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Nasceu em Évora, é ator, encenador e não só. Aos 22 anos iniciou a sua carreira profissional como músico, mas foi no pequeno ecrã que passou a ser conhecido dos portugueses. Mais recentemente, também por partir copos de uísque. Hoje recebemos Rui Melo em "40 Minutos" na Rádio Observador. Olá, Rui. Bem-vindo.

Olá.

Bem-vindo.

Muito obrigado pelo convite.

Em primeiro lugar, trouxemos, não sei se reparaste, um copo de papel.

De papel, eu percebi a dica.

Indireta, para não haver aqui estragos.

Porque os copos são caros.

Temos de ter isso em atenção. E começo por aí. Quantos copos de uísque é que partiste n'O Porto Sol?

Não sei o número ao certo, mas foram muitos. Foram muitas cenas.

Pois, acredito.

Sempre com o cuidado de não interromper a cena, ou seja, que o take fosse o definitivo, porque os copos são caríssimos.

A sério?

Aqueles copos são uma fortuna.

Aqueles copos são feitos de quê?

Eu pergunto o mesmo.

Aqueles são copos feitos de uma espécie de uma goma de açúcar. São muito leves, muito frágeis.

Uma trabalheira para fazer, de certeza.

Têm que ser comprados em Espanha, nem sequer há cá. Vêm embalados de formas especiais. Caríssimos, é muito caro mesmo.

O prejuízo.

Aquilo não dói a partir?

Nada. As pessoas acham que sim, mas não dói nada.

Nem mesmo ao final de 10 copos partidos, nada?

Nada. Aquilo desfaz-se com uma facilidade enorme. Por isso é que tem que se ter muito cuidado. Basta um aperto com um pouquinho mais de força e já foi.

Gostava um dia de experimentar. Temos de mandar vir uns copos destes de Espanha para vermos.

Por que não? Eu tenho o contacto se precisarem.

É que ele pode ter bebida lá dentro e tudo, não derrete.

Não derrete.

Incrível. Pronto, realmente está feita a entrevista, era só mesmo isto.

Era só isto? Vá.

Só queria saber este segredo.

Foi um gosto.

Rui, já vamos olhar para o teu percurso e principalmente pelo que estás a fazer neste momento, porque estás em cena no Maria Matos, mas ainda sobre o Porto Sol. Dos últimos anos, achas que foi o papel que te deu mais reconhecimento?

Mais visibilidade, seguramente. Reconhecimento isso é sempre uma coisa muito relativa, mas visibilidade sim. Porque o Porto Sol conquistou ali um espaço que nós nem sequer estávamos à espera que conquistasse, ou pelo menos que conquistasse tão depressa. E a personagem do Simão, que é a personagem que eu desempenho.

Porbondo aliás.

Exato.

Sim, tem características que fizeram com que criasse empatia com o público. E foi muito bom. Para mim é muito bom.

O Porto Sol aposta muito numa comédia também nonsense.

Sim.

Tendo em conta isso, e tendo em conta que talvez seja um risco maior, porque se calhar não vai ser ao alcance de toda a gente. Também é esse o objetivo. Estavam à espera do sucesso que teve?

Não. Nós tínhamos a noção que tínhamos ali um produto, e dizer produto é uma coisa um bocadinho estranha, desculpem.

Projeto, se calhar. Também não é pior.

Projeto ainda é pior.

Se calhar ficamos com produto.

Tínhamos ali uma coisa. Tínhamos uma ideia muito boa, tínhamos uns guiões muito bem escritos pelo Henrique Dias. E sabíamos que o que o Manuel Pureza propunha para a realização e para a estética, tanto na primeira como depois na segunda série, como depois no filme, mas já lá vamos, sabíamos que a coisa tinha os ingredientes certos para ser uma coisa bem feita. E sabíamos, ou achávamos que sabíamos, que ia agradar a um determinado número de pessoas. Se me perguntam se eu achava que ia chegar a tanta gente e que ao fim da segunda semana de estar no ar, seria a loucura que foi, nomeadamente nas redes sociais, que tiveram um papel sem nós programarmos, sem nós mexermos nada, a coisa cresceu por si só. E ainda hoje é trend no TikTok, por exemplo, a quantidade de vídeos que me mandam do TikTok, do Simão e de outras personagens do Porto Sol, são coisas absolutamente assustadoras. Não tínhamos a noção ou não achávamos que fosse tão grande. Não, isso não achávamos.

Como disseste André, ainda por cima, estamos a falar de uma comédia nonsense na estação pública. Ou seja, era expectável que a RTP tenha aceitado este tipo de projeto?

A RTP teve um papel fundamental.

Teria sido mais fácil noutras estações, também por isso.

Não. Hats off para a RTP, porque o José Fragoso teve a coragem de investir, acreditar neste projeto.

Neste produto.

E a coisa não se teria feito e não teria tido o resultado que teve se não fosse a liberdade que a RTP nos deu, porque eles compraram a ideia, gostaram. Nós no início fizemos um pequeno teaser, um mini episódio de cinco minutos com as personagens e com as características da coisa. Foi uma coisa filmada em dois dias. E o José Fragoso disse logo: "Nós queremos isto, é muito interessante. Têm liberdade para escolher o elenco."

Isso é ótimo.

Sim, deu-nos liberdade total. E mais, teve a coragem de fazer, em termos de estratégia, uma coisa absolutamente notável, que foi: "Ok, nós vamos passar isto como se fosse uma novela, depois do telejornal, todos os dias." Não há nenhuma série da RTP que passe todos os dias.

Exatamente.

"Vamos chamar-lhe uma novela de verão e vamos passar isto todos os dias à hora das outras novelas."

Aqui há tema aposta.

Tu falavas ali da palavra liberdade. Tu que já estás há muito tempo neste meio e conheces bem, certamente. Costuma haver esse tipo de liberdade em termos de escolha de elenco artístico, de criação do próprio guião? Há essa liberdade ou este foi um caso raro de liberdade?

Depende das estações, o que eu também entendo. Ou seja, se nós tivéssemos levado este formato à SIC ou à TVI, provavelmente os diretores dos canais teriam dito: "Epá, e sim Mas esta personagem tem que ser feita com uma cara que já está ligada à estação. O que é perfeitamente legítimo. Nós não queríamos essa condicionante. Nós fomos diretamente à RTP. Nós nem sequer fomos aos outros canais. Fomos à RTP.

Foi a primeira opção.

Sim, sabíamos que ali poderíamos ter o espaço de liberdade criativo para fazer aquilo que nós entendíamos que devia ser.

As reações do público acho que são fáceis de se observar, redes sociais.

Exato, aqui como dizíamos, no TikTok.

Sim, no TikTok.

E não só. Eu que não tenho TikTok, recebo vídeos.

Eles chegam até ti.

"Está não sei o quê, está uma loucura." E eu: "Boa, está bem, porreiro."

E para o Simão Bourbon de Linhaça em pessoa, para o Rui Melo a passear na rua, num shopping, notaste que houve uma diferença nas abordagens? Como é que as pessoas reagiam contigo na rua, pessoalmente?

Sim, eu já faço isto há muitos anos.

Claro. Mas não eras um estranho.

De alguma forma, as pessoas sabem quem eu sou e está tudo bem. Claro que é uma mudança muito grande, porque atinge esse nível de meio de série de culto. Eu não gosto muito da palavra, mas é o que me dizem muitas vezes. E eu percebo que o digam, porque, de facto, as pessoas têm um carinho muito especial por isto e pela personagem. E isso é muito engraçado. E as manifestações são muito calorosas. Eu não sou nada aquelas pessoas que diz: "Que chatice, as pessoas adoram ver." Não, eu acho muito fixe que as pessoas venham falar comigo.

É o reconhecimento do teu trabalho.

Sim, acho mesmo muito fixe. E que queiram tirar fotografias. Há alturas em que não me apetece tirar fotografias.

Sim, se estás a jantar num restaurante, às vezes é um pouco chato. Mas faz parte.

Mas normalmente as pessoas até têm esse tipo de cuidado.

Ótimo.

Pedem desculpa por estar a interromper. Eu notei isso logo a partir da primeira semana, na primeira temporada.

Falaram assim no imediato.

Sim, de vez em quando, até no carro. Eu ia de carro, janelas fechadas.

A buzinarem.

Pessoas a buzinarem: "Doutor Simão!" E eu: "Isto é meio estranho. Ok."

Mas aceita.

Mas aceito, mas é bom, não é?

E tu precisamente fazes de Simão Bourbon de Linhaça, ou seja, é o vilão. Veste a fazer mais vezes de mau da fita noutras produções?

Eu vesto-me a fazer de tudo. Não me apetece fazer um vilão, que é vilão de novela e que parte copos com as mãos. Isso está feito. Mas um vilão, se a personagem for desafiante, se eu acreditar no texto, se acreditar na visão do realizador, claro que sim.

Dizeste numa entrevista que sentias que a qualquer momento as pessoas iriam descobrir que és um mau ator.

Sim.

Primeiro que estava a perguntar: és um mau ator, Rui?

Em vários momentos sou e em vários momentos não.

Mas por que dizes isso?

É um bocadinho de síndrome do impostor. Que todos nós temos, nas nossas profissões, todas elas. E eu sinto isso, sinto que há séries, há personagens que me assentam melhor e que eu sei defender melhor e outras que não tanto. E está tudo bem. Mas eu como tenho aquela coisa, eu não gosto de me ver.

Não costumas?

Não.

Acho que muitos artistas sofrem deste mal, entre aspas, de não gostarem de se ver ou de ouvir.

Porque somos sempre muito analíticos, muito críticos. Nós temos aquela deformação profissional de não conseguirmos só acompanhar a história. Eu estou a analisar: "Olha, eu ali olhei para ali, aquele braço não devia estar ali, está ali uma luz, eu devia ter-me feito mais à luz. Disse esta palavra muito rápido." A coisa é meio psycho. Uma coisa meio fora.

Não consegues tirar, por exemplo, o prazer de ver os teus conteúdos, os teus filmes, as tuas séries. E já agora também se consegues tirar isso ao ver dos outros.

Ao ver dos outros, sim. É muito curioso, porque, por exemplo, a minha personagem preferida do "Pôr do Sol" é sem dúvida o engenheiro Eduardo Bourbon de Linhaça. Mega fã. Aquilo é primoroso. Sou mega fã de tudo o que a Gabriela Barros faz. Eu tiro prazer dos outros. No meu caso é que fico super...

Mas podias, por exemplo, também estar a ver um filme até estrangeiro e estares muito focado no detalhe.

Já não sei se esse olhar tão crítico com os outros. Claro que continuas a ter, mas se calhar não tanto quanto.

Sim. O Donald Sutherland, um grande ator, numa entrevista recente ao "60 Minutes", disse uma coisa que eu subscrevo absolutamente. Perguntaram-lhe se ele costumava ver os filmes dele. E ele disse que não. E eu fico muito indignado, mas não percebo porquê.

Porque são bons filmes.

Sim, e ele respondeu tão simplesmente isto: "Porque a única coisa que eu posso controlar no meu trabalho é se chego a horas, se sei o meu texto e se tenho uma proposta válida. Tudo o resto sai do meu controle. A forma como o realizador filma, a forma como me iluminam, a forma como captam o meu som e a forma como editam. Portanto, muitas vezes eu vou para plateau fazer o melhor que sei e posso, tenho a certeza que estou bem preparado, mas depois o que eu vejo na tela não corresponde àquilo que eu acho que fiz. E isso pode ser muito bom ou pode ser muito cruel." E ele diz que prefere não ver por causa disso. A única coisa que eu tenho que assegurar é que eu chego a horas, sou respeitador com toda a gente, sei o meu texto, sei o que tenho de fazer, conheço bem a personagem, conheço bem a história e a defendo com unhas e dentes. Tudo o resto não quer saber.

Portanto, partilhas da mesma opinião.

Sim.

E já agora, continuando aqui nesta de maus da fita e bons da fita. Há algum papel que preferes fazer? Preferes ser o mau da fita?

Eu prefiro textos bons

Excelente resposta. E o "Pôr do Sol" fez um sucesso estrondoso, como já dissemos, mas ao longo do tempo temos visto vários sucessos da comédia e atores da comédia a não serem reconhecidos em termos de prêmios. Achas que o papel e o filme cômico são desvalorizados?

Acho que há um preconceito em relação à comédia. Há muitos tipos de comédia, não nos podemos esquecer disso. Sem estar a querer hierarquizar a coisa, mas há, de facto, coisas que me fazem rir a mim e se calhar não te fazem rir a ti. Não vou dar exemplos concretos, porque nem sequer é muito elegante. Mas, se calhar, da parte da indústria, seja ela do cinema, do teatro, da televisão, coloca-se sempre os papéis dramáticos e as narrativas mais dramáticas como o ex-libris do que é executar bem.

Estávamos a falar há pouco, por exemplo, um bom ator não é só aquele que chora desalamadamente.

Ou que grita mais.

Eu concordo convosco.

Nós há pouco, em off, estávamos a usar como termo de comparação o Jim Carrey, por exemplo, que é um ator brilhante e que em termos de comédia já fez um bocado de tudo.

E brilhantemente em comédia. E em drama, o "Eternal Sunshine of the Spotless Mind" é um filme inacreditável, mas o filme todo é brilhante e ele é soberbo. Mas parece que só se validou. Estou a perceber o que estou a dizer?

Sim.

Isto é uma coisa que está em nós. Nós próprios só validamos o Jim Carrey depois dele fazer o "Eternal Sunshine". Isso não me parece muito justo.

E tu, no teu caso, por exemplo, sentes que tens sido mais associado à comédia com o passar do tempo?

Na televisão, sim. Em teatro, nem tanto. Eu, por exemplo, já fiz alguns espetáculos no Teatro Aberto, com o João Lourenço, e ele normalmente chama-me para papéis um bocado mais duros, personagens mais austeras.

Como é que se muda o chip, nesse caso? É fácil?

É muito fácil.

Super fácil.

Para nós parece que é uma ciência.

É muito fácil. Se o texto é bom, se a direção é boa, então não há como falhar.

Claro.

É só executar o que lá está. Isso é válido também para a televisão. Eu acho que um dos segredos do "Pôr do Sol" foi exatamente esse: os atores perceberam rapidamente que não valia a pena tentarem somar àquilo que já lá estava escrito, porque o que estava lá escrito era brilhante. A dificuldade ali foi convencer os atores e a equipa, convencer toda a gente que faz como se isto fosse a mais absoluta das verdades. E o exemplo mais claro que eu posso dar disso é, por exemplo, quando se diz ao engenheiro Eduardo Bourbon de Linhaça que ele comprou um cavalo por 7 mil milhões de euros, mas que o cavalo só corre para trás, aquilo para ele tem que ser um drama. Aquilo só tem graça para quem ouve, não tem graça para quem faz. Imagine se alguém comprar um cavalo que custa 7 mil milhões de euros e o cavalo corre para trás. Que drama, que horror!

Vocês não se partiam a rir?

Exato, eu só quero saber como é que era um dia de gravações.

Foi horrível. É horrível, porque às tantas tens a pressão de ter que cumprir determinado número de minutagem. A coisa funciona ao minuto. Tens a equipa toda a rir às gargalhadas.

O número de bloopers.

Há muitas, há horas.

Quero muito ver isto.

Mas nisso acaba por também transformar-se num desafio dentro de outro desafio. Para além do desafio da interpretação, o desafio de manterem cenas mais sérias.

Recuperar essa coisa. A comédia só pode ser comédia para quem a vê, não para quem a faz. Isso é que torna a coisa engraçada.

E desafiante também.

Sim, também, obviamente. Mas essa é a minha regra básica da comédia. Só pode ser comédia para quem vê. Para quem faz, não. Faz a sério, faz bem. Diz estes disparates todos, mas diz com uma intensidade e um dramatismo, como se estivesses a falar da morte da tua avó.

Rui, muito bem. Já vamos voltar à conversa. Vamos fazer uma pausa para as notícias. Na segunda parte, vamos falar sobre o presente em palco do Rui Melo, mas viajamos também às origens. É para ouvir já a seguir. Até já.

Até já.

Segunda parte do "Em 40 Minutos", hoje com o ator Rui Melo. E Rui, vamos aqui viajar às tuas origens, vamos até ao Alentejo. Nasceste em Évora, só anos mais tarde é que vieste para Lisboa. Como é que foi crescer fora da capital? Ou seja, como é que era um dia do adolescente Rui Melo?

Crescer fora do rebuliço da capital é um privilégio. Ainda por cima, eu tive uma infância muito feliz, supertranquila. Tive essa sorte. Isso é que é um privilégio.

Tens irmãos, Rui?

Tenho uma irmã mais nova que eu.

Como é que é a relação? Dão-se bem?

Muito bem.

Que bom. Ótimo.

Gosto muito dela. Ainda sou um bocadinho protetor, mas ela já não liga nenhuma.

Ainda está em Évora?

Não, ela já vive em Lisboa também há muitos anos. Na verdade, eu já vivo há mais tempo em Lisboa do que vivi em Évora. Mas sou eborense de gema.

E tens saudades?

Tenho muitas saudades. Eu acho que vou acabar a minha vida lá Quando parar de trabalhar, acho que é pra lá que eu quero ir. Voltar a casa.

É uma paz que se calhar não existe aqui?

O Alentejo tem um fascínio que eu não encontrei em mais lugar nenhum do mundo. Tem um cheiro, tem umas cores, tem uma calma que eu não encontrei em mais lugar nenhum do mundo. Encontrei uma coisa muito próxima, talvez em Moçambique, que foi o único sítio onde eu disse: "Aqui era capaz de viver."

Mas não superou.

Não.

Nada vai superar as raízes.

Exato.

Sim, quando eu vim pra Lisboa, fui viver pras Azinhas do Mar. Não fiquei vivendo em Lisboa, vivi nas Azinhas do Mar uns quantos anos. E adoro as Azinhas, aquilo é minha segunda terra, é como eu lhe chamo, mas não é a mesma coisa, não é o mesmo que o Alentejo.

Claro. Olhando pra essa saída, dizias que gostavas de voltar um dia pra Évora, quem sabe, até pra ficar depois por lá. O que Lisboa, que tem tanta coisa, faz para ao mesmo tempo todos nós querermos muitas vezes sair daqui e voltar às origens?

Mas eu ainda não quero sair.

Sim, mas um dia.

Sim. É porque eu ainda gosto desse rebuliço. Eu, neste momento, se for a Évora, não consigo ficar lá mais do que três dias. Não consigo. Começa a fazer-me falta esta energia da cidade. Eu gosto da energia das cidades.

E as oportunidades que as cidades têm também.

Já nem estou a falar da questão profissional, porque seria impossível eu exercer a minha profissão em Évora.

Achas que nunca conseguirias ter sido ator, pelo menos?

Não, tenho a certeza que não. Tenho a certeza que teria desistido, se fosse para ficar em Évora, teria desistido a meio, porque há uma companhia de teatro, que é o Cendrev, e pouco mais. Nem sequer há muito teatro a acontecer em Évora, o que é uma pena. Eu tenho muita pena, eu só consegui fazer um espetáculo no Teatro Garcia de Resende, em Évora, que é um teatro lindo, é um teatro incrível, e eu só consegui porque insisti muito com pessoas da Câmara de Évora, que eu conheço desde criança, porque meu pai trabalhou na Câmara de Évora. Portanto, eu insisti: "Por favor, vocês têm que levar este espetáculo lá". E eles lá cederam, deram-nos o fim de semana e o espetáculo esgotou todos os dias, o que também é uma coisa rara.

Tu atuaste nesse espetáculo?

Eu era um dos atores, sim.

Como é que foi?

O espetáculo chamava-se "Os 39 Graus" e era um espetáculo dirigido pelo Cláudio Oshman. Era comigo, com a Inês Castelo Branco, com o Joaquim Horta e o João Didelé. Éramos só quatro.

Exato.

E o espetáculo era maravilhoso. Aquilo era um espetáculo que existiu na Broadway e no West End, e que nós fizemos cá. E era absolutamente fabuloso, porque era baseado no filme do Hitchcock. Só que eram os dois personagens principais, digamos assim, que era a Inês Castelo Branco e o Joaquim Horta, que era a heroína e o herói. E depois eu e o João Didelé fazíamos cada um de nós 130 personagens do filme.

Coisa pouca.

Era muito giro. Nós até de pedra fazíamos. Era muito engraçado.

Mas como é que foi atuar pras tuas gentes lá de Évora?

Foi muito especial. Ainda por cima, eu insisti muito pra que nós fizéssemos lá o espetáculo. E eu tinha me estreado naquele teatro com três ou quatro anos, a cantar com o meu pai numa festa de Natal lá da Câmara Municipal de Évora.

Antes mais tarde voltar.

Sim, tinha esse objetivo, esse é um sonho, quase. E adorava poder fazer mais teatro em Évora.

Quem sabe um dia. Tu, como dissemos no início, és músico, és ator, és encenador.

Um mal nunca vem só, não é? É exatamente isso.

Isto é possível ter uma rotina das 9 às 17h? É fácil gerir todas estas coisas?

Não sei se isso vai fazer sentido, mas vou tentar explicar. Eu sou muito desorganizado e por isso organizo-me muito. Percebem o que eu estou a dizer?

De alguma maneira, exato, consigo identificar.

Eu se me deixo ir, sou um caos.

É uma desgraça.

Sou um caos. Portanto, eu policio-me. Esta coisa dos horários, eu chego sempre cinco a 10 minutos antes de qualquer coisa.

Confirma-se.

Confere. Não, meninas, chego sempre. A não ser que aconteça alguma coisa. Ninguém está livre que isso aconteça. Mas por norma, chego sempre. E é por isso, é porque eu organizo a minha vida milimetricamente.

Porque senão era o caos.

Por exemplo, eu agora estou a fazer uma adaptação de um espetáculo que vou encenar em 2024.

Ainda não podemos saber qual é.

Podem.

Que bom!

É sim o meu grande projeto dos últimos anos e dos próximos. É um espetáculo que eu vi na Broadway, que se chama "Dear Evan Hansen". É um espetáculo de teatro musical de grandes dimensões e fala sobre saúde mental nos jovens. É uma história triste, complicada, difícil, mas linda ao mesmo tempo. É a história de um miúdo que sofre de depressão e ansiedade e que, como tantos outros miúdos, quer atenção, nomeadamente nas redes sociais, e não tem. Ninguém sabe quem ele é, e isso deprime-o cada vez mais. E o suicídio de um outro miúdo na escola onde ele estuda, faz com que, por um equívoco, ele se torne uma celebridade a nível nacional

Mal posso esperar para 2024.

Sim, ele torna-se uma celebridade porque um equívoco faz com que as pessoas comecem a achar que ele é amigo do miúdo que se suicidou. E então ele começa a assumir um papel de: as pessoas têm que dar atenção às outras. E a mentira vai crescendo sem ele controlar, até que acontece alguma coisa.

Sim, sem regular.

Sim. Mas é um espetáculo absolutamente maravilhoso. Isto para dizer o quê? Eu estou neste momento a adaptar o texto e as canções, e tenho a minha vida muito organizada em função disso. Eu sei que, por exemplo, hoje quando sair daqui, vou para casa, janto e eu às 20h00 tenho que estar sentado em frente ao computador e das 20h00 às 23h00, 23h30 no limite, vou estar a adaptar o texto.

Super organizado.

Estava a pensar que seria incrível.

Não, mas tem que ser, porque eu já vivi muitos anos da minha vida no caos.

Na desorganização e não correu bem.

Não correu.

E olha, Rui, com 19 anos começaste a tocar num bar de um amigo. Para um miúdo de 19 anos, isto era um começo de uma carreira ou era só um passatempo?

Era pura irresponsabilidade. Eu vejo os miúdos com 19, 20, 21 anos agora e fico fascinado.

Pensei que podias ser daqueles miúdos já com 19 anos parvocado e é isto que eu quero.

Não, eu era um parvalhão. Ainda sou um bocadinho, sejamos francos. Não, era pura inconsciência, é aquele: "Não quero estudar direito. Pai, mãe, não quero estudar direito, afinal. Quero ser músico". E os meus pais engoliram em seco.

Tu ias estudar direito?

Sim. Os meus pais engoliram em seco e disseram: "Tudo bem, pronto, é uma opção tua, respeitamos, não contes mais com dinheiro nosso, não te vou pagar uma casa em Lisboa". "Não é preciso, eu agora vou tocar no bar de um amigo meu". E assim foi, é irresponsabilidade. Mas ao mesmo tempo essa liberdade da irresponsabilidade deu-me espaço para ir fazendo.

Que memórias é que guardas desses tempos?

Eu sentia-me um rockstar. Imagina, eu tocava.

Tocavas o quê? Todos os fins de semana?

Eu tocava muitas vezes por semana.

Mais ainda? Uau!

Sim, eu toquei durante sete anos no Chafarics. Chafarics, para quem não sabe, vocês têm uma idade diferente da minha, era o bar mais emblemático de música ao vivo em Lisboa. Era o bar do Luís Represas. Eu toquei lá durante sete anos com a minha banda.

Músicas originais ou covers?

Não, covers de música portuguesa dos anos 80.

E o que é que tocavas?

Havia a música de eleição?

Desde Heróis do Mar, Xutos & Potapés, Rui Veloso, Palma.

Boa música, portanto.

Sim.

Tu eras o vocalista ou tocavas alguma coisa?

Eu era o vocalista e guitarrista.

Portanto, rockstar mesmo.

Não imaginam, eu cheguei a fazer concertos na extinta Praça Sony, na Semana Académica de Lisboa. Um que me lembro, o cartaz éramos nós, os Xutos e os 10.000 Maníacos.

Um cartaz humilde.

Como é que se chamava?

Nós chamávamos Vinhos e Petiscos. Lá está, irresponsabilidade absoluta.

É possivelmente o melhor nome para um grupo.

Na Queima de Coimbra, para 50 mil pessoas. É loucura.

Eu aposto, Rui, que alguém vai estar a ouvir este podcast e vai dizer: "Eu ouvi".

Vendiam discos? Tinham discos?

Não.

Senão iam dizer: "Eu tenho um disco dos Vinhos e Petiscos".

Não, mas eu recebo muitas mensagens no Instagram de pessoas que ouviam.

Incrível.

Iam ver-nos religiosamente todas as semanas, era muito engraçado.

E ainda neste tópico da música, é algo que esteve sempre presente na vida da tua família? Como é que surgiu este-

O meu pai era músico

Eram músicos?

Amador, mas músico. O meu pai escrevia muito bem e tinha uma grande preocupação com a recolha da música tradicional alentejana. Portanto, sempre se ouviu muita música em minha casa, sempre se tocou muita música em minha casa, sempre houve instrumentos musicais em minha casa e nunca me foram impostos, que é uma coisa que eu acho ótima. "Tens aí uma guitarra, tens aí um cavaquinho, se quiseres tocas. Quando quiseres perguntas-me que eu ensino". E assim foi. Eu no início não ligava nenhuma, a partir de uma certa idade comecei a tocar cavaquinho, sei lá, 11, 12 anos, e depois quando descobri o liceu, passei para a guitarra.

Claro.

Para o apogeu.

Por miúdas. E a coisa foi crescendo nesse sentido.

E atualmente, qual é que é a tua relação com a música? Agora estamos habituados a ver-te no pequeno e no grande ecrã, não é?

A minha casa está cheia de guitarras.

Que bom!

Mas está em pó?

Não, estão todas impecáveis, prontas a tocar. Por quê? Porque eu continuo a fazer muita música. As músicas do "Jesus Cristo" são minhas.

São tuas?

São.

E se calhar bastava termos ido à ficha técnica para perceber, não é?

Exato.

Eu fiz as letras com o Henrique Dias, que é o argumentista. As letras são dos dois, mas a música é minha.

Um homem dos sete ofícios.

Lá está, um maluco a bem só.

Portanto, conseguiste ter um concerto na Praça Sony e conseguiste, se eu não estou enganado, os Kiss estiveram no Nós Alive.

Estiveram no Nós Alive e no Kwizzy.

E no Kwizzy também.

E fizemos um arral de som cá joão com três minutos.

Eu estive lá.

Foi?

Sim.

Que loucura.

Foi incrível, tenho um bom já aqui rolo.

Que loucura.

Foi uma grande.

Mas ainda tocas de vez em quando? Estás em casa e tal.

Toco em privado. Eu componho muito e escrevo muito. Lá está, este musical que eu agora vou encenar em 2024, eu tenho que usar os meus recursos enquanto músico, até para escrever as letras.

E para além da música, há mais algum hobby? Tens tempo para mais alguma coisa? Até parecia que ia perguntar.

Tenho tempo para ser pai, que consome muito.

Um hobby full time.

Exatamente.

Sim.

E depois da música, apareceu o teatro, não é?

Sim, eu comecei por-

Lembras-te da primeira peça?

Lembro, chamava-se Festa na Floresta, era um espetáculo de teatro para a infância.

Tinha a tua idade?

Eu já tinha perto dos 30 anos Eu comecei muito tarde.

Então estiveste muito tempo na música?

Sim. Foram 10 anos, desde os 19 até aos 29, por aí. Foi só música.

10 anos de rockstar.

E ganhava mais dinheiro na altura do que ganho agora. Isto é verídico. Ganhava-se muito bem. Eu tocava quatro a cinco vezes por semana nos bares e depois tínhamos esses concertos maiores com alguma regularidade. Eu vivia muito bem.

Portanto, cumpriste aqui a promessa que fizeste aos teus pais.

Sim.

Rui, já fizeste teatro, novelas, filmes, séries, um pouco de tudo, como tu dizias, o homem dos sete ofícios.

Não fui eu que disse.

Já estou aqui por palavras noutros sentidos. Que tipo de projetos é que gostas mais de fazer? Gostas de tudo?

Se só tivesses que escolher um. É difícil.

Um top três.

É muito difícil.

Normalmente as opções.

Lá está. A última vez que eu encenei um espetáculo de teatro foi há cinco anos, que foi o Avenida Q.

Eu vi.

Sim, eu lembro-me perfeitamente.

Adorei. Aliás, gostei tanto que fui ver duas vezes. Vi uma no Casino de Lisboa e depois vi no Maria Matos, no Recinto.

O espetáculo era muito giro, esta é a parte. Mas desde aí eu não tive vontade de encenar.

Sério?

Por algum motivo em especial?

Por razão nenhuma, porque encenei e isto foi incrível. Agora apetece-me fazer outra coisa. Comecei por fazer novelas, agora apetece-me criar o "Pôr do Sol" com estes meus amigos e agora apetece-me voltar a encenar. E felizmente eu não tenho que ficar dependente só de uma área.

Isso é ótimo. E vai fluindo assim.

Rui, a conversa está ótima. Infelizmente vai ter de acabar. Mais ou menos. Vamos à última parte desta entrevista, porque vamos falar daquilo que estás a fazer agora. Estás em cena no Maria Matos. O regresso de Ricardo III no comboio das 9:24.

É um nome muito chato.

Não é tão simples.

É um nome fácil de decorar.

Mas o espetáculo é maravilhoso.

Era isso que eu ia perguntar, se o espetáculo, se a peça em si é tão original como o título.

É dos textos mais brilhantes que eu li nos últimos tempos. Quando me mostraram aquele texto, a Sandra Faria da Força de Produção mostrou o texto, eu achei: "Que maravilha, que coisa tão inesperada."

Não tiveste como dizer que não.

Quando a Sandra me desafia para alguma coisa, normalmente eu sei que é bom. Depois quando me diz assim: "Isto quem vai encenar é o Ricardo Neves Neves", eu: "Ok." Portanto, a coisa foi aceite à partida.

Não precisas a convencer.

Não. E depois quando li aquele texto, é genial, porque brinca com esta coisa. A história, muito resumidamente, é: um homem de uma certa idade tem uma doença terminal e a família dele toda morreu num acidente de avião. Portanto, isto parece muito trágico. O que ele faz? Ele como sempre foi um péssimo pai de família, contrata sete atores para num fim de semana fazerem da família dele.

Ai, não posso.

Sim. Para poder morrer em paz.

Isso é muito bom.

E então, a coisa começa bem, de alguma forma, mas depois começa-se a misturar o que é que são os atores e o que é que são as personagens que eles têm de desempenhar.

Familiares mesmo.

Sim, a coisa começa ali a descambar de alguma forma.

Portanto vale a pena passar por Maria Matos.

E o elenco é maravilhoso, deixem-me falar só do elenco.

Força, claro que sim.

Adriano Luz, Ana Nave, a Jéssica Ataíde, a Susana Blaser, o Samuel Alves, o Miguel Tirrer, a Raquel Tilo e eu, claro.

Portanto são bons nomes.

Já agora, só para levantar aqui um bocadinho o véu, qual é que é o teu papel?

Eu sou um dos Ricardos. Há três Ricardos.

Um dos Ricardos.

Eu sou um dos filhos.

É verdade.

E o Ricardo III.

É o Ricardo I, é o Ricardo II e o Ricardo III.

Está explicado. Já percebi.

Mas qual deles é que és? És um dos Ricardos.

Sou um dos Ricardos.

Pronto, a peça então está em cena no Maria Matos, de quinta a sábado, às 21:00 e domingo, às 17:00.

Já sabemos até quando?

Sim, sabemos. Até final de janeiro. Já não falta muito, já não temos muitas semanas. Mas felizmente o espetáculo tem estado sempre esgotado, o que é incrível.

Portanto temos até o final de janeiro para poder passar no Maria Matos. Rui Melo, muito obrigada por teres estado connosco aqui na Rádio Observador em "40 Minutos". Na próxima semana, eu e o André Maia estamos de volta com mais histórias para contar. Até para a semana, Rui Melo. Obrigada mais uma vez. Obrigada.

Sempre bom.