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Gol! O mais importante aqui dentro não é o treinador, nem é o jogador, é o Flamengo. Gol do Flamengo! Jorge Jesus, ovacionado, consegue. Deixe descansar. Isso não existe.

Sejam então bem-vindos a esta rubrica especial do Observador. Ao longo desta semana, temos estado a olhar para a carreira de Jorge Jesus, principalmente desde que assumiu o comando do Flamengo. Estamos também em vésperas da final da Libertadores. O Flamengo vai jogar com o River Plate amanhã, às 08h, já em Lisboa, um jogo que acontece em Lima, no Peru. E por esta hora tenho aqui comigo Silvio Barcetti, jornalista desportivo há mais de 30 anos. Silvio, muito bem-vindo à Rádio Observador.

Muito boa tarde, obrigado, Nelson. Um abraço pra você, pros seus ouvintes e à sua disposição.

Silvio, nos últimos dias, o João Miguel Santos, o meu colega, tem estado aqui a falar com vários dos teus colegas a propósito desta revolução que o treinador português implementou no futebol brasileiro, essa diferença tática, mas também a mim, pessoalmente, impressionou-me mais ainda as imagens da chegada do Flamengo ao Peru, a saída do Brasil, todo este calor humano, uma espécie também de exaltação social que se vive à volta da equipe que é agora treinada por Jorge Jesus. De fato, o Flamengo não ganha este troféu há muitos anos, desde 1981, a única vez que tem esta taça. Mas como é que, Silvio, explicas esta comunhão que Jorge Jesus também conseguiu entre a equipe, a cidade do Rio e os adeptos do clube?

Nelson, o Jorge Jesus é um fenômeno no futebol brasileiro. Ele é a melhor coisa que aconteceu no futebol brasileiro nos últimos anos. Talvez, desde os anos 2000, tirando-se apenas a conquista do Brasil do Mundial de 2002, a gente não tenha visto uma manifestação de torcedores na rua, como a gente viu na saída do Flamengo, no embarque do Flamengo para Lima, no Peru, quando multidões cercaram o ônibus do Flamengo, tanto na saída do centro de treinamento, quanto na chegada ao aeroporto. Eram milhares e milhares de pessoas. Algo parecido somente em 2002, quando a seleção brasileira voltou da Coreia do Sul e do Japão, depois do título mundial. Então, isso já demonstra a força, como você falou, essa comunhão que o Jorge Jesus conseguiu com a torcida, com o trabalho dele, com o futebol. É algo, eu diria, em termos de clube, no Brasil, algo inédito. O Jorge Jesus revolucionou mesmo o futebol brasileiro. Ele está obtendo o apoio de muitos brasileiros, não só de torcedores do Flamengo, como de torcedores de outros clubes, de torcedores do futebol, de quem gosta do futebol, de quem aprendeu a gostar do futebol brasileiro, do futebol arte, do futebol raiz. Ele está resgatando. Foi preciso vir um irmão nosso de Portugal para resgatar o que o Brasil havia perdido há anos. Os únicos que contestam o Jorge Jesus são alguns técnicos de futebol, alguns treinadores de futebol do Brasil. Uma ponta de inveja, uma ponta de ciúme e às vezes até uma manifestação que soa como xenofobia. São os únicos. Tirando esses que estão ultrapassados, obsoletos, antiquados, é quase unanimidade que o Jorge Jesus vem resgatando a essência do futebol brasileiro.

Silvio, é muito-

Isso explica essa comoção toda em torno do trabalho dele.

É muito engraçado que isso esteja a acontecer com um português, quando em Portugal também foi Luiz Felipe Scolari que conseguiu unir o país, pondo até bandeiras de Portugal nas varandas quando foi treinador da seleção portuguesa. Este efeito, ao contrário, tem também a sua piada. Queria tentar perceber, Silvio, também se o Brasil está com o Flamengo. É uma equipe brasileira que joga com o River Plate. O resto dos adeptos dos outros clubes também apoiam Jorge Jesus ou aqui, como chamamos em Portugal, a "clubite", essa doença do clube fala mais forte e os adeptos rivais do Flamengo não apoiam esta vitória na Libertadores?

Nelson, aqui no Rio de Janeiro, os grandes rivais do Flamengo são o Vasco, o Fluminense e o Botafogo. Os torcedores mais apaixonados desses três clubes, Vasco, Fluminense e Botafogo, vão torcer contra. Isso está no DNA deles. Não tem como. Mas aquele torcedor mais mediano, que coloca o futebol, a maneira de jogar, a arte do futebol acima, esses todos estão com o Jorge Jesus. Eu diria pra você que é uma minoria que vai torcer contra, porque não vai torcer contra o Jorge Jesus, vai torcer contra o Flamengo. Tem uma rivalidade forte ainda. Mas uma coisa bacana que a gente vê vários clubes, vários torcedores de clubes do Brasil todo se manifestando A favor do Flamengo, porque entendem que esse momento é um momento, como eu falei, de resgate do futebol brasileiro, que nenhum técnico brasileiro conseguiu desde Telê Santana, nos anos 80. Telê Santana foi técnico da seleção brasileira na Copa do Mundo de 82 e 86. O Brasil não ganhou nenhuma das duas, mas jogou um futebol muito bonito, parecido com o futebol de 1970. Desde Telê Santana, os técnicos brasileiros estragaram o futebol brasileiro. Estragaram, porque sempre foi aquela história: fez 1 x 0, vamos segurar. Fez 2 x 0, segura, temos que segurar o resultado. E o Jorge Jesus vem na contramão disso tudo. Então, essa avalanche a favor do Jorge Jesus tem essa motivação. Agora, como eu te falei, vai ter gente torcendo contra, mas não contra o Jorge Jesus, contra o Flamengo.

Sílvio, aqui em Portugal, o Jorge Jesus ficou também conhecido por uma expressão, que era o rolo compressor. De fato, a equipa do Jorge Jesus, as equipas que treinou, nunca paravam de atacar até ao fim, estivessem a ganhar por cinco, seis ou sete. Eu queria perceber se a imprensa brasileira, que se calhar tenta ver também o outro lado deste sucesso de Jesus, já fez eco de outras finais de competições que de fato foram perdidas por Jorge Jesus. Fez ótimas campanhas em Liga Europa, principalmente na altura do Benfica, mas havia sempre uma espécie de mala pata com Jesus, que o fez chegar a algumas finais, ganhou muitas Taças da Liga, mas troféus internacionais sempre foi um pouco o calcanhar de Aquiles do Jorge Jesus. A imprensa dá eco desse fato e poderá ser também um dos medos dos adeptos, esse histórico do Jesus em finais internacionais?

Isso foi publicado, foi falado, mas sem muita repercussão. Não há, do meu modo de ver, muita ênfase a isso. Porque o momento é tão intenso, Nelson, é tão bonito, que alguns colegas pontuam essas situações, mas sem muita repercussão. E no meu modo de ver, mesmo que o Flamengo não vença o River Plate, porque é uma decisão com duas equipes de muita qualidade, qualquer resultado ali é possível, isso não deve ofuscar o trabalho dele. Um jogo só não pode apagar o que o Jorge Jesus vem fazendo ao longo do ano. Até porque o Flamengo, na eventualidade de perder a Libertadores pro River Plate, vai ser campeão brasileiro. Ou neste fim de semana ou nas rodadas seguintes. A probabilidade hoje é de 99,9%. O Flamengo está muito adiantado com relação aos outros concorrentes do Campeonato Brasileiro. Então ele já vai ter um título importante. Agora, como eu disse, pontuam, sim, essas situações pelas quais Jorge Jesus passou no Benfica, mas não estão investindo muito nisso, não.

Sílvio, só para terminarmos, fazes ideia se há, na cidade do Rio de Janeiro, preparativos para uma festa, nem que ela seja involuntária e feita apenas pelos adeptos em praças e ruas da cidade? Imagino que já será suficientemente grande para mexer com a cidade do Rio. Mas fazes ideia se há preparativos mais especiais, se as celebrações a acontecerem numa vitória do Flamengo vão acontecer num determinado sítio na cidade? Onde é que, por norma, acontecem os festejos das vitórias do Flamengo?

Nelson, pra você e os ouvintes terem uma ideia, eu estacionei meu carro num supermercado na zona norte, que é a zona periférica do Rio. Daqui onde eu estou, eu posso ver alguns prédios com a bandeira do Flamengo nas janelas dos prédios. O Rio de Janeiro está tomado de bandeiras do Flamengo. É uma coisa impressionante. Lembra os grandes momentos da seleção brasileira. Isso se deve, em grande parte, a Jorge Jesus. A festa da saída do Flamengo, do embarque do Flamengo, reuniu possivelmente entre 50 e 80 mil pessoas, tanto no centro de treinamento quanto na chegada ao Aeroporto Internacional Tom Jobim. Não há estimativa. Se o Flamengo for campeão da Libertadores, o time viajou em voo fretado pra Lima, vai voltar, independentemente do resultado, no domingo pela manhã aqui, vai ser domingo início da tarde aí. E se for campeão, vai ser uma loucura, vai ser um carnaval antecipado. E vai ter concentração no aeroporto, concentração na sede do clube, concentração pelas ruas centrais do Rio de Janeiro, por Copacabana, o famoso bairro de Copacabana. Vão ser multidões, vai ser um carnaval antecipado. A polícia e as forças de segurança estão reunidas hoje pra tentar minimamente organizar o que pode ser um evento inimaginável, por enquanto. Vai ser uma coisa marcante, histórica E como eu falei, vai lembrar um carnaval antecipado com milhares e milhares de pessoas na rua. Essa é a expectativa, Nelson.

E é por isso, por cá, que também estamos a torcer, eu em particular. Queria só pedir-te um pequeno comentário rápido no final desta intervenção a uma notícia que saiu hoje aqui em Portugal num jornal desportivo e que dava conta de que o maior reforço para a final da Libertadores de Jorge Jesus não tinha sido um jogador, mas uma espécie de antena anti-drone que foi instalada no local onde o Flamengo está a treinar e é uma tecnologia anti-filmagens para que não haja espionagem do River Plate para o que está a ser preparado pelo Flamengo para esse jogo. Merece-te algum comentário este cuidado excessivo também de Jorge Jesus em fechar o seu grupo até com estas tecnologias de antenas anti-drones?

Isso é fantástico, está usando a tecnologia a favor do trabalho dele. O Jorge Jesus tem essas especificidades, vocês devem conhecer melhor. Por exemplo, o avião que trouxe o grupo, foi um avião só com a comissão técnica e com os jogadores. O Jorge Jesus exigiu que não houvesse ali nenhum dirigente do Flamengo. Eles queriam ficar à vontade entre eles, começando a concentração para o jogo decisivo já dentro do avião. Os dirigentes do Flamengo foram direcionados a outro avião. O trabalho do Jorge Jesus é rico em detalhes. Então quer dizer, não é só o comando em campo, o que ele conhece de tática, do psicológico dos jogadores. Não, ele trabalha o entorno. E essa da instalação do anti-drone, isso é fantástico. Isso é mais uma prova de que ele está antenado com o mundo da tecnologia também. Além de ser um baita profissional de campo, está antenado com o mundo ao redor dele, não é, Nelson?

Muito bem, Silvio Barcetti, jornalista desportivo há mais de 30 anos no Brasil, foi o convidado de hoje do "Eu Show Jesus", aqui na Rádio Observador. Silvio, um abraço grande e não percas o lugar onde tens o carro estacionado, porque se o deixas aí para domingo, acho que se calhar podes não o encontrar depois.

É verdade, eu estou dentro do carro, não tem problema.

Ótimo.

Eu que quero agradecer a oportunidade. Muito obrigado.

Um prazer, Silvio. Até à próxima e boa sorte também para o Flamengo. Fechamos aqui a rubrica "Eu Show Jesus", que ainda vai ter uma edição na próxima segunda-feira.

O mais importante aqui dentro não é o treinador, nem eu jogador, é o Flamengo. Gol do Flamengo! Jorge Jesus ao acionar. Olha isso. Que isso, descansado? Descansado. Isso não existe.