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É natural de Aveiro. Aos 13 anos recebeu o seu primeiro computador e diz que esse foi um momento de abertura de portas pra criatividade. Anos mais tarde, participou em alguns programas de televisão e foi aí que chegou ao coração dos portugueses. Hoje, pra além de ser pai, conta com vários prêmios e muitos álbuns no currículo e hoje está aqui conosco no "40 Minutos" da Rádio Observador. Bem-vindo, Fernando Daniel.
Bem-vindo, Fernando.
Olá, boa tarde.
Espero que esteja tudo bem. Bem-vindo.
Obrigado.
Olha, Fernando, não há como fugir este tema. Já sabes o que é que vamos falar, não é? "Factor X" e "The Voice". Desculpa, já deve ser um tema bastante recente, mas não podemos fugir a isto. Participaste no "Factor X" e depois em 2016 no "The Voice".
Exatamente.
Acabaste por vencer essa edição, e foi precisamente nessa participação que ficaste conhecido pelo grande público. Como é que descreves essa experiência?
Olha, a experiência de participar em programas de televisão é sempre uma aventura e uma adrenalina. No meu caso, eu sou do norte. As viagens de comboio, tudo o que envolve o tempo de espera, conhecer pessoas novas, pessoas que hoje em dia já se cruzaram inclusive comigo agora no "The Voice", em que eu agora sou mentor e eles são concorrentes. É giro estas coisas voltarem um bocadinho atrás no tempo, mas é uma adrenalina e é um misto de emoções, porque tu queres demonstrar o teu máximo, mas depois estás sempre pendente de com pessoas é que te vão juntar, qual é o teu grupo. À partida, se bem que o "The Voice" funciona de forma diferente, é um bocadinho livre a forma como tu vais progredindo no programa, e não é à toa que eu sou um grande defensor do "The Voice" e que eu defendo sempre que é o melhor programa para mostrar este tipo de talento, que é a música. Mas é uma adrenalina incrível. Se as pessoas que nos estão a ouvir tiverem vontade de participar, que deixem aqueles medos de lado, aquelas coisas que eu percebo, a questão das câmeras. Eu também nunca fui muito a favor das câmeras. Não sou uma pessoa que funcione muito bem com as câmeras, fico um bocadinho nervoso.
Quer dizer, agora já estás mais habituado, não é?
Já, mas mesmo assim, quando estamos a gravar o "The Voice", quando eu reparo sobre o ombro, que tem uma luz vermelha em cima da lente.
É o aíges.
"Será que eu estou bem?" "Faço o quê? Qual é o meu melhor ângulo?"
Endireitar as costas.
Exato. Mas acho que participar em programas de televisão com o objetivo de nos tornarmos melhores artistas e se utilizarmos isso para fomentar uma ideia ainda mais vincada daquilo que queremos fazer, acho que é uma coisa boa.
E é uma boa montra, não é?
É uma fomenta incrível. É das melhores que existe.
Uma ótima rampa de lançamento.
Já que estás aqui e podes dar-nos um bocadinho dos bastidores, há sempre aquela noção de que depois a televisão e nestes programas há um bocadinho o olhar pra família e os dramas e essa parte toda.
A história deprimente.
É isso. Tu sentiste isso um bocadinho? Fizeram-te muitas perguntas sobre a tua vida pessoal?
Olha, posso te dizer que quando concorri, tu mandas aquele SMS para o não sei das quantas com a palavra "participar" e depois vão te chamar. Isso aconteceu, e quando eu lá chego, antes sequer de cantar, antes dos jurados, temos ainda duas fases, que é uma fase com elementos da produção, em que fazem uma espécie de pré-seleção, depois tens uma segunda pré-seleção, se for o caso, ou se eles tiverem certeza, passas logo da primeira pra segunda. O que é que acontece muitas das vezes? É que a malta que só vai à segunda, nem foi à primeira, porque é aquela coisa das últimas oportunidades. Ou seja, fazem aquele último forcing nas redes, últimas oportunidades para participares no "The Voice". Então juntam os dos primeiros castings com aqueles que vão participar pela primeira vez. E quando estás na sala de espera, passas o dia inteiro a ouvir pessoas a cantar bué alto e seres bué diferentes. Tu só queres: "Eu estou a ficar bué nervoso". As pessoas saem com má cara, será que são antipáticos, será que não são? Enquanto isso, estás ali a preencher uma folhinha, nesse caso é uma folha frete e verso, nome, idade, de onde é que vens, com quem é que vives. De repente, vives só com o pai, vives só com a mãe, por quê? Tentam tentar perceber. Eu fui um bocadinho inocente. Na altura, quando apareci, eu tinha 19 anos, acho eu. Já não era um miúdo, mas de forma inocente, disse que na altura só morava com o meu pai e depois tinha motivo, porque era: se moras com um progenitor ou sem progenitor, explica a razão. Uma coisa assim do gênero. E eu na altura disse que morava só com meu pai, os meus pais eram divorciados e minha mãe estava a viver no Luxemburgo. O que é que acontece? Isso ainda me deixou mais nervoso. No dia da minha prova cega, estou na boa, ia cantar e de repente: "Fernando, vamos ter que..." Eu não percebi, depois fiz um mais um. Mas não percebi. "Espera aí, eras pra ser agora, mas não vais ser. Vamos ter que te passar à frente mais ou menos 10 colegas que entras na segunda volta." E eu: "Então, mas..."
Já está lá aqui toda a sala.
Foi logo: "Então, mas isso fechou as equipes. Depois, de repente, já não tenho hipótese." E eles disseram: "Não." E agora enquanto mentor também sei o que é. Nós temos que garantir sempre pelo menos uma vaga até o último concorrente. Vamos cá supor, se for um concorrente péssimo, é obrigatório teres um lugar até o último concorrente. Depois cada mentor é que decide se quer fechar mais cedo ou se quer esperar pelo último, porque o último pode ser incrível.
Surpreendente, claro.
E na altura, passaram, e isto o que aconteceu: a minha mãe ainda não tinha chegado do aeroporto, porque eles fizeram uma surpresa.
Nem sequer era por videochamada, era mesmo que estava à espera.
Não, de repente, eu estou buéda nervoso, lá no camarim. Já não se diz buéda nervoso, diz "estava muito nervoso".
Assume, vai! Somos jovens.
Não, mas estava muito nervoso e lembro-me de estar assim sentado numa case, no corredor, e de repente: "Nando, essa é a voz da minha mãe." E eu fiquei na dúvida: "Espera lá, vão pôr aqui a minha mãe já no ecrã e vão para aqui já câmeras e isso aqui." E de repente, não, era a minha mãe em carne e osso. E eu fiquei: "Então, mas o que é que estás aqui a fazer?" Fiquei naquela, abracei, só câmeras à minha volta. E eu: "Ok, momento televisivo." Ainda fiquei mais nervoso Depois entrei lá para dentro e pensei: "A minha mãe veio de propósito, se eu levo aqui um não ou se nem viro numa cadeira, é embaraçoso. A minha mãe veio de propósito para me surpreender."
Ia ficar orgulhosa na mesma.
Sim, mas eu queria fazer boa figura. E não, correu bem, virei este quadro.
Correu bastante bem, não é?
Correu bastante bem.
Correu tão bem que tu tens uma das provas cegas com mais visualizações no YouTube, não só do "The Voice Portugal", mas do "The Voice" a nível mundial. Tem 121 milhões de visualizações no YouTube com a Adele, com "When We Were Young". O que achas que diferenciou a tua prova cega das outras provas cegas para ter sido este fenômeno? Há quem diga, e eu até posso dizer, eu próprio admito isso um pouquinho, eu prefiro a tua versão da música do que a versão da Adele. É uma coisa sensacional.
Eu não posso dizer que há uma fórmula, porque não há.
Cantaste bem.
Eu cantei com o coração, cantei com vontade. Era a terceira vez que eu estava a participar num programa de talentos. Já tinha sido expulso ou mandado para casa em dois, no mesmo programa, aliás, duas vezes. A última vez que tinha participado era em 2014 ou 2015, já não tenho certeza, e queria mostrar que este intervalo entre a última "aparição" num programa de talentos e esta agora, que eu tinha que estar diferente.
E nesse sentido, por que a escolha daquela música?
Eu confesso que foi a produção. Naquele papo que estávamos a falar há pouco, eu escolhi Rui Veloso. Primeira opção, Rui Veloso. Não, aliás, desculpa, primeira opção, Nathan Sykes, uma música que não me recordo agora o nome. Segunda opção, porque tens que sempre pôr uma música em português, Rui Veloso, "Porque Não Esqueci". Não, desculpa, "Porque Não Esqueci" não. "abre a porta devagar".
Ou seja, eu reconheço a música, mas agora não me lembro do nome.
"Esqueci de Ti". Deve ser "Esqueci de Ti", sim.
E depois, Adele. Cantei a primeira, cantei a segunda. E eles: "Não, gostamos, mas não é diferenciador". Eles dizem tudo na cara.
Portanto, é logo a produção que faz essa primeira avaliação.
Eles falaram: "Acho que ficas melhor com esta música", porque eu depois cantei, é uma música de uma mulher, tem um range totalmente diferente, nem toda mundo consegue, "e acho que dás logo outro impacto e começas logo". Concordo.
Faz sentido, sim. Para fazer diferença.
Confiei e eu pus-me a pensar: "Eles não querem o pior para o programa". Acredito eu que eles querem ter o melhor show possível. Se me estão a aconselhar esta música é porque, de fato, eu sou melhor nesta música do que nas outras. Ficou essa música e no dia cantei com verdade, cantei com o coração. Lembro-me de ter cantado até, não com raiva, mas foi um pouco uma de: "Eu quero mesmo ganhar agora. Esta é a minha terceira vez, ou é agora ou não é nunca. Ou é agora ou é nunca. Ou seja, eu quero ganhar mesmo." Eu acho que depois o discurso, que ainda me lembro mais ou menos do meu discurso, meio com a voz a tremer, lembro-me perfeitamente do que eu disse, porque na altura fizeram várias perguntas, chega a vez do Anselmo e pergunta: "Então, Fernando, cantaste assim com tanta força, com tanta garra, queres dedicar isto a alguém?" E eu agora sei por que ele também perguntou isso, porque nós temos um caderno, nós não sabemos quem é que vem cantar. Mas o que acontece? Temos algumas perguntas sobre o perfil da pessoa, só para termos um fio condutor. Ou seja, temos as básicas: como te chamas, que idade tens, de onde és. Essas já nem olhamos para o papelzinho que temos, mas depois temos uma: vieste com quem? Se eles nos perguntam isso é porque ou vai alguém se surpreender ou alguém não está pronto. E então deixam-nos com estas questãozinhas para nós guiarmos um pouquinho para o programa, que assim é sempre mais fácil de montar. E o Anselmo perguntou: "Então, mas dedicas isto a alguém?" Eu disse: "Dedico isto a mim mesmo, porque ando há muito tempo atrás disto e quero mesmo vencer, acho que tenho me esforçado bastante, portanto eu dedico isto a mim mesmo. Há muito tempo que ando atrás disto." O que acontece? Essa minha frase casa com a frase que a minha mãe diz à Catarina durante a minha apresentação, que é: "Ó o tempo que ele anda atrás disto". Eu juro que não combinei com a minha mãe.
Confessa, Fernando.
Confesso. E juro que aquilo criou uma espécie de até eu senti ao ouvir aquilo, isto parece estúpido o que eu vou dizer, mas até eu ouvir a minha prova cega e o erro todo, eu fiquei, até me arrepiei.
Foi ali uma verdade.
Tanta cena verdadeira ali, que foi tão sincero, sou mesmo eu. Vamos ver, espero que isto corra bem. Eu lembro-me quando isto passa na televisão, nós estávamos numa fase que era as batalhas. E tive os meus colegas todos: "Já ganhaste, vais ganhar". No dia a seguir: "Olha aqui, 5 mil partilhas ou 3 mil partilhas", uma coisa qualquer no Twitter de um user de Londres, ganhou assim uma dimensão.
A Adele nunca teve contato contigo, nunca falou contigo sobre essa-
"Great performance, congratulations."
Não, nunca me disse nada.
Mas se calhar já chegou aos ouvidos. Com tanta partilha.
Eu acredito que hoje em dia, nas redes sociais e com tanta coisa a acontecer, acho estranho, mesmo que ela não tenha procurado por ela, um primo, um tio.
Não lhe tenha chegado.
Alguém. São 121 milhões, mais outros TikToks que existem entretanto, coisas do Twitter e etc. Provavelmente viu. Nunca me disse nada, estou à espera do convite. Para ela vir a Portugal, não sei. Era fixe.
Era bom. Olha, Fernando, tu ainda há pouco falaste assim muito ao leve. Tu passaste depois para o outro lado do programa, para as cadeiras como mentor do "The Voice Kids". Tu sabendo perfeitamente o que é quer estar naquele palco, sentias mais empatia por quem passava por lá?
No primeiro ano senti muita empatia, porque não tinha sido há muito tempo. Ou seja, eu participo no "The Voice Kids" em 2020, portanto foi quatro anos depois de eu ter vencido o programa. Não passou assim tanto tempo. E parece que ainda sabia exatamente o que eles sentiam. Parece que eu ainda estava daquele lado também. E no segundo ano é que se torna um pouquinho mais crítico, porque para além dessa empatia que eu sempre senti, porque saí de lá também e sei o que eles estão a passar Tinha sido pai. Então, ser mentor de crianças, eu vou tratar estes miúdos como quero que tratem meu filho um dia. Há aqui muita coisa. Fiquei muito mais sensível.
Estava ali muita emoção.
Muita emoção. Às vezes aconteciam cenas que eu chorava e eu não acreditava que estava a chorar.
Aqui na televisão.
Mas é mesmo, as pessoas às vezes fazem um esforço. Também acontece o contrário, que às vezes acontecem coisas que nos fazem rir bastante, certas situações. E eu lembro-me que com o Carlão e agora com o Zambujo, tinha muito aquela coisa de olhar. Às vezes nós, homens, comunicamos, olhamos uns para os outros e apetece-nos rir. E como não podemos, parece que a vontade de rir ainda é maior. É a mesma coisa, vamos supor, que estás numa igreja, não é suposto rires e tu ris à gargalhada. Estão as câmaras apontadas para ti, tu vais falar a seguir, sabes que te vão pedir a palavra a seguir e tu estás a chorar.
A controlar imenso para não rir.
Para quem consegue controlar melhor, melhor isto. Eu lembro perfeitamente do Zambujo, houve um que estava a chorar de rir e ele disse que estava emocionadíssimo. Estávamos só a rir. Às vezes cenas estúpidas.
Tinha alguma coisa que vem à cabeça?
Sim, às vezes fazemos cenas um ao outro.
Claro, passam ali tanto tempo juntos.
Às vezes um ao outro. E de repente, chegou a vez dele e ele: "Estou muito emocionado, preciso de um momento". E passa a palavra, na altura acho que foi à Sara Correia. E ele a olhar para mim, ele a chorar. Foi emocionante.
Que pontaria, meu Deus!
Fernando, já vamos continuar a falar mais de música. Claro, temos muito para falar sobre música e sobre os teus projetos mais recentes. Mas gostávamos de voltar aqui às tuas origens. Tu vens de Estarreja, em Aveiro. Como é que foi crescer por lá? Como é que foi a tua infância por lá?
Foi uma infância, na medida do possível, feliz. Tive alguns dissabores familiares que me moldaram um bocadinho também, mas a infância, sou daquele tempo, eu não gosto de dizer isto porque depois parece velho e eu só tenho 27 anos, mas eu jogava futebol na rua, andava de bicicleta na rua, fazíamos escondidas na rua, jogávamos às escondidas na rua, brincávamos muito na rua. Nós tínhamos PlayStation, todos, eu e os meus amigos, mas era aquela coisa de só em último caso, e se estiver a malta só está mesmo cansada, a suar, é que vamos lanchar a casa de um amigo ou outro e ficamos a jogar. E ficamos a jogar. E foi uma infância feliz, com alguma rivalidade. Eu cresci numa zona que se chama Póvoa de Cima, então existia a Póvoa de Cima e a Póvoa de Baixo. Então havia duelos de futebol entre a Póvoa de Cima e a Póvoa de Baixo.
Que jogavam na Póvoa do Meio, não é?
Não, a Póvoa de Cima era mais pobre, não tinha campo, então íamos jogar na Póvoa de Baixo. Íamos sempre jogar fora. A infância foi muito feliz. A música aparece também quando comecei a não me identificar, porque fomos crescendo todos e comecei a não me identificar muito com as saídas à noite. Se calhar arriscar com 15, 16 anos, ir até a um café. Aquelas primeiras saídas à noite que achamos que já temos pelo bigode. E não, só estamos ali, tentamos meter um perfume. Também continuo a não sair à noite, mas olho às vezes para algumas crianças e penso: "Bem, pronto, eu já tive aquela fase".
Certo.
Já passámos por isto.
Exato. Que se tentam afirmar. E eu não me identificava muito com isso. Ficava em casa, ouvia música, punha um disco que eu via. As minhas irmãs tinham um walkman e eu ouvia, ouvia um bocadinho de tudo. O meu pai era fã dos ABBA, Queen.
Oh my God, adoro. Todos.
ABBA, Queen. A minha mãe, por exemplo, era fã de Tony Carreira, já é um estilo totalmente diferente. As minhas irmãs, Shakira, Excesso.
Portanto, foste buscar um bocadinho de tudo.
Eu fui buscar sempre um bocadinho de tudo. Céline Dion, eu fui buscar sempre um bocadinho de tudo.
Então mas e quais é que eram os sonhos de um pequenino Fernando Daniel?
Olha...
Jogador de futebol, talvez, não é?
Começamos todos pelo mesmo, é ser o próximo Ronaldo. Hoje em dia os miúdos se calhar já querem ser o próximo Mbappé ou Haaland, não sei.
Chegaste a jogar à bola?
Cheguei a jogar à bola. E houve uma altura, e por acaso, posso dizer que até estava bem de vida futebolística, que era capitão de equipa. Eu estava na altura a jogar e comecei a perceber que eu não estava ali de corpo e alma. Ou seja, o meu corpo estava, mas a minha cabeça estava noutro lugar. E eu não gosto de estar num sítio onde não sinta que estou a dar 100% de mim, ainda para mais quando tenho pessoas que dependem também do meu discernimento e de eu estar a 100%.
Claro.
Não disse nada a ninguém, porque era um clube amador, estávamos a falar do CDE, que é o Clube Desportivo de Estarreja. E na altura eu não comentei nada com o treinador, não disse nada, porque é uma questão amadora, mas cheguei ao final da época e disse: "Olha, não vou continuar mais". Podia ter dito também a meio da época que ia abandonar, porque já era essa a minha ideia, mas decidi continuar, continuei a jogar com os meus amigos, a fazer os nossos jogos, e começo a perceber que nos intervalos, quando havia substituições ou cobranças de faltas, etc, o jogo parava e eu assobiava uma canção ou outra, cantarlava uma ou outra canção sozinho no campo.
A sério?
Já ali estava.
À espera. Às vezes no balneário, a malta punha música, eu cantava por cima, enquanto estávamos a tomar banho. Cenas assim, eu começo a perceber. Acho que a música me transmite mais e chama mais por mim do que aquele que está a fazer o futebol neste momento.
E isso já se notava, portanto, dentro do campo?
Eu acho que sim. O CDE depois dividia duas equipas, na altura dos juvenis, e um dos treinadores da equipa de juvenis nunca foi muito à bola comigo. E eu talvez entenda agora, porque de facto eu era o protótipo daquele tipo de jogador que ele não queria. Eu jogava bem, eu estava tranquilo, servia o campo, servia os jogadores, mas eu demonstrava insegurança para quem me treinava. Ou seja, parece que eu não estava ali. Na verdade, eu não estava. Chegava eu cumpria, chegava o dia eu cumpria.
Mas a cabeça não estava lá.
É tipo aquele aluno que os professores estão lá tal, não estuda, não faz nada e chega aos testes, tira 90, então não sabes como. Era um bocadinho assim. E eu era aquele protótipo de jogador que ele não queria. Então troquei de equipa e nessa equipa depois onde estava a capitão, o treinador tinha outro tipo de mentalidade.
Claro.
E correu bem, mas a música começou a chamar muito mais.
Então é precisamente por isso que vamos pegar na segunda parte. Vamos agora fazer uma pausa para as notícias. Fernando Daniel em 40 minutos esta semana na Rádio Observador. Até já.
Até já
Voltamos à segunda parte com Fernando Daniel. Estamos à conversa esta semana com Fernando Daniel em "40 Minutos" na Rádio Observador. Bem-vindo novamente, Fernando.
Bem-vindos.
Primeira parte falámos da tua carreira no futebol, mas como a música chamou mais alto. Mas vamos continuar em Aveiro, porque tu continuas lá.
Neste momento vivo em Ovar.
Em Ovar.
Onde estou também a implementar os meus estúdios.
Claro que vamos falar disso, é um projeto incrível. Nunca tiveste vontade de vir para a capital?
Eu confesso que há mais entretenimento, há mais coisa a acontecer.
Mais mercado, talvez.
Também é mais mercado, mas também é muito confuso. Eu gosto da minha paz. Eu, se pudesse, eu imagino-me a viver com uma picape, com lenha, com o meu cão, no pinhal, na serra.
Mas nessa zona.
Não é nessa zona, por acaso é o pinhal. Mas estás a imaginar aqueles sítios...
É essa a vibe
Americanos, aquela América, Canadá, aquela coisa ali no meio das montanhas.
Eu acho que, por acaso, o teu estilo e mesmo hoje, a forma como viste-
Mesmo a roupa de hoje está a pedir.
Não, porque por acaso é uma cultura que sempre me chamou a atenção e eu nunca dei muito ouvido. E agora tenho estado a chamar isso um bocadinho mais.
Na tua reforma, se calhar, podes fazer isso. Isso era bom. Bom, mas então vamos à música, não é, André?
Sim, estreaste em 2017 com o single "Espera". Continuas a identificar-te com essa música que já tem alguns anos? Continuas a identificar-te com essas primeiras músicas?
Mais com umas do que com outras. O caso do "Espera" até é uma das músicas com que eu mais me identifico até hoje. É uma música que acho que foi muito bem conseguida em termos de produção e de composição. Na altura, eu e a Carolina estávamos a escrever pela primeira vez, juntos. Eu estava a conhecer a Carolina Deslandes pela primeira vez. E eu comecei a escrever a canção e senti-me meio que bloqueado. Ela chegou ao estúdio e ajudou-me no refrão. Lembro-me de ela me ter dito uma frase, que essa frase mudou um bocadinho a minha forma de pensar relativamente à minha música. Obviamente, é a opinião dela e não quer dizer que tenha de ser a da maioria, mas ela disse uma frase que foi: "Por que tu haverás de sair à rua num Fiat Punto quando tens um Ferrari na garagem?" Ou seja, o que ela quis dizer com isso foi: "Tens uma voz grande dentro de ti". Porque eu estava a cantar muito a medo. E o refrão do "Espera" precisava de uma coisa teática, grandiosa.
Tal energia que mostraste com a Adele.
Exatamente. Eu estava muito acanhado, porque também era a minha primeira vez num estúdio profissional, era diferente, estava a gravar a minha primeira canção. E lembro que isso mudou um bocadinho o meu chip. Hoje em dia, se calhar, também já penso um bocadinho diferente, que é: se calhar, também não vale a pena estar sempre lá em cima a cantar, se calhar as pessoas também se cansam um bocadinho. Então tento mostrar novas vertentes também da minha voz, coisas que consigo fazer sem ir lá para cima e gritar, como diz o comum mortal. E acontece que esta música de que tu falaste, o "Espera", é uma música que continua a vestir muito bem, apesar de ir lá para cima, continua a vestir muito bem o estilo que eu estou a adotar agora, que é aquela referência mais retro, aquela coisa mais country também, que é uma música que podia perfeitamente, se a produção tivesse levado outro rumo, podia perfeitamente ser country. Aquela guitarra marca bastante a música e é uma guitarra que quando as pessoas ouvem nos concertos ou seja, começam logo a gritar e é uma coisa que me marcou e é uma canção que eu continuo. Eu poderia fazer essa canção hoje.
E identifica-se muito também com o tal estilo que estavas a dizer.
Exatamente, aquela coisa mais country.
Até tal filosofia, quase de vida.
Exato, parece que tudo flui mais ou menos. Fernando, nesse mesmo ano, que foi 2017, foste também ao Festival da Canção, o ano em que acabou por vencer a reação, o Salvador Sobral. Participaste com o tema "Poema a Dois", que foi composto pelo Henrique Feist. Desculpa, estavas nervoso por participar?
Não.
Pensa assim, perdeste, mas foi para o Salvador Sobral, que eu penso que-
Não, a minha reação não foi poder pedir, aliás, eu até brinco muitas vezes com isso, que é: eu participei. Eu acho que não desfrutei do Festival da Canção como deveria ter desfrutado. Eu acho que eu estava num grupo de pessoas supercompetitivas, e ainda bem, porque eu também sou uma pessoa supercompetitiva, e sinto que antes daquilo mesmo começar, já se instalou uma certa rivalidade. Eu sinto que não aproveitei aquilo como deveria ter aproveitado.
Não naquele clima de festa, se calhar, mais habitual.
Exatamente. Eu senti-me muito focado. Eu também sempre fui muito focado e passei muito até por antipático nestes programas que eu vim a participar, porque sempre gostei de estar no meu canto a treinar, fazer as minhas coisinhas, porque eu acredito que há comboios que só passam uma vez na vida, então se não os agarrarmos agora, nunca mais os agarramos. Que era o caso do The Voice, neste caso mais concreto. No Festival da Canção, sempre me isolei um bocadinho, sempre tive alguma vergonha também, já tinha lançado uma música, via lá pessoas a participar com nome já no mundo da música. E pronto, era novo, tinha algum receio de me relacionar com as pessoas, então ficava um bocadinho também no meu canto. Sou muito tímido, às vezes estou em sítios com artistas e eu até curto, mas fico no meu cantinho, tipo: "Tudo bem?" Fico espero que ele venha falar comigo, porque eu não sei o que é dizer.
Aquela conversa de café que eu não sei fazer.
Eu sou péssimo nisso. A sério, eu sou péssimo. Depois parece tipo, me vou babar e vou cuspir toda a falar, não, por favor. E no Festival da Canção, como eu estava nesse grupo competitivo, já se instalou, antes mesmo daquilo começar, uma espécie de competição, que no facto acaba por ser uma competição, mas deveria ter sido mais saudável. E eu levei isto um bocadinho para o outro lado também, tendo em conta O cenário que me criaram. Hoje em dia, se me perguntares: "Voltarías a concorrer com esta canção?", não concorria. Acho que na altura concorri por respeito ao Nuno Feist, que é um ótimo compositor, e concorri naquela coisa de "é o Festival da Canção". Acho que toda a gente gostaria de ter isto no currículo, não é? E foi mais pela questão de ter isto no currículo, não foi pela escolha da canção. A canção não me vestia, eu acho que a canção não me vestia. O poema era demasiado pesado, na minha opinião, e eu sinto que foi demasiado para mim na altura. Hoje em dia, acho que também considerava demasiado. Não me revejo naquela atuação. E acho que Deus acabou depois por me castigar, porque no dia em que vamos à final, no Coliseu dos Recreios, que é aqui em Lisboa o Coliseu dos Recreios, certo? Às vezes confundo o Coliseu do Porto com o Coliseu dos Recreios. O Coliseu dos Recreios é cá embaixo. E tive uma gastroenterite.
Ainda por cima.
Estás a ver como é que as coisas são?
No dia da final, eu estava constantemente a ir à casa de banho. Eu lembro-me que fui comprar o fitting ao Cascais Shopping para esta prestação e não comprámos nada que queríamos porque eu estava sempre a correr para a casa de banho. Então eu disse assim: "Olha, o meu tamanho é este, comprem vocês qualquer coisa".
Desencaixou.
Eu lembro-me de ter comido frango grelhado com arroz branco.
Aquela comida mesmo que não pode.
De dieta.
De dieta. Esquece, eu estava mesmo sofrido. Eu estava a ver os meus colegas a cantar e depois não podia sair de cena. Eu estava mesmo a sofrer. Suores frios, eu estava em pânico: "Por favor, que isto acabe. Eu só quero que isto acabe".
Eu estou-me a rir, mas coitadinho.
Que isto acabe.
Pronto, já passou. Foi uma experience que já passou. Um ano depois, em 2018, lançaste um álbum, não foi? Se não me engano.
"O Salto", exatamente.
"O Salto". Entraste para o top de álbuns nacionais logo nesse ano com "O Salto". Tinhas 21, 22 anos na altura, acho que ainda nem tinha feito os 22, não é?
Exato.
Como é que lidaste com este reconhecimento todo? Porque tu tinhas lançado em 2017 o teu primeiro single, depois 2018 o teu primeiro álbum, que vai logo assim para os tops.
Olha, aconteceu uma coisa extraordinária. Já tinha vindo da tal "Prova Cega", que estava a ficar viral e já tinha viralizado no mundo inteiro. Lanço "Espera", que nesse ano, em 2017, foi a música portuguesa mais ouvida nas rádios nacionais. Eu tinha 20 ainda na altura e depois lanço "O Salto" numa de: "Será que isto vai correr bem?"
Dar o salto.
E não é isso. A ideia foi mesmo essa, o nome do disco foi mesmo por esse sentido. Só que depois pensei: "Bem, eu daqui fui para aqui, daqui fui para aqui. E se agora eu caio?" Estás a perceber?
Subiste tanto, tão rápido.
Esse salto, que é suposto ser um salto, é uma descida.
Uma grande queda.
Sem fim. Tinha algum receio. Entretanto, aquilo começa a correr super bem. Aquilo saiu à meia-noite, normalmente os discos saem à meia-noite de sexta-feira, e depois já estava 00h02, 00h03 no primeiro lugar da Apple Music. Foi assim uma coisa surreal. Eu estava no hotel com a minha banda, porque íamos fazer a estreia de uma música na rádio também. E eu estava tipo: "Bem, olhem, malta, olhem isto aqui, não sei o quê".
A fazer refresh.
Sempre a fazer refresh. E eu sinto que desde esse dia eu nunca consegui saborear, respondendo à tua pergunta, eu nunca consegui saborear os sucessos, porque eu estava tão preocupado em não baixar, que estava sempre a fazer por mais e mais e mais. Então acabei por nunca me sentar e dizer: " Olha, foi assim, senhor".
Podes fazer isso agora.
Eu tenho feito. Desde dezembro, eu decidi abrandar, inclusive fiz um comunicado nas minhas redes para todas as pessoas que me seguiam, a dizer que ia abrandar um bocadinho para desfrutar de tudo isto, porque eu não estava a desfrutar. Foram seis anos a tocar todos os anos. Comecei logo o primeiro ano com 80 concertos, o segundo com 75. Muita coisa a acontecer. Depois veio o Covid.
Entraste mesmo a matar.
Veio o Covid, eu como morava no Ovar, no cerco sanitário, como não podíamos sair, não podíamos fazer nada, então fiquei a produzir músicas. Foram seis anos assim, sempre a trabalhar na música, desde acústicos, depois a escrever para outros, depois de voice e tudo mais, gravar videoclipes e nunca desfrutei, de facto, na verdade, de tudo aquilo que eu tinha conquistado.
Desfrutou do teu trabalho, não é?
E então comecei a fazer o meu estúdio e também tudo assim um bocadinho, tudo em cima umas coisas das outras. E cheguei ali a dezembro e disse: "Bem, eu tenho mais um disco para lançar", que é o "E.G.S." volume dois, "mas eu não estou preparado, porque eu ainda não saborei. Estou a fazer músicas à pressa, porque não quero que o sucesso acabe". É um bocado contraditório. Às vezes é preciso pôr um bocadinho de água na fervura, confiar em nós.
E descanso. Consegues descansar no meio disso tudo?
Não se nota que não. Eu sou uma pessoa que custa-me muito a adormecer. Eu sou uma pessoa que estou sempre a pensar.
Percebo, perfeitamente.
Eu deito-me na cama e agora com a Matilde, ela já começou a dormir bem outra vez. Houve uma altura que, por causa dos dentes, não foi muito fácil. Mas até aí, quando ela dormia mal, eu aproveitava para pensar. Ou seja, porque eu vou ter que acordar e vou daqui a uma hora, 50 minutos, eu e a Sara vamos ter que acordar e vamos, portanto nem vou adormecer, porque senão é pior. Porque a pessoa cai no sono e depois acorda assim meia, agora o leite, agora isto e não sei o quê. E nunca durmo bem. Eu não exagero quando te digo que se calhar deito-me, às vezes. Se me deitar, por exemplo, à meia-noite, para ser um número redondo, eu só consigo adormecer às 02h00. Estou ali duas horas.
Pior do que eu, eu demoro a adormecer, mas não é pior.
Estou ali duas horas. E, por exemplo, foi o caso da noite passada. Eu deitei-me, era cerca de 00h30 e tinha que acordar às 06h30 para vir para aqui e eram 03h00 e eu ainda estava acordado. Eu penso: "Vou dormir 03h30".
Meu Deus!
O que é que...
E esse momento, portanto, de paragem, que até disseste aos teus fãs, é também o momento para descansar, para parares um bocadinho também, acredito, de toda esta Essa vida alucinante que deve ser redes sociais com muitos fãs sempre a querer também contactar contigo, muita coisa a acontecer.
Eles querem saber o que eu faço. Depois crias aqui uma porta que nunca mais podes fechar. Atenção que eu não estou a dizer isto de forma pejorativa. Eu gosto de comunicar com os meus fãs e sinto que é uma parte fundamental da comunicação que deve existir entre um artista e um fã. Só que lá está, há coisas que como eu não saboreei, eu muitas das vezes nestas horas que eu fico à noite acordado é ver vídeos meus de concertos de: "Ok, olha, já não me lembrava que nesse concerto tinha tido tanta gente". Porque aconteceu tanto e eu disse: "Olha, o que eu fiz aqui de mal? Ok, para a próxima já sei que não posso fazer isto". Começo aqui a avaliar coisas.
Estás num ritmo tão alucinante.
E eu quis fazer esta pausa por isso mesmo que foi: "Espera lá, eu estou a lançar músicas", isto vai um bocadinho buscar aquilo que disseste há pouco, que foi: já lancei músicas com as quais eu hoje não me identifico. Ok que isso vai acontecer, porque eu com 20 anos escrevo de uma forma, daqui a 10 anos vou escrever de outra. Isso é normal, há que ter essa consciência. Só que aquilo que eu vou lançar vai ficar para sempre. Mesmo que não exista um Spotify, há de existir algures.
Alguém que guardou a música.
Alguém que guardou ou uma nova rede social, ou uma nova plataforma de streaming que vai fazer uploads do Spotify, etc. Ou seja, os meus netos vão ouvir as minhas músicas e eu fiquei a pensar, eu às vezes não paro para pensar se quero mandar isto cá para fora. Eu vou mandar isto cá para fora porque o público quer, eu ando aqui aflito porque quero continuar a ter sucesso, não quero que as pessoas esqueçam de mim, quero continuar a subir, não quero parar, não quero descer. E de repente senti que estava a por coisas cá para fora meio que tipo uma fábrica. Olha, música, sai. Música, sai. Música, sai. E não, acho que foi preciso parar e era uma coisa que eu tinha muito medo, e o meu psicológico ficou um bocadinho afetado nesse aspeto, que foi ter medo de parar em pleno sucesso. Às vezes as coisas estão a correr bem e as pessoas por norma têm medo de parar porque têm receio de que o sucesso não volte. Tive mesmo que pôr ali uma água na fervura em dezembro, vem o Natal, deixa-me concentrar na minha família, vem a virada do ano. Há uma coisa que tem que mudar, que é esta pressão que eu coloco em cima de mim e é este medo que eu tenho de ser esquecido, este medo que eu tenho de que as pessoas parem de consumir a minha música.
Mas tens mesmo esse medo de ser esquecido?
Tenho, tenho medo de ser esquecido. Imagina, eu venho de uma realidade bastante diferente da realidade que eu tenho agora. Eu sei o que é não ter rigorosamente nada e hoje em dia não ter problemas em comprar seja o que for. Ou seja, são realidades completamente diferentes. E mais do que o dinheiro, é a solidez que a música me dá enquanto pessoa. Eu era uma pessoa muito mais insegura se eu não tivesse a música e agora com música eu sou uma pessoa muito mais segura, mas ao mesmo tempo a música torna-me inseguro porque eu tenho medo que as pessoas me esqueçam.
Isso é muito interessante.
Há aqui uma dualidade de coisas aqui na minha cabeça e eu senti que tinha mesmo que parar, porque lá está, eu quero lançar as músicas que daqui a uns anos eu até posso não me identificar com a forma de escrever.
Mas sabes que saíram do lugar certo.
Exatamente, é mesmo isso. E eu sinto que havia músicas que não estavam a sair do lugar certo e eu não quero dar ao meu público sempre arroz. E foi isso que eu lhes disse: "Eu não quero que vocês estejam sempre a consumir exatamente a mesma coisa". Eu consigo fazer coisas diferentes. Sou agradecido a Deus por conseguir fazer coisas diferentes, tenho talento para fazer coisas diferentes. Por que eu vou estar sempre a entregar a mesma coisa, o mesmo formato? Vamos abrandar um bocadinho.
De certeza consegues fazer coisas diferentes também tendo em conta que criaste um estúdio e uma escola de música em Ovar. Foi também o realizar de um sonho para ti?
Nunca foi meu sonho criar uma escola. Eu vejo muitos documentários de outros artistas e o último que eu vi, inclusive, foi do Justin Bieber, que tem um estúdio próprio. Estamos a falar em LA, não é no Furador. Se bem que no Furador ali de verão, aquilo quase que parece LA. Tem umas palmeiras, uma avenida grande, pessoas de patins, de skate e tudo. Quase que parece. Assim com a luz certa e à hora certa. Não, mas eu pensei bem. Eu gostava de ter o meu estúdio. Isto por quê? Eu sempre fui a favor da descentralização.
Isso nota-se.
Portugal não tem que ser Lisboa e Porto. Há muito mais talento, há muitas mais coisas para descobrir, há muito mais oferta pelo país. E eu agora posso estar do lado em que mexe com isto também, que descentraliza um bocadinho. Então, deixa-me fazer os meus estúdios em que vou primeiramente me servir a mim e depois vou servir outros artistas que queiram produzir nos meus estúdios, compor comigo, que querem que eu escreva músicas para eles. Assim não tenho de me deslocar tantas vezes a Lisboa. Posso levar pessoas de Lisboa que se calhar dificilmente por outra razão iriam a Ovar. Percebes? Então dou a conhecer a minha cidade onde eu moro, dou a conhecer as minhas pessoas, quando digo as minhas pessoas, as pessoas da zona do Furador, que é onde eu vivo, os restaurantes, a praia, a floresta, a serra, ou seja, dar ali um bocadinho a ria.
A tua realidade.
A minha realidade. E depois começo a pensar: bem, os estúdios têm 800 m². Eu pensei: isto não faz sentido eu estar a levantar um projeto tão grande e de repente só me servir a mim e porque não servir os outros de outra forma? Ou seja, já ia servir os outros, mas de uma forma em que encaixava dinheiro. Se alguém for alugar o estúdio, obviamente que paga, se for produzir, obviamente que dá direitos, essas coisas todas.
Isso é uma forma de mover também a parte económica daquela zona.
Sim, e do próprio estúdio. Mas eu pensei: por que não, tenho músicos que sabem tocar, que podem perfeitamente ensinar e que dão aulas. Por que não abrir uma escola e ajudar miúdos a aprender música? Porque na minha altura, quando eu quis aprender música, os meus pais não tinham possibilidades para me pôr numa escola de música. Não foi por isso que eu deixei de ser artista ou de dar cantor.
É por isso que até numa entrevista disseste que não se deve perder um possível grande músico por não haver dinheiro em casa.
Exatamente. E acho que eu conseguindo dar esse lado do dinheiro, ou seja, facultar instrumentos, que são caros, facultar aulas, que são caras A crianças e adultos. Por que não? Acho que não me custa nada, tenho o espaço, tenho as ferramentas todas para que isso possa acontecer. Bora fazer então. Decidi com a minha equipa do estúdio abrirmos 10 bolsas que vão estar sujeitas a candidaturas e audições. E dessas 10 bolsas, totalmente gratuitas, para qualquer idade, vão ter a oportunidade de ter um ano de ensinamento, ou seja, são bolsas que vão transitando de ano para ano. Ou seja, o João está a aprender.
Se ele entrar no primeiro ano, a bolsa dá depois para o segundo, para o terceiro?
Ou seja, ele entra no primeiro ano e porta-se muito bem, está a haver melhorias, mas ainda está longe de ser um artista. Ou longe de ser um músico, porque atenção, nem toda a gente que vai para lá vai sair de lá artista.
Claro.
Não pode ir para lá com esses pensamentos.
É uma promessa que ninguém pode fazer.
Exatamente. Mas pelo menos esforça-se. Então a bolsa vai transitar. Mas de repente o Zé tem a bolsa e se calhar até tem mais dificuldades de aprendizagem que o João e em vez de se esforçar mais, até se desleixa mais, se calhar não vai tantas vezes como era suposto. Olha, Zé, vamos te, entre aspas, educar musicalmente até ao final do ano. Entretanto, vais perder esta bolsa, vamos abrir mais uma nova candidatura para alguém que realmente queira aprender.
Sim, claro que sim.
Possa aprender. Depois temos o preçário, que para além da questão das bolsas de oferta, a parte solidária/social, entra aqui também a questão dos escalões, que é tentar, juntamente com as crianças e os pais, perceber qual é o escalão que as crianças têm na escola e, por exemplo, um escalão A paga um terço das aulas, neste caso.
Sim, ajustar consoante o rendimento das famílias.
Exatamente, ajustar consoante o rendimento das famílias para que a música esteja ao alcance de todos. Eu acho que senão se deve tabelar. Vamos tabelar por 20 euros, mas 20 euros para ti pode ser justo, mas para ela pode ser injusto. E até para mim pode ser um cêntimo. Estamos a falar de preços iguais para pessoas diferentes, não quer dizer que seja igualdade.
Claro.
Porque depois acaba por não haver uma igualdade de apoio. E é isso que eu queria acima de tudo.
É uma ótima iniciativa, sem dúvida. Olha Fernando, para fechar, temos de falar do teu single mais recente, chama-se "Dois". Queres falar-nos um bocadinho desse tema? Eu acho que vai muito de encontro ao que tu disseste ainda há bocado do género, não tenho que estar sempre a berrar, entre aspas.
Exato.
Sei fazer outras coisas. Porque é mesmo isso, é um registo muito slow.
Muito slow, muito mais calmo.
E é ótimo também.
Eu na altura pensei: "Bem, acho que chega um bocadinho por agora". Eu gosto muito de cantar e de notas, porque se é uma ferramenta que eu tenho que nem sempre existe, sendo homem, acho que deve ser o meu ponto forte, mas não devo explorar isso para que isso se torne um ponto fraco. Ou seja, vamos cantar um bocadinho agora mais tranquilos, passar a mensagem que às vezes também é importante. Se a música for boa, estejas a cantar em Lá, estejas a cantar em Dó, estejas a cantar em Mi, isso não importa.
Em voz de cabeça, em voz de peito, o que seja.
E falsete, o que seja. A música se for boa, as pessoas vão gostar. E aqui a ideia foi ter boas composições, ter boas músicas. O "Dois" começa por ser uma música autobiográfica, em que eu me relembrei da altura em que eu comecei a arrastar a asa à minha atual noiva. Na altura, ela não estava muito para aí virada, ela ainda não sabia se era um relacionamento que queria, pediu um espaço. E então, aquela coisa de esse espaço que tu pedes, não nos conhece a nós os dois. Ou seja, dá a ideia de que esse espaço que tu me pediste, ele não faz ideia do quanto eu gosto de ti e do quanto tu gostas de mim.
Que ângulo tão...
Sim.
Então tentei recriar aqui um bocadinho a história, e obviamente o resto da história escrevi-a de forma generalista, digamos assim, para que as pessoas se possam identificar.
Foste buscar um bocadinho da tua experiência.
Partiste para o público.
Exato, para que as pessoas se possam identificar, porque se de repente, eu pelo menos, tenho esse cuidado. Se fores demasiado específica a escrever uma canção, a canção é demasiado tua e não é isso que tu queres. A não ser que faças um disco totalmente autobiográfico, e acho que faz todo o sentido, mas tu queres que as pessoas também se revejam na canção.
Claro que sim.
Portanto, convém deixar o imaginário do público em aberto.
Claro que sim. Olha, portanto para 2024 podemos esperar muitos concertos para ouvir este "Dois" por Portugal fora.
Em 2024, nós neste momento estamos com cerca de 35 a 40 concertos. 2024 é este ano, não é?
2024.
2024 é este ano.
2024 já faz muito tempo.
Nós estávamos neste momento em segundo lugar e ficámos em segundo lugar no "Euromilhões".
Não vamos lembrar isso.
Não, não vamos. Nós estamos neste momento, eu e minha equipa estamos a marcar concertos, ainda, mas temos essencialmente entre 35 a 40 datas marcadas já para este ano. Estamos a falar até setembro, de maio a setembro. E o que vai acontecer depois é que vou-me retirar um mês para preparar uma tour acústica e vou tentar fazer uma espécie de... porque este disco é muito mais low, muito mais tranquilo, é muito mais soft e tem espaço nos auditórios do nosso país. E tentar criar aqui um conceito diferente.
Mais intimista, quase.
Mais intimista e tentar, sei lá, até mesmo fazer auditórios um bocadinho pela Europa fora.
Ora bem.
Olha, estou muito ansiosa para as novidades todas.
Fica a proposta para os portugueses espalhados pelo mundo.
Claro que sim.
Acho que poderia ser bom, não só para portugueses, porque depois, se lá está, se isso vier a acontecer, vou tentar pôr uma ou duas ou três músicas em inglês, sejam minhas, não editadas, ou sejam covers.
Se calhar agora vai buscar a Adele para cantar o "When We Were Young".
Olha!
Olha Fernando, não temos mais tempo, mas gostava muito de agradecer por teres estado aqui conosco 40 Minutos desta semana. Nós voltamos para a semana, pode sempre também ouvir-nos em podcast. Fernando Daniel no "40 Minutos". Obrigada mais uma vez.
Obrigado. Até para a semana.
Até para a semana.