Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Tudo pronto para mais um encontro com a beleza, com o Martim Sousa Tavares. Olá, Martim.
Olá, Nelson.
Bem-vindo.
Olá.
Está aqui o Bruno Vieira Amaral também connosco.
Estava a ver que estava aqui uma cena muito íntima. Deixa lá, também estou aqui.
Não está. O Martim, no encontro com a beleza de hoje, propõe-nos uma viagem a 15 de janeiro de 1941.
É verdade, e está frio, meus amigos, está muito frio. Estamos em Zgorzelec, que é precisamente na fronteira entre a Polónia e a Alemanha, temperaturas abaixo de zero. Daqui a duas semanas vai-se registar uma temperatura record de 20 °C abaixo de zero. E onde é que estamos? Estamos no campo de concentração, que na verdade não é bem campo de concentração, é um campo de prisioneiros de guerra, Stalag VIII-A. Portanto, estamos em plena Segunda Guerra Mundial, estamos do lado alemão. Falar da fronteira entre a Polónia e a Alemanha nesta altura não faz muito sentido, é um pouco tudo a mesma coisa, mas do lado alemão, são duas cidades que ainda hoje existem, separadas pelo rio Neisse. Do lado alemão fica a cidade de Görlitz e do lado polaco fica Zgorzelec. Em 1941, no entanto, era tudo nazi. E aqui, neste campo, vamos encontrar o jovem Olivier Messiaen, que é compositor e que tinha na altura 31 anos, que foi recrutado para o exército francês, mas como via muito mal ao longe, a sorte dele, foi destacado para-
Era isso ou ter pé chato, não é?
Era, basicamente, ou pé de atleta, uma coisa assim. Foi destacado para apoio médico, porque era míope, mas coitado, foi capturado ao fim de sete meses de guerra, portanto isto passa-se tudo ainda no início do teatro de guerra, e é enviado para trás das linhas de combate e ali o encontramos no campo Stalag VIII-A. Este era um campo, eu vou dizer isto entre muitas aspas, um campo privilegiado, onde estavam intelectuais, onde estavam prisioneiros de guerra. Não é um campo de extermínio, por isso é que eu há bocado disse campo de concentração e corrigi. Isto ainda não tem que ver com a solução final, não é um campo onde está a acontecer o Holocausto, mas também não é um hotel cinco estrelas, como calculamos.
O senhor é judeu?
Ele não é judeu, ele na verdade é cristão, até fervoroso, foi organista de igreja toda a sua vida. Mas isto para dizer que onde ele estava era possível fazer aquilo que já vamos ver que ele fez, que é o seguinte: havia, como ele, vários músicos que foram ali parar, que tinham sido recrutados e que por várias curvas da vida foram colegas dele, e foi até possível fazer entre prisioneiros um crowdfunding para comprar um violoncelo, por exemplo. Portanto, estamos muito longe de Auschwitz e dessas realidades que conhecemos.
Em comparação, estamos mesmo a falar de um hotel de cinco estrelas.
Sim, por isso é que eu dizia, entre muitas aspas, privilegiado. Claro que os piores horrores vão acontecer nos últimos anos da guerra e não é necessariamente a este grupo de pessoas. Isto são prisioneiros de guerra.
Martim, já aqui há alguns programas tínhamos falado de um outro compositor.
É verdade, falámos do Hans Krása, mas esse era Theresienstadt e aí foi encenada uma coisa para a visita da Cruz Vermelha.
Exato.
Aqui, o que é que temos? No fundo, são militares que estão presos e, portanto, estão a ser tratados, não vou dizer com dignidade, mas com esta diplomacia que é: vocês tratam bem os nossos, nós tratamos bem os vossos, para depois poder fazer trocas. E ao fim de sete meses nesta prisão, o Messiaen conseguiu que lhe dessem papel, tinta e canetas e resolveu escrever uma peça para os quatro instrumentistas que havia naquela prisão, que eram um violinista, um clarinetista, um violoncelista sem violoncelo, por isso é que fizeram o crowdfunding, e um pianista, que era ele próprio, e parece que havia também um piano. Portanto, ele, nestas condições, escreveu uma das peças mais importantes de todo o século XX, que tem um título lindíssimo, que é o "Quarteto para o Fim dos Tempos", que é uma obra de quase uma hora de duração, muito longa.
E é triste?
É tudo. É furiosa, é triste, é serena, é modernista, é uma verdadeira viagem atravessar esta peça. E o título também é religioso. Messiaen, como digo, era católico, devoto, e dedica este quarteto ao anjo que anuncia o fim dos tempos. É uma peça em sete andamentos, cada uma delas tem um título muito sugestivo. Por exemplo, a primeira chama-se "Liturgia de Cristal", depois há outra que é só para clarinete, que é o "Abismo dos Pássaros", passa por todos os modos, como disse.
Um bocado bíblico também, os próprios títulos.
É. São bíblicos, mas com um twist. Como os bons baristas. Fazem um coquetel, mas com um twist. O meu andamento preferido é o "Louvor à Eternidade de Jesus", este um bocadinho menos audaz, se calhar. E o que eu acho interessante, e vamos ouvir um bocadinho desta música, é que é chocante imaginar as condições psicológicas em que isto aconteceu, em que esta música nasceu e foi ouvida, porque foi ouvida por todos os prisioneiros, que eram cerca de 400 que lá estavam, comparado com a serenidade da música. Isto é um andamento de quase oito minutos, que não vamos ouvir todo, como é óbvio, vamos ouvir só o início, em que tocam apenas o piano e o violoncelo. Portanto, imaginemos estas pessoas que estão numa situação de guerra, num lugar frio, hostil, em perigo de vida, tudo mais, e de repente juntam-se todos porque há um prisioneiro que escreveu uma peça que tem que ver com o fim dos tempos. E aqueles quatro prisioneiros que andaram a ensaiar juntam-se e tocam isto para eles, para os prisioneiros. Depois a peça ganhou vida e acabou sendo publicada e hoje em dia é conhecida e tocada no mundo inteiro, mas foi uma coisa deles neste momento. E estamos a falar dela porque isto foi estreado no dia 15 de janeiro de 1941, portanto, faz hoje anos. Vamos ouvir uma gravação que é histórica, porque é tocada pelos prisioneiros originais. Neste andamento, quem está ao piano é Olivier Messiaen e quem está ao violoncelo é Étienne Pasquier, gravada já 15 anos depois. Quer dizer que eles ficaram amigos também depois da guerra.
Martim, sinto que ouvir esta música depois do contexto que nos deste, deu-lhe toda uma nova dimensão. Se calhar se eu ouvisse isto sem o contexto que tu deste, não lhe tinha dado esta carga emocional.
É a magia da mediação. É acrescentar um bocadinho de valor onde ele já estava, mas não era visível.
Achas que essa informação altera a experiência de se ouvir música? Seja nesta ou noutra.
Honestamente, acho que sim. É como alguém que veja a Guernica sem saber o que aquilo significa e porque aquilo foi feito. Olha para ela e analisa o seu conteúdo estético e pictórico, ou alguém que vai além disso e vê toda a desgraça que está naquela tela.
Também acho particular piada tu dizeres: "Gosto muito deste andamento, vamos ouvir este andamento." Eu nunca insisti sobre uma música que estava a ouvir.
Normalmente é esta faixa.
Exato.
É porque são sete andamentos.
Qual é o teu andamento favorito, Bruno Vieira Amaral? É um andamento apressado?
É os 10 mil passos.
Os 10 mil passos.
É o que o iPhone pede. Queria só dizer que ele seria libertado pouco depois, ele não ficou imenso tempo preso.
Saiu em 41.
É verdade, saiu neste ano, mais à frente. E como é que ele sai? Ele sai através da intervenção de um amigo que conhece alguém, é sempre assim, no Propaganda Staffel de Paris, quer dizer, o Esquadrão da Propaganda, que era um órgão instituído pelos nazis, que em todas as cidades de França censurava e governava todas as publicações que se fizessem.
Sim, porque estamos a falar da França ocupada nesta altura.
Exatamente.
O lápis azul lá do sítio.
Mas o engraçado é que acaba por ser alguém que no fundo colabora, que está a colaborar com os nazis, que põe o Messiaen cá para fora.
Descobri aqui uma coisa engraçada. O pai dele foi tradutor de Shakespeare.
O pai do Messiaen?
O pai do Messiaen. A mãe era poeta e o pai era professor de inglês e tradutor de Shakespeare.
Tinha de andar artista o senhor.
Não tinha outra hipótese.
É um berço humanista.
Muito bem, fizemos uma viagem a 15 de janeiro de 1941, com a música de Messiaen, aqui trazida pelo Martim Sousa Tavares. Estamos de regresso com um novo encontro com a beleza, de hoje a uma semana. Um abraço, Martim. Até lá.