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Acho que a sociedade mudou um pouco. Acho que nos tornamos, enquanto sociedade, um pouco menos permissivos. Há 20 anos atrás, quando eu comecei, ou há 25, 28, nós podíamos dizer mais. As pessoas não levavam tanto a mal e entendiam que aquilo é humor, é brincadeira, nós estamos a gozar, estamos a brincar. E entretanto isso foi mudando e cada vez podemos dizer menos. Mas isso é uma coisa que aconteceu a todos enquanto sociedade. Naqueles tempos diziam-se mais coisas, nós estávamos mais à vontade para dizer algumas coisas. Eu acho que faz parte. Acho que vamos evoluir nisso também e acho que nos vamos tornar uma sociedade mais permissiva e com capacidade para se rir de si própria, porque eu acho que o português sempre teve essa capacidade.

Conhece bem a pressão de corresponder. Sabe o que é ser o engraçado da sala e o risco de ficar preso a essa versão. Estamos habituados à gargalhada, à energia, ao improviso rápido, mas quase nunca pensamos no que acontece quando a luz se apaga. Ele fez carreira a provocar riso, mas o riso também pode ser escudo, armadura, uma maneira de não mostrar o que dói. Durante anos viveu à altura de expectativa constante de boa disposição, intensidade e disponibilidade, e tudo isso tem um custo. Hoje talvez esteja numa fase diferente. Menos urgência, mais consciência, menos necessidade de provar, mais vontade de escolher. E durante os próximos 40 minutos vamos tentar perceber se o silêncio ainda o assusta e se há fragilidades que nunca se transformam em piada. João Paulo Rodrigues, muito bem-vindo aqui à Rádio Observador.

Muito obrigado, muito obrigado. Muito gosto. Gosto muito.

Três Joões, não há como enganar hoje. Portanto, na dúvida-

Ninguém se engana hoje.

Tem tudo pra correr mal. Bem. Bem. Bem ou mal. Não sabemos.

Depende. Às vezes correr mal, até é correr bem.

É? És uma pessoa dada ao desastre ou não?

Não. Não sou muito fatalista. Não sou.

Gostas de ter tudo muito planeado ou nem por isso?

Não. Eu também não sou o tipo de planear muito. Na minha vida as coisas foram sempre fluindo e eu fui sempre aproveitando as oportunidades que iam surgindo. Aliás, se eu fosse planear, eu não fazia nada disto. Eu era advogado ou juiz, faria outra coisa qualquer que não isto. E portanto, eu fui aproveitando aquilo que me ia aparecendo à frente e ou estava preparado ou não estava preparado. E trouxe-me até aqui. Foi mesmo uma questão de não planear.

Olha, e vamos começar precisamente por aí. Fazes música, humor, programas de televisão, sabes pilotar aviões, vais começar em breve, pelo que sei, um curso de História. O de Direito, como é que isso está?

O Direito está torto. O Direito está muito torto.

Ficaste em que ano?

No último.

Ainda por cima. Foi mesmo morrer na praia.

Eu fiz a faculdade em duas fases. A primeira ficou congelada quando eu comecei a fazer televisão e rádio. Comecei a fazer rádio e depois passado um ou dois anos passei pra televisão e deixei de ter tempo pra estar na faculdade.

Faculdade no Porto.

No Porto. Eu estudei Direito na Católica, no Porto. E depois, aproveitei a oportunidade que a vida me estava a dar, que era a rádio e depois a televisão. Agora vou investir nisso, porque é uma coisa especial, é uma coisa que não acontece todos os dias, portanto deixa-me aproveitar. Quando achei que podia voltar e que já estava mais estável para voltar pra faculdade, voltei, mas também foi sol de pouca dura, porque depois outras oportunidades foram surgindo na televisão. Foi na altura de atuar no "Mestre Anha" também. E depois fui convidado pra apresentar. Alguém meteu na cabeça que eu ia dar bom apresentador. Eu disse que estavam malucos da cabeça, mas aproveitei essa oportunidade e, portanto, a faculdade ficou um bocadinho por ali. Fiquei no último ano. Faltam-me umas cinco ou seis cadeiras, uma coisa assim.

Então vá, acaba lá isso. Sê um exemplo pras gerações.

Sim, mas é uma coisa que está nos meus planos, até pra mostrar um bocadinho às minhas filhas que a gente pode até não fazer logo, mas fechar as gavetas é importante. E eu fui pra Direito por paixão, porque adorava aquilo e adoro o meu curso.

Alguma influência de alguém mais próximo de ti ou nem por isso?

Não, ninguém. O meu avô materno, quando eu tinha seis, sete anos, perguntou-me o que eu queria ser quando crescesse. Eu disse que queria ser advogado. E eu não fazia a mínima ideia do que aquilo significava. Mas segui isso. Não fiquei pelo caminho, falta-me muito pouco pra terminar. E um dia termino, mas já há outros cursos que eu já estou a fazer.

Pois, o João estava a dizer que tu estás inscrito em História, é isso?

Não. Eu sou piloto de aviões e agora estou a fazer outra vez a teoria para o curso comercial de piloto de aviões. Agora estou nisso, portanto, tempo para outras coisas não tenho. O curso de História também é uma das minhas grandes paixões. Ávido leitor de história, eu quero saber tudo. Eu sou aquele amigo que quando vamos em grupo a qualquer sítio: "Olha, sabes que aqui, foi precisamente aqui", como dizia o Germano Saraiva. Eu sou completamente apaixonado por história e é uma coisa que eu quero fazer quando terminar este. Agora vou terminar este.

Portanto, num grupo de amigos, quando se joga Trivial Pursuit, toda a gente quer ter o João Paulo Rodrigues na sua equipa. É isso?

Já não jogo há muito tempo. Eu agora é mais Cartas contra Tomates.

Como é? Isso é o quê?

Não conheces?

Não.

É aquele jogo que é Cards Against Humanity.

Já sei.

Mas é a versão portuguesa. Eu agora estou mais nisso. Agora é coisas mais simples.

Isso existe já em português?

Existe. Muito bom.

Sabes que isto é muito interessante, porque aqui há muito pouco tempo o Fernando Rocha também veio aqui ao "Em 40 Minutos" e uma das revelações que ele fez é que também é um ávido e gosta muito de história. Portanto, é até interessante dois humoristas terem aqui algo que vos liga, não é?

Olha, eu não sabia. Desconhecia isso do Rocha.

E ele também fez quase a mesma descrição que tu e que muitas vezes os amigos ligavam para pedir indicações sobre coisas.

Eu acho que vimos todos ali um bocadinho da mesma fornada. Eu conheço o Rocha há 20 e muitos anos. O Rocha, eu e o Pedro fomos o início desta nova, vá, já não somos novos, mas desta geração de comédia e stand-up. Fomos o início desta nova fase.

E uma base também para esta que se está a formar?

Sim, eu acho que sim. O Rocha, eu e o Pedro, enquanto dupla, começamos mais ou menos na mesma altura. Eu lembro-me do Rocha na altura quando ele se tornou o fenómeno que se tornou, e somos amigos desde essa altura. Nós fomos sempre crescendo na carreira enquanto humoristas todos juntos. E temos mesmo um grupo de amigos humoristas, o Fernando Rocha, o Pedro Alves, o Hugo Sousa, o Miguel Sete Estacas, essa malta toda lá de cima do Porto. Temos um grupo de amigos. O Pedro até costuma juntar a malta dele na casa dele.

Há uma espécie de complô humorístico nortenho?

Eu acho que é mais uma irmandade. Não acho que seja um complô, acho que é mais uma irmandade de pessoas que começaram mais ou menos na mesma altura. E nós não tínhamos aquela coisa de: "Epá, eu sou melhor que ele ou ele é melhor que eu".

Eu ia perguntar isso. Se calhar não temos muito essa visão, mas a competição no humor, se ela existe de alguma forma ou se tu já a sentiste também.

Eu admito que ela possa existir, mas com este grupo com o qual eu cresci na comédia, que são meus amigos há mais de 20 anos, nós nunca sentimos isso. Tanto que fazemos muitos espetáculos juntos. O Fernando Rocha gosta de juntar os amigos na comédia e fazer espetáculos juntos e irmos para todo lado, fora do país, em Portugal. Este grupo nunca sentiu muito isto, acho eu. E somos mesmo amigos, somos todos amigos.

Estás a estudar então para ser piloto comercial.

Verdade.

Isso quer dizer que tu vais revolucionar as mensagens dos pilotos nos aviões comerciais. "Hello, this is João Paulo Rodrigues, your captain".

Exatamente.

Vai ser programa de televisão no ar. Vai revolucionar a televisão portuguesa.

Eu acho que a malta quando perceber que eu é que-

És tu que estás a pilotar.

Eu acho que eles pedem para sair. Não, estou a brincar. Eu adoro aviação, sou completamente apaixonado pela aviação.

Mas qual é a ideia? É deixar a televisão?

Não, nunca na vida.

Ou é ter uma carreira paralela como piloto de aviação?

É ter mais uma coisa. Eu faço várias coisas e sempre fiz.

És o homem dos sete instrumentos.

Eu acho que sim.

Mais do que sete, se calhar.

E não tem mal. Isto aconteceu que numa fase da "A Tua Cara Não Me é Estranha" e depois quando me convidaram pra apresentar programas, as pessoas comentavam muito, na altura nos Facebooks e não sei o quê, diziam: "Mas este tipo agora é humorista, agora aparece a cantar, agora apresenta. Mas ele tem que decidir aquilo que vai fazer". Isso sempre me incomodou, porque eu acho que sou uma pessoa que não gosto de ser fechado numa gaveta só. É só humorista ou é só ator e é só aquilo que podes fazer para o resto da tua vida. Eu gosto de fazer várias coisas e acho que as faço mais ou menos bem. E por isso, por que eu não hei de fazer a todas? E eu digo sempre que eu tenho uma equação que define a minha felicidade. E todas estas coisas que eu faço, ser ator, ser apresentador, ser comediante, ser piloto, fazem parte dessa equação da minha felicidade. E se falhar alguma destas variáveis, eu não consigo ser feliz. Portanto, são coisas que eu quero fazer. E por que não hei de fazer? Eu não sei se venho cá outra vez.

O facto de seres poliinstrumentista, sentes que isso te tem prejudicado ou te tem beneficiado?

Não. Eu acho que tenho sido sempre muito bem aceito.

Não beneficia ou não prejudica?

Não, eu acho que não me tem prejudicado em nada. Mas eu também forço. Eu podia até vacilar e sentir-me um bocadinho embaixo, porque as pessoas não aceitam que eu agora cante, por exemplo, mas o que é facto é que as pessoas têm aceitado bem isso e vão aos concertos e querem ir e consomem as músicas e querem saber e comentam, dizem que gostam. Obviamente, há sempre aqueles comentários daquela malta que está mais ressabiada por alguma razão. Mas overall é uma coisa que comigo sempre correu muito bem. As pessoas aceitam as várias coisas que eu faço e eu fico muito feliz por isso e pra mim é sinal que é pra continuar.

Tu falaste aí da "A Tua Cara Não Me É Estranha", é um programa de talentos que na altura te deu muito a conhecer ao país e também na vertente mais musical e também enquanto ator, porque aquilo, no fundo, também era uma performance.

Era.

E vocês interpretavam personagens. Todas as semanas tinham um cantor para interpretar. Quando fazes depois essa transição enquanto apresentador para a televisão, sentiste que as pessoas não te levavam a sério quando vestias esse fato, entre aspas? Pela questão do humor e de seres muito associado ainda a isso.

Senti um bocado. Quando eu deixei de ser só o Quim Roscas ou o Quim de Corral de Moedas, senti um bocado isso. Senti que as pessoas ficaram: "Então, mas este tipo agora canta?" Desculpa, é que as pessoas ligam.

Faz parte. Não te largam.

Senti um bocado isso, senti um bocado que: "Este tipo agora canta, mas pera lá". Mas eu acho que também beneficiei disso, porque as pessoas não sabiam que eu cantava, e isso também ajudou àquela Bora lá ouvir, bora lá ver se ele se espalha. E correu muito bem. Eu digo sempre que a minha carreira mudou literalmente da noite pro dia, porque o programa era em direto, na minha altura, quando foi feito, passamos os dois milhões de pessoas a ver, foi um fenômeno. E como eu ganhei logo a primeira gala, foi uma coisa que as pessoas ficaram tipo-

As pessoas não esperavam, se calhar

Tipo fenômeno.

Porque se calhar também não te levavam, e não leves a mal isto, mas se calhar não te levavam muito a sério. Associavam sempre a uma vertente mais leve e ligeira, não é?

Sempre. Era o Quim Roscas, era o Quim de Curral de Moedas, que as pessoas gostavam. O nosso projeto do Tele Rural foi um sucesso desde o primeiro programa, foi um sucesso, foi também uma coisa que foi um fenômeno e as pessoas associavam-me àquilo e eu estava naquela gaveta. E agora apareço a cantar num programa e ganho. Mas eu acho que é engraça também.

Achas que faria sentido hoje em dia aqueles dois bonecos na televisão portuguesa?

Eu acho que faz todo sentido.

Faz?

Eu acho que faz todo sentido, porque as mensagens continuam muito atuais.

Mas mais refinado.

Eu acho que a comédia do Curral de Moedas e do Tele Rural é um humor muito refinado, tem várias camadas de entendimento. Tens logo aquele primeiro impacto dos tipos de monocelha, com as caras muito coradas do tinto.

Mas é um Portugal que ainda existe, João Paulo?

Eu não sei se ainda existe. Mas acho que de alguma forma as pessoas se identificam, porque têm sempre um avô ou um tio que vive numa aldeia, que vive em qualquer sítio. Não acho que seja ofensivo, porque não é, porque nós nunca gozamos com nada. Nós brincávamos conosco, nós brincávamos com as personagens de uma aldeia que era completamente inventada, não existia ninguém. E nós nunca irritamos ninguém, apesar de termos tido direito a dois programas do provedor, na altura. Mas não irritávamos ninguém diretamente e por isso também caímos em graça. E o humor é um humor muito inteligente. Eu ainda ontem estava com um professor de concertina, porque agora apresento um programa ao domingo de desgarradas, eu vou ter que aprender a tocar concertina pro programa. E ele sabia os textos todos ainda do Tele Rural. E depois acontece uma coisa muito engraçada. A malta mais nova, miúdos com 12, 13, 15 anos, consomem o Tele Rural que está disponível em vários sítios, na RTP Memória, no YouTube, e continua um humor muito atual, porque eu acho que é intemporal, aquilo não está preso a nenhuma época. E quem sabe, pode ser que eles até voltem outra vez.

Estamos numa era de muita nostalgia e trazer formatos que já resultaram no passado, agora para o presente.

Nós fizemos dois filmes do universo Curral de Moedas e acho que está no top cinco dos dois filmes portugueses mais vistos sempre, porque as pessoas gostam daquilo, as pessoas divertem-se com aquilo, é um humor simples, mas também complexo. Se nós estivermos atentos, há ali coisas mesmo muito inteligentes e muito mais profundas.

Idealizar aquilo, fazer todo o brainstorming para tornar aquilo real. Em trabalho, como é que se também materializa o processo criativo?

Olha, o processo criativo, nós tivemos a sorte de bater de frente com dois dos melhores argumentistas da atualidade, que é o Henrique Dias e é o Frederico Pombares. Eles são dois gênios a escrever comédia. E nós tivemos muita liberdade de criar as nossas personagens. "Olha, eu quero uma monocelha, eu quero um risco ao meio, eu quero vestir estas roupas assim". E tivemos sempre muita liberdade da parte deles para nós criarmos também. E isto é uma simbiose entre os quatro que resultou nesta estupidez saudável que é Curral de Moedas. E por isso eu acho que foi uma coisa muito natural, nós não forçamos nada. É pra falar assim, vamos falar assim, não tem problema nenhum. E acho que foi uma coisa que foi tão natural, tão fluida e tão nossa, que como não houve esforço nenhum, as pessoas notam isso. E ainda hoje, há personagens que foram criadas nessa altura, como o Cândido Faísca. Tu tens clubes de fãs do Cândido Faísca, que mandam fazer colares e tudo, e T-shirts.

Manténs muito atual ainda.

É muito bom.

É uma legião. Olha, vamos só fazer aqui uma curta pausa para as notícias. Voltamos já a seguir e vamos falar do teu espetáculo, que está quase aí, sexta-feira 13. Já vamos falar também e perceber se eres supersticioso ou não. É já a seguir na segunda parte do "Em 40 Minutos", esta semana com o João Paulo Rodrigues. Até já. De regresso para a segunda parte do "Em 40 Minutos", esta semana estamos com o João Paulo Rodrigues, que João Miguel Santos, tem um espetáculo, está aqui se calhar nos últimos preparativos, dia 13. É já na próxima sexta-feira 13.

É na Aula Magna, não é, João Paulo?

Aula Magna.

Que espetáculo é este? Conta tudo.

É um espetáculo onde eu estou

Lá está, é outro dos meus devaneios. Agora quero cantar.

Mas vais pilotar aviões, pois não? Na Aula Magna.

Não dá.

Não vamos sair daqui nem desferar o vídeo.

Não, é que aquilo para aterrar é complicado.

Para quem quiser saber o porquê de eu ter perguntado se o João Paulo vai pilotar aviões, tem que ouvir a primeira parte.

Exato. O concerto da Aula Magna vou juntar amigos a assistir e no palco também, a cantar comigo, com a minha banda, onde vou cantar temas que as pessoas já conhecem, meus, de há muitos anos, temas novos que eu ainda não editei, mas que vou editar. Vão ser duas horas de boa música com convidados e eu não posso dizer os convidados.

A Rita Guerra vai lá estar?

A Rita Guerra

Não. Sim.

Não te vou dizer que sim, porque vai. Ela vai lá estar.

Deixa-me só uma música. Diz.

Mas vai lá estar a assistir. Mas nunca se sabe.

Vocês têm uma célebre música muito tocada que muitos portugueses adoram, chama-se "Por Mim".

Sim. Foi uma música que já está a testar para aí nos 15 milhões de views no YouTube. Foi uma música que foi produzida pelo filho dela, que é o Diogo Guerra, que é o meu produtor também, que está a produzir os meus temas também. Eu estive com a Rita num programa da Sic, que era a Máscara. Nós estávamos escondidos dentro de umas máscaras. Ela já sabia que era eu, mas eu não sabia que era ela que estava na máscara do corvo. Ela ganhou.

Porque vocês não sabem quem é que está em cada uma.

Não sabíamos. Nós estávamos completamente isolados uns dos outros. Quando íamos para os ensaios era com umas máscaras pretas e depois na gala estávamos com as máscaras dos nossos animais. Havia animais, havia frutas, havia coisas esquisitas. E ela sabia que era eu. E então ela falou com o filho e disse que queria que eu participasse de um tema com ela. E eu disse logo, obviamente que sim. Cantar com a Rita Guerra, que é uma voz que eu adoro e uma pessoa que eu adoro. E foi uma coisa gira, foi uma parceria muito gira e que resultou.

Uma canção romântica, que aliás é o teu forte, não é?

É.

Gostas de sentir coisas, provocar reações, coisas românticas nas pessoas.

Eu acho que cada um de nós cai para um lado. E eu caio mais para a parte do amor, de escrever sobre o amor, seja o amor feliz, seja o amor não correspondido, seja pela dor.

É muito camoniano isso.

É, é um bocado. Mas eu gosto. Sou muito do rock. Gosto muito daquela balada rock com grandes guitarradas, porque eu cresci a ouvir essas grandes baladonas.

Há um Van Halen dentro de ti.

Há.

Há uma que tu tens, muito recente, também vagabundo, que também já vai buscar ali um pouquinho do rock, ou não? Tem ali uma sonoridade assim um pouquinho mais...

Eu acho que tem todas um pouquinho. Essa é ligeirinha, mas temos umas power ballads mais assumidamente rock. E eu adoro. Temos mais músicas mexidas. Neste concerto vou ter então esses temas meus, temas que ainda não foram lançados, mas que eu vou tocar para os meus amigos, porque quem vai são os meus amigos, são pessoas que vão porque querem mesmo lá estar. E versões também, porque eu gosto de-

Versões, por exemplo, o que é que vão tocar?

Uma das vozes que vai estar comigo é a Jéssica Cipriano, para mim também das melhores vozes e com a maior vibe em Portugal, que é a Jéssica. E nós vamos cantar Bryan Adams com Tina Turner, aquelas rockalhadas à antiga.

Boa.

E outros temas mais recentes, o Rui Veloso, que eu adoro. Vai também estar comigo o David Antunes e a Carolina Ligeiro também é uma miúda que tem uma voz poderosíssima, que está agora a aparecer e que vai muito longe. Portanto, são amigos. Basicamente eu vou reunir em cima do palco e depois tenho uma banda. Eu tenho uma banda.

A melhor banda do mundo.

Não, mas é mesmo. Tu vais, tu tens que ir. Tu também tens que ir.

Para comprovar.

O Joões. E de facto aquela malta, que é malta mais nova, mas é de facto para mim a seleção nacional dos novos talentos na música em Portugal. Mas depois vocês vão ver.

Aula Magna, dia 13.

Dia 13.

Estamos lá a chegar. E onde é que o humor, porque está escrito na descrição que vamos ter humor também. De que forma? Já é por ti só?

É por mim. Faz parte da minha essência, eu sou meio apalhaçado.

Tu és daquelas pessoas, deixa-me só perguntar-te isto sem te interromper, que quando fica mais nervoso, tende a criar ainda mais momentos de diversão e de piada. Tu fazes piadas nos funerais, é isso?

Eu sou aquela pessoa que tem que fazer. Já me dei mal. Já mandei piadas na altura errada e agora estou um pouquinho mais contido.

Podes partilhar algum deslize?

É melhor não. Mas eu sou essa pessoa. Mas o humor aparece na minha vida precisamente por causa disso, como escape, como catarse de alguma coisa, com certeza, mas eu sou aquela pessoa que manda a piada para que o ambiente fique um pouquinho mais ligeirinho.

Pois. É uma manifestação de alguma timidez também, ou não?

Sim.

É?

As pessoas normalmente quando eu digo isso não acreditam, mas eu sou muito tímido e sou muito introvertido. E quando estou desconfortável, quando não sei para que lado fugir, eu tendo a ser um pouquinho palhaço

Para aliviar a pressão

Para aliviar a pressão, isso mesmo. E por isso o humor aparece na minha vida assim.

Já em criança?

Desde sempre. Eu na família era aquele que contava as anedotas, porque gostava muito do efeito que eu produzia nas pessoas. As pessoas riam-se, eu sempre fui muito bom contador de anedotas e de piadas e gostava dessa sensação que eu provocava nas pessoas.

De ser popular entre as pessoas também, entre os amigos da escola, por exemplo?

Nem tanto. Mas por sentir que as pessoas ficavam bem-dispostas e se riam. Eu gostava de ver a felicidade nas pessoas, a alegria, as pessoas a rirem-se. Isso pra mim é mais importante até do que ser popular. Eu sou um cara mais introvertido e se eu conseguir na rua, normalmente, fora das minhas vestes públicas, se eu conseguir passar despercebido, impecável, espetacular.

Isso é muito interessante. As pessoas abordam-te muito, João Paulo?

Abordam.

E se calhar porque associam-te sempre a um lado mais divertido, não é?

E porque as personagens que nós começamos a fazer em televisão sempre foram aquelas personagens muito simpáticas, muito bem dispostas, que contam umas piadas.

E imitam-te.

Muito.

E como tu lidas com isso?

Com o fato de me imitarem?

Sim.

Lido bem. Eu gosto, acho que de alguma forma são homenagens que as pessoas nos fazem. E as melhores homenagens são aquelas que são feitas enquanto a gente ainda está aqui para as ver. E por isso acho que gosto. É carinho, é as pessoas mostrarem que gostam e que acompanham, e que gostam de nós. Mas na rua, se me vêm fazer uma pergunta: "Olha, eu gosto muito de si, quando você fez aquela coisa na..." E eu: "Mas fala um pouquinho mais baixo, que eu ainda passo despercebido, por favor". E as pessoas às vezes acham que eu sou um bocadinho antipático, mas não sou nada antipático. Se houver um buraco, eu enfio-me logo.

Mas em criança não eras assim. Deste muito trabalho aos teus pais?

Não. Dei muito pouco trabalho aos meus pais. Eu sempre fui aquele miúdo muito certinho e muito bem comportado. Ainda a minha mãe hoje: "Olha, ainda encontrei aquela senhora que dizia: 'O seu filho era tão bem-educado, era tão direitinho'". Dei muito pouco trabalho aos meus pais.

O que te motivava enquanto criança? Ou como é que ocupavas os teus tempos livres, João Paulo?

Lia muito, gostava muito de ler. Eu era um miúdo que imaginava muitas coisas e que manifestava muitas coisas. Era um miúdo muito à volta dos meus pensamentos e das minhas coisas. Tinha muitos amigos, sempre tive muitos amigos. Como é que eu ocupava os meus tempos? Lia muito, era muita bicicleta, era muito rua. Eu arrebentei muitos joelhos na rua, brincava muito na rua, fugia-me de casa. Eu saía de manhã e aparecia ao fim do dia, minha mãe ficava tola e os meus avós ficavam todos comigo.

Os anos 80 fizeram-nos muito bem, não fizeram?

Fizeram-nos muito bem. Desculpe, engasguei. Fizeram-nos muito bem. Tenho pena que as minhas filhas não possam viver como nós vivemos.

Vadiar como tu vadiaste. Era aquela vadiagem controlada. Era até ao fim da rua, mas parecia que íamos até ao fim do mundo.

Eu ia pra escola na primeira classe, eu ia 2 km a pé, pelo meio do monte, tinha que passar numa estrada nacional. No primeiro dia, o meu pai disse: "É por aqui, cuidado com os carros". E lá ia eu, não havia telemóveis, os pais tinham que rezar que tu chegavas vivo a casa.

Porque ninguém sabia se tu realmente chegavas, não é? Não havia telemóveis. Hoje em dia, tu se calhar não dás nem 50 cêntimos às tuas filhas pra irem ao pão. Como é que é?

A minha filha mais velha, eu acho que ela saiu um bocado a mim. A minha filha mais velha: "Pai, vou agora ali ao ginásio, vou não sei o quê, tenho um jantar com os meus colegas da escola, um aniversário".

Ah, já é autônoma.

Tem 15, vai fazer 16 agora em junho.

E a mais nova?

A mais nova tem nove. Parece-me que vai dar um bocadinho mais de trabalho.

Os segundos são sempre mais difíceis.

É um bocado mais arisca, mas a minha filha: "Pai, eu tenho duas pernas, eu consigo ir sozinha e voltar". Eu: "Filha, mas isto é um bocado perigoso e tal". "Oh pai, pelo amor de Deus, confia em mim". Eu não consigo. Sou pai urso mesmo, não consigo. Eu tenho que estar sempre ali a ver se está tudo bem com elas, se elas estão bem.

És muito pai galinha.

Sim, eu gosto mais de dizer pai urso.

Pai urso. Ok. Consigo-te perceber, no fundo, estou a ter uma imagem na minha cabeça agora.

Agora quando foi a tempestade em Leiria, que as minhas filhas moram em Leiria, eu também tenho casa em Leiria para estar com elas, e eu estava a gravar no norte, eu estava a gravar em Viana, portanto, fiquei ali dois dias sem conseguir falar com elas, porque as comunicações não existiam. E depois, entretanto, fiquei a saber que estava tudo bem, porque pedi a um amigo que também ia a Leiria pra passar lá em casa pra ver se estava tudo bem. A casa ficou um bocadinho em mau estado, mas soube que elas estavam bem. A minha filha mais velha dizia-me assim: "Eu só pensava, o pai deve estar tolo. Ele não consegue falar conosco, ele deve andar a trepar paredes". E eu: "Obrigado, ainda bem que conheces o teu pai". Mas estava mesmo a trepar paredes.

As crianças conseguem ser muito cruéis com os pais, não é? Sobretudo quando eles não merecem.

Exato. E não merecemos, nós somos bons pais, não merecemos nada disso. Ainda por cima somos joões.

Consideras-te um bom pai, João Paulo Rodrigues?

Considero-me um bom pai. Considero-me um pai presente, considero-me um pai extremamente preocupado com elas. Nem sempre consigo ser o pai que quero, porque tenho duas filhas muito independentes e eu queria ser o pai urso, o pai sempre em cima delas, a ver se está tudo bem. Eu acho que sou um bom pai para as filhas que tenho, porque de facto tenho duas miúdas muito independentes. A mais pequenina tem nove anos, vai fazer 10. Eu queria fazer aquilo: "Espera aí que eu já te ajudo". Já desapareceu, já foi fazer aquilo. Ela quer fazer aquilo, ela vai fazer aquilo, quer tu ajudes ou não. E por isso eu sou o pai que consigo ser para aquelas duas miúdas. E tenho sorte de ter duas miúdas incríveis e duas miúdas inteligentes, muito inteligentes. Dão uma volta com uma pinta.

São as duas pessoas que te conhecem melhor e em profundidade?

Sim, acho que sim. Acho que me conhecem em pormenores que eu achava que elas não estavam atentas a eles, mas de vez em quando há ali uma boca, uma brincadeira qualquer que eu: "Mas como é que tu topaste que eu sou assim ou que eu tenho esta particularidade?" São miúdas atentas, são miúdas que conhecem o pai e sabes que isso passa.

Sim.

Isso passa.

E tu se calhar hoje tens muito essa perspectiva de pai urso e que elas não gostam assim tanto, mas elas vão dar valor a isso mais tarde ou mais cedo, e se calhar até vão ter saudades dessa vertente.

Eu digo sempre isso: "Tu um dia vais ver como é que é". "Ai, meu paizinho, quando meu paizinho me fazia tudo". O paizinho e a mãezinha.

Claro.

A mãezinha também está sempre ali para elas e é graças a ela que eu tenho duas filhas superinteligentes. A minha mulher, a Juliana, puxou muito por elas, estimulou-as bastante. Portanto, são duas miúdas extremamente inteligentes e graças a Deus.

Ainda bem.

Graças a Deus. Espero que as duas sejam médicas, que eu sou meio hipocondríaco.

Ai és?

Hipocondríaco. Só um bocadinho. Sou menos agora, porque eu vou precisar de: "Ó pai, pronto".

Mas tens algum episódio que te tenha levado à loucura com essa hipocondria?

Não, acho que sempre fui assim. A minha mãe era assim e acho que fui buscar isto à minha mãe. A minha mãe estava sempre mal. "Ai, eu estou muito mal".

Como é que vais? Vais andando.

Está sempre mal. Eu acho que fui buscar um bocadinho isso. Não tão agudo como à minha mãe, mas acho que fui buscar alguma coisa dela. Sorte que temperei com o meu pai, que o meu pai era aquele tipo porreiraço, estava sempre tudo bem, e fui buscar aquele tempero ao meu pai, senão estava tramado.

Muito bem. Vamos falar do humor, que é uma das vertentes da tua vida. Como é que tu acompanhas estas questões ultimamente, nos últimos anos, sobre os limites do humor, com quem é que se pode brincar, gozar?

Que piadas é que se pode fazer.

Exato. O humor é humilhante, não é humilhante?

Como é que eu acompanho? Na verdade, quando falamos de limites do humor, é complicado.

Para ti há limites?

Há alguns limites.

Coisas que o Quim Roscas nunca faria ou nunca diria.

Uma coisa que nós nunca fizemos e que sempre foi, para mim, uma exigência em relação ao Pedro, porque nós trabalhamos sempre juntos, é: eu não falo de religião, eu não falo de futebol e eu não falo de política. Porque são coisas que automaticamente vão dividir a plateia, porque um é do Sporting, o outro é do Benfica, o outro é do Porto e vais logo criar uma barreira que vai dividir as pessoas e, parecendo que não, o público torna-se um bocadinho mais-

Hostil, é isso. E pode desfocar daquilo que é o essencial, não é?

Exatamente. Nos nossos espetáculos de humor, nós falamos de tudo e mais alguma coisa, mas de nós próprios. Eu brinco com ele, ele brinca comigo. Eu a ele permito-lhe tudo e ele a mim permite-me tudo. Agora, serão esses alguns limites, não porque eu acho que não se possa dizer tudo, eu acho que é possível dizer-se tudo. E quando eu comecei, podia dizer-se mais do que se pode dizer hoje, mas para que dividir a plateia? Para que hostilizar o teu público, quando pode ser de outra forma, quando podes ter toda a gente na tua frequência e saírem lá todos bem-dispostos?

E tu dizes que quando começaste se podia dizer mais do que o que se diz agora. Por quê? Porque os artistas impõem a si mesmos uma espécie de autocensura?

Porque acho que a sociedade mudou um bocadinho. Acho que nos tornamos, enquanto sociedade, um bocadinho menos permissivos. Há 20 anos atrás, quando eu comecei, ou há 25, 28, nós podíamos dizer mais. As pessoas não levavam tanto a mal e entendiam que aquilo é humor, é brincadeira, não estamos a gozar, estamos a brincar. E entretanto isso foi mudando e cada vez podemos dizer menos. Mas isso é uma coisa que aconteceu a todos enquanto sociedade.

Será porque, eu estou a pensar alto, gostava também de te ouvir sobre isso. Será porque os artistas também são hoje em dia o reflexo do país que somos, ou seja, são mais velhos, são mais maduros, transportam mais passado e mais experiência ou mais experiências e se calhar autolimitam-se. Será por aí ou não?

Talvez.

Ou tu sentes que é o público que impõe alguns limites?

Não, eu não acho que seja o público que impõe, nem acho que são os humoristas que se limitam. Acho que é uma coisa que acontece ao mesmo tempo, mesmo enquanto sociedade.

Porque quando somos novos, somos mais destemidos, não é?

Sim, mas é como te digo, naqueles tempos diziam-se mais coisas, nós estávamos mais à vontade para dizer algumas coisas. Na verdade, agora sendo completamente honesto, quando eu comecei a apresentar programas, apresentei o programa da manhã na SIC durante muitos anos, e esperava-se uma certa postura minha, porque nós falávamos de tudo. Falávamos de doenças, de política, de crime, falávamos de tudo naquele programa. E eu, se calhar, comecei a impor limites mesmo quando estava no palco a fazer humor com o Pedro. O Pedro dizia: "Mas por que fazes isso?"

Começaste a autossabotar?

Sim, eu próprio, porque se calhar é uma coisa muito de ego. Comecei a pensar: "Mas eu agora sou apresentador, agora não vou dizer estas coisas, não vou dizer estas asneiras todas, senão o que as pessoas vão achar?" Mas foi uma coisa que eu me impus. Mas depois percebi que as pessoas gostam muito mais quando eu, quando estou no palco, seja eu próprio.

Sem freio.

Sem freio, aquilo que as pessoas se habituaram a ver, porque foi isso que fez com que as pessoas enchessem sempre os nossos espetáculos desde sempre. E nisso somos abençoados. É uma coisa minha, é uma coisa de ego, agora acho que sou a última Coca-Cola do deserto, mas não sou. E portanto, por que eu não hei de ser eu? Por que eu não hei de estar completamente livre? Mas foi uma coisa minha. Ninguém me impôs nada, ninguém me obrigou a nada. Fui eu próprio. E depois quando me apercebi disso e quando me consegui libertar desse meu ego, ou dessa particularidade do meu ego, acho que as coisas começaram a fluir melhor mesmo e começamos a ter cada vez mais pessoas nos espetáculos e as pessoas a dizerem: "Foi muito bom, vocês dizem muitas asneiras e dizem muitas coisas, mas não gozam com ninguém, não brincam com ninguém, não escolhem uma personagem qualquer, uma pessoa qualquer conhecida e vão picá-la." Não fazemos isso. É a nossa forma, minha e do Pedro, de fazermos humor, a nossa forma descomplicada de fazer humor. E nesse aspecto, temos alguns limites. Claro que sim, não vamos dizer que não temos. Mas dentro daquilo que nós achamos que devíamos fazer, nós fazemos tudo e mais alguma coisa. Há pessoas às vezes que vão comentar e dizem: "Vocês realmente esticam-se um bocado." Mas pronto, é o que é. As pessoas que vão ver os nossos espetáculos vão exatamente para aquilo. São pessoas que nos seguem há muitos anos.

Sabem com o que contar, não é? No fundo.

Sim, e sabem que é humor e não se sentem ofendidas. Estamos a brincar.

E às tantas, aquilo que o João Miguel falava, o público não está mais exigente, se calhar está mais consciente e alerta para isso, porque também se fala mais nisso, não é? Nesses perigos ou nessa corrente de piadas que podem ser interpretadas de uma outra forma. Se calhar é mais isso.

Se calhar temos muito mais informação e temos muito mais casos. Cada vez temos mais casos onde os limites do humor são testados. E o limite da paciência das pessoas são testadas também para o humor. E se calhar as pessoas tornam-se, como tu disseste, Ivan, mais conscientes para isso. Mas eu acho que faz parte. Acho que vamos evoluir nisso também. E acho que nos vamos tornar uma sociedade mais permissiva e com capacidade para se rir de si própria. Porque eu acho que o português sempre teve essa capacidade. Nós sempre contamos anedotas de nós próprios.

Nós próprios portugueses, mas não sobre nós próprios, cada um de nós.

Nós próprios portugueses.

Achas que os portugueses gozam consigo?

Eu gozo muito comigo.

Individualmente.

Eu gozo muito comigo.

Tu és uma pessoa que se olha ao espelho e diz: "João Paulo, tu és um idiota".

Tenho muitas ideias.

Por acaso acredito que faças isso.

Eu faço.

Procuras desculpa para as coisas nestes termos.

Estás na boa. Olha, eu, na verdade, não levo nada a mal, a não ser que seja mesmo ofensa grave.

Por exemplo, uma coisa que te dissessem que te deixasse mesmo muito ofendido, João Paulo Rodrigues.

Insultarem as minhas filhas, por exemplo.

Ok, mas em jeito de brincadeira. Aquela coisa muito portuguesa que é: "Estava a brincar".

Tu sabes quando não estão a brincar. Tu sabes quando dizem: "Nós estamos a brincar. Eu estou a brincar, mas aquilo tocou." Mas em relação à minha pessoa, eu já li de tudo sobre mim, já ouvi de tudo sobre mim.

Tens uma grande carapaça.

E acho que tenho treinado.

Nota-se. Coração, é um grande coração.

Acho que me tenho treinado, porque eu acho que já tive um ego maior. E acho que me tenho treinado para o domar. A vida são 10 dias, diverte-te.

E já desconstruíste isso aqui também ao longo desta conversa. Ainda há bocadinho falávamos sobre essa questão do ego e dos espetáculos. Já vão mais de 25 anos de forma pública. Tu não tens 25 anos, não é?

Não.

Já estás a caminho dos 50. Não quero aqui atribuir idades, mas vamos deixar assim.

Tenho 47 bem feitinhos.

Assim no ar.

Mas ninguém me dá mais de 43.

Pronto, ainda bem. Eu também corroboro isso. Mas olha, são mais de 25 anos de forma pública. Se tu tivesses que voltar atrás em algum momento, fazer algo diferente, consegues olhar para trás e meter-te nesse lugar ou não mudavas nada e continuava tudo igual?

Pois não sei. A aventura tem sido tão boa. Obviamente que houve coisas que eu, se calhar, se pensasse melhor, faria de maneira diferente, não sei.

Acabavas o curso de Direito.

Acabava o curso de Direito.

Esse era o primeiro, o checklist.

Ou então tinha ido para a Força Aérea, que eu também sempre tive o sonho de ser piloto aviador, sempre foi um dos meus sonhos também. Mas a vida é o que é. É como te disse, eu fui aproveitando as oportunidades. Se eu não as tivesse aproveitado, se tivesse mudado qualquer coisa no meu passado, a minha vida não era o que é hoje. E por isso não me arrependo, não tenho arrependimentos de: "Arrependo-me muito disto." Porque eu sou aquela pessoa que se achasse que estou arrependido de alguma coisa, eu parava e mudava o percurso daqui para a frente.

Muito bem, estamos a chegar ao fim. Quero lançar-te aqui um desafio. Estamos a bordo de um avião, tu já és um piloto de uma companhia aérea. Vais fazer aterrar este avião, não sem antes lançar um aviso aos senhores passageiros.

Aos passageiros.

Vamos embora.

Seria mais qualquer coisa, senhoras e senhores passageiros, obrigado por voarem connosco. Voltem aos seus lugares, agora casa de banho já não podem, é apertar os vossos cintos de segurança e espero que gostem da aterragem, porque é uma coisa que eu adoro fazer, aterragens.

Agora em francês. Agora naquele inglês que ninguém percebe.

E se puderem rezar baixinho para não incomodar o passageiro do lado, eu agradeço. Vai correr bem, se Deus quiser.

João Paulo Rodrigues, muito obrigado por teres vindo aqui ao "Em 40 Minutos".

Obrigado.

Espetáculo dia 13 de março na Aula Magna, com muita música e humor à mistura. Muito obrigado. Um abraço.

Sempre. Muito obrigado a vocês.

Obrigado.

Joões.

É verdade.

Obrigado, Joões.

Um abraço.