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E já cá estamos, todos reunidos na tarde em directo para mais um encontro com a beleza. É sempre assim, às segundas-feiras, depois da síntese das 17h30, com o maestro Martim Sousa Tavares. Bem-vindo, Martim.

Cá estamos.

Cá estamos, juntos. E o Martim reparou que duas pessoas muito famosas e dois russos morreram no mesmo dia há 70 anos e ninguém falou disso.

70 anos e um dia.

70 anos e um dia, porque foi 5 de março.

Exatamente.

Há 70 anos morriam em Moscovo, Stalin e Prokofiev.

Exatamente. Até podemos quase fazer uma votação de qual é que gostam mais.

A votação do grande russo. E se escolherem o errado, temos uma secção chamada mental para as pessoas que escolherem o errado.

Exatamente, portanto experimentem. Vamos abrir aqui uma votação. Bom, é verdade, mas antes de morrer, nascia em 1891, no distrito de Donetsk, na Ucrânia, que hoje em dia todos conhecemos bem e sabemos onde fica, este pianista e compositor absolutamente prodigioso, a quem nós hoje chamamos compositor russo, porque na altura a Ucrânia não era mais do que uma república soviética do RSS, mas que hoje, já vamos ver, à luz daquilo que são os acontecimentos recentes, é um nome que está a ser um bocadinho disputado no mundo da música clássica e não só. Antes disso, ele é, no princípio do século XX, um tipo modernista, bastante revolucionário, um bocadinho chocante, mas tão brilhante e tão genial que quando se dá a Revolução de Outubro, ele decide que aquele país deixou de ser um país para a música, pelo menos agora nos próximos anos, tão cedo não voltam a querer investir em compositores e conservatórios, têm outras coisas para fazer. Portanto, pede o seu passaporte para ir para o estrangeiro. E ele é de tal forma respeitado que o próprio Lunacharsky, que era o comissário para os assuntos culturais do primeiro governo revolucionário, diz-lhe: "Olhe, você é um revolucionário na música. Nós somos revolucionários na vida. Na verdade, devíamos trabalhar juntos, mas se o seu desejo é ir para os Estados Unidos, vá à sua vida, não vamos ser nós a impedi-lo". O que é incrível.

Sim, não ter sido executado.

Exatamente. Dizer mesmo: "Olhem, eu até gosto disto, mas não adoro a revolução. Se não se importam, dão-me o passaporte para eu ir embora?"

Com certeza.

Claro que sim.

Só Prokofiev, faça favor.

Exatamente, faça favor, a porta é ali, volte sempre.

Eu adorava as fotos dele em Nova Iorque.

Mas eu acho que a chave é este "volte sempre", porque ele era de tal maneira importante e prestigiante que era bom tê-lo em circulação pelo mundo para demonstrar a pujança da cultura soviética.

Era um exercício de PR, portanto.

Sim, de certa forma. Era um influencer da música clássica avant la lettre. Ele vai para os Estados Unidos, vai para Paris, anda pela Alemanha, faz uma carreira de sucesso, de facto. É uma década de enormes sucessos, a escrever obras monumentais, bailados, óperas, coisas assim. Até que, por azar dos azares, dá-se o crash de Wall Street, que parecendo absurdo, acaba por truncar a carreira dele, porque esta crise levou a que os teatros tivessem de reduzir em muito os seus orçamentos e deixou de haver investimento nessa área da cultura. E ele, que era um compositor de grandes produções, acaba por ficar sem emprego. Ele também tinha uma carreira de sucesso como pianista, mas pensa que se calhar está na altura de voltar a casa e voltar à Rússia. E assim faz. E começa logo a ter sarilhos, como é óbvio, porque entretanto ele volta para a União Soviética, ainda com o estatuto de superestrela, podia guiar um carro ocidental, andava de meias cor de laranja por Moscovo, portanto, um excêntrico no início, mas depois às tantas começa a ser one of us. E a certa altura, ele escreve um bailado modernista, que tinha uma descrição de umas fábricas, e foi questionado por uma associação de compositores proletários, que diziam: "Ouça, estas fábricas que você aqui descreve são fábricas ocidentais, onde o operário é um escravo, ou são fábricas soviéticas, onde o operário é um mestre?" Ele diz: "Bom, isto são temas políticos. Na verdade, a música não quer dizer grande coisa, mas eu acho que são fábricas soviéticas". E eles dizem: "Ah, é? E como é que você sabe isso, se só esteve na União Soviética com visto de turista por 10 ou 12 dias nos últimos 10 anos?" Portanto, aí ele percebeu logo que já não era influencer coisa nenhuma, já estava um bocadinho em sarilhos. Ainda assim, vai ter alguns sucessos nestes anos, "O Pedro e o Lobo", que é uma peça que conhecemos todos muito bem, foi escrita para um teatro em Moscovo, vai trabalhar com o Eisenstein, uma parceria incrível no cinema, até que a certa altura começa a colaborar com artistas que vão caindo em desgraça, que vão sendo chamados pelo KGB, por exemplo, o Meierhold, que era um encenador de ópera. Ele às tantas tem uma ópera pronta, já a escreveu, está pronta a encenar, só que o encenador é preso e depois assassinado. Portanto, o que é que fazemos agora com esta ópera? Vamos cancelá-la. E a certa altura, ele começa a sentir os efeitos do dirigismo da política na música. Há associações de compositores que se autocensuravam e obrigavam-no a dar a sua música a ouvir antes de ela ser estreada. Chumbaram-lhe uma cantata para os 20 anos da revolução.

Isto era a verdadeira cultura de cancelamento.

Exatamente. Mas cancelados uns pelos outros.

E depois cancelados mais a sério.

Exatamente. O que é certo é que ele devagar, devagarinho, vai caindo em desgraça, até que em 1948, finalmente é acusado de formalismo, que era a pior coisa que se podia ser na União Soviética. Quer dizer, que deixou de ser um artista do realismo soviético, passou a ser um burguês, que está a escrever música só de pesquisa. E quando morre, de facto, no mesmo dia em que morre Stalin, era um compositor respeitado, mas foi de tal maneira morrer debaixo de uma avalanche, que o seu obituário só sai nas notícias passados três dias e na página 116 do jornal, porque as primeiras 115 páginas foram dedicadas ao Stalin. Não havia músicos para tocar no funeral dele, não havia flores disponíveis, só 30 pessoas é que foram ao funeral e como não havia músicos, usaram um gravador que tocou a marcha fúnebre do bailado "Romeu e Julieta", que é uma tristeza enorme pensar que este homem morreu e foi enterrado com um gravador a tocar a música dele. No entanto, do mesmo bailado, vamos ouvir a cena da dança dos cavaleiros, que é só a música mais épica que vão ouvir em toda a semana.

Eu vou vos dar um conselho: nunca lavem loiça a ouvir esta música.

Porque não?

Saltam pratos. Vai tudo esborrachado contra a parede. Não se sentem super-heróis ou gigantes?

Com vontade de invadir a Polónia.

Por exemplo.

Quando ouvem esta música.

Primeiro, sinto-me em Gotham City, numa cena qualquer do Batman. A sério? Sim. Porque eu acho que-

Porquê? Explica.

Primeiro, não tenho a certeza, mas eu tenho a ideia que já foi usado um excerto desta música numa cena de um Batman. Não garanto a 100%, mas do que pesquisei, pareceu-me. Falava, de facto, do Romeu e Julieta, e vi qualquer coisa sobre o Batman. Mas isto entrou um bocadinho numa pergunta que eu tinha, que tu conhecerás, eu não conheço a obra do Prokofiev. Ele tem momentos musicais mais positivos ou é sempre esta densidade negra que se sente na música?

Tem.

A componente de negritude desta "Dance of the Knights" não deixa ninguém indiferente.

Sim, eu pensei: "Vou trazer 'Pedro e o Lobo'." Mas não, "Pedro Lobo" toda a gente sabe que é do Prokofiev e de facto é muito bonita e há versões narradas por toda a gente, da Catarina Furtado ao David Bowie. Pensei: "Vou antes levar esta música, que muita gente conhece, mas não sabe quem escreveu". Como hoje estamos aqui a celebrar o Prokofiev. Mas é engraçado pensar que este homem, que hoje é um nome indiscutível na música. Eu cheguei a ver na Rússia, em 2012, creio, a estreia de uma música dele que tinha ficado na gaveta durante quase 70 anos, que era o hino que ele tinha escrito para uma das muitas repúblicas soviéticas, que na altura tinha sido chumbado. Portanto, não lhe aceitaram aquela peça e num concerto onde eu fui assistir, por acaso, descobriram-na. Então fez-se a estreia daquilo, que dá a entender que de facto pode haver ainda alguma música dele que nunca foi tocada por razões políticas. Outra coisa, por razões políticas, triste, que devo assinalar, é que o Aeroporto Internacional de Donetsk, que neste momento já não existe, chamava-se Aeroporto Serguei Sergueievitch Prokofiev, só que foi absolutamente destruído em duas batalhas no Donbass em 2014, e neste momento continua na situação de escombros. E em 2022, ele viu-se no meio deste período estranho que foi a caça às bruxas. De repente, tudo o que fossem músicos russos tinham que fazer um statement antes de virem tocar à Europa sobre a sua opinião sobre a guerra. E o pianista russo Alexander Malofeev foi cancelado várias vezes no Canadá, mesmo após ter declarado publicamente no Facebook que sentia uma imensa vergonha pela guerra e tudo mais, portanto, expondo-se ao perigo de ser cancelado na Rússia, e acabou também por ser cancelado no mundo ocidental quando ia tocar um concerto para piano de Prokofiev. Na altura, foi um caso muito falado, porque estava-se a cancelar um autor que ia também ser cancelado. Portanto, já estamos no metacancelamento.

Acho que também encontrei pela internet um uso da "Dance of the Knights" no filme do Chaplin, "O Ditador".

Faz todo o sentido.

Sim.

Isto é muito noir. Isto presta-se mesmo. Aliás, quando dizemos que isto é do "Romeu e Julieta", é preciso lembrar que o "Romeu e Julieta" não são só as cenas de amor naquele terraçozinho em Verona, tem cenas de luta e de duelos e muito sangue.

Amanhã sai nova newsletter do Martim Sousa Tavares, chama-se "A Música na Minha Cabeça". Qual é a que tens para amanhã?

Ontem acabei de ler um livro do James Baldwin e lembrei-me do tema interessante que são os outsiders na arte, porque é um livro que ele escreve com voz autobiográfica, com voz de um homem branco, sendo o James Baldwin um dos autores principais do renascimento de Harlem. E ele foi muito criticado por escrever antes sobre temas negros. E eu pensei: "Isto é interessante, porque há casos assim na música clássica de autores que também são outsiders e são acusados disso mesmo".

Amanhã fica disponível no nosso site "A Música na Minha Cabeça", do Martim Sousa Tavares, e de hoje a uma semana temos novo encontro com a beleza aqui na Tarde.

E de duas semanas também.

É? Ainda bem. Está confirmado. Um abraço, Martim. Obrigado.

Um abraço.