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De repente, as pessoas passaram a valer zero. Aqui para mim, se removêssemos todos estes véus políticos de cima, resumia-se à morte em catadupa de milhares de pessoas, de crianças. Quantos futuros não ficaram pelo caminho? E isso é vexatório para a Europa. Como é que podemos cair neste erro de dar voz e presença, para já num festival que é europeu, de repente teres países que não são europeus a participar. Por que eles estão ali? Mas isso é uma segunda questão.
Já é uma questão de há muitos anos.
De muitos anos, que é política também. Mas em relação a isto, eu acho que é uma vergonha mesmo, e não havia outra posição.
Não veio dos bairros onde o fado se aprende por osmose, nem das casas onde tudo já estava decidido à partida. Chegou mais tarde, pela emoção, e talvez por um disco oferecido pelo seu avô. Estudou outras coisas, pensou noutras vidas, mas acabou por escolher a mais difícil: a de não querer caber num rótulo. Nunca aceitou cantar só como se espera, preferiu cantar como se sente. Fez do fado uma porta e não um destino. Não gosta de estar fechada nessa gaveta e hoje continua a escolher caminhos exigentes na música, nas palavras e nas posições que assume. Não canta para representar um género, canta para representar uma visão. Hoje, no "Em 40 Minutos", recebemos Cristina Branco. Muito bem-vinda à Rádio Observador.
Obrigada. Olá.
Acabada de fazer anos. Estávamos a falar disso em off. E é a nossa primeira convidada do ano, aqui no "Em 40 Minutos".
Uau, incrível, que bom. Abrir assim o pano, de repente, um ano novo a estrear.
Sim. Resoluções para este ano, 2026?
Eu acho que é só continuar a fazer o que tenho feito até aqui, bem. E seguirmos inteiros, eu acho que é uma resolução para o ano todo e para todos os anos, é seguir com integridade, sempre.
E o que implica esse seguir por inteiro? Alia-se aqui a outros valores? Tu falas muito da verdade, não é?
Sim, eu falo muito da verdade. Eu acho que é importante.
E cantas com verdade.
Nos dias que correm. Sim, porque não me imagino a fazer divergências para outro tipo de atitude. Isso para mim é mesmo importante. E eu acho que se pensarmos nisso logo no início do ano, é uma boa forma de pegarmos nesta barangona, de alguma forma, e levá-la até o fim com propósito.
E és uma pessoa muito supersticiosa? Tens aqui algum tipo de ritual para o início deste novo ano?
Não, isso não. Não sou propriamente supersticiosa. Eu costumo dizer: não me falem de superstições, porque senão depois fico a pensar nelas, então prefiro não saber.
E que queres cumpri-las, não é?
Justamente.
Mas há muitas associadas a este ano novo, o ano que começa e logo com o teu aniversário. E tu há muito pouco tempo lançaste um álbum, "Mulheres de Abril", que foi editado aqui no final de 2025. Vem aqui também trazer de novo o Zeca Afonso, que acredito que também seja muito da tua inspiração. E falamos aqui de mulheres e de Abril. Aliamos algo que tu gostas muito de falar e defender, que é o feminismo, e a questão de Abril, que acho que remete muito para a questão da liberdade.
Exatamente.
São temas que, em 2025, e já que estamos aqui a fazer esta alusão ao ano novo, não digo que estiveram esquecidos, mas que tu sentiste a necessidade de voltar a trazer para trazer também esta questão para a atualidade.
Sim, eles esquecidos não estiveram. A questão é-
Adormecidos?
...de alguma forma adormecidos. Há uma facção, uma corrente, que pretende que se esqueça ou que remete para outro tipo de realidades. Eu acho que é importante continuar a defender os valores da nossa democracia e aquilo que nos rege, que são a liberdade, efetivamente. E o feminismo, já agora, porque é mesmo importante. Eu acho que cada vez mais temos que defender os direitos das mulheres e das minorias.
Quando é que tu sentiste, em específico, a necessidade de voltar a cantar Zeca Afonso? Muitas vezes os artistas têm pequenos gatilhos, pequenas coisas que até podem acontecer no nosso cotidiano e que nós nos identificamos. Aqui estou a falar por ti, como é óbvio. Houve algum momento em específico que te tenha acionado esse alerta, esse mecanismo?
Eu acho que são as notícias que vão correndo pelo mundo, não só no nosso país, mas são coisas que nós achávamos que nunca fariam parte da nossa realidade e que se aproximam velozmente, e que me deixam um sentido de responsabilidade em relação àquilo que eu já vivi e que eu presenciei, e um sentido, sobretudo, de responsabilidade em relação aos meus filhos e a uma geração mais nova que a minha. E que é importante defender valores como o da liberdade e como o do feminismo, porque começam a entrar num determinado esquecimento, ou não necessariamente esquecimento, mas uma tentativa de adormecimento. E não só no nosso país, mas também a nível mundial. E de repente, como eu tinha feito um disco em 2007, que se chama "Abril", e que também é uma homenagem ao Zeca Afonso, hoje, trazer o Zeca Afonso para Para o ano 2025 e remetendo para as mulheres que o Zeca cantou, a importância é a deste momento. Ou seja, em 2007, o Zeca tinha sido uma referência para mim na minha adolescência e na minha primeira fase enquanto cantora. Aliás, eu gravei um tema do Zeca logo no meu primeiro disco. Já nem sei, 98, por aí.
Eu penso que sim, que foi em 98.
Foi por aí. E de repente, agora tenho uma outra perspectiva de uma mulher muito mais madura, muito mais atenta. Eu com 30 anos acho que não estava tão preparada como hoje.
Mas se calhar também o mundo era diferente nessa altura? Hoje há mais ameaças à liberdade?
Sem dúvida. Estamos aqui a falar sobre isso. Portanto, sim, é uma questão que se coloca, mas que é muito evidente, está à frente dos nossos olhos e que é importante estar atento. E enquanto voz, enquanto alguém que tem uma plataforma, acho importante divulgar a minha verdade, a tal integridade em relação aos valores que me fizeram chegar até aqui.
É importante. Tu falaste dos 30 anos, que se calhar aos 30 anos não estavas pronta para essa tarefa.
Sim, era outro Zeca. Eu cantei um Zeca diferente dos dias de hoje.
O facto de também teres sido mãe e teres dois filhos a teu cargo, também acionaram uma outra consciência para que tem aqui duas pessoas que se calhar também precisam de estar atentas a estas mudanças e àquilo que está a acontecer. A responsabilidade é maior.
É muito maior. Ter um filho obriga-te a mudar um pouco a tua perspectiva de vida, a forma como tu te relacionas com os outros também. Eles próprios te fazem pensar nisso e te colocam questões a que a dada altura tu não sabias responder ou nunca tinhas pensado nelas, porque eram a tua realidade, portanto não estava em questão. E para eles, eles falam muito disso, que de facto o mundo para eles é muito diferente, eles têm muito menos oportunidades, se calhar, do que eu tive, e começam a ver um mundo a fechar-se de uma forma dramática. Portanto, as liberdades deles já não são as mesmas ou começam a ter limitações às suas próprias liberdades. Coisas que eu os fui advertindo ao longo da vida deles para que estivessem atentos, e eles começam a questionar, sobretudo a mais nova. O mais velho já tem uma perspectiva diferente, mas ela questiona-se muito, acha que o mundo, de facto, é muito diferente para ela do que foi para mim. Sendo que o irmão é da mesma geração, mas é um bocadinho diferente.
Quais são as maiores inquietações que ela tem? Se puderes partilhar, claro.
Ela é muito contestatária. A do feminismo, por exemplo, o facto de ser rapariga, ela nota uma diferença gigante entre o facto de ser mulher e os colegas homens. E isso dói. Ela está é muito mais atenta do que eu estava. Ou seja, as questões, no fundo, são as mesmas em relação a esta história do feminismo e da relação homem-mulher, ou das penalidades enquanto mulher. Mas ela está muito mais atenta a elas, porque doem-lhe mais do que me doíam a mim na idade dela.
E as redes sociais também se calhar vêm despertar esse lado, ou não?
Ela não é propriamente muito atenta. Tem redes sociais diferentes das minhas, certamente. Mas mesmo na relação diária com a realidade. Nos transportes, na escola, em todo lado, ela nota esse peso de ser mulher ou essa dificuldade em ser mulher em relação a um homem.
E tu já passaste por várias fases. Tu ainda viveste um bocadinho do 25 de Abril, eras muito pequenina. Portanto, quase nem te lembras, se calhar, dessa época, mas passaste por diferentes fases e ser mulher também na música.
Tanto para dizer sobre isso.
É bom ter muito para dizer, mas as transformações que se deram têm levado a um bom porto? O teu caminho é independente desse ser mulher na música? Como é que isto se junta tudo no fundo?
Eu tive essa facilidade. Eu comecei há quase 30 anos, em que era tudo diferente, mas ser mulher no mundo de homens, naquela altura, dava-me, pelo menos na música, que é uma bolha, algum poder, se quiseres. Não gosto da palavra, mas talvez seja a palavra que mais me ocorre agora. Ou seja, colocava-te num pedestal, de alguma forma, porque eras a única mulher ou das poucas mulheres no mundo de homens. E claro que isso criou muitos anticorpos naquela altura e hoje em dia. Os homens não gostam de ser ameaçados dessa forma, mas sempre se achou que no mundo da música isto era uma coisa que não acontecia muito, mas não é de facto verdade. Na música também acontece, é muito diferente. Eu tenho episódios em relação às minhas gravidezes, por exemplo. Porque apesar de se dizer que é incrível, ela vai ser mãe. Mas isso penaliza-te não só em relação ao teu público, como também aos teus pares, como também à própria indústria.
E essa penalização tu sentiste de alguma forma como algo que te puxou para baixo ou ao mesmo tempo foi algo que depois também quando voltaste foi uma espécie de renascimento, podemos dizer assim?
Eu não tive tempo de parar, não me foi permitido parar. Repara, por exemplo, com a minha segunda filha, o que aconteceu foi: ela nasceu em janeiro e eu em fevereiro estava na estrada num tour em França com 12 concertos e um disco a sair. Fiz promoção em Portugal ainda com a Margarida dentro de um ovinho no Hotel do Chiado, com os jornalistas a entrar e a sair. Ela tinha uma semana. E podes imaginar.
Foi esgotante.
Consegues imaginar uma mulher uma semana depois de parir, estar no meio da confusão. Foi esgotante e eu fui teimosa e disse que ia conseguir.
Voltarias a fazer tudo na mesma, da mesma forma?
Não, não voltaria, porque foi de facto penalizante. Foi emocionalmente muito desgastante e demorou muito tempo a recuperar. Agora, isso passa tudo muito ao lado da indústria e daquele glamour que se convencionou para um cantor, para uma cantora, no fundo. Mas foi difícil, em todos os momentos.
Nós temos muito a tendência a transformar o espetáculo de um artista naquele momento em que vocês estão em palco.
Sim, mas não é nada disso. Sempre ouvi aquele comentário dos colegas e da família, inclusivamente: "Tu tens uma vida incrível, a tua vida é magnífica".
Viajar de um sítio para outro, não é? Mas isso é a parte romantizada.
Eu vou explicar. Nós só conhecemos bem, mas mesmo muito bem, muitos aeroportos e muitos hotéis. Resume-se a isto. O resto é o glamour da situação, mas nós não vivemos de maneira nenhuma nada disso. Eu pelo menos não tive essa oportunidade. Também nunca me dei essa oportunidade, ou seja, aquela coisa de ir e ficar mais uns dias, por exemplo, se calhar há colegas meus que o fazem. Eu vou no último voo e regresso no primeiro, às vezes às três ou quatro da manhã. Lá está, porque tenho filhos e porque estão sozinhos e porque tenho que voltar. E quando eles eram mais pequenos ficavam com uma pessoa, com uma ama, e tinha que ser tudo muito curtinho. Portanto, nunca tive essa disponibilidade.
Nesse processo em que tu falas da maternidade tão intensa, espetáculos, a criação musical, não te esqueceste de cuidar de ti pelo caminho?
Muito. Há uma parte que não podes esquecer, porque há uma parte visual daquilo que eu faço que é determinante. Infelizmente, o público penaliza muito se tu não tiveres esse cuidado contigo. Portanto, há uma parte exterior que eu acho que consegui de alguma forma manter a muito custo, confesso, muitas vezes era e é bastante difícil, porque depois há o lado pessoal. E isso foi muitas vezes descurado, claro.
E voltamos à questão de que as mulheres são sempre muito mais julgadas pelo aspecto físico do que os homens. Isso é cultura, infelizmente, não só cá em Portugal, mas também um pouco por todo o mundo.
Eu tenho 28 anos de carreira, tenho 53 anos de idade e eu costumo dizer aos meus colegas que tenho que ser mesmo uma artista incrível, porque conseguir manter 28 anos de uma carreira aos 53 anos de idade com o nível que eu mantenho e com a intensidade que eu mantenho, é preciso ser efetivamente muito bom. Não sou nem muito humilde, nem sou propriamente vaidosa, mas isto é a realidade. E isso tem um preço. Custou-me muito, custa-me muito todos os dias ter que olhar para o meu interior e ter que a determinada altura da minha vida olhar para o meu interior para que isso não transparecesse para o lado de fora aquilo que pesam os anos de carreira e de facto essa forma como o público de alguma forma afasta os artistas mais antigos, os seniores, como se costuma dizer. Aos 53 anos já sou uma artista senior, não me importa nada. Acho incrível eu conseguir manter a mesma performance e ter a minha voz exatamente como ela sempre foi. Mas depois, lá no fundo, quando pões a cabeça na almofada, pensas nestas coisas. Não vale a pena dizer e mascarar as coisas. "Ai, não, eu não penso nada disso". Eu penso.
Isso assusta de alguma forma? Eu estou a lembrar agora, partiu muito recentemente a Anita Guerreiro, uma grande voz associada também às Marchas de Lisboa, à Canção de Lisboa, e que nos últimos anos, talvez também se calhar por questões de saúde, mas esteve afastada e é uma grande figura tanto da televisão nacional, por séries onde fez enquanto atriz, enquanto intérprete. Assusta-te algum dia o teres de afastar da música porque te quiseram afastar e não seres tu a tomar essa decisão?
Ui, acho que nunca pensei nisso.
Acho que eu ia trazer as questões para cima da mesa.
Mas é ótimo, eu acho que essas questões se colocam também nestes momentos e que surgem e depois ficamos a pensar nelas, e bem. Depende da forma como é que me afastarem. Sim, claro que sinto, mas eu sou teimosa e enquanto eu mantiver o nível daquilo que eu estou a fazer, para já é preciso uma certa clarividência, um certo pragmatismo em relação ao que eu faço. E eu, felizmente, acho que isso ainda mantenho. E enquanto eu tiver noção daquilo que eu estou a fazer e que estou a fazer bem, remarei sempre em frente. Aquela coisa: caramba, ninguém me vai deitar abaixo, que eu não vou deixar, porque eu ainda sou capaz. Agora, é óbvio que eu serei a primeira a dizer: não, isto já não é a mesma coisa, portanto vamos ou decrescer daqui para a frente, vamos fazer as coisas de outra forma ou vamos eventualmente deixar de fazer isto. Não tenho medo de deixar de fazer, se a pergunta a seguir for essa, não tenho, de todo. Isso é uma coisa que eu tenho muito clara na minha cabeça. Não quer fazer más figuras é que não, caramba.
Cristina Branco, a primeira convidada do "Em 40 Minutos" neste novo ano 2026. Vamos só fazer aqui uma curta pausa para as notícias e já voltamos. Até já. Estamos de regresso para a segunda parte do "Bem 40 Minutos". Esta semana com Cristina Branco, acabada de celebrar mais um aniversário. Fez anos no dia 28 de dezembro. Ainda merece aqui também os nossos parabéns.
Obrigada.
Tu deste uma entrevista, penso que deve ter sido no mês de abril, quando lançaste o teu álbum "Mulheres de Abril". Houve uma frase que tu disseste que me chamou muito a atenção, em que tu dizes: "Nos concertos temos de ser cada vez mais políticos, é uma missão social". Não temes que as pessoas se possam cansar deste lado mais interventivo? Não digo só em respeito à Cristina Branco, em respeito a ti, mas a uma onda que possa estar a surgir destes cantores mais de intervenção.
Infelizmente, não são suficientes para passar a mensagem. São cada vez mais, diria eu, há coisas muito interessantes a aparecer e firmadas no nosso território, mas seria importante haver vozes com menos medo. Acho que nós temos todos muito medo. E isso é importante dizer. Nós estamos a viver a cultura do medo, as pessoas receiam.
Mas aqui referes-te aos artistas.
Sim, refiro-me aos artistas em geral, mas neste caso à minha classe, como é óbvio, que é aquela que me diz respeito. Depois, eu acho que no espetáculo isso não pode acontecer. Por quê? Porque as pessoas compram o bilhete para te ir ouvir, portanto, já sabem ao que vão. Quem vai ter contigo quer ouvir, e devo dizer-te que é muito entusiasmante e para mim, de alguma forma, uma surpresa. O disco saiu em novembro. E todos os concertos que temos feito até aqui, para já porque é um álbum que se resume a Portugal, não é um álbum que vá para o internacional, pelo menos por enquanto. O anterior também foi, mas foi só esporadicamente. Portanto, é um álbum feito para este país, para o nosso país, e é muito entusiasmante perceber como o público colabora contigo. Quando tu passas a mensagem, quando tu tentas comunicar com as pessoas verbalmente, não só através das canções, como as pessoas se iluminam e de alguma forma perdem o medo de se manifestarem em relação a coisas que também discordam. E isso é muito bonito, é muito entusiasmante assistir durante o concerto. Eu nunca tinha passado por essa experiência, até porque a minha relação com a música passa pelo fado. O tipo de discurso que tu trocas com as pessoas vai noutra direção completamente diferente. E aqui tu tens, de facto, um papel social e político, como tu dizias há pouco. Porque assim eu quis, não são só as canções do Zé, há coisas para dizer que estão dentro daquelas canções e que são importantes trazer a lume neste momento, na nossa sociedade e nos dias que correm. E isso é muito gratificante, perceberes que as pessoas, tais que compraram o bilhete para ir ter contigo, estão ávidas de ouvir este tipo de mensagem e de colaborar com ela.
E estão disponíveis para a ouvir e para a receber, que também é importante.
E para levar qualquer coisa para casa. Eu acho que há esperança nisso. As pessoas vão para casa iluminadas.
Tu sentes essa esperança?
Absolutamente, sim.
Boa. Já que falamos aqui da música enquanto tem um poder cívico, cultural, humanístico também, temos que falar aqui do Festival da Canção, que este ano está no centro da polémica, vamos dizer assim. Festival da Canção que depois culmina com a Eurovisão, já com todos os países em competição. E nas últimas semanas tivemos uma carta aberta, podemos chamar assim, em que tu és uma das signatárias, assim como 17 artistas portugueses no total, que anunciaram que recusam representar Portugal na Eurovisão, caso venham a vencer este Festival da Canção, em forma de protesto pela participação de Israel.
Sim.
É uma causa que justifica esta visibilidade, na tua opinião? Aquilo que está a acontecer em Israel transpõe-se também para Portugal e a posição de Portugal devia ser revista no concurso?
Completamente, claro que sim. Como é que eu hei de dizer? Acho que é tão óbvio, porque aqui para mim são valores humanos que se levantam, mais do que outra coisa qualquer. Quer dizer, é tu colocares o negócio e as armas e tudo o que é parafernália gigantesca e política à frente das pessoas. Em detrimento das pessoas, aliás. De repente, as pessoas passaram a valer zero. Aqui para mim, se removêssemos todos estes véus políticos de cima, resumia-se à morte em catadupa de milhares de pessoas, de milhares de crianças. Quantos futuros não ficaram pelo caminho? E isso é vexatório para a Europa.
Não só para Portugal.
Não só para Portugal, mas neste caso é óbvio, estamos a falar sobre o nosso país. E nós que defendemos valores tão elevados e que defendemos de uma forma tão intensa a vida humana, todos os direitos humanos. Como é que podemos cair neste erro de dar voz e presença, para já num festival, nem vamos por aí, mas num festival que é europeu, de repente ter países que não são europeus a participar. Por que eles estão ali? Mas isso é uma segunda questão.
Já é uma questão de há muitos anos.
Que é política também. Mas em relação a isto, eu acho que é uma vergonha mesmo. E não havia outra posição.
Deixa-me só fazer esta pergunta: achas que o Festival da Canção devia acontecer, mas não devíamos ter representante na Eurovisão?
O Festival da Canção é superimportante, até porque cada vez há menos visibilidade para os músicos portugueses e é uma plataforma, mais uma vez, de mostrar a nossa música e de mostrar pessoas que estão a aparecer de novo no quadrante da cultura em Portugal, da música em Portugal. Isso acho que não me parece uma questão, e nem é uma questão para nós, nenhuma das pessoas que participa nessa carta aberta. Portanto, a nossa participação, sendo que devo dizer que eu sou autora, eu não vou participar no festival.
Exato, mas tens um artista que também está de acordo com a tua posição.
Isso também era o que eu queria dizer a seguir, é que no primeiro ensaio, estas coisas acontecem com muito tempo de antecedência, e quando a canción ficou concluída e começamos os ensaios com o cantor, os autores sou eu e o André Henriques, os três decidimos, antes de qualquer palavra fosse proferida, de tomarmos uma decisão em relação a isso. A nossa posição em relação ao Festival da Canção e da Eurovisão tinha que ficar definida. E depois surge este movimento destas pessoas. Por acaso, foi muito interessante e muito bonito ao mesmo tempo, não fui eu que o iniciei, mas pelos vistos não fui a primeira a pensar neste assunto. Este aglomerado de pessoas pensou exatamente a mesma coisa que nós pensamos.
Vocês assinaram esta carta aberta. Entretanto, sabe-se também que os Bandidos do Cante vão à Eurovisão, caso vençam o concurso. Não temos que assinalar aqui uma divisão, ou seja, os portugueses podem, na sua opinião, querer que Portugal seja representado na Eurovisão e podem votar no grupo que até consideram que a canção não é a mais bonita. Podemos assistir a esse fenómeno.
Sim, pode acontecer.
Porque vamos ter aqui uma divisão no que toca a perspectivas de pessoas que querem que Portugal seja representado e outras pessoas que consideram, tal como tu, não deva ir.
Sim, mas isso já dependerá da posição de cada um. Nós não podemos limitar as pessoas ou querer condicionar as pessoas a terem a sua opinião. Isso dependerá da consciência de cada um. Eu nunca o faria, mas de repente pensar: "Eu não gosto propriamente da música que esta pessoa representa, ou não me revejo nesta canção, mas como eu quero que o meu país participe na Eurovisão, vou votar nele". Depende da consciência de cada pessoa.
E não sentes que assim se está a perder o propósito daquilo que é ou daquilo que devia ser?
Não, porque o festival vai acontecer. Tudo o que envolve o festival, as pessoas, a forma humana como aquilo decorrerá, vai acontecer. As canções vão ser mostradas, as pessoas vão ouvi-las, vão poder participar nelas, vão poder opinar sobre elas. Isso é o mais importante. Há um lado que vai acontecer para todos os efeitos. Por exemplo, o meu cantor não é propriamente uma pessoa conhecida, ele vai finalmente ter alguma visibilidade e isso vai acontecer. Se não vai à Eurovisão, hoje em dia os canais também são outros, não é só a Eurovisão que é importante, mas eles vão ter a oportunidade de ser vistos e ouvidos em muitos sítios.
Claro, e temos exemplos de vários artistas que participaram no Festival da Canção, que não chegaram a representar Portugal e que dão as cartas. Queria ir ainda a esse processo antes de avançarmos, ter alguém contigo, e tu falaste aqui que é um cantor que não tem muita visibilidade.
Para já é muito novo.
Estar a dar esse palco também, e tu já com a experiência que tens, que sentimento te traz a ti também enquanto criadora, enquanto autora desta canção? E acompanhar este crescimento.
Para já, porque eu gosto de observar os meus colegas, gosto de os ouvir e quando tenho disponibilidade de ir ouvi-los. E fiquei muito surpreendida com a voz desta pessoa.
Que ainda não podemos dizer quem é.
Ainda não, falta uma semana ou duas, mas lamento, não posso dizer ainda. Mas tem uma voz magnífica e eu fui vê-lo num espetáculo na Gulbenkian. Já tinha ouvido cantar outras, porque ele canta várias coisas. É baterista, devo dizer.
O que é ainda mais surpreendente, se calhar.
É mais surpreendente ainda. Fez a escola de jazz, é baterista, é muito jovem e tem uma voz celestial, que eu sou completamente fã. Sabes quando tu ouves e ficas emocionado por ouvir qualquer coisa, como é que isto está a acontecer aqui à minha frente? E quando recebi o convite da RTP, pensei Mais do que pensei muitas vezes. Comecei por recusar e depois por insistência. Eu pensava que tinha que participar e quando percebi que podia ser apenas autora, a primeira coisa que eu pensei foi: o tema tem que ser um tema que fale sobre qualquer coisa que me é querido e da qual eu saberei falar na primeira pessoa, porque sou eu que vou escrever e depois a pessoa que vai cantar. E a primeira pessoa que eu pensei foi aquela.
E esse processo de escrita foi libertador de alguma forma, mas já nos dá aqui algumas indicações daquilo que pode ser. Eu sei que se calhar não podes contar, mas foi libertador fazê-lo?
Não posso, mas gostava.
Sim, claro. Já aqui há algumas implicações, não é?
Sim, não se pode mesmo. Contratualmente não se pode. Mas foi muito libertador. Sabes que eu escrevo muito, escrevo todos os dias, mas escrevo para mim. E escrevo prosa. Curiosamente, no meu último disco, assino uma música, mas também já escrevi anteriormente um texto também para alguém cantar. Para eu cantar também. Na verdade, no meu disco "Eva", fiz uma letra, nem me lembrava, imagina.
São tantos, não é?
São tantos.
Já são quase 20.
Sim, olha, não me perguntes o número exato, porque de fato não sei.
Eu acho que são 19.
Não é por impineira, é mesmo porque não sei. É 19?
Acho que sim.
É incrível, caramba. Mas sim, custa-me imenso escrever em verso para uma canção, seja o que for, porque eu tenho uma escrita muito crua. E é muito difícil para mim compor as palavras por forma a elas funcionarem. Para já, como passa tudo muito pelo pensamento, de repente passar à escrita para um público ler e perceber, dá-me imenso trabalho. Custa-me imenso, é uma coisa difícil de se fazer.
É difícil.
Há quem tenha muita facilidade, mas para mim não é assim tão óbvio.
Vamos aguardar essas novidades no que diz respeito ao Festival da Canção. Em breve já vamos saber. Se calhar, se tivermos pessoas que nos vão ouvir daqui a duas semanas, já vão saber quem é o artista escolhido pela Cristina Branco. Eu queria ir aqui a um lugar seguro, a um porto seguro, Almeirim, Ribatejo, uma zona que tu conheces muito bem. E é muito curioso pensar no teu percurso, porque nós associamos os grandes fadistas, as almas do fado, a pessoas bairristas de Lisboa, pessoas que cantaram em casas de fado, e tu não fizeste esse percurso, se calhar, mais habitual. Sei que foste uma criança que cantava muito durante a tua infância. Não sei se isso te causava dores de cabeça lá em casa ou não.
Não. Ouço mais agora: "Mãe, por favor, cala-te".
Dos filhos?
Sim. É horrível.
Mas por quê?
Porque eu estou sempre a cantar.
Em todo lado?
Em todo lado, sim.
Isso mantém-se desde criança.
Sabes que isso tem muito a ver com o cansaço. Quanto mais cansada, canto mais. Porque se estiver a gravar um disco, inclusivamente a dormir, segundo dizem, eu também canto. E isso é exasperante. Imagina para quem tem que estar o tempo todo a ouvir-me.
E é em português ou em inglês? Eu sei que tens aqui algumas referências, Ella Fitzgerald, que é uma das tuas referências. Ou seja, tu cantas necessariamente em português, mas quando há esse canto mais à vontade, vamos dizer assim, se calhar em casa, arriscas-te e pões-te para fora de pé?
Sim, sem dúvida nenhuma, canto noutras línguas também. É claro que sim. Também já gravei noutras línguas.
Sim.
E gosto. Só que há músicas com as quais eu me identifico muito, há artistas com os quais me identifico muito e sim, quando me apetece cantar. Na verdade, sai espontaneamente. Eu não estou a pensar: "Agora vou aqui cantar uma coisa da Billie Holiday". Não, eu canto só porque canto.
Assim da atualidade, nomes que têm vindo agora a surgir. Vou te partilhar aqui uma coisa. Há uns dias, tivemos aqui uma conversa com o Júlio Isidro, no "40 Minutos", e eu fiquei estupefacto, porque ele conhece a Olivia Dean. Não sei se também conheces. É uma jovem artista que se deu muito a conhecer este ano, já tinha alguns álbuns lançados, eu fiquei muito surpreendido. Agora fiquei curioso também para perceber, na pele de um artista, quais são aqueles nomes que tu agora se calhar estás mais atento. Já sei que não podes dizer o nome, um desses nomes que vai ser o teu intérprete no Festival da Canção, mas que nomes é que tens andado mais atenta?
Olha, sabes que ultimamente fiquei agradavelmente surpreendida e mesmo muito feliz. Tenho ouvido muito, ultimamente, a Rosalía. Mesmo. E até coisas mais antigas, ou seja, ouvi provavelmente o primeiro álbum dela. Na altura ouvi, mas foi uma coisa que passou. E este último disco, o "Lux", tenho ouvido mesmo muito. E a voz dela é surpreendente, é de facto uma voz muito bonita.
E tem lá a Carminho, que para mim é a melhor canção do álbum.
Para mim não é a melhor, eu acho que o disco é todo muito bom. Acho que está muito bem pensado. E eu gosto de discos bem pensados. Eu gosto que o disco não é só 15 músicas, vamos agitar e vamos lá para dentro. Não, é um disco que está pensado do princípio ao fim, que tem uma estrutura muito profunda, que dá uma análise perfeita, eu diria.
E foi alguém que no início da sua carreira recebeu muitas críticas, muita gente duvidava do seu potencial.
É verdade.
E agora em 2025, eu acho que é uma obra de arte. Tenho pena que o álbum tenha saído mais tarde, porque eu acho que se saísse mais cedo ali no início de 2025, mas vai ter o reconhecimento agora, se calhar, ainda em 2026.
É assim, aquela coisa de misturar a orquestra, as pessoas ficaram muito surpreendidas, porque não é uma coisa assim tão invulgar. Eu acho que o que é invulgar naquele disco é a temática em que ela pega e dar-lhe a intensidade que ela dá, passando por vários registos musicais. Isso é absolutamente impressionante. E depois a voz.
Sim. E a forma como tudo foi feito, porque o primeiro single que ela lançou foi o "Bergain", com a orquestra E eu acho que toda a gente ficou tão surpreendida por a ver naquele registro que depois quis logo ouvir o álbum quando ele saiu. Ou seja, ela fez aquilo muito bem.
Muito bem feito.
A verdade é que depois se comprovou a qualidade.
Tudo isso está perfeitamente bem feito. É incrível. Tu misturas a pop com a clássica e isso dá um resultadão. Não é que isso não esteja a ser feito e não se faça há anos, e que os meus colegas não vão fazendo, que eu própria não tenha feito, mas de repente fazer-se com esta visibilidade, tão bem arquitetado, acho que é por aí. Ao criar todo aquele fenômeno à volta daquela música, despontou depois tudo o resto que aconteceu à volta do disco inteiro. E o disco é muito bom.
É mesmo.
Obrigou-te a pensar e a ver.
Sim, e vê-la no registro que se calhar não estávamos tão habituados. De Rosalía para Cristina Branco, até porque saltamos aqui esta parte. Quando eras mais nova, cantavas por todo lado.
Exato.
Falamos agora de referências mais recentes, mais antigas, quando eras mais nova. O fado já te levava também a essas referências? Tinhas outras referências fora do fado e fora da música?
Não, para mim era Amália, ponto final, parágrafo. E com muito espaço até ao nome seguinte. Eu só depois de me apaixonar perdidamente por Amália, e mesmo até depois de começar a cantar, é que comecei a ouvir outros nomes com alguma frequência, a interessar-me, a apaixonar-me por algumas vozes também, sobretudo masculinas, curiosamente.
Quais é que eram?
Carlos do Carmo, Camané.
Tudo figuras pequeninas, não é?
Tudo gente que ninguém reconhece. Alfredo Marceneiro também, mais tardiamente. O Ricardo também. A Carminho, mais recentemente. Não têm o mesmo tempo. Eram as minhas grandes referências há 30 anos. Primeiro a Amália, depois mais tarde o Camané e o Carlos do Carmo, e depois mais recentemente a Carminho. A Ana Moura, que tem o timbre mais bonito do fado, na minha opinião. Ela começa a cantar e eu fico com pele de galinha, mas é imediato. Adoro-a. O Ricardo Ribeiro, pelo potencial gigantesco e pela mestria com que canta o fado. E depois a inteligência da Carminho com que ela pratica a arte de cantar o fado.
Trabalhar com essas pessoas ou tê-las na tua bolha, tu referiste aqui vários elogios a estes artistas e às vezes há algum pudor, não digo na classe artística, mas na vida em geral, de nós elogiarmos os nossos pares.
Isso é tão ridículo. Mas acontece, tens razão. Ou então, por exemplo, colegas teus gostarem de te catarem assim: "Eu sempre ouvi dizer que os colegas da música não se relacionam". Eu não acho nada verdade, eu dou-me bem com muitos deles. Sou muito próxima, sou muito amiga, na verdade, por exemplo, da Terezinha Landeiro. Adoro a Beatriz Felício.
Que já escreveu para ti.
Já escreveu para mim. A Beatriz Felício, outra jovem fadista.
Grande voz.
Magnífica. Essa mulher é iluminada quando canta, parece que desce um holofote em cima dela. É uma coisa magnífica. Eu sou muito fã de muitos deles e regozijo-me por fazer parte do mesmo tempo que eles. Por ter convivido, por conviver com eles, por poder desfrutar da música deles e da arte deles.
Mas acredita que é raro, nos dias que correm, termos pessoas a elogiar outras. Pelo menos eu tenho sentido muito isso ao longo do tempo. Lá está, não digo da classe artística, mas talvez de outros meios. Se calhar mais pudor.
Somos cada vez mais competitivos. Desculpa te interromper.
Sim, mas pode.
Acho que isso tem a ver com a forma como a sociedade se está a projetar no futuro. Esta história da competitividade.
Voltamos aqui à velha história. Para alguém que não cresceu no meio de Lisboa e queria tanto também se desafiar no fado e que hoje prova que tem amizades tão bonitas e colegas que gosta tanto, foi difícil essa fase inicial, não digo de estar dentro daquele rótulo, mas dentro daquele círculo de pessoas.
Se foi difícil?
Sim.
Difícil como?
Não digo difícil inserir.
Não foi, porque há 30 anos era tudo muito mais simples. Eu achei que foi difícil.
Hoje é mais complicado?
Eu acho que sim, acho que é muito mais difícil te inserires.
Quais são as diferenças? O próprio mercado?
Sim, até esta própria visibilidade torna tudo muito curto. O teu tempo de duração é diferente. Na minha altura, acho que conseguíamos construir um universo na música que fez de ti um corredor de longa distância. Ou seja, criaste raízes que duram para a vida toda. É incrível. É quase um boca a boca. E isso estabeleceu raízes fortíssimas. O percurso que eu tinha há 20 anos é o mesmo que eu faço hoje em dia, continuando a abrir portas. A forma como a minha mensagem passa é diferente. Hoje passa tudo pelas redes sociais e é tudo muito volátil, tudo muito rápido, as pessoas não se fixam. Basta dizer que, por exemplo, é difícil de cantarolar as músicas de hoje em dia, porque daqui a uma semana já tens outro "whiz" a te seguir. Já ninguém ouve mais aquela música. É incrível. E isso faz com que seja tudo muito mais difícil. O que me dá imensa pena em relação a muita gente com muito valor que está a começar.
Tu falaste aqui das redes sociais, com certeza que se calhar estás mais presente Pela profissão que tens, se não a tivesses, era algo que abdicavas?
Sim, sem dúvida. Eu não posso não ter. É daquelas coisas que, de repente, eu não apareço durante uma semana ou duas e perguntam se me aconteceu uma desgraça qualquer. Mas se pudesse, não tinha. Aliás, há coisas que não põem lá os pés, como se costuma dizer.
E é muita informação todos os dias e muita coisa.
Tens que estar sempre a portar, estar sempre em cima, não só daquilo que tu pões, mas também do que se passa ao teu lado, à tua volta. É exasperante.
Tu estás em turnê, podemos dizer assim, pela Europa. Vais passar por vários sítios. Queres levantar aqui a ponta do véu? Porque com certeza vamos ter pessoas a ouvir e que nos podem estar a ouvir em França, na Alemanha.
Não me perguntes o nome das cidades onde eu vou estar, porque são de facto muitos concertos e eu não me recordo de boa parte deles. Mas começamos o início do ano, eu e o meu guitarrista, o Bernardo Couto, com uma orquestra que se chama Ensemble Déséquilibre, em França. Na verdade, é música contemporânea, é um libreto do M. Tavares, com música de autoras portuguesas, lá está, mulheres. Mas é música contemporânea, que se relaciona de alguma forma. No fundo, é um intercâmbio com o fado, que surgiu há alguns anos e gravámos muito recentemente um disco, e agora estamos a mostrá-lo naquele país, em França. Depois venho a Portugal um dia, espero poder ir para lavar a roupa.
Esperemos que esteja sol em janeiro, o que às vezes não é.
Não é assim tão óbvio. E aí já vou com a banda inteira. Vamos para a Alemanha, também para oito concertos. Depois voltamos a casa, três dias.
Estou aqui a ver que vais estar com o Mário Laginha também na Dinamarca, não é? Estou aqui a ver no teu site. Aliás, é muito fácil, é cristinabranco.pt e está tudo muito bem explicado, percebe-se tudo muito bem.
Depois ainda vou à Bélgica, ao Flagey, a Bruxelas, depois voltamos para casa. Acontecem vários concertos em Portugal com o Mulheres de Abril aí pelo meio. Depois, como tu disseste, vou para Copenhaga com o Mário Laginha e com a big band local, ou seja, dinamarquesa. E de lá vou para a minha tour habitual holandesa.
Sim, que já é uma casa também, tu viveste lá, conheces bem.
Eu vivi três anos, mas essa história tem muito mais anos. Ou seja, eu faço este périplo.
Aliás, os teus filhos viveram lá contigo também, não é?
Viveram três anos comigo, sim. Vivemos lá três anos, os três. E vamos para lá e depois não me perguntes mais à frente.
Sim, já temos aqui muito caminho, pelo menos quase até abril, daquilo que vejo aqui na Holanda, até dia 5 de abril. Está tudo no site da Cristina Branco, cristinabranco.pt, encontra todas as datas por onde vai andar neste 2026. Vamos fechar este "Em 40 Minutos" contigo. O que te mantém curiosa e acima de tudo atenta aos 50 e poucos anos numa carreira tão longa e ao mesmo tempo tão exigente?
O que me mantém atenta? Os meus filhos ajudam-me imenso a manter essa curiosidade. E depois, o amor profundo que tenho à música. Eu acho que a música me mudou mesmo como pessoa. Ou seja, eu já tinha muita curiosidade, porque estudei comunicação social e já tinha um apetite por isso, mas de repente a música mudou a direção das coisas e tornou-me necessariamente mais atenta à forma como eu quero evoluir como ser humano. E deu-me essa capacidade da curiosidade e de querer ir mais longe e saber mais sobre mim própria e sobre os outros seres humanos.
Cristina Branco, muito obrigado por teres vindo aqui ao "Em 40 Minutos". Bons concertos e que seja um grande 2026.
Igualmente.
Obrigado.
Obrigada.