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Vamos ouvir agora o discurso de Jorge Moreira da Silva, que fala ao Congresso.

Que o partido deve muito a Rui Rio, teve um comportamento importante como estadista, numa altura em que teria sido mais fácil fazer coro com os populistas. Eu quero dirigir uma palavra especial ao Luís Montenegro. Nós somos amigos há muitos anos. O Luís ontem sublinhou a campanha-

Durante este discurso de Jorge Moreira da Silva, estava a entrar na sala Carlos Moedas, que cumprimentou Luís Montenegro e se sentou muito perto dele. Vamos continuar a ouvir o discurso.

Muitas conversas que tivemos nos últimos dias e felicitá-lo pelo discurso marcante que ontem realizou na abertura deste congresso. Este discurso é o discurso mais difícil da minha vida, como imaginam. Eu já participei em congressos durante muitos anos. Recordo, neste Palácio de Cristal, o congresso de 1992, onde fizemos a atualização das nossas linhas programáticas. O discurso de um candidato derrotado no congresso seguinte é sempre um discurso difícil, porque é sempre lido à lupa.

É agora muito aplaudido Jorge Moreira da Silva.

Os dois, Luís, sabem disso, o Paulo também sabe disso e outros. O Miguel também sabe disso. É um discurso difícil porque vai ser lido à lupa por aquilo que é insinuado, por aquilo que é deixado no ar de uma forma enigmática, por um certo risco de acerto de contas, pelo aplaudômetro. Nós sabemos que esse é sempre um discurso difícil. Portanto, eu vou fazer um discurso que eu procurarei que seja simples, que seja avaliado apenas pela clareza das minhas intenções e por uma palavra que eu tenho que dar ao partido de justificação. Eu não venho aqui apresentar propostas. Já fiz o que tinha a fazer. Eu venho aqui dar uma justificação ao partido e quero fazê-lo, em primeiro lugar, aos militantes, e não quis fazer à comunicação social. E depois do que disser hoje, não vou, aliás, andar pelos platôs das televisões, como tive a oportunidade de transmitir. Os olhos estão colocados em nós, no Luís, mas estão colocados também em todos nós, nos autarcas de freguesia, nos presidentes de câmara como Carlos, nos deputados, nos militantes de base. Os olhos estão colocados em nós e estão colocados em nós por uma razão muito prática, porque nós vivemos um momento único e as expectativas que sobre o PSD recaem são enormes. No meio da maior crise global dos últimos setenta anos, estamos entregues a um governo que não sabe para onde vai, nem para onde nos leva e está capturado pelos interesses pessoais e partidários dos seus membros. Um primeiro-ministro, não se enganem, um primeiro-ministro a pensar num cargo em Bruxelas e meia dúzia de ministros mais mobilizados pela corrida ao lugar do primeiro-ministro e do líder do Partido Socialista do que na resolução dos problemas dos portugueses. A um governo de gestão, seis anos de governo de gestão, que nem aproveitou os resultados das reformas estruturais que lhes deixamos em 2016, nem os ventos de cauda favoráveis que sopraram no plano internacional de 2016 a 2020 para reformar o país e nos preparar para os choques externos, sucede-se agora um governo em estado de desagregação acelerada. Neste contexto, o PSD tem de estar à altura das suas responsabilidades históricas. Nós nunca falhamos a Portugal. Nos momentos-

Mais uma vez aplaudido, Jorge Moreira da Silva está a discursar no Congresso do PSD.

Nos momentos mais difíceis dos últimos quarenta e oito anos, foi sempre o PSD a recuperar Portugal. Ora, insisto, no meio da maior crise global dos últimos setenta anos, nós não nos podemos limitar a esperar. A esperar que o governo falhe ou que o tempo nos dê razão. Nós temos de ser mais do que oposição. Nós temos de ser a alternativa de esperança que Portugal precisa e que Portugal merece. A alternativa que reconquista o direito ao futuro de todos os portugueses. E é por isso que considero decisivo que, ainda que as eleições legislativas estejam previstas apenas para 2026, que o PSD se prepare de imediato com uma nova geração de políticas e de reformas capazes de colocar Portugal, em 2030, no topo dos indicadores de desenvolvimento sustentável, e hoje estamos na posição 27ª, no topo dos indicadores de desenvolvimento humano, e hoje estamos na posição 38ª, no topo dos indicadores de bem-estar social, e hoje estamos na posição 31ª e acima da média da UE Europeia no PIB per capita e hoje estamos, como o Luís ontem dizia, na 22ª posição. Uma sequência vitoriosa em todas as eleições previstas para os próximos quatro anos pressupõe verdade e inconformismo no diagnóstico, inovação e reformismo nas soluções que apresentaremos, integridade e credibilidade dos nossos protagonistas, mas pressupõe também uma dimensão prévia, o espírito de unidade e de compromisso no partido, para o qual todos temos obrigação de contribuir. Ora, com a responsabilidade acrescida de ter sido candidato derrotado, de uma forma expressiva, à liderança do partido, quero assegurar ao Luís Montenegro que da minha parte, e estou certo da parte de todos aqueles que me apoiaram e a quem quero agradecer de uma forma muito sensibilizado, todas as condições de unidade e de estabilidade que são essenciais para o cumprimento do seu mandato com os resultados eleitorais que todos queremos alcançar. Mas a unidade não pode significar unanimismo, pensamento único, cinismo ou terraplanagem das diferenças programáticas. Este é o PSD. Este não é um partido de pensamento único. Eu, para isso, não estou disponível e estou certo que o Luís também dispensa bem esse tipo de presente envenenado.

Mais um aplauso para Jorge Moreira da Silva no Congresso do PSD.

Antes de explicar melhor o contributo que procurarei dar, até porque andei durante as últimas semanas a pensar nisto, não é uma decisão fácil porque não haverá uma boa resposta para a pergunta que me é colocada: como é que eu vou contribuir para a unidade. Eu custava de recordar aquilo que aconteceu, porque é importante ter isso em atenção para que se perceba o tipo de contributo que posso dar. Nas eleições de 28 de maio, nós tivemos dois candidatos que, apesar de terem uma estima pessoal e até amizade, que não é muito habitual entre candidatos à liderança do partido nos últimos anos, tiveram, apesar de tudo, diferenças profundas. No percurso, no perfil, nas propostas, na forma de fazer política, nós somos diferentes, temos um respeito enorme um pelo outro, amizade, mas há uma diferença grande. E, portanto, quando eu em abril decidi mudar de vida, demitir-me de diretor-geral da OCDE, só para poder candidatar-me à liderança do partido, sabendo que as possibilidades eram pequenas, eu não ando, obviamente, distraído. Tinha noção que as minhas condições não eram as mais favoráveis. Senti que eu tinha de fazer, não por qualquer tipo de divergência pessoal com o Luís ou de ressentimento, pelo contrário, porque já perceberam que nós temos uma estima pessoal, mas porque achava que não se pode andar a vida toda a pensar o país e depois guardar as ideias no bolso à espera que convenientemente nos venham chamar a casa. Isso não existe em política. E, portanto, humildemente, considerei, como militante do partido-

Companheiro, não quero interrompê-lo, mas tem de abreviar. Peço desculpa, está bem? Muito obrigado.

Vou abreviar. Eu esperava o mesmo tipo de tolerância que é habitual neste tipo de intervenções com os candidatos derrotados no Congresso.

Muito aplaudido, Jorge Moreira da Silva, depois de responder ao presidente da mesa do Congresso.

Ante a situação inequívoca do Congresso, terá toda a tolerância, evidentemente. Eu prometo que não os vou amaçar, mas acho que deveria dar esta justificação. Portanto, eu entendi encarar essa disputa porque tinha, na minha opinião, de apresentar um programa de rutura para o PSD e para Portugal. Considerava que Portugal enfrentava uma tempestade perfeita, o mundo a mudar com uma velocidade estonteante, os seis choques sucessivos que enfrentamos nos últimos anos, a crise da biodiversidade e das alterações climáticas, dos refugiados, a pandemia, a inflação e agora a guerra na Ucrânia, um país que não se atualizou e que não se reformou e que, pior do que isso, não pôde contar com o potencial transformador do PSD. E considerava e considero que a circunstância de termos governado apenas sete dos últimos 27 anos era reveladora de um problema estrutural e não conjuntural no PSD. Se os partidos não mudam, as pessoas mudam de partido. Se não há partido para onde mudar, fazem-se novos partidos. E se nem assim as coisas funcionam, as pessoas deixam de votar. E não nos podemos conformar com a circunstância de apenas 17% dos portugueses confiarem nos partidos. Tendo por base este diagnóstico, que estou certo é um diagnóstico semelhante ao que o Luís fez quando também tomou a decisão de se candidatar, nesse ato de generosidade que é sempre importante, um país com tudo para vencer, mas tragicamente adiado, um partido que não tinha um problema de identidade, mas um problema de modernidade, eu disse de forma clara ao que ia e isso acho que facilitou a escolha dos militantes. Deram uma vitória expressiva ao Luís e eu acho que contribuí Com propostas claras para que as pessoas pudessem fazer escolhas. E perdi. Defendi a refundação programática do PSD. E perdi. Defendi a interdição de qualquer tipo de diálogo ou negociação, acordo com forças populistas, extremistas, xenófobas e racistas. E perdi. E acreditem, eu não tenho nenhuma obsessão com o Chega. Eu tenho uma obsessão com a qualidade da democracia portuguesa e com a necessidade do PSD crescer e ter uma maioria absoluta em Portugal.

Para o facto de ter sido contra acordos com o Chega durante a campanha interna às eleições direitas do PSD.

Que nos transformasse num partido de movimento orientado por causas, um partido de militantes, mas também de eleitores, com uma nova organização interna. Mas é a vida, perdi. Defendi uma nova forma de fazer oposição com um governo-sombra e perdi. E defendi que estando Portugal a viver a crédito do planeta e dos nossos filhos, com um modelo de desenvolvimento insustentável, inviável, que nos confisca o direito ao futuro, que era imperioso liderar já uma vaga de reformas em torno de quatro metas, 17 objetivos e 13 missões, mas este plano não foi sufragado. Por que eu estou a dizer isto? E estou a terminar. Porque sendo tão grandes as diferenças no plano programático, mas inexistente qualquer diferença no plano do relacionamento pessoal, era para mim essencial que o esforço de unidade fosse genuíno e que não fosse feito à custa da integridade e da autonomia do pensamento. Por isso, apesar da enorme simpatia do Luís Montenegro, quero aqui sublinhar que me desafiou para várias funções nos últimos dias, e só estou a revelar isso porque isto funciona a seu crédito, nunca se revela um convite em público. Mas eu só estou a fazer isto porque isto é a seu crédito, apesar deste gesto de simpatia e de generosidade, eu entendi que, no melhor interesse do partido, era preferível não integrar as listas, porque eu gosto de coisas claras e essa integração não daria um bom contributo ao partido e colocaria em dúvida a integridade dos projetos e das ideias. Mas porque a unidade é essencial, decidi dar o meu contributo para a unidade e para a estabilidade de uma outra forma. Não encabeçarei, como é habitual, qualquer lista própria ao Conselho Nacional, nem patrocinarei listas de pessoas que me tenham apoiado. Eu não sou líder de fação e quem me apoiou não será oposição. Transmiti ao Luís Montenegro a minha liberdade.

Uma informação que também já tinha defendido quando perdeu as eleições direitas. Jorge Moreira da Silva disse que não ia aceitar cargos e está a confirmar essa promessa agora.

Dar o meu contributo nas reflexões, nas discussões, nas atividades do partido, a nível nacional, a nível regional, a nível distrital e a nível local. Nós saímos deste congresso unidos, mas não saímos todos a pensar o mesmo. Este é o PSD. Quero concluir, meus caros amigos, para vos dizer o seguinte: já me conhecem. Eu tenho 51 anos, já me conhecem pelo menos desde os 17. Ninguém duvida do meu espírito de comprometimento com o partido. Ninguém muda a vida de um dia para o outro como eu fiz, se não tivesse um amor ao partido e ao país que estivesse acima de todas as conveniências. Ninguém tem dúvidas que eu estou, portanto, convocado. Nós estamos todos convocados e eu sinto-me convocado para esta jornada. Luís, boa sorte, muito êxito, podes contar comigo. Viva o PSD, viva Portugal.