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O mais importante aqui dentro não é o treinador, nem é o jogador, é o Flamengo.
Gol do Flamengo. Jorge Jesus ao assionar com o país. O que é isso descansar, descansar? Isso não existe.
O Brasil está rendido a Jorge Jesus. O treinador português foi, viu e está a um passo de vencer o Brasileirão e a Taça dos Libertadores este fim de semana ao comando do clube Flamengo. O que Jesus tem? É a pergunta que faço a Carlos Eduardo Mansur, jornalista do Globo, que se junta a nós em direto a partir do Brasil. Bom dia, Carlos.
Bom dia, João Miguel. Bom dia, amigos da Rádio Observador. Boa tarde para vocês aí em Portugal. Prazer falar com vocês.
Hora essa. Bom dia, Carlos. O que eu perguntava é: o que Jesus tem?
Olha, por enquanto, ele tem muito conhecimento de futebol. A impressão dos brasileiros, por enquanto, é essa. Duas coisas que chamaram muito a atenção: muito conhecimento de futebol, conhecimento tático e uma capacidade de implementar esse conhecimento muito rapidamente. A transformação que o time do Flamengo sofreu, de um time com jogadores importantes, de nome, de talento, mas que não tinha performance, desempenho, à altura no primeiro semestre desse ano, para um time que se transformou, certamente com sobras, até no melhor time do Brasil no momento.
Que operações é que ele fez na equipe? Consegues nos explicar?
Olha, sim. Primeiro, do ponto de vista de nomes, ele recebeu, para fazer justiça ao antecessor, que é o treinador também conhecido em Portugal, que é o Abel Braga, ele recebeu alguns jogadores importantes para ele, como o Rafinha e Felipe Luís, dois laterais de nível internacional. E o Pablo Marín, o zagueiro que estava na segunda divisão da Espanha e veio para o Flamengo, que o contratou. Esses jogadores foram importantes porque permitiram a ele implantar o seu modelo de jogo com uma linha defensiva que joga mais adiantada, que joga com uma marcação mais alta, como se diz. E jogadores acostumados a um comportamento dessa linha defensiva, muito mais comum na Europa do que no Brasil. Isso ajudou a dar um pouco mais de rapidez a esse processo. Outra coisa, ele fez o Flamengo ser um time muito mais compacto em campo, além de ser mais compacto, um time que pressiona o adversário pela retomada da bola desde o campo ofensivo, que é uma marca de alguns trabalhos do Jorge Jesus, essa agressividade na tentativa de retomar rapidamente a bola e se transformou também num time, quando tem a bola, muito mais vertical, muito mais rápido na solução das jogadas, tentando solucionar as jogadas em poucos passes para chegar ao gol. O Flamengo era um time de muito toque horizontal, de posses de bola longas, mas de pouca agressividade. Isso tudo se transformou muito rapidamente sob o comando do Jorge Jesus.
Carlos Eduardo, nós ouvimos ontem o Gabigol, que é o goleador do Flamengo, dizer que o Jorge Jesus via coisas em campo que não era normal um técnico ver. O que achas que ele vê quando vê a equipe do Flamengo e as restantes equipes do Brasileirão a jogar?
Olha, eu acho que primeiro ele percebeu que ele poderia causar, sim, uma espécie de choque cultural. O futebol brasileiro é um futebol que ainda, embora tenha evoluído muito taticamente, é um futebol que ainda há muitos espaços para jogar. E o Flamengo nega esse espaço ao adversário, sufoca o adversário. E isso eu acho que foi algo que causou muita dificuldade para os rivais do Flamengo conseguirem enfrentar esse time. Em relação ao Gabigol, especificamente, tem um detalhe importante, eu acho. Durante muito tempo, o futebol, em boa parte do mundo e no Brasil, em especial, viveu uma ditadura dos sistemas com dois pontas abertos, dois extremos e só um avançado, como vocês dizem. Muitos atacantes brasileiros precisaram decidir em suas carreiras se eles eram pontas ou se eles eram jogadores camisa nove, digamos assim, jogadores de área, jogadores do centro do ataque. E o Brasil sempre produziu uma quantidade muito grande de jogadores que são ótimos atacantes, ótimos avançados, mas melhores para jogar com mais liberdade de campo, que funcionam melhor numa dupla. A gente pode falar de duplas marcantes do Brasil, como Bebeto e Romário, por exemplo. Nenhum deles era um jogador para ficar preso entre os zagueiros e gostava de usufruir de uma liberdade de movimentação, como foram outros atacantes que o Brasil produziu ao longo dos tempos. E o Gabigol, para mim, é um desses jogadores. É um jogador que passou a render muito mais numa dupla com Bruno Henrique, tendo liberdade para se movimentar, ora buscando o lado do campo, ora buscando a bola mais atrás, fazendo as diagonais que ele faz muito bem. Isso passou a causar uma imprevisibilidade.
É isso, Carlos Eduardo Mansur, que justifica o fato de Gabigol ser já o melhor goleador da equipe do Flamengo?
É, eu acho que ele teve, da parte dele, uma transformação na carreira. Ele já foi o goleador do Brasileiro no ano passado, jogando pelo Santos, mas o nível de atuação dele, além dos gols, é que subiu demais com o Jorge Jesus, jogando numa dupla de ataque com o Bruno Henrique, em que ele, além de tudo, contribui muito para o jogo da equipe. Além de marcar os gols, ele contribui demais para o jogo da equipe.
Carlos, vamos falar de Jesus, propriamente dito. Não foi fácil a recepção da imprensa brasileira a Jorge Jesus aí no Brasil.
É difícil generalizar a imprensa como uma reação única.
Mas houve uma certa hostilidade à chegada do Jorge Jesus.
Exato. Houve setores da imprensa que tiveram posicionamentos até muito deselegantes em alguns programas de TV, menosprezando, por exemplo, os feitos dele em Portugal, como se o Campeonato Português não tivesse competitividade suficiente. Ora, você pode até entender que há uma disparidade maior de forças entre os campeões, entre os times que disputam o título português e os demais. Mas mesmo assim, não creio que tenha sido tão usual alguém chegar num clube português e conseguir montar times Como foi a melhor fase do Benfica, duas vezes finalista da Liga Europa, times reconhecidos pelo seu poderio técnico, ainda mais numa época atual, em que Portugal não tem a mesma capacidade econômica pra competir na Europa com as principais forças. E Jesus conseguiu fazer isso com o Benfica. Eu acho que além de um erro de avaliação futebolística, foi uma deselegância com alguém que estava chegando a trabalhar. E o futebol brasileiro precisou aprender com a chegada de Jesus novamente, assim como a chegada de Jorge Sampaoli ao Santos, um argentino, que luta pra ser o vice-campeão brasileiro e deve ficar em terceiro. Estar aberto a novas ideias é bom pra todo mundo. A gente teve agora um 4 x 4 entre Flamengo e Vasco, em que Vanderlei Luxemburgo, um técnico histórico do futebol brasileiro, para enfrentar Jorge Jesus, precisou buscar novas soluções pouco usuais no seu time do Vasco da Gama. Ele buscou essas soluções justamente porque o trabalho de alto nível de Jesus o obrigou a se debruçar sobre novas soluções. Isso é saudável pra todo mundo. Eu acho que aos poucos o futebol brasileiro vai entendendo o quanto fez bem essa passagem de Jorge Jesus aqui.
Muito obrigado, Carlos Eduardo Mansur, pela tua presença aqui na Rádio Observador, neste "Eu sou Jesus". Estamos até ao final da semana a tentar perceber o fenômeno Jorge Jesus no Brasil. Jorge Jesus, que brilha e pode brilhar este fim de semana ainda mais e pode conquistar dois títulos ao comando da equipe Flamengo. Jorge Jesus que pode conquistar o Brasileirão e também a Taça dos Libertadores.
Flamengo! O mais importante aqui dentro não é o treinador, nem eu jogador, é o Flamengo. Gol do Flamengo! Jorge Jesus, o Nacional conseguiu. Deixe descansar. Descansar. Isso não existe.