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A alegria salva-nos de olhar para o fim. Eu quando estou a atirar um carrinho numa pista de Hot Wheels num quarto de hospital, o que eu quero é olhar para o carrinho e viver aquele segundo. Eu quero viver aquele segundo, olhar para aquele segundo e não pensar no que vem depois. E o que nos salva é isso: é acreditar que conseguimos, nem que por poucos minutos no dia, olhar só para aquele segundo. E é possível, e foi a grande surpresa que eu senti, que foi a capacidade de nós sermos felizes no hospital. Eu nunca fui tão infeliz como ali, nunca sofri tanto como ali, mas ao mesmo tempo nunca fui tão feliz como ali, porque cada pequeno momento de felicidade ali vale por muitos cá fora, porque nós estamos a combater forças que nós não conseguimos sequer denominar. Eu não sei que nome é que hei de dar ao que eu senti ali.

Há pessoas que vivem como escrevem: sem rascunho, sem plano, com urgência. Ele cresceu no norte, em ruas que cheiravam a infância e chuva, entre sonhos que pareciam, aliás, sempre grandes. Antes de ser escritor ou uma pessoa que gosta de escrever, é assim que se define, foi muitas coisas: barman, jogador de futebol, porteiro, jornalista, operário fabril. Talvez aí, em todas essas vidas, já estivesse a escrever esta. Hoje é lido por milhões, mas o que o move não são os números, são as falhas, as fragilidades, os amores imperfeitos. Um homem que sempre viveu para a família, que ainda acredita no amor, na fragilidade e na persistência. E hoje, em "40 Minutos", entramos na vida de quem faz da dor uma forma de esperança. Pelo menos é assim que acreditamos que ele gosta de ver a vida. Pedro Chagas Freitas, em "40 Minutos". Bem-vindo aqui à Rádio Observador.

Muito obrigado por essas palavras.

É um gosto te conhecer e estar aqui contigo, com tempo para conversar, que é sempre bom.

É bem raro.

Sim, é um privilégio, no fundo, porque na correria do dia a dia há sempre ausência de tempo para falarmos sobre certos assuntos, sobre aquilo que te move também. E há bocadinho eu já brincava aqui na introdução, porque tu não gostas de te ver como escritor, mas sim alguém que escreve umas coisas, se bem que as coisas que escreve têm sempre muito impacto para as pessoas que te leem. Para um homem que já viveu aqui também tantas vidas, o que é que ainda te assusta e te desafia numa vida tão cheia e também que já teve várias camadas?

O último ano foi assustador por causa do problema de saúde do meu filho, com a perda do meu pai. Assusta-me, acima de tudo isto, o que nos podem tirar. O que é fundamental para nós e que de repente pode desaparecer. Nós às vezes acreditamos que o que temos é muito sólido. Que temos uma vida familiar sólida, uma vida económica sólida, uma vida profissional sólida. E de repente percebemos que a solidez não existe, é uma ilusão. E todos nós sabemos isso, mas se calhar em termos de prática, do que fazemos no dia a dia, acabamos por não olhar muito para isso. Porque é uma ferramenta que nós temos. Nós temos essa ferramenta, que é a ferramenta de saber que vamos acabar, que isto é temporário.

Sim.

E falavas há pouco do tempo. A ferramenta do tempo para o humano é uma ferramenta que tem várias dimensões, que para os outros animais não têm. Eles acreditam ou nem sequer pensam nisso, nem lhes passa pela cabeça, nem imaginam que aquilo vai acabar, que tem um prazo. E nós sabemos isso, mas se calhar não fazemos grande coisa com isso, muitas vezes. Vivemos como se fôssemos imortais e o último ano permitiu-me perceber profundamente isso e lamentar algumas coisas, olhar para outras de outra maneira, saber muito mais sobre o que é que me interessa, o que é que eu estou aqui a fazer. Acabou por ser fundamental. Eu preferia não ter vivido, preferia continuar a ser ignorante em muitas coisas.

Mas também te deram valências. Eu sei que é ingrato falar disto, porque estamos a falar de dor. Mas deram-te, com certeza, valências.

A dor é capaz de ser o maior instrumento que nós temos. A dor é um instrumento de conhecimento incomparável. Nada se compara à dor naquilo que podemos aprender com ela. Não há nenhuma ferramenta, nenhum instrumento, nada que nós possamos ter na nossa vida que nos ensine mais do que a dor. Mas é claramente um paradoxo, porque para isso nós temos que sofrer. Eu não havia necessidade, eu preferia não ter sofrido e não saber nada do que eventualmente sei agora, ou que desaprendi, que é mais uma questão de desaprendizagem, porque nós crescemos e somos construídos pelo que nos foi dito, pelo que nós vimos quando éramos mais pequenos. E nós construímos uma série de ideias que eu ao longo do último ano estive a desconstruir. Desconstruí muitas ideias que eu pensava que eram intocáveis, sobre o que eu acreditava que era decisivo, sobre o que eu acreditava que era acessório e de repente eu percebi claramente o que é que tinha de tirar. É mais uma questão de tirar, de limpar, do que de aprender.

A escrita para ti, de alguma forma, e nesse ano que tu falas que foi muito violento: a perda do teu pai, a doença do teu filho Benjamim. A escrita ajuda de alguma forma a dar sentido à dor que tu sentes e que sentiste ao longo desse ano?

Não é tanto dar sentido. A dor em si mesma não ensina nada. É impossível dar sentido à dor. O que a dor nos faz é perceber muito sobre o que somos. Eu só consigo através da escrita. É aquilo que eu tenho à mão, literalmente. Neste caso, é mesmo à mão, porque há pessoas que hão de encontrar outras formas. A minha forma de perceber o que me está a acontecer é escrever. Eu formalizo, só existe se eu escrever. Às vezes custa-me mais, e é algo que se calhar também acontece a muitas pessoas, daí nós termos diários. Quando somos adolescentes, temos o diário, aquelas coisas todas.

Tu tinhas?

Claro que sim, foi aí que comecei a escrever mais. Por quê? Porque a mim, se calhar, dói-me mais o momento em que escrevo do que o momento em que me acontece aquilo que estou a escrever. Houve algo doloroso na minha vida e aquilo só é real quando eu escrevo aquilo.

É uma catarse.

Por isso, o momento em que eu chorei mais quando o meu pai morreu foi precisamente a frase: "O meu pai morreu." Quando eu escrevi a frase: "O meu pai morreu", foi quando, de facto, eu senti que o meu pai tinha morrido, porque até ali acaba por ser uma coisa quase irreal.

Não achas a palavra também, se calhar por si, o "morrer" demasiado violento? Há pessoas, e eu falo por mim, também já perdi o meu pai, e tenho muita dificuldade em dizer a palavra "morreu". E muitas vezes opto por dizer "partiu", "faleceu", porque sinto que ajuda a amenizar de alguma forma, porque eu sinto que o morrer é demasiado violento. Tu também sentes isso? Ou é uma forma também de consciencializar e também de tornar com os pés assentes na terra de que aquilo realmente aconteceu?

As palavras têm uma força que nós às vezes desprezamos. Às vezes pensamos e dizemos: "Epá, são só palavras." Nunca são só palavras. A palavra tem uma força muito grande. E a palavra "morrer", evidentemente, tem uma força tremenda. A palavra "cancro" tem uma força tremenda. Há palavras que, por si só, nós mesmo que não soubéssemos o que significavam, só a sonoridade é pesada. Até parece que a palavra sabe aquilo que representa. Mas lidar com a dor também é lidar com as palavras que a dor tem em si. E o momento de confronto com a palavra é, para mim, se calhar, mais doloroso que o momento de confronto com a realidade, com aquilo que a palavra está a designar. Portanto, a palavra designa algo, mas se calhar custa-me mais olhar para a palavra do que olhar para o algo. É uma sub-realidade. Portanto, há a realidade, depois a sub-realidade, que vem com as palavras. E se calhar custa-me mais a sub-realidade, que é quando eu percebo: "Epá, eu escrevi isto, portanto, isto aconteceu mesmo."

Neste ano muito difícil que tu passaste, falamos aqui de dor, mas também acho que não podemos ignorar o sentimento de amor e também de missão, que eu acho que estão ligados também, ainda que sejam sentimentos diferentes. O que tens aprendido e como é que o amor te tem salvado de todas estas coisas que te têm acontecido e que de alguma forma também marcam o homem? Porque tenho a certeza que o Pedro de há dois anos é diferente do Pedro de hoje.

Sim, muito diferente. O amor é, foi e acredito que continua a ser a base disto tudo. Nós todos sabemos disso, mais uma vez. Mas mais do que o amor aqui, porque o amor, evidentemente, quando estamos a falar de um pai, de um filho, o amor, à partida, é o amor maior que há. O amor por um filho, o amor por um pai, é aquilo que nos sustenta, nós somos aquilo. Mas o que fez a diferença, sobretudo no hospital, no pediátrico, foi a alegria. E é quase irônico. Nós falamos em alegria quando estamos a falar de um internamento duro, difícil, de 90 dias. Mas a alegria foi o que nos salvou ali. É claro que a alegria vem em resposta ao amor. Nós amamos tanto que vamos tentar ser alegres ali. Se nós não amássemos, não éramos capazes, se calhar, de ter força.

E ser fortes perante o que está a acontecer.

Exatamente, não éramos capazes de ter aquela força. A alegria vem da força, que por sua vez vem do amor e tudo vai dar ao amor, evidentemente. Mas a capacidade que nós temos de ter, e isto é dentro do hospital e é fora do hospital, nós temos que ter essa capacidade muitas vezes. Quando a vida nos cospe em cima, temos que ter a capacidade de colocar alguma alegria, de rir dentro do que temos ali, do que está a acontecer. Aí está a acontecer, eu não posso evitar, não está nas minhas mãos. E quando nós estamos a acompanhar alguém no hospital, não temos nada nas mãos. E é isso que custa mais também, a angústia.

Ia te perguntar precisamente isso, porque tu levavas um filho de seis anos contigo e eu não me consigo colocar nesse lugar, porque é difícil pensar numa realidade em que um filho tão pequeno precisa dos pais para estar ali naquele lugar, num momento em que é difícil e vocês sabem disso. Mas o que se sente nesse momento? Nas idas ao hospital, quando lá ias com o teu filho e possivelmente vias também outras crianças, outras pessoas numa situação idêntica, que sentimento invade o corpo?

Nós ficamos reféns daquilo. Quando moramos no hospital, aquilo é o nosso bairro, aquilo é nossa casa, aquilo é nossa rua. E o meu filho, a dada altura, recebia sempre umas mensagens da Joana, a educadora dele, lá da escolinha. E todos os dias ela mandava umas mensagens com vídeos dos colegas a dizer: "Força, Benjamim", aquelas coisas. E a dada altura, para uma semana, se tanto, ele disse: "Mãe, pai, eu já não quero ver isto." "Então por quê, Benjamim?" "Eu agora estou noutras vidas". E é precisamente isso. Aquela expressão dele representa exactamente o que nós sentimos ali. Nós estamos noutra vida, aquilo é uma outra realidade, é uma outra dimensão. Quando nós entramos no hospital e quando saímos, naquele momento da alta, ao fim de três meses, é um momento em que nós mudamos de vida. É uma vida que começa e é uma vida que acaba ali dentro. E o que nos magoa quando nós estamos num hospital internados, seja nós, seja alguém, neste caso um filho, que ainda é mais difícil, porque é um filho criança, o que nos custa não é tanto estar no hospital, é o não sabermos como é que vamos sair dali. Como é que vai ser? A angústia não vem de estar no hospital, vem de eu pensar o que é que vai ser, o que é que me vai acontecer, o que é que vai acontecer ao meu filho. E essa angústia, a única maneira de nós lidarmos com ela é não olhar para ela. Daí a alegria. A alegria salva-nos de olhar para o fim. Eu quando estou a atirar um carrinho numa pista Hot Wheels num quarto de hospital, o que eu quero é olhar para o carrinho e viver aquele segundo. Eu quero viver aquele segundo, olhar para aquele segundo e não pensar no que vem depois. E o que nos salva é isso, é acreditar que conseguimos, nem que por poucos minutos no dia, olhar só para aquele segundo, para aquele instante. Porque se eu começo a olhar para o que vem depois, para as possibilidades, e se acontece isto, e se acontece aquilo, então é impossível. E é possível, e foi a grande surpresa que eu senti, que foi a capacidade de nós sermos felizes num hospital. É possível sermos felizes num hospital. Eu nunca fui tão infeliz como ali, nunca sofri tanto como ali, mas ao mesmo tempo nunca fui tão feliz como ali, porque cada pequeno momento de felicidade ali vale por muitos cá fora, porque nós estamos a combater forças que nós não conseguimos sequer denominar. Eu não sei que nome é que hei de dar ao que eu senti ali.

Viste coisas que não querias ver?

Ouvi, sobretudo. Ouvi sofrimentos de crianças que nunca vou esquecer, sobretudo de madrugada, nos cuidados intensivos. Havia ali momentos em que nós conseguíamos ouvir, porque está mais silencioso, apesar do barulho das máquinas e tudo, conseguimos ouvir. E eu ouvi muita dor. E quando a dor se ouve, é difícil pensar, é difícil sair dela, porque nós acabamos por sentir. E houve uma altura em que o Benjamim ouviu um bebé a chorar e ele próprio disse: "Ó pai, será que eu posso ir para o lugar daquele bebé?" Ele queria trocar com ele porque o bebé estava a sofrer tanto. E julgo que ali nós acabamos por ter empatia de uma maneira que cá fora, felizmente, não somos obrigados a ter ou raramente somos obrigados a ter. Mas acaba por nos tornar mais veia, mais sangue e menos razão, menos teoria, menos busca por sermos os maiores do bairro.

Tu estás a dar-nos aqui uma perspectiva e essa alegria que tu falavas é uma linha muito ténue, mas com certeza também viste pais em que é difícil ter depois esta postura perante a vida e perante aquilo que está a acontecer e perante aquilo que se vive num hospital, ainda para mais quando falamos de crianças, porque falamos de um ser se calhar tão indefeso que ainda está em construção e é difícil depois também fazer essa proteção e dar esse abraço.

Os pais ali, nós fazíamos, e os outros pais se calhar faziam algo do género, nós fazíamos uma espécie de turnos de choro. Fazíamos turnos, ia chorar um e o outro ficava a fazer rir e depois trocávamos. E sempre que nós nos cruzávamos com um pai, nós sabíamos que ou estava a chorar, ou ia chorar, ou vinha de chorar. Não há outra hipótese. Essas três possibilidades estão lá. Mas ao mesmo tempo sabíamos que aquele corredor onde nós estávamos, e era um corredor violento, os internamentos mais longos eram ali, era o corredor mais feliz do hospital. Aquele era o corredor mais feliz, porque nós fazíamos lá corridas de cadeiras de rodas com aquelas torres dos soros. Nós fazíamos essas corridas, nós contávamos anedotas, nós quando era possível jogávamos à bola, nós andávamos por ali e aquele corredor é o corredor mais feliz do hospital, ironicamente. É muito mais agressivo, muito mais aborrecido, muito mais zangado, o corredor, a zona das consultas externas, que devia ser a zona mais tranquila, porque são pessoas que vêm, estão ali duas horas a três e vão embora. Mas ali é que nós sentíamos o stress. Quando nós vínhamos cá fora: "Eu estou aqui à espera há três horas". E ali é que nós sentíamos stress. Lá em cima nós conseguíamos, estávamos todos partidos por dentro. Todos os pais ali estavam todos partidos por dentro. Mas arranjávamos maneira de colocar uma máscara e fazíamos de conta que estava tudo bem, porque o hospital, para as crianças, e é a grande diferença entre um hospital de crianças e um hospital de adultos. No hospital de adultos, toda a gente sabe que ninguém quer estar ali. Toda a gente sabe que ninguém quer estar internado. Mas no hospital de crianças, não. Nós temos de fazer de conta para as crianças que aquilo até pode ser divertido. E ao fim de alguns dias, o Benjamim disse mesmo: "Ó pai, ó mãe, eu se calhar já nem quero ir para casa. Se calhar fico por aqui". Que estava a divertir-se tanto, que já nem queria ir por ali. Um mês mais tarde, um mês e meio depois, um mês e meio de internamento, que ele já tinha, e ele ainda foi mais longe e disse: "Ó pai, eu se calhar "Estou com pena dos meninos que não estão aqui". Ele estava com pena das crianças que não estavam internadas. Ele é que estava a viver a realidade boa. Por quê? Porque dentro daquele túnel, é possível colocar lá umas luzinhas, fazer um carnaval, um forrobodó, dentro do que é muito difícil de viver. Claro que há casos muito complexos e houve lá casos muito difíceis que nós sabíamos de outros pais que tinham diagnósticos que eram incontornáveis, digamos, e conseguiam. Foram lições absurdas que eles nos deram. Olhar para eles, ao mesmo tempo que era inspirador, era muito doloroso.

Todos aprendem com as dores uns dos outros.

Sim, acaba por ser uma família. Nós criamos mesmo lá o bairro dos transplantados, que éramos os pais e os filhos dos meninos transplantados e fazíamos os nossos arraiais, fazíamos lá uma série de coisas e acabou por ser, dentro do que é a realidade, acabou por ser divertido. E é possível. E o sentido do humor salva-nos muitas vezes. Eu ali senti isso profundamente. Claro que o que custava mais ao Benjamim era o momento em que ele se despedia. E ele esteve lá três meses, viu muitos meninos entrarem e muitos meninos saírem bem. E ele ficava ali. E ele, por um lado, custava-lhe, porque estava a despedir-se de um amigo. E por outro, ele perguntava sempre: "Então, por que eu não vou?" Ele ia ficando e era uma tristeza tremenda. E houve um dia em que, no meio do corredor, ficamos lá os três a chorar muito, não aguentamos. É quando ele pergunta: "Será que eu algum dia vou voltar a casa?" E esta pergunta derrotou-nos naquela altura, nós já estávamos há dois meses, para 70, 80 dias. E quando ele pergunta isto, obriga-nos a olhar para o que nós não queremos olhar: o final, como é que isto vai acabar. E nós, naquela altura, não sabíamos como é que ia acabar. Aquela pergunta faz todo o sentido e o que custa é precisamente isso, é aquela pergunta fazer sentido: "Será que eu algum dia vou voltar a casa?" E isso derrota-nos. Basta pensar nisso que fico logo outra vez.

Deixa-nos pequeninos, no fundo.

É, nós sentimos que aquela pergunta encerra em si todos os medos que nós tínhamos e para os quais não queríamos olhar. Por isso é que queríamos fazer corridas no corredor e brincar e contar piadas e anedotas, porque tirava-nos de olhar para aquilo.

É um testemunho valente e muito poderoso. Eu próprio me estou a sentir um bocadinho mais pequenino a ouvir tudo isto e acredito que quem nos esteja a ouvir, também. Pedro Chagas Freitas, vamos só fazer aqui uma curta pausa. Já voltamos para a segunda parte do "Em 40 Minutos". Até já.

Obrigado, até já.

Estamos de regresso para a segunda parte do "Em 40 Minutos" com Pedro Chagas Freitas esta semana. Pedro, já falámos muito de amor, de dor, do teu filho Benjamim. Sei que há um jogo que vocês fazem em casa, como é que se chama? Tem a ver com Smurfs, não é?

Nós fazemos muitos jogos com os Smurfs. Smurf tennis.

Isso, exatamente.

Smurf tennis. Nós fazemos muitos jogos, é tudo à base dos Smurfs, agora já está a mudar. Já está a voltar aos Looney Tunes, que são a grande paixão dele. Ele teve duas paixões.

Começou a andar a correr o país atrás dos Smurfs.

E agora andamos atrás de Looney Tunes, portanto, quem estiver a ouvir, se tiver bonecos Looney Tunes, nem que sejam antigos, nós pagamos bem por eles, porque nós andamos a percorrer as feiras de norte a sul à procura destes bonequinhos, porque são bonecos, são coisas que não estão na moda, e novos não há. E então andamos aí nas feiras de velharias deste país a procurar usados. E neste caso, Looney Tunes, estamos à procura. Os Smurfs foi uma paixão de dois, três meses que ele teve também. Temos lá um saco cheio de Smurfs que ele não quer dar a ninguém, eles ficam com ele na mesma.

Mas tem outra paixão agora.

Agora tem os Looney Tunes e vamos ver se vai durar muito ou não.

Vou ler aqui uma passagem para introduzir algo que também quero falar contigo. "Sou um adulto e preciso de mimo. Nunca se é velho demais para receber mimos, para dar mimos. Nunca se é velho demais para querer colo, para precisar de um ombro que nos acolha, para sentir uma necessidade insaciável de ter quem caminhe conosco pelo meio dos medos". Este mimo que tu falas aqui é aquilo que também tens encontrado muito nas redes sociais, porque quando partilhaste a história do Benjamim, recebeste um colo muito grande, continuaste essa partilha e as pessoas continuam a abraçar-te.

Sim, foi uma onda. Nós sabíamos da doença do Benjamim desde os três meses e nunca tornámos pública, porque não era relevante, era uma coisa dele. A partir do momento em que precisámos de um dador, porque nós não podíamos ser, já fizemos os testes para ver se nós podíamos ser. Não podíamos e tornámos a questão pública. A partir daí, foi uma onda incrível, avassaladora, uma coisa que eu nunca imaginei, porque foram milhares e milhares de pessoas que se disponibilizaram A dar uma parte do seu corpo, que é disso que se trata. É dar uma parte do nosso corpo para salvar um estranho, que é um estranho, pessoas que não o conheciam pessoalmente. E isso mexeu conosco. E depois a partir daí, foi dois em um. O que dizíamos há pouco da importância da escrita pra mim, eu tinha de escrever, no final do dia, quando me sentava a vê-lo dormir no hospital, eu tinha de escrever, eu ia escrever, mas depois senti que as pessoas agora também têm de sentir isto. Quiseram estar dentro deste processo, todas elas, portanto vamos trazer essa energia pra cá. E sentimos essa energia das mais diversas formas. Foi muito importante eu, em todas as apresentações, em todas as sessões, eu tento agradecer da maneira que eu posso, porque foi muito importante cada mensagem, cada vídeo, cada presente que mandavam pra lá pro hospital. Tudo aquilo dava uma dinâmica ao dia que fazia com que o dia custasse menos. Aquela angústia acabava por ser ultrapassada: "Olha, Benjamim, chegou aqui uma encomenda pra ti. Vamos ver o que é." Depois era um peluche da Blue. Aqueles momentos em que nós víamos um vídeo que nos mandavam de um cão a fazer alguma coisa engraçada.

E ele sentia também esse amor, mesmo sendo muito pequenino, que lhe chegava e a força que lhe estavam a dar.

Sentia. Ele sentia muito, mesmo nos corredores, aquela dinâmica era interessante, sempre que ele se cruzava com alguém. E nós andamos muito a passear sempre que podíamos. Nós percorremos, descobrimos lá salas secretas e tudo. Eu no livro até tenho uma sala secreta.

O livro que está aqui, "O Hospital de Alfaces".

Há aí uma sala secreta, que no livro é, que eu no livro inventei o que podia ser a sala, mas nós descobrimos lá, de facto, salas secretas em que nós podíamos estar tranquilos, porque nós andávamos ali, corríamos quilômetros ali no hospital.

Eu descobri que todos os dias descobrias algo novo que ainda não tinhas visto.

Sim, e pessoas novas. E acabávamos por fazer amigos todos os dias nos corredores. Acho que não houve ali um centímetro do hospital que nós não conhecêssemos. Sequer alguns em que nós nem devíamos ter entrado, mas nós íamos à descoberta. Mas essa energia que vinha de fora, nós conseguíamos senti-la mesmo. Nas mais pequenas coisas, nós sentíamos que havia muita gente ali e cada um à sua maneira, cada um com as suas crenças, cada um com a sua forma de fé, digamos, todas elas nos traziam ali uma capacidade de, por momentos, acreditarmos mais que no final ia correr bem. Portanto, eu agradeço a essa corrente.

Que continua.

Que continua agora. Felizmente, nós já não estamos no hospital, mas todos os dias as pessoas trazem esse carinho e as redes sociais são muito bonitas. Podem ser muito bonitas.

Sim, e tu és a prova disso.

Foi o que eu percebi ali. Eu percebi ali que as redes sociais, que de facto são terríveis em muitos aspectos, trazem coisas muito más em muitos aspectos, também podem ser muito bonitas. E pra mim, naqueles meses, e pro Benjamim e pra Bárbara, foram muito importantes, sobretudo quando estávamos nos cuidados intensivos, em que ele não podia mexer-se muito fisicamente. Aquilo que nós tínhamos, as ferramentas eram aquelas, eram ferramentas do que podíamos fazer sem ele se mexer muito. E aquelas pessoas, a energia que traziam, as mensagens que iam mandando, acabavam por encher o dia, que é um dia vazio. Porque um dia nos cuidados intensivos é um dia em que nós não podemos fazer nada, estamos presos a uma cama e ele está preso a uma cama e nós estamos presos a ele. E o que vem de fora ali tornou-se mais decisivo ainda.

Este livro que eu tenho aqui na minha mão já vai na décima edição, prova de que está a correr muito bem. "O Hospital de Alfaces". Tem aqui uma frase: "Um livro devastadoramente bonito, que nos cura e nos faz olhar para o que realmente importa." Escrevê-lo, e sei que também falas aqui do teu pai, neste livro, também foi uma forma de te curar de alguma forma daquilo que estavas a sentir? Foi, de certeza.

Sim, foi uma forma de olhar pra lá, pelo menos. Ter a coragem de olhar pra lá. Curar, não. Depois aquela ideia de superação, a ideia de superar a dor, isso não existe. Eu não acredito em superar uma perda, nunca se supera. A perda de um pai, a perda de alguém que nós amamos, nunca vamos superá-la. Aquilo é uma parte de nós.

Até porque o luto é muito diferente de pessoa pra pessoa. Há pessoas que passado cinco anos é que estão realmente a viver o luto e viver essa fase. Há pessoas que o vivem logo numa primeira fase. São questões muito complexas e que nos levam também a um olhar diferente sobre isto.

Sim. E o espaço que o meu pai ocupava, ninguém o vai ocupar. Aquele espaço é um espaço vazio. Eu nunca vou ser 100% feliz, nunca. Eu posso estar a viver o momento mais feliz da minha vida, que aquilo dura meio segundo, que é o tempo que eu demoro a pensar: "Ah, se o meu pai estivesse aqui". A felicidade plena acabou. Aquele espaço, a minha felicidade plena, 100% felicidade, exigia que eu tivesse ali o meu pai. A partir do momento em que eu não o tenho, eu tenho de perceber que sou alguém amputado de uma parte do que me fazia feliz. E isso é incontornável, não vou superar. Nada se vai colocar naquele lugar, ninguém vai colocar-se naquele lugar. Aquele lugar é do meu pai. O que não quer dizer que eu não faça tudo pra tentar, com os 90%, com os 80 que me restar, aguentar ser feliz dentro do que é isto de ser feliz. O livro começa precisamente com isso: um pai que não pode abraçar o filho, porque tem uma doença que, se o abraçar, o pai morre. É uma doença que eu inventei, a amortia, que consiste nisso: a incapacidade de um pai abraçar o seu filho. E vem disso, de eu ter perdido o meu pai. Eu não posso, de facto, abraçar o meu pai. E a amortia é isso, é essa impossibilidade que nós temos. E eu quis também com a amortia, e daí não lhe chamar morte, não é separação física, olhar um bocadinho para as amortias que nós temos na nossa vida, que são amortias causadas por nós. Ou seja, quando eu me chateio com um irmão, com um amigo, até com o pai ou com uma mãe e lhe digo: "Tu para mim morreste." Nós dizemos mesmo essa frase: "Para mim morreste." O que é que eu estou a fazer? Eu estou a matar aquela pessoa. Aquela pessoa é como se estivesse morta. Eu digo mesmo isso: "Para mim é como se estivesses morto." Isso é aquilo a que eu também quis prestar alguma atenção. Será que vale a pena eu matar estas pessoas? Será que vale a pena eu, apesar de as amar, decidir não abraçá-las? Em alguns casos, sim, porque é altamente tóxico. Noutros casos, não. Noutros casos é por uma questão de ter mais ou menos razão, dele me ter dito uma palavra que eu não gostei. Mas a amortia acaba por também ser algo que eu queria que fizesse quem estivesse a ler olhar para isso e pensar: " Será que eu fiz bem em decretar esta morte ou não?"

Tu fazes questão ainda de ter uma cadeira vazia nas tuas palestras e que simboliza essa presença constante do teu pai. Isso ajuda de alguma forma também a amenizar aquilo que há para amenizar, no fundo. Nós temos falado aqui muito de dor, mas acima de tudo, acho que podemos falar de amor, porque acho que isto é mais amor do que dor, também partilhas da mesma opinião.

Sim, claro que sim. Falámos há pouco de viver num hospital. Eu conversei muito com o meu pai. Eu já não o tinha fisicamente, mas ele ajudou-me muito. E julgo que é algo que nós fazemos quando amamos alguém e quando conhecemos alguém bem, nós já sabemos basicamente o que é que aquela pessoa nos vai dizer. Eu conto qualquer coisa, eu já sei o que é que o meu pai vai dizer. E todos os dias eu faço esse exercício. Quando me acontece alguma coisa, eu estou aqui hoje. Ele estaria aqui hoje, se estivesse vivo.

E está, de alguma forma.

E estaria aqui. E eu já sei claramente o que é que ele agora diria. Eu vou chegar ao fim, vou chegar ao carro e penso: "O meu pai naquela parte ia dizer: 'Tu devias ter dito isto, devias ter dito aquilo.'" Eu sei claramente o que é que o meu pai ia apontar de bom, de mau, do que eu podia ter feito melhor ou pior. Eu sei isso tudo. E no hospital foi ele que me ajudou muito também, porque eu ouvi o que ele me tinha a dizer. E o facto de eu ter lá aquela cadeira dá-me uma espécie de conforto, de segurança, de proteção, até.

Olhas muitas vezes para ela.

Ele está lá. Sim, porque eu estou assim um bocado à rasca. Eu estou a falar e agora estou aqui um bocado perdido. Olho para ele e está tranquilo. Porque o que nos dá segurança em sermos amados é nós sabermos que por mais que possa correr mal alguma coisa, eu tenho um projeto, correu mal. Eu sei que aquela pessoa me vai amar. Eu sei que não é por eu subir a um palco e aquilo me correr mal, ou não é por eu lançar um livro e aquilo me correr mal, que a minha mãe vai gostar mais ou menos de mim. E isso é quase um superpoder.

É um casulo?

Aquilo está sempre ali e quando eu olho para aquela cadeira, eu fico descansado. Estas pessoas, o meu pai, a minha mãe, a minha mulher, o meu filho, estão lá. Isso pode correr mal, eu posso ser vaiado, que não interessa. Eu continuo a ser amado por estas pessoas e isso dá-nos uma solidez, de facto, emocional, que eu preciso de sentir. Acho que todos nós precisamos, todos nós somos viciados em amor. Todos, por mais que digamos que não.

Andamos todos à procura do mesmo.

Sempre, aquela coisa de sermos dependentes ou não. Nós somos todos dependentes uns dos outros e não tem mal nenhum. Nós somos seres sociais, eu preciso do outro. Eu preciso de amar o outro, de ser amado pelo outro, de me rir com o outro. Eu preciso do outro e não tem mal nenhum. Eu sou orgulhosamente dependente de quem amo.

Eu queria ir aqui à tua infância, porque esta conversa foi assim caminhando, tendo em conta aquilo que tu também nos expressas. Não era este o roteiro que tinha, mas as conversas são mesmo assim. Seguimos o rumo que cada convidado quer. E eu queria ir até à tua infância, à tua casa em Guimarães. Com certeza deve trazer grandes memórias e há bocadinho falávamos da ideia de casulo, se para ti também Guimarães ainda é como se fosse um casulo e um espaço seguro de amor, como temos falado tanto aqui ao longo desta conversa.

Sim. Era mais quando estava o meu pai também, agora só está a minha mãe e o resto da minha família, os meus tios, os meus avós. Mas essa infância era uma infância de liberdade, acima de tudo, de liberdade e de conseguir perceber que o que nós somos depende muito do que nós somos capazes de fazer com essa liberdade. E eu, felizmente, fui muito livre. Era outro tempo em que nós podíamos andar descansadinhos pela rua, tranquilos. A liberdade trouxe aquilo que falta hoje muito, que é algum tédio. Nós temos muito medo do tédio. As crianças nunca estão sem fazer nada, têm sempre coisas para fazer: faz isto, faz aquilo.

Quando não têm ecrã.

Mas a questão é essa. Nós, e mesmo os adultos, precisamos do tédio. O tédio é importante. Eu preciso do tédio para inventar coisas. A criatividade muitas vezes é a resposta ao tédio. É eu estar sem fazer nada e inventar. Eu não tenho brinquedos, eu não tinha muitos brinquedos. O meu brinquedo favorito era uma Torre Eiffel, que eu deitava a Torre Eiffel, ela ficava deitada, e aquilo era o meu carro. Um carro que eu inventei que tinha superpoderes. A criatividade vem de nós procurarmos também soluções de resposta ao tédio. E a minha infância, como eu não tinha muitas coisas, foi na rua com os meus amigos a tentar responder ao tédio. "O que é que nós vamos fazer? Nós não temos aqui nada." Nós não tínhamos computador, nós não tínhamos bicicleta, nós andávamos ali: "O que é que vamos fazer?" Tínhamos uma bola, que às vezes nem bola tínhamos, que ia para o quintal do vizinho e depois desaparecia. Nós conseguíamos sempre arranjar maneira de responder ao tédio. E depois, a questão da segurança vinha no final, que é exatamente a mesma coisa que eu sinto quando saio de uma apresentação, quando saio de um programa. É eu chegar ao carro, chegar a casa e saber que está lá tudo. Era isso que eu sentia quando era criança. Eu ia brincar, ia experimentar, ia às vezes fazer coisas que não devia fazer, subir a uma árvore, alguma coisa assim, depois chegava a casa e estava lá a segurança. E julgo que todos nós precisamos disso. Todos precisamos de ter esse espaço em que podemos, de facto, deixar-nos cair. E é muito importante, às vezes, até ao nível dos pais. Os pais ficam preocupados quando, por exemplo, os filhos na escola são impecáveis, tranquilos, e depois chegam a casa e fazem birras e choram muito. São um terror. É um bom sinal. É um sinal que eles ali percebem que podem exteriorizar, que é um espaço de segurança. Podem fazer birras, podem fazer o que eles quiserem, porque são amados incondicionalmente. É perigoso, é estranho, é um filho que em casa também usa o mesmo filtro que usa na escola. E eu era assim também. Eu ouvia a minha mãe muitas vezes dizer: "Quando estás nos teus tios portas-te tão bem, e depois chegas aqui e é só isso." Por quê? Porque eu ali sentia o tal amor incondicional. Eu posso exteriorizar aquilo que eu estou a sentir mesmo, porque essas pessoas vão estar sempre lá pra mim, vão acolher o meu choro, a minha zanga, a minha revolta. E quando o meu filho faz isso, eu fico feliz. É sinal que ele se sente nesse tal espaço de segurança.

É um bom sinal. Falavas aqui há pouco do tédio. O silêncio é também importante para ti, para te encontrares também? Não digo tanto ao nível de escrita, mas até mesmo para ti, enquanto pessoa, é muito importante?

É importante porque eu sou viciado em pensar. E estou a ver se vicio o meu filho nisso.

Sempre a mil à hora.

Não, eu sou viciado em ficar parado a pensar. Nem que seja na coisa mais ridícula do mundo. "Por que esta parede é assim? Por que ela é rugosa e não é lisa?" Pode ser a coisa mais ridícula do mundo.

Achas que o teu filho herdou isso de ti?

Eu acho que sim, porque ele às vezes faz perguntas assim, mas também é próprio das crianças que fazem perguntas assim. Mas eu julgo que ele gosta de pensar. Gosta de pensar, gosta efetivamente de fazer perguntas. Agora estamos com os Looney Tunes, com os Smurfs, era a mesma coisa. Ele faz perguntas que nem o ChatGPT consegue responder. "Nós vamos perguntar ao ChatGPT." "Não, Benjamin, eu vou perguntar ao ChatGPT, que eu não sei." E então começar a fazer perguntas e o ChatGPT, ele diz: "Muito perspicaz. Nunca tinha pensado nisso." Ele fica lá às voltas a pensar e eu digo: "Olha, o ChatGPT está com a cabeça às voltas, ele não vai perceber nada disso." Porque são coisas que vêm de um olhar que não é imediato, não é aquela coisa imediata. É uma coisa que ele tenta olhar de outro ângulo, de outra perspectiva. E eu sou viciado nisso. Eu gosto de estar naquilo que nós chamamos de fazer nada. É decisivo pra mim, não no sentido de estar ali, de facto, a fazer nada, é no sentido de estar a pensar. Pode ser a coisa mais ridícula, mas eu preciso de pensar. E pra isso, preciso reservar um tempo pra aquilo, que é quase absurdo. Eu às vezes digo: "Espera lá que eu só vou ali pensar um bocado." "Mas em quê?" "Só vou pensar, não faço ideia." E preciso de 10 minutos só pra pensar. E não é nada de especialmente profundo. Não é nada, é pensar, eu preciso. Acaba por ser quase um escape. Deixa-me pensar um bocadinho e depois vou viver. E o silêncio também acaba por ser isso. O silêncio é fundamental. E nós às vezes desprezamos estas coisas. Nós somos muito focados, nós estamos viciados no foco. Estamos sempre a dizer uns aos outros: "Foca, pá, foca, o foco é que é importante." Mas nós precisamos também muito de desfocar, nos distrairmos. E se calhar as grandes ideias vêm da distração, de eu olhar de outra maneira e não de estar dentro do túnel. Se nós virmos as grandes ideias, se calhar nasceram de alguém que estava a passear o cão, alguém que estava no chuveiro.

Em situações inusitadas.

E por que surgem aí? Porque é quando nós desfocamos, é o contrário. Quando eu me permiti sair daquele túnel de execução, de fazer coisas, eu tenho que fazer coisas. E quando nós saímos disso, quando nós nos permitimos isso, se calhar conseguimos ver coisas que não conseguimos ver de outra forma. O silêncio pra mim representa isso tudo. O silêncio é uma interrupção, é uma fuga, é um excurso, é eu sair daquela linha plana, daquela linha sempre direitinha que nós normalmente seguimos. E isso é um luxo, acaba por ser quase um luxo. E pra mim é um grande luxo. Eu conseguir reservar 10 minutos ou 15 minutos ou meia hora pra pensar, pra mim é um spa. Ali é que eu estou a relaxar mesmo.

Que homem é este que eu tenho aqui à minha frente hoje?

É alguém que falha profundamente, continua a falhar profundamente, mas tenta não cometer os mesmos erros. É alguém que desaprendeu muito no último ano, é alguém que é completamente diferente.

Acreditas nisso, que desaprendeste?

Desaprendi muito daquilo que eu pensava que me definia. "Eu sou isto". Não, já não sou nada daquilo, sou outra coisa qualquer. E é essa outra coisa qualquer que me interessa agora perceber, que outra coisa qualquer é esta. Mas é alguém que tenta, sobretudo. Não sou guru de nada. Aquela coisa do guru, eu fico louco. Não sou guru de nada. "Pedro salvou-me". Não, eu escrevo o que eu sinto, digo o que eu sinto.

Que se pode relacionar com histórias de outras pessoas.

Exatamente, as pessoas identificam-se, perfeito, se eu ajudo, maravilhoso. E todos os dias muitas pessoas a dizer: "O Pedro ajudou-me nesta altura, naquela altura, salvou-me". Mas é sem querer. Eu não quero ser guru de nada, porque eu sei muito pouco. Eu não estou aqui para ensinar ninguém, porque eu sei muito pouco. Não quero ensinar, não quero dar aulas de nada, não quero dar sermões de nada, é só o que eu sinto. E o que eu sinto, se for útil aos outros, perfeito. Agora, não me peçam para ser guru de nada ou para liderar movimentos que queiram mudar o mundo. Não, eu tento saber quem sou e o que estou aqui a fazer e ser boa pessoa. No limite, o que eu posso garantir é que a cada dia que passa, sou uma criatura melhor. É o que eu tento ser, uma criatura melhor todos os dias. Depois, logo se vê o que é que se faz com isso. Mas eu todos os dias tento ser uma criatura melhor, um ser humano melhor. E isto é o mais banal possível, mas para mim é o mais profundo possível. É eu chegar ao final do dia, ou chegar a meio do dia, sair daqui agora e pensar: "Epá, por que eu ali não fui melhor? Por que eu ali podia ter dado um bom dia e não dei? Por que eu ali não dei um abraço àquela pessoa?" E estas coisas, por mais pequenas que sejam, para mim, são quase um objetivo de vida. O meu objetivo de vida é também esse, é ser uma criatura melhor. Dentro do que eu conseguir ser, eu vou ser uma criatura melhor. Vou continuar a meter a água, vou continuar, se calhar, a magoar porque não fui capaz de ser melhor, mas nunca será uma coisa intencional, nunca será aquela coisa de fazer mal ao outro. Tenho muita dificuldade em lidar com isso, com injustiças, com essas coisas. Todos nós temos, mas nós próprios às vezes somos injustos. Vem alguém no trânsito, faz uma asneira e nós já estamos a insultar, já estamos a buzinar sem saber porque é que ele fez aquilo.

É quase automático.

É, porque nós criamos quase o diabo é o outro. Os outros são todos más pessoas, eu é que sou bom. E quando nós normalizamos, em mim e no outro, a incapacidade, a fragilidade, a vulnerabilidade, é tudo muito mais fácil. Eu vejo alguém que faz uma asneira no trânsito à minha frente, aqui o meu impulso é buzinar, dedicar algumas palavras à mãe daquela pessoa. Mas se eu perceber, se calhar, eu no lugar dele tinha feito o mesmo, ou se calhar ele não é de cá e entrou no sítio errado e agora está a tentar corrigir. Ainda há pouco eu vinha na autoestrada, de madrugada, e estava a chover muito. E eu vinha encostado à direita, devagarinho, tranquilo. Estava a chover, eu estava cheio de medo.

Parece que muita chuva no caminho.

Cheio de medo. Não, não foi agora. Eu estava a regressar de uma apresentação, às duas ou três da manhã, e vinha à direita, a chover muito e autoestrada vazia. E de repente, vem um carro, encosta atrás de mim, vem ali colado a mim. Eu comecei a pensar: "O que é que se passa?" Comecei a dedicar nomes à mãe daquela pessoa, que tinha ali aquela autoestrada toda disponível, e está ali encostado a mim, colado, a chover. Há uma curva, eu saio na estação de serviço, tem uma estação de serviço logo ali. Ele sai também, atrás de mim. E eu: "Epá, isto vai correr mal". Eu paro o carro, ele para ao meu lado, e quando eu vou para sair do carro, revoltado, eu vejo uma coisa tão simples como um pai, que vinha ao volante e estava atrás já, porque tinha um filho a sangrar pelo nariz, no banco de trás. E ele encostou ali porque não sabia se tinha tempo para me ultrapassar e sair na estação de serviço. Então encostou logo ali e foi impressionante, porque tinha o filho em dificuldades atrás. Ele não podia fazer nada porque ia ao volante. É uma coisa tão simples quanto isto. E eu já estava pronto a ser juiz daquela pessoa.

Daquele momento.

Aquele juiz, dizer: "Tu és isto, tu és aquilo". E nós somos juízes uns dos outros, às vezes sem um bocadinho de capacidade de perceber que há qualquer coisa ali por trás. A pessoa não é necessariamente má pessoa, não é necessariamente menos capaz do que eu. É só alguém que está no momento em que teve de fazer aquilo ou não foi capaz de ver que conseguia fazer melhor do que aquilo.

O que te dá um bom abraço do teu filho Benjamim?

Dá-me tudo. Custa muito agora, cada vez custa mais sair, fazer viagens, porque tenho de o deixar e ele sente muito isso e ficamos ali os dois. Ainda ontem antes de vir, ele chorou, porque: "Ai, pai, nem sequer me vais acordar. Podias ao menos acordar-me". Aquilo dá-nos tudo e torna-nos a criatura mais frágil do mundo e torna-nos, ao mesmo tempo, a criatura mais forte do mundo. É esta dicotomia, porque alimenta-nos de tal maneira que nós nos sentimos indestrutíveis. Eu só tenho o meu filho, eu amo o meu filho, o resto não me diz nada, não é relevante, se corre bem, se corre mal, desde que ele esteja bem, eu estou bem. E, ao mesmo tempo, é uma fragilidade tremenda, porque ele está ali, qualquer coisa lhe pode acontecer. E depois do que lhe aconteceu, ainda mais essa fragilidade vem. Acho que todos os pais sentem isso, essa fragilidade, mas depois de vivermos uma doença, acaba por sentirmos ainda muito mais essa fragilidade, como é evidente. E todos os dias é só isso que eu quero, se ele estiver bem, o resto eu aguento. Não há de ser nada, porque ele está bem. É só o que eu quero saber, se meu filho está bem. Antes de entrar numa apresentação, numa entrevista, qualquer coisa, vou ver o telemóvel, não há nada, perfeito. É um dia maravilhoso. Não há notícias más, ele está bem, perfeito.

O amor está lá sempre e a prova disso é todo este "Em 40 Minutos" em que falámos muito de perda, de dor, mas é preciso, às vezes, também, e muito, o amor para, não digo curar, mas para amenizar e para termos este testemunho.

E a alegria. É importante a alegria.

Os Smurfs.

A alegria, Smurfs e Looney Tunes. Nós às vezes desprezamos muito a alegria, achamos que a alegria não é profunda. Achamos que a alegria é uma coisa superficial, é uma gargalhada, mas a alegria salva-nos profundamente. A alegria tira-nos de coisas terríveis, tira-nos da angústia. Quando estou angustiado, se eu ouvir algo que me faz rir profundamente, naqueles segundos em que eu estou a rir profundamente, a angústia foi-se. É impossível estar angustiado e a rir profundamente. Nós temos de responder à angústia, ao que nos magoa, também com uma gargalhada. Uma gargalhada profunda, uma piada boa, salva-nos muito.

Pedro Chagas Freitas, muito obrigado por ter vindo aqui à Rádio Observador e por esta conversa, por esta partilha tão nua e crua, aqui no "Em 40 Minutos". Muito sucesso. Um grande abraço.

Muito obrigado. Um abraço grande. Obrigado.