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É uma das atrizes mais queridas do público português, já viveu no nosso país. Quem não se lembra da "A Gata Comeu", "Selva de Pedra", "A Viagem", "Cananga de Japão", "Mulheres Desapaixonadas", que eu amo. A estreia na Globo aconteceu em 1976, na novela "Duas Vidas". Teatro, cinema e televisão, são mais de 40 anos de carreira. Por aquilo que sei, não gosta de cozinhar, adora lavar louça, aprendeu inglês por causa dos Beatles e há mais para descobrir ao longo desta hora. Christiane Torloni, em 40 minutos aqui na Rádio Observador. Bem-vinda.

Bem-vinda.

Está tudo certo. Mantém-se ainda a parte de não gostar de cozinhar.

Você sabe que a pandemia mudou muita coisa. Antes de mais nada, super obrigada pelo convite. Eu amo fazer rádio, então adoro esse ambiente. É muito pessoal, o rádio, voz das pessoas, é muito quente. Mas a pandemia mudou um pouco essa questão do não gosta cozinhar, porque não é questão de não gostar, é falta de aptidão mesmo.

Eu sinto, porque eu sou igual.

Você pode perder amigos, namorados, até o cachorro pode ir embora no perigo.

Não aprendeu a fazer pão na pandemia. Aqui em Portugal houve uma grande tradição que foi toda a gente aprendeu a fazer pão durante a pandemia, não se aventurou.

Não, porque pão inclusive engorda. Eu já não sei cozinhar, imagina fazer um pão sem glúten, deve ser mais difícil ainda.

Como eu compreendo. Christiane, olhando para a sua carreira, esta é daquelas perguntas: mudava alguma coisa ou tudo teve o seu timing na altura certa e faz parte do crescimento?

Você sabe que, na verdade, se você for olhar a pedra fundamental da minha carreira, está há 52 anos. O meu primeiro registro de trabalho está exatamente há 52 anos de tempo, em 1970. A primeira participação que eu faço na extinta TV Tupi. Tinha um programa infantil chamado Teatrinho Troll. Inclusive essa semana foi postada essa foto, que é uma foto absolutamente emblemática. Imagina eu aos 13 anos fazer o quê? Uma princesa adormecida. Daí demorei um pouco para despertar e aí em 75 eu começo a gravar essa novela. Na verdade, em 75 eu faço o Indulto de Natal, que é a minha primeira participação na TV Globo, com o Walter Avancini. E aí sim, em 76, estreia em novelas, em "Duas Vidas". Então já é um longo percurso.

Mesmo. E alguma vez pensou em desistir?

Olha, eu vou te dizer uma coisa, a vida é um convite para você reassinar os seus contratos, como você faz aquele leasing do carro. Então houve realmente um momento da minha vida que eu fiquei bem desconfiada se eu voltaria a atuar como atriz. Às vezes o coração está tão despedaçado que você não sabe se você vai ter energia, porque de onde vem o trabalho da gente? Ele vem da alma, o instrumento é o coração. Se a alma está um pouco perdida e o coração esfacelado, então é um tempo de você aguardar para ver o que vai acontecer. E foi um tempo em que eu me dediquei à produção cultural, a começar a dirigir. Mas voltando à pergunta anterior, se eu mudaria alguma coisa, sim, olhando para trás, alguns personagens eu disse não, para duas protagonistas. E ao longo do tempo, eu percebo que talvez tenha faltado algum jogo de cintura, como se diz, porque eu estava produzindo dois espetáculos e eu dizia: "Eu não tenho como, nesse momento, assumir". E eram duas protagonistas incríveis. E aí o tempo cobra. Aquilo era para ter acontecido de alguma maneira, então eu tive que depois correr atrás para poder crescer aquilo que elas estavam me dando. São como amores.

Está a recordar esses dois personagens, esses dois momentos. Costuma fazer isso muitas vezes ou é muito mais focada no futuro? Olha mais para frente do que para trás.

Você sabe que nesse momento da vida eu resolvi retomar um projeto que tinha ficado parado, em modo pause, por conta do filme que eu resolvi produzir e dirigir junto com um querido amigo, que é o Miguel Przewodowski. E nesse momento eu já estava trabalhando numa biografia. Então por isso que eu tenho esses dados, há quanto tempo foi alguma coisa. Como boa aquariana, eu esqueço muito o que aconteceu.

Tenho uma pergunta para lhe fazer sobre isso, mas já lá vamos.

O projeto do livro chama-se "Lúcida Loba" ou antes que eu me esqueça. Eu estou tentando não esquecer coisas, mas há muitos anos eu estudo e pratico alguns ensinamentos do budismo e um deles, talvez o maior, seja esse, você trabalhar contra julgamentos. A gente não só escaneia as coisas e as pessoas, como também julga-se demais. Isso é o pai e a mãe do preconceito. Do pré-conceito. E também a mãe e pai dos ressentimentos. Então duas coisas que fazem muito mal para o fígado, para a alma e para a pele Mesmo.

Estamos aqui na rádio e já fez o elogio da rádio, de como gosta da rádio e da sua voz. Já gosta mais ou não?

Também esse foi um trabalho enorme na vida, porque eu tinha uma voz, pra mim, insuportável. Quando eu me vi pela primeira vez na televisão, eu disse assim: "Como é que deixaram essa pessoa entrar no estúdio?" Sim, eu sou filha de atores, então isso é uma banca de julgamento na minha casa. Meu pai até hoje diz: "Não entendo uma palavra do que você diz. O que você está falando?" Ele já é uma pessoa de mais idade agora. Mas no começo, eu dizia assim: "Como não me entende?" Falta dicção. Mas o registro da minha voz me incomodava demais. Tanto que você pega novelas mais antigas, até a própria Gata Comeu. Pra mim é insuportável. Então eu fui trabalhando, eu fui baixando o registro da voz até chegar num tom confortável pra mim, inclusive porque eu falo muito sozinha. Então eu mesma não me aguentava, eu disse assim: "Insuportável, nem eu me aguento". Então tirei a voz da testa, que era insuportável pra mim.

Mas havia muitas pessoas a dizerem-lhe isso ou era só o seu pai? Ou pus isso na cabeça?

O papai não se incomodava com o tom de voz. Quem se incomodava era a mamãe. Meus pais são da primeira turma da primeira escola de arte dramática do Brasil, chamada EAD. Eles se conheceram em 1947, estão casados até hoje. É uma loucura. Então eu sou aquilo que se chama filha da arte. Então mamãe dizia assim: "Voz na testa, é gente que mente, que tem essa voz assim". Eu disse assim: "Caramba, isso é péssimo na vida". Nem sonhava ainda em ser atriz. Eu falei: "Isso é péssimo". E eu fui trabalhar nisso, literalmente. Eu fui trabalhar. A salvação. Se você quer trabalhar no rádio, meu amigo, e você tem uma voz, uma dicção ruim, entre numa boa aula, numa fono fonoaudióloga e vá trabalhar a sua voz. A Christianne gosta às vezes de, por exemplo, recordar as primeiras participações, quando fez nas primeiras novelas. Nesta questão da voz, por exemplo, nós rádio, eu lembro perfeitamente um dos maiores exercícios que nós temos sempre é ouvir a nossa primeira emissão, coisa que eu nunca fui capaz de fazer, porque eu não reconheço. Eu penso: "Que horror, não posso ter feito aquilo". A Christianne gosta desse exercício, às vezes, ou de viajar no tempo. Por exemplo, agora para as memórias que está a fazer, recorreu muito a rever algumas telenovelas, até porque algumas voltam agora a estar em exibição, o caso de Mulheres Apaixonadas, mas sobre isso já lá vamos, ou O Que Ficou Ficou. Não sei se é mérito ou é defeito, eu acho que é um pouco defeito, porque eu já perdi muito registro meu de trabalho. Talvez seja um desapego que acaba virando uma coisa um pouco desastrada. Eu perdi muito registro de trabalho, principalmente no teatro, isso é uma pena enorme. Mas a televisão se incumbiu de criar a sua própria memória. Então eu tenho a oportunidade, então agora com as redes sociais, é uma coisa impressionante. Antigamente chamava fã clube. Agora são as redes. As meninas postam coisas que eu digo assim: "Gente, elas devem ter imagem do meu batizado, porque não é possível". A televisão é muito interessante porque no começo, eu literalmente sentava pra assistir pra poder me corrigir. Quer dizer, era um exercício de autocorreção. Não é pela vaidade. Sim. Eu agora ia perguntar, já respondeu. Filha de Apolo. Então deve ser um problema. Eu vejo isso, eu tenho que tomar cuidado com meu filho, com meu neto, porque eu vejo, a minha mãe fica vendo polegadas no bisneto de cinco anos. Eu falo pro Léo: "Léo, releva, porque lá em casa era pior". O audiovisual serve pra ser um instrumento de correção. Então eu fui corrigindo. E acho que com algum sucesso, porque eu fui vendo umas coisas que eu disse assim: "Só muita aula de corpo, muita aula de dança, pra esticar, equilibrar". Tão giro, Diogo, que nós olhamos e vemos, às vezes, estas nossas lutas são realmente só nossas. E também ninguém tem que saber. E a forma como nós encontramos, mas também é bonito ver que às vezes existe muito aquela ideia do: "É perfeita, está tudo bem". E, afinal, não é. Não, não é. Somos humanos. E nós, mulheres, temos tantas lutas. Não, a mulher até os 30 anos sofre muito com a questão hormonal. Isso já deixa elas onças. Mas a idade ajuda, encontramos alguma paz com o tempo. Sim, a partir dos 30 anos, eu acho que acontece assim, sei lá, um céu de brigadeiro, porque para, não é o inferno. Todo mês você vive assim, parece que você cheira 80 fileiras de cocaína por uma semana, por mês. Todo mundo na casa quer te abandonar, te trancar numa gaveta, e diz assim: "Pelo amor de Deus, essa mulher está insuportável". E a gente fica insuportável pra gente Esse grande esforço de você se autocontrolar, também ajuda você em outras coisas. No trânsito, por exemplo.

Vês, Diogo, nós estamos aqui a abrir o coração e a mostrar do que somos feitas. Isso não é fácil.

Nada fácil, acredito que não seja nada fácil.

Mas vocês também não são fáceis, não há do que rir. Vocês também são filhos de Adão.

Eu não vou arriscar entrar num debate agora.

É porque isso ficou-

Estou em desvantagem.

Do ponto de vista do machismo, taxado como coisa de mulher. E nós, obedientes que fomos durante séculos, dizíamos: "É verdade". Mas depois a gente começa a perceber como também os homens têm alterações hormonais terríveis. E só agora, talvez com um pouco mais de liberdade.

Sim, porque na altura não se falava, porque não era suposto, porque os homens não eram supostos passar ou sentir.

Mas é um preconceito, que trabalha contra o próprio homem. Coitado, deve ser um sofrimento, como é pra nós. Coitado, o menino chega na adolescência, a cara dele vira um campo de golfe. É uma tragédia. Como que esse menino vive isso? Mulheres menos, mas os meninos sofrem muito na adolescência e são exigidos de uma maneira sobre-humana. Eu fui mãe de meninos, sou avó de menino. Fico dizendo: "A gente tem que tomar cuidado, porque tem um bullying natural que é insuportável, uma coisa louca".

Mas continua a haver muitas diferenças entre homens e mulheres.

Nesse momento civilizatório, acredito que não. A gente tem todo o movimento LGBTQI, todo esse movimento trans. Eu acho que agora você tem uma pluralidade de gêneros podendo ser assumidos, que você fala do gênero masculino ou feminino, ficou até uma matemática podre. Hoje em dia você sai pra eventos, ou pra jantar em alguns lugares, principalmente, você diz assim: "Maravilhoso". Antigamente, isso estava um pouco em filme de ficção. Você não sabia bem que gênero era aquilo. Vinha de um outro planeta. Agora o nosso planeta está assumindo essa pluralidade, não só de gêneros como de pulsações anímicas. Um ator entende isso também. Quantas almas passam por nós? As pessoas precisam ter o corpo que têm, ter a sexualidade que têm, senão é depressão e suicídio, ponto. A pessoa enlouquece. Ela enlouquece num corpo que não é dela, enlouquece numa família que não é aquela que ela queria formar. Por que o ator normalmente se safa disso? Porque pelo próprio fazimento dele, ele pode ser tudo. Então ele é salvo. Essa é a nossa esquizofrenia.

Uma função da sociedade, quase.

O Fernando Pessoa, você quer melhor exemplo, perfeito. Você achava que o Fernando Pessoa tinha 10, 12 heterônimos. Imagina, hoje em dia se descobre que tem mais de 100. Quantas almas pulsavam ali? É um sujeito revolucionário, libertário. Sejam todos vocês. O meu eu e os meus outros eus. Perfeito.

Nós se calhar agora começamos a testar a memória da Christiane. Pode ser?

Vamos ver.

Diogo, avance lá. Começa tu.

Desculpe-me a indelicadeza, mas qual é que foi o seu primeiro salário? Desculpe, recebi há pouco tempo.

Você sabe que isso é maravilhoso. É a segunda vez que me perguntam isso aqui. Você sabe que eu fiquei tão impressionada de ver o meu primeiro recibo de trabalho, que eu não me lembro de ter visto quanto era, porque no Brasil nós já tivemos muitas moedas. Mudou.

Eu já tinha aqui o conversor aberto e tudo pra conseguir fazer a conversão pra euro.

Nós já tivemos cruzeiros, cruzeiros novos, agora estamos nos reais. Isso é tipicamente aquariano.

Mas isso também mostra que não dá grande valor à questão do dinheiro.

Você sabe que esta pergunta, que me foi feita duas vezes, exatamente nessas 48 horas que eu estou aqui, eu falei assim: "Que coisa louca, eu vou ter que olhar isto com este olhar". Mas isso sou muito eu. Eu tenho que tomar bastante cuidado às vezes ao comprar os potinhos femininos. Sabe os potinhos femininos? Que você diz assim: "Não são tantos zeros assim".

Exato.

"Não, esse sapato vai durar uns cinco anos." Não.

Porque este não é igual ao outro.

Não, as mulheres têm uma tendência a pensar isso de um outro jeito.

Completamente. Esse lado mais esquecido, mas depois a Christiane, por exemplo, associa determinados momentos com cheiros, músicas, por exemplo, quando entrou na Gata Comeu, já estamos a se calhar a ir muito lá pra trás, mas consegue alguns momentos da sua vida, lembra-se do que é que tinha vestido? Lembra-se do momento onde passou, a música que estava a dar, o filme que estava no cinema, ou não liga nada a esses pequenos detalhes, no fundo?

Sim, o trabalho pra mim, faz essa referência marco de tempo. Então, por exemplo, pelas novelas, aí sim, eu me situo no tempo. Aí sim eu sei com quem eu estava casada, quantos anos meus filhos tinham, onde eu morava. Sempre alguém diz assim: "Na Gata Comeu." Eu digo: "Ah, sim, nesse momento eu morava em São Conrado, estava casada com o Eduardo, as crianças tinham cinco anos de idade. O que tocava na época, Cazuza explodindo." Por exemplo, a trilha sonora da Gata Comeu é muito boa.

Sim.

Totalmente pop. A capa do disco em vinil, você é do tempo do vinil.

Eu também sou.

Eu tenho discos magníficos que eu consegui conservar. E hoje em dia as vitrolas são vintages, mas são modernas. Então eu consigo ter ainda uma bela coleção de discos. Sim, então nesse sentido, o marco temporal fica ligado ao trabalho, mais do que a outras memórias. Eu consigo me organizar um pouco nesse sentido.

Eu aqui a babar, porque hoje temos Christiane Torloni aqui nos 40 minutos da Rádio Observador. Algumas superstições, Christiane.

Com certeza, eu sou filha de colonizadores e colonizados. Meus pais são de família italiana, portuguesa da Ilha da Madeira, charrua, indígena do Sul do Brasil. Então é impossível não ser supersticioso, porque isso vem no DNA. Eu fui tentando me aculturar.

E tem sim alguma que queira partilhar. Se não sentir confortável, siga, que nós temos muita coisa pra-

Na verdade, eu acho que eu consegui de algum jeito, minimizar de tal maneira ou talvez achar um antídoto. Eu sou uma pessoa que fui criada dentro do catolicismo e fui assumindo o cristianismo e a fé é uma coisa que realmente tem um lugar na minha vida. Então a superstição atrapalha muito, porque ela vira um elemento impeditivo pra várias coisas. Você não vai ter um carro de uma cor, não vai passar numa rua porque não sei o quê, debaixo de escada nem pensar, gatos pretos, sei lá, qualquer tipo de cores, de roupa.

Mas se a convidarmos pra um jantar onde vão estar 13 pessoas numa mesa, janta conosco.

Com certeza, eu já vi pessoas desconvidarem pessoas. "Olha, não vai dar".

Ou então fazem a mesa com 14.

Ou com 14, sim.

Exatamente, fica um lugar vazio.

Mas é estranhíssimo. Parece que alguém vai chegar ou não chegou. Então eu acho que o antídoto da fé é bom, porque quando você vem esses medos ancestrais, nada como uma boa oração, porque você vai pra um lugar que realmente ali você tem fé, não tem medo, porque a superstição é uma questão de insegurança. Você bota num elemento absolutamente abstrato e incontrolável.

Estarmos dependentes de, não é? Saber se vai correr bem.

A magia existe. As bruxas, que "las hay, las hay". Mas também existem os antídotos, então acho que eu fui achando um lugar na vida. Número de voo, coisas assim estranhas, entendeu?

Mas essas ligações ou essas origens que descreveu aqui, justificam também a proximidade que tem tido nos últimos tempos, por exemplo, à Amazônia e àquilo que se passa na Amazônia, ou não?

Eu não tenho a menor dúvida. Nós somos papiros de DNA. Os nossos ossos, tudo que nós recebemos são informações, nós somos bibliotecas de todos os nossos ancestrais. Então em algum momento, se você abre esse canal, nesse sentido da meditação, que chega muito cedo na minha vida, bem nos anos 70, eu era bem menina, e ajuda você ganhar esse canal de ir procurar os livros certos, ouvir, procurar em tal estante, lá tem uma coisa pra você, ouvir os chamamentos. Então você vai chegando nesses lugares. Você vai voltando e assumindo o seu lugar no presente. Não é ficar no passado. O passado já está em nós, mas você vai construir esse novo código. Esse legado que o seu filho, o seu neto vai receber. Então em algum momento, você vê direitinho, por exemplo, na minha vida. Eu senti um chamamento pelas artes muito cedo. Meu pai e minha mãe, Geraldo Mateus e Monah de Lacier. Como foram desse momento muito iniciático das artes cênicas no Brasil, nenhum dos dois queria que eu fosse atriz. Então me prepararam pra ser tudo: atleta, ciências sociais, tudo, menos as artes. Tudo era não. Me chamavam: "Chama a filha de Monah e Geraldo pra fazer". "Não, não pode". "Não, isso ela não faz, ela tem que estudar". Claro, um ator burro é péssimo. Pelo amor de Deus, tudo menos um ator burro.

E há muitos ou não?

O quê?

E há muitos?

Eu vou te falar uma coisa, eu acho que infelizmente, a gente tem uma educação muito ruim atualmente. E essa ideia de que você pode aprender tudo pelo WhatsApp ou digitando, onde as pessoas estão desaprendendo até a gramática, é muito ruim. Eu aprendi a ler muito cedo, eu aprendi a escrever muito cedo e eu nunca substituí ou substituirei um equipamento pelo outro. Eu agrego, entendeu? Eu fui preparada para ser outras coisas, mas essas outras coisas abriram caminhos em mim de ausculta desse código genético. Então eu vejo que muito cedo eu me interessei por arqueologia, me interessei por oceanografia, me interessei por ciências sociais E eu fui percebendo, logo no começo da minha carreira, já aí pelos anos 70, eu entrei na universidade fazendo Ciências Sociais, e o que me colocou muito antenada pra essa questão da ditadura, a abertura política no Brasil, as diretas já, cidadania, e entendi o chamamento pra florestania como: aí, sim, eu fui preparada a minha vida inteira, pra que essa joia chegasse na minha mão e eu dissesse: "Eu tenho uma boa notícia, uma boa nova". Nós, da língua portuguesa, somos tão ousados que criamos neologismos. A saudade, palavra única, sem tradução, florestania também não tem tradução. Quando eu descobri isso, eu falei: "É uma joia maravilhosa". O filme está em todos os distribuidores internacionais e é maravilhoso. É uma palavra intraduzível, então ela entra dentro de um vocabulário. Tem um autor que eu gosto muito, que é o José Eduardo Agualusa. Sou fã de carteirinha dele. E ele tem um livro que chama-se "O Milagrário Pessoal". E eu me apaixonei pelo livro também, porque ele fala sobre essa questão do neologismo, de onde vêm essas palavras. Por exemplo, florestania vem de conhecimentos ancestrais, ela é uma palavra dada. Ela é conceituada por um pensador acreano, mas ele é a síntese de ensinamentos seculares. Então essa palavra já existe, vamos dizer assim, na floresta, com vários sons. O Agualusa fala isso lindo, ele vai falar da língua dos pássaros, da língua secreta dos pássaros, eu falei: "Pelo amor de Deus, sei exatamente do que o senhor está falando". Então esse chamamento para tudo isso que hoje em dia virou um pouco a minha história, sim, ela já estava no DNA, ela só teve que despertar. Por isso que quando eu fiz o filme, eu coloquei "Amazônia: o despertar da florestania", porque é um despertar não só pro conceito, mas pra tudo o que somos nós. Somos nós, principalmente num país que tem o nome de uma árvore, não vai dizer por acaso.

E o que se passa na Amazônia?

Hoje, meu querido, uma devastação absoluta. Hoje é o pior momento de todos os tempos. Hoje, infelizmente, a gente tem uma situação de um Estado no Brasil que chancela o crime. Chancela o crime. Isso é gravíssimo. Uma coisa é você pegar um governo e dizer: "Nós estamos tentando combater o crime com nova tecnologia, satélites". Nós temos institutos de tecnologia no Brasil avançadíssimos. A gente tem um governo federal que a primeira coisa que fez foi desmontar esses institutos de pesquisa e de controle e combate do crime na Amazônia. Nós perdemos duas pessoas agora, três meses atrás, o Bruno e o Dom, que foram assassinados à queima-roupa. E quando nós temos hermanos, os nossos indígenas, sendo assassinados todos os dias, mas precisou ter um escândalo como esse, pra gente dizer: essa é a identidade desse país agora? Escorrendo sangue? Nós somos o país, infelizmente, que batemos recordes de assassinatos. E o que é terrível nisso tudo, é que eu fiz esse filme, eu filmei em 2014, com depoimentos, que quando nós lançamos em 2018/19, eu falei: "Meu Deus, o filme perdeu a janela do tempo. Perdemos a atualidade, o tempo". Que nada, cara. O filme está cada vez mais atual. E agora, já há um ano na Globoplay internacional. Ontem o filme, no lançamento que nós fizemos aqui na Globo, da nova greve, eles passaram um trailer e as pessoas ficam chocadas com a atualidade do filme. E eu fico assim: "Meu Deus, tudo que eu queria que o filme já tivesse sido datado". É pior. Fala-se da questão da soberania, mas nós temos um Estado no Brasil que chancela a nossa perda de soberania. Quer dizer, nós estamos sendo drenados e saqueados com autorização. Nós temos mais de 22 mil garimpeiros ilegais em terra Yanomami. Que é isso? Então agora na época da Covid, teve uma inteligência do mal, não permitindo que as vacinas chegassem. Qual é o nome disso? Genocídio.

Mas tem esperança que alguma coisa possa mudar e que os próprios políticos ou até os brasileiros em si tenham essa chamada de atenção?

Olha, eu só acredito numa coisa chamada democracia, até que me provem que existe outra coisa melhor, o nome que eu entendo, e tenho lutado nos últimos quase 40 anos, desde exatamente da abertura, que é 82. Então eu tenho esperança, mas eu acredito no trabalho, eu acredito na consciência. Eu acredito que essa questão da cidadania, deveres e direitos do cidadão, isso significa trabalho, isso significa comprometimento, isso significa urna, isso significa eleição. Por que ser estrangeiro é ruim? Porque você não pode dizer nada, você está morando num outro país, o que você vai reclamar do Estado? Você, no seu país, você tem que ir, você vai pra rua, você reclama e você vota, que é a nossa É a nossa ferramenta.

O documentário que fez é um dos passos de cidadania que quis também dar ao país?

Com certeza. Eu faço uma linha do tempo que vai até 1912. Eu faço uma linha do tempo grande, de mais de um século. E para isto, com uma pesquisa do tempo e desse avanço que nós tivemos, e uma observação do retrocesso que nós estamos vivendo agora. Quer dizer, tem gente que acha que a ditadura é lenda. Como? "Ah, não, a ditadura não aconteceu, a tortura não aconteceu". Como não? Como assim? Tem uma imagem do Herzog enforcado no meu filme. Tem imagens no meu filme, que foi muito difícil para eu colocar. Foi muito difícil. Eu falei: "Não tem jeito, ou eu faço ou não faço".

Certo.

Ou eu faço ou não faço. Então vamos fazer. É para isso, tem uma questão educativa, pedagógica. Eu acredito em educação. Educação e democracia caminham juntas. Aliás, é um pouco essa charge que vocês têm aqui na entrada do Observador. Como é que você bota o povo para dormir? Como é que você faz esse apagamento de consciência, de identidade e de lugar social? É como teatro. Um teatro sem plateia, sem público, tem outro nome. Não é teatro. Um país sem sociedade civil, que nome tem? Que estado é esse? Isso chama-se democracia? Não, é outro nome.

Há pouco a Cristiane estava a falar numa palavra que é muito nossa, que é saudade. Cristiano, tem saudade do quê?

Eu tenho saudade, principalmente, das pessoas que já me deixaram, do ponto de vista físico. Isso sim. Porque nós somos isso, nós somos feitos de amor. Então apesar de ser espiritualista, e sou, com certeza, acredito na vida após a morte, acredito na perenidade da alma, mas eu sou um projeto ainda em desenvolvimento de pessoa. Então, infelizmente, eu sinto muita falta do filho que eu perdi, sinto falta da minha avó, que era uma pessoa que me acompanha espiritualmente, sinto falta, sinto saudades de atores com os quais eu já contracenei e sei que nunca mais vou ter esse olhar do Raul Cortez, por exemplo, que era um ator queridíssimo aqui em Portugal.

Tarcísio Meira, sei que também.

O Tarcísio. Pessoas que eu sei que eu não tenho como ouvir a voz de novo, um abraço de novo. Aí eu digo: "Ai, meu Deus". A gente nunca sabe quando é a última vez que a gente vê alguém. Então a gente tem que ser muito atento às despedidas. Sempre, não dá para sair batendo porta, porque pode ter um acidente no elevador. E eu sei que isso acontece. Sei, porque a vida me mostrou que sim. Então eu sei o que significa saudade. Não é para mim uma palavra bonita. Ela encerra um universo, um oceano de emoções e por isso que talvez ela não tenha tradução.

Não tem mesmo.

Sabe? Assim.

E qual foi o momento mais difícil?

O momento mais difícil é o presente. Você é o tal do leasing com a vida. Você tem uma estatística tremenda de mães que não resistem à perda dos seus filhos. E não é porque passou seis meses, as primeiras 24 horas, seis meses, um ano, dois anos. Você tem estatísticas de pessoas que se suicidam 30 anos depois. Então o sentido da vida, a vida é um sopro. Ela é um sopro, literalmente, você entende? Uma criança, quando ela inspira e chora, você diz: "Sim, viveu". E quando expira. Então esse sopro vem de um lugar, o que traz sentido à nossa vida? Então existem acontecimentos, principalmente perdas afetivas. Nós tínhamos uma grande médica no Brasil chamada Nise da Silveira, aliás, é um filme lindo que a Glória Pires faz como ninguém, que era uma psiquiatra, foi uma mulher inacreditável, criou um marco. Ela divide as terapias sobre os esquizofrênicos, os psicóticos, é antes e depois da doutora Nise da Silveira. Em que ela entende, ela vai perceber o que faz uma pessoa perder a razão. O que aconteceu para que aquela pessoa perdesse a razão? É o coração despedaçado. O órgão que nos mantém equilibrados, por incrível que pareça, por mais que nós façamos todas as terapias, é o coração, que inclusive é um órgão físico. Então você pode ter um ataque do coração por uma dor afetiva ou você não aguentar. Então, tem um trabalho dela que é espetacular, e quando eu conheço esse querido amigo, o Miguel Pieczkowski, eu venho conhecer o Miguel, porque numa das idas da Pina Bausch ao Brasil, eu tive a oportunidade de conhecê-la Nós tivemos um encontro lindo na vida e ela quis conhecer o trabalho da Nise da Silveira. Então fui levá-la a esse centro de pesquisa, que era esse hospital. E na sequência, o Miguel vai fazer um trabalho sobre o Bispo do Rosário, que foi um homem que hoje em dia é considerado um grande artista plástico, já falecido, mas que era esquizofrênico. Então o trabalho dele é um trabalho inacreditavelmente sofisticado. E onde é que esse homem perde a razão? Então ela fazia um trabalho de reconstrução do afeto, oferecendo aos seus pacientes bichos, arte, pessoas que não falavam há décadas. A porta do consultório dela estava sempre aberta, entra e diz: "O meu cachorro está doente, eu preciso de dinheiro pra comprar o remédio". Aí ela diz: "Ah, tá". É o afeto. Você entende, principalmente nos adolescentes, por exemplo, que é uma época muito perigosa, onde tudo isso também está se construindo. Essa estatística de suicídio na adolescência, a gente está vivendo agora. Eu não sei se foi agosto ou setembro. Foi setembro. Acho que chama Setembro Amarelo, que no Brasil é uma grande campanha de esclarecimento sobre o suicídio. Vocês, jornalistas, sabem que normalmente não se coloca no jornal, não se pode falar abertamente pra evitar pânico social.

Exatamente.

Entendeu? Então é incrível o que está acontecendo no Brasil agora. É uma campanha absolutamente transversal, de informação, pra que as pessoas entendam que você tem um suicida na sua casa, ele precisa de ajuda, ele está dando sinais. Porque dificilmente você não encontra um rastro. Então no caso de uma mãe que perde um filho, você não precisa procurar o rastro, você tem um fato. Entende? Então manter o sentido da vida, o presente, a vida, todo dia você diz: "Just for a day", como faz o pessoal do AA, do NA e dos ensinamentos budistas. Os ensinamentos budistas são a gênesis dos Alcoólatras Anônimos e do Narcóticos Anônimos. Só por hoje. Ninguém salva a vida pro resto da vida. Você salva por hoje. Hoje é mais fácil você salvar a sua vida. Vamos acordar amanhã e dizer: "Just for today. Hoje eu vou me manter viva". Senão é desumano. É como casamento, pro resto da vida? Você vai jurar que pro resto da vida? Não, é tempo demais pro resto da vida. Não, vamos um dia atrás do outro.

Cristiane, estamos a chegar ao fim do nosso tempo. E já disse aqui na nossa entrevista que como boa aquariana, é muitas vezes esquecida. E agora estava a falar também de casamento. Eu sei que teve um episódio muito curioso relacionado com esse seu esquecimento. Ainda se lembra ou já se esqueceu?

Eu não sei se é alguma coisa que me desabone, me prepare, vou até tomar água aqui de novo.

Estava a falar de uma festa surpresa que quis organizar.

Sim, pro meu segundo marido, um absurdo, mas isso é bem aquariano. Ou você esquece ou você antecipa. Ontem, no final da entrevista, a pessoa falou assim: "Você é aquariana de que dia?" Eu tive aquele momento, mas a jornalista falou assim: "Não acredito que você esqueceu o dia que você nasceu". Eu falei: "Não, só um minuto". Eu chego no apartamento em São Paulo, é muito engraçado, eu olho pro número, pra ver se é o mesmo número.

É sério?

Várias vezes eu errei andar. Carro, então, eu já tentei abrir vários carros que não são meus, é um absurdo.

Mas quer contar a história da festa surpresa?

Enfim, ela é engraçada, na verdade. Eu estava casada com um psicanalista, chamado Eduardo Mascarenhas, inclusive esse faleceu. Uma pena, um homem que faleceu jovenzíssimo, 54 anos. E o Eduardo fazia aniversário. Resolvi fazer uma coisa que a gente não deve fazer nunca na vida, nem dar incerta, nem festa surpresa. Não dê. Se eu escutasse o que mamãe dizia: "Não apareça, nunca apareça. Não dê viagem surpresa, não apareça no meio de uma viagem. Isso é o fim de qualquer".

Vai dar torto.

Não, vai.

Vai dar torto.

Não, dá torto, completamente torto. Enfim, Eduardo fazia aniversário e eu fui: "Vou dar uma festa surpresa". Daí contratei tudo, bufê, banda de jazz, e fui fazendo. Ainda havia agenda telefônica, muito bem. E aí estou eu na letra M.

Ai, tão bom.

Ligo pra Marília Pera, querida amiga da vida toda, e digo: "Marília, vou dar uma festa surpresa pro Eduardo agora no dia 6, tal". "Nossa, mas já está preparando com tanta antecedência?" Eu falei: "Não, mas é agora dia 6 de junho". Ela falou: "Não, não é, dia 6 de julho". Eu falei: "Não, Marília, qual que é?" Ela falou assim: "Não é, eu namorei o Eduardo, cara, você está errada, é só no mês que vem". A festa inteira estava comprada. Ele ficou bravo pra caramba, achou graça, falou: "Como é que você pode errar a data de aniversário?" Eu falei: "Agora fica um mês de aniversário". Enfim, na boa intenção, é péssimo, dá torto. Então não deem festas surpresas, você pode estar dando na data errada, perigoso.

Ficamos por aqui.

Já não há mais tempo.

Não há mais tempo, mas eu ainda vou arriscar, só muito rapidamente, Diogo.

Por tua conta e risco.

Por minha conta e risco. Pessoa mais importante da vida.

Pessoa mais importante da vida? Eu seria muito injusta.

De estar a falar.

De estar a falar. Eu, graças a Deus, eu tenho pai e mãe vivos, nonagenários. Tenho o Leonardo, graças a Deus, vivo, e tenho meu neto de cinco anos. Imagina, o que eu vou dizer? Tem pessoas no entorno da minha vida que me protegem. Eu seria muito injusta.

Não vamos deixar ninguém zangado.

Claro que não.

Principalmente ser ingrata.

Completamente, claro que sim.

Seria muito ingratidão da minha parte.

Cristiane, muito obrigada. Foi um prazer tê-la aqui, volte sempre. Sempre que vier a Portugal, venha ter conosco. É sempre um prazer e ainda temos tanta coisa pra conversar.

Pois é, se calhar fazemos duas edições.

Eu voto nisso. Cristiane, está com tempo?

Vamos fazer um podcast.

Exatamente, vamos a isso. Cristiane Torloni hoje em "40 Minutos". Pra semana há mais.