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E já cá estamos para mais uma edição do "Em 40 Minutos". Ao fim de semana temos sempre uma conversa mais aprofundada e hoje vamos conversar com o ator Marco Delgado. Olá, Marco, bem-vindo à Rádio Observador.

Olá Vítor, bom dia. Obrigado por me receber.

Eu sou o Nélson Ferreira, está aqui o Diogo Teixeira Pereira e durante os próximos 40 minutos vamos falar também de um dos teus novos projetos. És o narrador, és a voz do novo podcast do Observador, chama-se "Um Espião no Kremlin". Podíamos começar por aí, como é que foi a tua experiência? Sei que narração já tens feito muita e até tinha algumas perguntas sobre isso mais à frente. Mas como é que foi esta experiência em particular? Não sei se alguma vez tinhas feito esta coisa de uma história, que é um projeto até mais jornalístico.

De facto, eu trabalho muito com a minha voz, como sabes.

E certo que é boa, Marco.

Sim, também acredito que sim. Faço muitos trabalhos em locuções, sou a voz de companhia de muitas marcas. Mas este trabalho em específico, de narração de um podcast, nunca tinha feito e fico muito feliz. Foi um trabalho muito entusiasmante. Eu sou um curioso de história, adoro história.

Por acaso ia perguntar-te isso, se o tema também te interessa.

Sim, o tema foi logo uma mais-valia para escolher fazer este trabalho, porque eu gosto muito de história de Portugal e gosto muito de história universal e foi logo muito decisivo para aceitar o trabalho.

Ainda não dissemos o tema ou já?

Podemos dizer já o tema.

Eu agora era para ele perguntar se eu queria desvendar algumas coisas, até porque eu ainda nem sequer ouvi o primeiro episódio.

É, e é um tema tão atual como esta invasão da Rússia à Ucrânia e a guerra neste momento na Europa. E o trabalho de investigação que vocês fizeram, e nomeadamente a Cátia Bruno e o João, foi maravilhoso e estão de parabéns, porque realmente dá-nos um enquadramento e a evolução de todo o percurso do Vladimir Putin desde os tempos dos serviços secretos do KGB à presidência e a primeiro-ministro e depois a presidente.

Mas este podcast tem uma personagem, os anteriores do Observador viviam sempre à volta de uma pessoa, uma personagem, uma história. A história dessa pessoa aqui também acontece neste "Um Espião no Kremlin".

Sim, para além da personagem do narrador, que é muito presente, a minha personagem, há naturalmente a personagem de vários intervenientes nesta evolução do percurso do Vladimir Putin. E a personagem central, que é Vladimir Putin, naturalmente. E como eu estava a dizer, o enquadramento histórico e o trabalho dos vossos jornalistas foi absolutamente incrível. E nós ficamos com uma noção de todo este percurso desta personagem tão atual e é brilhante e estão de parabéns.

Mas neste tipo de trabalho, que tem uma história, no caso até é verídica, quase uma grande reportagem, um grande documentário, qual é a parte do ator que entra neste trabalho?

É difícil, porque o narrador tem ali um tom que deve ser ao mesmo tempo exterior à ação, mas ao mesmo tempo quase que parece uma personagem dentro da própria ação. Com o João e com a Sara tentamos perceber onde é que caberia este tipo de registo de voz. E tentamos encontrar, acho que encontrámos o tom certo. Acho que tentámos perceber que poderia ser um ex-espião que conhecesse muito bem a história deste percurso todo do Putin. E tentámos que não fosse tão distanciado como a narração normalmente acontece, é que fosse alguém que conhecesse muito bem os meandros do Kremlin e os corredores do Kremlin.

O narrador é um personagem.

Na verdade, optámos quase por ser um personagem também da história. Acho que foi feliz o tom que encontrámos.

Este projeto surge numa altura em que me parece que estás particularmente apto para coisas um bocadinho mais diferentes. Li também que tinhas alguma intenção em pausar o trabalho em novelas, fazer coisas que te pudessem levar a uma carreira mais internacional. E de facto temos visto a entrada também no mercado português das grandes plataformas de streaming. Como é que está essa tua pretensão, se é assim que lhe podemos chamar, e se de facto este trabalho com o Observador também vem nesta cena de trabalhos diferentes para a tua carreira.

Vem um bocadinho nesse sentido. Vocês sabem, com certeza, eu fiz novela durante muitos anos.

25.

25 anos, talvez, neste momento.

E bodas de prata, fizeste bodas de prata com as novelas.

E tenho muito a agradecer à novela, naturalmente, a minha vida foi toda a fazer trabalho em televisão. Só que agora o panorama de ficção nacional mudou um bocadinho com a abertura para o streaming, como tu estavas a dizer, para as plataformas, as séries. A RTP faz muitas séries, sobretudo com temas portugueses, a plataforma da OPTO. Há muitas outras hipóteses e neste momento acho que quis tentar fazer um percurso paralelo em que pudesse também optar por outros projetos, que não fosse só da televisão e a novela. E enquanto puder fazer neste momento essa escolha, vou tentar, porque não quero chegar aos 80 ou aos 90 anos e pensar: "Deveria ter feito essa opção".

Foi aos 50 que te deu isso.

E se neste momento acontece este período fértil de ficção, em que temos várias opções, e felizmente eu tenho tido essa capacidade de poder escolher, o que não acontece com muitos atores, eu acredito que sim, mas tenho tido essa opção e essa sorte de poder escolher. Estou a tentar. Não é fácil, porque não se tem trabalho regularmente e uns atrás dos outros. Tem que se esperar dois, três, quatro meses e optar pela série. Mas a verdade é que ultimamente, e com esta opção, tenho Tem feito talvez dos trabalhos que mais prazer me têm dado nos últimos anos.

E o "Pôr do Sol" foi uma dessas?

Sim, eu ia mencionar o "Pôr do Sol" e a "Prisão Domiciliária", um trabalho que eu fiz, uma série realizada pela Patrícia Sequeira.

Agora pensei que ele ia dizer: "Não, eu estive mesmo em prisão domiciliária".

Não, foi dos primeiros trabalhos que a Opto realizou, produziu para a plataforma da SIC. E portanto, foi um dos trabalhos que mais me marcou, o "Pôr do Sol", naturalmente, a "Crónica dos Bons Malandros", "Os Abandonados", agora uma série para a RTP que virou filme também, fizeram uma versão para filme. Portanto, eu estou muito contente com esta opção e, como tu disse, não digo que nunca voltarei mais a fazer novela.

Tu dizias, às vezes é preciso um bocadinho de sorte, nem todas as pessoas conseguem ter estas oportunidades. O "Pôr do Sol" foi uma coisa de sorte? Como é que isso te caiu no colo?

O "Pôr do Sol" surgiu através de um telefonema do Manuel Pureza, que me telefonou um dia à noite em que me convidou para fazer um projeto, que não podia ainda mencionar o que era, mas que era um projeto fora da caixa, uma coisa completamente louca e que ia me propor à RTP.

E ousar um bocadinho com as novelas, isso conquistou-te também.

Sim. Continuando, eu nem sequer sabia o que era o projeto. Só que eu já tinha trabalhado com o Manuel há muito tempo em novela e acreditava muito no trabalho dele e no talento dele, portanto, eu quase que escolhi no escuro, quase que concordei em fazer no escuro, não sabendo o que o projeto ia ser.

O Manuel Pureza tem aqui um grande peso sobre os atores que escolhe, porque falámos há 15 dias com o Diogo Amaral e foi exatamente da mesma forma. Foi um convite do Manuel Pureza, portanto, é para aceitar.

É um bocadinho assim, porque o Manuel tem essa capacidade e todos nós reconhecemos na área que ele tem muito talento e que é um criador incrível e muito criativo. E portanto, foi também quase de cruz que aceitei fazer.

O Manuel Pureza passou também aqui há dias pelo convidado extra do João Paulo Secador. Está disponível em podcast e no nosso site essa entrevista com o Manuel Pureza. E eu estava a brincar com ele nessa conversa, porque cruzamo-nos aqui. Eu estava a lembrar que ele teve uma banda, sabias que o Manuel Pureza teve uma banda?

Sei, sim.

E tinha um nome espetacular, chamava-se Du Marabilha. E eles ganharam um festival alternativo da canção que aconteceu em Lisboa, também uma paródia à Eurovisão. Estamos a esquecer é o nome da canção, que é quase tão boa como o nome da banda do Manuel Pureza.

E depois, aquilo foi o sucesso que foi na RTP.

Surpreendeu-te?

Bastante. Não esperava que fosse um sucesso tão grande e tão imediato. Achava que ia ser uma coisa interessante, curiosa e divertida, e uma comédia muito bem escrita pelo Henrique.

O Henrique Dias?

Sim, o Henrique Dias também é alguém muito criativo e com um sentido de humor muito especial e maravilhoso, e que eu sou fã absoluto. E não esperava que tivesse um sucesso tão grande.

Não esperavas uma segunda temporada, um filme.

Nem um filme. E não sei se será o fim. Eles dizem que sim, agora nunca se sabe.

Também produziu uma banda. A série também produziu uma banda.

Tinha o Chilezeu.

É tudo surpreendente em "Pôr do Sol".

Em playback. Nunca se sabe o que virá daqui. Ainda ontem foi a estreia do filme no São Jorge e é absolutamente maravilhoso o filme. Convido-vos todos a ir ver a partir de 3 de agosto nos cinemas.

Mas isso é um daqueles passos que se está a dar numa espécie de experimentalismo no que diz respeito às séries e a esta nova forma de fazer ficção em Portugal, ou é de facto uma coisa que já está consolidada e que em breve pode ser uma alternativa para as grandes cadeias de televisão?

Acho que sim, acho que estamos a fazer um percurso, tanto no gênero, que é um gênero bastante pouco desenvolvido, digamos assim, a comédia em ficção. Tem o stand-up comedy, que é um outro registro completamente diferente, mas a comédia em Portugal.

Toda a gente diz que é muito difícil.

É muito difícil. E acertar assim como nós acertamos no "Pôr do Sol", mais difícil. Naturalmente, só com um grupo de pessoas muito criativo e muito bom, porque é um gênero perigoso, digamos assim.

Pode ficar fatela.

Pode ficar fatela e não ter graça nenhuma.

Exato. Tu pessoalmente tens mais dificuldade em construir um personagem para uma comédia ou para um drama?

Sim, é mais difícil. A comédia é muito mais difícil. O tom é diferente, o registro, os tempos são muito difíceis, são outros tempos. E é difícil ter piada. Não basta ter um bom texto, não basta ser um bom comediante. É preciso uma série de condimentos, acertar uma série de condimentos.

Alguma caricatura tem que ser no ponto certo.

Considero.

É isso. O "Pôr do Sol" acaba por ser uma caricatura das várias personagens que as novelas vão tendo.

Sim, esse foi o princípio, e acho que bom, e que resultou bastante bem. Ainda respondendo, eu acho que estamos num percurso em que estamos a entrar nas plataformas de streaming. A ficção está a crescer bastante em Portugal, mas estamos a lutar contra os gigantes e estamos num percurso que vai ser um percurso doloroso, mas há alguns projetos que estão a ter bastante sucesso, como agora o "Rabo de Peixe", como o "Glória" teve. Portanto, acho que estamos no percurso certo. E eu quero estar aí nesse percurso. E também daí a minha opção, voltando um bocadinho atrás, de querer fazer talvez Um percurso paralelo e tentar optar por outro percurso que me permita também fazer alguns trabalhos.

E como é que isso se tenta? Como é que se tenta fazer parte?

Com opções.

E cunhas? Não. Se calhar, não.

Não, cunhas, felizmente, nunca foi o meu forte.

Mas existem.

Existem, claro que sim, mas nunca foram o meu forte. É como eu dizia há pouco, às vezes, é mais doloroso, porque não se tem trabalho regularmente, é preciso alguma estabilidade financeira também para aguentar e para esperar, mas felizmente eu tenho conseguido.

Tu há pouco falavas: às vezes é uma questão de sorte cair-nos um papel que é de facto bom e o produto ter sucesso, mas tu tens alguma má experiência nesta ideia de quase que foi ou algum projeto que tu estiveste para entrar e que ficaste fora? O ator também deve ter esse percurso desses obstáculos.

Sim, durante 20 e muitos anos de carreira que eu já fiz.

Há muitos que tentam o Brasil.

Sim, houve vários trabalhos em que eu estive, digamos, na meia-final e não consegui ir à final. Houve outras opções, outras escolhas por parte dos realizadores, dos produtores, das televisões.

Eles é que perdem.

Eles é que perdem. Mas faz parte. O não, infelizmente ou felizmente, faz parte da nossa área e do nosso crescimento enquanto ator.

Algum particularmente doloroso?

Sim, mas não interessa. Mas sim, houve alguns em que eu fiquei triste, claro que sim. Acho que ficamos sempre, quando queremos muito fazer um trabalho que sabemos que vai ser um bom trabalho, é um trabalho diferente, é um trabalho que vai marcar e não somos escolhidos, naturalmente ficamos tristes.

Mas o processo é sempre assim, mesmo para atores com carreiras muito consolidadas, como é o caso do Marco Delgado, ter de fazer esta coisa toda de passar um, passar outro. Não há um convite direto sempre. Às vezes acontece, como no caso do "Pôr do Sol", mas nem sempre é assim.

Sim, eu percebo. Curiosamente, não era prática comum os atores já com alguma carreira, algum tempo de atores, voltarem a fazer casting. Hoje em dia é prática comum, mesmo atores consolidados, com carreiras já de 20, 30 anos, os realizadores, as televisões, as produtoras querem voltar a ter os atores a fazer casting.

Para o ver na personagem, no texto.

Sim, os americanos fazem isso quase até com as grandes estrelas de cinema, mas não é algo que me incomoda, antes pelo contrário, eu gosto de ter esse contato com o realizador, com a produtora ou com o produtor e de fazer o casting, perceber se realmente me interessa, se realmente é esse o trabalho que quero fazer. Antigamente não era uma prática muito comum, os castings eram dirigidos para pessoas que estivessem a começar, fossem desconhecidas. Hoje em dia, não, é uma prática mais alargada e não me parece mal, não tenho qualquer problema com isso.

Ainda assim, o teu início é bastante teatral.

É só teatral.

Tu fazes muito teatro e ainda recentemente, eu acho que em janeiro, fizeste um.

Sim, e tenho uma peça, a "Noite de Reis", de Shakespeare, do Teatro Elétrico, encenada pelo Ricardo Neves Neves, que vamos reestrear daqui para o ano, novamente no Teatro da Trindade, de maio a julho.

Ela teve uma temporada no início deste ano.

Teve dois meses e foi um absoluto sucesso. Na primeira sexta-feira, tínhamos esgotado até o fim do segundo mês, o que foi um absoluto sucesso. E agora vamos repor novamente em Loulé, agora em setembro, dois dias que já estão esgotados, e para o ano vamos repor no Teatro da Trindade. Mas para te responder, sim, o meu percurso começou no teatro.

E com grandes textos, Dostoiévski logo abre.

Sim, Dostoiévski, Francisco de Holanda, um texto do Francisco de Holanda, Shakespeare também. Eu estava no segundo ano do curso do Instituto Franco-Português, ainda a estudar como ator, e fiz uma audição para o Teatro da Cronopía, onde Luís Miguel Cintra era o encenador, e fiquei. Era um texto do Francisco de Holanda, uma produção encenada pela Christine Laurent, e eu era o protagonista ou coprotagonista com o Luís Miguel Cintra, num trabalho que me correu bastante bem e a partir daí as coisas sucederam-se.

Foi uma estreia de fogo, também.

Foi, e foi uma aprendizagem incrível. A partir daí, tive a oportunidade de trabalhar com uns grandes encenadores, Jorge Silva Melo, Jean-Pierre Rio, João Lourenço, e com alguns grupos de teatro que queria muito trabalhar. E os trabalhos sucederam, sim, tive muita sorte.

Tens uma personagem que te tenha marcado mais durante esse período até mais inicial das primeiras peças de teatro, uma coisa que tenha sido quase formadora para ti e definitiva: "bem, eu vou ser ator a partir de agora".

Essa opção já tinha tomado um pouco antes, mas esse primeiro trabalho foi sem dúvida marcante, foi estar ao lado do Luís Miguel Cintra, de quem eu tinha uma opinião absolutamente maravilhada e incrível. E eu admirava muito o trabalho do Luís Miguel enquanto ator e, portanto, foi um trabalho que me marcou muito e uma aprendizagem enorme estar diariamente, noite após noite, ao lado dele, a protagonizar uma peça com o Luís Miguel foi incrível.

Muito bem, vamos fazer uma pausa nesta conversa com o Marco Delgado. Temos notícias já de seguida aqui na Rádio Observador e já regressamos para a segunda parte do "Em 40 Minutos". Estamos hoje à conversa com o ator Marco Delgado. Até já. Estamos de volta esta semana no Em 40 Minutos, à conversa com o ator Marco Delgado. É também a voz do novo podcast do Observador, chama-se "Um Espião no Kremlin", já o encontram no nosso site, em observador.pt e também nas plataformas podcast. É mais um podcast plus, belas histórias que já temos contado aqui pelo Observador e o Marco Delgado é a voz desta que estamos a revelar ao longo dos últimos dias e também durante as próximas semanas. Marco, estávamos aqui a falar do teatro, o peso das tábuas. Há sempre essa coisa também de enaltecer e, de facto, quem vai a uma peça de teatro, quem regularmente vai ao teatro percebe que não é um trabalho qualquer, mesmo comparado com a novela. E é estranho que a novela seja uma coisa tão diferente para a vida de um ator, que te ponha num patamar de fama, de reconhecimentos, que o teatro não consegue fazer.

Não tem essa exposição.

Como é que tu lidaste com isto a partir das primeiras novelas e como é que tu lidaste com essa parte da fama?

Olha, eu acho que naturalmente, não alterei a minha perspectiva e o meu respeito sobre a profissão, sobre o trabalho. E percebo que a televisão, naturalmente, tem uma dimensão que o teatro não tem. Mas acho muito importante a formação em teatro. Acho que não tem nada a ver uma coisa com a outra.

É a escola?

É a escola, sem dúvida. Há algo de sagrado, se quiseres, no teatro. Eu não queria dizer que um respeito diferente, mas acho que é mesmo essa questão do sagrado, de estar diretamente a partilhar algo diretamente com o público naquele momento, naquela hora, naquela altura. A televisão não, a televisão é mais imediata. Pode-se repetir, pode-se refazer.

Mas também há pouco tempo. Há muitos atores que dizem que é muito mais rápido, no sentido de fazer uma cena, por exemplo.

Mas ao mesmo tempo, a televisão é muito perversa, porque é uma indústria muito trituradora, se quiseres. Como apareces, rapidamente desapareces. E se não tiveres um pouco de cabeça, se não tiveres muito respeito pela tua profissão e se não trabalhares muito, outros virão e tu rapidamente desaparecerás.

Mas é só por quê? São as audiências?

Não, porque aparecem muito rapidamente pessoas novas e a televisão cansa-se rapidamente da tua imagem. O difícil não é chegar lá em cima. O difícil é depois estares 20, 30 anos lá em cima, e essa é a grande dificuldade, porque rapidamente miúdos com talento aparecem, mas outros rapidamente para o ano que vem, as televisões já não querem repetir as mesmas caras, os mesmos atores e, portanto, outros virão. E depois tu manteres-te lá em cima e manteres o teu trabalho e manteres uma carreira durante anos e anos, essa é a grande dificuldade. E nesse aspecto, a televisão mata qualquer pretensão.

Mas é um trabalho muito exigente também, pelo número de horas que se trabalha.

São muitas horas, é muito difícil, é muito desgastante. As pessoas não têm noção, mas nós às vezes estamos 10, 12 horas a trabalhar e às 9h estamos a chorar, a gritar e a rir. Às 10h30 já estamos apaixonados e na cama e a fazer sexo. Às 11 estamos outra vez irritados e a discutir com a tua mãe, o teu pai e o teu irmão.

E depois do almoço, mortos.

E depois do almoço, mortos. Às 14h, já renasceste, estás novamente a gritar com o teu amigo, amor, o que for. E é desgastante. E às 18h não tens mais emoções, não tens mais sentimentos. Gastaste tudo e chegas a casa e tens que decorar mais 22 cenas ou 42 cenas para o dia a seguir. Às 8h estão a ir buscar-te a casa.

Isso é o mais difícil na vida de um ator. Primeiro, esse ritmo, mas depois uma coisa que eu não imagino, porque não sei o que é, nunca senti, que é o teu trabalho te expõe a uma montanha-russa emocional.

Certamente.

Isso tem consequências, quase como as hospedeiras, ao fim de alguns anos tem que deixar de trabalhar por causa da pressão. O ator, a partir de alguns anos, devia ter também-

Devia fazer psicoterapia, porque é marcante. A tua matéria-prima são os teus sentimentos, e se brincas com os teus sentimentos, é muito desgastante. É perigoso, porque há personagens que estão num registo bastante difícil de raiva ou de choro, ou de perversidade, ou de maldade, que não é o teu registo enquanto ser humano, e isso tu tens que ir procurar nas tuas emoções. É a tua matéria-prima e, portanto, tu viveres isso diariamente durante meses, meses e fios é desgastante e tens que fazer um trabalho de limpeza, se quiseres, quando chegas a casa ou no fim dos trabalhos, de parar, recentrar-se e recuperar um pouco desse desgaste emocional, que é muito violento.

E há alguma novela em particular que te tenha marcado, não sei se pelo sucesso que pode ter sido ou pela personagem.

Por várias razões, tanto pelo sucesso como pelo personagem. Alguns personagens que tenho feito e tenho a sorte de fazer, porque são personagens maus, e são os maus da fita, o que me dá sempre muito prazer fazer, porque são as personagens mais complexas e mais interessantes de fazer, porque os bonzinhos não têm tanta complexidade ou tantos conflitos ou tantas cenas interessantes para fazer, porque os maus da fita são sempre os que iniciam os conflitos, os que dão os problemas e, portanto, são mais complexos e mais interessantes de fazer. Mas mais violentos. Depois o trabalho de recuperar dessa terra é maior, mas é muito mais interessante. Eu tive uma personagem aqui há uns tempos, que não era mau, de efeito. Era uma personagem chamada Brálio, que tinha um problema de obsessividade compulsiva, tinha essa doença. E foi um trabalho também muito bom, mas era num registo mais cómico. No tempo de viver, uma novela do Rui Vilhena, aqui já há muitos anos. Mas foi um trabalho que me marcou também pela criatividade e pela comicidade do personagem. Gostei muito de fazer.

Mas alguma vez te aconteceu esse sentimento de estares esgotado, de teres de parar?

Já, por mais do que uma vez. O ano passado estive dois meses a fazer "Os Abandonados", uma série pra RTP, que era uma história verdadeira sobre um tenente do exército português na altura da Segunda Guerra Mundial, que à imagem do Aristides de Sousa Mendes, mas no Pacífico Sul, em Timor. Ele era governador de uma província em Baucau, se eu não me engano, uma província de Timor. E na altura da invasão dos japoneses em Timor, Portugal era neutral nessa guerra, mas os japoneses não respeitaram a neutralidade, invadiram, criaram os campos de proteção, que na verdade eram uns campos quase de concentração, à imagem dos alemães, para onde todos os timorenses e portugueses teriam que ir. Ele não aceitou essa situação e tentou, de todas as formas possíveis, salvar o maior número de pessoas da ilha de Timor ou evadir o maior número de pessoas. Perdeu essa batalha e perdeu com a própria vida. E foi um trabalho que me marcou, uma história muito violenta, que me marcou e sentimentalmente foi muito desgastante. Eu estive dois meses, como dizia, na Madeira a filmar a hipotética Timor, neste caso. E foram gravações muito intensas, muito violentas e de uma emotividade muito grande. E tive um, dois meses depois a seguir para tentar recompor, se quiseres, emocionalmente, porque era uma história muito triste e uma história de um grande homem que poucos de nós sabíamos com certeza.

A tua caracterização mostra isso. Ao princípio vi uma foto, até me fez lembrar também, a comparação pode não ser muito feliz, o Náufrago, com o Tom Hanks, tu tens um ar também de estar ali estourado até dos elementos naturais.

Exatamente, porque ele faz esta evasão com uma série de pessoas atrás dele e é um percurso pelos montes e pelas montanhas em Timor, exposto ao sol, à chuva, aos elementos. E é violento fisicamente e sentimentalmente foi muito complicado pra mim.

E é verdade, mordendo aqui um bocadinho o assunto, que vendeu o carro e anda de trotinete.

É, sim.

Resolução dos 50 anos. Vou vender meu carro.

Por uma razão muito simples, Lisboa está tão difícil de percorrer de um lado ao outro. Demora-se horas para fazer dois quilômetros ou três quilômetros. Eu decidi que não queria mais, não queria estar preso a esta ditadura do carro. E porque tenho vida que me permitiu fazer essa opção. Não tenho filhos, quando trabalho tenho a possibilidade de ter transporte, faço a minha vida praticamente toda dentro de Lisboa, portanto, não havia necessidade de ter um carro à porta de casa e ir com o carro para todo o lado.

Mas andar de trotinete no meio dos carros também é um ato de coragem.

É, mas eu gosto muito. Eu sou, em termos desportivos, muito ativo. Eu gosto muito de esportes radicais, faço snowboard, faço wakeboard agora recentemente, portanto não tenho muito receio. Mas há tantas possibilidades neste momento de nos movermos na cidade de Lisboa que eu disse: "Não, vou vender o meu carro, é muito mais barato, é mais ecológico, é muito mais saudável pra nós mesmos". Portanto, acho que foi a decisão certa.

Ou o carro já estava estourado também. Conversa larga. Foi uma questão de negócio também. Já estava velhinho.

Não estava velhinho, mas devo confessar que o carro tinha ardido dois meses antes.

Eu sabia.

O carro tinha ardido durante uma viagem que eu tinha feito de Algarve a Lisboa.

Não quero mais isto.

Não quero mais isto. Eu disse: "Não, então eu agora vou tomar esta decisão". Foi também essa a razão.

A forma como falas de Lisboa e da vida em Lisboa parece-me, como se costuma dizer, um tipo muito urbano nessa questão.

Sim, sou. E gosto muito de Lisboa.

Mas tu nasceste em Moçambique e falavas agora desse trabalho, por exemplo, do Abandonados. Tu retiras alguma coisa ainda, apesar de teres vindo com três anos?

Sim, eu vim muito cedo.

Para Portugal. Ainda guardas, sentes que há Iran em ti?

Sinto, uma coisa não muito concreta e objetiva. Tenho algumas memórias muito poucas.

Foram poucos anos.

Foram poucos anos. Eu nasci em 72 e vim logo em janeiro de 76, portanto, tinha quatro anos. Tenho poucas memórias. Tenho algumas memórias da minha casa, da zona onde a gente vivia, mas são coisas muito subjetivas. Algumas imagens, alguns sons, alguns cheiros, algumas cores, mas nada muito objetivo. Portanto, retiro muito pouco. Tenho sempre uma relação muito boa, muito próxima e muito forte quando volto à África, quer seja à minha terra, a Moçambique. Curiosamente, nunca voltei ao sítio onde nasci, à Beira, mas voltei a Maputo várias vezes, tanto de férias como a trabalho, e a outras zonas de Moçambique. Mas tenho sempre essa relação muito intensa com África e com a terra, com as cores, com a dimensão dos locais.

E enquanto cresces em Portugal, esse estigma do retornado, que às vezes também vigora muito na sociedade portuguesa. Recentemente li o relato, a Dulce Maria Cardoso tem um livro belíssimo chamado "O Retorno".

Não conheço.

Aconselho-te. E tu vais gostar dele mais do que eu, porque viveste mais com essa história. Eu, como sou natural de uma região que não recebeu muitos retornados, só com esse livro percebi melhor a dimensão desse fenômeno na sociedade portuguesa. Como é que tu sentiste isso? Se calhar, mais a tua família.

Sim, mais provavelmente. Eu pouco, depois talvez no secundário, algumas situações entre colegas de escola, mas muito pouco. Os meus pais talvez tenham sentido bastante mais, acredito que sim. E na altura havia muito esse estigma em relação aos retornados. Eram realidades muito diferentes, mas eu pessoalmente confesso que não senti muito.

Mas o regresso deles foi tranquilo? Ou rapidamente conseguiram encontrar trabalho?

Sim, os meus pais trabalhavam ambos na aviação, a minha mãe particularmente na TAP, o meu pai era controlador de tráfego aéreo e conseguiram rapidamente integrar-se aqui no aeroporto de Lisboa. E nós vivíamos muito perto do aeroporto, na Portela de Sacavém, e tivemos essa sorte de rapidamente nos integrarmos. Não é um tema que eu desenvolva muito com os meus pais, mas acredito. De vez em quando sinto que eles comentam ou falam sobre algum estigma, algumas situações menos agradáveis, mas confesso que eu pessoalmente não senti muito essa situação.

"O Retorno", da Dulce Maria Cardoso.

Ok, eu vou ler.

Obrigado.

Me assustou a proposta, vou ler, sim.

Olha, de alguma forma também aprendemos a olhar para o Marco Delgado como ator, talvez por causa dos papéis das novelas. É-te fácil fazer de rebelde? Tu tens essa rebeldia?

Acho que sim.

Malandro, vá.

Não tenho verdades absolutas e no meu trabalho, no meu processo, gosto de sempre ser livre e não ter muitos limites. E nisso, essa rebeldia cabe nesse sentido. E são sempre personagens muito mais interessantes. Era como eu dizia, os rebeldes, os maus, os outcasts, os fora da lei.

Os underdogs.

Os underdogs. São sempre personagens de construção, personagens mais interessantes, personagens que têm conflitos, personagens que têm registos, sentimentos e emoções menos comuns, mais interessantes de pesquisar, de avaliar, de interpretar.

Tudo para dizer que pessoalmente ele não é um rebelde.

Ou um vilão.

Vilão não acho que seja, mas gosto de ser na ficção. Acho que sim. Mas se eu sou um rebelde? Não sei. Sou um curioso, se quiseres.

E quem que é o maior vilão, digamos assim, é o Marco Delgado ou o irmão? Trocaram de papéis muitas vezes.

Sim, também trocamos, também aconteceu isso, mas não sei. Acho que somos os dois. Eu tenho uma relação muito boa com meu irmão. Tenho uma relação muito próxima, muito forte.

Irmão gêmeo.

Sim, com meu irmão gêmeo.

É verdade aquilo dele levar uma pancada e tu sentires.

Isso é um pouco mitificado, mas acontece. Quer dizer, eu nunca tive essa sensação física de ele levar uma pancada e eu sentir, mas tenho situações de sentir algo particularmente diferente ou estranho por uma situação que ele tenha passado e que não esteja presente lá, mas simplesmente por termos, se quiseres, um ADN tão próximo, que essas coisas passam por uma sensibilidade, uma extra sensibilidade. Não tenho isso com mais ninguém.

E quantos autógrafos é que ele já deu?

Muitos.

Se calhar até já foi a um casting.

A um casting não, mas já participou comigo num trabalho em que eu fazia de gêmeos, em que ele me ajudava. Apesar de eu fazer os dois personagens, ele ajudava pelo fato de fisicamente ser parecido comigo, ele ajudava-me nos planos em que estavam os dois gêmeos. Tecnicamente era uma mais-valia muito grande pro trabalho. Mas já deu vários autógrafos e já não vale a pena explicar que não é o Marco Delgado.

Mas como é que ele também reage a isso? Porque ele também deve ser muito incomodado.

Sim.

Ele decidiu seguir uma carreira mais recatada, não é?

Sim, meu irmão é músico e sonoplasta e compõe e trabalha muito em teatro e televisão também. Mas hoje em dia, praticamente o grande público já tem conhecimento que somos os dois gêmeos e, portanto, a questão é sempre tirar fotografias com os dois. Mas é muito comum ele assinar e tirar fotografias.

Apesar das carreiras diferentes, há um lado artístico também, não é?

Sim.

Mantém-se, é engraçado.

Meu irmão fez o terceiro ano de gestão, aliás, até o quarto ano de gestão da faculdade de gestão, e depois desistiu, quis ser músico e invadou pra essa carreira.

O que os pais acharam disso? Já agora, das carreiras dos dois. São aquelas carreiras que não são...

O meu pai, apesar de compreender, e bem, não achou muito sensata a opção nessa altura, mas compreendeu e depois aceitou, e bem.

Olha, estamos quase aqui a chegar ao fim da nossa conversa. Há pouco mencionaste que fazes snowboard. Noutra altura estávamos a falar também da questão da tua vivência em Lisboa, andaste de trotinete. Estávamos a falar também de teres nascido em Moçambique e gostares muito de regressar à África. E já que estamos numa altura de férias, o teu destino de férias de eleição é mais praia ou é mais neve?

Tem sido mais neve. Até porque eu durante o verão, ultimamente tem acontecido Estou sempre a trabalhar e eu não posso, por contrato, fazer desportos radicais. Opto sempre por marcar, não vai eu magoar-me e partir um joelho e não poder gravar ou não poder filmar mais.

Eu não sabia que isso existia. Sei que os jogadores de futebol, quando vão de férias, são atletas em constante competição.

Exato. Imagina que estás a fazer um trabalho de uma novela de seis meses e a meio queres ir fazer snowboard e partes as pernas, ou partes um joelho, ou partes um braço. É muito complicado para a produção, é um prejuízo muito grande, portanto eles não nos permitem, e bem, acho eu, que façamos desportos radicais. Portanto, a minha opção é sempre, no inverno, fazer a escolha para destinos de férias de inverno, porque não tenho possibilidade de quando estou a filmar, de fazer. Portanto, opto sempre por ir fazer snowboard.

Eles ainda não sabem que andas de trotinete em Lisboa. Se calhar no próximo contrato isso vai constar.

Tá bom, mas isso também pode ser outro problema, portanto já não faço ideia.

Só mesmo para terminar, tu consegues identificar um momento alto da tua carreira ou também há aquele chavão de ainda está para vir?

Não. Tive alguns, já tive vários. Como te disse, a minha estreia, esse personagem do Bráulio no "Tempo de Viver". O trabalho que eu fiz na "Prisão Domiciliária" para o Opt foi um trabalho inacreditável, que eu adorei fazer, no qual fui nomeado para os Globos de Ouro. Estes últimos trabalhos-

Também é com prémios que se medem os momentos altos.

Não, mas é uma distinção e um reconhecimento do teu trabalho. Não que eu precise disso, ou que precise dessa validação ou desse reconhecimento de todo, mas é simpático, é agradável ser reconhecido pelo mérito. Depois, estes últimos trabalhos, a "Crónica dos Bons Maneres" e "Os Abandonados" e este, "O Pôr do Sol", foram trabalhos muito marcantes. Eu acho que, sinceramente, tenho feito boas escolhas de bons trabalhos.

Eu também acho.

Muito obrigado.

Marco Delgado foi o nosso convidado esta semana em "40 Minutos".

Muito obrigado pelo convite.

Ouçam também o novo podcast do Observador, "Um Espião no Kremlin". Já está disponível no nosso site e tem voz do Marco Delgado e eu ando ansioso pelos próximos capítulos. Marco, muito obrigado por teres vindo à Rádio Observador.

Obrigado a vocês.

Até breve.

Até breve. Obrigado.