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Está conosco Manuel Castelo Branco, filho de Gaspar Castelo Branco, que é o antigo diretor dos Serviços Prisionais que foi assassinado pelas FP-25, da qual Otelo Saraiva de Carvalho fez parte. Bom dia, Manuel Castelo Branco.
Olá, bom dia.
Bom dia. Uma vez que está associado a uma das vítimas destas forças da qual Otelo Saraiva de Carvalho fez parte, como é que olha para Otelo Saraiva de Carvalho?
Deixe-me só aqui comentar as palavras do entrevistado anterior. Eu confesso que estou um bocadinho estupefacto. Estou estupefacto quando alguém refere que o Otelo teve uma ligação ténue com as FP-25. O Otelo foi dirigente e fundador das Forças Populares 25 de Abril, que assassinaram 18 pessoas. Isto tem que ficar claro na cabeça de toda a gente. Portanto, é normal que uma pessoa que quando morre, se tende a enaltecer os seus gestos, os seus atos, eventualmente a sua bondade. Infelizmente, no caso do Otelo, não é assim. Este senhor assassinou 18 pessoas. Vítimas inocentes, um bebê. Um bebê que quando lhe perguntaram para comentar o que ele dizia sobre a morte do Nuno Dionísio, um bebê de quatro meses, morto à bomba em São Mansos, o senhor diz: "Todos os anos morrem milhares de crianças. Isso foi um erro técnico". É esta a sensibilidade de Otelo Saraiva de Carvalho. Eu posso lhe dizer uma coisa mais. Durante muitos anos, eu pensei qual seria o meu sentimento num dia como este. Eu pensei e imaginei que podia ser um sentimento de alegria. Podia ser um sentimento que ia comemorar. Eu não comemoro a morte de ninguém e não comemoro, provavelmente, não faço exatamente aquilo e não terei a alegria, e não tenho a alegria que Otelo teve quando provavelmente soube da morte do meu pai. Otelo esteve na reunião do Conclave com o capuz número sete, está absolutamente escrito e provado, onde se decidiu a morte do meu pai e de uma série de outras pessoas que felizmente não vieram a acontecer, nomeadamente o juiz Martinho Almeida Cruz e a procuradora Cândida Almeida. Nada disto, felizmente, veio a acontecer. O meu pai foi a única dessas vítimas de que o assassinato acabou por ser executado. Agora, hoje não é um dia de alegria para mim, é um dia de sofrimento, mas é também um dia de alívio. É um dia em que se encerra mais um capítulo, um capítulo de uma história de dor e sofrimento. Hoje, para mim, morreu o assassino do meu pai.
Manuel Castelo Branco.
E é assim que ele tem que ser recordado. Não é com este branqueamento que o Paulo Moura aqui tentou fazer. Isso é de uma desonestidade intelectual e de uma insensibilidade monumental.
Portanto, Manuel Castelo Branco, aqui também uma dor que não tem.
Mas deixe-me dizer-lhe outra coisa. Eu, por acaso, agora recentemente, recebi alguns comentários de uma série de outras vítimas. E posso lhe dizer que a unanimidade não é de alegria. Ninguém anda aqui a rejubilar e a lembrar-se e ficar todo contente com a morte de uma pessoa, mas é garantidamente para muita desta gente, mais um alívio. É um capítulo que se encerra, porque é um capítulo que se encerra.
Um capítulo que se encerra, Manuel Castelo Branco, porque talvez nunca reconheceram ou Otelo Saraiva de Carvalho nunca reconheceu a responsabilidade por essas mortes.
O Otelo pode não ter reconhecido, mas os factos foram provados. Foram provados em tribunal, onde foi primeiro condenado a 15 anos de prisão, depois o Supremo reconfirmou essa pena, elevou-o a 17 anos de prisão e depois foram anistiados. Portanto, não há dúvidas nenhumas sobre o papel de Otelo Saraiva de Carvalho nas Forças Populares 25 de Abril. De dirigente, não era apenas um mentor ideológico. Era dirigente. E também é falso aquilo que o Paulo Moura acabou de dizer, que ele não tinha partido. Otelo foi fundador da Força de Unidade Popular e da UT, portanto, e claramente tinha uma ideologia, e uma ideologia de extrema-esquerda, que hoje nenhum partido em Portugal sequer defende. Portanto, tudo isto são branqueamentos que eu acho inenarráveis. Mas volto lhe a dizer, é bom que seja recordado o seu papel na história. E o seu papel na história de Otelo terá sido no 25 de Abril, terá sido como líder do COPCON e terá sido como líder e fundador das Forças Populares 25 de Abril.
E essa presença nas FP-25 que mancharam um bocadinho o percurso de Otelo Saraiva de Carvalho. Manuel Castelo Branco, eu pergunto-lhe se ainda assim, tendo em conta também o papel do Coronel Otelo Saraiva de Carvalho na Revolução de 74, não lhe consegue reconhecer partes boas.
Ouça, eu tenho de analisar para uma pessoa, eu tenho de analisar para a globalidade. Eu não lhe posso truncar a história. Eu não lhe posso truncar aquilo que ele fez de bem e esquecer aquilo que ele fez de mal. E, portanto, é bom que nos lembremos que se a violência armada é compreensível em ditadura, é completamente criticável em democracia. As FP-25 nasceram em 1980. O PSD, o CDS, o PPM, o PS já tinham todos alternado no poder. Não havia adversativa possível para a violência que este senhor promoveu e da qual foi fundador.
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