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Começa agora a nova edição do "Iuvens Tore", que já sabe que também pode acompanhar no YouTube, Facebook e site do Observador. Esta terça-feira juntam-se a nós, para pontuar os protagonistas da atualidade, a Sara Antunes de Oliveira, que já aqui está conosco, e à distância temos o Carlos Diogo Santos. Carla, esta manhã falamos de ingerências, várias, mas começamos com uma demissão.
Uma demissão. Orlando Figueira foi demitido pelo Ministério Público seis anos depois da abertura do processo, que envolve também Manuel Vicente, ex-presidente de Angola. Carlos, tens alguma nota positiva para dar neste caso?
Não. Bom dia.
Bom dia.
Aliás, vai já um cinco para o Ministério Público, pelo mesmo de sempre, a lentidão. Hoje desfaço já o suspense e aviso ao que venho.
Já compra o predador.
Exatamente. Como dizias, o antigo procurador Orlando Figueira, que durante anos, e isto é importante também dizer, teve em mãos grande parte dos processos contra a elite angolana que pendiam no departamento que investiga em Portugal a criminalidade econômico-financeira mais complexa, foi condenado por ter recebido centenas de milhares de euros, e isto por alegadamente beneficiar o ex-vice-presidente de Angola, Manuel Vicente. É certo que esta é uma condenação da qual se sabe menos do que o esperado, e o motivo é simples: o alegado corruptor, neste caso, Manuel Vicente, acabou por ter direito a ver o seu processo transferido para Angola, para a Justiça de Luanda, onde ainda tudo continua em águas de bacalhau. Ainda assim, e depois de em Lisboa, Orlando Figueira ter sido condenado a seis anos e oito meses de prisão, isto no final de 2018, uma condenação que entretanto foi confirmada pelo Tribunal da Relação de Lisboa, aquilo que não se percebe é como é que só agora o processo disciplinar acabou por ter consequências, e a consequência foi, como tinhas dito no início, a demissão. Esta é uma decisão disciplinar e aqui não nos cabe avaliar o sentido dessa decisão, mas o tempo que levou a tomar-se uma posição que o órgão de disciplina do Ministério Público levou a tomar esta decisão é que espanta. Peca por tardia, porque chega já muito depois da sentença no processo-crime, não só de primeira instância como de segunda instância. E há aqui uma questão que perpassa, que é: como é que até dentro de portas, sem depender dos outros agentes, o Ministério Público não é capaz de ser célere a tomar uma posição, quando ainda por cima era facilitado aqui, porque já se tinha a decisão do processo-crime. E isto ainda é mais grave, porque Manuel Vicente, que tinha saído do Ministério Público para ir trabalhar na banca em 2012, antes ainda do processo-crime ter tido início, acaba, já depois de condenado, a ingressar no Ministério Público e a passar a receber novamente o salário. Portanto, é aqui uma grande embrulhada. Acho que há um tempo que é excessivo para que um órgão de disciplina do Ministério Público cumpra este seu papel e, portanto, agora soube-se que foi votada nos últimos dias numa reunião da Secção Disciplinar do Conselho Superior.
Mas ainda pode recorrer.
Mas ainda pode recorrer, exatamente.
Portanto, o processo ainda não está fechado.
Ainda que não tenha efeito suspensivo, portanto, há dois recursos possíveis no plenário da conselho.
Mas no limite, na loucura.
Na loucura, exatamente, ainda pode. E depois, só aqui uma nota muito rápida para a Justiça de Angola. Acho que era importante que de fato houvesse um encaminhamento rápido da parte de Manuel Vicente, por dois motivos: pela imagem que esta justiça passa de si e quer passar de si, sobretudo depois das críticas que Isabel dos Santos tem feito, que é uma justiça parcial, que só olha para alguns, e depois por um outro motivo que me parece muito importante, que é o respeito pela Justiça de Portugal, que apesar de não se ter dado também ao respeito em muitas situações, até com ministros a falar de irritantes no âmbito deste processo, é desconfortável para as relações entre os dois países, este silêncio, e sobretudo quando a Justiça de Portugal continua a dar andamento a alguns pedidos que são feitos por Luanda, nomeadamente no caso da Isabel dos Santos, e continua a trabalhar no âmbito da CPLP e de outro tipo de acordos que continua a cumprir, tratando a Justiça de Angola como uma justiça igual. E portanto, parece-me que por estes dois motivos era importante que aí em Angola houvesse uma decisão.
Posso estar ouvindo a inocência do Carlos Diogo Santos com este apelo à Justiça de Angola, que está preocupadíssima.
Estamos a chegar ao Natal.
Por isso é que eu falei na imagem e já não na justiça.
Um pouco de ingenuidade uma terça-feira de manhã. Mas é um bom desejo, é um bom desejo de Natal, Carlos.
Certo, fica aqui o desejo de Natal.
Fica um desejo de Natal e um cinco para o Ministério Público por um processo que já tem seis anos e ficámos a perceber, também ainda não acabou. Ainda podes voltar a pontuar isto na próxima decisão que acompanhemos. Ora, ontem, José Manuel Fernandes, ouvimos António José Seguro e não é muito frequente ouvir o antigo líder socialista falar de separação de poderes, lá está, de corrupção. É por isso que queres hoje dar nota a António José Seguro?
É por isso mesmo, exatamente. Quero dar nota a António José Seguro, porque acho que ele disse coisas importantes E disse coisas com autoridade para as dizer. O Miguel já falou disso no bom, mau e o vilão, e eu concordo com tudo o que ele disse. Vou só acrescentar dois aspectos. Acho que o facto de ele ter sublinhado a importância da separação de poderes numa altura em que ela está a ser muitas vezes torpedeada e não se dá suficiente atenção a esse problema, acho que é muito positivo. Acho que também é interessante tê-lo ouvido criticar na prática os media, e também os políticos em geral, por se saltitar de assunto em assunto e nunca ser consequente, levar os temas até ao fim, perceber realmente o que se passou. Ele nunca falou de nenhum caso concreto, mas claramente estava a referir-se a alguns casos que discutimos muito aqui há 15 dias, três semanas, mas que já foram varridos para baixo da mesa, já passamos a outros e andamos um bocadinho nisto. Eu acho que independentemente do que pensarmos do que foi a liderança de António José Seguro no Partido Socialista, António José Seguro tem legitimidade para falar destes assuntos, porque ele como deputado trabalhou para melhorar o funcionamento da assembleia, para tornar a assembleia mais transparente, mais democrática, mais aberta e portanto tem autoridade para falar nesta matéria. Só não vou dar uma nota mais elevada porque António José Seguro, por ter esta autoridade, por ter esta experiência, escusava estar tanto tempo calado. Na prática, já não oiço falar dele talvez há oito anos. Acho que é desde que ele perdeu a liderança do Partido Socialista que ele se submeteu ao silêncio. Acho que ele teve um percurso público suficientemente relevante para não ter que se submeter ao silêncio e para poder dizer coisas mais diretamente, mais indiretamente. E portanto, eu vou lhe dar uma nota positiva, mas não tão positiva como gostaria de dar para aquilo que ele disse, porque aquilo que ele disse é muito positivo, menos positiva porque gostaria que ele interviesse mais vezes. E portanto, vai um 14 para António José Seguro.
António José Seguro, por aquilo que disse, mas podia ter sido mais cedo. Ora estamos aqui a quantificar o que se diz, onde, quanto tempo. Isto leva-nos mesmo para o tema que a Sara e o Paulo escolheram. Sara, a deliberação, a recomendação da ERC, a Entidade Reguladora da Comunicação, sobre o programa de Ricardo Araújo Pereira.
Sim, eu não sei sobre o Paulo, mas eu não vou dar notas, eu vou fazer uma recomendação.
Muito bem.
E recomendo que a ERC-
Não vais deliberar.
Não. Vou recomendar que a ERC tenha mais cuidado com as recomendações que faz, porque senão mete-se aí numa carga de trabalhos, porque eu estimo que isto vá ser difícil. Por duas razões. Já sabemos, a ERC recomendou que a SIC compensasse o Chega, e aqui o partido é irrelevante, se fosse com outro partido era a mesma coisa. Porque nós já sabemos, Ricardo Araújo Pereira não convida André Ventura para ir ao programa.
De humor.
Certo, isto é gozar com quem trabalha. Não devia ser um tema, tornou-se um tema. Perguntaram a Ricardo Araújo Pereira, ele esclareceu: "Não vem porque eu não quero."
Por várias vezes.
Certo. Perante isto podia haver uma solução, que é, se a SIC não concordasse, podia despedir Ricardo Araújo Pereira. A SIC, entidade patronal, aparentemente está tranquila com isso.
Ou pelo menos respeita a posição dele.
Como tem de estar, porque é um programa de humor. E portanto, mal seria que a equipa do programa não tivesse total latitude para convidar quem quer e quem não quer. Pelos vistos, a ERC acha que as pessoas que lá vão saem sempre beneficiadas de alguma maneira. Eu já vi lá pessoas fazerem uma figurinha um bocadinho coisa. Mas tudo bem.
Esse é o ponto. Toda a exposição mediática é positiva, é um erro.
Mas pronto. E a ERC diz que a SIC tem de compensar na restante programação. Para já vejo uma carga de trabalhos porque será que nas manhãs, no daytime, no "Quem quer casar com o agricultor"?
Não concretes.
Em que programa? É que eu penso nestas coisas. Se é para cumprir, como é que a pessoa vai fazer? Eu estou a imaginar o Daniel Oliveira com o Ricardo Costa, os dois sentados a ver como é que vão fazer aquilo. Porque se a informação liderada pelo Ricardo Costa cumpre como tem de cumprir, sobretudo em períodos eleitorais, a equidade entre os partidos e os candidatos, então só pode ir para o lado, vai ao alta definição? E queremos mesmo que a ERC se meta nisto? E depois, onde é que se para? Porque vamos só olhar para a SIC ou para a SIC Notícias. Se agora algum partido se queixar que no Eixo do Mal, que é um programa da SIC Notícias, eles falam muito de determinados partidos e menos de outros partidos. A ERC também vai dizer que os comentadores e o painel do Eixo do Mal têm de falar mais ou que os outros programas da SIC Notícias têm que... porque se pode entrar no humor e no entretenimento, por que não se pode entrar na opinião? É porque eu já estou aqui de olho no Paulo Ferreira, porque eu tenho aqui uma listinha.
E vocês vejam aí o vencedor. Vocês também não são muito equilibrados aqui, escolhem sempre os mesmos.
O vencedor é, se algum partido for dizer: "As boas notas vão sempre para este candidato ou para este líder e as más vão para..."
Claro.
E então? Queremos mesmo entrar por aí? A ERC quer mesmo fazer isso?
Quer.
Pois, eu sei que quer.
A questão é que quer.
Tem aí uma chatice que é: não há nenhuma lei que lhe permita.
O que isso interessa, Sara? As leis.
Mas para a ERC interessa muito, sabes por quê? Porque há aquela lei, que eu acho que deve existir, mas está mal feita, do direito de resposta, por exemplo. E não é culpa da ERC que ela esteja mal feita.
Claro.
Mas ela existe e a ERC é sempre muito agarradinha à lei, quando um jornal ou uma televisão diz: "Mas eu não quero publicar este direito de resposta
Resposta: porque está cheio de mentiras, factos falsos, fake news e, portanto, eu não posso estar a publicar isto só porque. E a lei? E a ERC vai à lei e diz: "Não, mas cumpre tudo direitinho os pressupostos, portanto, sou obrigados a publicar, mesmo que tenha todas as mentiras."
Mas, Sara, quando se tem uma abordagem absolutamente burocrática de folha de Excel com estas coisas, é isso que dá. Aliás, sobre a lei, o próprio parecer, este parecer ou esta decisão de liberação da ERC diz mesmo isto: esta lei, a lei que regula a cobertura noticiosa em época eleitoral, está pensada para a cobertura jornalística em período eleitoral, porque as suas normas não são aplicáveis à partida e de forma imediata a talk shows ou programas humorísticos.
Mas segura aí, pois aí vamos nós.
Mas de qualquer maneira, eu acho que isto são reguladores desocupados, basicamente. Têm pouco que fazer, eventualmente, coisas importantes, poucas para fazer, dedicam-se a este tipo de coisas. Portanto, chegam duas queixas em janeiro sobre a não ida de André Ventura ao programa.
E em dezembro conhecemos nós.
E em dezembro conhecemos. Começa logo por aí. Mas qual é a eficácia disto? Por que a ERC demora 11 meses?
Imenso trabalho.
Imenso trabalho ver aqueles programas todos. E isto é uma abordagem editorial de folha de Excel, que não é nova na ERC. De vez em quando ela surge. No tempo da Azeredo Lopes, presidente da ERC, todos os meses havia um relatório sobre a pluralidade, sobretudo visando as televisões, com tudo contado ao minuto, horas, minutos e segundos, a exposição nos telejornais, nos espaços informativos todos, de cada partido. E dizia se aquilo está fora da média ou dentro da média, de acordo com a votação anterior daquele partido. E, portanto, para a ERC, de vez em quando, não é sempre assim, mas de vez em quando a ERC acha que tem uma folha de Excel, mete lá as votações da última eleição e acha que os mídia, sobretudo as televisões.
Tem que ser um Parlamento.
Tem que ser um Parlamento e tem que dar 3,5% ao partido de espaço informativo ou partido que teve 3,5% nas últimas eleições, 14% e por aí fora. E as coisas não são assim, como é evidente. E depois cai neste ridículo de olhar para programas que são humorísticos. Mas agora vamos quê? Vamos olhar para as piadas todas que são feitas, para os roasts que são feitos por Ricardo Araújo Pereira.
É porque a banda verdade chega até lá longe.
E Marcelo ganha, de certeza.
Pois ganha.
Nas últimas semanas, isso é bom para Marcelo ou não, aparecer lá?
Pois, certo. Para a ERC, supostamente, sim.
Sim, apareceu, ponto. E depois há outra coisa que eu acho que a ERC devia ter visto. Não é só ver quem está e não está. Como é que se explica que Vitorino Silva, o Tino de Rans, tenha tido uma entrevista de 14 minutos e 28 segundos no programa de Ricardo Araújo Pereira e Catarina Martins nunca teve representação parlamentar e Catarina Martins apenas 10 minutos e 52 segundos?
É uma vergonha.
Uma diferença de 40%. É uma vergonha, e disto ninguém fala. Enfim, eu acho que a ERC se mete por caminhos, mais uma vez. Ponderem mais um bocadinho. Aliás, a comunicação social é das áreas mais reguladas no país.
Sim, esse é que é o ponto. Já há regras para tanta coisa.
Conselho deontológico, sindicato de jornalistas. Em períodos eleitorais, parece que nem a Comissão Nacional de Eleições, mais umas luminárias sobre critérios editoriais, além da lei normal e dos tribunais, obviamente. Nas redações há, por lei, obrigatoriamente conselhos de redações e, portanto, está toda a gente a olhar para os mídia e está toda a gente a regular os mídia. Enfim, o que é que se há de dizer?
Nós podemos tentar ajudar a SIC. Vamos fazer uma lista de programas, Paulo.
Vamos. Onde pode ser compensado André Ventura.
É, vamos pensar bem e mandamos ao Daniel Oliveira.
Há pouco falaste do "Quem Quer Casar com o Agricultor?". Eu acho que queres.
Tu vias.
Eu votava nesse.
Alguém quer dar notas ou ficamos pelas deliberações?
É uma recomendação. Eu juízo nas recomendações, é a minha recomendação.
Isso é uma recomendação à dia que não remédios.
É um bocadinho. Não havia necessidade.
Paulo, dás nota à ERC?
Eu não sei se à ERC. Enfim, mas depois tenho que dar também notas às outras entidades.
Pois é, vamos a isso.
Vamos a isso.
Júlio, não sei se tens agora uma intervenção devidamente equilibrada. Queres falar de Fernando Santos? Isto vais compensar com o Cristiano Ronaldo? Vamos lá ver como te portaste.
Vou, só para variar um bocadinho. É que hoje o Portugal-Suíça pode ser um jogo muito marcante.
De viragem.
Sim, de viragem. Como disse há pouco, tanto podemos ganhar como perder. E podemos perder. E se perdermos, não estamos se calhar bem a ver isto, mas é o fim de um ciclo do Fernando Santos e do Cristiano Ronaldo Cristiano Ronaldo tem um triste fim na seleção, ao serviço da seleção, se hoje Portugal perder. Aquela que é a maior marca global do país em todo o mundo, não há outra, é o Cristiano Ronaldo.
Mas não é um triste fim. Vá lá.
É, porque Cristiano Ronaldo, nestes últimos dois meses, tem feito um percurso. Há quem diga que ele está a gerir muito mal este final de carreira, não sei se propositadamente ou não, mas a verdade é que a forma como esteve no Manchester United, Portugal a caminho do Qatar, a saída dele do Manchester United, que ocupou todas as conferências de imprensa da seleção. A seguir, o gol que ele não tocou na bola e quis que o gol fosse dele, voltou a criar uma enorme confusão na seleção e agora esta forma como destratou o selecionador. Não destratou, acabou por o enganar, porque Fernando Santos, no fim do jogo, veio dizer que era para o coreano, porque o Ronaldo também lhe disse, mas afinal foram ver as imagens e de facto não era para o coreano, era mesmo para o treinador aquilo que o Cristiano Ronaldo estava a dizer. E ontem, Fernando Santos veio na conferência de imprensa dizer que não tinha gostado de nada e impor a sua autoridade.
Num tom que não conhecíamos.
Num tom que não é normal, porque sentiu-se mesmo enganado por aquele jogador que ele tem protegido o mais possível e pelo qual tem sido também muito criticado. Qual é o meu ponto aqui para não estarmos a falar só destas questões, que são questões pequenas. E por que vou dar nota a Fernando Santos e ao mesmo tempo a Cristiano Ronaldo? Hoje o jogo é muito importante mesmo para os dois, porque nós não temos a noção de dimensão que esta seleção atingiu. Fernando Santos pegou na seleção em 2014 e ganhou aquilo que nós nunca ganharíamos, nunca ganhamos, nem imaginávamos nunca ganhar, que era um Campeonato Europeu de Futebol e depois uma Liga das Nações, porque nós não temos dimensão para isso. Nós temos 10 milhões de pessoas e a Espanha, a Alemanha, a Inglaterra, o Brasil, a Argentina, são países com 200 milhões de pessoas ou 100, ou 40, o que for, e com dimensão, com capital, com dinheiro, para onde vão os jogadores todos, enfim, o potencial é muito maior. Portugal não está nas cinco melhores seleções do mundo. Nós fizemos uma lista dos 20 melhores jogadores do mundo, não entra lá nenhum português. Mas nós em Portugal achamos que temos os melhores jogadores do mundo e que somos a melhor seleção do mundo.
Sempre.
Sempre.
É sempre assim.
E nos últimos meses, as críticas têm sido devastadoras, têm sido quase enxovalhantes para o selecionador nacional.
E injustas, muito injustas.
Muito injustas. Porque foi o único que até agora nos levou a este patamar. Nunca nenhum nos tinha levado a este patamar. E quando se perde, as críticas são críticas, ninguém está imune. Não é por ter ganho que Fernando Santos não está imune às críticas. O problema é que têm sido críticas quase enxovalhantes e está um país inteiro à espera que perca logo para correr com o Fernando Santos rapidamente da seleção e ao mesmo tempo com o Cristiano Ronaldo, que foram as duas figuras principais dos últimos 10 anos, provavelmente em Portugal. E é por isso que os políticos andavam todos atrás da seleção também, que à conta da seleção, à conta dos êxitos da seleção, também se aproveitaram muito de se alcandorarem e também de iludirem, de alguma maneira, o país que o êxito da seleção era, de alguma maneira, também o êxito de Portugal e daquilo que eles estavam a fazer. E por isso todos iam ver os jogos e acompanham a seleção e estavam nos camarotes, e quando foi no Euro, lá estavam todos, estava o presidente da República, o primeiro-ministro, os ministros, etc. Andou tudo atrás da federação e da seleção. E, portanto, o jogo de hoje tem uma importância quase histórica. Não estou a falar de futebol jogado, isso não interessa. Perde-se, ganha-se ou empata-se, não interessa. Isso joga bem.
Calma, interessa muito.
Claro, interessa. Não, mas hoje não estou a falar desse pormenor, estou a falar mesmo da importância que o jogo de hoje tem, porque se Portugal ganhar logo, já vão aparecer todos a dizer que somos os melhores do mundo outra vez e que podemos ser campeões do mundo. E vão amenizar outra vez as críticas ao Cristiano Ronaldo, ao Fernando Santos, etc. Se perder, vai ser um descalabro. Um descalabro mesmo. E marca o fim de um ciclo. E é pena nós passarmos a vida a dizer mal de tudo o que temos e quando fizemos bem. De pessoas que fizeram bem, que fizeram um grande percurso, que eu duvido que nos próximos 50 anos se volte a fazer um percurso destes. Duvido. Nós não temos dimensão para isso, nem temos jogadores. Dizem: "Esta geração é a melhor geração de sempre." Não é nada. Não é mesmo a melhor geração de sempre.
O Júlio está muito polêmico hoje.
É verdade.
Ele fala pouco, mas quando fala.
Não temos ninguém. E, portanto, não temos bons jogadores, mas não temos a capacidade dos outros países. É aquilo que eu vos disse, vocês deram uma lista de 20 jogadores.
Mas temos o Pepe, Júlio.
Temos o Pepe, também é o fim do ciclo dele. É o fim do ciclo dele hoje também, para ele.
É o fim incrível.
Este é o último mundial para jogadores como o Pepe e o Cristiano Ronaldo, e se perdermos, também para Fernando Santos, como é óbvio.
Eu só não acho que seja um triste fim, porque eu tenho esperança. Eu também não tenho gostado das últimas semanas ou destes últimos meses do Cristiano Ronaldo. Desejaria que ele não tivesse feito uma data de coisas que fez nestas últimas semanas.
Mas é a maior marca do país.
Sobretudo aquela tirada para o Fernando Santos, acho aquilo absolutamente inaceitável e injusto na relação que os dois têm. Mas eu tenho esperança de que o que fique dele é, de facto, o jogador incrível e o embaixador incrível que ele foi, um atleta inacreditável, porque de facto o Cristiano Ronaldo é um jogador incrível. É um atleta incrível.
É o único no mundo.
Portanto, eu tenho esperança e tenho muita pena que ele esteja a dar o flanco para ser tão atacado.
Sobretudo, ele está a dar o flanco. É evidente que não vai apagar tudo o que ele fez, porque de facto é a maior marca que temos no mundo inteiro. Nós em todo lado que vamos, só se ouve falar de Cristiano Ronaldo. Quando se fala de Portugal, é de Cristiano Ronaldo. E espero hoje que ele tenha essa capacidade, porque já teve várias vezes.
Sim, tu há pouco apostavas aqui com três gols do Cristiano Ronaldo.
Nestes jogos, o que conta é o capitão, é o melhor jogador dizer assim: "Esta equipa, tenho que levar às costas."
Eu estou aqui.
Estou aqui, como ele costuma dizer.
Queres dar uma nota?
Quero dar um 18 ao Fernando Santos, sobretudo porque o Cristiano Ronaldo vai perdurar.
Sim, é uma nota corajosa nesta altura.
O Fernando Santos, não. Se perder hoje, vai ser uma derrota para gáudio de milhões de pessoas e de muitos comentadores que vêm sempre com esta demagogia que é: "Pronto, ele já nos deu, teve o seu tempo, agora ponha-se a andar."
Sim, um 18. Estou contigo. Fica este 18, já não falta muito para vermos como vai correr o jogo.
Mesmo se perdermos hoje, Fernando Santos ficará na história.
Com uma nota alta.
E vamos ver se daqui para frente voltaremos a ter os êxitos que tivemos.
É, aliás, o homem que nos deu um dos dias mais felizes das nossas vidas.
Sem dúvida.
Ai, desculpem, já estão a olhar para mim com ar de...
Sim.
Amanhã falamos melhor. O ministro é o Maria João. Peço desculpa. Até amanhã, no Ivan Soré.