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Estou a ouvir um fato muito triste. Muito triste e que me toca num ponto específico que me é querido ou que é um assunto com o qual eu me relaciono. Mas ouvir aquilo vai me saber tão bem, que o efeito que vai ter é um efeito de felicidade, de: "Epá, eu adoro isto!" Quase de sorrires ao ouvir uma coisa super triste, porque aquilo vai tão ao encontro do que tu estavas a precisar ou que tu estavas à procura, ou vai parar a um sítio que é tão confortável pra ti, que é muito triste, é muito dark, é muito down, mas vai te dar um quentinho tão bom. Por exemplo, eu não sou uma artista que consiga cantar e chorar ao mesmo tempo. Há pessoas que conseguem. Eu, assim que me vem a vontade de chorar, dá um nó na garganta e não sai nem uma nota. É impossível. Eu acho que a coisa que nunca irão ver é que eu esteja emocionada num concerto e consiga cantar. Isso não existe. Se eu me emocionar, paro, respiro fundo e volto a cantar. Mas eu acho que há sempre um fado pra tudo.

Há vozes que nascem já com o peso da alma, mas que conseguem ao mesmo tempo ser leves como um sussurro. Vozes que carregam a memória de um povo, mas que sabem reinventar-se em cada verso. Desde cedo descobriu que as palavras podiam ser guardadas em cadernos, transformadas em melodias e devolvidas ao mundo em forma de emoção. Entre a inocência dos primeiros versos e a maturidade de um caminho já sólido, construiu um percurso que a levou dos pequenos palcos às casas mais emblemáticas do fado. Uma voz que mistura respeito pela herança com ousadia contemporânea e que tem no palco o seu lugar mais verdadeiro. Terezinha Landeira, em 40 minutos, sê muito bem-vinda aqui ao Rádio Portugal.

Olá, muito obrigada. Obrigada pelo convite. Que bela descrição.

Tentamos sempre fazer aqui uma descrição do convidado.

Sempre aqui meio inchados, não é?

Um bocadinho, mas não é esse o objetivo. Mas agora vamos desconstruir, se calhar, um bocadinho. Espero não sair muito da linha daquilo que foi esta introdução e daquilo que também tu transmites a todos que te ouvem, essencialmente. Se tu te tivesses de apresentar sem o fado, sem ser do fado, sem falar de fado, era possível pra ti, que começaste tão cedo?

Olha, eu acho que é muito difícil, porque eu dizia há uns dias: "Eu já não sei o que eu sou sem fado". Eu não faço ideia. Já não me lembro como é a minha rotina sem ter a minha sexta e o meu sábado ocupados a cantar. Eu lembro-me de ser miúda e os meus amigos terem festas de anos e terem jantares e eu não ir, porque já estava a cantar. Portanto, eu às vezes olho e penso: "Eu já não sei como é que era a minha vida antes disso". Mas claro que existo sem isso. Obviamente, e tenho uma vida muito além disso, rodeada de amigos e de uma vida pessoal muito forte e muito rica, mas acho que eu já não existo sem fado. Acho que isso já não é uma realidade, porque ok, é o meu trabalho, mas mesmo que não fosse e eu fizesse outra coisa na minha vida, eu iria continuar a cantar sempre, porque existe essa possibilidade. Portanto, mesmo que este não fosse o meu caminho profissional, eu acho que iria ser sempre um caminho. Iria ser sempre uma coisa que iria acontecer. Eu acho.

E falavas das quintas e das sextas-feiras. Eu sei que ontem também foste cantar. E a ausência desses jantares de amigos ou desse convívio não te tirou alguma parte desse convívio que devias ter tido nessa idade? Porque tu começaste muito cedo, começaste a cantar com 12 anos.

Sim, imagina, nos 12, 13, eu não tinha a responsabilidade de cantar. Ou seja, eu cantava porque gostava. Claro que aí poderia não ir aos fados, ir às festas, ir aos jantares dos meus amigos. Eu digo, por exemplo, com 16, 17, que foi quando comecei a cantar pela primeira vez numa casa de fados. Aí já era uma responsabilidade, e era à sexta-feira. Então eu à sexta não existia pra os meus amigos, não conseguia ir aos jantares. Foi a minha primeira responsabilidade na vida, séria. Às vezes era duro, às vezes gostava. Às vezes apetecia-me inventar uma dor qualquer pra não ir cantar. Pra poder ir aos jantares. E às vezes faltava e dizia: "Olhem, hoje não vou cantar, porque tenho outra coisa". E era mesmo importante, eu não queria faltar. Mas também é bom pra ganhares um sentido de responsabilidade que com 16 anos às vezes não tens. Porque a vida não tem responsabilidades. Tem algumas, mas muito poucas.

Tu ganhaste muito cedo.

Sim, tive que ganhar, primeiro porque eu era uma miúda no meio de não sei quantos adultos. Eu era uma criança num mundo de adultos, muito protegida pelos meus pais, sempre. Os meus pais iam sempre comigo. Os meus pais foram comigo todas as noites até aos 18 anos. Agora, claro, têm mais que fazer da vida deles.

Aposto que ainda assim têm pena de não ir.

Têm, e vão na mesma. Não vão com a mesma assiduidade, mas vão na mesma. Eu não ia pros fados sem eles, porque eles achavam que era um mundo que não era pra uma criança. E bem, e não era. Minha mãe dizia-me sempre: "Tu podes sair com os teus amigos até às não sei quantas da manhã", com 16, 17 anos. "Faz o que tu quiseres com os teus amigos, mas com adultos não, porque a conversa que eles vão ter não é pra tua idade, é com uma sabedoria que tu não tens, com coisas que tu não viveste. Portanto, aí eu quero estar lá, eu quero te proteger dessas situações". Agora, essas coisas de miúdos. Os miúdos fazem disparates à dimensão dos miúdos. Quer dizer, há miúdos mais malucos que outros, mas nós fazemos os disparates e as brincadeiras de miúdos. Há pouca sabedoria, somos todos meio náives. E então era um bocado essa distinção que a minha mãe fazia.

E tu sentias isso no ambiente, por exemplo, numa casa de fado? Isso que a tua mãe te falava desses perigos. Tu sentias isso?

Não.

Só querias cantar.

É isso. Eu olhava-me dessas coisas, se havia, sei lá, não dei conta. Repara, eu era uma miúda com 12 ou 13 anos, que queria absorver ao máximo tudo que estava à volta dela. Apareciam os melhores fadistas que nós tínhamos na atualidade ali. E eu queria era aprender, eu queria era ouvi-los, queria vê-los, como é que eles faziam, como é que eles não faziam.

Perceber os comportamentos, o que eles faziam.

Perceber tudo. E eu acho que passei aqueles anos todos, desde os meus 12 aos meus 18, a maior parte do tempo calada Calado a ouvir. A ouvir, a observar, depois cantava, obviamente, mas ninguém passava muito cartão. Quem é que queria falar com uma criança? Ninguém, tem mais o que fazer. E então eu estava só ali a observar e a aprender com as pessoas à minha volta e acho que foi super importante.

E tu sentiste essa indiferença? Disseste que ninguém queria falar com uma criança. Tu sentiste essa indiferença ou isso também não te afetava ao ponto de-

Não, eu ligava zero.

Eu queria era cantar.

Eu queria era cantar. Exatamente. A minha missão era cantar. Eu queria cantar. Aliás, eu tenho uma história super engraçada. Uma noite estávamos na Mesa de Fados e digo que estava lá toda a gente. Quando eu digo toda a gente, eram os fadistas todos de topo. E cantaram todos, todos cantaram. Cantou a Mariza, cantou o Camané, cantou o Carminho, cantou a Cátia Guerreiro, cantou toda a gente. E eu lá a ver. E entretanto perguntaram: "Queres cantar?" Mas já em tom de desdém, do tipo, agora ela não vai querer cantar depois disto. E sabes o que eu respondi? "Quero", porque eu queria era cantar. Porque eu só ia lá ao fim de semana. Eu não podia ir durante a semana, eu tinha que aproveitar aquele tempo, era aquele tempo que eu tinha. Mesmo que tivesse cantado Frank Sinatra, eu ia cantar a seguir. Claro que hoje em dia não faria, porque tens outra responsabilidade e pensas: "Não vou cantar a seguir ao Camané, que estupidez".

Mas essa coragem e o não ter, se calhar, muita noção na altura.

Isso ajudava-me imenso.

Ajudava.

Ajudava muito, porque eu não tinha nervos, não me enervava, não tinha estresse. E depois ia cantar e era com leveza. Não havia preocupações, eu não tinha preocupações, era tudo tranquilo. E então como me convidaram, eu aceitei. Toda a gente achava que eu ia dizer que não, claro. Só que eu era inconsciente, eu tinha 12 anos, o que eu tinha a perder? Não tinha nada a perder. E então foi giro.

Esse episódio foi quando, não sei, tem aqui um episódio que tomei conhecimento, que nos leva até a Ana Moura e até ao Jorge Fernando.

Isso foi antes ainda.

Foi antes ainda?

Foi. Aí foi a primeira vez que eu fui a uma casa de fados. Eu fazia 12 anos nessa noite, à meia-noite, e o meu pai não estava cá, estava fora em trabalho. E a minha mãe pensou: "Vou-lhe fazer um aniversário diferente, é o primeiro aniversário que o pai não está cá". E eu andava louca, ouvindo fado em casa há um ano. E então minha mãe disse: "Olha, vou levá-la à casa de fados onde canta a Ana Moura", porque era o disco que eu mais ouvia em casa. E então fez-me a surpresa, fomos lá, eu conheci a Ana, conheci a Raquel Tavares, conheci o Jorge. E a minha mãe levou os discos da Ana para ele pedir um autógrafo. E então eu disse: "Ana, eu sou muito fã, eu canto os seus fados em casa." E o Jorge olhou: "Tu cantas?" Eu disse: "Canto em casa, gosto muito de cantar os fados da Ana Moura." "Queres cantar?" E eu: "Sim", e minha mãe: "Não, não quer". E eu: "Quero, quero". E então fui cantar e foi a primeira vez que cantei numa casa de fados. E olhei para a minha mãe no fim dessa noite e disse: "Mãe, eu não sei como é que nós vamos fazer, mas eu tenho que voltar. Eu tenho que voltar aqui." E a minha mãe: "Oh, bolas, agora tenho uma filha que gosta de fado." A minha mãe odiava fado, ainda por cima.

Mas ela foi a culpada, no fundo.

Sim, ela não odiava, mas não era de todo uma coisa que ela aceitava.

O teu caminho podia ter sido diferente se a tua mãe não tivesse-

Se não ter tomado essa decisão.

Exato.

Sim. Imagina, nunca se sabe. Porque eu ouvia fados todos os dias.

Sim, poderia ter acontecido eventualmente, mas se calhar não teria sido ou tão rápido.

Ou ali naquele timing, com aquela idade, tinha sido uma coisa mais tardia, se calhar não tinha tido o percurso fixe, que eu gosto de dizer isto, fixe, que eu tive. Tive mesmo muita sorte de me ter cruzado com pessoas incríveis.

Tu nunca sentiste nervos nesse dia?

Nunca. Com 11 anos não tens nervos de nada. Nem nada. Eu lembro-me que tinha medo de não conseguir entrar, ou seja, que eles tocassem muito diferente do que estava no disco e eu depois não conseguir cantar. Mas foi à primeira, correu super bem, parecia que eu fazia aquilo há imenso tempo. Foi muito natural e foi uma noite que eu nunca mais esqueci. No fundo, foi o princípio.

O princípio de tudo.

Foi o que me empurrou, no fundo.

As músicas e as canções às vezes podem ter a função um bocadinho terapêutica. Tu, enquanto artista, já sentiste que a música te salvou alguma vez?

Sim, a música e a escrita. O fato de escrever é muito libertador, porque acabo por falar das coisas que me inquietam. E a escrita faz-nos refletir, faz-nos pensar sobre as coisas muitas vezes. E eu sou uma pessoa que demora muito tempo a escrever. Eu não sou de repente, de repentes, de repente escrevo uma letra em dois segundos. Eu fico ali um mês, um mês e tal a matutar naquilo, e se as palavras são aquelas, e se aquilo é assim. E então eu acho que me ajuda a refletir muito sobre as minhas coisas e sobre os meus problemas, que são problemas relativos. Mas sobre os meus dramas e as minhas coisas, e naquela altura em que tens 17, 18 anos, 19, que tens desgostos de amor e achas que vais morrer por causa disso. Foi muito bom, porque havia sempre um fado para isso. Eu digo sempre, há um fado para tudo. E há sempre um fado que te vai ajudar naquela altura, que te vai sarar as feridas, que te vai ajudar a deitar cá para fora. E eu tinha fados muito importantes em várias fases da minha vida, fases de mudança. Quando eu percebi que não ia entrar em Medicina, que era o meu sonho. E quando eu percebi que o meu caminho ia ser a música, depois acabei por estudar gestão, mas o meu sonho era ser médica. E quando eu percebi que isso não ia acontecer, houve um fado que eu já tinha ouvido centenas de vezes. Mas quando eu ouvi naquela altura, fez todo sentido. Que é o Naufrágio, que é um sonho, tu pôs num barco, afundas o barco, o sonho fica no fundo do mar e tu choras para que o mar cresça para o afundares mesmo. E então aquilo fez tanto sentido naquela altura, porque eu sentia mesmo que estava a afundar um sonho que eu tinha desde miúda. E então naquela altura foi superduro para mim. E aquele fado fez todo o sentido pensar: "Bem, eu tinha um sonho, já não tenho, tenho outro caminho para começar". Então acho que há um fado sempre para tudo. Eu acredito nisso.

E é tão boa a música poder nos transformar e ajudar-nos a transportar para estes momentos da nossa vida. Que às vezes não são bons, nem tudo é bom.

Não.

E falaste aí de desgosto.

Mas é isso, que nós somos um bocado fatalistas. Encontramo-nos sempre nas coisas tristes. Raramente as pessoas encontram uma música alegre e dizem: "Me identifico imenso com isto". As pessoas quando procuram a música, também é porque estão felizes, mas procuram muitas vezes a música para sarar alguma ferida. E é aí que se encontram. Por isso é que às vezes eu acho que as pessoas acham que o fado é tão fatalista. Não é fatalista, também tem o outro lado. E eu nos meus discos tento aprovar isso, que também tem o outro lado. Mas eu acho que nós andamos sempre à procura das fatalidades e curá-las na música. Então é sempre ou um namorado que deixou, ou uma namorada que deixou, ou alguém que partiu e que era alguém muito querido para nós. Nunca é: "Estou feliz porque comprei uma casa". Não há bem uma música sobre isso.

Pois não.

Agora no meu último disco tenho a "Maré de Sorte", que é: terminou uma relação, ficou ótima a pessoa, e comprou uma casa, foi de férias, fez 30 mil coisas boas. Mas eu acho que é a única música que tem essa energia. Portanto, não sei.

Falavas aqui há pouco que, a propósito da escrita, escrevias sobre o que te inquieta. O que te inquieta neste momento?

É muito engraçado isso, porque eu noto que escrevo muito menos sobre amor.

Também porque estás muito bem realizada, casaste há pouco tempo.

Casei há pouco tempo. Então eu acho que estou muito tranquila. Ou seja, de há cinco anos para cá que eu não tenho uma tristeza.

Ainda bem, estás bem.

Por um lado, estamos curados dessa parte. Mas também há uma coisa que é: claro que eu me poderia inspirar nas histórias dos outros e nas outras histórias que também tenho para trás. Mas eu acho que tu também te vais apercebendo de outras coisas que te magoam mais e que são mais duras do que às vezes uma história de amor. E às vezes coisas como a realidade do mundo, a realidade do teu país, a realidade das pessoas que te rodeiam. E acho que isso às vezes acaba por ser mais inspirador no sentido de eu tenho que falar sobre isto.

E tentas sempre trazer isso para a tua música, para aquilo que tu cantas?

Sim. Eu acho que o fado está sempre a ser inovado e põe um instrumento novo aqui e um instrumento ali. Mas eu acho que a real maneira de inovar o fado é através da poesia e daquilo que se canta. Eu acho que não faz sentido cantar sobre coisas de há 50 anos atrás que ninguém vai entender. Eu acho que nós temos que cantar sobre a atualidade e sobre aquilo que são os problemas e as realidades de hoje. E eu acho importante trazer essas realidades, por mais duras que elas sejam muitas vezes, trazê-las para um disco, para o fado, para a canção, para o que for. Claro que não é fácil, porque às vezes tu não sabes como é caso de falar. Por exemplo, o que me acontece muitas vezes é: eu queria falar de determinado assunto, mas eu não sei se tenho propriedade para falar sobre ele. Não sei se sei o suficiente sobre aquilo.

É o que te mais leva a questionar.

Exatamente. Ou seja, eu sei que é uma coisa que me preocupa, eu sei que é uma coisa que me entristece, eu sei que é uma coisa injusta, mas eu não sei como é que vou falar dela. Portanto, fica ali aquela dúvida de: "Será que vou falar sobre isto? Eu queria falar sobre isto, mas como?" Porque às vezes nós estamos a falar de um patamar muito privilegiado.

A questão da maturidade também chega a entrar nesses pensamentos, porque tu tens 29 anos, tu és muito jovem, começaste muito cedo e já viveste aqui várias fases, também do fado, que foi se reinventando, foi se alterando com diferentes fases. Também sentes isso muito pela questão das pessoas se calhar acharem que tu não tens maturidade para falar sobre certos temas?

Eu acho que me preocupo muito com o que os outros pensam e tenho estado a tentar desconstruir isso ao máximo. Ou seja, construir o meu caminho muito mais naquilo que me interessa e naquilo que eu penso do que no que os outros pensam. Mas tu fazes música para os outros, então tens que ir pesando e medindo o que vais fazendo. Eu acho que o meu maior medo da vida é um dia cair no ridículo. Acho que é o meu maior pânico. E então às vezes falar sobre certas coisas, eu tenho medo de ser mal entendida ou de não falar das coisas como elas merecem ou com a atenção e com o cuidado que elas devem ter. Portanto, eu tenho vontade de falar sobre certas coisas que me inquietam e que me doem, mas que às vezes não são diretamente comigo. E então às vezes fico com medo de como é que vou falar sobre as coisas. E então às vezes acabo por não fazer.

Já sentiste isso, então?

Já. Mas no fundo é isso que me inspira. É as coisas que me rodeiam, é o dia a dia. E às vezes as coisas mais simples, que quando tens 16 anos não olhas para elas. Estás sempre à procura de uma coisa enorme, de uma coisa extravagante. E às vezes as coisas mais simples são muito mais interessantes. E eu acho que isso é uma das coisas que a idade me trouxe, embora não seja muito velha. Mas visto que comecei a cantar com 12 anos e agora tenho 29, já passaram 17 e em 17 muita coisa mudou. E até a forma como eu canto, aquilo que eu acho relevante no canto, aquilo que eu acho relevante na música. Se calhar, quando era mais miúda queria era dar piruetas a toda hora e estar sempre com a voz lá em cima e agora eu olho para a música de outra maneira e tento servir mais a letra e tento ir atrás mais da história. Mas eu acho que isso são coisas que mudam conosco e com a idade.

Durante o teu percurso e este teu caminho, mais uma vez dizemos, começaste aliás com 12 anos, tiveste pessoas no meio, não necessariamente artistas, que te descredibilizaram um bocadinho pelo facto de seres tão jovem e quereres fazer tanto e ser tanto ao mesmo tempo? E o ser tanto é fazer música, no fundo.

Olha, eu ouvi muito quando comecei a cantar: "O fado não é para crianças, crianças não podem cantar fado". E eu vou te ser sincera, eu entendo isso. Não acho que seja tão drástico assim. Eu acho é que tem que se encontrar um caminho para que as crianças possam cantar fado, porque eu acho importante que a escola, entre aspas, não há uma escola, mas que a escola do fado aconteça desde novo, para que tu consigas aprender tudo e assimilar tudo, porque é tanta coisa que eu acho que é mesmo de jovem que tu deves começar. Agora, claro, as letras são muito desadaptadas a uma criança. Eu quando comecei a cantar com 12 anos, eu tinha que escolher as minhas letras com muita calma, com muito cuidado, porque eu não posso cantar "amantes não quer, não quer", quando eu nem sequer tive um namorado ou tenho um namorado a quem eu dou a mão e somos amigos, percebes?

Sim.

Tem que haver aqui um equilíbrio entre aquilo que se canta. E eu ouvia muitas vezes: "Lá vai a criancinha cantar, os fados não são para crianças". E havia esta questão das letras de não podes cantar uma letra de amor que tu não sabes, que tu não entendes, que tu não sentes. E esta era a única descredibilização que eu sentia. Não sentia mais nada. Mas eu entendo. Eu entendia. Eu não ficava zangada, não ficava revoltada. Eu entendia. E eu acho que foi por aí que eu comecei a escrever, que é, se eu escrever, ninguém pode dizer que eu não entendo.

É a tua história.

É a minha história. Pode ser um amor com 14 anos, mas eu lá sei como é que aquilo mexeu comigo ou não. Quando és adolescente, tu tens muita intensidade. E eu sei como é que isso mexeu comigo e eu escrevo sobre o que eu quiser. Portanto, era um bocado essa a minha defesa. E depois comecei a perceber que gostava quase tanto de escrever como de cantar. E então não parei de escrever. Mas inicialmente era uma defesa contra todas as letras de adultos que existiam, não existia uma letra pra uma criança. E eu acho que tem que se investir nisso pra que as crianças tenham vontade de cantar também.

É muito importante. Estou a gostar muito.

Obrigada, realmente.

Teresinha Landeiro, voltamos já a seguir. Vamos só fazer aqui uma curta pausa para as notícias e voltamos já a seguir com a segunda parte do "Em 40 minutos", hoje com Teresinha Landeiro. Até já. Estamos de regresso, segunda parte do "Em 40 minutos" com Teresinha Landeiro. Já falámos muito sobre maturidade, crescer no meio do fado, e agora vamos falar de um concerto que aí vem.

Exatamente.

Já dia 19 de setembro, estamos em contagem regressiva, no CCB.

Sim, para o qual também é preciso alguma maturidade. Eu às vezes questiono: será que eu tenho?

E agora aqui já há mais nervos, não há?

Há.

Com esta idade.

Olha, há e tem muita graça, sabes por quê? Porque eu há 11 anos fiz o pequeno auditório. E na altura quando me convidaram, eu disse logo que sim. Aquela coisa, sim! Depois desliguei o telefone e pensei: "ai, o que eu estou a fazer? Nunca fiz um concerto sozinha. O que eu vou fazer?"

Isso foi com que idade?

Com o convite eu tinha 17, já fiz o concerto com 18. E agora, quando o meu manager me ligou a dizer: "Teresinha, grande auditório do CCB". Eu quero muito, eu acho que é das salas que eu mais quero fazer em Lisboa. Eu adoro aquela sala. Eu vi lá concertos maravilhosos. Acho-a extremamente confortável, acho o som incrível, acho-a bonita, acho tudo perfeito. E eu disse logo que sim. Mas sabes, na semana a seguir foi tipo: "o que eu fui fazer à minha vida?" Sinto uma responsabilidade e um peso que não sei explicar. Não sei se é porque eu já queria muito fazer aquela sala há muito tempo, mas quando eu disse que sim, foi: "claro que sim, óbvio". Mas depois, ao mesmo tempo, me começaram as borboletas na barriga. Aquilo que eu não tinha há uns anos, que era de ficar nervosa, agora fico, que é estúpido. Aliás, quando eu fiz o CCB há 11 anos, o Camané estava a fazer concerto no grande auditório nesse dia, com o Rodrigo Leão. E o Camané, nesse dia, não conseguiu ir ver o concerto, porque os concertos eram quase à mesma hora, e não conseguiu ir ter comigo. Mas passado quatro dias, nós íamos fazer a Casa da Música, exatamente no mesmo formato. Eu fazia o pequeno auditório e ele ia fazer o grande auditório com o Rodrigo Leão. Mas como já eram horários desfasados, ele foi ter comigo ao camarim e dizia-me assim: "Teresinha, como é que te sentes? Estás bem?" E eu: "Estou". "Tu estás muito calma, não estás nervosa". E eu: "Não". E ele: "Eu ainda hoje com esta idade fico ansioso e tu estás com essa calma". E eu pensava comigo: "eu acho que eu estou calma mesmo porque sou miúda e sou inconsciente". Era inconsciência. Hoje em dia já não é bem assim.

Sentes mais o peso, não é?

Sim, eu fico muito mais ansiosa. Não fico nervosa.

Que peso é esse que se sente antes de uma data como esta? É já dia 19 de setembro.

Sim.

Estamos praticamente menos de duas semanas.

São duas semanitas. Eu não sei muito bem por quê, porque repara, eu acho que o meu trabalho não tem mais responsabilidade do que outro trabalho. Eu acho isso só porque nós estamos sempre a ser avaliados, os artistas, do que quer que seja, estão sempre a ser avaliados. Escreves um livro, a pessoa vai ler e vai dizer gostei do livro ou não gostei do livro. Tu lanças um disco, gostei mais deste disco ou do outro. Não gosto dessas músicas. E tu quando fazes um concerto, um disco, um livro, o que seja, uma peça de teatro, o que seja, tu estás sempre a ser avaliado pelo público. É impossível. Não há ninguém que vá lá ver aquilo sem te avaliar. Ou comparar, vi aqui concerto de fulano tal.

Ou ninguém sai do concerto sem dizer há sempre uma comparação.

Gostei muito ou gostei pouco, ou gostei mais ou menos. Podia ter sido mais curto, podia ter sido mais longo. Eu acho que é só isso, é tu saberes que assim que pisas o palco, as pessoas estão te a avaliar. E isso é um bocado assustador. E eu quando era miúda não pensava nisso. Eu queria era cantar, quer lá saber. E agora eu já vivo mais com tudo que está a acontecer. Que é estúpido, nós devíamos era preocupar-nos com o que estamos a fazer, quer lá saber das avaliações, desde que eu esteja firme no que eu estou a fazer. Mas eu acho que essas coisas entram todas na balança.

E como é que tu lidas com a crítica?

Lido bem. Eu gosto muito de críticas construtivas, porque cresci com elas no fado. Eu estava rodeada de pessoas que raramente me elogiavam. Não sei se é assim em todos os estilos musicais, mas no fado havia muito isso de não elogiar pro artista não ficar deslumbrado, evitar os elogios. E então havia muito mais o espírito da crítica construtiva do que propriamente o elogio. De corrigir, ir corrigindo pra aperfeiçoar e não tanto elogiar, pra pessoa não se deslumbrar e não se perder. Era sempre o que eu ouvia. Portanto, eu cresci neste formato de pouco elogio, muita crítica. Agora, quando eu acho que são críticas só meio ocas, que não há uma justificação. Prefiro não ler ou não ligar. Tento ler todas, porque todas são válidas.

Mas consegues fazer esse filtro daquilo que é dito?

Sim, mas eu também vou te dizer uma coisa, eu sou muito sortuda. Eu acho que sou muito sortuda, eu recebo muito carinho das pessoas. Claro que há pessoas que certamente não gostam de me ouvir. Nós não conseguimos agradar toda a gente. Se agradarmos é estranho.

É estranho. Ser consensual é um conceito um bocado estranho.

Muito estranho. Mas tenho tido muita sorte, sempre que recebo mensagens costumam ser quase sempre muito boas, muito positivas e muito calorosas. Portanto, sinto-me uma sortuda.

O que queres que cada pessoa que vá ver agora este concerto, dia 19 de setembro, no CCB, leve pra casa depois de te ouvir?

Olha, quero que consigam, durante aquela hora e um quarto, hora e meia, não sei muito bem, quero que consigam pelo menos relaxar da vida delas. E o disco que eu vou estar a apresentar é o "Pra Dançar e Pra Chorar", não quer dizer que eu não vá passar pelos outros, mas essa é a base do concerto. E eu gostava que as pessoas conseguissem sentir isso, que tiveram momentos mais intensos pra chorar, mas que também tiveram o outro lado leve da vida e que consigam viver essas duas coisas e que tenha isso bastante presente no concerto. E que tenham vontade de me voltar a ouvir, essencialmente, que tenham vontade de voltar. Não que: "Olha, boa, foi um bom concerto", mas não sei. Não, gostava que as pessoas saíssem dali com a sensação de que foi pouco, que eu odeio concertos longos, pra começar. E que quisessem lá voltar. Que dissessem: "Olha, eu gostava de a ouvir outra vez". Eu acho que isso é a melhor coisa que há.

É ótimo. E isso vai acontecer dia 19 de setembro com a Trazinha Landeiro, no grande auditório do Centro Cultural de Belém, no CCB. E portanto, vamos ter aqui esta oportunidade de te ver a cantar, que é aquilo que mais gostas de fazer.

Sem dúvida.

Eu queria recuar aqui uns anos e ir até à infância, porque eu acredito que a infância tem muita influência na pessoa, em cada pessoa, mas nomeadamente na mulher que tenho aqui à minha frente. Se tu fechasses os olhos agora e viajasses nas tuas memórias, qual era a primeira imagem da tua infância que te vinha à cabeça? A primeira memória.

Olha, a primeira de todas, eu odiava ir pra escola.

A sério?

Sim. É estranho, porque eu era boa aluna, era bem comportada, mas eu nunca gostei muito de ir pra escola. Gostava muito de estar em casa com os meus pais. Mas as primeiras memórias que eu tenho são quando eu fui pro infantário, eu tinha já dois anos e tal, mais ou menos. E eu tenho memórias muito antigas. E lembro-me de, uma coisa muito parva, de andar a brincar no jardim e eu sempre fui muito picuinhas com tudo, de andar a brincar de cócoras pra não sujar o vestido que a minha mãe me tinha vestido. Eu era esta pessoa. E então eu acho que graças a isso, porque eu acho isso muito fino, de ser tão cuidadosa com as coisas que às vezes fica ridículo, porque uma criança tem que sentar no chão e sujar. Mas não era a minha mãe que me dizia, era uma coisa minha. E então a primeira memória que eu tenho assim na escola é essa aflição de não me querer sentar no chão, porque era de areia, terra, e porque eu não queria sujar o meu vestido. Pai, uma memória muito parva, mas é sim das primeiras que eu tenho da escola. Mas depois tenho muitas coisas em casa com os meus pais e com o meu irmão, com os meus avós. Eu adorava ir pra casa dos meus avós.

Tinhas muito silêncio em casa ou a vida era assim muito corrida e com pouco espaço pra isso?

Não. Ou seja, por exemplo, o jantar, a minha mãe e meu pai faziam questão de que não houvesse nada, tipo televisões, porque era o momento de conversar. E era aí que eu e meu irmão contávamos como é que tinha sido o nosso dia, os meus pais contavam como é que tinha sido o deles. E o jantar era momento de conversa, de partilha, de falar sobre frustrações, sobre coisas que tinham corrido bem. E eu acho que isso é importante, porque sempre falamos muito. Por exemplo, a primeira coisa que eu fazia quando chegava à casa era os trabalhos de casa. E eu sempre fiz os trabalhos de casa na cozinha. Eu tinha uma secretária no quarto, mas eu fazia na cozinha porque eu queria estar sempre ao pé dos meus pais, ao pé da minha mãe. Minha mãe estava a fazer o jantar e eu ficava ali ao lado, porque eu queria estar ao pé dela. Ainda hoje sou, sou muito agarrada aos meus pais e ao meu irmão. E eu queria sempre estar em cima de alguém. Minha mãe dizia que eu era uma lapa autêntica desde pequenina, porque eu sempre gostei desta coisa de estar perto. Eu passava muito pouco tempo, eu nunca fui uma adolescente a fechada no quarto. Eu era uma adolescente que vivia na sala com os meus pais. O meu irmão era mais recatado. Eu é que via os jogos de futebol com meu pai, eu via desporto com meu pai, eu via novelas com a minha mãe, eu via filmes com os meus pais, desde sempre. Por isso é que eu acho que eu adoro filmes, por exemplo, da Segunda Guerra Mundial, porque a minha mãe é fã, então viam todos e eu já via desde miúda. E então eu acho que tem muito a ver com as vivências que eu tive com eles. Nas viagens para férias, íamos sempre ouvir música portuguesa, música brasileira. Portanto, a minha cultura musical também foi muito inspirada naquilo que os meus pais ouviam.

Que artistas é que mais gostavas em criança?

Olha, era tudo que o meu pai e a minha mãe ouviam. O meu irmão, por exemplo, ganhou uma paixão pelo Rui Veloso, porque os meus pais passavam a ouvir. E depois passou pra mim. O disco favorito do meu irmão durante anos, e não sei se ainda hoje não será, é o "Mings e Samurais". E depois passou pra mim também, porque era o que se ouvia em casa. Nós íamos no carro e era uma bolsa enorme de discos que íamos pondo e era isso que passava, era música portuguesa, Caetano Veloso, Chico Buarque, e era tudo aquilo que os meus pais ouviam. Zeca Afonso ouvia-se muito, portanto, tudo que eles ouviam era o que nós ouvíamos, e foi assim que nós crescemos na música.

Tão bom. Olha, tu há bocadinho dizias aqui que não gostavas nada da escola, mas ainda assim, há bocadinho, ainda na primeira parte, me falaste em medicina.

Sim.

É assim, é um bocadinho contraproducente, não é?

Sim.

Tendo em conta que medicina é-

Eu adorava estudar. Eu não gostava de ir pra escola. Aquela coisa de ir pra escola.

Mas foi alguma razão em específico? Ou tu gostavas, por exemplo, do ambiente convívio que tinhas fora da sala de aula, mas não gostavas era mesmo de estudar?

Não, é o contrário. Eu acho que o meu problema era mais social do que as aulas em si. Eu gostava muito das aulas e estava muito atenta Eu era talvez um bocadinho bicho do mato. E é estranho dizer isto, porque eu era uma miúda até com muitos amigos e nunca tive dificuldade em fazer amigos, mas eu acho que sou um bocado bicho do mato. Eu adorava estar em casa com as minhas coisas, com os meus cadernos, porque sempre tive pancada com cadernos.

Sim. Eu sei disso.

Nos meus cadernos, a escrever coisinhas e a apontar coisas e a brincar. Eu sou obcecada com Harry Potter, então eu via os filmes 502 mil vezes. Eu punha os filmes a dar e estava a fazer outras coisas, mas os filmes sempre a dar de fundo.

Banda sonora.

Banda sonora. Era o meu mundo, eram as minhas coisas. Eu gostava muito de ficar em casa.

Falaste aqui dos cadernos. Também marca aqui uma altura em que tu começaste a escrever, depois, as tuas letras. Penso que foi ali aos 13 anos. Há ainda coisas guardadas dessa altura que nunca saíram para fora e que tu ainda possas ver?

Tenho rascunhos dessas coisas, como eu guardo os cadernos. Tenho uma coleção, tenho um armário cheio de cadernos vazios, a maior parte deles vazios, porque eu não tenho coragem de os usar, porque é da minha coleção. E depois também tenho os antigos, quando eu escrevi, que estão todos estragados, mas estão lá. E tenho lá os rascunhos das coisas que eu escrevi. Há muitas coisas que eu não cantei, mas estão lá.

E que um dia podem sair para fora? Ou nunca pensaste nisso?

Podem. Sabes que eu vou reutilizando. Sou uma pessoa que anda muito para trás e vai buscar coisas que estão para trás e tiro de lá ideias. Mesmo que não seja o que está lá, tento ir lá inspirar-me. Mas estão lá todos guardados. Eu tenho muitas coisas antigas guardadas, muitas mesmo.

E achas que os teus cadernos, de certeza que me vais responder que sim, nesta altura, nessa idade, funcionavam mais também como uma espécie de diário em que contavas muito das tuas histórias. Há pouco falaste aqui que tinhas alguns problemas de socialização. Também estavam nesses cadernos, essas questões?

Não. Eu acho que nessa altura eu escrevia mais sobre amor. Eu acho que eu nem escrevia sobre mais nada. Acho que era só o meu amor isto, o meu amor aquilo.

Foste uma pessoa com muitos gostos.

Não. Mas eu acho que eu já era fadista e não sabia, porque sofria tudo com muita intensidade. E tinha amores muito longos, já desde miúda. Namorava dois anos, com 14 anos, dos 14 aos 16. É muito tempo para uma criança com 14 anos.

Sim, nessa idade.

E então quando acabava era um drama, era horrível, parecia que ia morrer. Então era mais sobre isso que eu escrevia, eu acho. Nem nunca fui uma miúda de "olá, meu querido diário", nunca fui.

Era algo mais profundo?

Olha, não sei. Eu sempre gostei de escrever em verso. E no outro dia encontrei, por exemplo, um texto para o Dia do Pai, que era um poema, e eu tinha por aí oito anos.

Oito anos?

Sim, que eu estava mal. Mas rimava. E a minha professora primária, com quem eu ainda me dou hoje, e a minha mãe se dá também, ela diz que eu pedia muitas vezes para os textos que tinha que escrever serem em verso, serem em rimar, porque eu gostava muito do desafio de encontrar as rimas e encontrar palavras que rimassem. E era engraçado, porque as crianças não tinham tanto interesse por isso, escreviam textos corridos, mas eu gostava mesmo era do desafio de encontrar a rima. Pediam-me uma porcaria, mas eu gostava era de andar ali a brincar e encontrar uma coisa que rimasse com outra. Então sempre que tivesse gosto e encontrei um texto para o meu pai, eu acho, no Dia do Pai, que estava em verso. E achei engraçado.

Com oito anos?

Por aí oito. Oito a nove. Sim.

Há bocadinho nós aqui falávamos que se calhar as pessoas que nunca foram a uma casa de fados podem ter aqui uma visão distorcida do mundo que é uma casa de fados, o fado em si. E tu também costumas dizer que não és uma fadista de estilo, acho que podemos dizer. Como é que tu defines a tua forma de ser fadista e a tua forma de estar, essencialmente, na música?

Olha, é muito contraditória, porque, de facto, não sou uma fadista de estilo, não sou uma fadista de vestido comprido e de cantar, mas sou uma fadista que por dentro foi beber no mais tradicional que existe. E é aí que eu realmente me encontro. Se tu me quiseres mostrar um fado e fores ali ao baú e encontrares uma fadista mais antiga, sou capaz de desabar, porque aquilo me faz andar no tempo, me faz relembrar como é que eu era quando comecei a cantar, porque aquela letra é muito especial, porque aquela fadista é incrível a cantar. Às vezes, só uma voltinha desmonta uma pessoa. Eu acho que sou muito tradicional naquilo que eu gosto no fado e naquilo que eu faço, mas depois nunca fui uma fadista de usar estilo, nunca fui uma fadista de me produzir muito para ir cantar, um vestido comprido, salto alto, não sou muito assim. Vou até mais descontraída, até porque as casas onde eu cantava também não tinham essa pompa e circunstância. Porque há casas mais clássicas e há casas mais descontraídas. E as casas onde eu cantava, naturalmente, eram mais descontraídas. E então por isso eu também me vestia de tênis e de calças de ganga. Mas depois, o meu fado cantado e o fado que me faz chorar e que me emociona, é uma coisa muito mais tradicional e pura. Mas claro que depois também faço as minhas invenções. Nos meus discos tenho coisas com samba, com jazz, com isto, com aquilo, mas quando eu preciso de ouvir fado e preciso de me encontrar, é uma coisa muito tradicional e muito de essência, muito a essência do fado.

Isso acontece muitas vezes, o facto de tu reinventaste, assim como muitos outros artistas que foram aparecendo, reinventaste a forma de se cantar o fado. Hoje já não temos aquela visão tão tradicional como era antigamente. Acontece muitas vezes de te perderes e ser necessário voltar aqui atrás e às origens?

Sim. Eu acho que às vezes é preciso fazer um reset de fábrica, porque isto de ser artista é uma guerra interna todos os dias, de o que é que tu queres fazer e o que é que os outros querem ouvir. E isto é a guerra diária de um artista, eu acho, pelo menos para mim, que é: eu quero fazer isto, mas alguém quer ouvir? Ou as pessoas querem ouvir isto, mas eu quero fazer? E é esta a guerra diária. Eu acho que todos os artistas passam por isto: "Mas eu queria mesmo era fazer isto, mas eu acho que ninguém quer saber disto. Ah, mas eles querem mesmo é saber disto e eu não quero fazer isto". Vives nisto e às vezes tens que ir atrás e dizer assim: "Não, mas foi por isso que eu me apaixonei. Embora, eu quero fazer isto porque é isto que eu gosto". Mas depois não sabes se os outros estão disponíveis a ouvir aquilo que tu gostas. É uma vida de cedências e uma vida de bater o pé. Vou batendo o pé umas vezes, depois vou cedendo noutras.

É fácil?

Mais ou menos. Vou-te dizer com muita sinceridade, mais ou menos. Já me aconteceu querer fazer outras coisas, que não fado, e pensar: "Mas e a malta do fado, o que vai pensar disto?" Ou corta para querer muito fazer fado e pessoas que gostam de mim porque ouviram a Aurora com o Zambujo dizerem assim: "Mas nós gostamos é da Aurora com o Zambujo e agora ela está outra vez a fazer fado tradicional". Não é fácil. Por exemplo, eu estou a planear agora o próximo disco. Sei o que quero fazer, mas fico sempre na dúvida: para qual é que eu vou? O que eu faço?

Tu nunca vais deixar o fado, isso é uma certeza.

Eu acho que não. Eu acho que eu posso fazer outras coisas. Eu não direi nunca: "Não vou fazer outras coisas", porque acho que isso é muito taxativo. E também não posso dizer nunca deixar eu o fado. Mas eu acho que não. Eu acho que é impossível. Eu acho que é aquilo que eu sei fazer. Posso até cantar uma música pop e ter graça.

Eu ia perguntar isso mesmo, porque falaste aqui do Aurora, que é um tema que até passa aqui na Rádio Observador com o António Zambujo. Mostrou-te aqui numa outra vertente diferente, não é? E que mostra que a Trezinha é mais do que o fado.

Sim.

E que se calhar podes também abordar por aí.

E eu gosto de fazer isto. Mas tu tirares o Zambujo, coitado. Ele é um fadistaço quando canta fado, mas hoje em dia também canta outras coisas que não fado. E ele foi uma pessoa que fez aquilo de forma extremamente inteligente. Ele quer fazer outras coisas. Ele ama fado, cantou em casas de fado não sei quantos anos, mas também apetece fazer outras coisas. E nós falámos disso há uns tempos numa entrevista, e eu gosto muito da visão dele, porque ele ama fado. Ele adora o fado, mas ele reconhece que aquilo que ele às vezes faz já não é fado. E umas vezes nos concertos canta fado, outras vezes canta canções e está tudo bem com isso. E eu acho que isto é supersaudável, tu seres sincero contigo. E é o que eu também quero fazer comigo, que é: eu não quero dizer que eu não vá cantar com o António Zambujo a Aurora. Não quero dizer que eu não vá cantar com o JP do Brasil outras coisas. Mas quando as cantar, também vou dizer: "Olha, isto aqui já é um pouquinho mais distante do fado, é uma canção". Porque tenho vontade de o fazer. Agora, se puseres lá uma guitarra, uma viola e um baixo, eu sei que eu tenho uma voz que soa a fado, porque é assim que eu sei cantar, eu não sei fazer de outra maneira.

No fundo, cantar, sempre. Eu acho que isso é sempre o mais importante, ainda por cima quando estou aqui a falar com alguém tão talentoso. Trezinha Landeiro, estamos aqui a falar às vezes da necessidade de te encontrares e de viajares até ao passado. Tu és uma pessoa um bocadinho nostálgica. O futuro deixa-te ansiosa ou nem por isso?

Sim. Eu acho que não posso pensar muito no futuro, porque o incerto é uma coisa que me deixa sempre desconfortável. Eu acho que o futuro para algumas pessoas é: "bora trabalhar, bora construir". Eu gosto mais de: "deixa-me só viver o que está a acontecer agora, que eu não sei muito bem o que vai acontecer depois".

E que às vezes é tão difícil, não é?

É. Mas, acho que quase ninguém sabe, quer dizer, os meus amigos sabem. Eu tenho uma alcunha em casa que o meu pai me deu, que é o peru, porque o peru morre de véspera. E eu também. Que eu estou sempre a antecipar o que vai acontecer, porque imaginem: "vou convidar o Zambujo para fazer um dueto. E será que ele vai querer? Será que ele vai aceitar?" E do outro lado, o meu pai, a minha mãe, o meu marido, o meu irmão: "Já convidaste?" "Não." "Então convida. E se ele disser que não, ele disse que não. Tu ainda por cima conheces o Zambujo há anos, portanto é supertranquilo, fala com ele." E depois a resposta que vem de lá é sempre tão positiva que eu penso: "Que ridícula, por que és assim?" Mas eu sou assim com muitas coisas e não posso. E então sofro, por exemplo. Eu às vezes prefiro não pensar muito no futuro e estar a tentar viver o presente, porque senão estou a sofrer e a prever o que vai acontecer. E é um sofrimento, é chato.

Voltamos aqui ao fado. Às vezes, mesmo sendo ele triste, porque às vezes também existe essa necessidade, ele consegue-te sempre levar para um lado feliz?

Sim. Aliás, o fado pode ser muito triste.

E é a sua gente, não é?

Sim, e tocar num ponto. Mas mesmo, por exemplo, pensando, estou a ouvir um fado muito triste. Muito triste e que me toca ali num ponto específico que me é querido ou que é um assunto com o qual eu me relaciono. Mas ouvir aquilo vai-me saber tão bem, que o efeito que vai ter é um efeito de felicidade, de eu adorar isto. Quase de sorrires ao ouvir uma coisa supertriste, porque aquilo vai tão ao encontro do que tu estavas a precisar ou que tu estavas à procura. Ou vai parar a um sítio que é tão confortável para ti, que é muito triste, é muito dark, é muito down, mas vai-te dar um quente tão bom, que é bom. E eu acho que o fado é muito fixe por causa disso, porque realmente vai ali uns pontos mesmo cá dentro, e de repente é uma coisa triste, mas que te deixa tão confortável.

E às vezes também é bom estar desconfortável naquele momento.

É. Às vezes só deixares a tristeza vir.

E um artista sabe melhor isto do que ninguém.

Então não. E às vezes tens que cantar coisas muito alegres e estás todo desgraçado.

Já te aconteceu, se calhar?

Já. Por exemplo, eu não sou uma artista que consiga cantar e chorar ao mesmo tempo. Há pessoas que conseguem. Eu assim que me vem vontade de chorar, dá um nó na garganta e não sai nem uma nota. É impossível. Eu acho que a coisa que nunca irão ver é que eu esteja emocionada num concerto e consiga cantar. Isso não existe. Se eu me emocionar, paro, respiro fundo e volto a cantar. Mas eu acho que há sempre um fado para tudo.

E vamos poder ver isso no CCB.

Dia 19 de setembro.

Dia 19 de setembro. Vamos terminar esta nossa conversa aqui no "Em 40 Minutos". Eu gosto sempre de fazer aqui uma maldade quando vêm cá artistas.

Ok.

Vamos lá ver se tu consegues. Se tu pudesses resumir a tua vida ou uma fase da tua vida que tu queiras, num verso de fado, qual é que seria?

Olha, há um que me define muito bem, que era uma coisa que a Amália cantava, precisamente por isto de eu estar sempre à espera, com medo do futuro e a prever, que é: "Não peças demais à vida, aceita o que ela te dá". E eu acho que para mim este verso sou eu. Que é parar de exigir o que vem lá e aceitar só o que está a acontecer. E não estejas a tentar prever o que vai acontecer. Nem estejas a exigir que aconteça de determinada maneira. Aceita só, deixa vir e aceita. E essa letra é maravilhosa.

E o melhor vem sempre, não é?

Eu acho que sim. O que tiver que ser nosso, há de ser. Eu acho que sim. Espero eu. É para isso que eu estou a trabalhar.

Estamos a torcer por isso.

Se eu no final da vida descubro que esta frase é uma mentira, eu nem sei o que faço.

Eu acho que não. Acho que se vai confirmar. Trezinha Landeiro, muito obrigado por teres vindo aqui à Rádio Observador. Foi um gosto receber-te aqui no "Em 40 Minutos".

Obrigada.

Muito sucesso e que corra tudo bem.

Obrigada.

No dia 19, no CCB. Um grande beijinho.

Obrigada.