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Contamos agora, em direto neste jornal das 8, com Paula Teixeira da Cruz, que foi ministra da Justiça do governo de Passos Coelho, na mesma altura em que Joana Marques Vidal exercia o cargo de Procuradora-Geral da República. Paula Teixeira da Cruz, boa tarde. Agradeço desde já a sua disponibilidade. Pergunto-lhe como é que recebeu esta notícia e como é que foi a experiência de trabalhar de perto com Joana Marques Vidal.

Em primeiro lugar, naturalmente, com profunda tristeza e que lhe seja permitida uma palavra de conforto, a primeiríssima palavra, para a família e os amigos de Joana Marques Vidal. Eu creio que Joana Marques Vidal era um exemplo e de certa forma o país estará de luto pelo exemplo sublime que ela foi. Ela foi um exemplo na sua dimensão humana, cívica e profissional. Do ponto de vista humano, era uma pessoa profundamente independente, uma pessoa muito corajosa, uma pessoa muito generosa e muito empenhada. Do ponto de vista cívico, a forma como exerceu o seu mandato enquanto Procuradora-Geral, eu penso que fala por si, mas não se limitou nunca a isso. Ela foi para além do Judiciário, teve uma militância conhecida na APAV e foi também uma sindicalista notável, emérita. Por outro lado, do ponto de vista profissional, não há como não reconhecer em Joana Marques Vidal uma imensa capacidade e uma imensa consistência técnica em áreas particularmente difíceis, sobretudo em áreas como família e menores.

A Joana Marques Vidal foi apontada por várias personalidades como uma procuradora que exerceu o mandato querendo mudar o que era de facto necessário no Ministério Público. Concorda que Joana Marques Vidal era uma Procuradora-Geral que não tinha medo da mudança?

Não só não tinha medo da mudança, como a impulsionava. E eu tive o privilégio de trabalhar com ela nesse sentido, sempre pugnando por uma autonomia material e não apenas formal do Ministério Público, por uma autonomia que o Ministério Público deve manter e preservar, não a confundindo em nenhum caso com outros princípios e, portanto, buscando essa autonomia a par de uma imensa responsabilidade. Foi alguém muito esforçado e que deu passos fortes nesse sentido.

Joana Marques Vidal teve em mãos vários processos mediáticos que deram em acusações. Falamos, por exemplo, da Operação Marquês, da Operação Fizz, os Vistos Gold, a Operação Atlântico. Que diferenças encontra entre a forma como o Ministério Público atuava nessa altura em relação ao presente?

Eu gostaria que estas minhas declarações, e peço que compreenda, fiquem cingidas, sobretudo, à figura ímpar de Joana Marques Vidal. Não gostaria de fazer comparações, e muito menos comparações que, de certa forma, nos atiram para uma comparação inevitavelmente pessoal. Permita-me que diga apenas que entre o mandato de Joana Marques Vidal e o mandato da atual titular do cargo de Procuradora-Geral da República, existe algo absolutamente determinante, que é a alteração, ou as alterações feitas ao Estatuto do Ministério Público em 2019. É aí que reside muita da disfunção que hoje encontramos em algumas atuações do Ministério Público. Isso não pode, todavia, servir de desculpa, em caso algum, para beliscar a autonomia do Ministério Público. Nós podemos viver com o Ministério Público com erros, mas não podemos viver com o Ministério Público politicamente amordaçado.