Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Se calhar vou falar muitas vezes, mas é do Manuel de Novas, porque para mim as músicas dele são poesias musicadas. As mornas mais lindas que ele fez. Ele era imigrante, trabalhava nos bares, como muitos caboverdianos, e um folclore.
Manuel de Novas é um dos grandes compositores da morna, a mais emblemática música de Cabo Verde. Morreu em 2009.
A maior parte das músicas, enquanto trabalhava, ele fazia no tempo de pausa no barco, a andar em crioula, "de riba d'água di mar". "De riba d'água", em cima da água do mar, que ele gravava em cassetes.
Querida, se algum dia vou voltar.
Estamos no barco com Manuel de Novas, ao largo da Holanda. Estamos na sala de Admiro Almeida, num prédio discreto da Amadora. Admiro Almeida é o nosso guia para a morna.
A escada é por aqui, não é?
Sim, pode ser. É onde estivermos mais confortáveis.
Aqui, se calhar. Sim, preto a preto. A morna apanha o universo de todos os caboverdianos, preenche o universo de todos os caboverdianos, que eram os da Praia, de São Vicente, da Sal, do Mindelo. Todos têm essa morna em comum.
Admiro Almeida é caboverdiano, imigrante há 45 anos, cozinheiro e filho de Bana, o músico conhecido como o Rei da Morna. Morreu em 2013.
Principalmente, a gente sente mais quando está no estrangeiro. Uma pessoa que está no estrangeiro, ouve aquela melodia, puxa-nos ao sentimento e a morna fala de quê?
Saudade de bom tem cheiro.
De amor, de saudades da terra, das coisas da terra, que uma pessoa que está fora, como o caboverdiano é muito nostálgico. Eu vivo cá há 45 anos. Pode ser que nunca vá viver em Cabo Verde, mas não há um caboverdiano, quase, a viver na diáspora, que não tenha, no fundo, sempre esta esperança de um dia, como costumamos dizer: "Vou morrer na minha terra". É a nostalgia do ritmo. Quase que é obrigatório ser letras desse gênero. Para além da saudade, amores não correspondidos, amores atormentados, amor da terra.
É o amor dramático, normalmente é um pouco como o fado. O fado é dramático, é triste, é saudade.
Cabo Verde, que rocha no mar. Se não me liga, está na sua.
Sempre tem essa nostalgia.
Ela espalhou-se por todo o arquipélago através dos navios.
Ao telefone temos Gabriel Moacir Rodrigues. É nomusicólogo especializado na morna. A qualidade da chamada não é a melhor.
O que o homem não ouviu, além de ser marinheiro, era tocador de viola.
Gabriel Moacir Rodrigues é a referência no estudo acadêmico da morna. Portanto, insisto em passar uma história que me contou, mesmo com problemas de som.
O primeiro-ministro de Cabo Verde estava num encontro internacional.
Um primeiro-ministro de Cabo Verde estava reunido com outros chefes de Estado. A certa altura, um político europeu pergunta-lhe:
"Onde é que fica Cabo Verde?"
"Onde é que fica Cabo Verde?" E o primeiro-ministro ainda tenta localizar as 10 ilhas ao largo do continente africano, mas depois desiste e diz só:
Diz: "É a terra da Cesária. A senhora identificou-se bem."
É a terra de Cesária Évora, a mais conhecida artista de Cabo Verde, a deusa da morna, que morreu em 2011.
Lá nasceu bo é uma estrela, ki ka ta brilha. Linha mar, bo é um areia, ki ka ta moia. Espaió desse mundu fora, só bati má. Terra pouca e di amor.
A morna é a mais conhecida no mundo, mais divulgada, quer queiramos, quer não, temos uma cara que é a cara da morna no mundo, que é a Cesária Évora. Andou pelo mundo todo e foi, desculpe lá o termo, um produto muito bem divulgado, muito bem vendido, que nos ajudou imenso. Embora, ela que me desculpe e as outras pessoas que me desculpem, é a carne, não é a alma. Podem me chamar o que quiserem, mas a alma é o Bana.
Bana, o pai de Admiro Almeida, que estamos a ouvir neste momento, publicou mais de 50 álbuns e EPs numa carreira que ultrapassa os 60 anos.
A Cesária é a cara, porque é aquela que através de Dela que todo mundo passou a interessar-se, a conhecer a morna. Isso falando com os portugueses, falando com os estrangeiros. Mas vai ouvir o povo da rua, o povo das ilhas, como a gente costuma dizer. Qualquer caboverdiano, o Bano é conhecido por esta alma que ele transmite, que ele põe nas interpretações da morna. Não é conhecido, nunca teve essa projeção internacional.
É justo dizer que se criou uma imagem de absoluto domínio da morna, que é quase redutora para o resto dos gêneros musicais que saem de Cabo Verde?
Digamos que enquanto a morna, daí o valor universal, expressa o sentimento, o sentir, o viver de todos os caboverdianos, as outras músicas são mais localizadas. O funaná temos que ligar à Praia, à cidade da Praia, daquele povo. O batuque também, localizado daquele povo. Mazurka, de Santo Antão, daquelas pessoas do trapiche, da colheita, dos campos, das roças, dessas coisas todas enormes que há em Santo Antão, que não há em São Vicente, com outras coisas que há na Praia que não há em São Vicente, outros hábitos de ser, de vestir. Mas a morna, por daí ser mais conhecida-
Porque é mais internacional
...e como diz, injustamente abafa os outros gêneros musicais.
Neste momento, eu não vejo, enquanto técnica da área, o perigo da morna acabar por levar a que os outros ritmos sejam esquecidos.
Ouvimos Sandra Mascarenhas, diretora de patrimônio imaterial no Instituto de Patrimônio Cultural de Cabo Verde.
Até porque esses gêneros estão bem vivos neste momento. Se calhar até em certos quadrantes, ou seja, em certos meios, nós vamos encontrar mais esses ritmos presentes do que a morna propriamente. Aqui também não se pode falar que um gênero seja mais importante que o outro. Quando nós falamos na morna, eu tenho a impressão que digamos que a morna seja o nosso clássico. A música clássica do cabo-verdiano.
Há mornas felizes?
Há, muito felizes. Sabe que o Belem muitas vezes, havia muitos iletrados naquela altura e sabendo da capacidade dele pra fazer versos, há homens que iam explicar a situação pra ele fazer uns versos pra namorada. Está a ver?
Não podemos falar de morna sem falar de Beleza. Francisco Xavier da Cruz, o pai da morna moderna, morreu em 1958. É uma composição dele que ouvimos neste momento, em nome dele, que ainda hoje há uma discoteca Beleza em Lisboa.
Começa na escola a estudar. Os colegas são quase todos portugueses. Vai pra universidade, os colegas são quase todos portugueses.
Admiro Almeida, de novo.
Adquirem mais hábitos do jovem português do que realmente do pai africano. O que a morna nos diz, pra eles é diferente.
Eles, os filhos de imigrantes cabo-verdianos nascidos em Portugal.
É outro sentimento. Muitas vezes até nem ligam. Uma pessoa está aqui, estou a tocar, eu tenho uma filha de 15 anos, às vezes se interessa, às vezes estou a cantar: "Cala, pai, cala com isso". Eu tenho insistido, mas não tem nada a ver. Isso dependendo dos hábitos também que adquiram nas circunstâncias. Como eu disse há bocado, um homem é ele mais as circunstâncias de onde vive, de onde vem, com quem vive, isso também influencia mais.
Há a questão geracional e de ter o contexto português sempre. Pra quem nasceu em Cabo Verde e depois emigrou, a morna é mais importante do que pra quem nasceu em Cabo Verde e sempre viveu em Cabo Verde.
Ganha um valor acrescentado.
De saudade.
Ganha um valor acrescentado que é aquele de estar longe da terra e precisar de Antigamente era preciso receber uma carta. Agora não, agora estamos todos mais próximos. Mas quando se recebia uma carta a contar as coisas da terra, ficavam contentes. Era uma ligação de longe. Eu me lembro, até em 77, eu já vivia cá em Portugal. Vim em 75, já vivia cá, mas fui estudar pra Bélgica. Mesmo em 77, cada vez que saía um disco novo, não só do meu pai, de um outro artista, mandava-me uma cassete.
Quando o mundo novo conquiste, na portão de Nozilhá, pra morte quem fogu sem palhá. Na ladeira sem cimbru, tudo mais, cheio de filhos e história.
Imagina, o meu pai não podia ouvir um tema do Lobo com os Tubarões, que era o Portão de Nozilhá, e como estava achugado ao-
Fala Dino d'Santiago, filho de cabo-verdianos e músico no cruzamento de morna, batuque e funaná com R&B e pop eletrónica.
E eu percebo a intensidade que a morna e as mensagens da morna têm pro meu pai, são profundas, porque ele é obrigado a sair do seu país em busca de um futuro melhor.
Acabei por ter esta conversa ao telefone, por uma confusão de agenda que me deixou a meio caminho do Tivoli antes de voltar pra redação. Mas acho que vale a pena na mesma, porque Dino d'Santiago é um dos grandes símbolos da nova música cabo-verdiana na Europa.
Chega a Portugal em 72, vai pra Simões, era recolher obrigatório e ficava numa igreja porque corria um risco de serem espancados, de muitos serem mortos. Era um período muito difícil ainda. Ser negro não era tão fácil. E foram revelações que meu pai só me fez, eu já tinha quase 20 anos, porque ele nunca quis que eu crescesse com essa revolta. E então eu sei que quando eu ouço uma morna, as mensagens são muito de dor. E de saudade também, porque eu tive que deixar de ser criança muito cedo. Então eu já ouço morna com uma nostalgia, com uma calma e uma paz de espírito que me foi permitida graças ao sacrifício dos meus pais.
É mais doce pra ti.
Sim, pra mim é bem mais doce. É tipo rever a história de Cabo Verde pelas histórias que são transmitidas na morna, mas eu não sinto dor, eu sinto simplesmente uma nostalgia de um sítio que pertence aos meus pais.
Por acaso, ontem ou anteontem, eu vou repetir outra vez, que eu sei que pra mim são dos maiores, um de Cabo Verde, outro de Portugal. Teve um dueto que eu já me tinha esquecido, de um espetáculo do Bana com Carlos do Carmo.
Vocês cantaram juntos?
Aquilo rapia. Não sei se existe, não sei. Não faz mal eu sair, não é? É gravação.
Não, à vontade.
Não é filmagem. Se eu tiver aqui logo à frente, eu mostro-lhe uma coisa.
Claro.
Ouve só um bocadinho e vai perceber a alma.
E eu termino este jornal de domingo no palco do Coliseu de Lisboa, num dueto entre Carlos do Carmo e o Bana. Carlos do Carmo é um dos principais nomes do fado. Esta semana despediu-se dos palcos depois de uma carreira com mais de 60 anos a cantar o fado. Um grande amigo de Cabo Verde e um grande impulsionador da morna, a patrimônio da humanidade, tal qual o fado. Boa noite, até pra semana.
Já de léu demais, é o cujos nunca desafinou. Até morrer, nunca desafinou.
Onda sagrada do Tejo. Deixa-me beijar as tuas águas. Deixa-me dar-te um beijo, um beijo de mágoa, um beijo de saudade, para levar ao mar e o mar à minha terra. Anda, Gabião.
Na tua onda cristalina, deixa-me dar-te um beijo. Na tua boca de menina, deixa-me dar-te um beijo, ó Tejo. Um beijo de mágoa, um beijo de saudade, pra te levar ao mar, ao mar, levar à terra.
Na tua onda cristalina, deixa-me dar-te um beijo. Na tua boca de menina, deixa-me dar-te um beijo, ó Tejo. Um beijo de mágoa, um beijo de saudade, para levares ao mar e o mar à minha terra.
Minha terra é aquele pequenino. É Cabo Verde, terra minha. Aquele que no mar parece criança, é filho de céu, é filho de oceano. Terra minha mãe, terra minha pequena.
Minha terra é aquela pequenina. É São Vicente, terra minha.