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Partimos para a análise e avaliação dos temas e protagonistas da atualidade. As escolhas são da Judite França e da Raquel Abecasis, a que se junta hoje a grande repórter do Observador, jornalista da seção de política, Rita Tavares, que acompanha de forma próxima o dia a dia do Partido Socialista. PS que daqui a pouco Vanessa Cruz reúne o novo órgão de aconselhamento da direção socialista.
Está agendada para às 18h30 a primeira reunião deste conselho estratégico. Rita Tavares, bem-vinda. Tendo em conta a composição deste novo órgão do PS, integra vários independentes. Pretende-se replicar os chamados Estados Gerais?
É os Estados Gerais, é as Novas Fronteiras. Não há líder, quase, do PS e de outros partidos também, que quando chega a hora do aperto, não recorra à sociedade civil. Normalmente, é mais perto de eleições legislativas, quando é preciso fazer os programas e apresentar propostas, na tentativa ali de encontrar nomes de figuras independentes que possam não só credibilizar os seus projetos, como ao mesmo tempo potenciar a votação no partido. Neste caso, tão longe de legislativas, o PS tem outras urgências. Tem aqui que dar prova de vida e é isso que José Luís Carneiro está a tentar fazer, ainda que o faça, se nós olharmos em rigor, com figuras que não são muito diferentes daquilo que nós estamos habituados a ver no Partido Socialista, Pedro Siza Vieira, Paulo Pedroso, também foi no início do costismo um dos conselheiros de António Costa. Portanto, há aqui uma série de figuras que não se pode dizer que seja propriamente uma grande alteração em relação àquilo que se tem visto. Há uma novidade mais exótica, se calhar podemos dizer assim, que é a chamada para este órgão de aconselhamento da liderança do Partido Socialista de Filipe Lobo d'Ávila, que foi secretário da Administração Interna de um governo liderado por Pedro Passos Coelho e Paulo Portas, era dirigente, foi aliás vice-presidente do CDS.
Isto é um sinal do posicionamento ideológico mais ao centro que caracteriza o secretário-geral do PS, José Luís Carneiro?
Eu acho que ele está a tentar dar essa prova, de que consegue captar um eleitorado que não deixou de se rever, neste caso, no CDS, no partido da direita conservadora, de onde aliás Filipe Lobo d'Ávila saiu em 2024, acho que foi há muito pouco tempo, desfiliou-se mesmo. Portanto, José Luís Carneiro está aqui a tentar dar essa prova de que o PS vai muito para além das paredes do Largo do Rato e que consegue captar ali nomes de outras áreas, até políticas, mas é pouco para apresentar nesta altura. Mas o partido vai fazendo o que consegue para dar essa prova de vida que precisa numa altura em que está em maus lençóis, em que perdeu as legislativas de forma muito expressiva. Na Assembleia da República é a terceira força política, portanto, resta-lhe agora fazer um caminho para tentar provar que ainda está vivo, que ainda mexe e que ainda consegue fazer proposta política alternativa. Isto quando dentro do partido se debate muito se o partido se deve posicionar agora já como alternativa e cortar os eventuais laços com a AD, aproveitando este desvio da AD mais para a direita, ou se deve continuar a fazer propostas mais de acordo e em áreas de soberania, como José Luís Carneiro tem feito algumas relativamente à AD. Não tem sido muito bem-sucedido nessa matéria, mas é verdade que está hesitante entre as duas frentes.
E nesse sentido, houve, Rita, a preocupação de incluir as diferentes sensibilidades do Partido Socialista neste novo órgão?
Ele tentou fazer isso já na direção nacional, que resultou numa espécie de manta de vários retalhos do partido, com representantes da ala Pedro Nunista, que vinham ou eram mais próximos do líder Pedro Nunes Santos, com outros elementos que podem ser vistos como mais próximos de António Costa. Enfim, juntando também elementos da sua confiança, evidentemente, mas tentou ali compor uma direção que cortasse um bocado com a ideia, ou que viesse aqui tentar pôr travão a uma ideia que se estava, e que não é por isso que também trava, mas que José Luís Carneiro tem uma liderança a prazo e porque está minado por todas estas alas que no fundo só estão à espera do melhor momento para o apearem da liderança e usou aquela estratégia antiga de puxar os inimigos para mais próximo de si e tentar com isso controlá-los de alguma maneira.
Falavas há pouco das diferentes posições relativamente àquilo que deve ser a postura de direção do PS, de maior aproximação à AD ou eventualmente uma posição de rutura com o caminho que tem sido seguido pela Aliança Democrática. Qual dos caminhos é que nesta altura prevalece no seio do Partido Socialista?
É muito difícil dizer, porque há uma ala ali mais crítica, que se evidenciou na reunião da última Comissão Política Nacional, onde algumas vozes como a de Pedro Silva Pereira, José António Vieira da Silva, que não são alinhados com José Luís Carneiro, disseram que era um bom momento para vincar esse PS alternativo e não um PS sempre de mão estendida com a AD. José Luís Carneiro até saiu dessa reunião a endurecer um pouco o discurso, a dizer que a AD tinha que vir esclarecer de que lado estava e para que lado é que pendia. Mas a verdade é que no dia seguinte José Luís Carneiro apareceu Outra vez a fazer uma proposta de acordo Luís Montenegro. Parece que isso ainda não está muito solidificado, ainda não há uma ideia muito clara sobre qual é que será a linha do Partido Socialista que, de facto, está muito preso. Porque se é certo que se o Chega viabilizar o próximo orçamento do Estado, o PS não é necessário, com isso, votando contra o orçamento do Estado, o PS também está a dar um sinal. E é um sinal contrário até àquilo que o José Luís Carneiro disse, mesmo antes de ser eleito líder e logo ali a seguir às legislativas, de que o PS estava disponível para viabilizar o orçamento do Estado, porque isso vinha no seguimento da viabilização do programa do governo, onde o PS participou, e que para executar um programa do governo era preciso um orçamento e era como se isso fizesse parte de uma cadeia de acontecimentos para a governação. O que não for isso, o que não for viabilizar o orçamento do Estado, vai parecer, de facto, uma linha de rutura e depois também coloca as coisas um pouco nas mãos de André Ventura.
Antes de passarmos para o tema da Judite França, só dar aqui nota de que a A2 está cortada nos dois sentidos na zona de Castro Verde. É uma informação da Brisa. Houve um incidente ao quilômetro 185. A A2 está cortada, nesta altura, nos dois sentidos. Fica aqui esta informação de trânsito e agora sim, Judite França, o teu tema neste "E o Vencedor É?" é uma notícia do "Expresso" que dá conta da dificuldade para criar mais vagas no pré-escolar. A oferta adicional que é disponibilizada pelo setor privado não chega para responder às necessidades.
Não chega. O governo quer garantir a universalidade do pré-escolar a partir dos três anos. No fundo, é uma das metas mais repetidas nos últimos anos. A verdade é esta: ainda não vai ser no próximo ano letivo. Faltam vagas, sobretudo onde elas mais fazem falta, que são nos grandes centros urbanos, onde a procura é maior e a resposta é mais escassa. E para tentar tapar o buraco, o governo lançou um concurso para contratos de associação com colégios privados. Havia financiamento previsto para 12 mil vagas. A resposta dos privados ficou muito aquém. Aceitaram abrir pouco mais de mil, menos de 10%. A explicação é simples: o Estado propõe pagar €208 por criança, o setor privado diz que assim não dá, diz que está disponível para negociar, mas com outros valores. Já tinha sido assim com o programa Creche Feliz, que só avançou quando o financiamento foi alinhado com o do setor social. E o problema é que no meio deste braço de ferro entre o Estado e os privados estão as famílias. Famílias que muitas delas tiveram acesso gratuito à creche e que agora, ao fazerem a transição para o jardim de infância, descobrem que vão passar a pagar ou então não têm jardim de infância para os filhos, porque não há vaga na rede pública e o colégio mais próximo, por exemplo, não tem contrato de associação, e portanto, para muitas famílias, a promessa de gratuidade simplesmente não se cumpre. E depois temos números como o do balanço anual de educação, que diz que 94% das crianças entre os três e os cinco anos frequentam o pré-escolar. Só que isto é um número que esconde mais do que mostra, porque uma coisa é estar inscrito, outra é ter acesso gratuito. Em Lisboa, no Porto, no Algarve, na Península de Setúbal, há pais que basicamente desesperam por uma vaga. E depois temos mais dados dos quais não nos podemos orgulhar. Menos de metade das crianças com menos de três anos estavam em creches em 2023. E mesmo com o alargamento da rede, continuam a faltar vagas em várias regiões. A formação dos profissionais, por exemplo, que trabalham com os mais pequenos, ainda é frágil. Só 6% do currículo da licenciatura em Educação Básica se dedica aos primeiros três anos de vida. E já no ensino obrigatório, também há sinais de alarme. O número de alunos carenciados com acesso a bolsa está a cair. Por quê? Porque os critérios de elegibilidade estão desfasados da realidade. O apoio social não acompanha o custo de vida e aos poucos, quem mais precisa vai ficando para trás. No ensino superior, onde o número de bolseiros aumentou, as famílias continuam a suportar um esforço financeiro muito acima da média da OCDE. No pré-escolar, então, a diferença é gritante. Em Portugal, as famílias pagam um terço dos custos. Na OCDE, a média é de 12%. E isto acontece num sistema onde mais de metade dos professores já passou dos 50 anos, portanto, o tempo vai passando, a classe docente envelhece e nós prometemos acesso, prometemos igualdade. Basicamente, prometemos um país onde nascer pobre não signifique ficar para trás, mas não é isso que acontece. E é tempo de garantir, e garantir não é anunciar vagas, é garantir que essas vagas existem e que são para todos, que é aquilo que nós não vamos ter, mais uma vez, no próximo ano letivo.
Sendo que a região da Grande Lisboa é especialmente afetada pela falta de vagas, muito em particular o município de Sintra. E passamos agora para o tema escolhido pela Raquel Pecasois, um dos temas do dia: incêndios. Raquel, queres falar dos fogos e dos riscos políticos associados? Riscos para quem, Raquel?
Quero, mas quero só dar uma nota a propósito disto que a Judite estava a dizer, porque nesses casos em que as pessoas não encontram vagas e têm mesmo que pagar uma creche privada, feitas as contas, sai mais barato que um dos pais se desempregue do que tenha que pagar uma creche ao longo do ano. E é muitas vezes isso que está a acontecer. Aliás, há outra coisa caricata em Portugal, que é quem tem uma criança pequena paga muito mais do que quem tem um filho na universidade, o que também não deixa de ser sintomático.
Ou em qualquer outro ciclo do ensino público, aliás.
Ou em qualquer outro ciclo, sim. Embora é incrível.
Quando se vai exatamente pra frente, é sempre assim.
Vamos aos fogos. Não para falar de fogos cujo tema não sou especialista, embora acho que todos nos tornemos nesta altura do ano, mas para também um bocadinho a propósito do que a Rita estava a dizer e daquilo que nos espera no futuro, porque esta questão dos fogos que estamos agora a começar a viver com grande intensidade, e vamos ver como e até quando, é também simultaneamente uma situação de alto risco para quem está no governo. Já vimos isso noutros anos, já vimos isso no passado, e estamos a começar a ver isso agora. Este governo já tinha um stress político para este verão, que tinha a ver com o SNS e o acesso ao Serviço Nacional de Saúde, e agora esta situação pode alterar os dados do jogo de tudo aquilo que estamos aqui a dizer e que temos vindo a dizer ao longo destes dias sobre aquilo que nos espera na rentrée. Temos uma nova ministra, que é ministra há muito pouco tempo e eu acho que isso também tem aqui algum peso. Nós, na época em que por excelência deveríamos estar a preparar, nesta época de fogos, sobretudo o governo e as autoridades, e em que deveriam estar a ser tomadas medidas para que as coisas não se complicassem muito agora, estivemos em eleições, em campanha eleitoral, em transição de governo e, neste caso concreto, em transição de ministra. E tudo isto traz aqui um grau de incerteza sobre o que é que vai acontecer nos próximos tempos. Eu acho que a forma e a cara do primeiro-ministro à saída da Proteção Civil, quando hoje fez declarações aos jornalistas, mostra esse grau de preocupação com que o governo está e com que ele em particular está, porque é um tempo de incerteza, que pode correr bem ou pode correr muito mal ao governo, e isso pode alterar todos os dados do jogo daqui a dois meses. Vamos ter eleições autárquicas, ainda há mais esse suplemento de estresse político para esta situação, porque muitas destas regiões poderão vir a ser influenciadas no resultado das eleições autárquicas, de acordo com aquilo que está a acontecer neste momento e com a capacidade, a organização e a forma eficaz. Por exemplo, há bocado ouvíamos o António Nunes. Começam sempre estas discussões sobre se já é momento de chamar ajuda externa, se não é momento de chamar ajuda externa, se os meios estão bem coordenados, se estão mal coordenados. Tudo isto acaba por impactar politicamente quem tem a responsabilidade política no momento em que os fogos ocorrem. E portanto, eu acho que para além de ser um momento dramático para muitas populações em Portugal, é também um momento dramático para quem governa, porque de acordo com aquilo que venha a acontecer, e esperemos que as consequências não sejam graves, percebemos que já se aprendeu alguma coisa, sobretudo com a proteção das populações. Mas enfim, estamos só ainda no início e a situação já é a que é ao longo do dia de hoje e ao longo dos últimos dias, e estamos só no início da época mais perigosa de risco de incêndios. Portanto, acho que vamos ter que acompanhar isto com atenção. Acho que depois, ainda por cima, é uma altura em que os políticos tendem e querem ir de férias, mas é uma altura em que no terreno e no país, os políticos são avaliados ao minuto. E portanto, vale a pena estarmos com atenção para aquilo que vai acontecer. Para já, eu apesar de tudo, realçaria a capacidade que esta ministra da Administração Interna tem.
Era o que ia perguntar: do ponto de vista da comunicação, como é que Maria Lúcia Amaral se apresenta?
Do ponto de vista da comunicação, acho que neste primeiro teste, a ministra Maria Lúcia Amaral provou, pelo menos, ter mais capacidade de comunicação e de reação do que teve a sua antecessora. E isso, para já, está a correr bem. Vamos ver, porque tudo aquilo que ela diga é analisado a lupa.
Tive ali aquela afirmação que causou, porventura, alguma estranheza, o facto de afirmar que o número de meios aéreos não são muito importantes para o sucesso do combate ao incêndio.
Embora eu acho que se percebe que o contexto daquilo que ela estava a dizer era que a questão dos meios aéreos não é tudo na questão do combate aos fogos. Usou mal a expressão.
Ou que são irrelevantes.
É, irrelevante. E é exatamente o exemplo concreto dos riscos políticos que neste momento o governo e os governantes correm. É que qualquer palavra que seja dita um bocado ao lado, que não seja a expressão correta e exata para dizerem aquilo que querem dizer, pode ser usado contra si e tem o efeito bumerangue. E portanto, este é de facto um momento em que o governo é posto à prova, independentemente de se justificar com as alterações climáticas, como a ministra já fez, com aquilo que o sul da Europa está a viver, com tudo isso. Mas apesar disso, nada disto é novidade para ninguém. Todos nós sabemos que é assim e temos que estar preparados para isso. Não podemos ser vulneráveis a tragédias por motivos naturais que são previsíveis e que devem ser preparados atempadamente. Não é nesta altura, embora nós só gostemos de falar de fogos nesta altura. Ninguém gosta de falar nem de fogos, nem de prevenção de fogos, nem deste tema durante nove meses do ano. E depois estamos aqui três ou quatro meses completamente focados nisto, e isso tem consequências políticas.
Bom, e por forma a libertarmos a Rita Tavares, que vai precisamente acompanhar esta reunião do Conselho Estratégico do Partido Socialista.
E já agora, apesar de ser por maus motivos, isto pode beneficiar o Partido Socialista e alguma capacidade de recuperação que o Partido Socialista possa ter na rentrée.
A ver vamos. Dizia, por forma a podermos libertar a Rita Tavares, que vai precisamente acompanhar para o Observador esta reunião do Conselho Estratégico do Partido Socialista. Vamos lá a notas. Judite de Sousa?
Eu dou uma negativa ao governo por não conseguir, mais uma vez, dar vagas a quem precisa.
Rita?
A Rita?
A Rita não.
A Rita escreve, não dá notas.
A Rita não dá notas. Ok, então eu dou um 12 à nova ministra da Administração Interna pela capacidade de reação que, apesar de tudo, conseguiu ter, e de comunicação nestas primeiras horas em que ela está a ser mais posta à prova. Vamos ver se esta nota não vai muito para baixo nos próximos tempos.
A ver vamos. Fica por aqui a edição desta terça-feira, segunda edição do dia, de You Vençor.