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Eu entendo que muitas vezes as pessoas que me viam cantar, que estavam tão próximas e que eram tão devotas daquilo que eu fazia, achassem, porventura, que me conheciam. Eu entendo isso. Eu entendo que as pessoas que nos veem na televisão, se sintam próximas, que sintam que fazem parte. É bem diferente esta coisa de ser pessoa e ser artista. É difícil falar sobre isto. É difícil, porque eu tenho sempre muito medo de ferir quem quer que possa estar no lugar em que eu estive. Não estive sempre ótima, eu estive muito magoada, precisamente por ouvir as pessoas falarem de uma coisa que não faziam ideia. E parecia que me conheciam. De onde é que me conhecem? Não me conhecem. Conhecem-me é como artista. Isso durante algum tempo deixou-me zangada. Depois percebi que as pessoas estavam zangadas comigo porque eu lhes retirei alguma coisa. E depois eu percebi a importância que isso tinha pra algumas pessoas. O que foi que, de resto, me comoveu ao fim de algum tempo e hoje já falo com amor disso. Nem sempre foi assim.
Cresceu rodeada de vozes antigas. Ainda criança, subiu a palcos onde o silêncio pesa tanto como a emoção e venceu quando muitos ainda brincavam. Tornou-se uma das vozes mais respeitadas da sua geração. Cantou Portugal, dentro e fora de portas. Mas nem tudo o que brilha protege. Houve um momento em que o palco deixou de ser casa e passou a ser um peso. Escolheu parar, preferiu o silêncio. Escolheu salvar-se num mundo em que raramente ensina artistas a fazê-lo. Durante anos, afastou-se dos aplausos, da exposição, da ideia de carreira. Regressou agora, dona de si, mais inteira, com outras perguntas e outras urgências, talvez outras inquietações. Hoje canta porque precisa, não porque pedem, canta porque é inevitável. Raquel Tavares.
Uau!
Em 40 minutos. Bem-vinda.
Estão a falar de mim?
Estou a falar de ti.
Uau!
Exatamente.
Fiquei muito impressionada com esta introdução.
Já valeu a pena.
Pronto, a partir daqui é sempre imenso.
A partir daqui
É sempre a descer.
A tendência é sempre a descer.
Obrigada. Obrigada, antes de mais, pelo convite. É um gosto estar aqui pela primeira vez.
É verdade, no Observador.
É a primeira vez que estou no Observador.
Já te vou apresentar ainda melhor os cantos à casa, quando terminarmos aqui a nossa conversa. Que mulher é esta que eu tenho aqui à minha frente? Agora, 41 anos feitos muito recentemente.
Feitos agora, feitos recentemente. Fiz no dia 11 de janeiro, 41. Olha, eu sinto-me ótima. Às vezes uma pessoa até tem medo de dizer estas coisas. Nos dias que correm, dizeres que estás bem é quase um atrevimento. Mas eu tenho que dizer que estou numa fase mesmo muito boa. Eu quando fiz aquele post típico do fim d'ano, recordava-me dos meus últimos posts de fim de ano e todos eles eram com uma carga emocional muito profunda e muito densa. De resto, eu também sou isso.
Porque tu também és isso.
Justamente. Eu sou essa pessoa.
Quem te conhece bem, sabe esse grau de profundeza que tu tens.
Imenso. Mas este ano, o meu post de fim de ano foi leve e eu tive necessidade de dizer precisamente isto, que é: "Olhem, não estou pra coisas muito introspectivas. Olha, que bom, estou ótima, estou bem, venha de lá 2026". E é exatamente este o espírito em que estou. Estou bem. Às vezes tenho que parar pra pensar assim: "Espera aí, estou mesmo bem? Deixa cá ver se não há aqui nada que não esteja". Claro que a vida, o dia a dia tem sempre muitos desafios e todos os dias tens que perceber que tipo de pessoa é que queres ser. Claro que não paramos todos os dias pra pensar nisto, mas há muitas coisas durante o dia que te desafiam a pensar: que pessoa é que eu quero ser nesta ou noutras situações? A verdade é que ultimamente, eu creio que tenho decidido, desculpem-me a imodéstia, tenho decidido bem, porque me sinto bem com as escolhas que tenho feito, especialmente as mais recentes, nomeadamente ter regressado à música.
E se calhar também parte disso. Esse final de ano foi muito emocionante.
Foi espetacular.
Com um concerto numa casa que pra ti diz tudo, não é?
Vou te dizer, o Coliseu que fiz no dia 5 de dezembro, já fiz outros, noutras circunstâncias da minha vida, e é tão díspar a emoção que senti neste meu último Coliseu. Eu estava tão feliz, mas tão feliz, que eu quando acabei, pra perceberes o nível de emoção que a pessoa tem dentro, eu olhei pra minha melhor amiga e disse assim: "Ainda não chorei. Não sei o que é que se passa". Porque eu sou de chorar. E eu não consegui chorar de feliz que eu estava. Eu estava tão emocionada, mas pra bem, pra uma energia boa. Aquilo correu exatamente como eu quis, foi o Coliseu que eu idealizei. Desculpem-me dizer "eu" muitas vezes, mas fui mesmo eu. Eu decidi o alinhamento, eu decidi as luzes, eu decidi o conceito, eu decidi o que é que eu queria fazer, que pessoas queria ter, de que modo é que ia ser. Fui eu que decidi.
Foi à moda da Raquel Tavares.
Foi à la Tavares. E correu bem. Portanto, o risco era grande, porque podia aquilo não ter graça nenhuma. Mas desta vez eu decidi que era eu que ia ter a rédea, em tudo. Eu decidi se é pra voltar, quem vai gerir sou eu. E assim foi. E deu certo. E portanto, desde lá pra cá, tem sido ótimo. Desde que lancei o disco, com tudo com muita calma, acima de tudo, e pra já, sem criar grandes expectativas. Por agora, sem grandes expectativas, unicamente a desfrutar deste momento de voltar à música.
Mas não queres criar expectativas por segurança e pra manter também os pés assentes no chão?
Sim, pode ser. Quando tu começas a criar expectativas em relação ao que quer que seja, vem a pressão imediatamente atrás.
E foi isso que te levou a afastar na altura e fazer este hiato de cinco anos ou não foi tanto por aí?
Foi um conjunto de fatores.
Uhum.
Que claramente eu não quero repetir. E esta coisa da indústria da música, por isso é que eu gosto de reiterar, eu voltei à música e não necessariamente à indústria. Eu não gravei um álbum comercial, eu gravei um álbum de fados.
Não, e prova disso também é isto que estás a dizer, no teu espetáculo foste tu que tomaste as rédeas.
Sim, tudo, absolutamente. E bem sei que é muito mais difícil estar na indústria de música sem a estrutura e, portanto, como não a tenho Também não ambiciono para já estar muito na indústria. Eu não trabalho para ter um single a tocar nas rádios. Já tive isso, e foi ótimo, e trouxe-me a um lugar de conforto ao ponto de poder estar cinco anos afastada e agora voltar e encher o Coliseu. Portanto, eu sou muito grata a esse percurso. Claro que foi ótimo. Neste momento, eu ambiciono outras coisas enquanto puder. Obviamente, posso dar-me ao luxo de escolher fazer assim. Por enquanto, ainda posso. E por isso tem sido um regresso muito pautado, mas com decisões muito firmes e que exatamente por poder ainda estar longe da indústria e da pressão que isso acarreta, é que estou a desfrutar tanto e está a ser tão divertido. É que não me lembro de ser tão divertido. É divertido.
Estás a encontrar a diversão a trabalhar?
Sim. Isto dito assim, pode parecer que noutras alturas foi horrível. Não foi horrível, mas foi bem diferente. Portanto, está a ser ótimo, estou mesmo feliz.
A música e a indústria em si prepara para uma pausa ou apenas para quando se está lá em cima e a sentir o sucesso daquilo que tu fazes?
Eu acho que a indústria não te prepara pra coisa nenhuma. A minha experiência. A indústria não me preparou pra grande coisa. A vida, talvez. A indústria, não. É muito arriscado. É arriscado falar disso também.
Tu tens uma visão, eu acho, muito completa e é boa para outros artistas, se calhar alguns que até se estão a iniciar e que não têm muita noção do que é que implica esta indústria.
Sim.
E tu falas muitas vezes sem pudores sobre isso.
Vamos lá ver. É sempre a minha experiência, nada disto é factual, é a minha opinião. Mas à malta que eu conheço que está a começar, independentemente do gênero de música, eu conheço muita malta nova a cantar. Isto não parece nada maternalista, não é nada disso. Mas às vezes, quando cabe, eu digo: "Cuidado com o que desejas". Digo muitas vezes, porque isto é rápido. Isto é tão rápido. E eu ainda venho num tempo, eu canto há muitos anos. A indústria é outra coisa. Cantar é uma coisa, estar na indústria é outra. E eu ainda apanhei a indústria num modo diferente do que está hoje. Eu quando agora retornei, e tenho estado a perceber como as coisas funcionam, eu acho ainda mais difícil. Está ainda mais difícil, está ainda mais leonino, por assim dizer. E portanto, eu não quero tornar demoníaca a indústria, Deus me livre diabolizar, não é isso.
Mas não te identificas.
Não é exatamente aquilo que eu mais adoro. Eu gosto de escolher as palavras para falar em relação a isso, porque pode ser muitíssimo mal interpretado. E eu não quero.
Acima de tudo tens respeito também pelo caminho que foste fazendo até aqui e com esse apoio da indústria, não é?
Precisamente. Indústria lê-se o que as rádios decidem que vão fazer com a tua música, o que é que tu decides fazer para as rádios. Só isto é estranho pra mim, sabes? Tu teres que fazer música para as rádios e não necessariamente para as pessoas. Atenção, reitero, isto não está errado, isto é uma fórmula.
Sim.
Mas que provavelmente eu não sei se voltarei a estar nesse lugar. Já estive, fi-lo, e ainda bem que fiz, foi divertidíssimo, porque a verdade é que depois eu alcancei um cem número de pessoas que não fosse dessa forma, não teria feito. Portanto, é claro que ajuda, é uma belíssima ferramenta, mas é o meu princípio enquanto fadista, acima de tudo enquanto fadista. Se calhar agora não. Para o ano não sei, vai que eu para o ano decido e lanço o grande single, percebes? Porque me apetece. Pode ser. Neste momento, não. O meu princípio de fazer música agora é outro, porque já experienciei esse lado. Portanto, está tudo certo que as pessoas queiram fazer dessa forma. Está tudo certo que tenham as suas estruturas, as suas editoras a ditar o que é necessário, os seus managers a decidir o que é certo ou o que não é, que forma é que devem adotar ou não, de que maneira é que devem falar ou não, de que maneira é que se devem vestir ou não. Está tudo certo. Eu já experienciei isso, foi muito prazeroso e muito benéfico pra mim, mas agora estou noutra fase e quero tentar. Não venho erguer bandeiras, não estou nada a querer bandeiras erguer, mas é que a espeto nenhum, não vou mudar nada, também não pretendo, estou só a fazer o meu percurso, à minha maneira desta vez.
E estás mais confortável do que nunca nesse lugar?
Eu arrisco dizer que sim. Não sei se vai correr bem, atenção. Isto pode não correr nada bem e de hoje pra amanhã eu perceber que eu tenho que me render aqui a algumas coisas que de fato fazem falta.
E se isso acontecer?
Olha, está tudo bem. Uma coisa que eu aprendi com o que aconteceu, com tudo o que se passou, é que não vale a pena fazer grandes planos, nem a médio, nem a longo prazo. E que as certezas todas que tu pões hoje na vida, vem de lá uma rabanada de vento e deita-te as certezas todas por água abaixo. E, portanto, eu já percebi que não vale a pena ter muitas certezas. Hoje, aqui agora, estou confortável com esta escolha. Se para o ano não estiver, está tudo muito bem, bora, é aceitar. Eu há seis anos, quando decidi fazer uma pausa, não imaginava de todo, e provavelmente dir-te-ia na altura: "Não, eu não volto a fazer no Coliseu, não volto a lançar um disco". Eram as certezas que eu tinha há seis anos.
Eu lembro-me perfeitamente dessa entrevista que tu deste à Cristina Ferreira. E que foi uma entrevista muito emocionante, porque eu acho que o público, talvez as pessoas mais próximas, sim, já percebiam esse desgaste, mas aquele que te acompanhava sempre e que estava lá sempre na primeira fila dos concertos, apesar de te ver a cantar e te ver ali em cima do palco, não sabia daquilo que tu sentias e da dor, do vazio que se calhar sentias naquela altura.
É. A relação entre artista e público é muito bonito. Mas Existe a artista e existe a pessoa além da artista. E é claro que eu entendo que muitas vezes as pessoas que me viam cantar e que estavam tão próximas e que eram tão devotas daquilo que eu fazia, achassem, porventura, que me conheciam. Eu entendo isso. Eu entendo que as pessoas que nos veem na televisão, se sintam próximas, que sintam que fazem parte. Quem sou eu para dizer que não é bem assim? Deus me livre acabar com o sonho das pessoas. Não é isso que eu pretendo. Mas é bem diferente esta coisa de ser pessoa e ser artista. É difícil falar sobre isto. É difícil, porque eu tenho sempre muito medo de ferir quem possa estar no lugar em que eu estive.
É a tua experiência, no fundo. Foi aquilo que tu sentiste e tudo aquilo que tu viveste.
Sim, eu estou ótima com o que aconteceu. Não estive sempre ótima, eu estive muito magoada, precisamente por ouvir as pessoas falarem de uma coisa que não faziam ideia. E parecia que me conheciam. De onde é que me conhecem? Não me conhecem. Conhecem-me é como artista. Isso durante algum tempo deixou-me zangada. Depois percebi que as pessoas estavam zangadas comigo porque eu lhes retirei alguma coisa.
Uma coisa tão simples para elas como cantar.
Sim, como cantar. E depois eu percebi a importância que isso tinha para algumas pessoas. O que foi que, de resto, me comoveu ao fim de algum tempo. Hoje já falo com amor disso, nem sempre foi assim. Mas hoje eu falo de um lugar de amor disso e que acredita que foi parte do que me fez retornar. Foi perceber que as pessoas estão zangadas, mas é porque gostam de mim, é porque eu lhes faço falta de alguma forma. Eu não me tinha nesse lugar. É um bocado narcísico sabermos nesse lugar, mas eu entendi. E portanto, hoje eu lido com a crítica, que continuo a ter, obviamente, ainda existe. "Agora esta já quer cantar outra vez."
Sim, mas isso vai surgir sempre. Se tu agora decidisses e surgisse um convite para fazer uma novela, iam fazer os mesmos comentários.
Claro, vão fazer a mesma coisa.
Ou se voltasses à apresentação, como estiveste, aliás.
Eu voltaria a estar, se fosse o caso. Eu estou de bem com esse tipo de críticas. Já não me machuca essa coisa de: "Agora não sabe o que quer, esta nunca está bem com aquilo." Já não me chateia. Está bem, ok. Às vezes machucava-me e muitas vezes a ausência de empatia, que é a palavra-chave de 2025 e creio que vai ser de 2026. A ausência de empatia com o que é que poderá realmente ter acontecido e falarem com uma certeza absoluta sobre aquilo que não faziam ideia do que se estava a passar. Porque a verdade é esta: eu percebo que as pessoas possam ter dúvidas em relação a tudo o que aconteceu, mas reservo-me ao direito de não ter que falar sobre isso. É muito pessoal, não é?
Sim, acima de tudo é a tua vida.
Em última análise, eu disse sempre isso: "Olhem, isto não fez nada à vida de ninguém". Quando muito, à equipa com quem eu trabalhava, mas que estavam todos muito informados. Portanto, a decisão que eu tomei não afetou a vida de ninguém, é muito pessoal. Eu não fui responsável por uma pandemia, que na altura meteu-se a pandemia, e eu ouvi coisas tão descabidas como: "Esta foi esperta, esta sabia o que aí vinha."
Imagina.
"Virei a Maia das cantoras", eu devia. Eu ouvi coisas muito fora, mas quer saber? Eu fiz as pazes com isso tudo.
Ia-te perguntar precisamente isso, se consegues olhar para trás e fazer essas pazes, eu não digo com o passado, mas com aquilo que foi dito. Foram coisas boas, foram muitas boas, houve muito carinho bom que chegou, mas também houve muitas coisas desagradáveis e era isso que estavas aqui a referir.
Sabes uma coisa que eu aprendi, também da pior maneira, mas acho que aprendi, que é aquela velha história, é um clichê, mas é um clichê porque existe. Imagina, tu fazes uma qualquer publicação sobre o teu trabalho e tens 200 comentários ótimos e tens lá um no meio de uma senhora que diz: "Eu não gosto de nada disso". Tendencialmente, nós vamos dar importância a esse um.
E muitas vezes é esse comentário que é levado para chamadas de capa em algumas notícias também.
Pronto. E eu penso assim: "Mas que grande injustiça". Eu tenho aqui 200 pessoas maravilhosas a dizerem coisas tão bonitas e eu estou a dar uma importância a uma pessoa que provavelmente está em desamor, está triste com a vida que tem. Diz muito mais sobre essa pessoa do que sobre mim. E portanto, eu tive que aprender a fazer esse trabalho. Atenção, não foi fácil, não virei um Buda, mas tive que aprender a fazer esse trabalho. E de tal maneira estou bem, fiz de tal maneira as pazes com isto, que voltei a cantar, gravei um álbum e fiz um Coliseu. Estou ótima.
E eu tenho muitas mais perguntas para saber e quero saber como é que vai ser este 2026. Mas vamos só fazer aqui uma curta pausa. Já voltamos. Vamos só atualizar as notícias esta semana no "Em 40 Minutos" é com a Raquel Tavares, que está aqui tão feliz e nota-se ao longo desta conversa. Até já. De regresso para a segunda parte do "Em 40 Minutos". Esta semana estamos com Raquel Tavares. Já falámos muito sobre o teu regresso, que tem sido muito emocionante. Agora quero ir para viagens. Sei que muito recentemente estiveste em Roma.
Estive em Roma.
Mas quero perceber a tua ligação, e acho que é percetível através das tuas redes sociais. É isso mesmo. Ao Brasil. E esta tua necessidade, tu estiveste lá ainda durante algum tempo O que o Brasil te trouxe? Tem de especial? O que trouxe à Raquel Tavares? A alegria está aí, portanto deve vir daí também.
Ai, tantas coisas! Eu seria uma pessoa muito mais chata se não tivesse estado no Brasil. Sou fadista desde que me lembro. Crescia a achar que já era muito crescida. Tinha só 18 anos e já achava que tinha 40. Eu envelheci muito rapidamente. Muito cheia de certezas absolutas, muito cheia de convicções, quando fui pro Brasil a primeira vez. E depois vim de lá destornada, basicamente. Percebi que não sabia nada, não valia a pena ter certezas de nada e que era chata. Eu dei conta que era uma pessoa muito chata, que me levava muito a sério, que era muito preconceituosa comigo, acima de tudo, mais do que com os outros, eu era comigo.
Em que sentido?
Como fadista, por exemplo, eu achava que não me poderia propor a cantar outras coisas, porque isso ia desvirtuar-me enquanto fadista e tradicional, que sempre fui. Um disparate pegado, isto não faz sentido nenhum, só na minha cabeça é que isto era assim. E o Brasil, aquela forma daquelas pessoas viverem é tão desafiante, porque aquela coisa de viver e não ter a vergonha de ser feliz como cantou o Gonzaguinha, é uma realidade que se vê todos os dias na cidade do Rio de Janeiro, onde eu estive. Vê-se todos os dias. Eles desafiam as leis da vida, do limiar da vida, do fio da navalha. Aquilo existe, aquilo é real todos os dias na cidade do Rio de Janeiro. E eles vivem, eles sabem tão bem que é assim, eles têm total consciência disso, que então decidem viver todos os dias como se fosse a última vez. Há muitas daquelas pessoas que saem à rua todos os dias a pensar: "Bom, o que é que pode acontecer hoje?" Eu nem sequer vou enumerar o que é que pode acontecer no Rio de Janeiro todos os dias, não vale a pena. Já todos sabemos. Mas aquelas pessoas conseguem aproveitar o fato de viverem na Cidade Maravilhosa, e pra mim, do mundo que eu conheci, é efetivamente a Cidade Maravilhosa, e desfrutar, imagina. Eles invertem as coisas menos boas, como estar no trânsito. Eu recordo-me de uma vez estar a caminho de Copacabana, eu vivia na Barra, que imagina, sem trânsito, são 20 minutos da Barra à Copacabana, e com trânsito são duas horas. E eu estava num ônibus, num autocarro, no topo de um morro, e a vista era absurda, uma coisa maravilhosa. E eu estou no autocarro, está uma senhora de pé ao meu lado e que me diz assim: "É difícil estar aqui tanto tempo, não é?" Eu falei: "É, mas olha só esse visual". Então eles conseguem. Tá, é uma chatice estar duas horas, mas ao menos estamos duas horas com esta vista soberba. E claro, este é o exemplo muito básico do que é o Rio, mas esta é a forma dos cariocas. Claro que isto também tem coisas menos boas. Obviamente que isto tem coisas, espelha-se na sociedade em coisas menos boas, mas eu decidi tirar as boas. Então olha, eu vim de lá muito melhor nesse sentido. Vim de lá, acima de tudo, musicalmente, porque depois apaixonei-me pelo estilo, pelo samba raiz. Eu mergulhei dentro daquele estilo, do que é efetivamente o samba de raiz, que eu, de resto, não conhecia. Há músicas que eu creio que tens que estar no lugar pra elas, pra conhecê-las, como de resto, pra conheceres o fado, tens que estar em Lisboa. Uma vez que seja na vida. E o samba de raiz é a mesma coisa. Aquilo é uma expressão tão forte, é tão deles, só que a maneira deles é tão diferente da nossa, porque depois nós cantamos a tristeza com uma imensa dolência. Eles cantam a tristeza com uma imensa alegria. Eu aprendi muito com eles. Eu aprendi a apaixonar-me por outro estilo, a conhecer-me como cantora, a desafiar-me. Percebi que podia ser feliz a cantar outras coisas, ir viver noutro sítio que não em Alfama. Inicialmente, isto foi um choque pra mim. Lembro-me quando regressei.
Encontrar alegria noutro sítio.
Sim, noutro sítio. Tu não imaginas o que me senti a trair o meu bairro. Eu quando cheguei a Lisboa a primeira vez, depois de estar três meses no Rio, eu olhei pras quatro paredes da minha Alfama e disse: "Desculpa-me, perdoa-me". Dramática, porque meu Deus, eu estava a ser feliz noutro sítio.
Mas não trocavas.
Eu não trocava.
A questão complicada agora.
Não, eu não trocava, mas se eu pudesse, ainda ao fim destes anos todos, isto já foi em 2012, mas se eu pudesse partilhar um pouquinho da minha vida lá e outro pouquinho aqui, seria bom. Eu agora, por exemplo, feliz era fazer as malas e ir-me embora até abril.
Pois.
E depois voltar em março, a maio, percebes? Isso seria o meu ideal. Mas eu costumo dizer em tom de graça, assim, que toda a gente pudesse, eu gostava muito, claro, que toda a gente tivesse a oportunidade, uma vez que fosse na vida, de ir ao Rio de Janeiro. Faz muita diferença. A mim fez.
Alfama é a tua casa. Eu acho que associamos, lá está, qualquer pessoa que pensa em Raquel Tavares, pensa imediatamente em Alfama, fado. O que há ainda dessa menina que por lá andava nesses dias, em que só queria cantar, em que só queria estar nas casas de fado, a ouvir, se calhar, também os mais velhos.
Olha, tocaste num ponto importante. O que existe muito dessa garota é essa imensa saudade, imensa necessidade de ouvir, de me sentar à mesa e de ouvir os antigos. Eu tenho muita saudade de estar nesse lugar, de ainda ter que prestar reverência aos antigos. Eu preservo muito, eu tento preservar muito dessa garota, porque faz-me sentir que ainda tenho muito que crescer, e é claro que tenho, mas com a validação de quem? Que isto não pareça mal, mas eu tenho muito respeito pela geração nova, tenho mesmo, e gosto, e acho que está de muito boa saúde a geração fadista nova. Eu gosto muito deles e admiro-os muito, mas ter ascendência é outra coisa. E eu sinto falta de ser garota e ter os, perdão, desculpa a minha expressão, os velhos. Os velhos, pra me validar.
E amparar?
E amparar. E educar. Eu tento preservar essa inocência, essa ausência de conhecimento. Quando me sento à mesa, por exemplo, a Maria da Fé é uma fadista que eu amo, uma pessoa que eu amo. Eu sempre que me sento à mesa com a Maria da Fé, vou à Senhor Vinho, sento-me lá com ela E é nesses momentos que eu permito-me ser miúda, ser uma jovem fadista que está à mesa com uma senhora e que tem que ouvir. Tem só que ouvir, está caladinha e ouve. Eu permito-me ser isso. Portanto, essa pessoa que ainda existe dentro de mim e eu temo que já tenha pouco tempo para usufruir dessa pessoa, porque os antigos estão a partir. Este ano que passou foi terrível para a história fadista. Perdemos muita gente, muitos fadistas. E eu sinto-me cada vez mais órfã. Cada vez que morre um fadista, eu sinto-me órfã. A quem é que eu vou prestar contas? Independentemente de eu ter um público, obviamente, a quem prestar contas, eles e elas fazem muita falta. Fazem-me tanta falta, eu tenho tantas saudades.
De quem é que tens mais saudades?
Há dois nomes que são incontornáveis na minha vida, que são a Beatriz da Conceição, que é uma fadista, que é a minha maior referência, e Fernando Maurício, que era um outro cantor e fadista, também da minha infância, da minha adolescência. Estes dois, como eu tive a oportunidade de me sentar à mesa com eles muitas vezes, eu tenho muitas saudades de os ouvir cantar, e de os ouvir falar, da voz destas pessoas, dos maneirismos de cada um deles.
O que eles te davam? Eu nem digo a questão da experiência, mas o que eles te ofereciam, vamos pôr assim, nestes termos?
Esta matéria que eu trago e que tantas vezes me esqueço de onde é que vem. Eu não sei explicar. E mal de nós, mal de qualquer fadista, ninguém sabe explicar o que é isto de ser fadista. Eu cada vez sei menos. Isto é mesmo verdade. Esta coisa do que é que é isto de ser fadista, eu não sei. Olha, eu cada vez sei menos.
Mas não é bom ter essa sensação?
Adoro, é ótimo. É sinal de que há tanto para saber, há tanto para conhecer, há tanto por me apaixonar. Eu apaixono-me todos os dias pelo estilo, ainda. Já há mais de 30 anos que estou neste lugar. Agora, é claro que com eles era ainda mais apaixonante. E a memória que eu tenho era como fazia sentir estar com eles. Não tem nome isto. Além de os ouvir cantar, que era sublime, e a escola que deixaram, era estar com eles, era perceber que aquelas pessoas eram diferenciadas, eles eram diferentes. Por quê? Não sei exatamente explicar. Agora que ninguém me faz sentir aquilo que eles faziam, não há como os fadistas me fazerem sentir isto. Não há. É muito especial. Isto é tão lírico, não é? Eu sei que isto é tão estranho para quem pode ouvir, que é: "Do que ela está a falar mesmo?" Adoraria ter um manual, só que é só a cantar. Há coisas que nós, fadistas, eu fadista, há coisas que eu só me consigo expressar efetivamente a cantar. Já desisti de querer explicar, até porque perde toda a graça. Sabes uma coisa que eu noto hoje? É que tudo tem que ser muito explicado, tudo tem que ter um porquê, tudo tem que ter um motivo. Por que gravei isto?
Às vezes, um termo mal interpretado leva aqui a confusões.
Mas olha, e às vezes não tem que ter. Olha, por que gravaste este álbum? Porque me apeteceu.
Eu queria ir aí, porque este disco é inteiramente no masculino, poemas de homens. E tu dizes: "Nesta altura tão cinzenta de ser mulher e de ser homem, a poesia não tem que estar nesse lugar".
Isso.
É o que tu dizes.
Só isso.
Isto também não pode levar a que as pessoas pensem: "Mas por que ela está a cantar estas canções numa era em que se calhar as mulheres precisam de mais um abraço ou a causa feminista, que também está tão presente na nossa sociedade?"
E deve estar. E deve estar. E está. Eu, como cidadã, exerço aquilo que eu acho que é suposto.
Aliás, pelos valores que conhecemos da Raquel Tavares, é uma causa que está presente.
Eu sou mulher, cresci na noite, no meio fadista. Agora, eu não preciso, eu não tenho, eu posso, mas eu não preciso trazer isso para a minha música. Eu posso só querer cantar. Este álbum nada mais é do que cantar fados. Quando eu era garota, as antigas e os antigos não me deixavam porque eram fados de homens. Enquanto no Brasil, por exemplo, eles têm muito mais essa liberdade poética, das mulheres cantarem no masculino e vice-versa, nós aqui não. Por quê? Também não sei. "Mas não achas que está errado?" Também não é isso que me importa.
Prende-se com o respeito?
Não sei. Olha, não sei. Não faz parte culturalmente para nós. Não, não faz. Mas pode me apetecer. Acho que já tenho idade. Acho que já provei que posso. Acho que já fui validada o suficiente para fazê-lo. E foi tão somente isso que me apeteceu. Fados que eu acho lindos poeticamente, do homem a cantar a mulher. Sim, o homem a cantar a mulher. Com amor, com devoção. Há homens maravilhosos a cantar a mulher.
Sim.
E eu vi isso, eu cresci a ver isso. Homens com devoção à mulher, poetas com devoção à mulher. Há um lado bonito nisto também. Também há coisas boas. E por isso cabe-me cantá-las, porque me apetece, só. Eu não pretendo erguer bandeiras. Não assim, não desta forma. Eu tenho as minhas, já defendi as minhas.
Sim.
Todos os dias. Como cidadã de bem, compete-nos fazer isso. É ir votar no domingo, é isso que me compete fazer. Como fadista, eu só quero cantar os fados que me apetece. Era isso que eu estava a dizer, que nem tudo precisa ter uma grande justificação. São só fados que eu gosto. E me apeteceu cantar.
Tu falando aqui e falámos disso na primeira parte, da questão de tomares tu muito as rédeas. Neste processo, e falando nós aqui deste tema, no meio desse processo, essas hesitações ou essas questões não te passam pela cabeça e não te fazem recuar, por vezes? Ou questionar, pelo menos.
Eu pensei nelas. É claro que eu pensei nelas, mas não me movem. Já não me movem. Já não me preocupam. Desculpe, de verdade. Eu já fui tão preocupada com tanta coisa. Isso é a indústria. Isso a indústria impôs Eu agora não quis assim. Eu agora quis só cantar. A Amy Winehouse diz isto muitíssimas vezes. Há um documentário dela sobre a vida da Amy. Pode ser inspirador, ainda que muito triste, mas pode ser muito inspirador. Eu vi esse documentário algumas vezes na minha vida e ela dizia tantas vezes isto que é: "Eu só quero cantar. Parem de me fazer perguntas sobre por que eu quero cantar. Porque sim". E portanto, desta feita, este álbum que gravei, o que eu decidi fazer, e a mesma forma como estou a levar este meu próximo ano, a minha maior prioridade é cantar como quero, o que quero, com quem quero e pra quem quero. Agora eu. Agora decido eu. Para o ano não sei, nada disto é definitivo, não quero dizer nada com certezas absolutas. Posso me arrepender? Posso. E olha que giro que é a vida, que isto é mesmo assim.
E sempre com as rédeas. Raquel Tavares, tu há bocadinho falaste de uma nova geração de artistas, não só fadistas, e tu possivelmente estiveste muito atenta a isso durante a tua pausa, não é? Há alguém que queiras destacar, alguém que estejas mais atento neste 2025 que já passou e agora início 2026, que te tenhas apaixonado?
Tão difícil, porque olha, seria muito ingrato dizer um ou dois.
Podes alargar a escala.
Eu tenho admiração por muita malta nova. Mesmo que musicalmente não sejam o que eu adoro, gosto do fato de serem atrevidos, de desbravarem caminhos, de aparentemente estarem nem aí. Eu gosto muito disso. E depois há pessoas muito especiais. Há miúdas e miúdos a escrever que é um disparate de bem. Eu pergunto: "Como é que estes miúdos são tão profundos e tão bons a escrever com esta idade?" Eu tenho inveja de quem escreve muito bem, porque eu não tenho talento pra escrever. Acho tudo muito mauzinho, tudo pouco, acho pouco. E portanto, há nomes que eu acompanho.
O que é estranho pra uma pessoa que sente tudo, não é?
Só que sabes o quê?
Só que depois, se calhar a escrever, não consegues pôr essa emoção?
Eu às vezes escrevo e quando leio penso: "Épa, isto está mesmo bom". E daí a 10 minutos vou ler outra vez e já acho aquilo um horror, uma pirusada, mas no momento acho que está ótimo. E tenho imensas coisas escritas em casa.
Não as percas.
Não! Acontece que, como eu tenho a sorte de cantar desde que me lembro, os maiores poetas deste país, fica tão ok. Isto, claro, não deve ser motivo pra ninguém parar de escrever, como é óbvio. Claro, toda a gente é assustada por contar.
A síndrome do impostor não pode...
É isso mesmo. Não quer dizer que não venha a cantar uma ou outra coisa escrita por mim, mas nunca me levo muito a sério. Mas a propósito da nova geração, muito especialmente em relação à geração fadista nova, a única coisa que eu insisto com eles, admiro-os, acompanho-os, vejo concertos, eu sinto-me orgulhosa. Eu estou presente pra eles, eles sabem que eu estou. E o único papel que eu tento ter, sem ser muito maternalista, é dizer-lhes: "Por favor, sim, façam, cantem, bora, mas vão ouvindo os antigos, vão enaltecendo, vão honrando, vão se lembrando deles, porque eles fizeram um papel muito importante e numa fase muito mais difícil. E, portanto, bora lá honrá-los". E os miúdos acho que me ouvem e acho que me respeitam. E é muito bonito isso. Neste concerto, por exemplo, no Coliseu, eu tinha lá muitos miúdos, fadistas novos, e isso enche-me a alma, poder deixar-lhes alguma coisa, como de resto me deixaram a mim.
Eles veem-te também como uma inspiração, é uma responsabilidade extra neste contexto em que estás a viver e nesta fase da tua vida, não é?
Sim, eu creio que sim. E há algumas miúdas que eu reconheço que têm já muitas coisas. Vejo, noto os trajeitos, os maneirismos, e elas assumem, eu acho uma beleza, acho uma ternura. Mas mais do que isso, eu gosto que elas me vejam que é: "Olhem só, isto pode acontecer assim. Fiquem espertas". Elas têm-me como exemplo, não só como fadista ou como cantora, o resto conta. E eu sei que lhes pesa. Eu sei que elas muitas vezes se lembram. Elas e eles. Muitas vezes se lembram quando a vida insiste em levá-los. Eles muitas vezes recorrem: "Olha, o que é isto que eu estou a sentir? O que é este medo? O que é esta hesitação?" E portanto, ok, mesmo que não tenha sido a coisa mais fácil do mundo, pode estar a servir, se calhar, pra algumas pessoas porem a mão na consciência e pensarem duas vezes antes de seguir em frente.
Já há bocadinho falamos aqui da televisão. Tu estiveste durante algum tempo na SIC. Três anos. É um período considerável em televisão. Sempre em direto aos domingos. Participaste em novelas também, enquanto atriz.
Participo em novelas, ponto.
Mas foi uma presença.
É, mas enquanto atriz já é um bocadinho diferente. Eu participo em novelas.
Pronto. Imaginavas, ou caso surgisse esse convite, mais um, nesse sentido, era algo que fazia sentido neste momento?
Neste momento, não. Não há como. Alguma coisa ia correr mal, alguma coisa ia sair malfeitinha. E portanto, não me proponho, como eu fui tio, sou muito perfeccionista, não ia dar. Eu gostei muito de todas as experiências que tive na televisão. A comunicação é da minha vida inteira. Eu gosto de comunicar. Eu gosto do direto, gosto muito de rádio, gosto muito de televisão e portanto, eu nunca vou descartar a comunicação, seja ela de que forma for. Nunca, porque eu gosto genuinamente daquilo. Eu gosto do poder que a palavra tem. Isto que nós estamos a fazer aqui agora. Está alguém do outro lado a consumir aquilo que nós estamos a dizer. E se pararmos pra pensar nisto, pode ser assustador. Quando estás em televisão em direto, tens um milhão e 100 mil de espectadores. Na altura da pandemia, era mais ou menos estes os números que tínhamos todos os domingos. Estava muita gente em casa. E teres essa noção é fantástico, mas ao mesmo tempo é aterrador. Mas a sensação que isso traz não é igual. E portanto, eu nunca vou pôr de parte a hipótese de comunicar, seja lá de que forma for. Nunca vou. Por agora não vai acontecer. Eu agora estou na música, apetece-me fazer música, apetece-me cantar. E o amanhã está em aberto e eu acho que a vida é muito mais divertida assim. Não pode ser finito, acho tão redutor acordar e dizer: "Hoje vou ser isto e vou ser isto para o resto da minha vida". Mas que chatice! Hoje apetece-me cantar. Estou muito feliz por estar de volta a cantar ao palco, mas eu não sei por quanto mais tempo é que vou estar feliz. Dir-me-ão: "Raquel, mas a vida não pode ser assim, só inconstância". Depois eu lido com isso. Depois logo se vê. O Brasil tem isto que é: a mulher a olhar para o futuro. Qual futuro? Eu não sei.
É viver o agora e o presente.
É viver. Eu quero é viver. E agora está ótimo para mim, está espetacular.
O que te inquieta?
Então, mas agora foi sério. O que me inquieta? Isto. É claro que o futuro me inquieta. Se eu parar para pensar nele, minha profissão é muito efêmera. Eu não sei se vou cantar sempre, eu não sei se me vão querer sempre ouvir. Nem sempre vou ter esta pinta.
Estás ótima para 41 anos.
Nem sempre vou ter esta pinta.
Aliás, acho que poucos dariam 41 anos, a verdade é essa.
Não, mas fora brincadeira. O mercado é ingrato nisto, sabemos disso.
Muito mais com as mulheres, não é?
Muito mais com as mulheres. Eu sei disso. Inquieta-me pensar lá na frente, leia-se daqui a 20 anos, o que será de mim daqui a 20 anos? Sabemos como é que são os artistas em Portugal, nós sabemos disso, a história está aí para contar. E portanto, é claro que se pensar nisso, fico um pouquinho inquieta. Por outro lado, gosto de pensar que, como eu, alguns da minha geração estão no mesmíssimo lugar que eu. E portanto, eu penso assim: em última análise, compramos todos um monte no Alentejo, vivemos em comunidade artística. Eu digo isto tantas vezes aos meus amigos.
Faz uma coletividade.
Faço uma coletividade, precisamente. E gosto de pensar que vou envelhecer bem ao lado de colegas artistas. Mas sim, eu estou a tentar, contudo, não me deixar vergar por esses pensamentos menos otimistas. Agora, neste momento da minha vida, eu estou a tentar, porque senão pode correr tão mal. Há tanta coisa que pode correr mal, mas também há muitas que podem correr muito bem. Eu sei que isto pode estar tudo a parecer um discurso muito leve, mas a verdade é que eu, como nunca experimentei assim, estou a experimentar agora. Foi sempre o contrário. Muito intenso, muito profundo. Agora estou a experimentar fazer a coisa de maneira diferente e olha, tem corrido bem.
A testar novas fórmulas, vais sempre a tempo.
Sim.
"O fado é a mais bonita das casas, estou muito feliz por voltar a casa" é para ficar?
É, para já. Hoje, aqui e agora, é. Eu tinha tantas saudades de casa. Eu gosto muito desta coisa que é o fado. Eu sou muito apaixonada por esta música. Eu sou muito vaidosa por pertencer-lhe. Eu sou muito vaidosa por ser fadista. Acho que é a coisa que mais tenho vaidade na minha vida. É de ser fadista, que olha só, nem é um mérito meu, eu acordei assim um dia. Eu não sei exatamente o que aconteceu para eu ser isto. Mas eu tenho muita vaidade da música que canto, pertencer a um país com uma cultura tão rica. Sinto vaidade pela música e pelo fado estar bem de saúde, por se falar nele, por haver espaço para ele. E estou grata pelas pessoas me quererem ouvir e por terem esperado por mim. Acima de tudo, eu estou mesmo muito grata pelas pessoas me darem uma oportunidade de lhes mostrar que ainda vale a pena.
Raquel Tavares, se tu pudesses escolher um fado para pintar esta tua fase da tua vida.
É a pior pergunta, retira essa pergunta.
Qual é que escolhias?
Retira.
Tens de escolher um.
Não! Um fado para esta fase? Não dá.
Não dá?
Não dá. Ainda mais um fado. Não.
Uma canção era mais fácil?
Eu escolho sempre a mesma canção. Quando é para esta resposta, para uma fase boa, eu escolho sempre esta do Gonzaguinha que cita Aya Po, que é: "Viver e não ter a vergonha de ser feliz, cantar e cantar e cantar a beleza de ser um eterno aprendiz. Ah, meu Deus, eu sei, que a vida devia ser bem melhor e será, mas isso não impede que eu repita: é bonita, é bonita e é bonita".
E é tão bonito. Agora ficava aqui. Estamos a fazer aqui um miniconcerto. Raquel Tavares, muito obrigado por teres vindo aqui ao Rádio Observador.
Adorei.
Foi um gosto te receber aqui. Muito sucesso em 2026, 2027, por aí fora.
Obrigada, que seja a primeira vez de muitas aqui no Observador. Foi a primeira vez. Obrigada. Um beijinho.