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Adalberto Campos Fernandes, apoiante de António José Seguro. Boa tarde, obrigado por se juntar a esta emissão especial da Rede Observador. Adalberto Campos Fernandes, o surgimento de mais um candidato neste espectro político, centro-direita, pode vir a beneficiar de alguma forma a candidatura de António José Seguro nas presidenciais?
Boa tarde. Trata-se, em primeiro lugar, de uma candidatura pré-anunciada. Nós esperávamos, de uma forma geral, que ela viesse a acontecer, mas da forma como a sociologia eleitoral e o espectro político hoje em dia se encontram, creio que falarmos em territórios de política de esquerda ou de centro-esquerda, ou centro-política, é hoje pouco adequado. Os candidatos têm que se afirmar por uma projeção nacional e, portanto, por aquilo que é o mapa de valores com que se evidenciam e como se posicionam na cena política. E naturalmente, eu não arriscaria dizer que a candidatura de André Ventura vai apenas buscar votos a eleitores tradicionais do partido A ou do partido B. Nós temos visto isso, inclusivamente, em eleições legislativas, que há uma grande volatilidade do voto. Estamos agora com um quadro melhor definido. Vai ser naturalmente mais fácil aos portugueses perceberem ao que vem cada um dos candidatos. E naturalmente que o António José Seguro, no meio desta disputa eleitoral, tem uma vantagem: sendo um homem que vem de dentro do sistema, tem sobre o sistema uma visão de distanciamento, de idoneidade e de seriedade. Portanto, é um homem que não vai entrar nesta disputa de se é possível defender a democracia e defender a instituição Presidente da República, através de um permanente ataque às instituições, de uma diminuição da importância do Estado, daquilo que é a relevância do papel dos diferentes atores no sistema político. Portanto, do nosso lado, eu diria do lado da candidatura de António José Seguro, muita serenidade, muita tranquilidade e há uma coisa que o António José Seguro, com toda a certeza, garante: não vai entrar na disputa do território do populismo e não vai seguir o conselho daqueles que, tendo criado estas condições, agora entendem que não é pela via da moderação, do bom senso e da reconciliação com os portugueses que se ganha a Presidência da República. Portanto, ele continuará o seu caminho e seguramente que não entrará por disputas para territórios que não são os territórios da naturalidade, da democracia e do respeito pela diferença. E portanto, com muita naturalidade, ainda falta muito tempo para o processo das candidaturas estar concluído, não sabemos se aparecerá mais algum candidato. É caso para dizer: bem-vindo, doutor André Ventura, vai ser uma boa disputa eleitoral e vamos confrontar dois modelos de sociedade, duas aproximações à vida coletiva bem diferentes. Portanto, da parte do António José Seguro, seguramente que é um desafio ainda maior ter uma candidatura com essas características anunciada hoje, como acabou de ser há pouco.
Adalberto Campos Fernandes, era mesmo isso que lhe ia perguntar, se esta campanha eleitoral se vai transformar num debate entre os que são do sistema e os que são contra o sistema.
Esse é um debate artificial e perigoso, porque repare, nós temos candidatos que têm origem no sistema político, que tem sido a base da democracia portuguesa. Portanto, eu creio que não é um bom caminho que alguém procure para ganhar vantagem do ponto de vista da competição eleitoral, hostilizar e muitas vezes de uma forma que eu considero até pouco democrática e até inconstitucional, o sistema político. Outra coisa é apresentar propostas para regenerar o sistema político, para o modernizar, para o alinhar com aquilo que são hoje as necessidades das pessoas, que são muito diferentes do tempo constitucional, do tempo em que, em 76, o regime se fundou na Constituição da República de 76. Esse é um caminho de responsabilidade que tem que ser olhado e tem que ser tido nos debates que seguramente vão existir entre os diferentes candidatos. Mas não antecipo que António José Seguro vá entrar neste jogo, eu diria, numa espécie de rancaria política, que visa acima de tudo dar a ideia de que o regime está em decadência, que tudo está minado pela corrupção, que os nossos adversários têm que ser anulados, até fisicamente, que de facto há uma intolerância que se deve sobrepor à junção dos portugueses. O António José Seguro vem para juntar pessoas, não vem para separar pessoas.
Mas Adalberto Campos Fernandes, esta candidatura vem mudar alguma coisa na estratégia de António José Seguro?
Eu creio que não, aliás, vem reforçar a linha que ele tem vindo a definir, que é uma linha de sobriedade. Repare, os adversários da candidatura de António José Seguro, que existem naturalmente, acham que ele devia ter um estilo mais truculento, mais agressivo. Muitos deles foram, aliás, responsáveis pela criação e pelo alimento deste fenómeno que nós hoje estamos a confrontar em Portugal e portanto, é curioso, vindo desse lado, esse tipo de incentivo. O António José Seguro é uma pessoa serena, é uma pessoa que junta e que naturalmente vai ser um ponto de encontro da cidadania, reconhecendo que o Estado tem que ser modernizado, que as instituições têm que ser aproximadas do povo, o povo tem que se reconhecer nas instituições, mas não é através da destruição, não é de facto da violência democrática, que nós qualificamos a democracia. E depois, repare, o problema que se coloca agora é um problema no campo, eu diria mais, do centro-direita ou da direita, porque há um verdadeiro engarrafamento de candidatos. E eu temo que a luta venha a ser uma luta até bastante fratricida do ponto de vista do candidato André Ventura, que quer ser o líder incontestado daquele espaço, que não admite que mais ninguém fale em nome do antissistema ou do antipartidarismo que não seja ele. E portanto, há confrontos que nós antecipamos que vão ser confrontos difíceis, nomeadamente com o senhor Almirante Coelho e com o próprio doutor Luís Marques Mendes. Mas isso é uma matéria que faz parte da democracia, fará parte dos debates e os portugueses estarão seguramente muito atentos a essa confrontação que enriquecerá, com certeza, este percurso daqui até janeiro de 2026.