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Miguel Matias, como é que recorda a antiga procuradora Joana Marques Vidal?
Eu recordo a senhora procuradora, lamento e manifesto os meus sentimentos à família, a toda a gente, por esta morte prematura. E recordo a senhora procuradora, não só a senhora procuradora, mas o seu antecessor, como uma procuradora que conseguiu, ao longo de um processo importante, um processo em que eu defendi algumas vítimas de abusos sexuais de crianças, no processo Casa Pia, a senhora procuradora que nos transmitiu sempre todo o apoio, toda a confiança dentro daquilo que era naturalmente a defesa dos direitos, com quem eu tive mais do que uma reunião, e me apraz a pessoa que manifestava uma sensibilidade e um saber fazer que não é, infelizmente, dos nossos dias. Uma procuradora serena, uma procuradora interventiva, uma procuradora que acompanhava os seus subalternos, diga-se assim, lá nessa hierarquia, e que permitiu, ao longo do tempo, que a magistratura, o Ministério Público, cumprisse as suas funções numa área também em que ela se preocupava muito, que era a área da proteção das crianças e dos menores. Recordo com saudade, recordo naturalmente como uma pessoa que deixou uma marca na nossa sociedade e que infelizmente nos deixa cedo. Uma mulher serena que nunca mais falou e nunca falou sobre algumas questões que poderiam eventualmente tê-la melindrado e que soube aceitar o desempenho do cargo e a saída dele com a mesma elevação.
E é essa descrição também que marca Joana Marques Vidal?
É essa descrição que marca, mas ao mesmo tempo, uma mulher discreta como deve ser a titular máxima do Ministério Público, mas ao mesmo tempo uma pessoa que conseguiu unir a classe, diga-se assim, ou pelo menos pacificá-la, dando e-mails e permitindo que o Ministério Público exercesse as suas funções de uma forma muito próxima. Uma pessoa que saía do gabinete e que tinha preocupação, tinha muita preocupação social no desempenho das suas funções.
Miguel Matias, Joana Marques Vidal fica também marcada pela ligação que teve ao direito da família, como o Miguel Matias dizia há pouco, acompanhou o processo Casa Pia. Foi também importante a marca que Joana Marques Vidal deixou nesta área do direito da família?
Foi muito importante esta sua marca, por uma preocupação grande que teve ao longo do tempo, na defesa dos direitos das mulheres também, na defesa daquilo que eram os direitos das crianças e das vítimas eventuais da prática de crimes violentos, que infelizmente sucedem e cada vez têm sido mais noticiados, e que teve que combater naturalmente alguns poderes instalados e que soube fazê-lo de uma forma muito serena, nessa preocupação de deixar essa marca com as pessoas mais frágeis da sociedade. Deixa muito essa marca.
Miguel Matias, muito obrigado por ter estado em direto conosco nesta emissão especial da Rádio Observador. Boa tarde, obrigado também pela sua reação. Miguel Matias, advogado, que nos ajudou também a olhar um pouco para o percurso de Joana Marques Vidal, que morreu hoje aos 108 anos