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E o vencedor é da Rádio Observador, edição da tarde. Estamos em direto no FM. Estamos também em vídeo, no YouTube e nas redes sociais do Observador. Em estúdio, Judite França, Raquel Bacasis e Anselmo Crespo. Bem-vindos. Vamos, nesta edição, falar das alterações à lei do arrendamento. Vamos falar disso um pouco mais à frente, porque a atualidade foi engolida por este Ronaldo Gate, creio que podemos dizer assim. E estamos, muito provavelmente, no primeiro dia DC, depois de Cristiano. Raquel Bacasis, o que tens a dizer sobre todo este caso e sobre a forma como é completamente transversal, com as maiores figuras do Estado a falarem também sobre este assunto, ex-presidentes da República, todos os setores com algo a dizer sobre o fim desta era Ronaldo?
Nesse sentido, também me integro um bocadinho no grupo de pessoas que não são particularmente atentas ao mundo do futebol e ao cotidiano do futebol. E eu acho que isto não é uma questão de futebol. É uma questão, de facto, de alguém que ultrapassou todas as fronteiras possíveis e imaginárias para um português, que se confunde com o nome do país. E eu não quero entrar aqui na discussão das razões ou das não razões, etc. Quero apenas dizer que, como portuguesa, fiquei triste e fico triste com isto. Acho uma tristeza de final aquilo que se passou, que do meu ponto de vista não tem volta possível, não há volta possível para isto. E tenho pena, num mundo cheio de dinheiro, cheio de recursos de comunicação, cheio de gestores de negócios, etc.
Gestão de marca.
E de gestão de marca, que não se tenha conseguido encontrar, não digo um bom final para esta história, porque eu acho que a história de Cristiano Ronaldo vai muito para lá do tempo em que ele consegue estar no campo a jogar.
Jorge Jesus e Cristiano Ronaldo não são propriamente duas figuras que possam ser controláveis do aspecto da comunicação.
Sim, mas eu nem sequer vou falar deste episódio em particular. Tendo dito isto de início, acho que é mais ou menos evidente, até ouvindo as discussões dos últimos anos, que Cristiano Ronaldo devia ter preparado um phasing out da sua carreira e sobretudo na seleção. Não estou a dizer se devia estar ou não devia estar. Devia ter encontrado uma fórmula que servisse bem as duas partes. Porque nós ainda há pouco tempo tivemos o mundial e o tema da discussão foi por que o Cristiano Ronaldo estava a jogar. Portanto, isto não é uma questão inventada, é uma questão não preparada. Eu há bocado estava a ouvir a psicóloga que vocês entrevistaram e, não sendo eu psicóloga, aquilo é óbvio. Eu não percebo como é que no meio de tanta gente que Cristiano Ronaldo tem à sua volta, não teve ninguém que, para já, lhe dissesse a verdade e depois que o ajudasse a gerir este final da carreira dele. E eu acho que Cristiano Ronaldo vai continuar a jogar, mas está a jogar na Arábia Saudita, não é que seja propriamente um campeonato, até para mim que não percebo nada de futebol, muito interessante para ninguém.
É bastante interessante a este nível, para quem tiver a ver os vídeos.
É verdade, mas quer dizer, Cristiano Ronaldo já não se importa assim muito, acho eu, com os cheques que vai ganhando, porque já tem cheques suficientes para ir até aos trisnetos dele. Acho que era mais importante, até desse ponto de vista, que as coisas acabassem de uma outra forma. E acho até para Portugal. Eu percebo, apesar de muitas vezes achar exagerada a intervenção e a participação dos políticos em eventos desportivos, percebo muito bem este fenema de hoje do primeiro-ministro, porque eu acho que isto causa um dano ao país, que nós dificilmente conseguimos calcular. Acho que o Anselmo vai falar disso do ponto de vista económico, mas também do ponto de vista do prestígio, de como é que nós tratamos os nossos maiores. E acho que há um eterno concorrente do Cristiano Ronaldo, que não foi tratado assim no seu país, também fez uma outra gestão, mas quer dizer, eu acho que qualquer pessoa no mundo acha isto impensável, não consegue compreender como é que uma coisa destas acontece com alguém que deu a projeção a Portugal. Nos últimos jogos do mundial, nós vimos os estádios cheios de camisolas número 7 do Cristiano Ronaldo, de pessoas que não eram portuguesas, de uma torcida pelo país cada vez que ele jogava, que não tinha em grande parte a ver com as comunidades imigrantes nos locais, porque era Cristiano Ronaldo.
Posso confirmar isso.
Sim, tu estiveste lá.
Sim.
E acho que hoje já se percebeu, à porta do hotel onde está a seleção portuguesa, já não havia lá aquela multidão de pessoas que estavam sempre à espera de ver Cristiano Ronaldo sair. Ele é um ídolo e é compreensível. Eu vou só dar um exemplo comparativo. Também vou me denunciar que já estou um bocadinho velhinha, mas eu lembro quando o Frank Sinatra veio uma última vez a Portugal, foi ao Estádio das Antas fazer um concerto e já tinha 80 e não sei quantos anos. E eu fui e vim na mesma noite ao Porto, porque a oportunidade de assistir a um concerto de Frank Sinatra era uma coisa que fica na minha história.
Que está que ia ser contada.
E portanto, eu acho que muitas destas pessoas, a oportunidade de cruzarem com o Cristiano Ronaldo e o verem jogar é uma coisa que fica para a vida. E, portanto, não querendo achar que por esse critério, ele tinha que jogar até aos 70 anos, como ouvi ontem em muitos comentários, não é isso. Mas acho que independentemente dos humores e dos feitios, era quase uma questão de honra e de prestígio nacional ter tratado disso de uma outra maneira.
Judite, isto tem um impacto para várias marcas, para Cristiano Ronaldo, para a Federação, mas há alguém que sofre mais em todos estes fechos?
É a Federação. Se olharmos para os números, por exemplo, em 2011, a Federação faturava 47 milhões de euros. Para este ano, estima 153 milhões, portanto, é um crescimento exponencial. Para o orçamento do ano que vem, 162 milhões. Por exemplo, o contrato da Puma passou de 8,8 milhões por época para 20 milhões por época. E o plano estratégico quer chegar aos 70 milhões em patrocínios e merchandising até 2036. É um belo plano para 2036, mas o problema é agora, em 2026, porque em 2024, com direitos de transmissão, publicidade e cachês, valeram cerca de 45 milhões de euros nas contas da Federação. Isto é um terço das receitas, que é exatamente onde vive a parte que merece mais atenção. O resultado operacional foi de 2,4 milhões. Quando se fatura 130 milhões e se fica com dois e pouco, não sobra muita folga para o que é preciso. Em maio, o Pedro Proença disse ao Observador que a marca Federação confunde-se com a marca Ronaldo. Também garantiu que a Federação tinha preparado receitas que não dependiam de um só atleta. Estamos a falar de uma empresa em que o principal ativo tem 41 anos e provavelmente era preciso preparar, de alguma forma, uma sucessão, nem que fosse para uma espécie de embaixador.
Certo, mas era nesse aspecto que eu queria tocar, porque Ronaldo pode ser um ativo para esta Federação, não apenas como desportista.
Podia, já não pode.
Não pode desportivamente e parece, de facto, não há sucessão, mas pode continuar a existir futuro para o Cristiano Ronaldo na Federação, noutros papéis.
Certo, é verdade. A seleção não depende da performance do Cristiano Ronaldo no campo. Depende da performance de Cristiano Ronaldo de outras formas, como influenciador, figura pública, etc. Isto está-se a tornar um caso de Estado, porque o Luís Montenegro, o primeiro-ministro, já ligou a todas as partes envolvidas.
Judite, vou te interromper momentaneamente para escutarmos Jorge Jesus, que vai falar pela primeira vez neste evento.
O João não recuperou como a gente pensava que poderia recuperar, portanto, não vai entrar no jogo. A linha lá atrás de quatro é a mesma, com o Cancelo, com o Rúben Dias, com o Renato Veiga e com o Nuno Mendes. Depois vão entrar dois jogadores mais frescos no meio-campo, vai entrar o Rúben Neves e o Vitinha, vai entrar o Bruno Fernandes, vai entrar o Rafael Leão e vai continuar o Pedro Neto e o Gonçalo Ramos.
O que pretende com essas alterações, com a inclusão de Rafael Leão?
Jorge Jesus a falar do jogo, está a falar à RTP Notícias. É uma entrevista muito rápida, vamos escutar.
Tem que se fazer. Quando tu tens jogadores com qualidade, tens mais que uma opção, não há hipótese de tu poder arriscar. Pelo menos, este é o terceiro jogador, é o mais cansativo quando tu tens uma equipa que joga. A minha experiência me dita isso. Tens uma equipa que joga um jogo, dois jogos ou o terceiro jogo, aqueles jogadores que jogaram os dois primeiros, vai ser complicado. E principalmente se forem avançados, se forem defesas é mais fácil, são mais posicionais. Então nós lançamos quatro jogadores novos, mais frescos, com o que nos dão garantia. O Rafael Leão, por quê? Porque é forte no contra-um, porque o lateral central que joga na equipe da Dinamarca pela direita é um central lateral, com o que faz com que o Rafael Leão não precise de baixar muito. Isso vai facilitar, penso eu, à partida, o que a gente pensa, no jogo vamos ver. Vai ser mais vantajoso para as características dele. E depois, o facto de não jogarem, do Félix não ter recuperado. Eu podia arriscar, podia ter lançado o Félix no jogo, mas era o terceiro jogo e sei que ia não ter o Félix para o Dragão.
Uma coisa, temos que lhe perguntar, obviamente, sem rodeios nenhuns. O Jorge Jesus tinha feito alguma coisa diferente daquilo que fez nos últimos dias nesta questão toda com o Cristiano Ronaldo?
Repara, o importante agora, hoje é dia de jogo, é focar o jogo. Depois vou para o Dragão e focamo-nos no jogo do Dragão e depois certeza que a gente tem tempo para falar sobre isso.
É um assunto encerrado.
Neste momento é, neste momento é o jogo.
E este jogo pode catapultar Portugal para os quartos-de-final?
Mais três pontos, se ganharmos, fica tudo em aberto, mas não dá garantias de nada.
Muito obrigado, Jorge.
Jorge Jesus a falar à RTP Notícias no momento em que chega ao estádio, em que divulga esse 11 para o jogo frente à Dinamarca E que acaba por não responder propriamente a questões sobre o Cristiano Ronaldo e dizer que agora quer concentrar-se no jogo. O Jorge Jesus que vai falar também a outros canais que vão transmitir este encontro e se abordar esse assunto Ronaldo, aqui vamos trazer essa declaração de Jesus à antena da Rádio Observador. Mas Judite, lá está.
Faltava-me dizer o meu vencedor, para acabar.
Sim, mas estamos a transmitir declarações de Jorge Jesus no vencedor precisamente por causa do impacto que tem também.
Claro, tem imenso impacto. Eu dou como vencedor o Cristiano Ronaldo, não pela forma, porque sair na véspera de um jogo, quando se é capitão, tem pouco de capitão, mas eu acho que ganha porque mostrou que a seleção precisa mais dele do que ele precisa da seleção.
Seleção ou federação?
Neste caso, confunde-se, a seleção e a federação.
É uma pergunta bastante pertinente.
São diferentes.
Aqui é a federação.
Neste caso, a federação.
A federação.
Muito bem.
E o derrotado é mesmo a federação. Passou 20 anos a vender Cristiano Ronaldo, e bem, mas não preparou o dia seguinte.
Fonseca, ficámos de falar de Cristiano Ronaldo também, deste processo de saída. Como é que vês tudo isto e a forma como também está a ser tratado este caso?
Eu era comentador, se não comentasse também o Cristiano Ronaldo.
Faz parte.
Só uma nota prévia para dizer, eu em tempos fui muito doente do futebol, até fazer profissionalmente cobertura desportiva e do futebol em concreto, e ter perdido, por causa disso, essa doença. Doença no bom sentido, porque eu acho que, apesar de tudo, o desporto e o futebol em concreto é, de facto, um desporto muito apaixonante.
Mas depois de se trabalhar com o desporto, vive-se menos como adepto também.
Sim, eu perdi isso. Não acontece a toda a gente.
Posso confirmar isso também.
Eu perdi isso. Mas eu fiz só este ponto prévio para explicar o meu ponto hoje sobre este tema do Ronaldo. Eu não vou dar para o auditório quem é a favor do Ronaldo, quem é a favor de Jorge Jesus ou quem é a favor da federação. Acho que o país já está inundado dessas duas trincheiras. Tenho, obviamente, a minha perceção, a minha opinião, mas acho que é completamente irrelevante para o debate que está em curso. Queria só dar duas notas. A primeira tem a ver exatamente com o lado financeiro que falámos aqui na primeira parte. Eu acho que o que está a destruir o futebol é a dimensão astronómica do dinheiro que ele produz. Acho que é isso que está a destruir em grande parte o futebol. Estamos a ver o que tem acontecido com a FIFA nas últimas décadas, já agora, não é nos últimos anos, é nas últimas décadas. Quem quiser saber mais pode ver uns documentários bastante interessantes na Netflix.
Basta olhar para os chefes da FIFA.
Basta olhar para o atual e para o anterior, para o Joseph Blatter. E tudo isto, no fim, resume-se a dinheiro. E é esse dinheiro que os apaixonados pelo futebol vão alimentando a máquina, que eu acho que em grande medida está a destruir o futebol. E é por isso que depois as nossas conversas em torno deste debacle entre Cristiano Ronaldo e Jorge Jesus acabam no prejuízo que isto provoca à federação e à seleção nacional, porque a seleção vale X com Ronaldo, vale Y sem Ronaldo. E o primeiro-ministro e o presidente da República, acho que ainda não ouvi.
Este não.
O AEs já falou.
O primeiro-ministro está preocupado também. Está preocupado com a reputação. Atenção, que a reputação aqui traduz-se-
A reputação do futebol, eu acho.
A reputação aqui traduz-se em dinheiro. Nós podemos dar as voltas que nós quisermos, mas a reputação traduz-se em dinheiro. Não é por causa de Cristiano Ronaldo jogar ou não jogar na seleção, que o rating da dívida desce ou sobe. Não é por causa de Cristiano Ronaldo jogar ou não jogar na seleção, que Portugal é mais bem visto ou mais mal visto lá fora. Obviamente, há uma reputação nacional. Tens que estar a assumir que o resto do mundo acha que Cristiano Ronaldo está coberto de razão e que a federação e os selecionadores estão todos errados, coisa que eu não dou por garantido.
Eu não sei.
Para acharmos que isto era um problema reputacional para o país. Podemos ver a coisa também ao contrário, quer dizer, é um problema reputacional para o país arrastar um jogador na seleção porque têm medo de falar com ele.
Ou do impacto financeiro que pode ter.
Estão a tratar como se ele fosse uma peça, como se fosse um santo ou um deus.
Mas aí, sim, é a questão financeira.
Não é só a questão financeira, também é questão da reputação. Quer dizer, não há político que queira ser popular neste país, que não queira aparecer ao lado de Cristiano Ronaldo a dizer que se dá muito bem com ele. Porque, obviamente, acham que há uma transferência de simpatia dos adeptos do futebol e de Cristiano Ronaldo para eles. Portanto, há obviamente uma colagem. E atenção, isto não retira em nada o mérito da carreira de Cristiano Ronaldo. Eu não estou a dizer mal de Cristiano Ronaldo. O que eu estou a dizer é que eu acho que há um debate que se está a formar, e atenção, eu acho perfeitamente normal, Cristiano Ronaldo ganhou uma dimensão que é, de facto, supranacional. Ele é uma figura mais relevante a nível mundial do que o próprio país. É inquestionável, parece-me que isso não é objeto de discussão.
É o próprio Trump, que é o Trump, quis aparecer ao lado do Ronaldo.
E o próprio Ronaldo quis aparecer ao lado de Trump.
Mas é mútuo. No caso do Trump, é raro.
Para chegar aqui, há um lado neste debate que eu acho altamente provinciano e há o outro lado deste debate, que eu acho que me deixa profundamente triste, até como jornalista e como pessoa dos media. Ontem assisti, quer dizer, também era impossível, ou não via televisão ou só podia ver isto, não havia mais nada para ver. Mas assisti a muitas longas horas de debate. E o que me deixa triste, por um lado, é perceber que há órgãos de comunicação social que estão completamente manietados pelo patrão Estou a falar da Media Livre. E isso deixa-me triste, porque eu acho que empobrece a democracia. De repente, uma pessoa percebe porque as pessoas estão a defender o que estão a defender, mesmo quando estão a defender o indefensável. E eu acho que isso é profundamente negativo, mas é o que é.
Mas avisado. Deixa-me só pontuar isso, porque no dia em que Cristiano Ronaldo pisou na Media Livre e houve uma conferência de imprensa, pouca circunstância, festejar esses investimentos, o jogador, na altura, presente na Media Livre, disse: "Muitos órgãos de comunicação social falam mal de mim, espero que isso não aconteça."
E o desejo dele concretizou-se. Eu percebo que as pessoas tenham que fazer pela vida. Agora, não venham é dar depois lições de jornalismo, de isenção e de rigor aos outros. Eu percebo, as pessoas, todos nós temos que ganhar dinheiro ao fim do mês.
Certo.
Agora não venham com a autoridade moral que não têm, depois dizer que nós somos mais rigorosos e mais independentes que todos os outros. Acho que ontem, se dúvidas ainda existiam, ficaram absolutamente esclarecidas. E sobre esta ligação, esta tentação política, eu normalmente até discordo muito do Miguel Pinheiro, que tem má aversão a políticos que se colam ao futebol, e eu até acho, muitas vezes, não estou de acordo com as opiniões dele, mas neste caso em concreto, eu hoje lembrei muito do Miguel Pinheiro quando soube da notícia do primeiro-ministro. Não porque eu ache mal que o primeiro-ministro tenha pegado no telefone e tenha telefonado a perguntar, desde logo por uma razão, porque a Federação Portuguesa de Futebol é uma instituição de utilidade pública. E, portanto, eu acho normal que um governo, este ou outro qualquer, se preocupe com o impacto que uma notícia destas tem. Já não acho normal é que o faça saber. Não acho necessário. E acho que só se faz saber porque se quer fazer saber. Acho normal que se pergunte. Acho que à primeira vez que alguém apanhar o primeiro-ministro à frente vai perguntar, como a primeira vez que alguém apanhar o presidente da República vai perguntar. Mas acho que os políticos deviam, e sobretudo aqueles que estão no governo, resistir um bocadinho a esta tentação de se colarem a estes debates. Devem fazer o trabalho que têm que fazer nos bastidores, mas acho que não deviam contribuir para este ruído. E sobre o resto, vou deixar que os comentadores-
Tens uma nota?
Eu posso dar uma nota ao provincianismo, que eu acho que vem um bocadinho ao de si mesmo. Atenção, eu não acho que seja uma exclusividade nossa. Eu acho que se isto acontecesse noutro país qualquer, provavelmente aconteceria. Acho que há países até onde isto aconteceria de forma muito mais dramática, em Espanha então. Basta ver os programas de televisão em Espanha para perceber que isto em Espanha seria muito pior. Mas posso dar uma nota ao provincianismo. Olha, dou um sete, que é o número do Cristiano Ronaldo.
Tens uma nota, Raquel?
Eu tenho um zero.
Para quem?
O triste espetáculo que o país dá com esta situação toda, porque de facto se acontecesse noutro país talvez fosse pior, mas a verdade é que eu me lembro-
Mas nós vivemos aqui
...é que uma coisa desta dimensão não aconteceu nunca noutro país e não acredito que fossem todos muito mais hábeis a saírem de cena do que o Cristiano Ronaldo. Portanto, acho mesmo que foi uma questão de má gestão de todos.
E como eu dizia no início, de facto, este tema acabou por engolir a atualidade, mas ainda temos um pouco de tempo para falar da lei do arrendamento. Raquel, antes dessa questão da lei do arrendamento, ainda temos esta questão do orçamento do Estado para o próximo ano, que para ti já não tem novela, já não é uma novela.
O que eu acho que é uma ótima notícia. Acho que não é uma novela, acho que Zé Luís Carneiro, que é sempre visto por toda a gente como um patinho feio, parece que já tinha feito no passado e volta a fazer uma boa gestão desta questão, não a tornando uma questão. E acho que mais do que fazer um favor ao governo, faz um favor a si próprio e aos outros partidos. Por mais que nós estejamos a ouvir o líder do Bloco de Esquerda e o líder do PC a dizerem que o PS faz muito mal, mas a verdade é que lhes dá palco, aos dois partidos à esquerda, e a Zé Luís Carneiro evita uma discussão que só trouxe maus resultados no interior do Partido Socialista e aos líderes que quiseram travar esse tipo de guerra. E portanto, tem alguma paz para ir construindo o caminho que está a tentar construir, sabendo que no próximo ano, seguramente por culpa do PS, não poderá nunca haver uma crise política.
Judite, quanto a esta questão do arrendamento, há alterações à lei que vão ser discutidas em especialidade. Portanto, aprovadas ontem na Assembleia da República. Há uma questão de atritos. Ou a semana passada terminamos a semana com atrito entre governo e CHEGA, com alguns termos mais acesos, mas quando é preciso negociar e avançar com algumas medidas, esta relação vai surgindo entre CHEGA e PSD.
Pois, durante dias a lei estava condenada. O PS dizia que ia no sentido errado. André Ventura dizia: "Se não for alterado, não passará." Ontem, poucos minutos antes da votação, Ventura e Hugo Soares assinaram uma espécie de acordo. O CHEGA absteve-se e a lei seguiu pra especialidade. Portanto, passou antes de ser alterada, com a promessa de que vai ser alterada. E o acordo tem quatro pontos: travar as cauções e as rendas adiantadas, proteger os idosos com contratos anteriores a 1990, que já estão protegidos, reforçar o apoio aos inquilinos e distinguir quem não paga por abuso de quem não paga porque não pode. E isto é uma diferença em relação à questão dos despachos. Eu acho que o governo conseguiu salvar a lei, deixou é que o Chega decida mais ou menos como é que ela fica.
Sim, que salvamento é que existe, de facto, nas especialidades. Anselmo, queres também abordar este tema? É também sobre esta ligação PSD-Chega e a forma como aconteceu.
E hoje para dar uma positiva ao Chega, que é coisa rara, não tenho muitas oportunidades. Eu ontem disse aqui que achava que era muito importante para o país ter uma nova lei do arrendamento e que tinha muita esperança ou que desejava mesmo que no Parlamento, em sede de especialidade, nós quando falámos aqui ainda não sabíamos como é que ia decorrer a votação na generalidade, mas que desejava que passasse à especialidade e que fosse discutida na especialidade, independentemente de ser com o Chega, com o PS, porque eu acho mesmo que o país precisa de uma lei do arrendamento e, sobretudo, acho que há um chão comum que é os três principais partidos reconhecem que há um problema relativamente à confiança dos arrendatários, dos senhorios e, portanto, se eles reconhecem que é um problema, é preciso encontrar soluções para esse problema. Eu fiquei satisfeito de saber que foi possível, pelo menos nesta fase, haver um entendimento entre a AD e o Chega. Podia ter sido entre a AD e o Partido Socialista, obviamente com as condições a priori que o Chega colocou para esse entendimento ou para deixar passar à fase de especialidade. Espero que a lei seja ainda mais melhorada em fase de especialidade e, sobretudo, que não seja uma lei pH neutro, ou seja, que não sirva para rigorosamente nada. Se é para fazer uma lei, para deixar o mercado exatamente como está, mais vale estarem quietos, não fazer nem nada. Agora, se for para fazer uma lei que, de facto, claro, não há certezas absolutas sobre o impacto, mas em princípio, quando se está a fazer uma lei é porque se estudou, é porque se tem dados, é porque se acredita que as medidas vão restabelecer alguma confiança aos arrendatários e, já agora, com o equilíbrio que é necessário para proteger também os inquilinos.
E acreditas que isso pode acontecer?
Eu quero acreditar que isso pode acontecer. Eu acho que as condições que o Chega colocou para deixar passar à especialidade não parecem nada desproporcionais.
Parecem as condições que o José Luís Carneiro pôs para aprovar o orçamento.
Parecem-me coisas absolutamente razoáveis.
Parecem aquelas que o PSD escreveu para deixar cair.
Sim, até para si, numa leitura mais cínica, podemos olhar assim. E portanto, acho que estão criadas as condições para podermos ter uma lei do arrendamento que, por um lado, tenha algum impacto sobre o mercado e, por outro lado, que não seja mudada daqui a dois anos, porque isso é outra desgraça nacional, que é: muda-se a lei, nem se quer se dá tempo à lei, daqui a dois anos, ideologicamente, não se concorda com a lei, muda-se a lei outra vez.
E continua a crise da habitação.
E continua a crise da habitação. Isso é que eu acho que não faz sentido nenhum. Acho que o Chega, apesar do barulho todo que fez, eu ontem não antevia nada que isto acontecesse, porque pelas declarações de André Ventura, parecia que aquilo tinha um X em cima e já não passava. Acho que hoje o Chega merece um 13 de confiança pela forma como negociou esta lei. Vamos ver como é que ela sai da especialidade.
A tua nota também é para o Chega?
A minha nota também é para o Chega. Se calhar não vou dar um 13, vou dar um 12.
E no teu caso, Raquel, ficou alguma nota para este fim de novela, para essa novela que nunca existiu?
Do orçamento, eu dou um 16 ao José Luís Carneiro.
Muito bem, está feita esta edição de "E o Vencedor É...", estamos de regresso.
Estou generosa.
Estás, mas não há eres.
Com a edição das manhãs.