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Arranca agora mais um Explicador das manhãs 360, hoje sobre a Caça ao Estripador de Lisboa, o podcast Plus do Observador, que já foi ouvido mais de 1 milhão de vezes e que é agora uma peça de teatro imersivo que estreia na próxima quinta-feira. Vamos saber mais sobre isto com a ajuda da jornalista do Observador, a Tânia Pereirinha, autora do podcast Plus, e do Simão Biernat, encenador da peça de teatro. Tânia, Simão, bom dia aos dois. Muito obrigada por se juntarem a nós.
Bom dia. Olá, bom dia.
Bom dia. O Simão está à distância porque está constipado. Olá, Simão, bom dia também.
É verdade. Bom dia.
Bom dia. E as melhoras.
As melhoras, exatamente. Tânia, quando estavas a investigar e a escrever este podcast, alguma vez imaginaste que a história do Estripador de Lisboa viria a sair do áudio pra ganhar vida numa peça de teatro?
Claro que não. Aliás, a primeira vez que nos disseram que estavam a pensar fazer isto, achei que não fazia sentido nenhum. Não, nunca pensei.
O faro apurado da Tânia.
Não, eu sou uma alma antiga.
Exato, mais conservadora.
Mais conservadora, sim. Cada coisa no seu espaço, mas faz muito sentido.
O podcast ultrapassou 1 milhão de escutas. O que achas que torna este caso fascinante pro público, mesmo passadas três décadas?
É um caso que não foi resolvido.
Só isso.
Só isso já faz a coisa mexer e as pessoas pensarem quem terá sido, quem não terá sido. E depois, é um caso português e não há assim tantos. Não há propriamente um serial killer a cada esquina.
Ainda bem.
Ainda bem, sim. Ainda falávamos esta semana com a psicóloga Cristina Soeiro, que fez o perfil deste homicida em série, e ela dizia que nos Estados Unidos, por exemplo, para conseguirem apanhar um serial killer, precisam, em média, de 11 mortes. Nós aqui tivemos três vítimas. E este caso, ainda hoje, mexe muito. E com os crimes prescritos e com o processo encerrado há cinco anos, por exemplo, houve coisas a acrescentar. Há uma pessoa que liga pra PJ e diz que sabe quem é o Estripador de Lisboa e que tem pistas. Isto continua e sempre foi falado, cada vez que há notícias e de cada vez que há reportagens, mexe.
Tânia, essa conversa com a psicóloga e também com o inspetor Carlos Edmar Fonseca vai estar disponível já hoje?
Já está disponível. É um episódio especial da Caça ao Estripador de Lisboa.
Simão, como é que se pega num podcast de investigação criminal e se transforma numa experiência de teatro imersivo? O que o público pode esperar?
Antes de mais, bom dia. Devem esperar uma experiência imersiva única. Antes de mais, uma grande responsabilidade de pegar aqui neste trabalho espetacular da Tânia, neste podcast, muito completo. Eu também me questionei se deveria fazer esta aventura com a Tânia.
Mas como é que surgiu a ideia, Simão, para este espetáculo imersivo inspirado no podcast?
Surgiu através do Ricardo Soares, que é o diretor, o produtor executivo da Kilt, através de uma conversa, já nos conhecemos há muitos anos, e ele trouxe esta ideia de querer fazer um espetáculo imersivo, que eu adorava o podcast da Caça ao Estripador de Lisboa. Eu, na altura, não conhecia o podcast, fui ouvir e desde logo me apaixonei também pelo podcast. Acho que a sonoplastia é maravilhosa, o guião muito bem escrito pela Tânia. Achei que tínhamos ali muito trabalho pra fazer, mas também esta responsabilidade de dignificar o trabalho feito.
Mas já tinham feito alguma coisa parecida?
Não, é a primeira vez que a Kilt se está a aventurar, neste caso, no teatro e no teatro imersivo. Eu já tenho alguma experiência com espetáculos imersivos, mas mais no terror. E aqui também interessou-me muito não irmos pelo lado, no órbito da própria investigação, mas irmos, como o nome indica, a Caça ao Estripador de Lisboa, pela própria investigação em si. Ou seja, é isso que me interessava, criar aqui um espetáculo em que o público pudesse relacionar tanto o podcast como o espetáculo, se pudessem interligar, ou seja, um sobrevive do outro. Não quero que nem o espetáculo substitua o podcast, nem vice-versa. Acho que há muita informação que aparece no podcast. Eu tentei trazer outro tipo de informação, às vezes ficcionada, também com base em toda a informação que também fui recolhendo, também em conversas com a Tânia. Ou seja, que se relacionem e que o público possa ver um live action do podcast, mas com informações que não aparecem efetivamente no podcast. E dar, sobretudo, esta relevância também do mundo da prostituição da altura e da droga, que felizmente mudou muito para os dias de hoje. E queria também mostrar esta vertente da prostituição e da força interior destas mulheres, do que passavam muitas delas. Muitas prostitutas são violadas ainda hoje em dia. E mesmo assim, elas continuam, e naquela altura faziam isso mesmo, continuavam na rua, e portanto, numa força interior. E queria mostrar muito isso também, não serem só vítimas, mas também a parte das famílias, o que sofreram também com este caso, o midiátismo. Interessou-me muito também esta questão da dualidade, da pluralidade do ser humano. Ou seja, nós não somos só uma coisa e muitas vezes nós julgamos logo sem saber os fatos e saber as coisas. Por exemplo, o primeiro suspeito, o ex-namorado. Por norma, diz-se sempre, e como a Tânia escreveu bem, suspeito número um, o ex-namorado. Por norma, vamos sempre ao marido, ao namorado ou a alguém mais próximo.
À proximidade, claro.
À proximidade Mas às vezes também temos que nos questionar porque é que as pessoas foram parar onde pararam. Às vezes justificados, outras não justificados. Mas a Valentina começou a consumir heroína com 13 anos e isso tem um impacto muito grande quando se ouve essa informação.
Simão, num espetáculo imersivo, que nível de interação com o público é que se pode esperar? É pedida a interação com o público, já agora, antes de mais?
Existe interação, mas nunca por parte do público, ou seja, sempre os atores é que vão interagir com o público, porque também queremos manter a seriedade do espetáculo. É um caso muito sério, queremos respeitar também os familiares, é um caso ainda recente.
Ou seja, muitos protagonistas estão vivos, nomeadamente protagonistas da investigação, não é?
Correto.
E as famílias das vítimas.
Certo. E o Carlos Admar também tem ajudado muito no processo de pesquisa.
Que foi o inspetor da PJ, só pra dar contexto, que liderou a investigação deste caso.
Foi um dos que esteve envolvido.
Sim, ficou com o caso da Fernanda, neste caso. Houve um PJ que ficou com o primeiro caso e o terceiro caso, por coincidência, porque ele funcionava por turnos, e o Carlos Admar ficou com o segundo caso, que era o da Maria Fernanda. Mas sim, eu acho que vai haver essa interatividade, mas o que me interessa mais é que o público possa fazer parte da narrativa, ou seja, o meu objetivo é transportar o próprio público pra 1992 e 1993, e perceber também esta frustração de ambas as partes, não só da Polícia Judiciária, do Instituto de Medicina Legal. E de certa forma, toda a gente falhou neste processo, na minha perspectiva, seja até o próprio jornalismo, de às vezes criar mais mediatismo.
Sim, houve outras vítimas que foram associadas a este caso que não tinham nada a ver.
Exato, isso mesmo.
Simão, desculpa, por causa do público e da interação do público, é pedida uma coisa a quem vai ver este espetáculo, que vá vestido integralmente de preto.
Sim.
Isso é exatamente por quê?
Por várias razões. Primeiro, pra serem todos suspeitos. O próprio público, todos são suspeitos.
Isso é um bom aviso. Vamos lá como suspeitos.
E ao mesmo tempo, é para se relacionar quem é ator e quem não é ator. Ou seja, o próprio público, assim, estando todo preto, é mais fácil distinguir onde é que estão os atores.
Porque isto é um espaço enorme, não é?
Sim.
A ação vai decorrer em simultâneo, em várias salas, em vários espaços, e as pessoas vão poder escolher o que acompanhar, é isso, não é?
Correto, isso mesmo. Obrigado.
Pera aí, vocês estão bem informadas?
Não, é que eu ainda não vi. A questão é essa, é que eu já li os guiões, mas eu ainda não vi.
Então, deixa eu só perguntar ao Simão uma coisa.
E tenho muita curiosidade.
Também nós. Quem não ouviu o podcast consegue acompanhar o espetáculo sem problemas?
Consegue. Claro que aqui o meu objetivo é que ouçam sempre o podcast. Antes ou depois, devem sempre ouvir o podcast. Hoje em dia até ouvimos pouco, temos que ouvir cada vez mais.
Rumo às 2 milhões.
Exatamente. E sobretudo este podcast. Acho que está tão bem criado, como disse, e eu quero mesmo que eles se interliguem e que o público, se ver pela primeira vez o espetáculo, acho que não perde nada de todo, mas vai sempre acrescentar se for ouvir o podcast. Não podemos esquecer que o espetáculo tem 1h30, 1h40, e o podcast são seis episódios, portanto, há sempre mais informação que está no podcast. Eu quero é transportar o próprio público pra esta época e que pra esta narrativa, que eles sintam o que foi as salas de interrogação, esta intensidade e esta frustração da própria Polícia Judiciária não conseguir achar o suspeito e por que não consegue chegar ao suspeito, também não conseguir enviar provas. Recolher o ADN, que tinha que se enviar pra Londres e era caro. Muitas justificações que estão no podcast, mas tornamos isso também real e o público vai conseguir ver esse lado de quem pecou e quem falhou e outro rumo que poderíamos ter dado ao caso.
E também um mundo muito diferente do que vivemos atualmente.
Este novo episódio que já está disponível, falo sobre isso mesmo, o que seria a investigação hoje, com as técnicas e tudo o que existe hoje.
Seria muito diferente, provavelmente em alguns casos e nalgumas situações mais fácil. Mas eu estava aqui a pensar, Tânia, nas razões para o sucesso gigantesco deste podcast. E entretanto estávamos a falar da questão da humanização, porque isso não é apenas um podcast true crime, de um crime real, que uma grande parte das pessoas se lembra do que aconteceu ou se lembra de ter ouvido falar. Mas é que há, no podcast, uma humanização, falar das famílias e com as famílias das vítimas, coisa que se calhar, pra maior parte das pessoas, era um lado totalmente desconhecido deste caso, porque víamos apenas as vítimas como prostitutas.
As gordas são as letras.
Os títulos.
Hoje em dia já não sei o que se pode dizer ou não. Desculpa.
Já não estamos em 1992.
As pessoas conheciam os traços gerais da história.
As letras com excesso de peso.
Desculpem. As pessoas conheciam o geral da história, mas não o detalhe. E eu acho que o sucesso do podcast, se calhar, está associado a isso, ao detalhe e à forma como a história é contada. Porque essa história não é nossa. Essa história é de 1992, 1993, já foi contada mil vezes. Nós, se calhar, aqui contamos de uma forma diferente e aliamos este interesse gigante que vem a crescer sobre crimes reais, com os podcasts, que são uma plataforma em crescimento também. Juntamos isto e depois entregamos uma história bem contada ou contada de forma diferente, com outros detalhes. Tens as histórias das vítimas, quem eram elas, de onde é que eram.
Deixa-me só dizer que enquanto ouvinte, e ouvinte muito atento deste podcast em particular, houve essa questão de conhecermos a história das vítimas para além de serem prostitutas, porque em todas as notícias da altura foram reduzidas à condição de prostituta.
Sim, mas ninguém se preocupou em contar nada sobre elas.
E isto eu creio que foi uma das grandes novidades deste podcast, foi precisamente esse olhar.
Provavelmente, sim. Mas eu acho que é imprescindível. Tu tens que contar estas histórias, tens que perceber quem eram estas pessoas e isso retrata também aquela época. Era o que dizia o Simão. A Valentina começou a consumir heroína aos 13 anos, e não foi a única, seguramente, nessa altura. Era um flagelo a droga naquela altura. A prostituição acabava por surgir como consequência dessa adição e é um retrato muito vívido dos anos 90.
Simão, estamos quase a chegar ao fim do nosso tempo. Estamos a uma semana da estreia. Está tudo pronto ou ainda há muitas coisas para as-
Ainda há muita coisa para fazer, muita coisa para acertar. Queremos dar tudo até dia 28. Estamos ansiosos, mas a ultimar os últimos detalhes. Só acrescentar também aqui que eu acho que a voz da Inês também fez toda a diferença na sonoplastia. Acho que foi a conjugação perfeita do texto, a sonoplastia e a Inês. Acho que conjugação perfeita.
Sim, não poderíamos ter escolhido melhor narradora.
Certo. Estamos a ultimar os últimos detalhes, por isso é que a minha voz também está um bocado afetada, porque são muitas horas, também aqui a dar o litro para que tudo corra bem. Estamos ansiosos também que o público venha e que vocês todos venham, claro.
Muito curiosos para assistir.
E eu muito ansioso de saber como é que irão reagir também a esta experiência, mas aquilo que eu acho que vão sentir e esperar é uma experiência única em Portugal. E eu quero mesmo que o público sinta isso, que seja transportado para esta história. Vai sentir muitas coisas ao longo do espetáculo, porque é um processo que infelizmente prescreveu. Passamos por esta fase toda do processo, são muitos anos e o público vai poder se emocionar, vai poder rir e, sobretudo, vai poder circular livremente e escolher a narrativa que quer ouvir desta história. E é só aparecer.
Está feito o convite, Simão Biernat, Tânia Pereirinha, muito obrigada por terem estado conosco esta manhã.
Obrigado.
O Podcast Plus do Observador: "Caça ao Estripador de Lisboa" é agora uma peça de teatro imersivo. Estreia na próxima quinta-feira, na Comunidade Hindu de Portugal, em Lisboa. Os bilhetes estão à venda em fevr.pt.