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E André, agora vamos dançar, não é?
Vamos dançar. 586 dias depois, mais de um ano e meio depois, as discotecas e bares voltam a abrir em Portugal. As pistas de dança voltam a encher-se de alegria, de animação, o que significa algo ainda maior. Significa que a guerra ainda não está ganha, mas que mais uma batalha contra a Covid-19, essa sim, já foi ganha. A partir de agora, da meia-noite, como já dissemos, caem mais uma série de restrições. Os estádios voltam a estar cheios, os limites de horário terminam, mas principalmente, como dizias, Rita, podemos voltar a dançar. Os bares e discotecas voltam a abrir e a Rádio Observador não podia faltar. Estamos em Lisboa e no Porto com os nossos repórteres, nas principais zonas de animação noturna das duas cidades. E vamos começar por dar um salto ao Cais do Sodré, onde está a jornalista do Observador, Camila Vidal. Está no Titanic Sur Mer, em Lisboa, como dissemos. Camila, já ouço a música aí de fundo, sabe muito bem ouvi-la, mas pergunto, em primeiro lugar, se houve pontualidade britânica aí, a porta abriu mesmo à meia-noite como estava programado?
Houve, sim, exatamente. Até esse momento esteve fechada. As pessoas vão agora entrando timidamente, mas há uma pista de dança onde pessoas, de facto, dançam, coisa que não víamos há muito tempo, André Maia. Eu tenho comigo o Manuel João Vieira, não é desconhecido de ninguém. É músico, faz parte do Zenapak 2000 e também dos Irmãos Cantiga, mas não é nessa qualidade que hoje falamos. É sim porque ele é um dos sócios aqui do Titanic Sur Mer. Manuel João Vieira, um dia importante depois de tanto tempo parados, este é o vosso dia, D?
Para a parte da discoteca, sim. Para a parte da música ao vivo, não parámos de a fazer até agora, mesmo quando isto fechava às 22h30. E portanto, isto é um alargamento do horário até aos limites legais. É uma quinta-feira, é meia-noite, mas acho que devíamos, por uma questão de marca, marcar simbolicamente esta data com o regresso à pista de dança também.
E como é que se sente ao ver a sua pista de dança novamente cheia de gente?
Ainda não está cheia de gente. É meia-noite, é quinta-feira, não sei se vai encher. Eu acho que podem vir 100 pessoas, podem vir 300, não faço a menor ideia. É uma coisa completamente inesperada para mim e nova. As pessoas habituaram-se, sobretudo, a fazer das ruas discoteca e, portanto, não sei se elas se vão enfiar outra vez dentro de um espaço fechado. Vamos ver.
Para já, expectativas contidas, mas relativamente a isso que diz sobre as pessoas voltarem àquilo que é a vida dentro de uma discoteca, que conselhos é que daria a alguém que tem medo de regressar a estes espaços fechados?
Se tem medo de regressar a espaços fechados, é não regressar a espaços fechados ou manter alguma distância. Eu acho que nós não vamos utilizar a lotação máxima. Vamos tentar que isto esteja um bocado mais arejado, porque estarem pessoas dentro de um bar como sardinhas em lata é ótimo pro vírus. Eu apanhei Covid em dezembro e não foi agradável. Há coisas melhores. Eu não desejo isso a ninguém. Portanto, vacinem-se e voltem-se a vacinar. A vacina não faz assim tanto mal, a não ser a 0,01% da população que morre contorcida, com dores horríveis.
Manuel João Vieira, para terminar, a forma como foi gerida esta reabertura dos bares enquanto espaços de diversão noturna e aquele fim de servir em esplanadas e de sítios de música ao vivo. Concorda com a forma como aconteceu? Achou que foi repentino passar-se para uma realidade tão diferente para esta que temos agora?
Eu acho que há aqui dois operadores fundamentais, sendo que uns são as autoridades de segurança sanitária, de saúde, e as outras são os políticos, e acho bem que primeiro esteja a saúde. E, portanto, obviamente, nós estamos a reagir a coisas inesperadas, como é a proliferação de um vírus. E, portanto, o que nós temos sempre é que ter um plano A, um plano B e um plano C, e ter o máximo de mobilidade possível, e ter já todas as estratégias programadas para os vários cenários. Acho que é isso.
Quer acrescentar alguma coisa?
Quero desejar a toda a gente muita saúde e que gradualmente venham aqui ao Titanic. Voltem à dança e para programarmos isso, amanhã vamos ter aqui o Vitorino.
E no sábado sei que também há uma programação especial.
Não, é engraçado porque é o Vitorino com o Havana Way, e portanto vai haver dança cubana. E vamos fazer aqui uma grande homenagem à dança também, desse ponto de vista.
Manuel João Vieira, muito obrigada por ter estado em direto para a Rádio Observador. André Maia, despeço-me assim de ti. Penso que a música se ouviu bem. Fiz questão de que a ouvisses também desse lado.
Muito bem, Camila.
Para também marcar esse desconfinamento e esse regresso à vida noturna em Lisboa.
Ouvia-se muito bem a música, também a jornalista do Observador, Camila Vidal, no Cais do Sodré, no Titanic Sur Mer. E agora vamos subir um pouco, vamos dar um salto até ao Bairro Alto, casa de muitos bares também, de muita festa. E é lá que está outro jornalista, outro repórter do Observador, neste caso, o Manuel Henriques Carvalho. Manuel, já estás aí também há algum tempo. Certamente também terás música de fundo como a Camila. Pergunto se já te parece também uma noite das antigas, pré-pandemia.
André Maia, não é uma das antigas, mas acho que é o suficiente, pelo menos para deixar saudades. Não sei se consegues ouvir a música de fundo. Eu tive mesmo que vir cá para fora.
Um pouco mais baixo do que o Camilo, mas conseguimos ouvir.
Não dava para ouvir nada lá dentro, tivemos que vir cá para fora. Mas acho que, pelo menos, dá para ouvir o som de toda a multidão que está aqui atrás de mim, postos para entrar. As ruas do Bairro Alto são um bocadinho mais estreitinhas, mas também estão longe de estar cheias. Mas ainda assim, estão dezenas de pessoas que já fazem fila aqui à frente do Friends, um dos bares do Bairro Alto. Antes de bater a meia-noite, faltavam cerca de 10 minutos, já estavam pessoas na fila à espera de entrar e assim que bateu a meia-noite, abriram-se as portas. Foi uma festa autêntica, parecia quase Ano Novo, só faltou mesmo a contagem decrescente. E as pessoas entraram pelo bar adentro para aproveitar o regresso das pistas de dança. Comigo agora eu tenho o Bruno Teixeira, que é gerente do Friends. Estas dezenas de pessoas que ainda vão chegando, como estávamos a comentar há pouco, parece que vão chegando por grupos. Já era aquilo que esperavam para esta reabertura, digamos assim?
Sim, já desde há uma, duas semanas que se previa. Obviamente que é uma quinta-feira, mas sexta e sábado ainda se espera muito mais.
Apesar de hoje ser quinta acadêmica, sexta-feira é que vai ser o dia a sério, amanhã.
É fim de semana e os nossos clientes também já voltaram muito à rotina, ao habitual, ou seja, saem muito mais durante o fim de semana. Isso é algo que se tem visto desde há três, quatro semanas, que as pessoas resguardam ligeiramente para começar a aproveitar só o fim de semana.
Bruno Teixeira, eu vi há bocadinho também aquilo que está previsto. As pessoas não têm que usar máscara quando entram na discoteca, mas têm que mostrar o certificado de vacinação ou têm que mostrar um teste negativo à Covid-19 feito em farmácia ou em laboratórios. Esta medida atrapalha sempre um bocadinho ou, na verdade, não vai afetar a recuperação dos bares?
Atrapalha a nível de tempo, porque os clientes demoram muito mais tempo a entrar, obviamente, porque têm que verificar um a um, mas acho que não, tendo em conta o nível de vacinação que o país já tem e tendo em conta a faixa etária que já está toda vacinada, que é os jovens e que querem aproveitar e que teve um boom gigante nos últimos tempos.
Acaba por ser bem aceito por aquilo também que vamos podendo ver agora nestes primeiros minutos. É bem aceito por parte do público?
Sim, é tranquilo. Consegue-se ver que as pessoas já têm os telemóveis nas mãos, mesmo para mostrar os certificados. Portanto, também facilitam nisso. Não estão à procura do certificado nas 1001 fotografias que possam ter no telemóvel, porque já o puseram a postos para esta grande noite.
Acabámos por estar todos em sintonia. Bruno Teixeira, muito obrigado por falar conosco nesta que é a reabertura das pistas de dança. Uma reabertura que se marca aqui no Bairro Alto, como eu disse, com dezenas de pessoas. As filas, pelo menos aqui à frente do Friends, ainda está maior do que estava no início, de quando bateu mesmo a meia-noite e as pessoas puderam entrar no bar. Agora, André Maia, é tempo de aproveitar. Se não te importas, eu acho que me vou pôr na fila também, antes perco o lugar.
Aproveita por nós. Um passinho de dança, mais um aqui com esta reportagem do jornalista do Observador, Manuel Henriques Carvalho, em Lisboa. Ouvimos a música de fundo, ouvimos o alívio de quem está nas pistas, de quem está a dançar. Mas queremos também ouvir o alívio, e já ouvimos também aqui pela voz dos dois protagonistas destes diretos, de quem está no setor da animação noturna. E é por isso mesmo que se junta agora a nós também o presidente da Associação de Discotecas de Lisboa, José Gouveia, a quem agradecemos a disponibilidade por se juntar a nós neste Jornal da Meia-Noite especial. Boa noite, José Gouveia. Pergunto como é que sabe ouvir esta música de fundo?
Sabe bem. Sabe à liberdade, sabe ao regresso. É o nosso dia D, o dia da dança, o dia das discotecas. E é com muita satisfação que eu ouço pessoas a mandarem mensagens, a agradecer todo o trabalho que foi feito neste sentido, de nós conseguirmos libertar finalmente a população e ela poder dançar, que é uma coisa tão estranha e uma coisa tão simples. Vivemos aqui durante 19 meses o síndrome do footloose, em que vivemos aqui um momento sem poder dançar, que é uma coisa que a mim realmente me afligia muito. Eu quando soube da notícia, na semana passada, chorei, confesso. Hoje estou um bocadinho mais contido e só desejo é que isto não volte para trás, que isto seja um início e que não tenha fim.
Precisamente sobre esse início, esse fim, pergunto se parece que este passo foi dado no momento certo ou se devia ter sido dado, eventualmente, mais cedo.
Eu sou da opinião que devia ter sido dado mais cedo. Nós falávamos de uma imunidade de grupo aos 70%, tendo em conta que a última percentagem de vacinados já era entre os 12 e os 17, que não eram nossos clientes, não eram utentes da noite, por assim dizer. Podíamos ter salvo muitas empresas se tivéssemos permitido que tivessem aberto durante o verão, principalmente empresas que têm estabelecimentos em zonas balneares, como no Algarve, etc. E era expectável que realmente no início do verão nós já pudéssemos ter as portas abertas. Mas neste momento não é pensar no passado, é pensar no futuro e desejar que realmente ninguém morra na praia e que depois de ter aberto, não se volte a fechar.
E olhando para esse futuro, precisamente, apesar de este ser um momento feliz, marcante, emotivo também, como dizia há pouco, a pandemia ainda não acabou. Pergunto se tem alguns receios com esta reabertura, quais? Por exemplo, a ausência de máscaras dentro dos bares, dentro das discotecas. Se se sente seguro com esta retirada das restrições nesta fase.
Sim, eu acho que é seguro. Se nós temos um certificado que atesta que realmente a pessoa ou está vacinada, ou está em fase de recuperação, ou houve uma testagem que comprova que ela está negativa, eu acho que não fazia sentido nenhum, e António Costa disse bem, o uso da máscara dentro dos estabelecimentos. Gostei muito de ouvir o João do Titanic a dizer que não vão utilizar a lotação toda. Eu acho que esse deve ser o princípio: oferecer segurança aos nossos clientes, ter muita consciência nesta fase inicial. Não é preciso encher como vemos nos transportes públicos, como vimos outras situações e como vivemos há 19 meses. Vamos com calma, vamos demonstrar que temos consciência, que estamos com cuidado, queremos segurança, que não queremos ganhar tudo logo e que queremos que isso seja a longo prazo e não a curto prazo.
Para fechar, José Gouveia, pergunto se finalmente vai dar também um passinho de dança nas discotecas, aproveitando, e se sim, se era esse o momento que mais ansiava, poder entrar numa discoteca e ver gente a dançar.
Eu acho que hoje não vou, mas amanhã, quem sabe, se não até acompanhado pelo Observador, não vamos dar uma volta e ver realmente as pessoas a dançar e este regresso, um pouco, à nossa normalidade.
O Observador já se antecipou. Então, nesse caso, já com os nossos repórteres nos locais, e é precisamente para lá que vamos novamente, sem deixar de agradecer novamente ao José Gouveia, o presidente da Associação das Discotecas de Lisboa, aqui a dar esta face também de quem esteve privado, neste setor, de poder abrir os seus estabelecimentos, neste caso, as discotecas em Lisboa. O presidente da Associação de Discotecas de Lisboa, José Gouveia.
E de Lisboa, André, passamos para o Porto. Também na cidade Invicta temos reportagem.
E vamos até o centro da cidade, mais propriamente até à zona das galerias. Isto porque é lá que está a jornalista do Observador, Ana Catarina Peixoto. Catarina, há pouco, em Lisboa, ouvimos a música. Neste caso, também já ouvimos ao longe a música no Porto. A pergunta que te faço é se também já se dança na cidade Invicta.
Boa noite. Já se dança, mas ainda muito pouco, porque a verdadeira dança será sexta-feira à noite. É isso, pelo menos, que os bares aqui da cidade do Porto têm planeado fazer. Apesar de já se ouvir música, já vemos aqui também as luzes. Eu neste momento estou na Foz Na Baixa, que é um bar aqui na zona das galerias do Porto. Comigo tenho o Vítor Rajão, que é o proprietário aqui deste bar. A dança vai ficar para sexta-feira à noite, mas vão esperar para ver também o que é que se passa agora a partir desta hora, em que já podem abrir a pista de dança.
Sim, vamos ver como é que o pessoal hoje vai aderir. Vamos analisar para amanhã podermos fazer uma abertura melhor do que hoje.
Fizeram algum tipo de preparativos para a partir desta hora já terem alguma coisa aberta? Porque o bar aqui já estava aberto, mas a parte da dança e da pista de dança é que ficou para depois. Houve alguma preparação ou quiseram esperar para ver também a adesão das pessoas aqui ao bar?
Sim, temos uma festa marcada já com vários clientes da casa e vamos ver o que as pessoas podem vir aderir. Não sabemos como é que as pessoas vão aderir pelo primeiro dia. Depois de estarem tanto tempo em casa, vamos ver como é que as pessoas vão aderir, se vão continuar com medo, se não vão. Vamos aguardar.
Esta vertente no negócio, também o facto de poder receber agora as pessoas para dançar, para estarem no bar, fez muita falta?
Sim, porque estivemos aqui muito tempo fechados, acumulamos dívidas. As ajudas do governo, nenhumas. E nós esperamos que possa nos vir a recuperar alguma coisa e que o governo ainda se lembre de nós para nos ajudar em algum apoio que possa existir, porque houve apoios para toda a gente, menos para aqui, para os bares e discotecas, apoios não se viu nenhum. Vamos lá ver o que é que o governo diz.
A decisão de reabrir agora também as discotecas e os bares nas outras vertentes já deveria ter sido tomada há mais tempo ou veio na altura certa?
Eu penso que deveria ter sido muito mais cedo. Por quê? Porque os casos estavam a aumentar e diziam que iam ser dos bares e das discotecas. Quer dizer, a realidade é que os bares e as discotecas estavam fechados e as coisas estavam a aumentar. Então por que eles não fecharam outro setor e deixaram abrir os bares e as discotecas? Se calhar não havia tantos casos. O governo é que poderá dizer alguma coisa. A análise deles é que estava sempre certa e o que venho dizer é que nós acumulamos aqui dívidas e não temos direito a nada, que foi mesmo assim. Só promessas, mas nunca tivemos direito a nenhuma ajuda. Fomos esquecidos. Um setor ignorado. Parece que a gente não faz parte da restauração, por exemplo, que nós fazemos a nossa parte, é parte da restauração. Visto que o governo não nos deu nada, a gente tem que acumular dívidas e agora tentar trabalhar para pagá-las. Vamos aguardar por isso.
Agora a esperança é que pelo menos esta noite ou sexta-feira à noite, já alguém venha aqui dar um passinho de dança e também avançar com o negócio.
Sim, vamos aguardar. Vamos esperar que as pessoas não estejam habituadas a outras maneiras, porque acomodaram-se a muita gente a estar em casa, fazer festas em casa, festas privadas. Vamos lá ver, mas quem gosta da noite, eu acho que Que vai sair à noite e vai para as discotecas e para os bares se divertir.
Muito obrigado, Vítor Rajão, o proprietário aqui do bar Foz Na Baixa, bem na zona das galerias, no centro do Porto. Um bar que já tem música, já tem luz, já tem algumas pessoas também, mas a dança essa mesmo será provavelmente na sexta-feira à noite.
Mas ainda assim, Catarina, continuamos a ouvir a música aí de fundo, portanto, deixamos também os votos, o desejo para que também aproveites, tu, tal como o Manuel Henriques Carvalho e a Camila Vidal em Lisboa, para dar mais um passinho de dança neste regresso da música, da dança, depois de tanto tempo de restrições. Aqui a jornalista do Observador, Ana Catarina Peixoto, com a visão, aliás, a audição do Porto, a cidade onde também já se dança, na cidade invicta.
Já se dança, sim, André. Vamos ainda ouvir a versão de quem nos dá a música, de quem nos põe a dançar, como temos ouvido nestes diretos, não é?
Exatamente. Esperamos que os discos ainda não estejam enferrujados, mas agora há tempo de os voltar a pôr a funcionar. A Rádio Observador falou esta tarde com o DJ Ride, um dos muitos artistas, principalmente da animação noturna, que durante este tempo de pandemia esteve com menos trabalho, com uma situação mais complicada, mas agora a emoção é só uma: é de ânsia, é de vontade de voltar a pôr toda a gente a mexer. Vamos ouvir a entrevista com o DJ Ride. Estamos a algumas horas de chegar ao dia da libertação. Para alguém como o DJ Ride, que está intimamente ligado à atividade noturna, um artista, pergunto o que significa este dia da libertação, como temos chamado, e também que expectativas é que tem para este dia?
Eu ainda estou assim um bocado deslumbrado com isto tudo, porque foi muito penoso, obviamente, para toda a gente, mais para uns do que para outros, mas a maneira como a cultura e a parte dos concertos, como fomos tratados, essa parte dos artistas que têm o lado da performance ao vivo, foi muito mau nos últimos tempos. Houve medidas que foram, sem dúvida, excesso de zelo. E se eu não tivesse a parte da produção, de trabalhar em estúdio, tinha dado em maluco. Isso foi basicamente o que me salvou nos últimos tempos. Fiz dois ou três álbuns, fiz colaborações com outras pessoas. Tenho estado também a trabalhar com labels estrangeiras, com editoras que já há algum tempo queriam trabalhar. Só que isso sem a parte das atuações ao vivo, eu não me sinto completo. Eu, por exemplo, ainda não apresentei o meu último álbum ao vivo, que saiu em junho. Então agora finalmente vou conseguir tocar as músicas que andei a fazer estes últimos tempos. É algo que eu não consigo explicar. Já tenho muitas saudades de tocar para as pessoas, de ouvir música alta, de contactar, ter essa experiência. A parte dos streamings é para esquecer. Andamos aqui a tentar fazer coisas diferentes e inovadoras, mas só a parte digital não dá. Isso foi algo que acho que é uma opinião unânime. Acho que é consensual que os streamings dão para matar um bocadinho de saudades, mas não é o futuro.
Há pouco dizia que algumas medidas terão sido excesso de zelo. Pergunto se se sente agora, neste regresso, seguro para regressar agora, para estar com tanta gente nestes espaços.
Completamente. A partir do momento em que está mais de 80% da população vacinada, em que são precisos os testes, PCR, rápidos, etc. Eu vou continuar a usar máscara, estando no público, desde que haja distanciamento. Estou muito seguro. Obviamente que se fosse uma coisa sem regras, não. E até tenho algumas atuações agora marcadas para o estrangeiro e quando marcámos tentei perceber quais eram os moldes, quais eram as medidas. Havendo os testes e havendo este controle que é necessário para o bem de todos, vou me sentir completamente seguro. Acho que quando eu disse excesso de zelo, tivemos atuações em centros culturais, por exemplo, com lotação 20% da casa e depois vimos outros eventos em que as pessoas nem respeitavam o distanciamento. Isso é que acho que houve medidas que não foram justas para toda a gente, para vários setores. Ainda por cima, é uma coisa diferente, mas eu moro ao pé de um ginásio e todos os dias passo lá e as pessoas estão ali sem máscara já há alguns meses. E eu ficava a ver os stories dos meus amigos estrangeiros a tocar em festivais e clubes no estrangeiro e com máscara e com teste, etc. Tudo a correr bem. Aqui em Portugal, as discotecas só agora é que vão conseguir abrir. Isso foi uma parte que eu não consegui perceber. Acho que podia ter sido melhor. As medidas podiam ter sido mais justas para toda a gente, mas o que interessa é que agora finalmente há esperança.
De que é que tem mais saudades? De que é que espera mais ansiosamente agora para os próximos tempos?
No fundo, é mesmo sentir essa liberdade outra vez de poder tocar para as pessoas. Como eu disse, tenho a parte de estúdio, mas sem a parte ao vivo, sinto-me mesmo incompleto. E os concertos, estar a sentir a emoção das pessoas a vibrarem, é completamente diferente do que estar atrás de um ecrã ou atrás do telemóvel Ou no estúdio só fazer um streaming. Tenho muitas saudades de ver um concerto, ouvir, também estar da parte do público, me emocionar, ouvir música alta e sentir, estar em contacto com as pessoas.
A indicação que eu tenho aqui é que o DJ Ride amanhã vai tocar no Art Club, portanto um regresso em grande. A minha pergunta é, para terminarmos aqui a nossa conversa, quais é que são as expectativas para esse regresso, para esse dia de amanhã?
Acho que vai ser a loucura, no bom sentido. Era o que eu estava a dizer, isto vai ser uma noite que é de uma label drum and bass do Porto, que é a Extra Balance. Sendo uma noite drum and bass, pela primeira vez vou conseguir tocar algumas músicas que fiz nos últimos tempos. Algumas delas foi para a label dos Noisia, que é um dos maiores colectivos de drum and bass do mundo. Dá para perceber o que é eu finalmente estar a lançar músicas nesta label, que sempre foi tão importante para mim, e não as conseguir tocar. Finalmente amanhã vou conseguir tocar pela primeira vez as minhas músicas. Vai ter um sabor especial e mesmo toda a gente do lineup, acho que a maior parte das pessoas é a primeira vez que vão tocar num ano e meio. Eu não fazia um set drum and bass, por exemplo, se calhar há dois anos. Isso vai ser mesmo muito especial e estamos todos muito contentes, ainda por cima neste dia 1 que é tão simbólico.
A felicidade do DJ Ride à Rádio Observador, uma entrevista realizada esta tarde. DJ Ride que, como nos dizia, vai voltar ao activo já amanhã. E Rita, agora também nós podemos voltar ao activo.
E não havia, de facto, outra forma de terminar este jornal da meia-noite no dia da libertação. Eu, o André Maia e a equipa do Observador vamos dançar. Despedimo-nos assim e com o convite que venha dançar também conosco. Não é, André?
Uma boa noite para todos.
E terminamos assim o jornal da meia-noite, edição do jornalista André Maia. Também tivemos Camila Vidal e Manuela Henriques Carvalho em direto da zona de animação noturna de Lisboa e Ana Catarina Peixoto no Porto. Agora André Maia passa o testemunho a João Gama e às tantas, André, ainda vais aproveitar para dar um pezinho de dança, se calhar ainda te vou.
Eu já estava fora do microfone precisamente por isso.
A informação regressa no jornal da uma, da Rádio Observador.
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