Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Como dizíamos há pouco nas notícias, Portugal continental está em onda de calor. É uma cúpula de calor, não é?

É uma cúpula de calor em toda a Europa, afeta também Portugal continental, mas afeta sobretudo outros países do centro da Europa, tendo em conta também que, de alguma forma, estamos habituados a algumas temperaturas mais elevadas, não necessariamente nesta altura de maio, mas há temperaturas perto dos 40 °C em países como França ou Reino Unido, e podem mesmo bater-se recordes. Para nos ajudar a perceber um pouco daquilo que se está a passar pela Europa Ocidental, e não só em Portugal, mas sobretudo nesses países mais da Europa Central, temos connosco o Nuno Miguel Miranda.

Jorge Miguel Miranda. Podíamos estar aqui a antecipar um "E o Resto é Ciência".

Exato. Que se junta a nós aqui. Muito obrigado por se juntar a nós para nos ajudar a perceber exatamente o que é esta cúpula de calor, o que se está a passar com o calor aqui na Europa.

Bom dia a todos. Nós estamos, como sabem, no fim do mês de maio, chegamos ao mês de junho e estamos a ter uma situação que está um pouco mais quente, ou seja, está mais próxima dos valores do mês de junho que do mês de maio. Mas nós temos que ver isto com proporção. Para lhe dar uma ideia, por exemplo, da zona de Lisboa, que é onde me encontro e penso que vocês também.

Sim.

A temperatura dita normal para o mês de maio tem o máximo histórico de 35 °C, em 1974, mas a temperatura para o máximo histórico do mês de junho é 41,5 °C. Portanto, nós estamos somewhere in between. Para lhe dizer que estamos numa situação de onda de calor. Sendo a primeira onda de calor, normalmente o impacto não é expectável, ou seja, muito grande, mas será algum. Agora, o que é completamente inaceitável, são as notícias que eu vi da morte de uma criança em Espanha por ter estado não sei quantas horas dentro de um carro fechado. Não há justificação para isso. Nos países do norte da Europa, também estão a ter valores mais elevados do que o normal. Estamos a falar de mais ou menos 10 °C acima do que é normal, mas isso acontece de vez em quando. Não é uma coisa completamente sem comparação. Só que são países que estão num processo ainda de se adaptarem ao aumento da temperatura de uma forma ainda incompleta, ou seja, a cobertura dos edifícios com ar condicionado ou isolamento para o calor, não é exatamente o mesmo que o isolamento para o frio. E, portanto, o que se passa é que existem situações que vão ter que ter mais medidas de adaptação, em particular nos países do norte. Está na comunicação social dito repetidamente que a Europa é o continente que está a aquecer mais depressa.

E depois há essa questão de que, apesar de tudo, esses países de que falava não estão tão habituados como nós a temperaturas mais altas. Nós acabamos de ficar aqui um pouco mais habituados, de quando em vez, lá temos aqui estes dias, alguma semana, com temperaturas de 40 °C, esses países, apesar de tudo, não estão tão habituados.

Não estão preparados para isso. É normal que não estejam, porque têm um histórico muito mais reduzido que nós de temperaturas elevadas. Agora, temos que ter em atenção que nós estamos num processo de aquecimento. Existe uma previsão que é bastante dura em relação ao que vai ser o El Niño este ano.

E isso pode levar a temperaturas ainda mais elevadas?

Isso pode levar a temperaturas ainda mais elevadas.

Ou seja, tudo isso está relacionado também com o aquecimento global que vivemos?

Isto está relacionado com o aquecimento global, no sentido que nós temos um aumento de temperatura que é razoavelmente constante. Não estamos aqui num salto. Só que essa tendência de subida está-se a sobrepor a uma oscilação global, que é conhecida pelo nome de El Niño, que é observado muito facilmente no Pacífico, é conhecido há muito tempo, aliás, há séculos. Só que a sobreposição desta oscilação ao aumento persistente da temperatura, dá as situações como as que estamos a viver agora.

E isso, o que pode significar também para o nosso verão? Ou seja, aquele momento que estamos a viver agora e aquilo que se pode esperar para as próximas semanas, o que nos pode dizer em relação àquilo que vai ser o nosso verão, nomeadamente aqui em Portugal?

A influência do El Niño durante o verão pode não ser muito significativa, porque o pico dele será no outono. Até ao fim do ano. É o El Niño, daí o nome El Niño, Natal. Agora, o que é verdade é que a expectativa é que este ano os valores sejam mais grandes que o ano anterior, mas isso é evidente que quando não se diminuírem os gases efeito estufa, não pode haver nenhuma redução significativa esse verão.

O ano passado já foi um ano especialmente quente, também com alguns períodos de maior intensidade de calor e que até provocaram alguns momentos de picos de incêndios. É de esperar que este ano seja mais ou menos a mesma coisa, com alguns picos de calor ao longo do verão um pouco mais intenso?

É assim, normalmente, o efeito sobre a vegetação, sobre as culturas e sobre os incêndios também, é cumulativo. Normalmente, não temos o efeito imediatamente, mas depois de três, quatro ciclos deste aquecimento, começa a sentir-se, obviamente, na vegetação, uma secura enorme e uma grande capacidade de deflagração de incêndios. Claro que eu, como todos nós, espero que haja alguma calma e que isto não seja verdade.

Mas tendo em conta também aquilo que choveu, e já nem estou a falar das tempestades e da matéria combustível, mas aquilo que choveu neste inverno e também as chuvas que aconteceram agora no fim de abril, início de maio, têm também alguma influência naquilo que pode ser a projeção do que poderemos esperar da época de incêndios?

Aumentam claramente os fatores de risco. Os fatores de risco este ano, aliás, penso que todos os especialistas da área e os responsáveis políticos têm repetido à exaustão que vamos ter um ano muito complexo. E, portanto, isto vai ter que ser mitigado por um efeito combinado de ainda fazer algum esforço de retirada do material combustível do terreno e uma enorme atenção para que os incêndios que se iniciem sejam rapidamente debelados.

Jorge Miguel Miranda, muito obrigado por ter estado em direto connosco, a ajudar-nos a olhar para o que podem ser as previsões dos próximos dias, semanas, e este calor que vai sendo muito intenso em Portugal e também na Europa. Muito obrigado.

Bom dia, muito obrigada.

Obrigado a todos.