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Rádio Observador, Desporto. Está com a Rádio Observador, muito boa tarde. Há 10 anos foi feriado decretado por Éder. Está aqui conosco em estúdio na Rádio Observador, neste dia em que passam 10 anos dessa conquista para o futebol português. Éder, muito bem-vindo, obrigado por estar aqui na Rádio Observador. É um dia também especial, porque foi o escolhido para a apresentação de um novo selecionador. Estávamos aqui a falar em off que trabalhaste com Paulo Bento e com Fernando Santos. Chega agora à seleção, aos 71 anos, um treinador que conhece bem o futebol português, que conhece bem muitos destes jogadores, como fez alusão na própria conferência de imprensa, dizendo que já tinha treinado quase metade deste lote. É uma boa escolha, é um bom virar de página depois destes anos com Roberto Martínez?
Boa tarde, obrigado pelo convite, desde já. Sim, acho que é uma opção muito boa, segura, porque é um treinador que conhece bem o futebol português, um treinador que está habituado a vencer, conhece muitos destes jogadores com quem já trabalhou e de certeza que os tem acompanhado. É um treinador com rigor tático muito vincado, um treinador muito exigente e acho que se adequa e faz sentido neste momento. E é um treinador que está disponível.
Sim, também é uma questão. Há sempre um caráter que atribuímos ao Jorge Jesus de ser, de certa forma, autoritário. Isso pode ser bom ou mau num balneário que tem também muitas estrelas internacionais com os seus egos. Jorge Jesus também já sabemos que tem o seu.
A verdade é que tem tido resultados por onde tem passado. E os resultados, claro, fazem parecer que faz sentido e tem resultado. Apesar de nunca ter trabalhado com ele, pelo que já ouvi de ex-colegas, acredito que o rigor, a forma como se empenha e a exigência que coloca nos treinos, nos jogos, nos jogadores, fazem com que a equipa cresça, com que os jogadores cresçam e faz com que estejam mais perto da vitória.
Ele, nesta conferência de imprensa, falou também não muito exaustivamente, para não ser deselegante, até com Roberto Martínez, o que se compreende perfeitamente, mas diz que viu a prestação de Portugal neste mundial, que promete que vai jogar pelo menos o dobro do que apresentou. Que visão tens tu destas exibições da nossa equipa neste mundial, onde saiu um pouco mais cedo, mas senti quase em todos os adeptos e na imprensa desportiva que uma das grandes críticas foi também ao rendimento, mesmo quando ganhou, quando empatou, não houve um futebol que impactasse nos adeptos grande alegria, grande recordação.
Exatamente, fica aquém dos objetivos propostos, das expectativas de todos os portugueses, porque partimos para esta competição com muita ambição e olhava-se para esta equipa, para estes jogadores com uma qualidade imensa, jogadores que têm sido protagonistas nas equipas onde jogam. Isso, claro, trazia aqui muita confiança, muita ambição, e é verdade que as exibições ficaram um bocado aquém. Acredito que não se pode culpar individualmente os jogadores, porque eles sabem, eles têm feito isso nos seus clubes, mas realmente as coisas acabaram por não funcionar em alguns jogos. Acabamos por ser surpreendidos no primeiro jogo, em que entramos muito bem e as coisas pareciam que se iam desenrolar, se calhar até facilmente, pela boa entrada que tivemos no jogo, mas depois acabamos por não corresponder às expectativas. Uma fase de grupos um pouco onde não houve grande consistência. Isso leva os adeptos, leva-se a questionar muita coisa. E depois num jogo com a Croácia onde as coisas também não-
Mas onde tivemos uma boa primeira parte, talvez das melhores.
Sim, uma boa primeira parte, mas no geral, no jogo todo, acabamos por não ser completamente superiores. Numa parte sim, mas na segunda parte não tanto, apesar de fazer parte de uma competição como esta, onde vais crescendo. E depois é verdade contra a Espanha, acabamos por ter mais posse de bola do que é habitual e isso faz com que também se tire alguma paciência à equipa espanhola, faz com que consigamos ter bola, mas depois não fomos tão eficientes ofensivamente em determinados períodos do nosso jogo, em que há muitos jogadores, sobretudo no nosso meio-campo, que acaba-se por desposicionar e não estar tantas vezes nas suas posições habituais onde se sentem mais confortáveis e há aqui algum desgaste. E acaba por ficar aquém, como eu disse, porque tínhamos realmente grandes expectativas, mas não se pode questionar que os jogadores estivessem corpo e alma a dar o seu melhor e, como eles costumam referir, a representar Portugal com muito orgulho.
Também me pareceram, de alguma forma, exagerado sempre o foco que se coloca em Cristiano Ronaldo, como é uma figura tão grande, que extrapola até o próprio futebol, parece uma espécie de para-raios, quer para quando é para elogiar, quer quando é para criticar. É o capitão da equipa E foi de alguma forma muito comentada também a sua prestação ou até a escolha de Martínez em deixá-lo tanto tempo em jogo. É uma gestão difícil a que se faz de um jogador que é o maior símbolo de Portugal nestes últimos anos? Jorge Jesus terá aí um desafio, mas traz também a experiência do último ano a treinar o Al-Nassr.
Claro que é uma gestão difícil. Foi uma gestão difícil. Falemos do que aconteceu, porque eu acho que ali no terceiro jogo com a Colômbia, que era um jogo que já tínhamos passado e é um jogo de muita exigência, sobretudo física, em que se calhar pode haver aqui alguma gestão, em que Gonçalo Ramos também está à porta da titularidade e é um jogador que pode ajudar muito. Neste caso, ajudou a partir do banco e também com outros jogadores que podia haver aqui outra gestão, até com o nosso meio-campo, porque houve uma carga física muito exigente, mas lá está, passou. Vai ser importante, claro, a sua gestão, porque realmente é um jogador que continua a ser importante e isso não o podemos negar. Claro que há que encontrar dinâmicas para que as coisas funcionem. E Jorge Jesus conseguiu isso no Al-Nassr. A época acabou por correr bem, a Ronaldo, a Jorge Jesus, até mesmo João Félix, que encaixou muito bem e encontraram-se dinâmicas que acabaram por favorecer tanto o Ronaldo como a equipa. E é isso que se vai procurar, uma gestão importante, mas também há que frisar que tínhamos 26, 27 jogadores muito equiparados em termos de qualidades, todos com qualidades diferentes, mas que podem aportar muita coisa a Portugal. E agora, lá está, é importante encontrar dinâmicas, sobretudo também para este meio-campo, que é um meio-campo com bastante potencial.
Jorge Jesus falou nisso dizendo que no Paris Saint-Germain, este meio-campo português tem outras soluções na frente, logo jogam todos de uma maneira diferente e que esse modelo é impossível de replicar com este plantel em Portugal.
Exatamente, até porque no Paris Saint-Germain funciona de uma certa forma em que os jogadores da frente pressionam muito e há muita entreajuda. Na seleção portuguesa é completamente diferente, porque o gatilho de pressão é completamente diferente, não se pressiona da mesma forma e depois quando não se pressiona na frente da mesma forma, o meio-campo também acaba por-
Ter outras funções
...ter outras funções. E lá está, e depois podia também, sobretudo neste jogo com o Congo e com a Colômbia, em que é um jogo onde há muitas transições, muitos contra-ataques, se calhar um tampão, este meio-campo em que metes um jogador um bocado mais defensivo, que segure o meio-campo e que funcione também de tampão, podia ter ajudado. E lá está, são dinâmicas que têm que se encontrar.
E que Jorge Jesus fará agora esse trabalho a partir deste dia zero em que é o novo selecionador português. Éder, temos de falar de há 10 anos. Portugal conquista esse Europeu, um golo inesquecível, o mais importante da história do futebol português, foi marcado por ti. Como é que olhas para esse dia passados 10 anos? A tua vida muda, imagino que mesmo quando chegas aqui ao Observador, são muitas as solicitações para fotografias. Todos têm um carinho enorme por ti, por esse momento tão especial. Há um Éder antes desse golo e depois desse golo?
Sim, completamente. O carinho e as demonstrações de carinho são enormes, acontecem no dia a dia. Como estavas a dizer, aqui foi igual. E claro, é gratificante. Aprecio, claro, estar aqui com as pessoas e poder partilhar também alguns momentos e agora estamos aqui a partilhar com os ouvintes. Foi fantástico, momento fantástico, fica na história do futebol português para todos nós. Enquanto equipa, é enorme, porque realmente foram grandes batalhas que nós travamos, um grupo de jogadores que acabam também por, dentro do jogo, encontrar dinâmicas diferentes, em que o futebol, numa fase inicial, não foi tão bem jogado, mas fomos crescendo ao longo da competição. Jogadores que acabaram por se adaptar em relação ao seu jogo e de facto é um orgulho enorme sentir todo o carinho que os portugueses têm em relação àquele dia e a nós.
Essa competição termina bem, mas também não se livraram de algumas críticas muito apontadas ao facto de uma série de empates que foram acontecendo na competição, mas Portugal lá foi resistindo. Consegues ainda assim fazer algum paralelismo com esta prestação no Mundial desta seleção e essa há 10 anos que conquistou o Europeu contigo?
Pela fase de grupos, um pouco atribulada, em que há críticas e, de facto, não começamos com o melhor futebol. Tivemos que nos encontrar, mesmo enquanto grupo, em termos de futebol jogado, dinâmicas diferentes, em que o Ronaldo passa a jogar também mais a ponta de lança e depois há jogadores a aparecer também na seleção E de facto não foi um Campeonato da Europa bem conseguido, numa fase inicial com muitas dúvidas, muitas críticas. Não arrancámos bem, mas fomos crescendo ao longo da competição, fomos acreditando. É claro que depois da passagem na fase de grupos, acabamos por crescer e ter sorte também na fase a eliminar, mas encarámos isso de forma positiva, porque acreditámos que era um sinal e que daria para nós. E depois fomos crescendo ao longo da competição e terminámos da melhor forma.
Terminamos com esse teu belo golo. Duas perguntas numa só para terminarmos: ficou mesmo difícil jogar em França depois dessa vitória, desse teu golo e muito rapidamente, esta França de hoje é a maior candidata a vencer este mundial de 2026?
Como é óbvio, ficou difícil. Acabei por receber muitas questões em relação ao porquê que eu marquei contra a França.
Estavas no Lille, na altura.
No Lille, onde antes de ir para o Europeu, tinha feito seis meses importantes que me levaram a estar no Campeonato da Europa, era esse o objetivo, onde sou admirado pelos adeptos. Aliás, os adeptos já festejavam, muitos deles levavam luva branca para o estádio e quando eu mostrava a luva branca, festejavam comigo. Mas depois acaba por ser o virar da moeda e acaba por ser totalmente diferente. Em França, um bocado assobiado, normal, mas pelos imigrantes portugueses, muito apoio, muitos imigrantes a assistirem aos jogos, a continuarem a partilhar muito carinho comigo. E depois, quanto à França, é uma França que neste momento está implacável. Acho que ainda não sofreu qualquer golo até agora, ainda agora contra Marrocos sufocou. É uma França que ofensivamente é uma equipa muito forte, com várias armas, jogadores que realmente podem decidir o jogo a qualquer altura.
Parece batota terem tantos.
Parece batota. Iam fazer duas equipas, mas neste momento são a equipa que está em melhor forma. E depois tens jogadores como Mbappé, com uma vontade enorme. Ele que bebeu muito de Cristiano Ronaldo também e já o confirmou. E Olise numa forma fantástica. E depois dizer que isto é futebol, tudo pode acontecer. Portanto, vamos ver, mas é uma França que parece estar a caminhar para o título.
Para essa final e para essa vitória, a não ser que encontre um Éder de uma outra seleção qualquer que marque um golo decisivo, como o teu há 10 anos, no Euro 2016. Éder, nosso convidado neste especial de desporto, no dia em que também ficamos a conhecer Jorge Jesus como selecionador português. Éder, muito obrigado, muitos parabéns e volta sempre. Um abraço.
Obrigado.
Rádio Observador. Desporto.