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E o Vencedor é espaço de comentário da Rádio Observador, edição da tarde, agora com este formato alargado. Hoje prometemos falar das propostas de comissão parlamentar de inquérito aos incêndios. Vamos falar também dos comentários em torno da morte de um forcado e há espaço para uma análise à Universidade de Verão do PSD, que está a decorrer ao longo desta semana em Castelo de Vide. Miguel Viteiro Dias, vamos à nossa equipa de hoje.

Vamos escutar as opiniões da Raquel Abecasis, que tem comentário residente na Tarde Política, também do nosso colunista Alexandre Borges e do Gonçalo Sousa, que podemos ouvir todas as semanas no programa Geração V, aqui na Rádio Observador. Boa tarde a todos. Começamos com estas propostas para várias comissões parlamentares de inquérito sobre os incêndios. Gonçalo Sousa, o Chega quer analisar os gastos desde 2017. Também o Bloco de Esquerda quer uma comissão, mas para analisar já mais a parte do combate. As comissões de inquérito podem ajudar a resolver alguns dos problemas relacionados com a questão dos fogos em Portugal ou só vêm acrescentar mais ruído?

Boa tarde a todos. Relativamente às questões da comissão parlamentar de inquérito, a comissão parlamentar de inquérito em si não vai resolver diretamente algo em concreto, mas vai ajudar o processo investigativo para perceber o que é que nós podemos implementar do ponto de vista prático para resolvermos aquilo que tem que ser resolvido. E o ano de 2017 é importante para se perceber que a administração interna em muitos outros setores em Portugal, seja a habitação, a saúde, mas aqui, no caso, a administração interna, seja com os incêndios ou outros tópicos adjacentes, é um problema estrutural, não é algo que nós falamos a curto prazo, a nível conjuntural. Eu até fiz aqui uma espécie de análise cronológica nos últimos sete anos dos casos da administração interna, não só correlacionados diretamente com os incêndios. Se eu for olhar para os ministros da Administração Interna, desde 2017 até hoje, nós tivemos Eduardo Cabrita de 2017 a 2021 e no seu mandato, nós tivemos situações caricatas, não só diretamente relacionadas com os incêndios, nomeadamente a questão das golas antifumo e outras questões mais complexas ainda, mas também como a questão do acidente mortal com a viatura oficial do próprio ministro, a questão do cidadão ucraniano que foi morto pelos agentes do SEF e o próprio ministro, na altura, não se pronunciou logo e teve reticências na demissão da diretora do SEF à época. Portanto, houve logo aqui, já nos últimos sete anos, problemas diretamente ou indiretamente relacionados com os incêndios ou com a administração interna em si, mais correto, que são, por sua vez, problemáticos. E isto apenas do ponto de vista político, eu nem vou ainda à questão empresarial, quando estamos a relacionar com os incêndios. Tivemos um curto período de Vanduno, na altura entre dezembro de 2021 e março de 2022, e depois tivemos José Luís Carneiro, atual secretário-geral do Partido Socialista, que agora vem dizer: "Eu não quero comissão parlamentar de inquérito", o que é um bocado estranho, porque José Luís Carneiro tem aqui circunstâncias que eu acho que deveriam ser respondidas neste aspecto, a nível de comissão parlamentar de inquérito, mas até noutros aspectos não tanto relacionados com os incêndios, mas até com outras matérias da própria administração interna. No mandato de José Luís Carneiro, nós tivemos a extinção do SEF e ao mesmo tempo, isto depois foi noticiado mais tarde, não se soube durante o seu mandato, mas foi durante o período em que José Luís Carneiro era ministro da Administração Interna em Portugal que cerca de 120 mil pessoas entraram em Portugal sem a verificação do registo criminal vindas do espaço da CPLP. Ou seja, não sendo apenas a questão dos incêndios, as comissões parlamentares de inquérito ajudam a fazer uma análise e uma investigação por parte dos parlamentares a circunstâncias que possam ser mais ou menos problemáticas no seu raio de ação. E agora, mais recentemente, ainda na governação do PSD, tivemos Margarida Blasco, que eu sempre disse, era o elo mais fraco da governação de Luís Montenegro, e que, na verdade, teve algumas situações problemáticas na questão dos incêndios, até escondeu-se muitas das vezes, desculpem-me a expressão, mas debaixo das saias do primeiro-ministro. Houve momentos em que falhou efetivamente e não é por acaso que não foi reconduzida nesta nova governação do Luís Montenegro. E agora temos Maria Lúcia Amaral, que poderá ser responsabilizada do ponto de vista comunicacional, mas deste ponto de vista estrutural que eu coloquei aqui nos últimos anos, é complicado, porque estamos a falar de alguém que, a bem ou a mal, está há dois meses no cargo. Agora, se a comissão parlamentar de inquérito faz sentido por todas estas conjunturas, por todos estes fatores que eu aqui coloquei, faz, e eu diria só que não é apenas à questão dos incêndios em si, é mesmo à questão da administração interna em Portugal, seja pelos incêndios, como eu mencionei, seja pela questão do controle das fronteiras, porque se olharmos para isto, não quero fazer aqui muita comparação futebolística, mas há uns anos o Benfica tinha muitos problemas em arranjar um defesa esquerdo na altura do Jorge Jesus. Era o Bruno Cortez, era o Emerson, não acertavam em nenhum. A administração interna parece um bocado o defesa esquerdo que o governo não consegue arranjar no mercado de transferências. E portanto, acho bem que se faça a comissão parlamentar de inquérito, sem dúvida, e acho mal que PS e PSD estejam agregadamente e conjuntamente a evitar fazê-la. Por dois motivos. Primeiro, acho que de um ponto de vista ético e moral, estão a desresponsabilizar-se politicamente. E além do mais, acabam por, não sei se conscientemente ou não, mas acabam por justificar uma das principais macronarrativas políticas do Chega, que é nada mais, nada menos dizer: "Estão a ver, o sistema junta-se, agregadamente entre eles, PS e PSD, para me combater a mim, que sou o antissistema e que sou o rei da verdade, etc." Portanto, mais valia o bloco central, neste momento, ser colaboracionista, seja com a iniciativa de comissão parlamentar de inquérito por parte do Chega, e creio que o Bloco de Esquerda também queria avançar com uma. Portanto, acho que ganhavam mais com isso. Poderão dizer: é aproveitamento político. Bom, sim, é aproveitamento político, mas criticar o aproveitamento político muitas das vezes, não sempre, mas muitas vezes também é aproveitamento político, na questão da superiorização moral e ética por aí. E além do mais, só aqui para concluir o raciocínio, se nós formos comparar o investimento em percentagem do PIB que Portugal tem, comparando com outros países da União Europeia, há países com riscos climatéricos muito inferiores aos nossos no que aos incêndios dizem respeito, que têm percentagens do PIB em termos de investimento ao combate a incêndio florestal muito superior ao de Portugal. Portugal, neste momento, investe cerca de 0,2%, 0,3% do PIB. A Chéquia, a Alemanha e a Estónia, que não são propriamente os países mais quentes desta vida, têm investimentos superiores comparativamente a Portugal. Portanto, tendo tudo isto em conta, não só a especificidade a nível político da administração interna como um todo, quer seja a questão dos incêndios em si, quer seja até em termos de matéria mais política

As comissões parlamentares de inquérito são para ser utilizadas neste tipo de circunstâncias. A meu ver, acho que é uma boa decisão e creio que vai avançar, porque o Chega tem capacidade de colocar uma ação legislativa.

Faz sentido, Raquel, avançar com comissões parlamentares de inquérito? Nós temos discutido ao longo destas últimas semanas que a questão dos fogos florestais tem se tornado recorrente, passou a ser anual e não algo que vai acontecendo com grande dimensão de tempos em tempos, e temos grandes incêndios praticamente todos os anos. Uma comissão parlamentar de inquérito pode ajudar a identificar e resolver esses problemas, ou uma comissão técnica independente, como também já tem sido proposto e que terá muito provavelmente o apoio do PSD. Estas comissões podem ajudar a resolver esta questão?

Boa tarde. Eu acho que a comissão parlamentar de inquérito tem uma vantagem e uma desvantagem. A vantagem é que mediaticamente é sempre muito mais, tem muito maior visibilidade e os próprios partidos que promovem estas comissões fazem questão de dar grande visibilidade a elas. A dificuldade, parece-me a mim, é que é preciso definir muito bem qual é o objetivo da comissão parlamentar de inquérito e, portanto, não pode caber lá tudo. Não pode caber lá qual é o investimento, não pode cobrir um leque de temas relacionados com a questão dos fogos, que naturalmente são questões que todos nós colocamos neste momento e que ouvimos agora o Gonçalo definir. E portanto, corremos o risco de ter uma comissão parlamentar de inquérito que depois se transforma num flop, porque não vai ao tema de fundo que provavelmente leva as pessoas a levantarem maiores questões. E aqui, na questão dos fogos, eu acho que há imensíssimas questões, desde a origem criminosa de alguns fogos, até à forma como as medidas que foram colocadas no terreno estão ou não a ser implementadas, até à forma como o combate foi ou não feito. Tudo isso são questões que se levantam e que não me parece que possam caber todas no objeto de uma comissão parlamentar de inquérito.

É muito abrangente, não consegue focar-se numa questão muito concreta, não é?

Exato. E portanto, esse motivo faz com que se esvazie um pouco aquilo que se possa esperar de uma comissão parlamentar de inquérito. A comissão técnica tem a vantagem de poder abranger muito mais vertentes. Agora, também é muito menos mediática e é alguma coisa que pode ser protelada no tempo de uma forma que as comissões parlamentares de inquérito normalmente não são. O que eu quero dizer com isto? Eu acho que era muito bom que, e eu já tenho dito isso aqui na antena por diversas vezes, que por uma vez nós nos esquecemos daquilo que estamos ainda a passar no país daqui a dois meses. E é sempre isso que acontece, incluindo em 2017, quando tivemos as consequências dramáticas que tivemos dos fogos de 2017. E eu acho que isso não é uma culpa só dos políticos, eu acho que isso é uma culpa coletiva, incluindo, se calhar, por falta de acesso aos meios de comunicação social, mas incluindo as próprias populações que sofrem com isto ano após ano. A verdade é que nós entramos no outono e os fogos ficam lá para trás, tenha acontecido o que tenha acontecido, tenha ardido o que tenha ardido, tenha havido as vítimas que tenha havido, o que tem acontecido sempre, e em particular desde 2017, é que efetivamente esta não é uma questão que se coloque no país a partir do momento em que o tempo muda e começa a chover, e parece que as pessoas só se lembram de novo disto quando estamos em cheio na época de fogos.

Se calhar, por isso é que a comissão parlamentar de inquérito se pode dissolver numa comissão técnica, não é?

Exatamente. E por isso eu acho que era bom que uma comissão de inquérito ou uma comissão técnica não deixasse mais uma vez este assunto morrer. Mas infelizmente, sou muito pessimista nessa matéria e temo que aquilo que estamos a discutir hoje, daqui a dois meses tenha desaparecido do mapa.

A história vai dando razão a esse pessimismo. Alexandre, há aqui também a jogada política, não é? Nós tentamos também sempre analisar isso. Ventura, ao propor esta comissão parlamentar de inquérito, acaba por fazer mira tanto ao atual governo como ao atual secretário do Partido Socialista e ter essa jogada política de poder apontar culpas aos dois principais líderes.

Claro. Acho que sim. Se me permites, pegando naquilo que a Raquel estava a dizer, acho que nós nos arriscamos a que a comissão parlamentar de inquérito aos fogos esteja a decorrer e já estejamos com cheias. Porque esse vai ser o problema que depois vai vir aí em novembro, coisa assim.

Discutem incêndios enquanto está a chover.

Exatamente. Vamos estar com esse paradoxo, que é o próximo problema sazonal, digamos, em Portugal, que fará esquecer o problema anterior. As coisas funcionam um bocadinho assim, acho que muitos políticos já lidam com esse cinismo sobre as coisas, portanto, sabem naturalmente que depois a seguir a este problema vem outro que retira da agenda o anterior antes que tenha havido respostas. Eu acho que as comissões parlamentares de inquérito, obviamente, se servirem para trazer respostas, trazer luz sobre as coisas, naturalmente são bem-vindas. E algumas vezes isso aconteceu. No caso da PT, do BES Mas depois também temos casos como, eu acho que já houve 11 comissões parlamentares de inquérito a Camarate, e basta dizer que houve 11 pra se perceber que em princípio não se chegou a grandes conclusões. E ver também que partidos é que estão a propô-los agora. São partidos que tipicamente beneficiam destas coisas. No caso do bloco, Mariana Mortágua até ascendeu um pouco como estrela ou foi uma das plataformas que a ajudou a ascender como estrela em Portugal.

O BE?

Exatamente, Gonçalo. No seu defrontar direto de grandes figuras com o seu questionamento, ela é uma boa advogada de acusação, digamos assim, metaforicamente. E também ainda sou do tempo em que o CDS e o Bloco de Esquerda se conseguiram dar bem numa comissão parlamentar de inquérito, que era a comissão ao BPN, em que o falecido João Semedo e Nuno Melo, esses dois amigos improváveis, tornaram-se as grandes figuras aliadas nessa comissão parlamentar de inquérito. Portanto, sendo um instrumento muito interessante que a democracia permite, acho que nos últimos tempos se banalizou um pouco e se transformou, de fato, em parte desse jogo midiático, e aquilo permite uma espécie de série de tribunal em direto nas nossas televisões.

E quase ver também quem é que é o partido que apresenta a primeira proposta pra ter uma comissão parlamentar de inquérito, pra depois poder usar isso como bandeira.

Tal e qual. Há uma corrida a isso.

A CPI no Viva, por exemplo.

Era isso que eu ia dizer. Era a última proposta do CHEGA aqui ainda há uns meses. Portanto, tenho muitas dúvidas sobre a eficácia disso. Até porque há coisas por esclarecer nestes incêndios, nas causas destes incêndios, no que falhou ao combate a estes incêndios? Há, certamente, não tenho a menor dúvida. Há uma quantidade de coisas que nós já sabemos. Se nós pudermos, pelo menos, tomar conta daquelas que já sabemos que falharam, podemos começar por aí. Já vamos resolver uma quantidade de problemas que têm a ver com os focos. Nós vemos todos os dias, todos os anos, os especialistas falarem das mesmas coisas. E ainda por cima há responsabilidades repartidas, como todos sabemos, nisto, políticas, técnicas e da própria população. Se formos falar, por exemplo, como todos os estudos apontam, para que 99% dos incêndios, ou melhor, para que apenas 1% tenha origem natural e para que o grosso seja sempre por mão humana, tipicamente negligente. O que é que uma comissão parlamentar de inquérito vai apurar acerca de se continuarem a insistir em haver foguetes e foguetórios em todas as festas populares que há no verão pelo país, e as pessoas acharem isto normal, nas grelhadas no meio da mata, nas queimadas, no uso das máquinas agrícolas, em tudo isto, o que é que se vai fazer sobre isto? O que é que vai uma comissão parlamentar de inquérito concluir sobre a gigantesca responsabilidade da desertificação do interior, no descontrole natural do que é o mato em Portugal? Pronto, é isto.

Pode chegar à conclusão que é destino.

Que é o destino?

Por causa das políticas que levaram a essa desertificação e que Portugal dificilmente pode responder a essa desertificação.

Então eu podia dizer que essa conclusão seria chover no molhado, mas é capaz de ser um bocadinho paradoxal.

Vamos antes do intervalo à nossa nota. Gonçalo, que nota atribuis a tudo isto? Eu vou atribuir à iniciativa em si, porque prognósticos também são no final do jogo. Mas à iniciativa da CPI em si, porque daí pode advir coisas positivas em termos de investigação. Vou meter um 10, nem tanto ao mar, nem tanto à terra, depois o outcome só depois dirá.

Na segunda parte vamos falar da Universidade de Verão, que também tem falado sobre incêndios, e vamos falar também dos comentários em torno do furacado que morreu no Campo Pequeno. É pra ouvir na segunda parte. Antes disso, uma curta pausa para atualizar toda a informação. Segunda parte da edição alargada de E o Vencedor É.., estamos a escutar as opiniões de Raquel Bacasis, Alexandre Borges e Gonçalo Sousa. Começamos agora pela Raquel. Queres analisar, Raquel, a Universidade de Verão do PSD, que está a decorrer em Castelo de Vide? É um evento que já se realiza há mais de 20 anos. E és da opinião que pode ser visto, este evento, como um presente que Carlos Coelho dá todos os anos à liderança do PSD. Por quê?

É porque eu quero pontuar o Carlos Coelho, que é o precursor deste tipo de eventos políticos que entretanto os outros partidos foram também adotando, mas desde 2003 que Carlos Coelho, que é uma figura, se calhar, não das mais midiáticas do PSD, é alguém que quem acompanha a atividade política conhece bem, mas que se calhar o grande público não está tão habituado a ver. Ele de vez em quando tem algumas participações na televisão, mas não é daqueles que têm maior presença, mas faz um trabalho há anos inestimável ao partido e à atividade política nacional, até porque ao ter iniciado esta Universidade de Verão, de fato, influenciou outros partidos a fazerem o mesmo, e hoje praticamente todos os partidos fazem este tipo de evento, com maior ou menor qualidade, mas fazem este tipo de evento pra iniciar o ano político. Eu acho que, entre outras coisas, em primeiro lugar, acho que quem quer participar na atividade política deve ter formação, sobretudo os jovens, e esta universidade de verão é essencialmente isso. É uma semana em que os jovens não necessariamente Filiados nos partidos podem inscrever-se e ao longo de uma semana têm formação política. Nós vamos ouvindo os relatos daquilo que lá se passa mais pelos discursos e debates mais mediáticos, com as figuras que têm maior protagonismo nacional, como ainda há bocado ouvíamos as declarações que Paulo Rangel fez no âmbito de um debate em que participou esta tarde na Universidade de Verão. Mas ao longo da semana vão ocorrendo muitos eventos e muitas ações com um toque de atualidade, colocando em cima da mesa os temas que politicamente mais preocupam, não só a nível nacional, mas também a nível internacional, e depois toda a forma como a política hoje em dia se faz, nomeadamente a questão das sondagens, a questão de como lidar com a comunicação social, como passar informação. Tudo isso é objeto de análise e de trabalho ao longo destes dias na Universidade de Verão. E ao mesmo tempo, consegue ser um espaço em que efetivamente se faz a rentrée política do PSD, neste caso, e depois também dos outros partidos. Mas eu estou a falar do caso do PSD, porque nós assistimos com escândalo, há 15 dias, a propósito do tema que falávamos na primeira meia hora, a uma festa do Pontal, que é uma coisa que também existe já há muitos anos, mas que francamente já não faz grande sentido na política, cada vez menos este tipo de semi-comícios em locais públicos, neste caso é no calçadão da Quarteira, no Algarve, mas onde só estão os habitués do partido, cada vez fazem menos sentido. Existem para que, no caso, o primeiro-ministro tenha feito um discurso que correu muito mal e que o fez entrar no ano político com o pé esquerdo, para dizer o mínimo. E Carlos Coelho, com a realização desta universidade, que esteja a acontecer o que esteja a acontecer no país, faz sempre sentido, porque não é uma feira de vaidades, nem um arraial para encher os ecrãs de televisão. É uma semana de trabalho, no fundo, em que se ouvem várias pessoas, não necessariamente só do PSD. Este ano, por exemplo, vai lá estar Nuno Severiano Teixeira, que foi ministro até do Partido Socialista, e outras figuras não diretamente ligadas à política, mas é um evento em que se pode falar de política seriamente e que tem a vantagem de não ter que ser cancelado quando a atualidade no país, como foi o caso há 15 dias, obriga a uma abordagem mais séria dos assuntos. E, portanto, nesse sentido, eu acho que mais uma vez Carlos Coelho, com a organização desta Universidade de Verão, fez um favor a Luís Montenegro e a todo o governo para recomeçar o ano político com o pé direito, com mensagens políticas, com os candidatos autárquicos, também eles a passarem a sua mensagem, mas sobretudo com a ideia e passando a imagem de que estão a formar as novas gerações que queiram vir a entrar na política. Nós estamos sempre a dizer que os políticos têm pouca cultura, têm pouca mundividência, e este tipo de eventos é essencial para que nós possamos vir a ter no futuro políticos com mais alguma capacidade de intervenção e de utilidade. No fundo, Carlos Coelho leva à letra esta ideia de que a política é uma missão nobre e deve ser tratada como tal e prefere, se calhar, ter menos protagonismo, mas o trabalho que faz eu diria que é inestimável para o partido.

E por isso a tua nota, duzo que vá para ele.

E por isso a nota vai para Carlos Coelho e é um 18.

Um 18 para Carlos Coelho. Alexandre Borges, falamos de uma polêmica dos últimos dias, a Corrida de Touros, que resultou na morte de um forcado no Campo Pequeno, em Lisboa. Entretanto, a mãe desse forcado publicou também uma carta aberta. Têm existido alguns comentários pouco abonatórios sobre a morte deste forcado e que são associados também ao partido PAN. O que é que tudo isto te faz pensar? Quando tiveres microfone, agora mesmo.

Era isso mesmo. E eu que disse: "Comecei tão bem e as pessoas não ouviram." Eu lembro-me de um caso, aqui há uns anos valentes, se não me engano, foi nos Jogos Olímpicos de Pequim, portanto, para aí 2008, estavam as redes sociais na sua infância, de algum modo, mas de os psicólogos começarem a falar de um exemplo que tinha acontecido ali e que eles viam como algo preocupante. Era um atleta cujo nome eu não me lembro, australiano, se não me falha a memória, favorito na sua especialidade, cujo pai morreu na véspera da final. E esse atleta considerou não competir, não disputar a final, porque obviamente não estava em condições. E aí as redes sociais, na altura só o Facebook, encheram-se de mensagens de apoio. "Força, faz isto também pelo teu pai, toda a gente compreenderá, qualquer que seja o resultado," aquelas coisas, "ou se não quiseres também está tudo bem." Ele decidiu competir, de facto, e em vez de ganhar, ficou para aí em terceiro ou quarto, o que em si mesmo era algo de notável. Vieram as mensagens a dizer: "És uma nódoa, o teu pai teria vergonha de ti." Claro que também estavam no meio muitas mensagens positivas e compreensivas, mas estas também estavam lá. E na altura, os psicólogos reagiam já sinalizando isto: "Vejam, isto é o começo do fim da empatia." Quando as pessoas não estão diante umas das outras, quando não estão perante a linguagem não verbal umas das outras, sentem-se capazes de dizer coisas destas. E eu penso que há muitos reflexos disso até hoje na forma como nós vamos lidando com a realidade e parece-me que um desses acontecimentos é este agora. Na sexta-feira morreu este rapaz, Manuel Maria Trindade, 22 anos, forcado, colhido por um touro de 695 quilos. Eu não vou discutir especificidades, mas acho isto inacreditável que haja touradas com animais deste tamanho. Morreu também um espectador de 73 anos, na sequência deste acontecimento, transtornado com o que viu. Vale a pena dizer que este espectador era médico, portanto deve ser alguém que deve estar habituado a ver coisas complicadas. E acho que morreu uma terceira coisa, de facto, há uma terceira vítima, que é a noção. Eu não vi a tourada, não gosto de touradas, mas isso também não vem ao caso, não fui ver vídeos, não sei mais nada acerca deste rapaz. Acho que não é preciso saber. Morre um miúdo de 22 anos, em direto, em frente a uma plateia. Nesta circunstância, acho que tudo o que podemos fazer e devemos fazer é respeitar o luto e a dor da família e dos amigos e as pessoas que testemunharam isto. Pois não. Nas redes sociais, que não têm a culpa, são apenas a rua de antigamente, ou o cabeleireiro ou o café, lá vieram as bocas dizendo coisas do gênero: "Já nos livrámos de mais um, este já está arrumado, o que importa é que o touro esteja bem." E depois assistimos a esta coisa que acho que é de dar a volta ao estômago a qualquer um, de vir a mãe deste rapaz, uma mulher que acaba de perder um filho nesta circunstância, sentir-se na necessidade emocional de escrever uma carta aberta a estas pessoas. E no fundo, com a presença de espírito possível, agradecer aqueles que riram do filho, dizer: "O meu filho não só gostava muito de animais, como era um dador de órgãos, vai continuar vivo nas sete pessoas que vai ajudar." Dizer coisas deste género. E em cima disto, esta falta de noção que de facto parece um bocadinho geral. O PAN saltou para a primeira linha para dizer: "Estão a ver como não é bom haver touradas, como se deve acabar com isto." Lá está, atenção, eu não gosto de touradas, mas acho que se pode discutir isto todos os dias da vida, exceto neste. Pode discutir-se isto sempre, exceto a propósito de um caso destes. E depois, esta manhã mesmo aqui na Rádio Observador, no Explicador, houve um debate entre Inês de Sousa Real, do PAN, e Paulo Núncio sobre isto, em que eu lamento dizer para quem ouviu, que foi uma competição para ver quem é que conseguia de facto fazer o maior aproveitamento político da questão. Porque Inês de Sousa Real procurava explicar, é verdade, com legitimidade: "Nós sempre defendemos isto e tal." Ok, mas insisto, acho que todos os dias do mundo era inútil vir aqui apontar. Isto é pelado, óbvio o que está aqui em questão. E até porque normalmente não é este o argumento do PAN para defender o fim das touradas. Dizer: "Vejam, os forcados correm perigo." Não é esse. Mas depois ouvir Paulo Núncio acusar o PAN abertamente de oportunismo político, falar em repugnância, em vergonha, mas depois falar do direito dos aficionados a gostar da tourada, da velha tradição da tourada, de mandar um abraço para os forcados de São Mansos, que era o grupo de forcados a que pertencia este rapaz, e aproveitar para mandar um abraço ao grupo de forcados de Vila Franca de Xira, a cuja câmara ele é candidato, ele próprio disse isto, atenção, não sou eu que estou a inventar isto, às autárquicas daqui a dias. É perder a noção, é não ter a noção do que se está a fazer. E depois, nesse momento em que nós poderíamos sentir mais simpatia pela causa de Inês de Sousa Real, Inês de Sousa Real lembra-se de dizer isto: Paulo Núncio está a dizer "Este rapaz morreu bravamente, a lutar corajosamente contra um touro", e Inês de Sousa Real diz isto: "Então porque é que não vai combater incêndios?" Isto é conversa de café trazida para a luta política, para o debate político. Isto não faz sentido. Acho que é preciso noção, é preciso compreender o que é que está em causa nestes casos muito concretos. É preciso afastar-nos do calor destas discussões quando são vidas que estão em jogo, quando é a dor destas pessoas, é respeitar o luto, respeitar as famílias. Não basta dizer uma palavrinha inicial sobre este assunto e depois passarmos a usar estas coisas como arma de arremesso político. Enfim, é o que tenho a dizer sobre este tema. E nota, queres nota?

Sim. Espero que seja negativa.

Tu tens uma intuição. Sim, eu diria isto: é tudo muito mau. A dificuldade em gerir o espaço público que todos temos de um modo geral no uso que fazemos das redes sociais, de facto ainda não entendemos que não estamos a jantar lá em casa em que dizemos umas coisas para o ar. Mas muito mais concretamente da parte de quem tem responsabilidades políticas neste assunto. Portanto, neste caso, eu diria como um pai diz às crianças, que é: "Já não me interessa quem é que começou." Diria que neste caso, Inês de Sousa Real e Paulo Núncio, é um cinco para ambos.

Muito bem, ficamos com nota negativa, um cinco para esse debate que aconteceu hoje também na Rádio Observador, a propósito deste caso. Um dos temas que vai marcando a atualidade. Aqui no Vencedor É tentamos dar nota aos protagonistas da atualidade. Hoje conseguimos falar deste caso, também da Universidade de Verão do PSD e das Comissões Parlamentares de Inquérito aos Incêndios. Amanhã voltamos com novos temas e com novos convidados.