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Eu venho de um tempo que a nossa indústria, em particular a da televisão, não premiava as pessoas com um determinado tipo de maturidade e de tempo. E no caso das mulheres em particular. Porque até há muito pouco tempo tivemos uma espécie de exaltação sistemática, quase histérica, da juventude. Uma mulher que representava o ideal de beleza daquilo que foi as décadas de 80, 90 e por aí fora. E eu não compagino, não estou de todo aí. Portanto, estar hoje, 2026, com 63 anos, ainda no ar, com um programa e nome próprio, coisa que eu nunca quis na vida, mas que me aconteceu duas vezes, é extraordinário. Continua a ser extraordinário e todos os dias é um exercício de prazer. Fantástico, não estava à espera. Nunca tive a tentação de me submeter a alterações do rosto, de me modificar. Realmente, a coisa que me castigou um bocadinho ao longo dos anos foi, de facto, a questão, por exemplo, do peso, que hoje para mim é perfeitamente indiferente, mas que à época eu não sabia lidar.
Entra há décadas na casa dos portugueses. Ao longo dos anos construiu uma carreira a fazer perguntas, muitas vezes difíceis, outras profundamente humanas, e a criar espaço para que os outros se revelassem. Para muitos, é mais do que uma apresentadora, é alguém que ajudou a dar palavras a emoções, a normalizar fragilidades, a lembrar que nenhuma vida é banal. Antes de ser figura pública, houve uma jovem curiosa que começou na rádio numa altura em que o país ainda estava a aprender a viver em liberdade. Ao longo da sua vida profissional, ouviu histórias de alegria, perda, coragem e também transformação, e talvez por isso tenha desenvolvido uma espécie de radar para aquilo que nos torna humanos: as dúvidas, as contradições e a capacidade de recomeçar. Desperta respeito, proximidade e, às vezes, confronto, mas raramente indiferença. Hoje continua a acreditar que conversar, verdadeiramente conversar, pode mudar a forma como nos vemos uns aos outros. E hoje, no “Em 40 Minutos”, vamos tentar inverter o papel. A mulher que passou a vida a fazer perguntas é quem se senta agora do outro lado da mesa. Júlia Pinheiro, “Em 40 Minutos”, muito bem-vinda.
Muito obrigada, gostei muito da introdução.
Acho que faz jus à mulher que tem aqui à minha frente e que passámos a saber, e vamos contar isto, quando a sua chegada nos revelou que gosta muito do Observador.
Hoje compulsivamente. É a minha rádio, porque tem muita diversidade, porque tem ideias, porque tem informação, tem notícias, naturalmente, mas depois tem reflexão, tem conhecimento a outro nível. Eu preciso muito disso, preciso muito desse eco. Portanto, estou sempre ligada ao Observador.
E o que é que gosta mais de ouvir? Não digo aqui propriamente o Observador, mas o que é que a faz querer ouvir um tipo de conteúdo?
Eu procuro muita informação, que é também, digamos, um vício profissional. Eu preciso muito de estar informada, preciso muito de estar sempre atualizada, ainda por cima hoje, a velocidade da informação é incomensuravelmente maior do que no passado, portanto, é preciso estar sempre ligada. E depois, como estou numa fase da vida em que realmente, embora goste muito de música e goste muito do entretenimento, dado que também é a minha área, mas eu preciso muito de conversas que me envolvam num determinado patamar, que me contem coisas que eu não sei. No outro dia, há aqui agora um novo programa com o José Manuel Fernandes.
O Resto é Ciência.
O Resto é Ciência, eu estava interessadíssima em ouvir. Ou seja, vocês têm abordagens e ideias que eu não sabia, mas me faziam falta e que preencheram qualquer coisa que não estava cá.
E quem sabe um dia, se também não temos aqui um programa, quem sabe? Estou a chutar para o universo da Júlia Pinheiro.
Eu gosto muito do universo da rádio.
Vamos a isso. Fizemos esta apresentação, mas podia não tê-la feito, porque só dizer Júlia, que é o nome do programa que tem na SIC, Júlia Pinheiro, já é suficiente. Mas queria lhe perguntar qual é que acha que é a primeira sensação quando as pessoas a veem ou sabem que está num projeto, ou simplesmente leem o nome Júlia Pinheiro, qual é o primeiro sentimento que se calhar causa nas pessoas? Tem ideia?
Eu julgo que a primeira sensação é de proximidade, de familiaridade. É alguém que conhecemos. Com muita frequência as pessoas cumprimentam-me, mas não sabem por que me estão a cumprimentar. Eu sou só muito familiar, sou muito próxima, identificam-me dentro do radar daquilo que é a sua informação pessoal. Eu conheço esta senhora, não sei de onde. Já me aconteceu, tenho uma história, não diria com muita graça, mas um dia, em Angola, imagine-se, estou numa cidadezinha perfeitamente assim, daquelas lá perdidas para o meio. Como João saberá, a SIC é muito vista em Angola e Cabo Verde, mas em Angola particularmente, também há ali em São Salvador. Eu entro num restaurante daqueles de praia cuja proprietária era uma senhora portuguesa que arranca para mim Faz-me um grande sorriso, dá-me um grande abraço e eu pensei que ela estava a me reconhecer da televisão, e depois diz-me: "Foi minha vizinha, não foi?" E eu: "Não, não é bem isso". "Mas eu conheço." "Conhece, sim, é do mesmo bairro." Ou seja, mesmo num sítio tão longe, provavelmente a senhora já estava ali há uma série de tempo e se calhar não via televisão de uma forma sistemática, a senhora identificou-me como alguém muito próximo dela. E estas coisas tocam. Deixam uma sensação muito grande, quentinha, de carinho.
Um coração quentinho. E passado tantos anos, mais de 30, e a construir esta relação de proximidade, sempre pensou que iria ter esta imagem tão presente na vida das pessoas?
Não. Eu venho de um tempo que a nossa indústria, e em particular a da televisão, não premiava as pessoas com um determinado tipo de maturidade e de tempo. E no caso das mulheres em particular. Porque até há muito pouco tempo tivemos uma espécie de exaltação sistemática, quase histérica, da juventude. E a juventude é fantástica, porque é fresquinha. Até realmente o João a sorrir, porque ele próprio é jovem. Mas, de facto, no caso das mulheres, procurava-se muito, no caso das comunicadoras femininas, procurava-se muito a beleza, a juventude e um certo glamour, uma certa construção da imagem.
Uma postura ideal, entre aspas?
Sim, uma mulher um bocadinho idealizada, uma mulher que representava o ideal de beleza daquilo que foi as décadas de 80, 90 e por aí fora. E eu não compagino, não estou de todo aí. Portanto, estar hoje, 2026, com 63 anos, ainda no ar, com um programa em nome próprio, coisa que eu nunca quis na vida, mas que me aconteceu duas vezes.
Já lá vamos.
Em duas estações diferentes. É extraordinário, continua a ser extraordinário e todos os dias é um exercício de prazer, que fantástico, não estava à espera.
Falava aqui da questão da eterna juventude, que não é eterna, e sabemos disso.
Não.
A Júlia até já falou abertamente sobre as questões próprias até de flutuações de peso, que já enfrentou ao longo da vida.
Sim.
E a questão do envelhecimento e o facto de ter um programa diário e de estar presente há tantos anos de forma quase ininterrupta na televisão também nos prova.
É mesmo ininterrupta.
Sim. Ou seja, nós vemos a Júlia também.
Eu envelheci perante o olhar dos outros, sim.
Exato.
Isso é ótimo. Eu não apanhei nenhum susto quando me vi.
Sim, isso é perigoso. Como é que encara essa questão? E se isso que falava da questão da juventude a atormentou em alguma parte da sua carreira?
Não. A determinada altura, eu tinha os indicadores que a minha comunicação era eficaz e que a minha preparação e a minha credibilidade profissional estavam lá. Mas faltava-me, de facto, depois, a beleza estonteante, um rosto muito marcante. Tinha uma voz péssima, ainda tenho, está um bocadinho melhor, mas a voz então era um desastre. E, portanto, realmente eu não preenchia uma série de coisas.
Mas já havia um padrão naquela altura?
Já, então não havia? Claro que sim, que havia. Então, as grandes vedetas da televisão, tirando as mulheres da área de informação, eram essencialmente mulheres muito bonitas, grandes comunicadoras, naturalmente. Mas havia quase como uma seleção natural. Com o tempo, sabíamos que aquelas apostas iriam pra uma pessoa com aquela, porque era isso que se procurava. As estações procuravam, primeiro os programas de entretenimento, que era a minha especialidade a determinada altura, tudo tinha que ser lindíssimo. Estávamos a construir um imaginário novo e, portanto, de facto, havia preferência por esse tipo de rostos. Mas eu depois comecei a aprender uns truques e depois percebi que se eu me mantivesse, pra já, muito fiel a mim mesma. Nunca tive a tentação de me submeter a alterações do rosto, de me modificar. Realmente a coisa que me castigou um bocadinho ao longo dos anos foi, de facto, a questão, por exemplo, do peso, que hoje pra mim é perfeitamente indiferente, mas que à época eu não sabia lidar. Isto aconteceu-me, sobretudo, em dois processos da minha vida muito diferentes. Um é posterior a uma coisa que é de conhecimento público, foi a doença das minhas filhas, pra quem não sabe, tiveram anorexias graves. E passávamos muito tempo à mesa pra elas comerem, pra conseguirmos que elas ingerissem alguma coisa. E, portanto, enquanto eu esperava que as minhas filhas sobrevivessem com um prato à frente, que não queriam comer, eu e o pai íamos comendo. Já tínhamos feito a refeição, mas íamos protelando com pão com manteiga, com mais um queijinho. Isto é um momento que eu estou aqui a relatar com relativa leveza, mas foram momentos de grande sofrimento familiar. E eu a saber que um dia qualquer eu própria, na minha imagem, ia ter, mas não era importante nessa altura, não tinha importância nenhuma, o importante é que elas comessem. Portanto, eu fiquei pra aí nesse processo com mais 15 quilos. Depois as coisas amenizaram um bocadinho e entrou aquela coisa maravilhosa que acontece às senhoras a partir dos 48, 49, que é a menopausa. Eu faço aí um processo em que acabo por voltar um bocadinho ao meu volume normal, depois entra a menopausa, que nos traz outra vez grandes alterações. Eu levei algum tempo a entender tudo
É complexo.
Mais do complexo.
E eu acho que é diferente para todas as mulheres.
Mas eu tenho uma enorme, uma inabalável-
Eu falo com a minha mãe e a minha mãe tem sintomas diferentes de outras mulheres.
Sim, mas um deles seguramente é a alteração do peso. Raramente esse não está presente. Mas eu tinha uma inabalável convicção de que a forma como eu me apresentava não tinha tanta importância. E tinha. Então, depois é preciso ir afinando, arranjando estratagemas. E hoje estou nos confortáveis, para quem quiser, sou 1,70 m, 69 kg, calço 40 e está tudo bem.
Se alguém lhe quiser oferecer
Não é preciso oferecer nada.
Uma prenda, já tem aqui as indicações.
Eu não tenho nenhum problema com estas métricas.
E a questão da menopausa, que falou, e acho que fala de uma forma muito descomplicada sobre isso. Eu não digo uma inspiração, mas a forma como coloca as coisas e os pontos nos Is sobre as coisas, é muito fácil para quem esteja a entrar nesse processo.
É complexo. Porque é uma metamorfose que ocorre mais cedo do que nós pensamos.
Pode acontecer mais cedo ou mais tarde.
Há menopausas que começam aos 32, 33. Há menopausas por questões de doença, mas ali a partir dos 42, 43, 44, começam a dar sinais e nós, as mulheres, não estamos preparadas. Eu não descomplico. O que eu tenho tentado fazer, desde que falo neste assunto, é ser espelho. Se olharem para mim e se me ouvirem, vocês vão se reconhecer. E é um pouco isso que tem acontecido. Depois falam disso com absoluta franqueza. Essa é outra das características da minha personalidade, eu não tenho tabus, eu não tenho aquela coisa: "Não fale sobre esta matéria ou aquela." Eu falo sobre todas. Boas respostas quero, naturalmente.
Sim, claro.
Mas falo sobre tudo.
Voltando à questão do envelhecimento. A Júlia sabe isto melhor do que ninguém e aproveito para partilhar que já falei sobre este assunto com várias mulheres que também já passaram aqui no "Em 40 Minutos". Estou me a lembrar agora, por exemplo, da Inês Castelo Branco, que defendia e acredita que o envelhecer é muito mais duro com as mulheres, a indústria em si, do que com os homens. Estamos a caminhar num passo em que isso está mais batido ou a tendência é continuar da mesma forma?
Eu creio que hoje há, seguramente, uma valorização, veja-se na indústria do cinema e na da televisão também, dos streamings e afins, que realmente há uma valorização das atrizes mais velhas e das pessoas com alguma maturidade, sobretudo porque nós, hoje, mulheres também envelhecemos muito mais bonitas. Eu acho que aquilo que aprendemos, hoje uma mulher de 55 anos ou, por exemplo, uma sexagenária como eu, é completamente diferente do que uma sexagenária há 20 anos ou há 30. Houve os benefícios todos da ciência, da medicina e de todas as indústrias que estão ligadas à parte da imagem, às estéticas e afins, que ajudam, na minha opinião, desde que não desvirtuem, que não retirem a identidade. Mas julgo que sim, que a Inês, pessoa de quem gosto muito, uma mulher lindíssima e uma atriz maravilhosa e uma excelente pessoa, é um amor de menina. Realmente, eu acho que continua a castigar um pouco, porque aquela velha máxima que com a idade os homens ganham charme, as mulheres não ganham grande coisa. Eu acho que está a mudar muito.
E que se associa, por exemplo, e esta é uma questão muito simples: um homem com cabelos brancos é sinal de charme, uma mulher com cabelos brancos é sinal de desleixo, entre aspas.
Sim, eu hoje acho que também não. Houve também uma revolução das gray women.
Ainda bem.
Ainda bem, mas acho que ainda assim, o branco não fica bem a toda a gente. E, sobretudo, há ali momentos em que até chegar ao branco perfeito, demora muito. Mas eu acho que há uma gradação um pouco menos sombria para as pessoas que estão envelhecendo. Se ainda tiver voz, disponibilidade e energia, uma das coisas que farei nos tempos mais próximos é falar justamente sobre isso. Eu não gosto da palavra, eu sei que as palavras são o que são, mas o envelhecer, que não tem problema nenhum, e aquela coisa de retardar, o antienvelhecimento. Eu acho isto uma formulação que me ofende aqui um neurônio qualquer, há aqui uma sinapse que fica toda tonta. Gosto muito mais da expressão anglo-saxônica, do pro aging, que diz que é algo proativo. E de fato, se nós pensarmos, isto não é uma coisa panfletária, nem de propaganda. Por exemplo, nós quando somos sexagenários e daí para frente, se estivermos em boas condições físicas e estiver saúde mental e tudo mais, estamos no auge absoluto das nossas competências. Temos experiência, temos maturidade e temos conhecimento. Se combinarmos estas três variantes, somos imbatíveis. Quem está a ouvir, faz favor.
Está aqui a prova. Estamos a testemunhar isso mesmo. Eu sou uma pessoa muito atenta. Há uns dias vi que publicou uma fotografia no Instagram, nas suas redes sociais, com seis livros, que é uma pessoa que gosta muito de ler. Aliás, já leva aqui umas quantas revistas para ler em casa aqui do Observador. Para alguém que está tão habituado a conhecer histórias todos os dias, há muitos anos, que tipo de escrita também a cativa?
Aqui se calhar vou desiludir algumas pessoas. Eu sou omnívora. Eu como tudo.
Não é exigente nesse sentido.
Não, eu sou exigente no sentido em que gosto muito De uma boa escrita com dimensão literária, com espessura, com substância. Tal como, por exemplo, eu adoro ver filmes maus, que é uma coisa que se calhar pode-
As pessoas fogem, não é?
Não, as pessoas podem achar um absurdo gastar esse tempo, mas o mau filme é um momento de abstração mental, que é um exercício ao qual me entrego às vezes. E às vezes os livros não muito interessantes. Desde que tenha uma história. Eu não resisto a uma boa história. Se a história for boa, já estou agarrada, mesmo que às vezes depois a forma como é narrada e como é desenvolvida tenha ali uns tropeções e umas coisas que não estão muito bem acabadas. Mas eu, de facto, pelo menos meto o nariz e depois deixo-me agarrar por aquilo que verdadeiramente me desafia.
E desses seis já começou a ler todos ou já leu todos?
Não, desses seis, os últimos que vieram, eu acho que ainda não peguei em nenhum, se não estou em erro. Sim, peguei sim e estou a gostar imenso, do Javier Cercas, que é "O Louco no Fim do Mundo" ou "O Louco de Deus". É assim?
Aliás, vi alguns comentários de pessoas que também estavam a ler esse livro.
Estavam a ler. E eu fiquei muito surpreendida, porque quando foi a vinda do Papa Francisco a Portugal, apanhei muita coisa, até porque, de facto, andámos ali muito, não só com pessoas que tinham estado com ele. Entrevistei Maria João Velez, tinha tido aquela entrevista marcante, da qual fiz um livro, de resto, à Ora Miguel, por aí fora. E eu tinha ficado com a sensação que o que tinha saído sobre ele eu tinha apanhado. E não, este livro foi editado há seis anos, depois do Papa Francisco, ou melhor, o Vaticano, ou melhor, o Dicastério, ter convidado o Javier Cercas, que é um ateu, coitado da graça, a ir acompanhar o Papa ao fim do mundo, o Papa Francisco, à Mongólia. E o Javier Cercas só tinha uma pergunta, e tinha que falar com o Papa para fazer esta pergunta. Ele tinha que perguntar ao Papa se podia dizer à mãe dele, Javier, que ia encontrar o pai dele na eternidade. E ele tinha que fazer esta pergunta ao Papa. Não sei se fez ou não, porque ainda não acabei o livro.
Agora até eu próprio fiquei com vontade de ler.
Ele escreve muito bem. É isto, o entusiasmo.
Sim. Júlia Pinheiro, a primeira parte já está.
Pois é, sim.
Voltamos já a seguir. Há ainda muito para conversar. Até já.
Até já.
De regresso para a segunda parte do "Bem 40 Minutos". Esta semana estamos à conversa com Júlia Pinheiro, alguém que anda nisto há muito tempo e que começou na rádio, curiosamente. Dizia-me em off que diziam que tinha voz de apito.
É? Eu tinha uma voz péssima. Eu tenho muita dificuldade. Ainda hoje, quando me entusiasmo, os agudos podem ficar um bocadinho fora de controle. Tinha, era péssima. Mas não sei porquê, acho que talvez tenha sido aí a minha validação para aquilo que foi o resto da minha vida enquanto comunicadora. Mesmo com uma voz desgraçada, de cana rachada, eu fui admitida. Antes de mais, eu queria ser jornalista, não queria estar na área do entretenimento. E primeiro fui admitida na Antena um, há muito atrás, há 40 anos, e depois consegui, ainda hoje não sei muito bem como é que aconteceu, transitei da Antena um para a Renascença, onde passei 10 anos felizes na rádio. E eu lembro-me, o meu diretor, o homem que me contratou, o Henrique Mendes. Um homem extraordinário, um amigo maravilhoso e um comunicador. Estava tudo bem feito. No Henrique estava tudo bem feito. E o Henrique, com muita graça e muita paciência, sempre que eu lhe perguntava: "Ó Henrique, já me ouviu? Já ouviu o programa?" Que eu fazia à noite. "Já me ouviu?" E ele fazia sempre: "Ai, querida, não tive tempo, mas se houver algum problema, fale comigo." Eu acho que ele não me queria dizer que eu era péssima.
Continua a achar isso.
Que a minha voz é péssima?
Não, que ele fazia isso-
Eu acho que sim, eu acho que o Henrique achava que eu tinha, como outras pessoas, depois na Renascença, que me deram, como se costuma dizer, muito gás, achavam que eu tinha uma singularidade qualquer. Eu tinha uma capacidade que acho que está na minha personalidade, que é de fácil aproximação, de relacionamento com o outro. E nessa altura eu devia ser pior, porque para já, nessa altura, eu tinha uma coisa que devia ser insuportável. Eu era tão alegre, que devia dar vontade de me dar estalos, porque eu era felicíssima. Eu era uma garrafinha de espumante constante. E portanto, eu acho que esta coisa devia dar um brilho qualquer adicional. Eu acho que o Henrique, com aquela coisa muito cavalheiresca, muito elegante dele, não me queria dizer que eu realmente era uma desgraça, mas um dia, muito simpaticamente, estava eu nestas lamúrias, disse-me: "Mas por que não vai ter umas aulas de voz? Olhe, no Conservatório." E é assim que eu chego ao Conservatório de Teatro. E entro no Conservatório de Teatro para ter aulas de voz. E um dia é que acabei num palco, imagine-se. A vida é estranha assim.
Mas gostou dessa experiência também?
Muito.
E a estreia já aconteceu para lá dos-
Do que era regulamentado, sim.
Do que era regulamentado, entre aspas. Vamos pôr os pontos nos Is.
Estreei-me no teatro com 56 anos.
Sim.
E o ano passado voltei outra vez a fazer uma peça com 62. Portanto, são as duas peças que eu fiz. Estive no Conservatório de Teatro há 41
E as coisas estão muito diferentes dessa altura agora para aplicar?
Estão completamente diferentes, até porque eu não terminei. Eu fui chutada entretanto. Não, mas isso é uma história que já foi me contada, não vale a pena. Saio de lá e começo a minha vida na comunicação de forma muito sistemática, ininterrupta. E nunca mais pensei no teatro. Até que há sete ou oito anos apareceu um espetáculo chamado Monólogos da Virgina e eu achei que aquilo tinha muita graça, o texto era muito bom, continua a ser, intemporal. E eu entusiasmei-me e fui, e ia morrendo de susto, porque aquilo mete muito medo.
Mete mais medo do que ligar uma câmera?
Não tem nada a ver.
É diferente?
É um exercício completamente diferente. Além de que não o domino. Acho que também tem um pouquinho a ver com isso. Enquanto que eu estou aqui à vontade num palco.
E a parte dos monólogos, eu não digo que era muito individual, mas havia se calhar mais essa separação do que quando fez essa peça mais recente, não é? A experiência é diferente.
A experiência é diferente. Aliás, nos monólogos eu tinha muito pouca contracena com as minhas duas colegas, a Joana Pais de Brito e a Paula Neves, a quem estou eternamente grata, porque foram elas que fizeram a minha educação teatral. Desta vez não, desta vez eu tinha contracena mesmo, física, com as minhas colegas maravilhosas também, que ajudaram mais umas etapas na minha educação teatral. Paula Mora, Paula Guedes, Helena Isabel, Valerie Bradle e Heitor Lourenço.
Um grande grupo.
Um grande grupo, divertimo-nos muito.
Voltando à rádio, a Júlia trabalhou na rádio numa altura em que nos estávamos ainda a adaptar a este ideal, que agora, hoje em dia, talvez seja um pouquinho diferente, de liberdade. Como era trabalhar nessa altura? E a rádio também mudou muito ao longo dos anos, assim como a televisão. Era capaz de voltar a esse meio e ser feliz a fazer rádio hoje em dia?
Felicíssima. Aliás, estou à espera de um convite.
Diariamente?
Sim, também podia ser diariamente. Eu sei que o prime time da rádio é às 07:00, mas tirando isso, que já tenho muitos anos de manhãs. Eu acho que a rádio é, de facto, a minha primeira identidade enquanto comunicadora. Há mais de 43, 44, por aí quando eu tive na Antena 1. Eu acho que mudou muito, sim, a ideia de liberdade e sobretudo o idealismo. Nós tínhamos uma ideia muito romântica, muito idealizada daquilo que devia ser o nosso desempenho, a nossa performance e a forma como nós contribuíamos para aquilo que era o avanço da sociedade portuguesa e do nosso papel nisso. Eu tive muita sorte, porque fui para a Rádio Renascença. A Rádio Renascença, ao contrário do que muitas pessoas terão como percepção, é o sítio de maior liberdade que se pode imaginar. E fui felicíssima na Rádio Renascença, além de ter conhecido lá o meu marido.
Já lá vamos a essa história.
É um sítio de enorme liberdade. Eu, de resto, já voltei à Rádio Renascença quando foi do confinamento, quando foi do Covid. Eu tive um programa, um call in à noite, que eu propus à Rádio Renascença e que eles muito generosamente me concederam a antena para eu fazer, porque estava cheia de vontade de comunicar e achava que as pessoas precisavam dessa janela. E foi talvez, olha, teve graça, porque foi a primeira vez que eu e meu marido trabalhamos juntos, porque nós nunca coincidimos, que é para não dar porcaria.
Porque deu no início.
Sim, porque começou muito mal. Muito mal, muito mal-disposto, mal-educado, arrogante. Tratou-me tão mal. E nesse dia, o que ele disse ao Henrique Mendes, no dia que me conheceu? "Eu vou casar com esta miúda." E eu a fugir, a fugir, a pensar: "Que tipo execrável, nunca mais olho para a cara." Um ano depois estávamos casados.
Mas lembra-se o que despoletou isso na altura?
Por que ele foi tão mal-educado? Lembro, sim. O meu marido era um homem hoje não é assim, mas na altura era. O meu marido tinha grandes problemas para acordar. E nessa altura fazia-se uma coisa que eu acho que já não se faz da mesma maneira, se calhar, vai se fazendo. Entrevistava-se, também já à distância, grandes vedetas. O meu marido era um grande divulgador de música, um grande profissional de rádio e tinha programas icónicos na Renascença de divulgação nessa altura. Inda ia entrevistar pelo telefone o Mark Knopfler dos Dire Straits. E o que aconteceu? O Mark Knopfler ficou sentado no estúdio em Londres à espera do meu marido, que não apareceu a horas. Portanto, na Rádio Renascença, que aquilo era uma conversa telefónica, e ele não apareceu. Portanto, eu armada em gira e cheia de graça, quando o Henrique Mendes me apresenta: "Este é o Rui Pego, deve conhecer." Eu conhecia, já ouvia os programas dele. Eu toda cheia de graça, disse: "Então, hoje deixou o Mark Knopfler pendurado, não foi?" E a figurinha volta-se do outro lado com a maior cara de pau, com a coisa fechada e disse: "E eu o que é que tenho a ver com isso?" Eu pensei: "Ai, que homem horrível!" O Henrique Mendes ficou lívido. Eu fiz logo assim um ar, vou andando, viro costas e o meu marido volta-se, isto é tudo verdade, não é inventado. O meu marido volta-se para o Henrique Mendes e diz: "Vou casar com esta miúda." E o Henrique Mendes mete a mão à cabeça e diz: "Oxalá, homem, não faça isso, porque ela usa minissaia e tem um ragga." Isto é o retrato dos anos 80.
E entretanto, quantos anos?
Um ano depois estávamos casados. E agora já vamos 41 de vida em comum, 42. 40 de casados.
E cada vez melhor.
Sim.
Cúmplices, muito cúmplices.
Muito cúmplices, muito alinhados, muito apaixonados por isto tudo ainda. O que eu hoje lhe vou contar quando chegar a casa? Que estive na Rádio Observador. E ele vai perguntar-me mil coisas sobre a Rádio Observador.
Aliás, fica aqui já feito o convite público, porque é assim: vai fazer um ano no verão, entrevistei o seu filho, Rui Maria Pego.
Cá está, um descendente da rádio.
Agora estou a entrevistar a Júlia Pinheiro. Portanto, daqui a meio ano, ou antes, já quero estar a entrevistar também o Rui Pego, que é um homem com muitas histórias e o senhor da rádio.
É melhor não lhe falar desta do Mark Knopfler, está bem? E dos Dire Straits.
Combinado, porque senão ele ainda corre comigo.
Ainda faz aquela cara.
O que falam num jantar vosso, por exemplo? Do que se fala? Fala-se de televisão, fala-se de rádio, ou que outras paixões é que têm?
Fala-se de tudo. Fala-se muito de televisão e de rádio, seguramente. Fala-se muito da atualidade Fala-se muito da percepção geral daquilo que é o mundo, fala-se muito da política, do que estamos a viver. Fala-se dos filhos, fala-se das netas, porque agora temos aí uma segunda geração. E depois fala-se da vida todos os dias, daquela que tem a ver com comprar os espinafres, temos ovos no frigorífico, foste lavar o carro e olha, o combustível está mais caro. É uma diversidade absoluta, sendo que há dias que pode estar muito centrado, por exemplo, eu sei algumas coisas sobre as questões das audiências da rádio e tudo mais, sendo que a minha indústria é a televisão. Por quê? Porque meu marido continua muito ligado. Ele sabe quem subiu, quem desceu, ele sabe tudo. E podemos ter uma noite inteira só a falar porque uma rádio subiu ou outra desceu, porque uma televisão está a ter esta performance ou outra. Estamos sempre muito ligados ainda à nossa atividade.
Antes de irmos à questão das audiências, mas em televisão, como está a ser esta fase agora também Júlia Pinheiro enquanto avó, porque é completamente diferente. Eu penso nisto e toda a gente me diz a mesma coisa, que é: os netos não são os segundos filhos.
Não. Eu sou avó há dois tempos. Porque eu tenho duas primeiras netas mais velhas, uma já tem quase 14 e a outra tem 8, que é a Francisca e a Benedita, que são filhas da minha enteada, que não é minha enteada, é minha filha. Mas eu não tive tanta proximidade, porque nessa altura ainda estava em funções como executiva, o meu marido também, diretor das antenas todas da rádio pública. Eu estava como diretora de conteúdos da SIC e da TV, não sei o quê, portanto, não dava. Agora há mais tempo. E agora surgiu o periquito, que se chama Pilar. E de repente, já disse isto várias vezes, este bebê veio nos surpreender, porque não contávamos com ele e ele de repente está aqui no nosso colo e já é uma pessoinha. E eu já não me lembrava do contato próximo com um bebê. A recordação que eu tenho de infância dos meus filhos já está muito diluída. E portanto, de novo, um corpinho com aquele volume, com aqueles refegos. A minha maior surpresa nos últimos tempos foi quando a minha filha Matilde, que é mãe da Pilar, deixa lá o bebê em casa e eu e meu marido metemos na cabeça que vamos dar banho. E já não dávamos banho a um bebê há muito tempo. E quando o meto na banheira, toda uma construção complexa, mas hoje com logística toda dominada, eu toco naquela pele e a pele de um bebê é uma coisa maravilhosa, é veludo. Eu fiquei ao mesmo tempo maravilhada e intimidada. Que vida nova! É um livro em branco. E depois a perplexidade dela, porque somos nós a fazer essa tarefa, normalmente são os pais, e pronto, agora faço todos os dias. E é maravilhoso. Mas é uma coisa de um envolvimento que está para lá da questão desta criança pertencer à minha linha genética. É uma coisa de encantamento pela promessa que é uma vida nova. É maravilhoso.
Olha-se com outros olhos.
É uma ternura. E depois aquela confiança que aqueles olhos mostam, a maneira como nos interrogam, como nos provocam. Também é uma provocadora, já tem sentido de humor, que é a coisa mais importante todas no caráter de alguém. E tem sido, de facto, uma descoberta todos os dias.
Tão bom. Há bocadinho falava-me e dizia-me que um dos assuntos que fala muito com o Rui Pêgo é a questão da política, e fala-se cada vez mais, até mesmo no seu programa.
Falamos, entrevistamos, sim, muita gente da área política.
Sim. A Júlia foi notícia, e não sei se gostou dessa parte.
Eu já sei o que é que me vai falar.
Da questão, quando entrevistou o André Ventura. E a postura, vamos dizer assim, entre aspas, que adotou nessa entrevista. Não se arrepende nada do que fez, primeira pergunta, e se percebe o alarido que se fez à volta disso, sim ou nem por isso?
Eu conduzo um espaço que não é inteiramente jornalístico. E isso tem benefícios e tem limitações. Por vezes, os benefícios são aqueles que fazem com que eu não me arrependa. Não tenho nada que me arrepender. Eu tinha um político num programa de entretenimento, é o infotainment, que não está submetido às regras normais daquilo que é uma performance estritamente jornalística. E, portanto, há espaço para eu me mostrar de outra maneira e ele também. Nomeadamente porque ele, André Ventura, neste caso, mas tiveram lá outros protagonistas. Ontem, há dias, tive o presidente da Câmara de Leiria, por exemplo, o senhor Gonçalo Lopes. Não há um contraditório como há num espaço jornalístico comum. Portanto, não havendo um contraditório, e aquele sendo um espaço em que estamos a dirimir, no fundo, o momento em que nos conseguimos ligar, eu e o entrevistado, eu acho que o que aconteceu nesse momento com o André Ventura é perfeitamente normal. Nós não coincidimos numa série de coisas, há uma série de contradições nele que nas entrevistas podem aparecer, e apareceu ali. Portanto, deu muita agitação.
Mas percebeu isso do seu programa e o fato de ser a Júlia ser notícia por causa disso?
Mas eu acho que não foi por causa disso. Já passaram por aquele programa toda a gente. Eu já entrevistei todos e mais alguns para aquele programa ou outros.
E mais do que uma vez também.
E mais do que uma vez, mas até no passado. Mário Soares, o Jorge Sampaio. Eu fiz um programa chamado "A Noite da Má Língua". Que o João não sei se tem a meia noção do que era.
Eu ouvi a versão mais recente.
Sim, mas a da época foi completamente disruptiva e foi um alarido tremendo. Agora não. As pessoas que vão ali estão à espera que aquilo seja um espaço exclusivamente macio, e às vezes a comunicação não é toda macia. E eu acho que não foi por mim, eu acho que foi porque efetivamente apanhei o André Ventura numa espécie de contradição. E depois porque ele no dia anterior tinha dito que tinha uma casa não sei quantos metros quadrados e naquele dia resolveu dizer que não era. Portanto, tudo isso, no momento em que estava empolado politicamente, estava carregado de tensão, aquilo explodiu. Aliás, eu e o André Ventura simpatizamos muito um com o outro, gostamos muito de conversar um com o outro. Não temos é a mesma opinião.
Até porque é possível termos amigos com outras opiniões políticas e discutir, não é?
Completamente. No caso, o André Ventura, no trato, é uma pessoa muito agradável. Depois, não coincidimos numa série de coisas. E ele gosta. Eu espero que o André Ventura não venha desmentir, mas eu acho que ele acha graça. Ele acha graça a ser levado para territórios onde ele não está tão familiarizado.
Falava aqui da questão do infotainment e o facto da Júlia também dizer que gosta de estar tão presente e ligada à atualidade, gosta que o seu programa também não se foque tanto, porque sabemos que há histórias difíceis de vida e que também as aborda, mas gosta de ter uma componente mais abrangente.
O problema dos programas diários é que é muito difícil todos os dias ter coisas extraordinárias. Ter histórias que sejam surpreendentes, substantivas, que façam a diferença, que as pessoas recordem, que memorizem. O daytime é uma narrativa um bocadinho como uma novela. Todos os dias nós contamos, há dias em que o episódio é melhor do que os outros. E eu gosto muito de vez em quando, sendo que, eu vou dizer isto de forma clara, eu gostaria muito que no futuro não coincidisse de novo. Nós tivemos, por exemplo, essa série de entrevistas na qual participou também o André Ventura, acabou por acontecer agora também para as presidenciais, portanto foi legislativas e presidenciais. Ele estava muito carregado, não era só o olhar do público, o olhar até do resto do nosso universo jornalístico estava muito virado para ali. Eu não me importo nada de voltar a apanhar protagonistas políticos, mas numa altura que não tenham um peso tão grande naquilo que são decisões lá frente, num futuro muito imediato. Uma coisa mais relaxada, mais distendida, mas gosto muito de vez em quando ir para o outro lado e para outras conversas que não tenham a ver exclusivamente com histórias de vida.
Falávamos aqui há pouco de audiências em rádio. Em televisão, nós estamos a passar aqui por uma fase, se calhar, de descoberta até de como é que a televisão se pode reinventar, porque agora a questão do streaming e de podermos ver tudo em qualquer altura. A questão das audiências, dos números, tira-lhe o sono ou nem por isso?
Não me tiram o sono, mas são muito importantes para mim. Eu comecei a fazer televisão em empresas privadas. Na primeira, que foi a SIC, e há uma grande responsabilidade. É totalmente diferente trabalhar para, por exemplo, a RTP precisa de apresentar resultados, mas as suas audiências não são causa de alarme para os acionistas. O Estado estará sempre lá. No nosso caso, não. Nós temos acionistas a quem temos que prestar contas, ou se não temos acionistas, temos um proprietário, que é o caso da TVI, que tem vários proprietários identificados e reconhecidos. Há ali um lado do negócio que é muito presente. Não é uma coisa que me aflija, que eu: "ai, e agora?" Mas dou muita atenção e fico preocupada, mas preocupada no sentido mais saudável do termo. Apenas avaliar, ver tendências, analisar, vermos os gráficos. Não me tira o sono, isso não.
Até porque na altura, e lembro-me disto, ainda é muito presente, se calhar, na cabeça das pessoas, quando tinha o programa à mesma hora que o Manuel Luís Goucha, a imprensa gostava muito de vos colocar, e vocês são sejamente amigos, isso toda a gente sabe, mas em confronto, quando é uma coisa que quase nem faz sentido. Colocar frente a frente.
Não, mas isso aconteceu muito. Acho que já disse isto e vou-me repetir, mas ao contrário do que as pessoas possam pensar e que às vezes o resto da imprensa mais levezinha venda, não há uma grande competitividade entre as várias personalidades dentro da indústria.
Mas alimenta-se muito essa narrativa, não é?
Alimenta-se muito isso. Nós somos todos até bastante próximos. E então o caso do Manuel é um disparate. Mas aconteceu-me o mesmo com a Cristina, quando eu fazia a manhã, e vai na volta, está para lá do empolado. Nós somos, de facto, pessoas que se estimam, que se relacionam, que têm dimensões da sua amizade que vai muito para lá da antena. Mas isso da competitividade com o Manuel é para lá de artificial.
A Júlia já fez muita coisa em televisão. Eu não vi esse programa, mas vi trechos e gostei muito de a ver num programa muito conhecido, e o seu filho também gostou muito, o Rui Maria Pêgo, que era o "É o Mais Fraco".
Sim.
Em que era muito sarcástica e tinha um humor peculiar, vamos dizer assim.
Anglosaxónico.
Sim, possivelmente. É a melhor expressão, porque o formato não é original nosso e nós sabemos. Aliás, continua.
Eu não sei se continua. Acha que sim?
Acho que sim. Não tenho a certeza.
Não tenho a certeza. Já não é a mesma senhora a fazer, que foi em quem eu me inspirei, que era a Anne Robinson.
Exatamente. Mas tudo isto para lhe perguntar Com uma panóplia tão grande de programas, reality shows, ainda fez um também há pouco tempo na SIC. Qual é o formato que tem mais saudades?
Eu gostei muito da Noite da Má Língua. A Noite da Má Língua foi um momento, julgo eu, singular na construção da minha identidade enquanto comunicadora. Eu era uma espécie de braço provocador que tínhamos numa antena nova, como era a SIC, que estava a dar nas vistas, e o exercício de construir todas as semanas com personalidades como o Miguel Esteves Cardoso, o Ruinzinho, o Manuel Serrão, a Rita Blanco, fazermos todas as semanas uma espécie de jornal da atualidade, desgranhado, descabulado, disruptivo, louco, que num primeiro momento as pessoas nem sequer entenderam. Eu tive péssima imprensa nessa altura e fui ostracizada, eu e os outros. E que depois se tornou um programa de cultura popular, completamente.
Quase de culto.
Primeiro foi de culto, depois ficou popular. Sim, foi um programa de culto, completamente. Maldito, no melhor sentido da palavra. Maldito incômodo. E depois foi se popularizando e acabamos por sair da antena, porque de facto estava provado, o exercício estava feito. Mas tenho saudades.
E em dupla?
Em dupla, quem é que eu gostaria de voltar? Mas sempre o Manuel.
Sempre?
Sempre. Eu e o Manuel Luís Goucha temos um-
Aliás, o Manuel Luís Goucha diz sempre que o programa que mais gostou de apresentar foi com a Júlia Pinheiro, foi o "Uma Canção para Ti".
Espero que sim, Manuel, meu amor. Ainda estivemos juntos há pouco tempo. Eu e o Manuel estamos no mesmo patamar das nossas vidas, embora o Manuel tenha alguns anos mais do que eu e tenha muitos mais anos do que eu de experiência televisiva. Mas temos um alinhamento mental, nós temos uma coisa que bate certo. E o Manuel, para mim, que sou uma trapalhona, nunca me preparo excessivamente. Eu sou uma intuitiva e uma impulsiva, como se costuma dizer, uma espontânea. Lá ia eu virando aqui o copo d'água. E o Manuel é justamente o contrário. Portanto, a nossa combinação em dupla é perfeita, porque eu sei, quando estou ao lado do Manuel, que seja lá o que for que nos aconteceu, e mais ou menos aconteceu-nos tudo nesses programas que fizemos juntos, eu estou sempre respaldada ao mais alto nível.
Ele vai sempre dar a mão, não é?
É mais do que dar a mão. Ele entende para onde eu estou a ir. Ele sabe que eu me vou estatelar. E antes de eu me estatelar, ele já está lá a agarrar-me. Ele sabe que eu vou fazer asneira. Eu não faço ideia qual é o próximo passo do alinhamento, mas ele sabe e vai resolver. E isso é uma garantia. E depois o que pomos de soma em cima da comunicação um do outro, dá uma coisa que eu acho que é muito eficaz. Portanto, eu e o Manuel, todos os dias.
E há esse desejo.
Sempre estamos cheia para dizer é tudo possível.
E é possível acontecer, não estamos aqui passíveis de nada, portanto, vamos chutar para o universo, como eu costumo dizer. Ao fim de tantos anos e ligada a muitas histórias que vai ouvindo todos os dias, o que é que ainda a desarma completamente?
O que me desarma é, por exemplo, o que me deixa, às vezes, num estado que não é de aflição. Quando sinto em sofrimento alguém, mas é aquele sofrimento contido, que é aquele sofrimento que é tão profundo, que a pessoa é perceptível na sua linguagem física, mas ela não consegue verbalizar. E isso acontece muito, porque como tenho entrevistas, às vezes, de pessoas com perdas muito grandes e coisas terríveis que aconteceram, eu de vez em quando fico desarmada perante isso. Sinto uma empatia profundíssima, é uma coisa justamente visceral que vem ao de cima e que me desarma. Eu, por exemplo, choro com muita dificuldade, mesmo no dia a dia, não choro muito. E que é uma coisa que faz bem à alma. Mas eu não choro muito. E às vezes a lágrima vem-me, não cai. Não tenho aquela lágrima bonita que faz falta na televisão, não cai. Mas fico travada, porque a dor daquela pessoa está a trespassar em mim também. Portanto, isso sim, desarma.
Linda, leva histórias, muitas delas para casa ou há uma espécie de filtro?
Não, ainda não consigo fazer isso. Aliás, nós costumamos dizer, quem esteve na pesquisa, na investigação, na parte toda jornalística do programa que fazemos todos os dias, este há oito anos, mas já fizemos outros, que não conseguimos ter filtro. Portanto, tornamo-nos todos hipocondríacos, um bocadinho alarmados, a hiperventilar com a coisa mais simples, porque já nos contaram histórias que começam de uma maneira tão simples e depois transforma-se numa grande tragédia que, de facto, há aqui uma hipersensibilidade a estas coisas. E de vez em quando carrego comigo, vão para casa. E depois aquilo tem que sair, à noite, ao jantar, vai-se ali falando outras coisas e vou diluindo.
Com tantos anos de televisão, há ainda alguém que seja assim um convidado de sonho?
O Ronaldo! O Ronaldo não me liga nenhuma, nem ele e o Mourinho.
O Mourinho está mais perto.
Não sei. Eu imagino que falem para a sua comunidade, que é a do desporto e a do futebol.
Estando em atividade, pela profissão que é, é sempre mais difícil vê-los noutro tipo de formatos, não é?
Sim, mas por exemplo, o Ronaldo dá umas entrevistas altamente entusiasmadas ao Piers Morgan. Porque é que não dá a um órgão de comunicação, não é, português? O Mourinho, não sei, não estou tão a par. Do Piers Morgan vi, do Ronaldo, não estou tão a par, mas tenho pena, porque, de facto, são personalidades que me suscitam muita curiosidade. A sua construção mental, aquilo que têm para dizer, são carreiras extraordinárias, têm que ter um foco, uma disciplina, uma consistência sobre aquilo que é a sua identidade, que eu gostava de os entrevistar. Deixo aqui o meu convite para o Dubai. Não sei se é o Dubai, não sei se o Ronaldo continua no Dubai ou não, mas o Mourinho está ali mais perto, ali em Setúbal. Pode ser que aconteça.
Aliás, é público essa questão. Disse que aos 40 tinha receio de desaparecer da televisão. Já vão mais de 30 anos. O que é que continua a entusiasmá-la todos os dias e ir para o trabalho com a mesma vontade, vigor? E vemo-la todos os dias praticamente igual. Se calhar, há histórias da sua vida que a levam para sítios mais difíceis e dias menos bons, mas quem a vê todos os dias sente o sorriso e a proximidade. O que é que continua a entusiasmar a Júlia Pinheiro?
Eu vou todos os dias trabalhar, e isto parece uma frase feita, mas é porque eu tenho um grupo de pessoas que trabalha comigo todos os dias, que é maravilhoso. Maravilhoso no sentido de que partilhamos experiências profissionais há muito tempo, ou seja, há um sentimento de pertença e identificação muito profundo. E integrámos uma metodologia de trabalho entre todos, que eu costumo dizer para mim própria, que é a síntese das sínteses do que pode acontecer a alguém quando há muitos anos não vieram ao de cima nem os defeitos, nem aquilo que são os automatismos feitos do fato de as pessoas trabalharem muito tempo juntas. Não vieram os defeitos para cima, vieram só as coisas boas. E isso é uma das coisas que me leva todos os dias para o trabalho com muita alegria, porque sei que me vou divertir com aquelas pessoas, com a minha equipa. E depois, quase todos os dias, há um momento de, se calhar encantamento é uma palavra, mas de surpresa. Eu fico surpreendida, eu ainda me surpreendo. Eu tenho sempre uma grande curiosidade. O que é que esta pessoa me vai dar? O que é que eu vou conseguir que esta pessoa que me conte? Há coisas muito tocantes, muito bonitas, e é isso que me leva todos os dias trabalhar. Eu vou me surpreender, e se calhar é com a pessoa que eu estou menos à espera. Normalmente, quero deixar esta nota aqui, normalmente não são pessoas, as celebridades e as figuras públicas, não são essas que me deixam com um sorriso de maravilhamento, se é que a palavra existe. São, de facto, as pessoas que vão ali contar, às vezes, com tanta dificuldade de entrar no jogo, e depois quando se descontraem e se distendem, me dão ali uma conversa maravilhosa. Eu não faço entrevistas, meu amigo. Eu tenho conversas. O meu amigo disse isso no início aqui na conversa, na nossa introdução. Eu não quero entrevistar ninguém. Eu quero conversar. E se a conversa acontecer, se passarmos desse patamar da entrevista para uma conversa, é um bom momento de comunicação, porque é verdade.
Uma mania que ninguém saiba sobre a Júlia Pinheiro. Estamos mesmo a terminar.
Não tenho muitas.
Sim, um guilty pleasure.
Já disse. Maus filmes.
Música. E música? Não falámos de música.
Não, música não. Música é mais complicado. Sou mais seletiva. Guilty pleasure, não sei. Não me ocorre nada. Peço desculpa de não dar aqui nenhuma resposta surpreendente. Posso dizer, guilty pleasure: adoro o cheiro de gasolina.
Eu também. Somos dois.
Somos dois. Gosto muito do cheiro de camas feitas de fresco, lençóis lavados. E acho que o meu cão sorri para mim. Um dos meus cães ri-se para mim tremendamente, que é o Blanco. Afilhado, Rita Blanco.
Júlia Pinheiro, mesmo para terminar, em relação ao futuro, o que é que a inquieta?
Como toda a gente, vemos com grande apreensão aquilo que é a conjuntura internacional. Mas a mim o que me inquieta profundamente é a falta de conhecimento e a procura de ideias. Ou seja, o advento das redes sociais e o digital têm que nos trazer mais. Trouxe-nos muito, é verdade, mas temo as gerações que vêm aí atrás e que não tenham lido o suficiente, que não tenham literacias, não tenham feito aprendizagens. Isso aflige-me.
Júlia Pinheiro, a porta de casa, aqui do Observador, está sempre aberta.
Muito obrigada.
E foi muito bem recebida, aliás, por toda a equipe, vou aqui confidenciar que chegou e teve um mar de gente.
Foi uma festa. Vou voltar. Se tiverem maus filmes, estou garantida.
Vamos tratar disso aí numa das nossas televisões. Muito obrigado por terem vindo.
Obrigada eu, João.
E muito sucesso.
Foi muito bom. Obrigada.
Obrigado