Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

"Vivo e em História", na Rádio Observador e também em vídeo nas redes sociais do Observador, no YouTube, hoje com a Judite França, o Alexandre Borges e o Rui Pedro Antunes. Eu sou o Ricardo Conceição. Vamos falar sobre a reunião do Conselho de Ministros de hoje, também do PS e de fazer depender, eventualmente, a viabilização da proposta de orçamento do Estado, de uma revisão constitucional em que o PS também entra. Mas vamos começar com a rentrée do Chega, que foi ontem. Rui Pedro Antunes, foi uma rentrée relâmpago, não estava prevista, foi de um dia para o outro, em Santarém, ao final da tarde, com André Ventura a agitar com a kryptonite de Montenegro e do PSD, que é aquela kryptonite, o fantasma de cortar pensões.

Sim, na verdade, a forçar a ter uma reação mais vocal, já lá iremos, por parte do governo já esta quinta-feira. Mas o que eu noto em André Ventura é que deve ser cansativo, de facto, e é desgastante, e acho que isso também desgasta um pouquinho a imagem dele, que ele tem que inventar coisas para estar sempre na mó de cima, na polêmica, e isso muitas vezes não é fácil. É óbvio que há problemas que afetam o Estado e a governação diariamente e todas as semanas ele tem material para o fazer, mas teve que recuperar esta questão que vinha desde a reforma laboral, aproveitando naturalmente o tema da atualidade e essa componente da atualidade do estudo da Segurança Social, para voltar a dizer que defende uma baixa da idade da reforma, que depois na altura até pôs os pés pelas mãos e disse que ia ser só um mês, até pode ser só uma semana antes, até pode ser só alguns dias. E portanto, o que me parece nesta reentrada na cena política do Chega, é que André Ventura tem aqui sempre uma dificuldade, ou teve uma dificuldade maior do que o habitual, para criar polêmica. Já teve que ir buscar este assunto. Depois diz que está preparado para governar, mas diz que não depende dele. E é verdade, mas um dia pode haver vontades, basta que haja vontade de dois dos três para que isso possa acontecer, para que haja eleições antecipadas de alguma forma. Porque se há coisa que o presidente da República pode controlar é não convocar eleições na sequência de um orçamento, mas se for aprovada uma moção de censura ao governo, não há grande margem para que isso não aconteça. E portanto, eu não vi grande novidade neste regresso do André Ventura à cena política, se bem que ele também foi sempre mantendo, apesar de estar fora com alguns vídeos. Não vi grande novidade e vi esta insistência numa altura em que é verdade que o PS e o PSD trocam algumas acusações sobre um que vem os papões que vêm privatizar a Segurança Social e que há um sentido escondido da AD de querer isso para o futuro. E do outro lado, a AD a dizer que é apenas um estudo e que o PS está contra uma reflexão que devia ser mais profunda. Este terceiro elemento não consegue provar muito bem que consegue entrar num debate desta natureza de uma forma que possa ser considerada, ou seja, quem é que era o parceiro, fosse o PS ou PSD, que gostaria de ter o Chega, que tem uma proposta, que tem uma inspiração unicamente populista de baixar a idade da reforma. Se é uma medida boa, claro, qual é o país, qual é a população que não gostaria que a idade da reforma fosse mais baixa? Isso não está em causa. Se quisermos o mérito da proposta, se nós fôssemos um país com recursos infinitos, que na verdade não somos. E portanto, vai buscar esta proposta quase naïf, que não tem nenhuma correspondência com a realidade e que em vez de contribuir para aquilo que é uma discussão sobre como é que pode ser sustentável a Segurança Social e haver alguma confiança naquilo que é no futuro as pessoas terem pensões com níveis que lhes permita viver com dignidade depois de saírem da vida ativa de trabalho, o que o Chega traz é mais confusão, é uma proposta que não tem cabimento e que faz lembrar aquelas propostas do candidato Vieira de um Ferrari para cada português e alcatroar A1 e A2. Isso pode ser.

Alcatifar.

Alcatifar. Mas houve tempos que foi difícil.

Mas acho que alcatroar em alguns pontos...

Eu ainda me lembro bastante, embora eu acho que se calhar sou um pouquinho mais novo que os pais do Vasco, ainda me lembro da A2 estar completa e termos que passar por visos alternativos.

A A2? Se ela não dá um, acabaram ali quase em Vila Franca. Alexandre.

Bom, eu já pensava isto que vou dizer, ontem fiquei com a certeza, que é: a rentrée tem de voltar a começar mais tarde, isto está a ficar como o Natal. Começa demasiado cedo. A rentrée do PSD começou a 14 de agosto, pelo amor de Deus! A 14 de agosto ainda está tudo, ainda nem sequer estamos a meio.

Há pessoas que ainda não foram de férias.

Há pessoas! Recordar que certas e determinadas pessoas ainda não foram de férias. E sentiu-se mesmo muito isso ontem com o André Ventura, e concordando com tudo que disse o Rui, porque houve vários aspetos. Desde logo, até no próprio aspecto do André Ventura, que se apresentou com ar um pouco calmo. Nós antes tínhamos algum tempo para ver: "Olha, esta gente aparece com um ar refrescado, estão muito bronzeados, estão assim, estão assado." Não, André Ventura aparece como se nunca tivesse saído, quer fisicamente, quer depois, de facto, no conteúdo. Curiosamente, esta rentrée marcada à última hora até tem um aspecto diferente Para já, os partidos não estão constitucionalmente obrigados, vale a pena recordá-lo, a terem este tipo de evento, como também não estão obrigados a fazer uma universidade de verão.

Não é obrigatório.

Não é obrigatório. Parece que é, mas não é. Mas quando o fazem, tentam apanhar um outro lado da política mais próximo das pessoas, mais popular, mais na rua, que em teoria seria tudo o que o Chega é. Seria todo o território mais fácil para o Chega. Curiosamente, até se apresentaram num décor mais solene.

Num espaço fechado.

Do que o seu habitual, com bandeiras atrás. E com uma pergunta escrita na parede que dizia: "O que esperar do novo ano político?" E a resposta, aparentemente é: mais disto. Porque de facto, depois no conteúdo, André Ventura foi mesmo puxar todas as do costume. Na Segurança Social, como dizia o Rui Pedro. Ou repete o que a esquerda disse, que não está lá, como comentávamos ainda ontem aqui. Não está neste estudo nenhuma ideia de cortar pensões. Mesmo que estivesse, o governo já disse que isto não vai avançar.

Mas o próprio governo, quando diz: "O estudo é muito bonito, é muito bom, mas vai ficar aqui guardadinho." No fundo, também está a revelar o receio que o estudo ou qualquer coisa que seja feita agora possa ser entendido como um novo ataque do PSD e da direita às pensões.

E aos pensionistas.

Portanto, dá margem para que André Ventura venha com essa carta.

Acho que muito relativamente. Podemos criticar a forma como o governo encomenda um estudo e o desvaloriza logo a seguir. E desvalorizou. Mas a verdade é que desvalorizou, ou seja, não me parece que possa reabrir esse dossiê. O Rui Pedro Costa já irá a esse tema, mas o que ouvimos ainda há pouco a ministra Leitão Amaro dizer acerca do assunto é uma explicação perfeitamente plausível e legítima. Só tenho pena que não tem sido o primeiro discurso claramente a aparecer. Isto é, dizer: este é mais um contributo, tal como o livro verde encomendado pelo governo anterior, para todos nós, governo, oposição, sociedade civil, discutirmos, pensarmos este assunto tranquilamente. Acho que é assim que deve ser.

Daqui a 10 anos.

Mas também é verdade que não estava, acho bem que o governo não avance com isto, não estava no programa eleitoral e era mais uma daquelas que ia explodir em cima desse governo. Então o governo é minoritário. Sabemos que não teria a menor hipótese. O que me faz mais alguma espécie é sabendo disto tudo, que já todos sabemos há um ano e tal, ainda assim, o governo tivesse querido fazer a revelação do estudo agora. Esse poderia ter tido um outro contexto para não o desvalorizar. Agora, o que o André Ventura diz é, por um lado, o que a esquerda diz. Depois diz uma coisa pior, onde a esquerda não diz, é a questão miraculosa quase de querer uma descida da idade da reforma. Onde bate de frente com um ponto que ele próprio depois foi dizer, que foi para criticar o otimismo do Luís Montenegro. Ele depois vai dizer: "O país das maravilhas, o discurso do PM parece que vive num país extraordinariamente rico, onde toda a gente vive bem." É exatamente o que a gente pode dizer a André Ventura. Porque aparentemente acho que vivemos ainda melhor do que o Montenegro acha. Depois vai falar de Luís Neves. Foi exatamente onde o deixámos há 15 dias. Eu fui de férias, André Ventura também, voltou exatamente ao mesmo ponto. E depois agita também a perda da nacionalidade para os imigrantes. Às vezes não entendo o alcance. Acho que há uma intenção qualquer, certamente muito boa, ali neste tipo de estratégia de André Ventura, mas que eu, confesso a minha incapacidade, ainda não entendi. Quando agita esta causa perdida que já foi duas vezes ao poste. E depois vem outra vez citar Sárker Ner, ninguém sabe assim muito bem ainda porque é que agita esta imagem, até falando como sempre o admirou. Lá estava, voltemos ao pai do Vasco, aos pais do Vasco, pode ser aqui a personagem deste nosso episódio.

Estamos a falar de Vasco Maldaner.

Os pais do Vasco Maldaner.

Estava a fazer os noticiários esta tarde.

Recordar-se-ão de Sárker Ner. Não é o caso de André Ventura, que fala como se tivesse crescido nesse tempo.

O próprio Vasco não se recorda.

Como se tivesse crescido nesse tempo e vai citar Sárker Ner pelas razões mais vagas, dizendo: "Não, ele sempre teve a coragem de avançar, até contra o seu próprio partido." Quando há uma coisa que se pode dizer sobre o Chega, e que não é necessariamente má, é que não é exatamente um partido corajoso, é um partido profundamente taticista. E isso não é um pecado, pode sê-lo. Mas o que temos todos acompanhado no Chega é este taticismo que faz com que frequentemente, à última hora, possa mudar a sua opinião ou ter um discurso ambíguo que lhe permita tomar diferentes posições em diferentes momentos, consoante considere isso mais útil à sua estratégia de fundo. Portanto, acho que foi isto que tivemos. Eu diria que às vezes mais vale ter um período de férias um pouco maior, não ter medo dessa ausência no espaço público, se o nosso reset é feito sem um refrescar verdadeiro a nossa mentalidade.

Até porque isto verdadeiramente não para.

Não, isto não para. Mas eu concordo com o Alexandre, cada vez é mais cedo e cada vez o tempo de chamada silly season, que não tem existido, obviamente.

Já não existe há muito tempo.

A existir é cada vez menor, porque de facto as rentrées, e eu já achei isto das últimas duas, acho que foram oportunidades perdidas. Podiam ter sido momentos de reset e, como dizias Alexandre, momentos para de facto haver uma mobilização. E acho que aquilo que André Ventura tentou fazer ontem foi isso, manter o partido em estado de mobilização permanente. E acho que não conseguiu. A história da idade da reforma é repetida, é requentada, é evidente que pode aproveitar agora o estudo, que o estudo nem fala sobre isso. Não havia sequer nenhuma menção no estudo a um aumento da idade da reforma ou um corte na reforma. Acho que a crítica ao estudo de Jorge Bravo foi uma crítica sobretudo ao timing, mas depois entrou nesta coisa dos futuros cortes de pensões, que é só para agigantar o medo de algo que objetivamente não existe. Do ponto de vista técnico e económico, a proposta de baixar a idade da reforma no atual contexto de envelhecimento demográfico, levanta obviamente dúvidas imensas de sustentabilidade, como é evidente.

Mas não há problema, porque isso é compensado pelos imigrantes à espera. Não há o mínimo problema.

Mas de facto, isso não atrapalha André Ventura. A realidade não atrapalha André Ventura, e não atrapalhou ontem outra vez. Depois, falavas da expulsão de imigrantes criminosos. É um dos eixos centrais do discurso de André Ventura, daí a repetição.

Mas se ele já sabe que é inconstitucional.

Não interessa. Também sabe que não vai haver cortes nas pensões.

Pois, é isso que eu não alcanço muito bem.

Vai utilizar os argumentos. São requentados, são os mesmos e não têm adesão à realidade, mas assim se mantêm para mobilizar o seu eleitorado. E eu acho que aquilo que procurou fazer foi reafirmar essa identidade e manter a ligação direta às questões da segurança da sua base eleitoral. E depois, acho que aí serviu a rejeição de ser o papel de muleta e pôr a muleta no Partido Socialista. Acho que isso funciona. Mas o saldo é muito negativo. Se olharmos para o país irreal que André Ventura diz que Luís Montenegro vê, as propostas também de André Ventura são irreais e isso não atrapalha o líder do partido.

Ficaram notas por dar. Os nossos ouvintes ficaram aqui agarrados à telefonia, à espera das notas para a rentrée do Chega. Rui Pedro Antunes, qual é a tua nota?

A minha nota é necessariamente baixa, em coerência com aquilo que disse na primeira parte. Ou seja, André Ventura é sempre difícil subestimá-lo, porque ele é o único líder que, sendo ele o protagonista, sempre que vai a votos, reforça a eleição. Portanto, é legítimo que ele considere que uma ida a votos é sempre positiva para ele, mas na verdade, nada lhe garante, mesmo nas sondagens, que se houvesse eleições em breve, que seria governo. Não há nada que o indique, é mais um desvio à realidade. Além disso, na verdade, não está a conseguir acrescentar e chocar tanto como queria, indo recuperar propostas populistas, que não há outra forma de chamar, que já vem fazendo desde a primavera e, portanto, não houve grande novidade e por isso eu dou um seis a André Ventura.

Alexandre.

É valente.

Não estava à espera . Até doeu.

Quando ouviste uma nota baixa, não estavas à espera que fosse tão baixa.

Tão baixa, exato. Exatamente pelas razões do Rui Pedro e sabendo que Ventura fala ao seu eleitorado, acho que foi um dia de cumprir calendário, e portanto um 11.

Eu dei um 10, porque acho que apesar do contraste entre a eficácia do discurso e a viabilidade das propostas, Ventura consegue fazer aquilo que é manter o partido no centro da discussão. Esse é o objetivo.

E tu queres ir ao Conselho de Ministros, Rui Pedro?

Sim, deixa-me só dizer que eu acho que nos últimos dias tinha-me alertado, eu não vi todas as declarações de Ventura, que ele se referiu ao programa Safe, que é um programa de segurança e defesa da União Europeia, como Safe. Eu não sei, ele safa sempre. Deve ser por isso. Eu não assisti a essas declarações. A minha nota claramente-

Esse programa importa enquadrar, está relacionado com a compra das fragatas na Itália. De repente lembrou-me o festival dos hambúrgueres.

Não, só para dizer que André Ventura safa-se sempre, isso não há dúvida nenhuma. E portanto, está bem aplicada a forma aportuguesada com que ele se referiu ao programa Safe. Dito isto, no Conselho de Ministros, eu aproveitarei para inverter isto, para não haver promo desta vez e posso dizer a nota?

Podes, claro.

Então eu vou aproveitar o facto de já ter dado uma nota negativa para agora dar um 10 ao ministro Leitão Amar, que representa o governo, enfim, pode ser o governo no seu todo. Por quê? Porque eu acho que em matéria de Segurança Social, ele se expressou bem no Conselho de Ministros, e em matéria da entrada do Estado português da REN, continuam a existir muitas questões por responder. Ainda a questão da Segurança Social foi muito curioso, porque em vez de falar sobre o assunto do Conselho de Ministros, aliás, era uma frase que ele utiliza algumas vezes, mas não tantas como utilizava Mariana Vieira da Silva, que era: "Este assunto não foi matéria de discussão deste Conselho de Ministros." E ele iniciou precisamente o briefing a dizer: "Não vos estou aqui para falar, primeiro, uma pequena nota, não sobre o que se passou no Conselho de Ministros, mas sobre o que não se passou no Conselho de Ministros. Nós não discutimos uma reforma, não vamos fazer uma reforma, não vai acontecer." E dizer que é um assunto que está fechado, ele não disse fechado, disse fe-cha-do.

E depois ainda repetiu.

É, para sermos rigorosos, tínhamos que em determinado momento colocar até os tracinhos, porque é hifenizado, é mesmo fechado. E portanto quis lançar, e se a estratégia de comunicação do governo, depois seja eficaz ou não, é dizer claramente não é nada disso, ele foi bastante claro nesse momento inicial ao dizer isso. E enfim, embora as pessoas não estejam a assistir à totalidade, depois é difícil não ser cortada essa parte, estando necessariamente o assunto na ordem do dia. Segurança Social bem resolvido. Na questão da REN O ministro acabou por não dizer qual era o valor.

O valor da venda.

O valor da venda.

Da compra, neste caso.

Acabou por justificar que, na verdade, uma compra em bolsa demoraria muito tempo e acabaria por inflacionar o preço e, portanto não ia corresponder aos interesses estratégicos que iam ter. Disse ainda que era preciso, por aquela participação, pagar acima do valor de mercado e, portanto, não desmentindo e não avançando com o valor, sugeriu que de fato era possível pagar esse prêmio. Lá o tal dono da Zara, além do valor das ações, ele diz que é um valor histórico, não é só a cotação do momento, porque ela é uma montanha-russa. Tentou, de alguma forma, justificar isso. E depois, e também contribui para descer a nota, é uma frase que me parece um bocadinho despropositada, para ser simpático no adjetivo que estou a utilizar. A certa altura, o ministro Leitão Amaro diz que não está em causa uma participação estatal da REN, porque essa participação estatal já existe, só que é do Estado chinês. Ora, a questão, quando se defende a titularidade de uma empresa, não é se existe um Estado estrangeiro por trás de uma empresa, é se o próprio Estado em que ela está é dono da empresa. Ou seja, na verdade, o que está aqui em causa não é a entrada de um Estado estrangeiro a uma empresa controlada por um Estado estrangeiro, é se o próprio Estado onde está a empresa está ou não a comprar uma participação, a nacionalizá-la, a nacionalizar uma parte, está a comprar parcialmente uma parte da empresa. Portanto, isso não tem nada a ver, é um argumento que é um bocadinho descabido. E depois, é por isso e também pelas dúvidas que subsistem. Eu sei que os processos têm uma certa complexidade e tudo é uma negociação, o governo não tem que ter já tudo, mas continua a existir uma grande nebulosa sobre quanto é que é, quanto é que foi pago, quanto é que vai custar. E também não quis falar sobre outras participações estratégicas que eventualmente o governo possa comprar também na área de energia e, portanto, sobre essa matéria continua a existir alguma opacidade. Daí que eu dei aqui uma nota do equilíbrio de conseguiu corresponder àquilo que devia ser a posição do governo sobre a Segurança Social e as pensões. Não foi eficaz na parte da REN, se calhar propositadamente, mas não deixa de passar uma imagem de que o assunto está ali meio escondido ainda, meio protegido.

Judite, queres?

Eu não tive a oportunidade de ouvir estas declarações todas, porque já estava cá dentro. Mas essa menção ao Estado estrangeiro que faz parte do capital da REN foi uma piada poucochinha, porque já agora, por que não comprar, em vez de comprar ao dono da Zara, por não tentar comprar-

A Ana Suspiro fez-lhe essa pergunta e ele optou por não responder. Ou seja, perguntou se uma vez que ele estava a falar nessa titularidade do Estado estrangeiro, como sendo nós compramos uma parte pra também ter uma influência estratégica, se eventualmente o Estado português tinha tentado primeiro-

Comprar a State Grid.

Exatamente. E ele não respondeu a essa questão.

Pois, olha, eu acho que foi uma excelente pergunta, porque de fato, para fazer essa menção, a pergunta óbvia é de fato essa. E acho que de fato é preciso saber exatamente quanto é que se pagou, como é que se pagou, por que foi a Parpública e não foi o tal Fundo Soberano. Não se percebeu ainda pra que serve o Fundo Soberano, mas se é pras participações continuarem a ficar na Parpública, era escusado fazer outro fundo. Mas sim, acho que olhando pra aquilo que foi o briefing do Conselho de Ministros, e eu só ouvi uma parte, como digo, acho que se saiu bem na questão da Segurança Social. Na questão da REN, acho que deixou muitas pontas soltas ainda.

E queres dar uma nota?

Não, é isto. Não, depois do tema seguinte.

Então vamos avançando.

Sabes qual é as três primeiras letras da palavra rentrée?

REN.

REN.

Mas há pessoas que acham que não. Há pessoas que dizem reentrée.

Mas são dois E, não é?

Só no fim, mas há pessoas que colocam no início por causa de reentrada. Mas é uma boa mnemônica.

Sabes que eu aqui tenho uma batalha.

Com isso? Com este assunto?

Sim.

Não é fácil. Lembrem-se disto. O Rui Pedro disse: é REN, são as três mesmas.

Há um áudio meu num grupo interno a chamar a atenção.

Que um dia será vazado também.

É possível, mas é muito inocente. Em que eu chamo a atenção pra necessidade de pronunciar bem a palavra rentrée.

Com ce, com cetaque.

Tu não queres falar sobre isto, Alexandre? Sobre Ministros.

Estava só a pensar que decidimos comprar a parte do dono da Zara e não a do dono da Temu. Desculpem, era só . É pra isto.

E depois desse contributo, esse contributo habilita-te a falar sobre a revisão constitucional.

Imediatamente, faz de mim um constitucionalista, praticamente. Queres que comece eu? O tema era da Judite, mas queres que comece eu?

Sim. Isto aqui não há frenesim.

Isto é de todos. É como a enxada.

Exato, a enxada é de todos.

É da cooperativa. Sobre isto, enfim, não sei em rigor o ângulo. Creio que tem a ver com, já falamos isto um pouco ontem, portanto, tem a ver com o PS deixar claro que a sua exigência de estar na negociação não implica a exclusão do Chega. Pegando também um pouco no que eu dizia ontem, acredito que enquanto condição para a negociação do orçamento, não é por aqui que as coisas darão mau resultado. Todos, enfim, sensivelmente acreditamos, à luz dos acontecimentos hoje, à luz do que sabemos hoje, que o PS quererá viabilizar o orçamento. Agora, o que nós vamos ver, e tudo depende disso, de fato, é da coreografia Que acontece a partir daqui e acho que ela já se começa a desenhar, porque ninguém vai querer sair disto como tendo parecido demasiado fácil, ter saído demasiado facilmente. Toda a gente vai querer mostrar que impôs muito as suas condições. E portanto, vamos ver. Essa coreografia aqui começa com o PS, por um lado, diz isto e depois Sebastião Bugalho diz que não há parceiro preferencial, diz aquela coisa evidente, que tem que ter toda a gente, que o PSD tem que falar com toda a gente, é duvidoso poder-se deixar o Chega de fora, e que vai conversar com todos. Acho que são os primeiros passos disto. Acredito que do ponto de vista da negociação do orçamento não teremos um problema. Se me perguntares do ponto de vista da revisão constitucional, eu tenho as maiores dúvidas de que ela venha a acontecer, de que venha a ser possível. Não acredito, mas enfim, ainda estamos muito longe dessa discussão realmente acontecer. Agora, teres uma revisão constitucional que saia de um acordo entre PS, Chega e PSD, não estou a ver. Acho que isto será importante e lamentavelmente, se calhar, o tema da revisão constitucional vai ser instrumentalizado e desse ponto de vista vai ser muito importante para qual é que vai ser a definição do comportamento destes três partidos daqui em diante. Acho que isto pode ser marcante do ponto de vista do futuro da política portuguesa.

Com o odor já de eleições a pairar também, não é?

Exato.

Judite.

Eu olhei para esta questão dividindo-a entre os protagonistas que aparecem na manchete do Observador, na peça da Rita Tavares, que fala sobre este tema. Eu acho que o PS tenta aqui desenhar uma exigência estratégica. Não pede a expulsão do Chega, porque também sabe que isso seria impraticável, mas tenta condicionar o alcance das propostas, exigir o tal pré-acordo prévio entre os dois partidos, dizendo que são os partidos fundadores da República. Acho que é cálculo político da parte de José Luís Carneiro, porque precisa disto por razões meramente de discurso interno, falo no seu eleitorado de esquerda, porque era preciso vender um trunfo, senão sem isso aprovar o orçamento tout court, acho que seria letal para o Partido Socialista, e portanto acho que é a criação de uma exigência artificial para justificar uma posição de viabilização responsável. Acho que no fundo é isso. Tem um problema que é ao tentar impor ao PSD linhas vermelhas sobre o que pode ou não pode negociar, acaba por parecer refém da sua própria hesitação entre fazer oposição firme ou então ser suporte do governo. Fica ali um bocadinho em cima da ponte. Acho que Sebastião Bugalho, que é outro dos elementos deste artigo, desarmou bem a narrativa do Partido Socialista, apelando simplesmente ao regimento parlamentar, ou seja, do ponto de vista procedimental, é impossível impedir qualquer grupo parlamentar de votar favoravelmente propostas na comissão eventual. Bom, isso é uma lapalisse, mas de alguma forma desarma a narrativa do Partido Socialista. E acho que ganha espaço de manobra ao manter a porta aberta a todos, negociar com todos, que é a expressão, sem se comprometer antecipadamente com propostas mais complicadas do Chega, como a questão da prisão perpétua, por exemplo. O ponto fraco do PSD é continuar a empurrar com a barriga o dossiê para a segunda metade da legislatura, porque tenta evitar o confronto direto com o Chega, obviamente, e com as ideias do Chega, e portanto agora está a utilizar o orçamento de Estado para dizer: "Bom, isto é só para a segunda metade e portanto não me vou preocupar". Acho que, neste caso, o Chega consegue ser o centro de discussão sem fazer esforço nenhum.

O PSD permitiu. Está a deixar que o que vá ficar na discussão vão ser as ideias do Chega, vão ser as propostas do Chega, se devem ou não suscitar uma revisão constitucional.

A simples ameaça do Chega faz com que os outros dois partidos estejam aqui num jogo de xadrez. E é o que normalmente tem acontecido com o Chega e com o PS e com o PSD. O Chega atira o problema e depois PS e PSD andam ali a jogar xadrez. Eu acho que no fim disto tudo, o PSD acaba por ter melhor nota do que tem José Luís Carneiro, porque eu acho que nesta ronda do debate político acabou por se sair melhor, ou seja, conseguiu expor a exigência do Partido Socialista como uma espécie de artifício político, focado apenas no consumo interno, e desarma a pressão socialista, porque recorre às regras formais do Parlamento. E portanto, dito isto, eu dei ao PSD, posso já dar a nota?

Pode, sim.

Dei ao PSD um 13 e dei a José Luís Carneiro um 11.

O Alexandre não chegou a dar nota.

Mas só pensei para José Luís Carneiro e era um 11, justamente.

Rui Pedro.

Não, aqui a aritmética é complicada, não é? O PSD e o PS juntos não têm força para uma revisão constitucional, mas se quisessem triunam sem o Chega Ou seja, há uma aritmética possível, mas o PSD e o Chega sozinhos também não têm. Vocês dizem: "Mas com a Iniciativa Liberal chega-se a essa força." Na verdade, a Iniciativa Liberal também traz problemas acrescidos pra esta discussão, porque a Iniciativa Liberal, se calhar de todos, é o que tem uma ideologia mais marcada. Ou seja, o fato de tanto o PS como o PSD serem partidos catchall. O Chega também se tem transformado nisso, embora com uma inspiração populista. Muitas vezes as pessoas que votam no Chega nem votam por ideologia, ou votam pela figura e pela identificação que têm com o líder e com o que ele diz, ou votam por algumas ideias, não propriamente com aquilo, nem se consideram. Claro que não há dúvidas que o Chega se posiciona à direita. O que também não significa que não haja pessoas que ao longo da sua vida votaram no centro-esquerda e à esquerda, que não estejam a votar no Chega, principalmente porque ocupa também uma área de protesto que antes os partidos da oposição à esquerda conseguiam fazê-lo e que agora também passou muito pro Chega antissistêmico. Portanto, tudo isto cria uma grande problemática. O que a experiência nos diz, mesmo nesta aritmética difícil, é que o PS e o PSD acabarão por se entender em matérias estruturais e esse entendimento até pode ser uma desconstrução de grandes aventuras. Pode ser uma coisa mais minimal, adaptar à inteligência artificial, adaptar àquilo que são os novos desafios, quer do ponto de vista na Constituição, quer do ponto de vista laboral ou aos novos tempos, adaptar, por exemplo, a exigências de segurança destes tempos modernos, não só de cibernética, mas vamos imaginar que na Constituição não era possível a tal questão de proibir a pessoa de tapar o rosto. Mudar coisas que na Constituição possam não estar atualizadas face aos desafios.

A questão dos estados de emergência e das pandemias.

Por exemplo, na pandemia assistimos que na altura se falou numa muito minimal, minimalista revisão constitucional. Isso é o que poderá acontecer. O Chega terá que ter uma atuação mais lateral e aí, claro, o PSD acaba por estar no meio e ser o grande jogador da revisão constitucional. O que me parece aqui nesta matéria é que o PSD também está a tentar ao mesmo tempo, não deixando de ter o Espadinha e o Mugalho a fazer combate político e a atacar José Luís Carneiro nesta matéria, o que está a fazer aqui também é tentar, de alguma forma, não arranjar desculpas ao Partido Socialista para poder não viabilizar o orçamento de Estado. Vimos isso na Segurança Social com esta garantia de existação, isto tudo não é pra agora, mas na revisão constitucional também me parece que não interessa ao PSD estar agora a atacar o Partido Socialista.

Nem a ficar encurralado.

E ao mesmo tempo, do lado de José Luís Carneiro, também não lhe interessa impor uma condição que ele sabe que não é possível ao PSD aceitar. Porque depois corre o risco de ter que ser coerente. Qual foi um dos erros, isto não tem a ver com orçamento, mas de Pedro Nuno Santos, que até arrastou essa discussão por imenso tempo e depois acabou por viabilizar o orçamento, ele que era o todo radical, acabou por viabilizar o orçamento, foi que ele um dia disse que nunca aprovaria uma moção de confiança. E se calhar, hoje ainda seria líder do PS e teria possibilidades de vir a ser primeiro-ministro e estar à frente das urnas, mas ficou agarrado a uma declaração que tinha tido, que era que nunca ia votar a favor da moção de confiança. As pessoas e os votos são eles e a sua circunstância. Se ele percebeu que aquilo era uma armadilha de Luís Montenegro, que ele não percebeu, para ir a votos no meio da Spin Viva e limpar, de alguma forma, a suspeição pública e validar-se de novo em votos, ele poderia votar a favor da moção de confiança e dizer: "Eu não confio neste governo, mas como isto é um instrumento para ir a votos, eu não vou." E não teve essa inteligência. E eu acho que José Luís Carneiro também não quer dizer nada que se arrependa e que depois de alguma forma o force a ir contra a posição que ele quer tomar, que é a abstenção do orçamento de Estado deste ano, porque do próximo, ele já pode ter aquela tendência que nós achamos.

Já está mais consolidado.

Não, acho que o orçamento do próximo ano será muito mais difícil do que este, por várias razões.

E amanhã há mais "E o Vencedor é?", nas manhãs 360.