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Temos em direto ao telefone o antigo bastonário da Ordem dos Advogados, Rogério Alves. Muito boa tarde, doutor Rogério Alves, e obrigado por estar em direto conosco para comentar esta notícia que acabamos também todos de saber e que nos apanha um pouco a todos também de surpresa. Rogério Alves, como é que recorda Joana Marques Vidal?
Olha, em primeiro lugar, eu quero enviar à sua família as condolências. Estou um bocadinho chocado porque conhecia a doutora Joana Marques Vidal há bastantes anos. Tínhamos uma relação relativamente intermitente, mas conhecia no exercício de várias funções, inclusivamente chegámos a encontrar-nos nos Açores e ainda há relativamente pouco tempo lhe tinha veiculado um convite de uma entidade que gostaria de a ter como oradora num determinado evento e ela sempre com a sua simpatia, sempre com a sua enorme disponibilidade, trocamos algumas impressões, ainda que leves, sobre a situação atual. E portanto, eu recordo-a como uma magistrada muito competente, uma pessoa muito simpática, muito afável, fazia coexistir qualidades pessoais com qualidades profissionais, muito disponível para o diálogo, para a troca de impressões, para a troca de ideias, mesmo quando não estávamos de acordo. Portanto, guardo dela essa imagem de uma pessoa muito simpática, muito cordial, capaz de desempenhar excelentes papéis nos locais por onde passou e fico realmente perplexo com esta notícia. Enfim, nós sabemos que isto é o desfecho natural de todos os seres humanos, mas é uma notícia realmente brusca que me apanha totalmente de surpresa. Penso que a justiça portuguesa vai saber homenagear a doutora Joana Marques Vidal, nomeadamente até por esta última fase da sua carreira, onde foi mais conhecida como Procuradora-Geral da República, na qual aliás, desempenhou, na minha opinião, um papel muito positivo. Na altura, até quando se discutia se a doutora Joana Marques Vidal deveria ou não ser reconduzida, eu, que entendo que há outras pessoas e haveria outras pessoas, evidentemente, com capacidade para o cargo, disse na altura que, pela minha parte, entendia que ela deveria ser reconduzida, porque acho que ela estava a tentar transformar o Ministério Público de molde a que agisse na sociedade portuguesa de uma forma cada vez mais compreensível, mais capaz. Mas independentemente de tudo isso, recordo-a como uma pessoa com quem tenho uma relação muito cordial, uma espécie de amigo social do mesmo ofício, eu como advogado, doutora Joana Marques Vidal como procuradora, e lamento muito o que aconteceu.
Rogério Alves, sabemos que a saída de Joana Marques Vidal do cargo de Procuradora-Geral da República não foi algo que tenha acontecido de uma forma muito pacífica. Aquilo que eu lhe queria perguntar é do mandato de Joana Marques Vidal enquanto Procuradora-Geral da República, que momentos é que recorda e de que forma é que recorda a figura de Joana Marques Vidal também enquanto procuradora e Procuradora-Geral da República?
Acima de tudo, recordo-a muito como uma pessoa independente, uma pessoa muito estimada pelas procuradoras e procuradores, uma pessoa cuja ação, do meu ponto de vista, tornou o Ministério Público mais interveniente e mais capaz de cumprir as missões, nomeadamente no plano penal, que é aquele onde é mais conhecido, tornou capaz de cumprir de uma forma mais cabal, mais visível, mais dissuasora para a sociedade e, portanto, era uma boa líder para aquele corpo de magistrados. Obviamente que não estive sempre de acordo com a doutora Joana Marques Vidal, não estive sempre de acordo com as suas opções, mas reconheço, como penso que a generalidade das pessoas reconhecerá, que teve um papel carismático, um papel afirmativo e que prestigiou o Ministério Público aos olhos da sociedade portuguesa e que lhe deu créditos de eficácia, de eficiência, de independência, que me parece que são um valor para o regime democrático.
O caso de José Sócrates ficará marcado e será uma ligação que existirá para sempre para o mandato de Joana Marques Vidal.
É verdade, pois há casos marcantes que ao longo do itinerário da nossa história, da nossa passagem por este mundo e pelas funções que vamos desenvolvendo, nos marcam mais. Mas eu não queria agora entrar no detalhe do caso. Foi um sinal muito evidente de que, para o exterior, independentemente da avaliação que se faça, das condições em que foi pedida a prisão preventiva, etc. Foi um sinal de que havia uma vontade de não deixar ficar impune nenhum comportamento, mesmo que ele fosse praticado, alegadamente, por pessoas com responsabilidades políticas. Nesse aspecto, foi um sinal exterior de vigor, mas como digo, independentemente de estar mais ou menos de acordo com isso, acho que a liderança carismática que a doutora Joana Marques Vidal empreendeu no Ministério Público fica com uma marca muito positiva do seu mandato e um sinal claro que na altura foi transmitido à sociedade portuguesa e no qual ela, com o seu protagonismo, teve, obviamente, os créditos que lhe devem ser atribuídos.
Muito obrigado, Rogério Alves, antigo bastonário da Ordem dos Advogados, numa primeira reação à morte de Joana Marques Vidal, a antiga Procuradora-Geral da República