forma, uma oportunidade. Por a termos desperdiçado durante os oito anos do governo socialista e por Pedro Passos Coelho considerar que continuamos a desperdiçá-la durante um governo de Luís Montenegro. Eu já disse aqui e mantenho, acho que Pedro Passos Coelho em larga medida tem razão. Não concordo com tudo o que ele diz, mas eu acho que no essencial, Luís Montenegro devia de facto usar estes conselhos de Pedro Passos Coelho a seu favor e não tornar isto numa coisa hostil, que me parece que não vai servir propriamente a causa que Luís Montenegro quer servir.

Nuno.

Nada mal pra um não passista.

Não passista.

Achas que um dia posso ser passista?

Não sei. Não sei qual é o critério, tenho que perguntar aos presos.

Às vezes acontecem coisas a essas pessoas.

Às vezes aos presos também foi bom. O que queres saber?

Quero saber o que tu achas de Luís Montenegro dizer: "bora, avança".

Eu, em geral, concordo com o que disse o Anselmo. Acho que Luís Montenegro podia ter outra, quando disseste que ele tinha duas alternativas, a segunda não era exatamente esta. A primeira era ignorar e seguir em frente. A segunda era dizer: "no fundo, agradeço todos os contributos."

Muito obrigada, claro.

"Muito obrigado e portanto vamos aqui arrepiar caminho." Não foi isso que aconteceu e, na verdade, a expressão mais acertada é mesmo essa, isto é uma infantilidade, é uma criancice. E vem de uma cabeça que, no fundo, apesar de ser primeiro-ministro e líder de um grande, hoje em dia médio partido, mas um partido histórico, que na verdade não saiu de um dirigente de uma concelhia ou de uma distrital. E portanto, na verdade, aquilo que sente é que: "eu tenho aqui um tipo a chatear-me, vou convocar eleições, eu domino a máquina, ganho e acaba-se a palhaçada. E portanto, vou mandar nisto até que me apeteça." Porque é assim que ele está a pensar e é assim que vai fazer. Estás quase a citar Marcelo.

É, era isso que eu ia perguntar.

É triste que seja um primeiro-ministro a pôr-se numa posição destas, quando precisamente, como dizia o Anselmo, mais uma vez, devia ter mais em que pensar. E devia ter olhado até para as questões todas que o Pedro Passos Coelho levantou e perceber De facto, se tem razão ou não. Eu acho, e acho que disse esta semana isto aqui no Contracorrente, que nós estamos todos um bocadinho viciados, estamos um bocadinho marcelizados. Portanto, estamos todos aqui um bocadinho viciados nesta coisa da tática e do que coisa, e de repente aparece o Passos, o que ele quer, o que não quer, e que horas é que vai, a que horas é que não vai, se vai, se não vai, quando, com quem, de que maneira. Quando, na verdade, aquilo que interessa daquilo que ele disse é se ele tem ou não tem razão. Eu acho que tem, em geral. E isso foi muito pouco discutido. E o próprio governo continua a discutir muito pouco. O Hugo Soares ensaiou aquilo na entrevista ao Público, ensaiou uma espécie de resposta nesse sentido, que é: "Não, nós não estamos a fazer reformas. Claro que estamos, baixámos o IRS." Mas pelos vistos, alguma razão estão a dar à crítica que fazem, porque na verdade também não há muito mais para mostrar. E esse é que é o problema. Talvez agora se diga que Montenegro, e eu até certo ponto acho que pode ser um elogio que lhe seja feito, que é, no limite, isto até pode ser corajoso se por acaso tiver oposição. Não acho que seja assim tanto, acho mais infantil do que corajoso. E agora o Passos candidata-se. Pois, é que está mesmo a pedi-las. Porque isto no fundo agora é: "Ah, é? Então agora olha." E depois vamos ver como é que elas mordem. Vamos ver quem é que tem unhas para tocar guitarra. Sim, mas eu não sei se há interesse, se não há. Aquilo que se olha para isto é: "Cala-te e governa. És presidente de um partido, és primeiro-ministro, isso não interessa para nada. A tua legitimidade não está suficientemente assente. És primeiro-ministro, não te sentes confortável nessa posição. O que precisas? Não aguentas uma crítica? É assim tão difícil encaixar?" Quer dizer, o Santana Lopes não pediu uma maioria reforçada ao Congresso do PSD depois do texto da boa moeda. Ficou lá, depois as coisas não correram muito bem, mas ficou. Não foi fazer queixinhas aos militantes e dizer: "Agora venham lá todos votar em mim, metam-se lá todos em carrinhas e obedeçam ali ao chefe da Cantareira para virem votar em mim que eu depois vou mostrar a toda a gente que eu é que sou o maior." Isto é ridículo. Eu acho que o Montenegro não merece sequer oposição, merece um chupa-chupa. Eu agora ia fazer uma pergunta à Judite, mas ela agora não consegue falar. O Santana ainda fez o vídeo do Menino Carreiro, não te esqueças disso. Um homem também chora. Chupa-chupa, Judite. Ela não está a precisar, mas é para a garganta.

Eu não estou a precisar, sim, é verdade. Isto não passa.

Está a precisar de um reforçador mentolado.

Exato, de um Halls. Não, era o professor Bayer, não era?

Doutor Bayard.

Doutor Bayard.

Eu não posso dizer marcas. Doutor Bayard, rebuçados para amar, segundo João Vieira.

Já não existe, não é?

Existe. Eu não posso dizer marcas, o estatuto impede. Pode ser que eles patrocinem aqui o VS D'Orelha.

Eu também não posso. Eu acho, de facto, que isto foi um exercício absolutamente pífio por parte de Luís Montenegro. Pedro Passos Coelho não é pressionável, aparentemente, na mesma medida que Montenegro é pressionável. Montenegro é, de facto, pressionável e ficou muito pressionado com as críticas, quando devia ter feito aquilo que estavas a dizer há pouco, que era: "Muito obrigado, agradeço imenso. São inputs muito importantes para a vida do país e do governo." Agora, fazer uma eleição na qual, obviamente, Pedro Passos Coelho não vai concorrer, como é evidente. Montenegro vai ter um resultado do género Coreia do Norte. Mas Pedro Passos Coelho vai continuar a falar. O problema não ficou resolvido. Pelo contrário, antecipa seis meses as eleições diretas sem razão absolutamente nenhuma para se legitimar, esperando que Pedro Passos Coelho se cale. Eu não percebo como é que Montenegro não percebe que isto foi o pior passo que podia dar. Para já, porque se percebe que está enxofrado. Percebe-se: "Estou muito zangado e, portanto, vou para eleições." Não faz absolutamente sentido nenhum. Acho que, de facto, Luís Montenegro está mal aconselhado. Acho que fazia sentido, como fez, soltar Hugo Soares. Portanto, Hugo Soares reage aí e eu não digo nada, e o Hugo Soares reage. Isso eu acho que fez sentido. Dizer alguma coisa e dizer através do Hugo Soares, o próprio não se punha nesse papel. Agora, depois de ontem ter dito várias vezes, ter mencionado a presença de Pedro Passos Coelho, sem nunca dizer o nome dele durante aquele conselho nacional, é que não faz sentido, é dar o flanco, literalmente. E, portanto, eu acho que tratar Pedro Passos Coelho como inimigo não faz sentido absolutamente nenhum para Luís Montenegro.

Desculpa, ele podia ter feito outra coisa, que era: na semana a seguir, em vez de antecipar eleições, ele podia ter bombardeado o país com as coisas que o governo está a fazer. Olha, a reforma do Estado, por que em vez de antecipar as diretas, não antecipou o que é a reforma, o que o ministro Gonçalo Matias está a fazer? Na saúde, pouco ou muito. Mas por isso é que eu estou a dizer que ele, no fundo, acaba por dar razão às críticas que são feitas. Eu afinal não tenho nada para mostrar. Pronto, mas isso sim era dar uma resposta, que era sempre vista como uma resposta a Pedro Passos Coelho, mas que até ia em linha com aquilo que Pedro Passos Coelho tinha apontado. Estão a dizer que eu não faço nada na saúde, está aqui. Estão a dizer que eu não faço nada na justiça, está aqui. Quer dizer, mostrava serviço. Mas não. Eu acho que o Nuno dizia ali uma coisa que é verdade, que ele nunca saiu da conselhia, mas na verdade, isso é um traço de Luís Montenegro, é um traço político e de personalidade. Tudo em Luís Montenegro é tático, tudo é pensado e calculado, é tudo um jogo político. E depois uma pessoa espreme aquilo e diz: "Ok, mas o que é que saiu daqui para o país? O que é que sai daqui?" Mesmo a forma de governar, a questão da descida de impostos, o achar que baixar impostos é uma reforma estrutural só pode ser para rir. E isso faz com que depois, de facto, fique a ideia, eu sei que percebo que Luís Montenegro não gosta de ser chamado Antônio Costa 2.0, mas de facto, depois fica um bocadinho a ideia de que isto é muita parra e pouca uva.

Também acusou esse toque.

Ele acusou os toques todos.

Sim.

Aquela intervenção, de facto, é notável. Dizer a alguém: "Então venham agora cá dizer que eu não faço nada." E a pergunta necessária é essa: então me diz lá o que é que tens andado a fazer. E a resposta de Luís Montenegro é: "Candidatem-se contra mim. Venham lá agora."

Quer um duelo ao pôr do sol.

Sim, exato. Só faltava andar à bordoada, por meter umas bengaladas.

Isso era mais erudito.

Sim, era mais fino. E de facto, neste momento, nós estamos praticamente à beira de perceber que os últimos 10 anos foram um engodo e que nós estamos com os pirros lá de fora. De repente percebemos que afinal nós não estávamos de boa saúde e muito provavelmente vamos apanhar uma gripalhada daquelas. Com a guerra em cima da mesa, uma série de problemas por resolver, os serviços públicos que não funcionam, o país à beira de sair de uma catástrofe que é preciso recuperar, etc. Tanta coisa para fazer. E vamos ter diretas no PSD. Que interessante.

Vamos deixar as notas para o arranque da segunda parte de "E o Vencedor É". Segunda parte de "E o Vencedor É?", na Rádio Observador, com Nuno Gonçalves Poças, Anselmo Crespo e Judite França. Eu estou a rir-me porque isto é tudo uma galhofa, é um regabofe, mas há notas para dar, meus meninos. Nuno, vamos a notas? Queres dar nota a Montenegro?

Pode ser, mas vou dar uma nota de escola básica, pode ser?

Ok.

Um três.

De um a cinco.

Um três menos.

Um três menos?

Sim.

Um sufmenos?

Sim.

Está bem. Anselmo?

Então, se é para dar de escola básica, eu dou um insuficiente, que era a nota que eu tinha na primária.

Insuf.

Insuf.

Mas tu tinhas insuficientes, Anselmo.

Até à quarta classe não era problema.

Não, nos teus testes.

Não, eu só tinha muito bons e excelentes. Claro que tinha insuficientes, como é evidente. Queres que eu te diga quantas disciplinas?

Eu pensei: "Pronto, agora temia."

Eu tinha, claro que tinha.

Se é assim, se estamos nessa de dar notas de primária, também dou um insuficiente a Luís Montenegro.

Que raio de comentadores são estes?

Três menos, que é para depois melhorar no segundo período. Exato.

Subvertem as regras todas disto, ninguém me respeita. Hoje tivemos uma cena que reputo de interessante, porque eu às tantas olhei para o ecrã de uma televisão, para um aparelho, e vejo duas poltronas à frente de uma lareira com um presidente da República de um lado, o primeiro-ministro do outro, e eu disse: "Oh diabo, o Montenegro e o Marcelo estão na Sala Oval." Mas não, era no Palacete de-

Visto que não é tão mau gosto, não está tudo emourado e tupistitado, não é a Sala Oval.

Faltavam os dourados.

Exato.

Não tenho nada contra os dourados, mas faltava a homenagem ao rococó. Foi a despedida de Marcelo e afinal Marcelo até foi feliz com o Montenegro, também disse isso, e eficaz.

O Nuno acha que esta despedida nunca mais acaba.

Possa.

Parece aquelas visitas-

A despedida mais longa da história.

Jesus. São aquelas visitas que ficam no patamar a fazer barulho às duas.

"Vamos não sei o quê."

A fazer barulho às duas da manhã.

Sim. Isso já me aconteceu, estar a sair do carro de alguém, já ter as duas pernas de fora e a pessoa não se cala. E agora como é que eu saio daqui? O Marcelo parece igual. De facto, esta despedida está muito longa. E há esse fenómeno engraçado, que eu acho que politicamente Marcelo Rebelo de Sousa pode ser alvo de todas as críticas possíveis, mas do ponto de vista até pessoal e do ponto de vista do entretenimento, é interessante, é aprazível, é agradável. E, portanto, faz algum sentido que ele se despeça de toda a gente dizendo que foi feliz com todos. Parece um "estás-te a rir": "Estás contente?" "Estou!" Ele está sempre bem. Está sempre feliz. E na verdade, eu acho que isso também marca um bocadinho a história de seu mandato. Eu lembro que há uns anos, essa frase não foi muito veiculada, mas há uma peça do Observador, acho que da Rita Tavares, que a tinha mencionado, que era ele numa escola, qualquer coisa assim, nos idos de 2022. Alguém lhe tinha perguntado qual é que seria o seu legado enquanto presidente, o que é que ele achava que ia ser o seu legado. E ele disse uma frase que eu acho bastante honesta e justa até, que era, no fundo, que provavelmente não seria muito mais do que uma nota de rodapé. E eu acho que foi das coisas mais acertadas que Marcelo Rebelo de Sousa disse em 10 anos. Disse outras também, mas essa foi bastante acertada, porque de facto o balanço destes 10 anos não é espetacular. Embora pareça, e foi-nos vendido isso durante muito tempo, mas eu acho que é uma década de oportunidade perdida. Aquilo que podia ter acontecido ao país depois de 2015, independentemente de ter sido o PS ou não, mas também por causa das aritméticas e dos taticismos depois, que nos custaram um bocadinho, não vou dizer algum atraso, mas pelo menos algum não avanço, em que as coisas ficaram todas mais ou menos paraditas. E houve muita distribuição, houve muita

Reposição?

Não era bem reposição, eram reversões. Muitas reversões, e depois, de repente, havia muito PRR e uma série de coisas que nos foi enganando mais ou menos ao longo do tempo. Houve de repente um boom turístico e houve dinheiro a rodos por todo lado. E nós tivemos durante muito tempo ainda dinheiro muito barato por causa das políticas do BCE. E depois ainda conseguiram andar a vender aquela narrativa de o país estar a crescer acima da média europeia, que era uma coisa genial que nos estava a acontecer, sem que se dissesse que França e Alemanha estavam com dados de crescimento económico miseráveis e, portanto, nós estávamos ali a crescer um bocadinho acima do miserável e portanto isso parecia que era uma grande coisa e não era. E tudo isto teve bastante o beneplácito do presidente da República, que no fundo ele só queria estar bem com todos e ser feliz, e que as pessoas gostassem dele. Eu acho que ele acaba por sair por uma porta pequena, sobretudo em relação à forma como ele entra em 2016, aclamadíssimo, e toda a gente adorava o professor Marcelo, e as acrobacias do professor Marcelo, e as selfies do professor Marcelo, quase o líder político mais amado da história da democracia. Só lhe faltava ter morrido em direto ou uma coisa assim pra ser eterno. E afinal sai sem grandes resultados pra mostrar, com o país meio à deriva, sem saber muito bem pra onde é que vai e praticamente à porta de uma crise. Quer dizer, Marcelo Rebelo de Sousa até elegeu como grande bandeira do seu mandato a questão do sem-abrigo.

Sim.

Que era um ponto importante. E Portugal tem mais sem-abrigo do que tinha em 2016.

Recordámos isso hoje. Fizemos essas contas.

Eu sei que não decorre necessariamente, claro que não, não decorre obviamente das competências do presidente da República, não é sua responsabilidade diretamente, mas muito daquilo que foi seguido, muitas das políticas que foram escolhidas, tiveram o seu amém. E houve muita coisa que ficou por avaliar. Eu lembro-me até de uma série de coisas, tipo a reversão das horas da função pública, das 35 horas e não sei o quê. "Ah, eu promulgo isto e tal, e depois logo vamos ver se a coisa corre bem ou não." E estamos à espera que Sua Excelência diga se aquilo correu bem ou mal.

Eu percebo que Marcelo diga que foi feliz com toda a gente. Ele foi. A questão é se toda a gente também foi. Porque, na verdade, Marcelo, e isso nota-se, tira muito gozo da política, sempre tirou. Mesmo quando era jornalista, ele tirava gozo mais da política do que propriamente do jornalismo. E o jornalismo era só um instrumento pra ele se divertir com a política. E, portanto, não sei se António Costa ou Luís Montenegro ou todas as figuras que conviveram de perto com Marcelo nos últimos 10 anos diriam propriamente que tinham sido felizes com Marcelo. Porque Marcelo fez muita tropelia, fez muita marcelice a muita gente, e sobretudo a Luís Montenegro, e também por isso Luís Montenegro basicamente tentou ignorá-lo o mais que pôde, pelo menos até ao fim do mandato. Mas eu não sou tão duro com o Marcelo como o Nuno, e não tenho a certeza que um dia nós não tenhamos saudades de algumas coisas do mandato de Marcelo, não propriamente da personalidade dele ou da forma como ele é. Porque eu acho que Marcelo era muito difícil ele não sair pela porta pequena. Eu estava a te ouvir e estava a pensar: lembras-te de algum presidente que tenha saído por uma porta grande? Cavaco saiu com toda a gente a dizer que saía pela porta pequena. Sampaio também, sobretudo depois do que tinha acontecido com o que tinha feito ao governo de Santana Lopes. Portanto, acho que dificilmente um presidente em segundo mandato, no fim do segundo mandato, sai com a popularidade em alta e com os analistas a olharem para o fim da presidência como um momento alto. Tipicamente saem como um momento baixo. Eu acho é que nós, em algumas coisas, podemos vir a ter saudades de Marcelo. Acho que António José Seguro é uma carta fechada em muitas coisas. A sensação que eu tenho é que nós achamos todos que conhecemos António José Seguro porque ele foi secretário-geral do Partido Socialista, portanto não é propriamente uma figura desconhecida do país, como seria, por exemplo, o VML se fosse presidente da República.

Mas já passou muito tempo.

Mas já passou muito tempo e eu tenho muitas dúvidas sobre como é que António José Seguro se vai posicionar enquanto presidente da República, nomeadamente numa coisa que eu acho que é um erro que muitos presidentes cometem e que eu acho que Marcelo não cometeu, pelo menos assim que me lembro, tirando no caso de 2017, quando demitiu uma ministra em direto e depois com Galamba, mas que é tentar governar a partir do Palácio. Eu acho que Cavaco tentou fazer isso, acho que Soares tentou fazer isso, acho que Sampaio tentou fazer isso, e eu não tenho ideia que Marcelo tenha tentado fazer isso e não tenho nenhuma certeza se Seguro vai tentar fazer isso ou vai ter uma postura diferente. Porque, de facto, o cargo de presidente da República, em si mesmo, é um cargo unipessoal, depende muito da figura que o ocupa. E isso tem uma razão de ser, não é? Porque depois cada um interpreta aquele cargo à sua maneira. Claro, está lá descrito na Constituição o que é que é suposto o presidente da República fazer, mas a forma como ele gere o mandato depende muito de pessoa pra pessoa. Portanto, eu acho que Marcelo cometeu seguramente muitos erros, levou ao exagero essa sua personalidade leve e bem-disposta e agregadora, e à conta do descrispar o país, de repente, já estávamos todos mais crispados com a descrispação do que propriamente com o resto, porque tudo isto é um abuso. Quer dizer, ele começa e acaba o mandato da mesma forma, a tirar selfies. Quando estavas a dizer que olhaste pra televisão e te assustaste, pensei que estavas a falar do momento da selfie. Não sei qual é a surpresa. Ele tirar uma selfie é a coisa mais normal do mundo.

Agora tirou uma selfie com o governo.

Agora tirou, sim. A não viste?

Não vi. Estava só a explicar às pessoas que podem não ter visto a selfie.

Pronto. E portanto, isto pra dizer o quê? Que eu acho que Marcelo Provavelmente vai acabar uma nota de rodapé. Sim, talvez, mas eu não faço uma avaliação. Acho que o segundo mandato foi obviamente claramente pior que o primeiro. Acho que as circunstâncias também mudaram substancialmente no segundo mandato. Eu, por exemplo, nunca fui da opinião que Marcelo pudesse fazer outra coisa que não fosse dissolver a Assembleia da República das vezes que dissolveu. Nunca vi que a alternativa a dissolver a Assembleia da República fosse melhor a decisão.

Na primeira também foi ele que se pôs a jeito.

Na primeira foi ele que aprovou.

Na primeira foi ele que aprovou, foi ele que se pôs a jeito.

A questão é: quando nós olhamos para esses momentos, pensamos: "Ok, se ele não tivesse feito isto, o que ele teria feito?" O chumbo do orçamento. Estás a falar da primeira, estás a falar de António Costa e o chumbo do orçamento de 2021.

21.

21, certo?

De Marcelo ter dito: "Se o orçamento chumba..."

21 ou 22.

Claro, ele para já não criou, porque não foi o primeiro presidente a dissolver a Assembleia da República depois de um chumbo do orçamento.

Não, mas foi ele o primeiro a dizer: "Se não passar isto, eu dissolvo." Toda a gente esfregou as mãos de contente. "Então vamos todos já para eleições."

A questão é: se não o fizesse, o que é que acontecia? Obrigavas a apresentar um segundo orçamento ou deixavas em duodécimos. Portanto, como eu não vejo que a alternativa à dissolução fosse melhor, eu não tenho essa visão assim tão crítica.

Eu não sabia que era para fazer uma avaliação do trabalho do-

E não era só para avaliar a selfie o encontro com o Montenegro.

Não, era para falar do dia de hoje, obviamente.

Também tens uma selfie com o Marcelo Rebelo de Sousa.

Não. E vi que está até o fim.

Sabes que eu tenho.

Tens?

Tenho.

Entraste no-

Quem é que tirou a selfie, tu ou ele? Acho que é importante.

Foi aqui neste estúdio.

Foi ele, mas foi com o teu telefone.

E eu pensei assim: "Bola, já não escapo."

Já não escapo.

Um abraço ao professor Marcelo.

Há muita gente que tem selfies com o Presidente da República, e isso não há problema nenhum. Vai é deixar de ter.

Exato.

Com este presidente já se percebeu que não há espaço para selfies. E eu acho que é um dia particularmente bom para Luís Montenegro, que de facto nunca teve uma relação fácil com Marcelo Rebelo de Sousa e que não teve uma relação fácil com Marcelo Rebelo de Sousa e mostrou à evidência, deixando às escuras todas as decisões em que o Presidente da República tinha que ser avisado em primeiro lugar, ficava até à última às escuras sem saber qual era a decisão de Luís Montenegro. É evidente que isso tem um passado, tem o passado do Presidente da República ter achado que podia chamar à frente de um grupo de jornalistas estrangeiros, podia chamar ao primeiro-ministro rural. Enfim, não é uma coisa muito agradável e, portanto, a partir daí, Luís Montenegro já não tinha em grande conta a forma como Marcelo Rebelo de Sousa conseguia guardar um segredo. Então a partir daí, a situação piorou. Portanto, eu acho que hoje terem acabado os dois sentados lado a lado numa tónica muito descontraída, faz parte deste fim de mandato, deste ciclo de festas em que Marcelo Rebelo de Sousa tem estado para se despedir. Mas acho que não vale muito e acho que a relação dos dois foi sempre uma relação muito difícil. E, portanto, eu acho que Luís Montenegro está com grandes expectativas do Presidente da República, que vem a seguir, que é mais circunspecto e acompanha mais o estilo de Luís Montenegro do que Marcelo Rebelo de Sousa. É verdade que eu acho que Marcelo Rebelo de Sousa vai ser mais do que uma nota de rodapé na história, exatamente por aquilo que passou, porque passou por datas absolutamente fundamentais do país, nomeadamente a pandemia, por exemplo.

Que foi ótimo, por acaso, para o Marcelo.

Foi ótimo?

Porque foi dos tipos mais coniventes com todos os atropelos constitucionais que foram feitos na altura.

Mas quer dizer, por essas e outras razões vai ficar para a história, não é?

É um bocado triste.

A questão não é se a história é boa, se a história é má. A questão é que eu acho que vai ser um presidente que marcou uma época, independentemente de gostarmos ou não gostarmos da forma como exerceu a presidência.

Vamos às notas.

Eu a este descontraído, esta descontraída despedida, dou um 14.

Eu não vou dar nota, mas acho que o Marcelo se devia candidatar contra o Montenegro.

Devia avançar.

Não dês ideias.

Essa nem tinha pensado nessa.

Isto é o meu lado Marcelito.

Essa é mesmo incrível. SAM?

Olha, eu apesar de tudo, dou um 12 e dou um 12 de balanço do mandato do Marcelo Rebelo de Sousa.

E amanhã há mais, e o vencedor é depois das 08h30 da manhã, nas manhãs 360.