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Eu não consigo conceber esta ideia, esta vontade de guerra depois da pandemia. Não consigo perceber esta vontade de guerra, muito menos em pessoas que tenham filhos, porque provavelmente não são os seus filhos que vão pra linha de frente da guerra. Eu não consigo pensar em pais e mães que queiram deixar os seus filhos irem pra guerra. A guerra tem sido parte da história da humanidade, mas não é uma obrigação da história da humanidade. A obrigação dos humanos é respirar. Há algumas necessidades básicas, mas a guerra não é uma das coisas que nós temos que manter ad eternum. Pode claramente ser bastante minimizada. E este espírito guerrilheiro é algo que me incomoda, sobretudo pensando que os nossos filhos ou nós mesmos podemos ir parar a uma guerra. Não é um assunto sobre o qual eu gosto de bruçar muito e também acho que todas essas vozes que procuram a guerra, não se deve falar sobre elas muito, porque elas ganham de cada vez que aparece o seu nome.

Diz-se que a música é o que acontece entre as notas, mas no caso do convidado de hoje, a música é também o que acontece entre as ideias. O seu primeiro mestre foi um teclado de brincar oferecido pelo pai, que chegara de Angola apenas com a coragem nos bolsos. Podia ter sido apenas um pianista de conservatório, mas a sua inquietação levou-o mais longe. É o homem que operou o milagre de sentar o fado e o jazz à mesma mesa, sem que nenhum perdesse a sua identidade. Tem nos ensinado que todos podemos improvisar e que o erro é, na verdade, uma porta aberta para a criação. O seu desafio mais recente levou-o para terrenos mais sombrios. Aceitou a tarefa minuciosa de traduzir em sons a tragédia, o isolamento e o abismo psicológico de um dos crimes mais midiáticos da nossa história recente. Assina, desta forma, a banda sonora original do novo podcast plus do Observador, os fecheiros do caso Carlos Castro. Mas há muito mais para conhecer do Júlio Resende, pianista, compositor, homem de muitos ofícios e com a inquietação sempre presente. Bem-vindo aqui ao Observador.

Olá, João. Uau! Belas palavras, belo texto. Obrigado. Não estava à espera, não sabia que isto ia acontecer.

É a minha missão de vida. É surpreender os convidados com uma pequena introdução.

Conseguiste ser sucinto e muito forte. Acho que isto está show.

Alguma coisa que mudavas aqui, daquilo que eu disse?

Não. Nada.

Boa.

Nada.

Boa.

São essas algumas das chaves da minha vida profissional, emocional e, obviamente, existencial.

O que achas que as pessoas pensam? Fiz esta introdução, que também acho que combina muito a forma como as pessoas te veem, mas qual achas que é a primeira coisa que as pessoas pensam quando pensam em ti, Júlio Resende, enquanto artista?

Boa pergunta. Eu espero que seja, qualquer coisa do tipo: este garoto gosta de improvisar sobre o que quer que seja e criar sobre o que quer que seja e com a sua dedicação, normalmente, eu gosto de escutar. Seria uma boa frase que eu gostava que alguém dissesse a si mesmo, mesmo que eu não estivesse à espera. Estou pensando nessa pessoa. Mesmo que eu não estivesse à espera que ele fizesse agora o Cinderella Cyborg, depois de fazer o Amália por Júlio Resende, ou fazer o Alexander Search, e mais tarde por fazer o Fado Jazz. Todos esses mundos de música, que são apenas música, são formas de abordar a música, me encantam. Cada dia acho que eu tento perturbar um bocadinho a ordem pública, no bom sentido. A ordem dos ouvidos e da escuta, e tentar, obviamente, que as pessoas recebam algo de pelo menos autêntico, original, na medida em que vem de mim mesmo. A origem sendo a origem, algo muito concreto. E quando eu digo vem de mim mesmo, quer dizer que eu sou uma pessoa como tu e todos os nossos ouvintes, somos pessoas únicas e isso provou a nossa impressão digital. Nossa impressão digital prova que entre seis ou sete bilhões de pessoas, cada um de nós é um ser absolutamente único e com uma existência e uma história de vida única e consegue transformar isso em música sua, por exemplo, ou em escrita sua, ou em programa de rádio seus.

Muito bem. Tu falaste aí uma coisa, tu és muito mais de escutar do que falar. É uma certa timidez também que existe em ti?

Bem, aqui na entrevista eu tenho que falar. Mas prefiro mil vezes escutar.

Mas música ou pessoas também e pessoas que te inspirem de uma certa forma?

Adoro ouvir pessoas, adoro ouvir podcasts e entrevistas. Adoro ouvir entrevistas, é algo que eu faço bastante. Exatamente por isso mesmo, para conhecer a história de vida de cada uma das pessoas, porque são tantas vidas, tantos modos de abordar estes 80, 90, 75 anos que agora se vive. Há tantos modos de existir e de fazer coisas, e também há modos de estragar as coisas.

Mas esses também são interessantes de conhecer para estarmos alerta, não é?

Sim. Também são interessantes de conhecer. As pessoas, no seu geral, são interessantes. Inclusive as más, como estavas a dizer, temos que estar atentas às mesmas para que não nos aconteça nada a nós.

Tu és fã do improviso e diz muitas vezes que o melhor improviso é aquele que está preparado ou que é preparado de uma certa forma. Mas sobretudo, também és fã do erro e de errar para chegar a algo que, se calhar, ainda não se sabe bem o que é, mas tu chegas sempre a uma conclusão. O que isso também te tem ensinado a ti enquanto artista, mas também sobretudo como pessoa?

Vou ser muito sincero, eu acho que talvez nunca tenha falado nisto num programa de rádio. Não gosto muito de errar na minha vida pessoal. Talvez a maior parte de nós não goste.

Até porque pode ter consequências mais diretas, mediante o erro que fazemos.

Pode ser, de facto. Dói bastante errarmos na nossa vida existencial. Vou chamar assim, existência do dia a dia, no cotidiano. Mas adoro improvisar. E nessa medida, o que acontece? Eu tento não preencher os meus dias com demasiados compromissos. Ou seja, o meu compromisso para comigo mesmo é estudar piano. Fora isso, quero tempo. Tenho um filho desde há oito anos que me obriga também a estar concentrado nele. Ele é mais importante do que o piano. Ou seja, eu tenho duas missões para comigo mesmo: cuidar do meu filho, cuidar da minha família e cuidar do piano. Entre isso, gosto de improvisar e de estar livre para fazer.

Estamos a construir camadas.

Sim. Essa disponibilidade para improvisar e para estar disponível para aquilo que vai acontecer no dia ou em cima do palco, é fundamental para me sentir vivo. A vida, na verdade, não é uma repetição. Cada dia é um dia novo em todos nós e acho que temos que estar muito disponíveis para novos acontecimentos e novas possibilidades, e respirar fundo quando são maus e também respirar fundo quando são muito bons, e tentar encontrar o eixo nessa improvisação geral da vida.

O teu filho tem algum gosto especial pela música? Acha fascinante a questão do piano ou nada para aí virado?

Meu filho tem um fascínio imenso por música e um não fascínio imenso por futebol, que é outra coisa que eu gosto muito. O que é muito engraçado, porque eu sempre adorei jogar futebol e sempre adorei música. E quando penso em mim desde miúdo, jogar futebol e fazer música são as coisas que mais me acompanharam.

Então deixa-me perguntar-te: não sei se tu tinhas aqueles convívios ao final do dia em que os pais ficavam em casa à espera dos miúdos, tu eras daqueles que ficava mais por casa ao piano ou que ia jogar bola com os teus amigos, dava tempo para os dois?

Dava tempo para os dois.

Ok.

Sempre deu tempo para os dois.

Mas é preciso disciplina.

Sim, ou também muito prazer. Os dois gestos davam muito prazer e com isso a disciplina torna-se mais fácil. Também acho que devemos procurar executar coisas que nos trazem prazer, porque também será mais fácil encontrar uma disciplina nisso.

Eu falo aqui em disciplina porque se calhar para um miúdo é muito mais difícil, tendo duas paixões que gosta bastante, às vezes o mais fácil é livrar-se, entre aspas, de uma delas, não é? Ou não dar tanta atenção.

Teve que ser, mas mais tarde libertei-me de treinar num clube de futebol, uma coisa assim, e concentrar-me noutras coisas, inclusive na academia, na escola normal, tive que ir me libertando. Eu tirei o curso de Filosofia, mas na verdade, o que eu fazia durante o meu dia era mais estudar música do que estudar filosofia. Consegui fazer as duas coisas, mas a filosofia ficou um pouco prejudicada. Como tu disseste, há tempo para tudo, mas alguma coisa vai ser sacrificada na balança. Isto para dizer que o meu filho tem um grande ouvido. A genética é, de facto, uma coisa fantástica, mas é engraçado como essa genética foi ativada na parte musical, mas não foi de todo ativada na parte desportiva e futebol. E tem graça, é só isso que eu acho que tem graça. O gajo não vê um jogo de futebol comigo, mas música ouve desde miúdo, que ele gosta da Maria João Pires, do Keith Jarrett, do Caetano Veloso, do Gilberto Gil, do António Zambujo.

Tem que idade? Oito anos?

Tem oito anos e consegue cantar os solos e essas coisas. Tem uma bela orelha. É muito engraçado o que as crianças conseguem fazer com os seus dons e depois com a escuta permanente e com o trabalho permanente desses dons.

Ainda que a genética ajude.

Não, a genética ajuda, mas pelos vistos, claramente, senão também depois tens que coafetar com essas coisas. Ou seja, ouvíamos música no carro, ia para a escola, ouvíamos música em casa. Ou seja, esse ouvido está lá, mas se não for trabalhado, se não for afetado, se não for estimulado, é essa a palavra mais certa, se não for estimulado, não vai acontecer.

Se ele um dia chegar a casa, não sei se já existe esse desejo, e dizer: "Pai, quero ser artista". Para alguém que está no meio, que conhece a indústria, que sabe tudo o que se movimenta, os prós e os contras, é uma rede de apoio que ele vai encontrar?

Apoio, sim. Uma rede de apoio.

Esse suspiro.

O suspiro é outra reflexão mais recente sobre a questão de ser artista, mas já vou falar sobre isso. Esse apoio ele vai ter naquilo que quer que seja que ele queira fazer, que faça bem a ele mesmo e que faça bem ao mundo. Mas ser artista é algo que eu recomendo a quem tiver essa vontade. Tem me preocupado nos últimos anos, também desde que fui pai e desde que cheguei aos 40, obviamente, o futuro. A vida de artista é uma vida volátil e preocupa-me, obviamente, também minha fisicalidade. Os concertos saem-me do pelo.

Sim.

Então tenho pensado um pouco sobre isso, mas eu não vou desistir. Podem escutar lá em casa, que eu não vou desistir, a não ser que me obriguem. E ser artista é algo maravilhoso, porque eu sinto sempre que estou a dar um presente, ou seja, um presente a mim mesmo e um presente às pessoas. É o melhor que eu posso fazer por elas, é dar-lhes a minha música. É o modo que eu tenho de as acarinhar. Também quero ser bondoso com elas em gestos, em geral, mas vamos pensar que a música é um gesto onde eu sinto que estou a ser o mais bondoso possível.

Ao mesmo tempo, é a música que te faz e deixa sentir mais vulnerável?

Sim, procuro. Talvez, sim.

Ou procuras essa vulnerabilidade?

Sim, esta ideia de artista, na verdade, vem atrelada à necessidade de ser sensível.

Ou de sofrimento. Os artistas sofrem demasiado, às vezes.

Esse sofrimento tem a ver com a sensibilidade, mais uma vez, porque tu tens que ser extremamente sensível. Tornaste-te sempre muito sensível para todo o teu ser, vamos chamar de alma também, o teu espírito estar disponível para o mundo e vai sentir muitas coisas que se calhar, se não fosses artista, podias proteger-te mais. Mas acho que há uma obrigação de abrirmos à sensibilidade e isso às vezes dói. Mas é também maravilhoso. Todas as coisas têm dois lados.

Claro, a vida tem sempre dois lados. Nem é que seja o bom e o mau, mas permite-nos sempre isso. Nós há pouco estávamos a falar aqui do erro, do improviso. Ia te fazer aqui uma questão mais profunda no sentido também de análise da nossa sociedade, até porque tendo em conta o tempo que vivemos com guerras, instabilidade, um pouco por todo o mundo e até cá em Portugal, tu acreditas que se as pessoas improvisassem mais, o nosso mundo estaria melhor? Se tudo não fosse demasiado pensado, a sociedade poderia ser mais democrática nesse sentido?

Aí já não. Vou te dizer, porque, na verdade, eu acho que há uma falta de pensamento e falta de racionalização sobre as coisas. Em cima do palco, e quando eu estou a improvisar, a ideia é: eu já trabalhei tanto isto e já pensei tanto sobre isto, e já refleti tanto sobre esta música, que eu sou capaz de a dominar e de a domar instantaneamente em cima do palco com os meus parceiros. Mesmo assim, ela surpreende-me e é sempre maior do que eu, e é sempre um desafio. Mas em relação às coisas do mundo e ao modo como nos comportamos, eu acho, na verdade, estamos numa altura em que as emoções extravasam aquilo que deviam extravasar. Neste caso, acho que estamos a deixar-nos ser levados pelas emoções e devemos racionalizar e pensar mais sobre aquilo que fazemos, porque senão as coisas não correm bem.

Tu falaste aqui do teu filho há bocadinho, de oito anos, sendo tu pai, há com certeza agora também outras preocupações. O que te inquieta mais neste mundo que estamos a construir?

Eu não consigo conceber esta vontade de guerra. Depois da pandemia, não consigo perceber esta vontade de guerra, muito menos em pessoas que tenham filhos, porque provavelmente não são os seus filhos que vão pra linha da frente da guerra, porque eu não consigo pensar em pais e mães que queiram deixar os seus filhos irem pra guerra. A guerra tem sido parte da história da humanidade, mas não é uma obrigação da história da humanidade. A obrigação dos humanos é respirar. Há algumas necessidades básicas, mas a guerra não é uma das coisas que nós temos que manter ad eternum. Pode claramente ser bastante minimizada. E este espírito guerrilheiro é algo que me incomoda, sobretudo pensando que os nossos filhos ou nós mesmos podemos ir parar a uma guerra. Não é um assunto sobre o qual eu gosto de bruçar muito. E também acho que todas essas vozes que procuram a guerra, não se deve falar sobre elas muito, porque elas ganham de cada vez que aparece o seu nome.

De alguma forma. Ia também só te perguntar pra terminarmos este tema, estamos aqui a chegar ao final da nossa primeira parte. O teu filho já tem noção, possivelmente, daquilo que acontece, até porque há muitas notícias agora com a questão das redes sociais. Não sei se ele tem um contato direto ou não com isso, ainda sendo muito jovem. Como é que se explica aquilo que acontece no mundo, aquilo que está a acontecer, sendo que ele vai estudar isso também em História mais tarde ou mais cedoCom a questão, muitas vezes, e hoje em dia há muito esta tendência, explicar que há um lado bom e um lado mau, mas como é que se explica isto a uma criança?

Ele ainda não tem nenhuma noção, que não seja no recreio da escola.

De certa forma, ainda bem.

Sim, ele não tem nenhuma noção sobre o bem e o mal, que não seja ele no recreio da escola perceber que não se deve magoar os outros ou que se deve pedir desculpa sobre alguma coisa. São essas as noções de casa e as noções que ele passa pra escola, espero eu, e graças a Deus tenho recebido esse feedback, esse retorno da escola. O que se está a passar neste momento em Portugal e no mundo, em relação a algumas vozes guerrilheiras, é algo que eu preferia não transmitir aos nossos filhos e filhas, mas vamos ver se no final é o povo que mais ordena.

Aliás, celebramos este sábado, 25 de abril, uma data tão importante pra nós em termos de liberdade e tudo aquilo que ela representa. Júlio Resende, vamos fazer aqui uma curta pausa. Já voltamos pra segunda parte e pra falar desse grande desafio, fazer uma banda sonora para o novo podcast Plus do Observador. Até já. Estamos de regresso para a segunda parte do "Em 40 Minutos", já com o elogio aqui em off do Júlio Resende a esta pequena trilha que temos aqui do "Em 40 Minutos". Tinhas feito de forma diferente, não é? Mas gostaste desta?

Gostei. Estava a te dizer que ia perguntar de quem era e gosto do beat, gosto da vibe, da vibração. Teria feito outras coisas, mas é porque é normal, obviamente, cada um faz mais ou menos. Deve ser essa a ideia, gostar das coisas dos outros e fazer as tuas próprias coisas.

Claro. Olha, vamos falar aqui de um projeto teu mais recente, "Os Segredos do Caso Carlos Castro". Tu fizeste esta banda sonora deste novo podcast Plus do Observador. Falamos aqui de um crime bárbaro e queria te perguntar, para uma pessoa que, e sabemos disso, não gostas nada deste tipo de temas, true crime, coisas que envolvam este tipo de crimes, como é que se transporta a beleza para aquilo que tu fizeste aqui neste trabalho? E eu vou colocar aqui em fundo, só pra irmos ouvindo aqui também um bocadinho desta tua banda sonora do novo podcast Plus.

Foi um desafio ao qual me apeteceu dizer que não, em primeira instância.

Porque te disseram qual era a história.

Sim, o lado negro da humanidade é algo ao qual eu estou atento e estudei e não gosto nada de estar os dias com ele. Mas eu depois pensei que o desafio era forte e foi bonito, o Observador foi gentil com o desafio que me fez e eu também pensei que, eu até disse na entrevista que fiz no dia do lançamento do podcast, que o Kubrick, que fez o "Shining", se me pedisse uma banda sonora, eu ia fazer. É preciso descobrir como é que se pode fazer uma banda sonora pra algo deste gênero. Eu pensei num blues, porque como isto foi algo que aconteceu nos Estados Unidos, ainda que tenha sido feito por portugueses, pensei num blues, mas o blues não estava a sair bem e mudei para um fado, que é a forma de blues portuguesa. O fado até é mais antigo, na verdade. O blues tem a sua origem até nos maus que Portugal e todos os países que se envolveram em rotas de tráfico de pessoas criaram. Mas isso faz parte da história da humanidade, não vamos conseguir mudar tudo, mas conseguimos ser melhores.

Quanto tempo é que demoraste a chegar a esta sonoridade que vamos ouvindo aqui também em fundo? Falaste da questão dos blues, mas quanto tempo demorou até chegares a essa sonoridade certa e que tu achaste que exprimia aquilo que era preciso pra este podcast Plus?

Eu deixo sempre a música falar, ou seja, a partir do momento em que eu estava a tentar o blues e não estava certo, ou seja, o meu ouvido, o meu espírito, minha alma diziam: "Isto não está certo", mudei rapidamente e encontrei também rapidamente aquilo que a música dizia: "Isto sim, isto está certo", pelo menos pra mim. E o que eu pedi também foi, eu fiz uma espécie de tema central, compus o tema central, que as pessoas vão ouvir, uma melodia central, que aparece mais vezes, mas eu fui compondo ao longo da narrativa do próprio podcast, como se fosse também uma composição em tempo real. Tem esses dois momentos, o tema central, que é composto, e depois uma composição em tempo real, ao ouvir a narrativa da Joana e ouvir tudo o que se passava do ponto de vista da sonoplastia.Foi isso que aconteceu.

A história em si, deram-te algum tipo de guião para tu leres para tomares mais conhecimento da história? Porque aqui falamos de uma história que é conhecida, mas neste podcast temos acesso a novos dados que até então não conhecíamos. Como é que foi feito esse processo?

Deram-me o guião.

Tiveste prazer em ler?

Eu li a primeira página e talvez um bocado da segunda, mas depois como ia ouvir a Joana a contar a história, também esperei por isso. Como não tenho nenhum prazer, neste caso, e não sou a pessoa que ouve ou vê coisas sobre crimes em geral, porque para mim o mais fantástico do humano é quando ele consegue superar as suas paixões. Agora, a paixão é algo violento e nós temos a ideia da paixão como uma coisa boa. E é, e pode ser uma coisa boa.

Também, se calhar, é aquela narrativa que queremos mais acreditar, não é?

Qual narrativa?

Que é uma coisa boa.

Sim, o termo é usado também de um modo benigno, mas a paixão como algo maligno e este momento passional, apesar de ser um crime passional, é algo que eu sinceramente espero que um dia se vá conseguindo mudar. Não é possível, ou seja, desde que há a história da humanidade que isto se passa. E eu acho que os nossos avanços têm sido, sobretudo, sociais, ou seja, do conjunto. O indivíduo, não. O indivíduo tem cometido as mesmas atrocidades e os mesmos gestos heroicos ao longo de toda a história da humanidade e com os relatos que há. Mas a sociedade tem conseguido, às vezes, comportar-se de um modo espantoso. Nós, por exemplo, abolimos a escravatura, a pena de morte, outras coisas desse gênero. Fizemos uma revolução muito pouco sangrenta em relação àquilo que podia ter sido. Revolução dos Cravos, quer dizer, é fantástico. De vez em quando, a humanidade tem momentos inspiradores.

Nós estamos em 2026. Se olharmos ali para a esquina, a inteligência artificial está ali a acenar. O que achas que a tua banda sonora consegue trazer também para este podcast, que a inteligência artificial, e hoje em dia é muito fácil, temos bastantes canções já geradas por esse algoritmo, não consegue trazer?

Não sei dizer. Sobre a feitura de músicas em casa ou em estúdio, não sei quais serão as diferenças no futuro. Ainda há diferenças no presente, mas não sei quais são as diferenças no futuro. A inteligência artificial, como os computadores, serão mais um meio, uma ferramenta para os humanos usarem.

Tu usas de alguma forma no teu dia a dia?

Em música, não. Mas eu acho que vai haver uma coisa que, isso sim, vai ser diferente. Vai até haver robôs a fazerem concertos, música clássica, jazz, essas coisas. Vai haver, de certeza absoluta.

Assustador, não é? Há a ausência de emoção.

Não, o que eu acho é que tu vais olhar para aquilo como uma máquina de lavar lava roupa. Ou seja, aquilo está programado para fazer aquilo e será perfeito a fazer aquilo. Enquanto o grande valor vai ser de tu ires ver um concerto de um humano, que é imperfeito, e que naquele momento te parece algo divino. Esse é o grande valor, vai ser a presença.

E voltamos aqui à questão do erro e do improviso, que é um robô, mesmo sendo treinado para esse conceito de concerto. Às vezes até, tu há bocadinho fizeste aí um suspiro e eu fiquei a pensar nisso, do gênero, se eu estivesse à conversa com um robô, isso não existia.

Verdade.

Falta essa verdade, essa densidade.

Mesmo, é verdade. Os robôs não vão suspirar.

Ou podem, mas não sei, é demasiado assustador.

Vai ser grave. Sim, mas vai ser das coisas mais difíceis que eles vão conseguir fazer. À partida, não vão conseguir suspirar, não. Vamos ver.

Veremos como é que isto evolui. Olha, perguntar-te só para terminarmos este tema do ficheiro dos casos, os ficheiros do caso Carlos Castro, assim é que é, o novo podcast Plus do Observador. São desafios como este também, e tu já falaste aqui da questão de não seres fã deste tipo de temáticas que também te tiram da tua zona de conforto e permitem, claro está, a tua evolução em mais camadas enquanto artista.

Claro. Sim, uma das coisas que me levou a aceitar, obviamente, foi ter que sair da minha zona de conforto e tentar criar algo. Eu acho que, pelo menos a música, esta música, acho que é uma boa catarse daquilo que aconteceu. O fado serve de catarse das coisas que os portugueses enfrentaram, das coisas difíceis que os portugueses enfrentaram ao longo da sua história geral. E passaram por muito. Então eu acho que este fado, à minha maneira, é uma catarse, uma espécie de expulsão deste acontecimento trágico.

E podemos ouvir-te no novo podcast Plus o Observador, os ficheiros do caso Carlos Castro. Conta com a banda sonora original do Júlio Resende, a narração da atriz Joana Santos, que também já esteve cá no "Em 40 Minutos". Aliás, esse episódio está também disponível em podcast. Júlio Resende, tu tens novidades para nos contar dois espetáculos que estão aí a chegar nos dias 8 e 10 de maio. Disseste-me hoje que já estão esgotados. Portanto, vamos pôr aqui em inveja a quem nos está a ouvir e não conseguiu, se calhar, um bilhete.É um espetáculo focado no silêncio?

É um espetáculo dedicado ao Japão e à minha relação com o Japão. Fiz duas viagens ao Japão, uma em 2013, 2014, não me lembro bem. Eu não sou bom com datas exatas.

Esse fascínio que há pelo Japão, de pessoas que nunca lá foram, mas que querem muito visitar, tu confirmas que é real?

Eu acho que é a viagem da vida de toda a gente. Convém mesmo irmos ver como é que os japoneses são e a beleza que eles têm na sua forma de ser. São muito belos, muito fortes. Se pensa muitas vezes no Japão e nas regras e no Oriente, as regras estão pensadas para que toda gente se sinta melhor. Não estão pensadas para serem castradoras. Permite-me a insistência, senhor.

Esse é o ideal de liberdade?

Não se fala ao telemóvel dentro do metrô. Para quê? Para que não se incomodem as outras pessoas. Uma pessoa a falar aos altos berros ao teu lado vai te incomodar.

E muitas vezes nós não temos coragem para dizer que nos está a incomodar.

Podes escrever. E essa ideia de respeito pelo outro é algo que existe bastante no Japão e nota-se. Obviamente, a ideia de silêncio também nos templos. E neste caso também, como eu estava a dizer, no comboio, no metrô, nessas situações públicas e muito mais. O modo como eles gostam de fazer as coisas muito bem, o modo como eles não gostam de dizer que não. Eu vou falar sobre a minha experiência no Japão e sobre a minha relação com o Japão. E a música não será japonesa. Eu não toco música japonesa, vou mostrar talvez algumas fotografias, algumas coisas que me aconteceram no Japão e a música estará imbuída de um espírito meditativo, provavelmente.

É um espetáculo imersivo?

Não, eu diria que é tão imersivo quanto todos os outros que eu faço. Apenas vai haver, como é piano solo, ainda há mais silêncio à volta. E então as pessoas ainda fazem mais parte dessa música. E quando há mais silêncio, as pessoas têm tendência a tentar calar-se ainda mais e ouvir ainda melhor. O silêncio estará por lá, mas eu vou tentar dizer qualquer coisa e mostrar qualquer coisa das minhas viagens ao Japão e depois a música, que eu não sei qual vai ser, vai aparecer juntamente com esses diálogos, essas amostras e esses acontecimentos.

Teres pessoas disponíveis para irem te ouvir num espetáculo muito específico e em que o silêncio talvez seja uma das palavras de ordem, como é que te deixa enquanto artista perceber que as pessoas realmente estão ali para te ouvir, para te sentir, para te acompanhar nessa experiência que vai ser este concerto de dois dias, que aliás, voltamos a frisar, já estão esgotados e sei que por ti fazias mais datas, não é?

Pode ser que haja uma data extra, mas ainda não sabemos. Por agora estamos esgotados.

É bom dizer isso, não é?

Sinto-me feliz, porque a música instrumental não é algo que seja muito ouvido em Portugal, nem no mundo em geral. E os portugueses têm me tratado muito bem.

Sentes que é preciso outra sensibilidade para a compreender e que as pessoas muitas vezes não estão dispostas, lá está, para sentar, para ficar em silêncio e para compreender esse instrumental, como tu dizias, essa música instrumental de uma outra forma, com outros ouvidos?

Sim, acho que é preciso um foco. As pessoas sentarem-se e focarem-se um pouco mais do que aquilo que é habitual. Mas normalmente saem revigoradas com esse gesto. Mas sinto que, em geral, as pessoas ouvem música com uma voz por detrás. Às vezes é só um hábito, não quer dizer que elas gostem mais. Se de repente se mudasse para ouvir música com menos voz, mais música instrumental, se calhar também iam gostar. Os hábitos também nos constroem. Tenho sido bem tratado pelos portugueses e pelo mundo em relação à minha música instrumental. Às vezes tenho vozes e adoro a voz humana, acho que é o instrumento mais bonito que existe, melhor que o piano. A voz humana é o mais orgânico, mas acho que o piano e a música instrumental é algo muito forte e merece ser escutada com amor.

Falávamos aqui da questão do silêncio. Tu trabalhas muito no silêncio. Alguma vez ele te assustou de alguma forma, trabalhar nessa densidade?

Sim. Antigamente eu estava mais à vontade com a solidão de estudar muitas horas. Acho que foi pós-pandemia, fiquei com menos vontade. E pós-gravação do primeiro disco a solo e dos concertos a solo que eu fiz, do "Amália" pro Jogo Resende, aí decidi que a vida é mais bonita em conjunto. Quando eu estou a solo e as pessoas estão a ouvir, eu estou em conjunto com elas também. E também em relação com o piano.Dos grupos. Não gosto de grandes grupos, mas gosto de duas, três, quatro pessoas. Gosto mais de me partilhar com elas.

Falaste aqui de vozes. Quais são as vozes, emergentes ou não, tu és uma pessoa, acredito eu, que gostas muito de ouvir música, mas que te fazem subir o volume do rádio ou de um disco que estejas a ouvir, algo que te faça ficar impressionado por essa beleza que descrevias há pouco?

Muitas vozes. Fui ver um documentário ao São Jorge sobre o Jeff Buckley, que era alguém que eu já ouvia desde há muito. Esse documentário é muito bonito e eu acho o Jeff Buckley um artista e uma voz absolutamente extraordinária. Há um disco onde ele está dentro de um café a cantar uma data de músicas, músicas indianas, músicas dele, chama-se "Live at Sin-é", era um bar em Nova Iorque, acho eu. É um belo disco, menos conhecido, que vale muito a pena ouvir. O artista na sua brutidade, na sua pureza, a ter que lutar com um público um pouco, às vezes, ruidoso, mas que ele consegue calar com a sua magia. Jeff Buckley, há qualquer coisa na voz e no espírito dele que acho que deve ser ouvida transversalmente. Só para dar um exemplo.

Mas há mais?

Quem diz ele, diz a Amália. Mas essa acho que todos nós já compreendemos mais facilmente.

Achas que para alguém que não viveu esse tempo, conseguimos perceber a grandeza que a Amália, o quanto ela levou o nome de Portugal fora de portas? É difícil imaginar, se calhar, um tempo em que se ela agora estivesse aqui, o que ela seria? Quão grande seria a Amália?

Eu acho que é fácil de imaginar, é fácil de sentir a força artística dela. De todos os modos, não só é cantora, como é artista. Vocês podem procurar, ela mudou várias vezes e pensou muito sobre aquilo que fazia e mudou várias vezes a estética do fado. Mas isto para dizer, ela seria um fenômeno mundial, mas ela já foi um grande fenômeno mundial.

Sim.

Ela esteve em todo lado do mundo, gravou no Japão, gravou no México, gravou em Hollywood.

O que na altura era...

Na altura era um fenômeno pop. Pop no sentido de esta cantora foi mundialmente famosa. Por exemplo, outra voz. Mas disse um homem, disse uma mulher, agora fica assim.

Fica bem representado, acho eu, são dois grandes nomes. Esse documentário que tu falavas é o que está na Prime, "It's Never Over: Jeff Buckley"?

É. Já estreou na Prime?

Eu estava aqui a ver, estava a tentar perceber.

Pois, eu acho que ainda não tivemos essa sorte.

Eu também não consigo perceber aqui.

Vai estrear, já deve ter estreado noutros países, mas estreou em sala de cinema e agora deve estar quase a aparecer na Prime ou na HBO, alguma coisa do gênero.

E é daqueles documentários quase obrigatórios porque explica muito a vida de alguém que, no fundo, e eu acredito muito nisso e acho que tu também, transformou a música.

Sim, o modo como ele gostava de música e o modo como ele entrava dentro da música e ele deixava-se levar pela música e o bem que isso lhe fez também. Acho que é algo que merece ser vivido, escutado por nós. A vida dele teve os seus episódios, mas é bonito ver o final do documentário, é muito bonito. Eu acho que nem vou falar sobre isso.

Sem spoilers.

Sim.

Para não matarmos aqui a curiosidade total dos nossos ouvintes. O Júlio Resende que vai estar nos dias 8 e 10 de maio no Museu do Oriente, datas já esgotadas, fica aqui a promessa, podemos dizer isto, de que se calhar vamos juntar aqui uma data extra, se não for agora, pode ser mais à frente também, não é?

Sim, obviamente vai haver outros concertos entretanto que eu vou fazer por Portugal e também obviamente aqui em Lisboa, não necessariamente este do Museu do Oriente, mas outros do disco "Piano Português numa Guitarra Portuguesa", que saiu e de outros discos que ainda vão sair este ano. As pessoas terão a oportunidade de ir à procura.

É estar atento. Para alguém que gosta tanto de música e do seu piano, o que te tira do piano, Júlio Resende?

Muita coisa. Como eu disse, meu filho.

O futebol?

O futebol, meu filho.

És daqueles adeptos fervorosos que vai ao estádio?

Nada disso. Por acaso, neste momento, odeio ir ao estádio. Acho que as pessoas comportam-se muito mal, é a má educação e percebo bem o meu pai, que uma vez me levou a um estádio, neste caso, na minha cidade natal, mas podia ser noutra cidade qualquer.

A tua cidade natal?

E não voltou a ir comigo ao futebol. E mais tarde disse-me porquê, quando eu era adolescente. E disse-me assim: "Andava eu a ensinar-te em casa a não dizer as palavras malcriadas e chegamos ao estádio de futebol e toda a gente dizia X e Y".

É uma montra, no fundo.

É uma mostra de má educação. Acho que temos que dar outros exemplos.

Achas que vai ser possível, se calhar é mais visível no futebol, essa rede, quer seja de assobios, de insultos. Há desportos muito mais civilizados em que se calhar isso não acontece e que são um exemplo. Achas que vai ser possível um dia chegarmos a essa normalização e a um comportamento mais cívico num estádio de futebol, por exemplo?

Completamente. É só cultivar esses preceitos e esses princípios, como a Inglaterra tem feito e as coisas depois passam. Demoram o seu tempo, mas é possível educarmos as pessoas e todos nós. Nós conseguimos ser mais bem educados se quisermos. É uma questão de cultivar esses princípios e mantermos essa ideia em geral, senão somos apenas bichos.

Futebol, filho e mais alguma coisa te faz realmente tirar o piano?

Hoje vim falar contigo. Eu gosto de tentar aceder àquilo que as pessoas me pedem quando elas são gentis. E vim conversar contigo. E agradeço, porque a pergunta é uma grande ferramenta pro pensamento e pra racionalização. Como eu te disse ainda há pouco, acho que se pensa pouco neste momento, pensa-se mesmo muito pouco e racionaliza-se muito pouco as suas emoções.

A tendência é sermos cada vez mais, não sei se tu partilhas disso, impulsivos até na resposta. Muitas vezes damos respostas, não sei se tu partilhas disso ou não, que às vezes não queremos dar, porque simplesmente não pensamos.

Boa. Simplesmente porque não respiramos fundo, não nos acalmamos, refletimos durante algumas horas, a coisa vai maturando e talvez nem te apeteça responder. Talvez respondas de um modo muito mais decente e vais ganhar, com certeza, em racionalizar as tuas emoções quando achas que alguma coisa ferve. Baixar a fervura. Baixar é só rodar o botão e ter calma.

No ponto certo.

Não é fácil, obviamente, mas nós, seres humanos, distinguimo-nos dos animais nessa coisa chamada racionalidade. E os impulsos dos animais estão programados neles para atacarem de uma certa forma, defenderem-se de uma certa forma. Nós conseguimos fazer muitas coisas diferentes e comportarmo-nos de muitos modos diferentes. E o raciocínio e a reflexão é uma das nossas maiores virtudes.

Falavas aqui da tua terra natal há pouco, um homem do sul do país, foi lá que cresceste. O que ainda há desse miúdo em ti?

Imensa coisa. Jogar futebol, continuo a fazê-lo, ainda que o meu corpo me diga várias vezes para parar. Eu adoro praia, eu sou do Olhão. Gosto muito de praia, gosto do mar, de ouvir o mar, de ver a força da natureza. A minha família, os meus pais e a minha irmã e os meus amigos de infância estão todos em Olhão. Eu estou sempre dividido. Gostava muito que os carros andassem muito mais depressa.

Ou que voassem.

Voassem, no sentido de muito mais depressa e não fossem guiados por humanos, que é algo que vai acontecer, graças a Deus. Eu espero que aconteça muito rapidamente, porque a matança que os humanos provocam quando guiam eles mesmos os carros é terrível. É mesmo terrível, nós não sabemos, mas é.

Tivemos agora números bem recentes da Operação Páscoa da polícia e da GNR.

A primeira causa de morte não natural são os acidentes de viação. No mundo todo. Não parece, mas isto vai ser primitivo daqui a uns tempos, eu tenho a certeza. Nós temos que pôr, aí sim, as máquinas a conduzir, como elas conduzem os aviões, e daí os aviões serem tão seguros e serem o meio de transporte com menos acidentes. E nós achamos que cai um avião e aquilo é uma tragédia, mas bate um carro, é uma tragédia. Sempre uma tragédia. Eu tenho amigos que perderam os pais à custa de acidentes de viação. Tu tens, com certeza, à tua volta algum caso. Eu acho que isto é bárbaro e vai ser primitivo. Espero mesmo que todos os carros e todos os meios de transporte que possam provocar tal tipo de acidentes seja conduzido por uma máquina. Sinceramente, acho que é o melhor que nos pode acontecer.

Sim, nesse sentido seria bom. Há sempre vantagens.

Sim, o erro vai ser colocado no mínimo e a matança vai diminuir ao mínimo.

Para terminar, Júlio Resende, como é que tu gostavas de ser lembrado? O pianista que revolucionou o fado ou o homem que ensinou as pessoas a não terem medo de errar?

Não sei se é alguma dessas, João.

Podes dar-me sugestões também. São bem-vindas.

Acho que serei lembrado, obviamente, através da minha música e serei lembrado através do carinho que dei à minha família e aos meus pares. Pares em geral, toda a gente com quem eu estive. Serei lembrado nessas pessoas e a música e os formatos físicos da música, e agora digitais, vou lhes chamar, metafísicos da música vão estar aí disponíveis. E pronto, serei lembrado, provavelmente, pela minha música, em geral, mas não é o mais importante pra mim. Eu quero ser lembradoMuito mais lembrado pelas pessoas com quem eu estou. Mas eu não faço questão de ter que ser lembrado. Não há nenhuma vontade de ter que ser lembrado. É só o que eu posso dizer. Acho que todos nós estamos destinados a extinguirmo-nos.

Do que é que mais te orgulhas, Júlio Resende?

De ser músico, de ter seguido essa paixão benigna e tê-la transformada em amor. E o amor é uma coisa de dedicação diária, onde muitas vezes não te apetece, muitas vezes dói, muitas vezes é uma seca, mas ao mesmo tempo, há sempre um lugar maior. E também tentar fazer isso na minha própria vida em geral. Gostei de ter dito ao meu pai que não ia seguir o curso de Direito e que ia tirar Filosofia. E gostei que o meu pai me tivesse dito que me apoiava nisso, meu pai e a minha mãe. A maior parte dos pais condiciona muito os seus filhos. Orgulho-me, por exemplo, destas coisas que acabei de dizer e de algumas mais, mas não tenho assim uma maior.

Se o teu pai não tivesse oferecido aquele piano quando eras muito pequenino ainda, acreditas que ainda ias trilhar este caminho que fizeste até aqui? Seria tudo diferente?

Não faço-

Serias jogador de futebol?

O mundo do futebol, aquela outra parte que eu estava a te dizer do adepto, é algo que eu não acho nenhuma graça, por isso provavelmente eu não ia conseguir ter a paciência para ser jogador de futebol. Mas qualquer coisa criativa, sim, provavelmente.

Júlio Resende, muito obrigado por teres vindo aqui ao Observador em 40 minutos. É ouvir-te. Agora vais ter dois concertos, dia 8 e 10 de maio. Quem tem bilhete é sortudo. É esperar para ver se vamos ter mais datas, mas também há muito mais a acontecer. É acompanharmos o teu trabalho e também ouvir-te no novo podcast+ do Observador, os ficheiros do caso Carlos Castro, até porque a banda sonora é tua e está incrível. Muito obrigado por teres vindo.

Muito obrigado, João, pelo convite.