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Seja então bem-vindo a mais uma edição do "Em 40 Minutos", aqui na Rádio Observador. Aos domingos em 40 minutos ficamos a conhecer melhor uma qualquer personalidade da nossa praça. Não sei se esta expressão ainda se usa, mas posso sempre tentar.

É como carro de praça, não é?

Carro de praça. Isso era outra coisa. No "40 Minutos" recebemos hoje o ator Diogo Amaral. Olá, Diogo, bem-vindo à Rádio Observador.

Olá, muito obrigado.

Vamos falar claramente do "Pôr do Sol", da série, do filme. O filme até está a chegar às salas. Da tua carreira e também dos teus inícios. Queria começar precisamente pelo filme, porque estamos a poucos dias da chegada aos cinemas do "Pôr do Sol: o Mistério do Colar de São Cajó". E claro que tínhamos que tentar. O que é que vai acontecer ao Lourenço, que é a tua personagem? Há alguma revelação que possas fazer?

O filme é uma espécie de uma prequela, portanto, nós já sabemos o que é que vai acontecer ao Lourenço, porque já vimos a série. Vamos ficar é a saber como é que aconteceram ou como nasceu a banda.

Os Jesus Cristo.

Sim, os Jesus Cristo, essa grande banda.

Já lá vamos.

Já lá vamos.

Tantas perguntas.

Festivais e tudo.

Era o que eu estava a pensar. Só isso já dá.

Dá.

Temos aí pelo menos 20 minutos.

Exato.

Eu normalmente costumo ser um pouco pessimista, ou então não crio bons cenários para as coisas. Mas neste caso particular, eu acho que estamos perante o filme português mais visto sempre. Aviso já. E acho que o filme vai correr super bem. Para já porque o Manel, o Rui e o Henrique são muito rigorosos e têm levado este barco de uma forma muito específica e muito singular. E eles aqui no filme deram tudo.

Diogo Amaral, já fizeste muitas novelas. Como é que esta série é vista nesse meio, no meio das novelas? Porque a determinada altura dá a ideia: "Eles estão a gozar conosco".

Eu acho que eles têm uma visão um bocadinho diferente da minha, o Manel, o Rui e o Henrique. Porque eu acho que é válido, e sou assim na vida, eu acho que é válido brincar/gozar, fazer humor com tudo. Para mim, tudo é válido. E as novelas é um género que nos pede muito. Eu a gravar novela, muitas vezes, tenho sempre uma versão alternativa para uma cena. Aqui eles agarraram numa coisa e já todos fizeram novela. O Rui faz novela, o Rui Melo faz novela, o Manel já fez muita novela e o Henrique não faço ideia, mas se não fez, esteve lá perto. Toda a gente que fez parte de uma novela, em algum momento teve esta visão de que: "Nós agora fazíamos isto assim". Ou seja, é um bocadinho acelerar a fundo algumas coisas.

Mas é uma caricatura.

No universo "Pôr do Sol", sim, é uma caricatura. Já se fez caricaturas a filmes. Aqui é brincarmos com o gênero da novela, e ainda assim brincamos com a abordagem portuguesa às novelas.

Ok. Isso nota-se pelos títulos, o próprio genérico, as palavras que são usadas, há toda essa caricatura. Como é que aceitaste este papel? Li algures que foi quase sem saber nada da história. Já também aqui falávamos há pouco em off que também não és muito de depois ir ver o trabalho já feito.

Isso foi uma coisa que entretanto ganhei. Eu comecei a trabalhar muito novo, portanto, já mudei imenso, já tive imensas formas de mudar ou crescer, ou abordagens diferentes, o que lhe quiserem chamar.

Mas como é que aceitaste "Pôr do Sol"?

Eu já conhecia o Manel, o Rui também já conhecia há algum tempo, o Henrique ainda assim era o que eu conhecia pior. Mas queria muito trabalhar com o Manel. Eu, na verdade, fui substituir um ator.

Era a segunda escolha.

Eu, na verdade, fui a segunda escolha.

Ou fulano que não aceitou.

Eu acho que nem foi bem assim, acho que ainda foi pior. Acho que o fulano roeu a corda a dada altura e a coisa já ia muito avançada. Ainda não tinham começado a gravar, naturalmente. Eu tinha férias marcadas, tinha acabado um trabalho, tinha férias marcadas, portanto eu comecei. Aquilo foi tudo assim na musse, porque eu ia de férias para as Maldivas e chegava no dia em que começavam as minhas gravações. E assim foi, aterrei e fui direto para as gravações. E fui a ler a série no avião. Confesso que fui a ler a série no avião. Tínhamos tido uma conversa por telefone. Eu aceitei de olhos fechados, quando o Manel me falou assim por alto na série.

Leste depois de ter aceitado.

Li depois de ter aceitado. E eu confesso, pensei: "Meu Deus".

Onde é que eu me fui meter?

O que é que vai sair daqui? Porque aquilo no papel tinha muita graça, mas não conseguias ver ainda o que foi feito daquilo. As coisas saltam sempre, ganham sempre outra dimensão quando passam do papel, depois quando o realizador, com os cenários, ganham sempre outra dimensão. E, portanto, eu fiquei um bocado assustado.

Mas não parecia uma novela a sério ou parecia?

Quase que me apetece ser uma asneira. Fico a olhar pra aquilo e penso: "Mas que merda é essa? Onde é que eu me vim meter? O que é que vai sair daqui?" Mas depois fiz alguns ensaios via Zoom com o Manel nas Maldivas e tive algumas ideias. Rapidamente foi fácil perceber que eles são super rigorosos a saber exatamente aquilo que queriam e muito rigorosos ao ponto de quando havia uma ideia que fugia um bocadinho: "Não".

Não é por aí.

"A tua ideia, ok, ótimo, muito boa pra tua série, mas nós queremos ir por aqui". Se calhar, foi desse rigor, dessa coisa que eles sabiam exatamente aquilo que queriam e conseguiram.

É engraçado o Diogo ter dito que havia um outro ator para este papel, porque se calhar se fosse outro, depois não teria nascido Jesus Cristo. Se calhar o outro não ia aceitar ser vocalista de uma banda que acaba por sair desta série.

Se calhar já era. Se calhar foi por isso.

Já era.

Já estava lá escrito.

Já havia a banda na primeira temporada.

Mas podia não estar disponível para fazer festivais de verão.

Como é que se acaba no Nossa Live?

Desculpa?

Como é que se acaba no Nossa Live?

Como é que isso acontece? Onde é que se descontrolou?

E já para não falar a quantidade de salas esgotadas.

Coliseus, não?

Fizemos o Coliseu do Porto. Nós começamos no Maria Matos. Acho que tínhamos feito uma coisa antes. Não, começamos no Maria Matos porque houve uma ideia. "Olha, vamos ao Maria Matos numa segunda-feira" e ficamos todos: "Está bem, vamos lá". Eu, a princípio, achei: "Vamos lá para cima, para o café, aquela coisa que eles fazem do café teatro". E de repente, não, era na sala, a ideia é deles. Eu lembro-me de estar nervosíssimo, até perceber que havia uma fila de pessoas à volta do teatro, porque achava: "Vão estar três pessoas". Nervosíssimo, que é aquela vergonha alheia. "O que nós estamos fazendo? Vai estar duas pessoas na sala". E de repente, no Maria Matos, foi quando aconteceu o primeiro, nem sei como é que isto se chama.

Boom?

Não sei se é boom ou o que lhe havemos de chamar, mas de repente tivemos que fazer dois espetáculos, porque a sala estava cheia e conseguimos encher duas salas. E foi meio esquisito. Quer dizer, nunca na vida me passou pela cabeça que isto pudesse acontecer.

Parece que isso ainda te surpreende hoje em dia.

E tem nos vindo a surpreender a cada espetáculo. Nós fizemos a coisa do Maria Matos, fomos lá, tocamos, fizemos as músicas. Nós para os Coliseus já criamos um espetáculo, temos um guião, é uma espécie de uma performance, de uma peça de teatro, do que lhe queiramos chamar. Mas ensaiamos e temos um guião e temos aquilo muito preparado. Ok que aquilo ganha outras dimensões, porque o público manda muito naquele espetáculo, mas quando nos atiraram para o Coliseu, nós dissemos que sim. Nós, aliás, a banda em si, temos esta coisa de dizermos a tudo que sim. E só depois umas horas antes é que nos apercebemos que nós íamos ao Coliseu. E de repente, no Coliseu, eu acho que só quando as portas do elevador, porque os camarins são no primeiro andar, se abriram e eu de fato percebi que havia um bruá.

Durante, tens um bocado de receio daquela reação que possa existir? Quer dizer, tantos músicos a tentar um Coliseu e o Jesus Cristo chega aqui e faz isto. Não sentes isso, que pode haver essa desconfiança ou essa invejazinha?

Sabes que houve uma vez um jantar nos bastidores de um programa de televisão. E nós estávamos a jantar antes de gravar o programa. E houve essa conversa, e eu muito inconsciente em relação a isso, porque se calhar, sei lá, muito achar que é tudo na boa. Então, está tudo bem, nós vamos fazer um espetáculo. E de repente percebi não, que há, de fato-

Há malta ressabiada.

Eu não sei se ressabiada é a palavra que eu escolheria.

Anticorpos.

Que há malta desconfortável, mas depois, como é que eu arrumo isto? Eu, pessoalmente, porque tu podes pensar o que quiseres e podes ter a opinião que quiseres. Ok, e nós não somos uma banda, lá está, eu disse no Nossa Live, nós somos uma banda a fingir que viemos brincar num festival a sério.

Aliás, são os Gorillaz e o Jesus Cristo. São bandas que não existem.

Lá está, pode haver malta desconfortável outra vez com essa conversa. Mas nesse jantar, depois eu percebi que havia malta desconfortável, mas ultrapassa-me esse desconforto.

Mas alguma vez tinhas pensado em ser músico? Em algum momento, não agora, mas em algum momento da carreira, isso passou pela cabeça ou não?

Nunca na minha vida e continuo no mesmo sítio. Nós não somos músicos. Neste caso, eu sou ator. Quem sobe ao palco é o Lourenço. Aqui é um bocadinho, é uma experiência.

Isso ajuda.

Nós fizemos cenas na série onde tínhamos um show, onde tínhamos um concerto, não era bem um concerto, era mais um show. E nessas cenas, o público que está a vibrar, está pago e coreografado para estar a vibrar. Neste caso, tem esse lado surpreendente, porque as pessoas, quando a banda me apresenta, apresenta o Lourenço. Quem está ali é o Lourenço, vestido de Lourenço. É o personagem daquela história. E de repente, o público que está ali a vibrar é o público daquela história, que conhece os personagens, que sabe a história dos personagens e que acompanha. Eu acho, não tenho a certeza, mas lá está, eu sou um bocado pessimista, eu acho que a banda sozinha ainda não tem público que não seja público da série.

Da série, sim.

Acho que ainda não saltamos essa.

Se por um lado ainda te mostras surpreendido com o sucesso da banda, os Jesus Cristo, porque foi um grande sucesso a primeira série "Pôr do Sol", as reações no mundo digital, a própria RTP julgo que terá ficado surpreendida com o sucesso da série. Como é que olharam para isso? Ficaram também surpreendidos por ter chegado a tanta gente?

Claro. Um fenómeno destes é muito raro. Estava a pensar se arranjava aqui alguma comparação, mas também não interessa. Mas um fenómeno destes é muito raro e nós não estamos mesmo à espera. Isto para nós é um bombom, um prémio, é mais. Obviamente que é excelente. Quando acontece uma coisa destas, eu costumo dizer que isto é um luxo. De repente, ter estas experiências, esta vida própria que isto ganhou, de repente o êxito que isto teve, fizemos a segunda temporada, já estamos no cinema. Isto é a experiência milionária. De repente, é o verdadeiro luxo. E claro que é surpreendente. Para nós, para mim, posso dar esse exemplo, os concertos têm sido sempre a subir e é sempre surpreendente. O Coliseu de Lisboa foi o primeiro, porque as pessoas compraram bilhete. No primeiro foi uma experiência, foi surpreendente. O segundo foi o Coliseu de Lisboa, de repente. A seguir fomos para o Coliseu do Porto, o público do Porto nem sei explicar. Depois fizemos o Alive. Achava: "Isto é uma sala pequena, e vai estar a tocar o Sam Smith ao mesmo tempo. Não vai estar aqui ninguém". Eu não estava a acreditar que aquilo ia estar cheio, até ao momento em que entrei e havia pessoas à porta e eu não conseguia ver o fim. Do palco eu não conseguia ver o fim. E só mais tarde, quando amigos me mandaram vídeos a mostrar como é que estava lá fora, é que eu tive noção de como é que aquilo estava. E isto é de loucos, é mesmo surpreendente.

Estavas a dizer uma coisa que era: nós não somos músicos, a banda não são músicos, mas qual é a vossa participação na banda? Eu adoro as letras, claro. Quem é que escreve as letras? É o Henrique?

Não, quem escreveu as letras, por acaso, acho que foi o Rui.

Ok.

Por acaso, não.

Mas a música, vocês têm alguma intervenção na composição ou já são dirigidos?

Somos sempre dirigidos.

Ok, boa. Parabéns a eles.

Obviamente que se tivemos alguma ideia, lembro-me de alguns pormenorzinhos que surgiram no momento. Há coisas que surgem no momento da gravação e eles são super open para receber a nossa criatividade também. Mais ou menos open.

E voltando aqui ao cinema e olhando para outros trabalhos que foste fazendo, Pedro Inês foi o filme que mais te marcou.

Por toda a experiência, se calhar, porque foi uma conquista. Também posso revelar esta parte, já foi há tanto tempo. Eu nem sequer fui chamado para ir a esse casting. Eu soube que ia haver esse casting.

Segunda opção outra vez.

Não, por acaso nem era opção. E nem era um casting para pessoas da minha idade, mas às tantas eu queria fazer aquele papel. E soube que ia acontecer, por amigos, e soube da primeira entrevista que iam fazer ou que iam receber atores, que iam ver atores e que iam ver atores muito mais novos. E eu sabia que os atores aí iam ser chamados às 10:00 e já tinha feito outros castings daquele género. Chamam 70 atores para as 10:00 e depois vão vendo por ordem de chegada. E eu cheguei às 8:00. E ainda me lembro quando chegou a diretora de casting dizer: "Então quem é que foi o primeiro a chegar?" E era malta com 16, 17 anos, e eu que já era muito mais velho, e que já tinha trabalho, dizer que tinha sido eu o primeiro a chegar. Ela a pensar: "Mas tu nem sequer foste chamado. O que tu estás aqui a fazer?" Depois, vá, quase que por um momento desconfortável, chamou-me para a reunião e disse: "Diogo, isto não é para ti". E eu: "Mas deixe-me fazer o casting. E o casting não era naquele dia. Deixe-me fazer o casting, deixe que o realizador me veja. Se não for para este papel, que seja para outro, mas deixe que ele me veja". E o realizador, o António Ferreira, viu muitos atores. Salvo erro, 200 atores ao todo, homens e mulheres. E quando ele fez o casting, chamou-me e disse: "Pronto, olha, vem 10 minutos antes". E lá fui eu fazer o casting. Não sei, sou zero guru destas coisas, mas acho que quando queremos muito fazer uma coisa, essa vontade também acaba por nos dar uma vantagem. E acabou por acontecer e ele vinha do Brasil, nem sequer sabia quem eu era. Fiz não sei quantos castings depois. Foi um processo demorado, mas foi depois um trabalho, foi um grande mergulho. Por isso é que eu costumo dizer que é dos trabalhos mais saborosos e também muito rico, porque de repente era um filme que tinhas o passado, o presente, o futuro, ainda tinhas no presente, ele ainda era internado num hospital psiquiátrico. Então para um ator é assim um trabalho muito rico. São vários personagens no mesmo personagem.

Há sempre uma pergunta que salta quando se entrevista um ator que é reconhecido do grande público, principalmente porque faz muita televisão, que é a questão do cinema. Todos respondem: "Claro, eu gostava de fazer mais cinema". Às vezes também penso que essa resposta é porque se faz menos cinema ou há menos hipótese em cinema em Portugal do que televisão.

Também.

Contigo é assim? Tu também gostavas de fazer mais cinema?

Eu adoro o que faço. Acho que são expressões diferentes. Eu sou ator porque eu queria fazer cinema. Gosto muito de teatro, mas eu sou ator porque eu queria fazer cinema. Porque acho que é a arte do pormenor. O plano fecha na tua mão a abrir uma porta e a tua mão está a contar um bocado da história. No teatro também tens a mão, mas não está a contar tanto a história, porque quem está na quarta fila já não está a ver. É uma forma de expressão completamente diferente. Eu não acho que seja melhor nem pior, mas eu sou ator porque gostava de fazer cinema. E aquela coisa da equipa.

E talvez mais perfecionista. Porque no teatro, a partir do momento que começa, vai como for. O cinema repete-se muitas vezes. Estou a perguntar.

Aí é um bocadinho sempre aquela coisa de tu enquanto actor, tu tens várias coisas. Tu entregas-te a um encenador ou a um director. No caso do Pedro e Inês, o filme é dele, é cinema de autor, aquilo é o filho dele. Não é como, por exemplo, nos perdidos ou numa novela, que o realizador é contratado para fazer uma história que alguém te contrata. Normalmente, o realizador é contratado, mas acaba por abraçar essa história. Mas no caso do Pedro e Inês é o ninho dele. É diferente. Mas imagina, para um actor, eu sou dirigido e depois eu tento fazer aquilo. Isto no meu caso, eu falo por mim, atenção, não falo dos actores. Depois é quase lançar um dardo. Tu queres acertar ali e é ir atirando.

E tentando. Nós temos muito mais para falar com o Diogo Amaral. É o nosso convidado hoje no "Em 40 Minutos". Vamos ter aqui uma síntese de notícias e já regressamos à conversa com o Diogo. Até já. Estamos de regresso para a segunda parte do "Em 40 Minutos" esta semana aqui à conversa com o Diogo Amaral. Mais uma vez, obrigado por teres vindo. Já na primeira parte falámos do grande sucesso que foi o "Pôr do Sol", a série. Está a chegar aos cinemas nos próximos dias, "Pôr do Sol: O Mistério do Colar de São Cajó". E falámos há muito de Jesus Cristo. Há pouco íamos numa conversa que estava aqui entre cinema, teatro e televisão. Na televisão, ainda há muita gente que se lembra do Frederico e da Floribela.

Não há um dia que passe da minha vida que não haja uma referência ao Frederico Ritzenwalden.

Ele foi muito intenso também, não foi? Também havia concertos.

Foi um catrapum também, assim tipo "Pôr do Sol".

E ainda durou muito tempo também.

Estivemos um ano a gravar.

Teve uma segunda temporada e tudo.

Sim, teve uma segunda temporada que eu não fiz. Fiz um bocadinho de nada. Mas sim, um fenómeno. Quem diria?

Mas há muita gente ainda a falar disso.

Não há um dia da minha vida que passe que não haja uma referência à Floribela.

São pessoas mais crescidas que eram miúdos na altura, ou não?

Mas também já repetiu muitas vezes. Aquilo é uma novela infantil muito bem feita, que em Portugal teve um fenómeno porque a dada altura passava em horário nobre.

Pois foi.

E foi um sucesso gigantesco. Há coisas que não se explicam.

E um remake.

Da Floribela? Sabes que eu na altura dizia ao produtor, porque havia alguém num país qualquer, isto é um produto comprado da Argentina. Nós fazemos uma adaptação rigorosa e acho que tem algumas regras que têm que se seguir, é tipo um franchising. Mas houve um país qualquer que fez uma versão da Floribela em adultos, numa onda de se a versão que nós fazemos era mais colorida e de "dolce star" às cores, eles faziam uma onda preto e branco, que era o lado "the dark side".

Mais dark.

Mas tinha muita pinta, que os bons vestiam de branco e os outros eram assim. E eu acho que a Floribela numa versão mais amadurecida, a acelerar a fundo, com um toque Tarantino. E depois, se calhar, Robert Rodriguez para dar uma coisa mais gore. Eu acho que podia funcionar.

Fica aqui a ideia.

Eu acho que podia funcionar.

Eu queria falar contigo uma coisa, já que estamos aqui a falar em televisão. A televisão mudou muito nos últimos anos, as plataformas de streaming, os próprios canais portugueses também já têm as suas plataformas, a criação de conteúdos, por exemplo, Netflix completamente português. Isto mudou um bocadinho o paradigma até à realização de iniciativas como Passaporte Lisboa. Tinha a ideia até de ouvir colegas teus dizer que quando isto foi anunciado: "Isto agora é que vai ser, vai haver trabalho para toda a gente, vamos fazer coisas para a Netflix". E outros que diziam: "Calma, isto se calhar não vai ser assim tão fixe. Deixem ver no que isto vai dar". Mas há, de facto, esta mudança e cada vez mais a produção portuguesa também beneficia de plataformas que são claramente multinacionais e internacionais?

Eu acho que vai ser sempre a subir, até porque em Portugal nós fazemos muito com pouco e fazemos muito bem. Realização, produção, a representar. Portanto, eu acho que vai ser sempre a subir e acho que as portas estão escancaradas para fazermos coisas cá, produzimos coisas cá e fora. Acho que vai ser sempre a subir. Acho mesmo.

Boa, um otimista.

Nesse sentido, sim, otimista. Corro zero atrás, na verdade. Já houve alturas que procurei mais, depois há alturas que abrando um pouquinho.

Procurar mais o quê? Essas participações internacionais, por exemplo?

Sim, de tentar furar, mas depois, honestamente, não é que diga assim: "Não quero, não me interessa". Não, é claro, obviamente, que adorava ter uma experiência dessas, até falando de production value. Tens a oportunidade de fazer uma coisa muito maior, os orçamentos são completamente diferentes e sabemos que nesta área, quanto mais dinheiro há, e não estou a falar de dinheiro para me pagarem a mim, mais dinheiro de produção.

Não desconfias, tirando o facto de seres ator e trabalhar na indústria, não desconfias nada da maior parte das plataformas internacionais não darem lucro? Há essa questão do modelo de negócio, não é?

Mas exato, porque produzem muito. Estão numa fase-

Mas estão sempre nessa fase. Quando é que o Netflix vai dar lucro? Há sempre essa questão. Não és pessimista a esse nível?

Não me preocupo muito. Acho que investem muito e se pensar de um ponto de vista de negócio, acho que é o certo. Até porque tens que estar a correr com os outros. Estás numa corrida a competir com-

Com grandes estúdios.

Estás sempre a competir, tens a Netflix a competir com a HBO, com a Disney e com a Prime. Há sempre essa corrida, portanto, tens que estar sempre a investir. Não podes parar. Ou seja, estás sempre a investir. É quase tens lá o teu patrimônio.

Sim.

Portanto, acho que não dão lucro, mas temos aqui o nosso patrimônio.

E olhando agora um pouquinho para a tua infância, por que os teus pais não queriam que fosses ator?

Isso é aquela coisa que eu percebo perfeitamente. Imagina.

Porque agora és pai?

Não, já percebia na altura. Se calhar agora tenho outra visão da coisa, mas é uma profissão que não é segura. Muita coisa ao contrário, os meus pais não queriam que eu fosse ator, queriam que eu tirasse um curso superior. Acho que é o que os pais querem sempre.

E foi por causa dessa pressão que foste para Arquitetura primeiro, para Direito depois.

Exatamente. Porque tinha que tirar um curso superior primeiro. E, na verdade, eu queria fazer aquela coisa dos filmes e queria estudar para fora e precisava que os meus pais me pagassem. Ou então precisava de fazer uma opção muito mais radical, que não foi a que eu escolhi na altura e escolhi um plano mais preguiçoso, mas mais maquiavélico, que foi: "Está bem, então eu vou fazer o que vocês querem".

Para os calar.

E fui para Arquitetura. Até tinha boas notas em Arquitetura e gostava, de facto, de Arquitetura, mas estive dois anos em Arquitetura e uns meses em Direito. E tive umas grandes férias quando desisti de Arquitetura, entre um curso e o outro. Mas durante esse período, eu andava à procura de qualquer coisa que me conseguisse fazer furar o meio artístico, que fosse a televisão ou teatro. Eu até me lembro, já que estou aqui, que um dos castings ou das audições mais aterradoras que eu fiz foi para ser locutor de rádio. Foi aterrador, que foi assim num canto, já não me lembro, era de uma rádio grande em Lisboa e foi assim num canto com um senhor a mandar-me fazer umas coisas para um microfone e que eu estava bloqueadíssimo e não consegui. Foi aterrador. Mas se ainda existir esse registo, por favor.

Acabem com ele.

Como é que se sai, aparentemente, de um curso muito mais artístico e até desempoeirado como Arquitetura, agora quem me ouvir falar, acho que me vão ter em trabalhos. E se vai meter num curso de Direito, que é uma coisa muito mais lixada.

Tens toda a razão, mas há uma justificação para isso, que eu pensei assim: "Epá, vou desistir de Arquitetura". Depois, de repente, os meses começaram a passar e eu estava a viver, desisti de Arquitetura logo ali no princípio e estive grande parte do ano a ser um boêmio. E depois chegou aquela altura que tens que te inscrever em alguma coisa ou então vai começar o semestre ou as aulas, como é que se diz, e tu não vais estar a fazer nada. O que é que tu vais fazer? O meu avô tinha sido um grande advogado, o meu tio era um grande advogado e eu pensei: "Bom, é Direito". O meu primo estava a estudar Direito e eu pensei: "Vou para Direito".

Podem emprestar os apontamentos.

Exatamente. É este o caminho. Se calhar, estava a olhar para ele quando tomei esta decisão e disse: "É Direito". E assim foi.

É engraçado a questão que ias falar do pai, por exemplo, os pais têm muito a coisa que querem que os filhos sejam médicos. O pai do Diogo é médico, quer dizer, isto já não ajudava muito.

Tem uma frase que eu já disse 50 mil vezes, mas eu acho genial, que o meu pai diz que um tipo que muda de Arquitetura para Direito só podia ser artista.

É bom. A tua avó não devia ter uma ideia muito diferente, ou não? Porque quis te deserdar.

A minha avó detestava aquela ideia, ou sempre me disse que detestava. Há uma história que também já contei várias vezes. A minha avó paterna, eu acho que ela tinha um bocado de vergonha que eu fosse ator, se calhar não era uma profissão muito bem vista para ela, para o meio dela e entre as amigas dela. E ela sempre achava que o meu pai tinha que me deserdar e que era uma profissão boémia e que não era uma coisa séria. E o meu avô tinha sido professor, catedrático, era assim umas grandes coisas. Mas a minha avó já estava nos últimos dias e eu já contei esta história, se calhar sabes tudo.

O bilhetinho.

O bilhetinho. E deixou-me um bilhetinho, eu fui vê-la, porque o meu pai é médico, eu fui vê-la aos cuidados intensivos, ela pôs-me um bilhete no bolso do casaco e eu tive ainda um tempo para ver o bilhete e o meu pai depois é que chegou lá fora e disse: "Vais ver isso ou não vais ver isso?" E o bilhetinho dizia: "Eu vi todos os teus trabalhos". Mas ali, torcida, sempre. Nunca desfez.

Incrível. Mas pelo menos ficou a prova que ela escreveu.

Portanto, ficamos a saber que a minha avó, torcida, viu os Morangos com Açúcar.

Exato. E a Floribela.

E a Floribela, acho que sim. Acho que estava a fazer a Floribela quando ela morreu.

E agora, o que os teus pais te dizem quando percebem que isto correu bem?

Isso já passou há muitos anos. Eu não ligo nada à quantidade de anos que trabalho ou não, reparem que eu até estou aqui com alguma dificuldade, porque chateiam-me outras histórias com 20 anos. "É 20 anos?" É. Mas entretanto nunca houve uma resistência. A partir do momento em que eu tomei a decisão, sempre me apoiaram e nunca houve resistência absolutamente nenhuma. Havia no sentido do aconselhamento, na opinião deles, achavam que era mais seguro tirar um curso superior primeiro e depois ires às tuas teatrices, que era como o meu pai dizia.

Isto não é também uma reação? Consegues encontrar coisas na tua infância que expliquem o rumo que acabaste de seguir profissionalmente. Às vezes, como falavas, a questão do teu avô, do teu pai, às vezes quando vivemos assim num meio que é mais restrito a esse nível, temos uma espécie de rebeldia.

Em algumas coisas, sim, em algumas decisões. Eu via o meu pai a fazer estas coisas. O meu pai podia ter sido ator, eu acho. E fazia umas brincadeiras em família onde explorava um lado mais criativo e da criação, de criares alguma coisa e de fazeres um mini show. Em família, às vezes ele fazia essas coisas e tocava e portanto havia mais esse lado no meu pai. Mas essa rebeldia, em relação ao meu pai, que é um sportinguista ferrenho, assim que eu tive a oportunidade, tornei-me num benfiquista.

Tudo para contrariar.

Para contrariar, única e exclusivamente para o contrariar.

Sempre viveste em Lisboa, a tua infância é passada em Lisboa?

Não, eu nasci em Lisboa, mas cresci em Carcavelos. Era um menino da linha.

Exato.

Um menino da linha.

Muita praia?

Alguma. Só fui surfista mais tarde. Mas sim, muita praia, gosto muito de praia e ainda hoje gosto muito de praia.

Há pouco falavas da questão da imagem que certas gerações podem ter da tua profissão, o caso da tua avó, o caso dos teus pais, e dizias: "A minha avó achava que aquilo não era boa vida, era uma vida para boêmios". De alguma forma isso acabou por te acontecer também. Também viveste muito e chegaste a falar abertamente até de problemas da tua juventude e de crescimento. Como é que se assume isso também publicamente?

São duas coisas diferentes.

Eu com isto estou a dizer que os artistas são drogados, não sei se perceberam.

Eu percebi, eu ia já te responder.

E essa é uma imagem um bocado das gerações mais antigas.

Antes que comece a entrar malta aqui no estúdio.

São todos drogados, só querem andar na boémia. Eu arranjo problemas com advogados, tu com artistas, mas o teu problema é maior, porque artistas estão aqui neste estúdio.

Exato. E de repente começa a entrar isto. A vossa sorte é que não é em direto. Mas vamos fazer uma espera aqui à porta. Não acho que é um... como é que te respondo?

Não é condição sine qua non.

Não é condição sine qua non. Imagina, eu acho que era incontornável, por uma razão ou por outra, tu és propenso a. E por uma razão ou por outra, hás de lá chegar. E eu cheguei quando tinha de chegar. Mas tenho certeza que tem algo, não sei se é sorte, porque não gosto de lhe chamar sorte. Tenho uma experiência positiva. Primeiro porque não sou a mesma pessoa que era antes de ter batido no fundo, deep down. Não sou a mesma pessoa que era, se calhar não seria a pessoa que sou hoje se não tivesse passado por aquilo tudo. Mas com isto também não quer dizer que: "Ainda bem que tive de passar por aquilo tudo". Não recomendo, não desejo a ninguém nada, nem de perto nem de longe, nada das coisas pelas quais eu tive de passar. Sabes o que eu acho? E sem querer ser guru, sem querer ser porta-voz de edições, nem de aditos. Imagina, é um bocadinho aquilo que tu fazes com as coisas. E para mim foi um processo longo e continua a ser um processo. Vivo numa liberdade tremenda e é aí que eu te digo que sou um sortudo, porque olho à minha volta e é uma condição muito difícil. E eu vivo numa liberdade tremenda, tenho uma vida excelente a nível profissional, a nível familiar, a todos os níveis, e que se calhar eu nessa altura, quando estava num buracão, pensava que jamais ia conseguir sair daqui. E era aqui que eu queria chegar, mas sem querer ser guru, que é: se eu consegui sair daquele buraco, toda a gente consegue sair. Garanto, toda a gente consegue sair. Não é fácil, é lixado, mas eu sou prova de que é possível.

Vamos à família?

Vamos, já temos pouco tempo. Mas queria só fazer uma pergunta sobre os teus filhos, que ainda são muito pequenos. Mas já é possível antever-lhes um futuro? Vão fazer a vida negra ao pai como o pai deles fez ao dele?

Eles já têm a prova superada, nesse sentido. Mas eu gosto de usar o meu tempo com eles. Eu às vezes até costumo dizer que eu não me importava nada de ser dono de casa.

Só para estar com eles. Mais tempo.

Para poder passar mais tempo com eles. Adoro fazer programas com eles e de partilhar e de viver a vida com eles.

Os programas são culturais, tu tens essa preocupação de os expor a teatro, cinema ou ainda não?

Mais ou menos. Sim, mas tenho a preocupação de não lhes impingir coisas, e tentar perceber como é que eles se vão divertir, o que é que vai ser interessante para eles.

Não pões um filme francês.

Não lhes ponho um filme francês. Mas sou grande responsável por aquilo que lhes estou a proporcionar. Os pais têm a grande responsabilidade de lhes servir. Depois eles podem ir escolhendo ou não. Isso é um bocadinho já com eles, o que eles quiserem escolher, que escolham. Mas eu posso lhes servir. Se eu lhes servir. Isso era a Teresa Guilherme que dizia: se eu lhe der um pão seco todos os dias, ele vai só comer pão seco. Se eu lhe der um croissant, ele vai dizer: "Isto é uma porcaria, porque só estou habituado a pão seco". E vamos acabar assim.

Está ótimo, eu acho que está ótimo.

Acabamos no pão seco.

Pão seco da Teresa Guilherme. Diogo Amaral, nosso convidado esta semana no "Em 40 Minutos". Foi um prazer conhecer-te um bocadinho melhor. Obrigado pela disponibilidade. Vejam também nos cinemas, já a partir de dia 5?

Dia 3 de agosto.

Dia 3 de agosto. "Pôr do Sol: O Mistério do Colário dos Ossos".

E os bilhetes já estão à venda, já podem comprar.

Pré-venda. E Jesus Cristo, ainda com concertos marcados para este verão.

Nós temos uma agenda muito difícil, mas temos um concerto em outubro, e eu não vou acertar no sítio, mas começa por A.

Almodóvar.

Não.

Almeida.

Também não.

Bem, no Algarve.

Não, mas a Jéssica fez lá um espetáculo há pouco tempo. Portanto, Google.

Procurem online. Há concertos de Jesus Cristo e o Diogo Amaral foi nosso convidado esta semana em "40 Minutos". Muito obrigado mais uma vez. Um abraço.

Obrigado